11 jul 2018 @ 11:32 AM 
 

NOS ENTREMEIOS DA PISADA: MANIFESTAÇÕES CULTURAIS NA CIDADE DE LIMOEIRO, O COCO DE RODA DE ZÉ DE TETÉ E REPRESENTAÇÕES NO DISCO “POETAS DA MATA NORTE”.

 

NOS ENTREMEIOS DA PISADA: MANIFESTAÇÕES CULTURAIS NA CIDADE DE LIMOEIRO, O COCO DE RODA DE ZÉ DE TETÉ E REPRESENTAÇÕES NO DISCO “POETAS DA MATA NORTE”.[1]

Emanuel Antunes da Silva Holanda

Graduando em História pela UFPE

emanuel_antunes13@hotmail.com

Resumo:

O presente artigo procura investigar representações sociais da cidade de Limoeiro, no agreste pernambucano, a partir de composições do coco de roda, principalmente do coquista Zé de Teté em álbum gravado no projeto “Poetas da Mata Norte” pela Fábrica Estúdios em 2008, assim como a construção de identidades na cidade do interior do estado, a partir de fatores culturais, religiosos ou políticos.

Palavras-chave: Coco de roda, Limoeiro, Música popular.

Introdução

A hidrografia e o relevo explicam e proporcionam determinados acontecimentos e verdades sobre seus respectivos lugares. Enquanto o Capibaribe corta Limoeiro de ponta a ponta, o Planalto da Borborema ergue-se como protetor mor de todo um povo, sem distinção para com cor ou classe. É nesse fluxo entre fauna e flora que as crenças e manifestações populares tomam forma na cidade.

A lenda já conhecida por grande parcela sobre o nascimento do Limoeiro que conhecemos apresenta suas verdades históricas e estas devemos reconhecer abaixo. Conta à narrativa que onde hoje é Limoeiro residia o padre Ponciano Coelho, enviado para aquela aldeia tupi em missão catequizadora, este acabara por rivalizar com o português Alexandre Moura, e desse modo o território agrestino encarou um duelo luso, político e religioso, entre a aldeia de Limoeiro e a de Poço do Pau, tudo por conta de uma imagem de Nossa Senhora da Apresentação, trazida de Portugal por Alexandre Moura. Entre os homens a virgem viu a formação de uma cidade que por décadas obteve o monopólio econômico da região, que influenciou os arredores com estratégias políticas e modelos governamentais. Vemos Limoeiro passar por mudanças diversas, desde sua emancipação em 1893, que afetam bruscamente o fazer cultural.

As heranças da colonização luso aparecem de palmo em palmo. As edificações religiosas católicas erguem-se em todos os lugares da cidade, desde o Alto de São Sebastião até o término da Pirauira, bairros que presenciaram acontecimentos que até hoje são comentados nas mesas de bares e no vai e vem de pedestres no pátio principal do município, conhecido por Pátio da Feira. Percebe-se semelhanças entre o coco de roda que toma conta das festividades de São João e o fado português, principalmente quando ouvimos a voz do cantador que se alonga no início da canção, sem instrumentação ao fundo, no seco e limpo silêncio que a música pode propiciar, é o cantador que resgata a herança luso, negra e indígena a medida que diz uma frase ou duas, que definem a música ou abrem as portas para rimas inimagináveis.

Não podemos nos remeter aqui a estruturação poética e musical, mas pincelaremos e discutiremos um pouco sobre isso, sabendo o foco do que deve ser dissertado. Uma linha tênue entre religião (lê-se aqui os dois segmentos mais fortes na região: As religiões de matrizes africanas e o catolicismo) e cultura é sempre cruzada e muitas vezes essas se mesclam para formatar as manifestações que viemos a conhecer. Um exemplo prático disso é a festividade do boi bumbá que varre as ruas limoeirenses principalmente no carnaval, onde o branco e o indígena bailam, onde os caboclinhos dançam em volta de um boi ressuscitado, trazido de volta a vida para comprovar o poder do denominado pejorativamente, gentio. Os “bois” desfilam em Limoeiro de acordo com o calendário católico, sempre acompanhando as maiores festas ligadas à religião cristã. Ainda permanecendo conservador até certo ponto na cidade, o catolicismo predomina quando o assunto é “delimitar espaço”. A igreja matriz é um marco territorial na cidade, é ela que interrompe o fluxo de carros em plena avenida, que foi fincada ali para ser via de mão única entre os fieis e não adeptos. É impossível transitar em Limoeiro sem esbarrar com a magnitude da Igreja arquitetada na época de Ponciano.

