CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS (CFCH)

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Semestre 2019,2

HISTÓRIA MODERNA

CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA

CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA

Trabalho para avaliação no curso de História – na disciplina de História Moderna, Universidade Federal de Pernambuco.

Professor: Severino Vicente da  Silva

Alunos: Ana Cibele de Arruda Oliveira

Isabela Dias Albuquerque

Vitória Monalise da Silva

Jânio Mendonça Ferreira     

SUMÁRIO

A TRANSMISSÃO DA CULTURA POPULAR… 4

CARNAVAL NA IDADE MODERNA… 6

A REFORMA CULTURAL DA IDADE MODERNA E SUAS FASES… 9

A PRIMEIRA FASE (1500-1650)… 9

A SEGUNDA FASE (1650-1800)… 11

MUDANÇAS IMPORTANTES NAS ATITUDES POPULARES ENTRE 1500 E 1800…13

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS…  18

A TRANSMISSÃO DA CULTURA POPULAR

Introdução

            A transmissão da cultura popular estava atrelada a cada membro da família, transmitir era quase que obrigatório nas relações familiares de artesãos e camponeses, a sociedade vivia com base no “faça você mesmo”. Na criação dos filhos estava quase que implícita transmissão de cultura ou subcultura de valores.  A vida em uma sociedade pré-industrial era estruturada nos serviços feitos à mão seus instrumentos e móveis feitos de forma artesanal ainda, as mulheres que teciam roupas, as pessoas que estavam doentes eram tratadas em casa. Nas aldeias algumas pessoas desenvolviam à habilidade de contar estórias, tal oralidade forma registradas, como “die Frau Viehmännin”, a viúva de um alfaiate da região de Kassel a mesma teve seu talento escritas pelos irmãos Grim, os quais transcreveram 21 estórias dela. As tradições eram conservadas seja por oralidade ou por registros escritos, nesta introdução procura-se observar quanto aos quadros sociais que desenvolviam esta cultura se eram inovadores ou simplesmente “guardiões” ou “mantenedores” da tradição.  

Os profissionais

            Uma pergunta vem a calhar o que é um artista “popular”? será que depende apenas da formação desta pessoa ou ao público ao qual se dirigiam as suas obras e quando passava a ser admirado por todos não o tornaria popular? Como no Caso de Hooghe (sobrinho do pintor Pieter) de Hoodghe que formado em direito e que suas pinturas se dirigiam às classes altas, o mesmo condecorado pelo rei da Polônia, merecia segundo o autor ser considerado um artista popular pelo fato de suas obras terem alcançado um grande público com sua grande circulação. No mesmo patamar posso citar a família Basset (ativa por volta de 1700 a 1854), mais conhecida porque um de seus membros fez gravuras a favor da revolução francesa. Muitos artistas da época tinham outra profissão antes de se tornarem e alguns tinham propriedade rural que lhes conferiam uma renda por fora, alguns eram pintores, entalhadores e tecelão.

            Sobre os apresentadores, há um pouco a mais a se dizer, esses sucessores dos menestréis eram eles: cantores de baladas, apresentadores de ursos amestrados, bufões, charlatões, palhaços, comediantes, esgrimistas, bobos, prestidigitadores, malabaristas, truões, menestréis, saltimbancos, tocadores, titereiros, curandeiros, dançarinos equilibristas, apresentadores de espetáculos, tira dentes e acrobatas (pois mesmo os tira dentes, operando ao ar livre, cercados de espectadores, eram uma espécie de artistas de rua).  No cume destes apresentadores um pequeno número de profissionais apresentadores que num dado momento poderia ser chamado à corte até para ter alguma obra publicada ex: Gil Vicente, em Lisboa, que era poeta, ator, músico, em outras palavras um jogral um menestrel.

            Nesta época havia um grande número de artistsa itinerantes que viajam sozinhos ou em trupes fazendo apresentações em praças, aldeias e andavam de cidade em cidades muitas vezes não mudavam o seu repertório. o artista ambulante tinha dependendo do local gostava de instrumentos musicais variados, na Espanha o violão era o instrumento preferido[1]. Outros ambulantes individuais eram os apresentadores de teatros de bonecos, como o mestre Pedro, em Dom Quixote.

Os amadores:

            Os amadores eram vistos de forma má, por algumas lentes eram suspeitos de sedição, heresia ou feitiçaria, e apesar disto a atividade de cantar servia como renda complementar e às vezes tinha a participação de uma artista profissional, no sudoeste da Europa, onde as cidades tinham mais importância as peças eram montadas por artesãos urbanos.

Cenários

            Os cenários começavam nos recantos mais íntimos da casa, onde o historiador não poderia adentrar, poderemos imaginar um cenário tradicional, a Igreja, a taverna, nas praças ai eram veiculadas e transmitidas as culturas populares, nas feiras em cada canto da Europa permitisse ter o conhecimento destes artistas propaladores que por meio destes trabalhos criavam uma homogeneidade neste tipo de cultura popular.

Tradição e criatividade

            Uma das questões em análise é a contribuição destes profissionais artesãos e apresentadores profissionais e amadores, qual a contribuição individual será que eram apenas meros contadores de estórias? Reside uma individualidade em cada um na sua forma peculiar de manejar os contos, a música, as danças.

