A CAPELA DOURADA DO RECIFE

                                          Universidade Federal de Pernambuco

                                             Departamento de História – CFCH

                                       Disciplina: Tópicos Especiais do Nordeste

                                                Docente: Severino Vicente da silva

                                         Discente: Manoela Cirino dos Santos

                                                 CAPELA DOURADA:

                Um símbolo histórico, artístico e educacional da cidade do Recife

Recife, 2019

Resumo: A partir de uma visão artística, histórica e educacional, o artigo a seguir tem como proposta uma análise sobre a Capela Dourada, ou Capela dos Noviços, pertencente a Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis. Busca-se uma maior e melhor compreensão acerca da importância que esse monumento, construído no final do século XVII e somente finalizado no século XIX, possui para a sociedade recifense.

Palavras -chave: Capela Dourada, franciscanos, Recife, arte

Resumè: Dans une perspective artistique, historique et pédagogique, l’article suivant propose une analyse de la chapelle en or, ou chapelle du novice, appartenant au vénérable troisième ordre de saint François d’Assise. On cherche à mieux comprendre l’importance que revêt ce monument, construit à la fin du XVIIe siècle et achevé au XIXe siècle, pour la société de Recife.

Mots-clès: Chapelle Dorée, Franciscains, Récif, Art

             Introdução:

O presente artigo tem como objetivo discorrer sobre a arte barroca pernambucana, com enfoque na Capela Dourada, ou Capela dos Noviços, construída pela Ordem Terceira de São Francisco, na cidade do Recife, no bairro de Santo Antônio. Este trabalho, encontra-se dividido em três tópicos: chegada dos franciscanos a Pernambuco e suas construções; aspectos da Capela Dourada e as principais características da arte barroca local; e por fim, como esse monumento histórico pode não apenas ser preservado ou estudado, mas ainda, utilizado como uma forma de compreensão histórica e social.

 Sua construção se deu já no final do século XVII, e foi somente após um longo período de luta que esta se tornou possível. Sendo um prédio pertencente a Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, esse monumento encontrou-se no meio de uma guerra entre nobres e ricos mercadores [1]que lutavam para poder dar a sua determinada vila, o poder e o prestígio de ser a capital de uma das capitanias mais prósperas do território ultramarino português.

A história desta Capela, embora tenha sido construída na cidade do Recife, começa ainda no século XVI, com a chegada da Ordem Terceira de São Francisco a vila de Olinda, que então era a capital de Pernambuco. É nesse momento que vai ocorrer a criação do primeiro convento franciscano em terras brasileiras, além da primeira formação de uma Ordem brasileira a partir da adesão do seu primeiro membro: Dona Maria Rosa. Esse, acaba por se tornar o pontapé inicial para a criação de um dos santuários que viria a se tornar uma das referências nacionais para os estudiosos do barroco brasileiro.

Nesse quesito artístico, é importante que se seja avaliado o quão pouco se conhece acerca dos artistas pernambucanos[2], e portanto, a importância que se faz dos estudos deste. E é esse, um dos pontos que se pretende abordar neste presente artigo, a partir de uma visão mais educacional.

É a partir dessa perspectiva que esse templo também acaba se mostrando como um importante meio para que a população local seja capaz de possuir um maior conhecimento, um maior controle, sobre a sua história, e isso se torna possível através da educação patrimonial. Esse mecanismo[3] torna possível que o cidadão possua uma maior conexão com o seu passado histórico:

“Trata-se de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo. A partir da experiência e do contato direto com as evidências e manifestações da cultura , em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho da Educação Patrimonial busca levar as crianças e adultos a um processo ativo de conhecimento, apropriação e valorização de sua herança cultural, capacitando-os para um melhor usufruto destes bens, e propiciando a geração e a produção de novos conhecimentos, num processo contínuo de criação cultural.” (HORTA, GRUNBERG, MONTEIRO, nd: 4)

Todos esses aspectos, serão os componentes essenciais para uma melhor compreensão não apenas de um sentido histórico, ou artístico, ou educacional desta Capela, mas da sua importância enquanto símbolo de uma sociedade que é resultado de um processo histórico colonial.

