31 jul 2017 @ 7:55 PM 
 

EM BUSCA DA DEMOCRACIA FEMININA NO RECIFE MODERNO: Amélia Beviláqua: Face Literata de Mobilização

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 2017.1

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

EM BUSCA DA DEMOCRACIA FEMININA NO RECIFE MODERNO:

Amélia Beviláqua: Face Literata de Mobilização

FERNANDA YARA DA SILVA

RECIFE

2017

Trabalho de conclusão apresentado como requisito parcial para aprovação da disciplina História de Pernambuco, engloba aspectos pertinentes ao Recife do século XX, como solicitado. Versa pelo lado da luta feminina, de ocupe aos seus espaços de direito- nos mais variados planos, de reconhecimento da sua cidadania, capaz de expandir seu intelecto. O presente trabalho se utiliza ainda da figura literata Amélia Bevilaqua, a qual pode ser traduzida como uma face da mobilização e resistências a discursos de misoginia no Recife.

Palavras-chaves: Amélia Bevilaqua; Recife Moderno; Mobilização Feminina; Face literata.

ABSTRACT

Conclusion paper presented as a partial requirement for approval of the discipline History of Pernambuco encompasses pertinent aspects to Recife of the twentieth century, as requested. Versa on the side of women’s struggle, occupy their spaces of law – in the most varied plans, recognition of their citizenship, able to expand their intellect. The present work is also used of the literary figure Amélia Bevilaqua, which can be translated as a face of the mobilization and resistance to discourses of misogyny in Recife.

Keywords: Amélia Bevilaqua; Modern Recife; Women’s mobilization; Face literate.

INTRODUÇÃO

O Recife do iniciante século XX trazido aqui como moderno remonta a características de renovação tanto no plano intelectual, como cultural e urbanístico, visto que estes entre outros passaram por transformações influenciadas pelo campo ideológico ao qual se pode atribuir os mais variados conceitos externos, incorporados e assimilados por vezes de bom grado pelos brasileiros, e tais quais pelos recifenses- não esquecendo, contudo, do seu apreço pelo regionalismo. A partir do entendimento dessa premissa uma dúvida paira pelo ar questionando a temporalidade principiante do que seria esse Recife moderno e qual o seu alcance.

Decerto tal indagação pode ser parcialmente sanada com respaldo no conceito de coexistência do antigo e do novo, ou seja, mesmo que vistos como opostos ambos podem ocupar o território do outro sem precisão de maiores rivalidades- apesar da política higienista não demonstrar esse caráter permissivo. De todo modo a referida política é uma categoria para além, senão oposta à causalidade encontrada na coexistência sendo, portanto, uma interferência mais “racionalizada” e interessada na segregação entre pobres (mocambos) e ricos (centros). O fato é que o moderno não simboliza no todo apenas avanços e benefícios, mas também desnivelamentos ou ainda falta de reconhecimento e estranheza.

No plano educacional a interferência racionalizada também se fez muito presente tendo, inclusive, apoio de alguns veículos de comunicação, inicialmente centrados no uso das letras através da publicidade do jornal que funcionavam juntamente com canções da época como forjadores de imaginário e de identidade social, era este numa visão geral o país do interventor Getúlio Vargas e o estado, em que estava inserida Recife, de Agamenon Magalhães. É válido ressaltar ainda no entremeio desse aspecto a função da figura feminina no referido governo, sendo a de responsabilidade pelo êxito do lar e da família ficando a parte a dedicação e busca à uma possível intelectualidade. O plano intelectual, por sua vez destacou-se com figuras masculinas, porém, não só estas o ocuparam.

  1. 1. PERSONALIDADES RELEVANTES DA INTELECTUALIDADE MASCULINA DO RECIFE EM MEADOS DE 1930.

Dissertar acerca de tais personalidades é uma tarefa não muito árdua visto que a nível de pesquisa, encontrar produções sobre tais sujeitos e suas obras é relativamente comum, ao passo que a dificuldade pode ser encontrada se indagarmos sobre a ocupação das mulheres no espaço intelectual em Recife, que em particular vivia uma fase de endossamento ao regionalismo, sendo este a princípio uma forte marca das obras de Gilberto Freyre, além do seu conservadorismo agrário.

Alguns dos intelectuais contemporâneos a Freyre partilhava desse endossamento e dessa defesa outros por sua vez não o faziam como por exemplo Mário Melo, que apesar de ter grande apreço pelo Recife e por Pernambuco tinha um olhar mais flexível, porém não ingênuo quanto a assimilação da modernização sabendo, inclusive, os males degradantes que, por conseguinte poderia evocar.

Houve também no período a presença de José Lins do Rego, Luís da Câmara Cascudo, Eugênio Coimbra Júnior, Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, entre outros. A figura de Ascenso Ferreira, poeta brasileiro conhecido por integrar o movimento com uma poesia que destacava a temática regional de sua terra, demonstra uma posição parecida com a de Freyre.

Juntamente com Mário Melo e Gilberto Freyre os quais possuíam em comum tanto a personalidade de intelectual, em maioria referente as letras, quanto o frequente convívio na esquina Lafayette, onde ambos se encontravam ansiosos por um debate acerca dos recentes acontecimentos tanto no plano ideológico e cultural, quanto social, além da busca por divertimento. Tal espaço não era frequentado por mulheres do lar, com rara exceção de Rachel de Queiroz, acompanhada por seu marido.