5. Formas Tradicionais

Gêneros

            Os gêneros abordam de forma mais morfológica, onde seu propósito é descrever as convenções formais dos objetos como se apresenta na cultura popular europeia, fornecendo um variado estoque ou repertório das formas e convenções da cultura popular em particular o caso da dança há tantos nomes que mensurá-los seria trabalhoso, mas cito alguns:

            Ocorria uma variação muito grande na escrita das músicas quanto à tradição oral, mas ao mesmo passo exatidão nas notas e até na escrita, a música folclórica da época foi muito difundida pelos mais variados artistas, que se apresentavam na corte, nas ruas, nos mercados etc…

Processo de Composição

            As baladas eram bem analisadas e recheadas por metáforas que ilustrava de forma mais rica a música, Existe uma balada tradicional que conta como o rei da Espanha João de Navarra perdeu a coroa para Fernando o Católico.

CARNAVAL NA IDADE MODERNA

O carnaval e a cultura popular são concepções que estão ligadas.  Na cultura popular européia os festejos são ventos de extrema importância cultural.  Esses festejos podem ser festas privadas, como casamentos ou festas públicas como a festa do santo padroeiro de alguma cidade, e também as festas anuais, como a Páscoa, Natal, Ano Novo e por fim o Carnaval. Nessas circunstâncias específicas o povo deixava o trabalho e os afazeres  de lado, para cair no mal da gula e exagerarem no consumo de bebidas. Antes de adentrar a falar sobre as características do Carnaval durante o período Moderno, deve ser necessário esclarecer as origens do mesmo, origens históricas que remontam a algumas celebrações realizadas por povos distintos da idade Antiga, a exemplo os gregos e romanos. A respeito dos romanos, podemos exemplificar as saturnais, que eram festas/cultos que ocorriam para homenagear o deus da Agricultura. Eram momentos especiais que envolviam celebrações públicas nas ruas. Durante a idade Média, a igreja inseriu o Carnaval ao seu calendário oficial, tornou-se um evento em que antecede a estação litúrgica da Quaresma, evento esse em que as pessoas comemoravam sua liberdade antes dos dias de seriedade e abstenções de alimentos ricos, como carne, laticínios, gordura e açúcar.

Após essa explicação das origens do Carnaval, trataremos de explanar como ocorria esse evento na Idade Moderna, ele ocorria de maneira distinta em toda a Europa. Contudo era mais marcante na região do mediterrâneo europeu, ou seja, na Itália, França e Espanha. Durante outras épocas do ano poderiam ocorrer festas que se assemelhavam ao Carnaval, como por exemplo, a Festa dos Bobos, que acontecia em 28 de dezembro, era marcada por festas de ruas e fartura de comida e bebida, e também de pessoas fantasiadas. As comemorações carnavalescas muitas vezes iniciavam-se no epílogo do mês de Dezembro ou no prelúdio de janeiro e poderiam ser estendidas até próximo do período da Quaresma. Um ponto que vale ressaltar é que, o Carnaval tinha variações de região para região, sendo comemorados de maneiras particulares. Mas de uma maneira geral, a festa tinha como fortes características o consumo excessivo de carne e bebidas alcoólicas. Todos os tipos de ofensas, insultos, xingamentos e zombarias eram abertamente profanados nesse período.

            O historiador inglês Peter Burke, traz alguns exemplos de locais públicos onde ocorriam as comemorações: Place Notre Dame, na cidade de Montpellier (França), e Piazza San Marco, em Veneza (Itália)[2].Nas comemorações um detalhe muito importante eram as fantasias, esses artigos faziam com que as pessoas pudessem interpretar personagens, terem uma dupla identidade. Dessa forma as pessoas poderiam mudar a ordem social, homens vestiam-se de mulher e mulheres de homem. As máscaras eram um acessório bastante utilizado, algumas possuiam narizes enormes, fazendo muitas vezes referência ao falo. Uns dos personagens mais representados nas ruas eram: padre, diabo e animais selvagens, sobretudo de ursos. Membros das altas classes organizavam e concentravam-se nas praças das cidades nos últimos dias de Carnaval alguns clubes, como a Abbaye des Cornards, de Roun, na França, ou a Compagnie della Calza, de Veneza, na Itália. Esse tipo de clube organizava apresentações públicas, onde existiam três elementos de composição: desfile com carros alegóricos, apresentação de peças e competições populares. As brincadeiras  e gozações eram bem comuns, todo o tipo e zombaria era realizado. Uma das maneiras de zombarias mais emblemática e destacada pelos estudiosos é o Charivari. Esse é o nome que se dava a um ritual de justiça popular, que poderia ocorrer em outras épocas do ano, contudo era mais presente nesse período carnavalesco, pois nesse período eram mais comuns os insultos. Esse costume era realizado em diversos lugares de toda a Europa, podendo haver diferenças na execução dependendo da região em que ocorria. Em sua forma mais recorrente, executavam uma canção de difamação, que era cantada sob a janela da residência da pessoa que estivesse sido zombada. A vítima do Charivari também era obrigada montar de costas em um burro e desfilar pela cidade. Pessoas envolvidas em situações que eram consideradas incomuns ou atípicas. O objetivo era de humilhar pessoas que iam contra as normas sociais.