  1. Chegada da Ordem Terceira de São Francisco:

Foi no dia 1 de janeiro de 1585, que os franciscanos aportaram na Capitania de Pernambuco, foi na vila de Olinda que se foi construída a primeira edificação dessa Ordem. Foi a partir de um requerimento realizado por D. Maria Rosa, viúva e membro da alta sociedade pernambucana, e do então governador da Capitania de Pernambuco, Jorge de Albuquerque Coelho, que os franciscanos receberam autorização real para a sua vinda. É importante destacar aqui a importância que D. Maria Rosa possui para a história dos franciscanos no Brasil, visto que, foi a primeira a receber esse título. Foi ela também, a responsável por mandar erguer uma das primeiras, senão a primeira igreja da Ordem.

É a partir da perseverança dessa viúva que o estabelecimento dos franciscanos se torna possível. Tendo chegado a Pernambuco após dois meses de turbulentas viagens[4], o padre Frei Melchior de Santa Catarina e mais seis membros da Ordem chegaram a vila de Olinda, mas foi somente a partir de uma doação de terras partindo da rica viúva, que foi possível a construção do primeira edificação. D. Maria, antes mesmo da chegada desses católicos, já se encontrava reunida com outras mulheres da elite pernambucana para dar cuidados ao orfanato local, e foi a partir da doação desse orfanato, que era também a capela da Nossa Senhora das Neves, que no dia 27 de setembro de 1585 que o Convento de São Francisco de Olinda foi erguido.

Aqui é importante destacar que, os franciscanos já estavam em terras pernambucanas antes do ano da construção do convento, no entanto, encontravam-se hospedados na Capela de São Roque, que havia sido fundada ainda no governo de Duarte Coelho[5]. Já no ano de 1577, esperava-se que o rei permitisse a construção de um convento para ordem, no entanto, o requerimento feito pelo Frei Álvaro da Purificação, foi negado pelo rei.

1.2.  Ordem Terceira de São Francisco em Recife:

A instalação da Ordem Terceira de São Francisco na cidade do Recife se deu no ano de 1606, no bairro de Santo Antônio. Foi após terem erguido o convento em Olinda, que os franciscanos decidiram ir até o vilarejo vizinho, que por ser uma cidade portuária, era composta basicamente por pescadores e navegantes, e foi em um terreno da ilha de Antônio de Vaz, doado por um rico fazendeiro chamado Marcos André[6]. Como já nessa época existia uma rivalidade entre os aldeões de Recife e de Olinda, havia uma forte necessidade dos recifenses de que algo pertencente aos franciscanos fosse construído no povoado. E foi no ano de 1606 que essa Ordem mandou erguer “uma casa e uma cruz” (PIO, 1978, 11), naquele local.

Foi durante o período de invasão holandesa que a vila de Olinda perdeu seus status de capital da Capitania de Pernambuco. Sendo incendiada no ano de 1631, os habitantes, em sua maioria membros da elite local, ou seja, senhores de engenho, viram sua vila dizimada e o crescimento do vilarejo de pescadores que ficava ao lado. Foi nesse incêndio que muitos símbolos católicos foram destruídos, desde a Igreja Matriz do Salvador do Mundo, até o convento que havia sido erguido pelos franciscanos no ano de 1585, e com o que não havia sido queimado, acabou servindo de material de construção para outros prédios na cidade portuária.

É interessante aqui pontuar o crescimento e o avanço urbanístico que Recife recebeu dos batavos, recebendo o nome de “Mauritsstad”, em homenagem ao governador Maurício de Nassau, o antigo vilarejo portuário torna-se o centro de atração de diversos homens de negócio. E são esses homens que vão criar uma série de disputas[7]com os membros da elite olindense após a expulsão dos neerlandeses em 1654. E são esses mesmos homens que vão lutar para que ocorra a criação da “Ordem Terceira de São Francisco de Recife”, algo que será prontamente negado por aqueles membros da Ordem de Olinda.[8]

É válido mencionar aqui as consequências da guerra travada contra estes holandeses: canaviais destruídos, Olinda, queimada, aumento dos impostos em decorrência da guerra contra os batavos; secas prolongadas, e ainda a morte de vários escravos em decorrência de doenças epidêmicas[9], todo esse processo se mostrou na falta de lucros, durante um período de cinquenta anos, para os senhores de engenho local. Aliado a isso, encontrava-se a guerra que se estabeleceu contra os ricos comerciantes recifenses.