O espectro de grandes figuras ligadas ao catolicismo é constante no imagético popular da cidade. Ponciano, Luís Checchin (1924 – 2010) e tanto outros figuram como líderes religiosos, e acima de tudo, populares. A figura do bem e do mal está presentes nesses dois representantes maiores, os padres e os coronéis, sendo o principal representante dessa segunda classe, o coronel Chico Heráclito (1885 – 1974)¹. A tradição de colocar o vigário contra o líder político se mantém e renova-se, seja na música, na poesia ou no teatro (É válido destacar que isto faz-se presente no imaginário popular, mas no que condiz a política essas duas figuras caminham juntas e muitas vezes de mãos dadas). As produções artísticas da cidade margeiam esse embate e por consequência lhes apresentam novos significados.

“As obras da natureza”

Outro ponto que caracteriza o município são os períodos de cheia. É sabido que Limoeiro vive de contradições que nem a fé consegue explicar, mas em alguns momentos é a ciência que escancara determinados fatos. Por ter, como dito, o rio Capibaribe rasgando e dividindo a cidade em duas, sempre que o nível do mesmo ganha alguns centímetros a mais, toda a população fica apreensiva. É costumeiro que o rio transborde e por isso mesmo esse fato ganha destaque nas produções e manifestações. A cheia de 1975, que assolou o estado de Pernambuco, foi a de maior impacto no município e costumeiramente é citada nos entremeios populares.

A oralidade é veículo primordial da comunicação local, seja por meio da rádio do município que vigora atualmente, mas que descende de uma tradição de décadas, até o boca a boca também preservado sob manutenções que o tempo exige e delimita. Um local crucial para a existência dessa oralidade forte é o Pátio da Feira (já citado no início do texto). Localizado em um ponto que poderíamos encarar como “rosa dos ventos”, o pátio da Feira (Pátio de Eventos Toinho de Limoeiro ‘personagem esse que abordaremos mais adiante’) encara a Prefeitura da cidade ao lado oeste, o antigo açougue municipal ao lado sul (próximo ao açougue temos uma passagem direta para o rio Capibaribe), o Mercado Municipal ao norte (e entre o Mercado e a Prefeitura a Igreja de Santo Antônio, esta que é ponto final da segunda principal avenida da cidade) e ao leste o prosseguimento da Avenida Matriz. O fluxo de pessoas no Pátio da Feira é bem maior do que ocorre na Praça da Bandeira, outro ponto movimentado do município, e por conta disso é tal pátio o local básico para a ocasião de manifestações culturais e provem deste o cotidiano mais amplo e acessível que podemos ter para observação.

A relação comercial no cujo pátio acontece das mais variadas formas, desde a troca de produtos no início da manhã até a feira que se estende ao entardecer. Se habita o pátio como uma casa. Sua conexão com o Mercado Municipal (Ou Mercado da Farinha) faz com que as pessoas se envolvam entre as barracas alojadas ali como se aquilo tudo fosse um labirinto de conversas e afazeres. Vez ou outra pode-se encontrar um coquista puxando versos, ou um sanfoneiro cantando Luiz Gonzaga. São figuras comuns ao cotidiano limoeirense, e são estas que fazem as duas principais festividades do local, o carnaval e o São João.

Entre fevereiro e junho a cidade fervilha nas diferentes manifestações, faz do início do ano a algazarra que o carnaval exige (e permite) e entra em resignação durante a quaresma, seguindo as demandas religiosas, aguardando a ressurreição de um Cristo que a todos enxerga. Entre Abril e Junho, Antônio, Pedro e João são celebrados diariamente, com as comidas advindas do milho, com as fileiras de fogueiras que crepitam no prelúdio do inverno, e com o som inquietante do coco de roda, filho do pandeiro, do ganzá e do surdo, das palmas, dos círculos e aglomerações, da gente que fala a partir da voz do cantador, que não desafina nem peca na simetria poética. Limoeiro ganha rosto e movimento à medida que seu povo dança e salta no ritmo que desconcentra e revela as origens de uma cultura mística.

“Campo verde bonito”

Da popularmente conhecida por “Serra do Cristo” descem as expressões culturais de Limoeiro. Do Bairro Nossa Senhora de Fátima até os pés da escadaria os caboclinhos, os cirandeiros, os coquistas, todos estão presentes e quando se faz necessário eles caminham como em procissão para o pátio da feira, vão em busca de uma confraternização que tornou-se hábito, e entre estes mestres da produção cultural encontramos um dos conquistas mais reconhecidos em todo o estado. Zé de Teté, aprendiz de Paulo Faustino e filho de Limoeiro, nasceu no dia 20 de julho de 1944, influenciado desde criança pelos grupos de coco da cidade, José Rodrigues da Silva figura como um dos representantes mais conhecidos do município. Cantador e barbeiro, Zé de Teté gravou o disco que vamos abordar mais a frente entre os anos de 2004 e 2005. A obra é uma coletânea presente na série “Poetas da Mata Norte”, tendo por produtor musical o cantor e compositor Siba Veloso. O projeto reuniu vários artistas da região para gravações de ritmos que vão desde a ciranda até o coco aqui estudado (Entre os convidados está o também cidadão limoeirense, João Limoeiro).