[…] moças que trocavam um rapaz da comunidade por um estrangeiro; moças de vida desregrada; noivas que se casavam grávidas usando o véu ou outras insígnias de virgindade; rapazes que se entregavam às viúvas; mulheres declaradas adúlteras, moças envolvidas com homens casados; maridos enganados pela esposa; maridos excessivamente violentos ou excessivamente fracos — sobretudo aqueles surrados pela mulher.[3]

Essa prática de difamação está ancorada desde a antiguidade e é difundida no Mediterrâneo. Ela não apenas se concentrou nas questões do casamento, mas também se voltou contra as autoridades e indivíduos acusados ​​de peculato – como os hereges. Os primeiros relatos conhecidos dos Charivari remontam ao século IX e às regiões dominadas pelos bizantinos. Em alguns casos, Charivari também estava vinculado a mecanismos legais em certas cidades e, portanto, era usado como punição ou como parte de uma punição. Um exemplo claro disso é que ladrões, em certas partes da Europa, eram carregados em um burro para os locais de execução nas costas – como acontecia no carnaval dos tempos modernos.

Havia três temas principais no Carnaval, reais e simbólicos: comida, sexo e violência. A comida era o mais evidente. Foi a carne que compôs a palavra Carnaval. O maciço consumo de carne de porco, de vaca e outras ocorriam de fato e era representado simbolicamente. O “Carnaval” pendurava frangos e coelhos nos seus trajes. Em Nuremberg, Munique e outros lugares, os açougueiros desempenhavam um papel importante nos rituais, dançando, correndo pelas ruas ou mergulhando algum novato na água. Carne também significava “a carnalidade”. O sexo, como é usual, era mais interessante simbolicamente do que a comida, devido às várias maneiras de se disfarçar, por mais transparentes que esses véus possam ser. O Carnaval era uma época de atividade sexual particularmente intensa, Os casamentos frequentemente se realizavam durante o Carnaval, e os casamentos simulados eram uma forma de brincadeira popular. Nessa época, não só se permitiam como também eram praticamente obrigatórias as cantigas com duplo sentido. O Carnaval não era apenas uma festa de sexo, mas também uma festa de agressão, destruição, profanação. De fato, talvez seja de se pensar no sexo como o meio-termo entre a comida e a violência. A violência, como o sexo, era mais ou menos sublimada em ritual. Nessa ocasião, a agressão verbal era permitida; os mascarados podiam insultar os indivíduos e criticar as autoridades. Era a hora de denunciar o vizinho como cornudo ou saco de pancada da sua mulher. A agressão frequentemente se ritualizava em batalhas simuladas ou partidas de futebol, ou era transferida para objetos que não podiam se defender facilmente, como galos, cachorros, gatos e até mesmo os judeus, que eram atingidos com pedras e lama em sua corrida anual por Roma.

Uma dúvida que surge é, O que representava o Carnaval na Idade Moderna?. No momento, não há registros que expliquem diretamente o que o carnaval significava para as pessoas modernas, mas Peter Burke fornece duas idéias sobre a visão do carnaval com base em uma análise do pensamento e de outros registros daquele período. Nesse sentido, o carnaval foi um período de oposição à Quaresma. O carnaval era um período de exagero, justamente porque a Quaresma era um período de privações marcado pelo jejum e pela abstinência; entendido como representando uma idéia muito comum na Europa atual: “o mundo de cabeça para baixo”. O mundo invertido era uma representação existente na cultura popular européia que lidava com coisas e comportamentos que estavam fora de uma ordem natural. Com essa ideia, homens e animais mudaram de papéis, pais e filhos, estudantes e professores, homens e mulheres e assim por diante.

Peter Burke também afirma que a idéia do mundo perverso estava presente em uma utopia da época conhecida como Cocanha – uma terra mitológica onde não havia trabalho, onde havia muita comida e sexo e era fácil conseguir, Desse ponto de vista, o carnaval era entendido como um toque temporário. Considerando essa relação entre o Carnaval e a Cocanha, Peter Burke explica:

O Carnaval era uma época de comédias, que muitas vezes apresentavam situações invertidas, em que o juiz era posto no tronco ou a mulher triunfava sobre o marido. […] Os tabus cotidianos que coibiam a expressão de impulsos sexuais e agressivos eram substituídos por estímulos a ela. O Carnaval, em suma, era uma época de desordem institucionalizada, um conjunto de rituais de inversão[4].

Mas a liberdade do carnaval e sua imposição do mundo em sua cabeça foram perseguidas por um tempo pela Igreja Católica. Na segunda metade do século XVI, a igreja e algumas autoridades seculares responderam aos festivais folclóricos e aos motins associados a ela, sendo o carnaval uma das celebrações envolvidas. O mencionado Abbaye des Conards, um clube em Rouen, França, que organizou peças teatrais e festas públicas durante o carnaval, foi um dos afetados pela repressão às festas populares. A festa da máscara organizada por esta associação à noite foi proibida por ordem das autoridades francesas. A perseguição aos festivais folclóricos não só ocorreu em Rouen, mas se espalhou por toda a Europa e é considerada pelo historiador  Georges Minois como uma tentativa das autoridades da época de reduzir possíveis conflitos por questões religiosas (a Europa estava no auge das rivalidades religiosas) pelo aumento protestantismo). Além disso, a busca pelo carnaval foi uma reação ao puritanismo, que se estabeleceu após a reforma religiosa em partes da Europa.