O cenário político entre Recife e Olinda se encontrava extremamente tenso: de um lado, os recifenses mercantis, que haviam prosperado sob o governo holandês, contrariando a vontade de André Vidal de Negreiros, queriam que seu povoado continuasse como a capital, e gostariam de ter acesso a vida política, além de, no ano de 1710, terem recebido da coroa portuguesa o título de vila[10]. É importante pontuar que, por ter sido fundada pelo primeiro capitão donatário de Pernambuco, Duarte Coelho Pereira, Olinda era vista por seus cidadãos como um modelo político, histórico e social que deveria ser respeitado e, portanto, continuar  como sede da capitania. Esses dois últimos motivos não agradaram em nada os moradores da então capital; e os ânimos entre os habitantes elevou-se tanto, que entre os anos de 1710 e 1711, foi-se travada a Guerra dos Mascates[11].

É nesse contexto caótico que outra disputa entre olindenses e recifenses surge: a criação da Ordem Terceira da cidade do Recife. Como já mostrado, a rivalidade entres essas duas vilas se dava pelos membros da elite olindense e os mercadores de Recife, cada qual lutando pelo desenvolvimento, e pelo poder que isso traria, a sua vila. Por não serem aceitos pela alta sociedade da vila vizinha, e buscando uma “legitimação social” (MARQUES, 2014, 2015, 83), os mercadores recifenses passaram a querer instaurar na vila um ambiente católico. Esse processo não se dava apenas pelo sentido religioso, mas, e principalmente, pela tão almejada legitimação social:

“Cada vez mais prósperos e em busca de legitimação social, os mercadores recifenses tenderam a constituir ricas confrarias religiosas na cidade, que também serviam como e de empréstimos a juros aos agricultores olindenses. No contexto das sociedades do Antigo Regime, ser membro de uma associação religiosa, onde se exercia a  caridade católica, representava prestígio social para esses homens ‘sem qualidade”. (MARQUES, 2014/2015, 83).

É válido mencionar aqui a importância que esse momento de criação de uma Ordem na cidade do Recife teve para a coroa lusitana, pois, após a expulsão dos batavos, a fé católica não estava mais tão popular. Com isso, a Venerável Ordem Terceira de São Francisco é criada, e tem como maioria de seus componentes, esses mercadores. Deve-se destacar que, diferentemente do que aconteceu no século anterior em Olinda, a criação dessa Ordem não se deu pela aprovação do Santo Ofício ou da coroa[12], mas sim, pela vontade de ricos comerciantes da vila de Recife. Uma figura de grande relevância nesse momento é a do Frei Jácome da Purificação, que desempenhou um papel muito importante na defesa dos mercadores recifenses.[13]

  • A Capela Dourada

Sendo fundada na data de 13 de maio de 1696, em um terreno doado pelo Capitão General Caetano de Mello Castro, a Capela Dourada da Venerável Ordem Terceira da Penitência só veio a ser terminada, dezesseis meses depois, em 15 de setembro de 1697. no entanto, só foi aberta ao público no ano de 1724[14], no entanto, sua estética atual só foi finalizada no século posterior, no ano de 1804[15]. A capela é anexada ao Convento e Igreja de Santo Antônio, que começou a ser construída no ano de 1606, a partir de uma doação realizada por Marcos André, um rico comerciante da antiga Ilha dos Navios, onde atualmente fica o bairro de Santo Antônio[16]. Um ponto que deve ainda ser mencionado, é a dualidade na qual esse templo foi construído, afinal, ao mesmo tempo em que os envolvidos em sua edificação foram aceitos na Ordem, a construção dessa Capela também pode ser vista como uma de garantir um perdão celestial para o donatário e sua família, tanto antes quanto depois da morte:

“A Capela Dourada da Ordem Terceira de São Francisco, para citar um caso, reflete o poderio econômico esses potentados, cujos excessos, segundo Fernando Pio, levaram-lhes a tentar “a salvação de suas almas através de donativos pródigos e constantes”. (PIO, Fernando. Imagens, Arte Sacra e outras Histórias, Recife: Museu Franciscano de Arte Sacra, 1977) Os oragos ou capelas eram doados sob determinadas condições: a Igreja cabia rezar missa para o doador e sua família, durante sua vida ou após a morte, e, em compensação, ao dono da capela se impunha a manutenção e o funcionamento dela” (ACIOLI, 2008: 31)

 O responsável pela construção da capela foi o mestre pedreiro Antônio Fernandes de Mattos, natural de Portugal, sai de sua terra natal pobre e encontra em Recife, oportunidades para um crescimento econômico, especialmente após a expulsão dos neerlandeses[17]. Tendo participado ativamente da construção do edifício[18], Mattos construiu a capela com a seguinte estrutura:

“Sob sua orientação foi edificada a capela dos terceiros, que mede 7 metros x 19,5 metros, sendo provida de seis altares/ retábulos, distribuídos três a três nas paredes laterais, os quais, junto com o altar-mor situados no leste litúrgico, ficam separados da nave por grade de jacarandá disposta em “U” de modo a isolar a parte sagrada da capela daquela onde os irmãos terceiros assistiam as celebrações. Na verdade a função desse elemento divisor era a mesma da chancela do presbitério, que podia até servir como mesa de comunhão em cerimônias religiosas. […]. Considerando os altares laterais, no sentido horário de quem acessava a capela pelo arco monumental de comunicação com a igreja conventual, estão as imagens de São Ivo Doutor, Cristo na Coluna e o Senhor dos Passos (ao lado do Evangelho), e N. S. da Soledade, Santa Isabel da Hungria , e São Roque (no lado da epístola). A capela apresenta ainda oito tribunas e o coro alto, que só foi edificado em 1864.” (FILHO; FILHA, 2012: 313, 314).

O processo de construção desta edificação foi iniciado no Capítulo dos Religiosos, que ocorreu na Bahia. Nesse momento, foi-se aprovada, não apenas a aprovação para que as obras fossem iniciadas, mas ainda, ficou estabelecido que os membros do convento de Olinda, deveriam ajudar os franciscanos da Venerável Ordem Terceira, com a doação das terras e ainda com uma doação de dois mil contos de réis.[19] Foi o doador do terreno, o General Mello Castro, o responsável por colocar a primeira pedra da construção do edifício[20].

Sendo considerada uma das maiores expressões do barroco brasileiro, e a principal igreja barroca recifense, a Capela Dourada é feita em ornamentos de ouro velho, além de diversas imagens de artistas que buscaram apresentar a história da Ordem, visto que, muitos dos santos que estão representados na igreja, foram canonizados pela Ordem Terceira dos Franciscanos. Como mencionado, os portões da igreja só foram abertas no ano de 1724, e isso só ocorreu por conta do processo de entalhamento, que foi requerido por Antônio Santiago. [21] Quando se deu a invasão dos holandeses, e com isso, a sua instalação no vilarejo portuário que era o Recife, e, por conseguinte, o período de urbanização no qual esse local foi inserido, um dos aspectos que foram observados pelos invasores foi a falta de elementos artísticos mais elaborados nas construções domésticas produzidas pelos lusitanos.[22] Diferentemente do que ocorria em suas igrejas:

“Realmente, a pintura, a talha, os dourados, a alta marcenaria e tornearia de móveis feitos em jacarandá só ocupavam lugar de realce nas igrejas ou em suas sacristias. Era a arte sacra do primeiro século da colonização.” (ACIOLI, 2008: 26)

Os batavos foram expulsos no ano de 1654 e deixaram como herança a pintura da terra e do povo[23], mas foi após o período de expulsão que as primeiras peças em azulejo chegaram em Pernambuco. Um aspecto que chama atenção é o modo como o movimento artístico se constituiu após a expulsão dos holandeses, e como isso resultou em um dos aspectos estéticos que mais chamam a atenção dentro deste santuário: os azulejos portugueses. A chegada dessas peças se deu após a expulsão dos holandeses, que como visto anteriormente, não deixaram uma grande herança artística. Essas cerâmicas encontram-se espalhadas através de todo o edifício, e suas datações vão até o século XVIII.