Com doze faixas, todas compostas por Zé de Teté, o álbum nos remete a uma visão que predomina nas populações ribeirinhas e nas que habitam a encosta do planalto. Destes lugares advém a poesia do mestre coquista e são eles que celebram a música. A faixa número 3, intitulada “Campo verde bonito” nos encaminha para um problema recorrente da localidade e até mesmo de lugares vizinhos a Limoeiro. A música coloca em questão o êxodo constante para a capital, ao ter como verso a seguinte frase “se passar mais três dias sem chover, vendo tudo que tenho e vou embora…”, e junto a este ponto vem também o fator de Limoeiro ser fronteira entre o Agreste e o Sertão e como o clima é fator crucial para o comercial local. A chuva é tida como miragem, não só nesta composição, mas também na faixa 8, “Canto ruim de morar”. O poeta narra o processo comum dos habitantes da cidade, de colocar o roçado (plantação) e dele cuidar dia após dia, e os desafios que este acarreta a partir que a chuva não vem.

Os roçados são predominantes na cidade, grande parte da estrutura econômica de Limoeiro formou-se graças a essa forma de produção individual, onde o dono da terra pode ou não ser o agricultor, mas que no fim das contas uma parcela da produção e venda fica nas mãos do cultivador. Algodão, milho, feijão e outras monoculturas ganharam força no município e isso aparece constantemente nas composições de Zé de Teté. O fluxo populacional da cidade para os roçados, a vegetação que rodeia a cidade surgindo na canção “Machadeiro Moacir (Faixa 9)” e os desafios que são impostos a cada trabalhador.

A rima que surpreende e acompanha a “pisada” do pandeiro junto ao surdo faz do coco de Zé de Teté obra genuína do seio do agreste pernambucano, e o próprio autor tem consciência disso, pois na faixa 2 (Ai, ai meu Deus) o coquista canta de modo saudosista sua própria música. “Eu não sei o porque é, que Zé de Teté só canta coco pesado” fala o coro que acompanha o cantor, e completa na mesma dose o compositor “Sou respeitado, eu nunca temi valente, brigo, morro, eu mato gente, não sou desmoralizado”. Fascinante como funciona essa interpretação de si, pois é reflexo da interpretação popular de limoeirenses, que levantam a bandeira da cidade e reproduzem esse sentimento de pertencimento e soberania. Uma via de mão dupla, entre compositor e povo que traduz o íntimo de uma visualização de local, de cidade e de ser daquele determinado lugar.

O ritmo e clima de “dono de si” são anteriores a essa música, quando a faixa 1 (Dei um brado na terra) já diz “não bula comigo que eu sou um terror”. Ninguém mexe com o cantador, ninguém interfere o ritmo do coco, porque o coco flui e não existe força que consiga burlar tudo isso. Está presente palavra após palavra da faixa de abertura que possui tom apocalíptico, pois onde o cantador chega os seres se ouriçam, os espaços em branco são preenchidos, e cada coisa muda de lugar. É uma ideia de afirmação que perpetua na ciranda, e nas próprias serestas românticas do também vangloriado Toinho de Limoeiro, que ao cantar “Meu grito” nos bares e clubes transformou a música do município. Uma imagem de Limoeiro ganha forma nas músicas de Zé de Teté aos poucos, não é algo vago, nem simples. Trata-se de ser representante de determinado público, de cantar por estas pessoas e essas pessoas o acatam seja nas palhoças durante o São João, ou no cotidiano, ouvindo e colocando o cantor em lugar especial, em determinado hall de artistas que não condiz com a normalidade.

A faixa 4 (Os Serrotes) cita Zé de Teté em terceira pessoa e descreve uma festa rotineira da população. Trata-se de um mundo idêntico a outro inserido neste mesmo mundo. O cantador esquematiza a canção com certo cuidado e necessidade de detalhes que faz desta uma das melhores poeticamente falando do álbum. A constante mantida pelo pandeiro produz um efeito que pessoa alguma consegue ignorar. Limoeiro é festa e reunião nas músicas de Zé de Teté, assim como também é seca e problemática. Não se delimita a música sobre o que seja ou não a localidade, as definições ocorrem entre os versos e pescamos as mais claras, entre elas a crítica ao sistema político.