A REFORMA CULTURAL DA IDADE MODERNA E SUAS FASES:

A primeira fase (1500-1650):

A reforma da cultura popular, exercida na Idade Moderna pode ser dividida em duas fases. A primeira vai do início do século XVI a meados do século XVII. Uma das principais características desta primeira fase, é que a reforma não era um evento monolítico, pois mudava de região para região. E além do mais, católicos e protestantes nem sempre se opunham às mesmas práticas e nem sempre compartilhavam das mesmas razões. Os reformadores, além de repreender inúmeros itens da cultura popular da época como: atores, baladas, touradas, danças e contos folclóricos, tinham aversão a certas formas de religião popular, tais como peças de milagre, sermões populares e festas religiosas. Para Erasmo de Roterdã e tanto outros reformadores da primeira fase, o que havia de errado  na cultura popular, era que esta cultura era cheia de coisas mundanas, hábitos não cristãos. Tanto a Igreja Católica, quanto a Igreja Protestante repreendiam certas tradições populares cristãs. O sermão popular era um exemplo disso: pregadores que contorciam o rosto e gritavam eram mal vistos. Outro exemplo a ser citado era a peça religiosa. Reformadores protestantes iam ainda mais longe e criticavam diversas outras práticas de autoria da Igreja Católica. Eles viam práticas como o culto da Virgem Maria e a veneração a diversos santos como fruto de culturas pagãs e pré-cristãs. Além disso, o catolicismo era visto como uma religião mágica. Definindo mais uma vez de maneira geral, os reformadores tentavam constantemente separar o sagrado do profano. Outra grande objeção à cultura popular era a questão da moral. Festas carregadas de embriaguez, gula e luxúria eram consideradas ocasiões de pecado e submissão ao Demônio. Festa era sinônimo de indecência e violência, e um convite à fornicação. Além do mais, falando moralmente, as recreações populares não passavam de vaidades que desagradaram a Deus. Era um período de conflito entre dois modos de vida: duas éticas disputavam entre si. Segundo Burke (1976, p.176), essas duas éticas eram a tradicional, difícil de ser compreendida, e a dos reformadores, baseada na decência, na modéstia, na sobriedade e na razão.

A reforma não se apresentava só no lado ocidental do continente europeu, os países do Oriente tinham suas cotas de reformadores. Concílios como o de Stoglav, na Rússia, condenavam certas festividades “mundanas” que aconteciam em dias santos. Essas festividades eram consideradas diabólicas. Situações como essa se repetiam por todo o lado oriental da Europa. Até mesmo os relatos dos reformadores eram parecidos. Assim como no lado ocidental, no Oriente os reformadores católicos eram menos hostis e radicais em suas repressões do que os reformadores protestantes. Sobretudo no contexto religioso. Como foi dito anteriormente, os reformadores protestantes eram contra muitos costumes da Igreja Católica. Dentro da Igreja, os reformadores católicos queriam diminuir a quantidade de dias santos e aumentar a imagem de moral que o clero deveria transmitir, a intenção era retirar da tradição popular católica, os excessos e deixar apenas o essencial.

Como já é de se saber, os reformadores protestantes eram mais rígidos do que os católicos, mas é errado generalizá-los. Os grupos mais radicais eram os calvinistas e os zwinglianos. Os luteranos eram mais tolerantes, sobretudo a pessoa do próprio Martinho Lutero. Os calvinistas eram extremamente severos em relação aos excessos da cultura popular. Na Holanda, por exemplo, eles organizaram os sínodos com o de Edam (1586), e o de Docum (1591), para proibir o uso de instrumentos religiosos em fins festivos mundanos.  Já os zwinglianos retiraram as imagens de diversas igrejas pela Europa. Lutero e seus reformadores não eram tão radicais com as tradições populares. Lutero também não via problema em algumas das tradições católicas que os outros reformadores tanto condenavam.

Por mais que a repressão da Igreja Católica em relação à cultura popular fosse considerada menos violenta, alguns dos reformadores católicos eram mais radicais do que protestantes, como no caso de Erasmo de Roterdã. Junto com Savonarola e outros reformadores, Erasmo “lutava” contra o paganismo ancestral presente na cultura popular. Assim como na Igreja Protestante, os católicos organizavam sínodos e também concílios paroquiais na Europa. A intenção era implantar localmente os decretos de Trento. A partir da década de 1560, eventos com o esse ficaram mais comuns. Um exemplo é o Índex português do ano de 1624, o qual proibiu a divulgação de algumas obras religiosas de cunho popular e certas orações que mais pareciam pedidos de vingança. A década de 1560 também é marcada pela organização do movimento reformista por parte dos católicos. Podemos citar dois grandes nomes desse período: Carlos Borromeu, arcebispo de Milão e Carlo Bascapé, arcebispo de Novara. Tanto eles quanto outros reformadores instituíam que o clero deveria ser uma instituição séria e modéstia. Ambos eram inimigos da cultura popular. Podemos falar agora um pouco sobre como foi a primeira fase da reforma na Península Ibérica, sobretudo no domínio espanhol. Na Espanha, os reformadores católicos, juntamente com o governo se mobilizaram contra a cultura popular, incluindo a religiosa. As peças religiosas, por exemplo, eram consideradas inúteis e depravadas, corrompiam as boas pessoas. Ainda na Espanha, podemos citar a Rebelião Mourisca de Aupufarras, a qual representava uma tentativa de conter a reforma por parte dos cidadãos.