2.2. Barroco:

O movimento artístico conhecido como Barroco surgiu na Europa, no século XVII, logo após o período de decadência da Era Renascentista, assim como o advento da Reforma Protestante, e da Contra Reforma. Esses acontecimentos foram essenciais para moldar o pensamento do do indivíduo do século consecutivo. O objetivo do barroco é romper com os ideais que eram propagados pela escola anterior, ou seja, se antes a ciência, a razão, estava no centro, nesse momento, o homem dos 1600 permite que seus sentimentos aflorem através da arte. Era permitido agora, entregar-se aos extremos, observa-se nesse período uma maior permissão para se pudesse desfrutar do “luxo/prazer” (CHIAMPI, 1998: 3). No que se refere às características gerais desse tipo artístico, pode ser descrita como:

“[…] as obras barrocas romperam o equilíbrio entre o sentimento e a razão ou entre a arte e a ciência, que os artistas renascentistas procuram realizar de forma muito consciente; na arte barroca, predominam as emoções e não o racionalismo da arte renascentista.” ( PROENÇA, 2002: 103)

E é esse estilo que irá predominar nas igrejas recifenses que foram construídas entre os séculos XVII e XVIII, especialmente na Capela Dourada, que como já afirmado, só veio a ser finalizada no século XIX, que além de apresentar esteticamente esses traços, busca ainda mostrar a força da fé Católica[24], algo que foi bem visto pela coroa, como explicado anteriormente.

No Brasil, o barroco se desenvolveu fortemente a partir do século XVIII, que é o momento em que ocorre o período conhecido por “ciclo do ouro”, em que passou-se a investir na região das Minas. Em Pernambuco, esse movimento se instala como uma forma de demonstrar aos membros da elite mineira que a cidade portuária ainda era possuidora de um grande poderio econômico. É interessante mencionar que foi também nesse momento que a Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba foi instalada[25], órgão de grande valor para o crescimento econômico da capital; além, de como as influências africanas e indígenas influenciaram nesse processo[26].

3. A Capela Dourada como um símbolo do conhecimento histórico da cidade do Recife:

A Capela Dourada, e todo o seu processo de construção, fazem parte da história, tanto em âmbitos locais, quanto em nacionais. Como visto, o seu processo de criação levou quase três séculos para ser terminado, e ao longo desse período, observa-se não apenas esta edificação, mas a fabricação da história do povo recifense. História essa que deve ser não apenas preservada ou ensinada, mas que torne possível uma maior conexão sociedade e a sua história:

 “[…]a criação de mecanismos que promovam a aprendizagem da pessoa em relação aquele bem cultural e suas relações com a identidade da comunidade” (MORAIS, 2019).

É a partir desta perspectiva, que o estudo desses patrimônios devem ser analisado; a educação patrimonial funciona como um dispositivo que permite que o indivíduo, independente da idade, se aproprie[27] daquele monumento. Outro ponto que deve ser abordado nesse momento, é o papel que o professor de história assume diante da explicação do significado que esses monumentos, que esses signos assumem diante do que é e do que não é visto como patrimônio histórico[28].  É necessário a sua compreensão acerca da importância deste símbolo para a construção social[29] na qual está inserida, visto que, particularmente nesta Capela, o seu processo histórico, envolve o que se vê como a base da sociedade brasileira: indígenas, negros e brancos, e como isso deve ser colocado e problematizado para a sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

A Capela Dourada se mostra como um símbolo da cultura recifense que deve ser preservado, mas também estudado e questionado. O que se pode observar são as múltiplas influências, políticas, sociais e religiosas, para a criação deste templo. Este artigo mostra a história desse monumento, desde a chegada dos primeiros franciscanos, ao momento em que decidem por levantar o primeiro convento desta Ordem, sendo também o primeiro criado no Brasil pertencente a ela.