A premissa de “Quem viver em Pernambuco, não há de estar enganado: Que, ou há de ser Cavalcanti, ou há de ser cavalgado” predomina na cidade e Zé de Teté coloca essa insatisfação popular e descrença no sistema político em uma canção do álbum, intitulada “Votei tanto que cansei” (Faixa 11). No verso “eu só voto de hoje em diante se Jesus for candidato” traduz todo o clima da canção. A política limoeirense, assim como na maioria das cidades do Agreste, Sertão e Mata norte, é feita por grandes famílias, detentoras de poder agrícola e “prestígio”. A corrida eleitoral não fica fora disso em Limoeiro, que tem o poder concentrado em duas famílias, mas não nos ateremos aos problemas vigentes, pelo contrário, veremos como essa parcela da população encara os acontecimentos. Na poesia gravada na faixa 11 o sentimento de “inutilidade” do eleitor após as eleições predomina e esse discurso é comumente difundido nas ruas do local, onde eleição virou circo, onde não existe mais seriedade no que se faz politicamente, e assim regressamos para o modelo de bem e mal falado no início do texto.

O quesito religioso não desaparece do coco de roda de Zé de Teté, que após mostrar seu domínio sobre a música, dita que o “homem faz uma garrafa, só não faz uma girafa, que é obra da natureza” e assim na faixa 7 (As obras da Natureza) a onipotência e onipresença de um Deus cristão ocupa lugar. Durante toda a canção o autor detalha versos sobre isso, que o homem pode de tudo efetuar, mas o que se é natural, o que foi produzido por Deus em seus sete dias na criação, não pode ser obtido pelo homem em seus meios industriais. Em igual tom na faixa 10 (SOS) Zé de Teté coloca em xeque a “clemência” popular  e mostra como essa submissão a um Deus pode salvar a população de tragédias que assolam o mundo, mas em certos casos a cidade de Limoeiro. Reúnem-se assim vários conceitos e verdades populares na produção musical de Zé de Teté, artista que nasceu neste ambiente e que até hoje permanece, cantando e falando diretamente com a população que representa no coco.

O encerramento do disco apresenta uma participação especial de Paulo Faustino, mestre coquista de Zé de Teté, também limoeirense e cantador fiel as raízes da cidade. Na música “Ta solto no meio do mundo” o professor de José Rodrigues da Silva conta os feitos do aprendiz e mostra que Zé de Teté soltou-se mundo a fora para representar Limoeiro e um grande grupo dos habitantes da cidade. A imagem que é transmitida sobre Limoeiro nas composições demonstra as dificuldades e alegrias da população, mas sem auto-vitimismo ou algo do gênero. Temos o ganzá fazendo seu habitual movimento de leva e trás e a voz sem receios do cantador. O coco de roda cantado por José Rodrigues reafirma a força do nordestino e o coloca como figura incansável, desafiador de preceitos. Canta-se o menino que desce a ladeira para ver o desfile do boi bumbá, o agricultor, a lavadeira, a continuação de um ciclo cultural que vigora em partes específicas da cidade.

Conclusão

Buscou-se nessa explanação uma breve compreensão sobre as representações e óticas de mundo presentes nas composições do coco de roda e como certas narrativas se mantém através dos tempos. Vimos que tanto poetas como Zé de Teté ou outros influenciadores políticos e culturais criam e representam um mesmo lugar de diferentes formas, trejeitos e significados. Os signos do coco de roda são transmutados a cada dia que se passa, assim como o boi que transcorre as ruas de Limoeiro e a ciranda que chega ao fim das festas populares. Compreender estas manifestações como o cotidiano de uma cidade chega a ser de maior validez do que tentar decifrar suas intenções, por hora, enquanto estas só tangem ao livre expressar de indivíduos.

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. 4º Edição, Editora Cortez, 2009.

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A feira dos mitos: A fabricação folclore e da cultura popular (Nordeste 1920 – 1950). 1ª edição, Editora Intermeios, 2013.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? (Who is Cultural History) 2ª edição, Editora Zahar, 2008.

AYALA, Maria Ignez Novais. Os cocos: uma manifestação cultural em três momentos do século XX. Estudos Avançados, Vol 13, Ano 35, 1999. Disponível: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141999000100020.


[1] Trabalho apresentado na disciplina História de Pernambuco, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal de Permabuco. 2018.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 11 jul 2018 @ 11 32 AM

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02 de dezembro de 1870



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