Nesta primeira fase da reforma, os reformadores venciam a maior parte dos embates, o resultado disso foi o desaparecimento de vários costumes populares. Esta fase é marcada pela liderança do clero e dos protestantes.

Em outras palavras, a reforma da cultura popular era mais do que apenas um outro episódio na longa guerra entre os devotos e os não devotos, mas acompanhava uma importante alteração na mentalidade ou sensibilidade religiosa” (BURKE, 1976, p.165).

A segunda fase (1650-1800):

A segunda fase da reforma já se inicia com a cultura popular começando a ceder a pressão dos religiosos. Segundo Peter Burke (1976, p.181) , é bastante difícil falar de forma exata como o povo se adaptou às mudanças instituídas pelos reformadores e com qual velocidade isto aconteceu, pois os dados variam de região para região. Esta segunda fase é marcada principalmente pelo fato de a reforma passar por uma reforma. Isso no sentido geral, ou seja, tanto por parte católica como também por parte protestante. Outro fator importante desta fase da reforma é a aparição de grupos leigos de reformadores. Como já foi visto anteriormente, uma das principais características da primeira fase da reforma é o domínio do clero católico e dos líderes das igrejas protestantes.

Na região francesa do Languedoc-Roussillon, começou a se destacar dois bispos reformadores em fins do século XVII. Estes eram Nicholas Pavillon, bispo de Alet e François-Étienne Caulet, bispo de Pamiers. Estes dois bispos eram contra danças indecentes, adivinhos e, sobretudo a falta de conhecimento sobre a religião. Para eles, o Languedoc precisava de uma séria transformação em seus costumes. Eles até proibiam o clero local  de frequentar qualquer tipo de evento da cultura popular. A pedido de Caulet, Bartholomé Amilha escreve Quadro da vida de um cristão perfeito em 1673. Em seus versos há uma urgência em avisar que as pessoas devem tomar cuidado com os costumes mundanos, como jogos, danças e magia. Este é só um exemplo sobre o trabalho de Pavillon e Caulet. Porém seus esforços pouco resultado trouxeram, pois, mesmo após décadas os costumes pagãos teimavam em existir. Uma coisa interessante de se perceber nessa segunda fase da reforma, é que ela ia além do combate Carnaval x Quaresma. Os reformadores iam além das leis sagradas da Igreja. Grandes mudanças aconteceram no pensar dos reformadores católicos, sobretudo em relação às imagens, e também há tratados sobre o tema, como o de Johannes Molanus, ainda da primeira fase. Molanus escreve que os católicos devem evitar o uso de superstições para com as imagens. Outro fator que era constantemente relacionado com as imagens era a quantidade de títulos diferentes que uma mesma imagem recebia, como no caso da Virgem Maria. Este fato dava a impressão de que existia mais de um mesmo santo. Os reformadores da segunda fase criticavam tal costume.

Falando um pouco dos reformadores protestantes da segunda fase da reforma, podemos dizer que eles encontravam bastantes dificuldades em regiões como a Grã Bretanha e a Escandinávia. Mesmo depois do início do século XVIII, os reformadores protestantes encontravam muitas dificuldades no País de Gales. O maior problema para eles era a persistência em que as pessoas tinham em manter as tradições católicas e, sobretudo os populares. Um dos reformadores de maior destaque no País de Gales é Griffith Jones. Jones é famoso pelos seus projetos de alfabetização em Gales. Em suas escolas rurais, ele instruía as pessoas dentro da religião cristã, com leituras da bíblia, sermões e hinos. Jones também não tolerava divertimentos populares como as procissões dos dias santos, as rinhas de galo, as vigílias e as Feiras festivas. Outro grande reformador protestante galês era o metodista Howell Haris, o qual era um grande inimigo das brincadeiras com animais. Ainda assim, mesmo com toda a persistência dos galeses em continuar nos velhos costumes, os esforços dos reformadores protestantes não foi de todo em vão. Contos e músicas folclóricas foram aos poucos sendo substituídas por hinos religiosos e sermões. O mesmo acontecia na Escandinávia, sobretudo na Noruega. Nas regiões montanhosas, os reformadores protestantes não só encontravam a cultura católica como também vestígios de crenças pagãs. Nas portas de algumas casas, ainda se podiam ver crucifixos. Como já foi visto anteriormente, na segunda fase da reforma se destaca o papel de grupos leigos. O movimento leigo predominou principalmente na Grã Bretanha e na região da Escandinávia. Na Inglaterra, por exemplo, até o rei Guilherme II apoiava os leigos dentro da reforma.

Pode se elaborar um paralelo comparativo entre a primeira e a segunda fase da reforma. O uso consciente de alguns argumentos seculares e estéticos pode ser um exemplo disso. Outro fator interessante, é como o sobrenatural é visto em cada fase. Para os reformadores da primeira fase, a magia era algo forte e diabólico, portanto deveria ser detida. Essa fase é o ápice da caça às bruxas. Já os reformadores da segunda fase não davam muita importância a questão da feitiçaria. As mudanças em relação a esses pensamentos não fora de todo, linear, ou seja, variava de região para região. Na medida em que o processo da segunda fase ia se aprofundando, a “agonia” contra as bruxas ia declinando, mas não acabando por completa, como bem se sabe. Na segunda fase da reforma, um pouco mais do que a primeira, a cultura popular de alguns países, como a Espanha, por exemplo, foi afetada. Touradas e peças teatrais começaram a desaparecer, mas, no fim das reformas, alguns hábitos voltaram com força total.