Abordou-se ainda todo o contexto de brigas na qual estavam inseridos os primeiros membros da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Recife, além da importância econômica, visto que, os membros desta, eram todos pertencentes à elite comerciante recifense. Ainda, o desenvolvimento do barroco brasileiro e do pernambucano, assim como alguns aspectos estéticos da dita capela. Também, como esta deve ser vista e estudada, além de questionar como esses aspectos podem ser abordados, através de uma educação histórica patrimonial.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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PEREIRA, José Neilton. Além das Formas, A Bem dos Rostos: faces mestiças da produção cultural barroca recifense (1701-1789). Tese. (Mestrado em História). – Universidade Federal Rural de Pernambuco. Recife.  2009.

SOUSA, Cristiano Oliveira de. Prestígio, Poder e Hierarquia: A “elite dirigente” da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis de Vila Rica (1751-1804). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal de Juiz de Fora. Juiz de Fora. 2015.

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MARQUES, Maria Eduarda. Homens de Negócio, de fé e de poder político: a Ordem Terceira de São Francisco do Recife, 1695 – 1711. Fundação Joaquim Nabuco./ Editora Massangana: Recife. 2014/2015. (ISBN 978-85-7019-639-2)

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CHIAMPI, Irlemar. Barroco e Modernidade. Editora Perspectiva. FAPESP. 1998. São Paulo. pg. 3.

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[1] MELLO.

[2] ACIOLI, 2008: 27

[3] MORAIS, 2019.

[4] Fernando Pio, 1978: 10

[5] Carvalho, 121.

[6] MARQUES, 2014/2015, 81.

[7] MARQUES, 2014/ 2015, 83.

[8] As razões que levaram a esse processo de negação está no fato de que, para se tornar um membro da Ordem Terceira de São Francisco, era necessário cumprir com determinados pré-requisitos, tais quais:

 “pureza de sangue, boa conduta, status financeiro, idade produtiva, profissão reconhecida e exclusividade de filiação a esta Ordem Terceira” (RUSSEL-WOOD, 1989: 67, IN: FILHO; FILHA, 2012: 308).

O que leva a crer que, não apenas a disputa entre os habitantes das duas vilas estava envolvida nessa recusa, mas também o não cumprimento do primeiro requisito, visto que, os moradores de Recife haviam conseguido suas ascensão social através do comércio, enquanto que, em Olinda, havia toda a questão da linhagem sanguínea. Nesse momento, o conceito de “defeito de sangue”, será fortemente trabalhado.

[9] ACIOLI, 2008: 26

[10] PIRES, 2013, 130.

[11] Idem.

[12] SOUZA, 2015: 61.

[13] MARQUES; nd: 85

[14] PIO, 1978: 17

[15] BELO 2013 :132

[16] ACIOLI, 2008: 41

[17] PEREIRA, 2009 :61

[18] FILHO, FILHA, 2012: 313

[19] PIO, 1978: 15

[20]IDEM

[21] ACIOLI, 2008 :43

[22] IDEM

[23] ACIOLI, 2008: 26

[24] PROENÇA, 2002: 108

[25] IDEM

[26] Ver Pereira, Além das formas, a bem dos rostos: faces mestiças da produção barroca cultural recifense (1701 – 1789): 52 – 57; e ACIOLI, 2008: 25 – 35.  Pereira fala sobre como o contexto no qual Recife estava inserido, além de ter que lidar com a herança de uma religião que não era o catolicismo, existia ainda o cenário de uma cidade que era escravocrata, e que possuía além das três etnias, possuía ainda os “mestiços” destas. E tudo isso pode ser visto especialmente nas construções arquitetônicas desse momento. Observa-se como o autor faz uma análise de como a construção desses prédios contou com essas raças, e como muitas pessoas de cor só foram capazes de obter uma ascensão social por conta das construções dessas edificações. O autor mostra uma dualidade social: ao mesmo tempo em que esse grupo era rejeitado socialmente, eram eles os responsáveis pelas obras religiosas que foram tão importantes para o período. Acioli mostra a importância das igrejas para a cidade do Recife, desde o seus aspecto social e religioso, como casamentos e batizados, até o momento em que separava de acordo com as irmandades, como por exemplo, a que fazia parte da Igreja dos Rosários dos Homens Pretos, e como esses foram os pontapés iniciais para a criação de movimentos artísticos como os folguedos.

[27] HORTA, GRUNBERG, MONTEIRO, nd: 4

[28] TORRES, SCHIAVON, 2015: 520[29] IDEM