As alternativas de divertimentos criadas pela Igreja:

A Fim de ter êxito em seu trabalho de atrair devotos, os reformadores, tanto católicos quanto protestantes, ofereceram ao povo alternativas às tradições mundanas. Aqui falaremos tanto das sugestões protestantes, quanto das católicas. Começaremos pelos protestantes.

A principal prioridade dos protestantes era facilitar a acessibilidade das pessoas à Bíblia. Em 1522, Lutero publicou o Novo Testamento em alemão, e a Bíblia completa em 1534. Logo essa prática de tornar a Bíblia acessível se espalhou por toda a Europa protestante. Lutero também, a fim de atrair a atenção dos jovens, publicou uma coletânea de hinos, cuja intenção era afastar os jovens das baladas. No geral, os salmos também passaram a ser cantados. Ao entoar salmos, os protestantes se sentiam como soldados numa guerra contra a idolatria. Também foi criado o catecismo, um livrinho que explicava a doutrina da Igreja. Os mais destacados são o Pequeno catecismo de Lutero e o catecismo de Heidelberg. Assim como os salmos, as músicas eram muito importantes, pois afastavam os religiosos de canções mundanas. Porém para os calvinistas, apenas os salmos deveriam ser cantados. Agora passaremos à Igreja Católica.

Os reformadores católicos não foram tão afundo em modificações como os protestantes. Sua doutrina visava mais uma adaptação. Festas de origem pagã ganhavam novo sentido e se transformavam em dias santos, como no caso do Solstício de Inverno, que se adaptou como a comemoração do Natal. A questão de adaptar festividades pagãs vinha desde a Idade Média. Porém na Idade Moderna, os reformadores estavam envoltos em muitas dificuldades, tais como lutar contra protestantes e contra a superstição. É aí que surge a cultura da Contrarreforma, a qual se empenhou principalmente em modificar rituais, textos e imagens. Como já sabemos, diferenciando dos protestantes, os católicos ainda faziam o uso de imagens. A Igreja Católica cultivava uma religião de imagens e não de textos, (eis um motivo de o porquê as nações católicas terem menos alfabetizados do que as protestantes neste período). A fim de agradar aos leigos, a Igreja favoreceu o culto da Sagrada Família. O culto da Eucaristia também foi bastante exaltado, pois era uma maneira de se mostrar superior perante os protestantes. Hinos que vinham sendo usados desde a Idade Média e outros recém-criados também desempenharam papéis importantes. E menos importante, foi a tentativa de alcançar os poucos alfabetizados com textos bíblicos. É aí que surgem os catecismos, os quais eram baseados nos dos protestantes. Destaca-se o de Peter Canisius. Alguns hinos e textos foram muito destacados como a Imitação de Cristo e o Combate Espiritual (1589), porém não tinham a mesma importância para o movimento católico, como tinham os dos protestantes para o movimento protestante.

MUDANÇAS IMPORTANTES NAS ATITUDES POPULARES ENTRE 1500 E 1800.

A cultura popular está intimamente relacionada à seu ambiente, se adaptando a diferentes grupos profissionais e modos regionais de vida, grandes transformações econômicas, sociais e políticas do período tiveram suas consequências para a cultura, uma das transformações mais evidentes na cultura material está na revolução comercial, o campesinato passou a ter mais e melhores objetos matérias, na Inglaterra, um camponês que durante o reinado de Elizabeth  dormia no chão com uma tigela de madeira e duas panelas, vai  possuir no final do século XVI até 4 colchões de penas, colheres e tapetes. O aumento da mobília e utensílios nas casas camponesas desse período ocorreu por duas razões: em algumas regiões, os camponeses mais ricos estavam prosperando e isso se refletia em novos padrões de conforto, a aristocracia camponesa agora tinha condições de comprar objetos que antes, ela mesma fazia.

Uma segunda razão para a transformação da cultura material pode se encontrar na transformação das formas de produção, a medida que crescia o mercado exportador, a especialização regional em certos ofícios artesanais se tornou necessária, a cerâmica passou a ser importante, a indústria de azulejos atingiu o seu auge entre 1600 e 1800, se tornando populares. a expansão do mercado significou uma maior demanda e para atendê-lo o processo de produção foi padronizado, ao longo do século XVIII, os desenhos dos azulejos holandeses foram se simplificando, o objeto artesanal cedeu lugar ao objeto padronizado, feito a máquina e produzido em massa, a revolução comercial destruiu a cultura material local. A expansão do mercado afetou também as apresentações artísticas, antes feitas em feiras abertas, que começam a declinar, porém com o crescimento de grandes cidade são oferecidas outras oportunidades aos artistas,  a Inglaterra do século XVIII passou por uma “comercialização do lazer”, as atividades de lazer começam a ser encaradas como um bom investimento, surgem novos entretenimentos, organizados formalmente, e surge a utilização crescente de anúncios, exibições de poderes, lutadores, corridas de cavalos já eram anunciadas nos jornais em 1720, em 1800 a corrida a cavalos era bastante lucrativa.

O circo foi o caso mais notável de comercialização de cultura popular, remonta a segunda metade do século XVIII, os elementos do circo eram tradicionais, o que havia de novo era o uso de um recinto fechado, ao invés de uma rua ou Praça, e o papel do empresário. Enquanto surgia o lutador profissional na Inglaterra, aparecia o toureiro profissional na Espanha, e um novo tipo de herói popular surgiu no século XVIII: o ídolo esportivo.  As Festas populares na Itália se comercializavam cada vez mais entre 1500 e 1800, é possível observar que nas cidades maiores o processo de transformação social enriqueceu a cultura popular, já no campo o mesmo processo levou a um empobrecimento cultural. O livro impresso foi um grande meio de comercialização da cultura popular, a produção de livros continuou a crescer entre 1500 e 1800, porém a minoria do povo era efetivamente capaz de ler nos inícios da Europa moderna, em 1800 o número era maior que 1500, artesãos de modo geral, eram mais alfabetizados que camponeses, homens mais do que mulheres, protestantes mais que católicos. Houve aumentos notáveis na alfabetização durante 1500 e 1650, esse aumento foi resultado de crescentes facilidades educacionais, que fazia parte do movimento pela reforma da cultura popular, os devotos tinham maior fé na alfabetização, viam ela como um passo na via da salvação.

Na Inglaterra entre 1500 e 1640 houve uma “revolução educacional” incentivada pela fundação de escolas por parte dos religiosos, houve um aumento nas taxas de alfabetização no final de XVIII, devido ao crescimento das escolas dominicais, puritanos estabeleceram escolas em cidades-mercados no País de Gales, sob a “lei para a propagação do evangelho”, os nãos conformistas levaram as “escolas circulantes” ao campo no século XVIII. Os livros eram bem acessíveis e podiam ser facilmente encontrados  a venda, muitas vezes pendurados num cordão na rua, para camponeses o problema da distribuição era maior , mas não insolúvel, os livros e outros materiais impressos como folhetos,  podiam ser comprados nas feiras ou com mascates (vendedores ambulantes) , os livros que os mascates  traziam consigo eram pequenos tinha entre 8 e 32 páginas.  Os livros pequenos eram baratos, impressos em papel de baixa qualidade, encadernadas com papel azul do tipo usado para embrulhar pães doces, a linguagem geralmente era simples, vocabulário relativamente pequeno e as construções não elaboradas.

Em suma, o material impresso era acessível a um grande número de artesãos e camponeses naquele período, a alfabetização embora dê a capacidade de improvisação, retirou parte do incentivo à ele. O que era impresso fazia parte da tradição oral, o uso do material impresso não era uma leitura silenciosa e individual, mas uma leitura em voz alta para vizinhos ou parentes menos letrados começa-se a pensar se a imprensa ao invés de destruir não preservou e até difundiu a cultura popular tradicional, “Quantas baladas os compiladores poderiam registrar partir da “tradição oral” no século XIX, se não existisse os folhetos impressos?”. É possível observar duas transformações graduais, mas relevantes nas atitudes populares, A “secularização” e a “politização”.

A “secularização”:  rejeição da religião, as esperanças e medos que tradicionalmente se expressavam, que será encontrado cada vez mais no político, a  “ politização” da cultura popular: Difusão da consciência política, e o que era política na época? Nos inícios do período moderno eram “assuntos do estado”, não questões locais, mas as preocupações dos governantes, o surgimento da Consciência política seria o conhecimento desses problemas, e suas possíveis soluções envolvendo uma “opinião pública” e uma atitude crítica com relação ao governo, o crescimento da consciência política na Europa ocidental se deu entre a Reforma e a Revolução Francesa, os artesãos e camponeses mostravam o interesse crescente pelas ações dos governos, o envolvimento com a política era maior do que antes.

O jornal integrou a política a vida comum do Povo na Inglaterra século XVIII,  pelo menos nas cidades, com o estímulo da lei de licenciamento 1695, que aboliu a censura prévia, o jornal era acessível ao povo, a situação do foi transformada a partir da Revolução Francesa, as conversas nos cafés giravam em torno da política,  depois de 1789, a cultura popular francesa se tornou politizada, aparecendo jornais populares. Os analfabetos poderiam acompanhar o que acontecia ouvindo os discursos ou leituras, e também olhando as imagens, surgindo assim as estampas políticas, pratos políticos e leques políticos. Na Inglaterra dos anos 1640 e França nos anos 1700 e 90 a Participação Popular no debate político levou ao surgimento de Visões radicais, os Camponeses franceses adquiriam maior consciência política com a revolução. Os jornais faziam saber ao povo que não estavam sozinhos, que outras regiões estavam lutando pelas mesmas causas, diversos Rebeldes tinham notícias um dos outros, os jornais e gravuras políticas se tornaram instituições permanentes e proporcionaram a alguns artesãos acessos a uma educação política mais continuada.

Em 1500 a cultura popular era uma cultura de todos, uma segunda cultura para os instruídos e a única para todos os outros, em 1800 o clero, nobreza e Comerciantes, haviam abandonado a cultura popular as classes baixas, eles estavam separados por diferentes concepções de mundo. “Um sintoma dessa retirada é a modificação do sentido da palavra povo usada maior frequência para designar “todo mundo” ou gente simples”. Para o clero, a retirada fazia parte das reformas católicas e Protestantes, Em 1500, os párocos possuíam nível social e cultural semelhante à dos paroquianos, porém, os reformadores exigiram um clero culto, em áreas Protestantes se tornaram indivíduos com grau universitário, já em áreas católicas, depois do Concílio de Trento, os padres começaram a ser formados nos seminários, o pároco que antes fazia piadas no púlpito foi substituído por um novo estilo de padre, mais educado de status social superior  e mais distante do seu rebanho. Os nobres e a burguesia adotaram um novo estilo de comportamento, modelado por livros de boas maneiras, os livros de dança se multiplicaram e a dança da Corte  se isolou da dança do campo, o nobre aprendeu a falar e a escrever corretamente e a evitar os dialetos usados pelos artesãos e camponeses, essas modificações tinham uma função social:  a medida que declinou o seu papel militar a nobreza precisava justificar seus privilégios , mostrar que se diferenciava dos outros. As classes superiores não estavam rejeitando apenas as festas populares, mas também a concepção de mundo popular. A rivalidade entre médico formado na universidade e o curandeiro não oficial, parece ter adquirido um conteúdo mais intelectual durante a revolução científica,  o termo charlatão e curandeiro adquiriu um tom pejorativo.

Apenas as profecias bíblicas continuaram a ser levadas a sério pelos cultos,  houve uma reforma da Profecia no século XVII, e no final do século XVII,   já se via um menor interesse por profecias e uma maior inclinação a zombarias das mesmas,  enquanto isso os livretos populares Reeditaram  velhas profecias. A crença nas bruxas, antes universal no século XVI e início do XVII, irão ser visto como superstições,  a partir de 1650, os cultos deixaram de acreditar nelas. No início do século XVII, os teatros públicos, onde Shakespeare foi encenado para nobres e aprendizes, não eram mais suficientemente bons para as classes superiores, novos teatros particulares surgiam. Apesar da existência de contatos entre a cultura erudita e a cultura popular, isso não foi o suficiente para impedir que aumentasse o fosso entre elas. Enquanto o fosso entre as duas culturas, se ampliava gradativamente, algumas pessoas cultas a encaravam as canções, crenças e festas populares como exóticas, fascinantes, dignas de coleta e Registro.

Os primeiros compiladores achavam que as baladas e provérbios que publicavam  eram uma tradição que pertencia a todos, não só ao povo comum, Heinrich Bebel em 1508, publicou provérbios alemães, recorrendo a tradição oral. Pioneiros escandinavos dos folcloristas como Bebel não tinham consciência de qualquer divisão entre a cultura popular e erudita, porque a divisão chegou tarde a essas regiões. Em 1650, é possível encontrar pessoas eruditas, na Inglaterra, França e Itália, fazem distinção entre cultura erudita e cultura popular,  rejeitam crenças populares, mas as consideram um objeto de estudo fascinante. Os clérigos eruditos do final do século XVII e  início do século XVIII  viam a cultura popular numa perspectiva semelhante, coletando informações sobre costumes  e superstições, e embora desaprovassem grande parte do que coletavam , ainda continuavam a coletar. Enquanto esses clérigos estudavam a história da religião popular, alguns leigos vinham se interessando pela poesia popular. Os Contos folclóricos, assim como as cantigas populares despertavam o interesse de alguns intelectuais na França do século XVII, os contos de fadas estavam na moda, é como se os cultos começassem precisar de uma válvula de escape  para o universo intelectual em que viviam, era exatamente o não científico, o fantástico que os atraía nos contos de fada folclóricos.

“Quando viajei, senti especial prazer em ouvir as canções  e fábulas que vêm de pai para filho, e são extremamente correntes entre o povo comum  das regiões onde passei; Pois é impossível que algo que  seja universalmente experimentado e aprovado por uma multidão, ainda que seja apenas a ralé de uma nação, não tenha em si alguma aptidão para agradar e satisfazer a mente humana” [5]

Portanto, é esse prazer que irá  se tornar moda  mais tarde no século XVIII , e com ele a ideia de que os valores das pessoas comuns não devem ser rejeitados, esse movimento de valorização da cultura do povo, irá despertar do interesse da cultura popular pelos intelectuais europeus quando essa começava a desaparecer, no final do século XVIII e início do século XIX. Em 1500 desprezavam as pessoas comuns, mas partilhavam a sua Cultura, em 1800, seus descendentes deixaram de participar da cultura popular, mas acabam a redescobrindo  como algo exótico e interessante, Antes disso, estudiosos de antiguidades já tinham descrito costumes populares ou coletado baladas, O que há de novo nesse movimento do século XVIII é, em primeiro lugar, a ênfase no povo, e, em segundo, sua crença de que os “usos, costumes, cerimônias, superstições, baladas, provérbias, etc.” faziam, cada um deles, parte de um todo, expressando o espírito de uma nação. Nesse sentido, a cultura popular foi descoberta ou terá sido inventada?.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BURKE, PETER. Cultura popular na Idade Moderna: Europa, 1500-1800, São Paulo companhia das letras, 1937.

HOBSBAWM, Eric J, A era das revoluções: 1789-1848, São Paulo, editora paz e terra, 1977.

CATENACCI, Vivian. Cultura Popular entre a tradição e a transformação. São Paulo Perspec. Vol.15 no 2. São Paulo Apr./June 2001. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S0102-88392001000200005.


[1] BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.  p. 84

[2] BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.  p. 206

[3]  MACEDO, José Rivair. Charivari e ritual judiciário: a cavalgada infamante na Europa medieval.

[4] Idem, p. 214

[5] BURKE, 1937, P.374