Este afastamento do gênero feminino se mostra como uma falta de incentivo ao intelecto feminino, já que estes espaços utilizados pelos intelectuais atuantes da época, para tais fins discursivos aglomeravam as mais recentes informações, a atualização diária destes informes era uma aspecto imprescindível no letramento de cada qual, através do qual se fariam ouvir e compreender como seres pensantes, apesar de que a luta  por quem os ouvisse não era tão dificultosa quanto para a mulher, que em oposição nem ao menos acesso livre aos lugares de debate possuía. Mas a privação não fora o suficiente para impedir que as mulheres conseguissem o letramento, o voto e o direito de frequentar os mais variados espaços ainda que a passos lentos.

  1. 2. FIGURAS DA INTELECTUALIDADE FEMININA NO RECIFE MEADOS DAS DÉCADAS DE 20 E 30: LOUCURAS E ESTIGMAS

[...] surgem no cenário recifense: a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, encabeçado por Edwiges de Sá Pereira e a Cruzada Feminista Brasileira, liderada por Martha de Hollanda Cavalcanti. Elas possuíam diferentes percepções de feminismo e sobre o rumo das mulheres naquele período. Isso não implica dizer que existiam apenas essas duas mulheres no movimento feminista do Recife. (SILVA, 2014, p.2300).

Não implica dizer que existiam apenas essas figuras no movimento feminista”. A partir dessa frase retirada da citação à cima é possível fazer uma reflexão acerca da relação de intelectualidade e envolvimento com o movimento feminista da época. Tal premissa pode ser confirmada pela “etiqueta” estipulada a mulher, do cuidado com o lar e responsabilidade pelo êxito familiar, como já citado na introdução deste trabalho, significando que as mulheres dedicadas a viver a partir de sua intelectualidade recusando a vida do lar proposto, fora do padrão desejado tendiam num processo involuntário a serem feministas, a princípio não por uma escolha ideológica, mas numa posição de recusa, de mostrar-se capaz de pensar criticamente. Logo, a relevância de se ter esse surgimento de mobilizações feministas no Recife foi um avanço positivo.

Edwiges de Sá Pereira foi sócia correspondente da Academia Pernambucana de Letras, antes de ingressar como membro efetivo em 1920. Essa atuação a fez ser considerada equivocadamente a primeira mulher a ingressar em uma academia de letras no Brasil. Como membro eleito dessa academia, chegou a exercer a função de vice-presidente*, produziu também juntamente com Amélia Bevilaqua, Úrsula Garcia e outras mulheres a revista feminina “O Lyrio”, a qual será posteriormente abordada.

Martha filha do farmacêutico Nestor de Holanda Cavalcanti foi a única mulher a cursar o normal médio, a primeira mulher a conquistar o título de eleitor em Pernambuco, foi candidata a deputada em 1933. E publicou um livro de grande sucesso intitulado de “O Delírio do Nada”. A vida intelectual de Martha teve início em 1928, sua obra literária era vasta como em revistas, almanaques, magazines, jornais e etc.

Decerto diversos acontecimentos da década anterior a de trinta, traz a ela muitos desdobramentos, é o caso de uma alteração na psiquiatria brasileira, a qual passa a inserir investimento não somente no tratamento dos loucos, mas também estendendo seu atendimento a prevenção das doenças mentais afim de controlar a degeneração da população brasileira. Ao estipular moldes para se alcançar uma nação moderna não era recomendada atividades concernentes a vida pública, além de evitar comportamentos histéricos, caso contrário a mulher poderia causar desequilíbrios sociais e comprometer os avanços já conquistados. A partir desse entendimento, como ficava então a sua vez das mulheres citadas a cima? Se pode perceber que fugir a esses padrões era ser acometida por um pesado estigma social, como pode ser percebido na citação abaixo.

Assim, o retrato da mulher pública é construído em oposição ao da mulher honesta, casada e boa mãe, laboriosa, fiel e dessexualizada. A prostituta construída pelo discurso médico simboliza a negação dos valores, ‘pária da sociedade’ que ameaçava subverter a boa ordem do mundo masculino. (…) Por isso, ela deve ser enclausurada nas casas de tolerância ou nos bordéis, espaços higiênicos de confinamento da sexualidade extraconjugal, regulamentados e vigiados pela polícia e pelas autoridades médicas sanitárias” (RAGO,1997, Apud CUPELLO, 2010, p.4).

Ainda acerca do que era recomendado às mulheres a pesquisadora Maria Concepta Padovan afirma o incentivo aos exercícios como forma de gerar filhos saudáveis e de afastamento da loucura. A feiura era coisa de gente louca, pois se acreditava que a beleza não era inata, precisava ser conquistada a partir da educação física.

“As mulheres eram incentivadas a realizar exercícios como danças e ginásticas para fortalecer o corpo e, assim, dar à luz filhos mais saudáveis”. “No prontuário de uma paciente de nome Severina constava que ela tinha sido internada por causa de sua aparência repugnante”, (PADOVAN,2015. Apud SCHIER, 2015, p. 1)

  1. 3. AMÉLIA BEVILÁQUA- UMA MULHER DE VANGUARDA
  1. a. AMÉLIA BEVILÁQUA VERSUS A RESIGNAÇÃO POLÍTICA DA OUTRA AMÉLIA (UMA MULHER DE VERDADE).

Nascida na fazenda Formosa, em Jerumenha, no Piauí, filha do Desembargador José Manuel de Freitas e de D. Teresa Carolina da Silva Freitas. Concluiu sua educação em Pernambuco, onde conheceu e casou com Clóvis Beviláqua no ano de 1883.

Se o termo vanguarda tem por definição, “parcela que está à frente, mais consciente e combativa, ou de ideias mais avançadas, de qualquer grupo social”, é este exatamente o termo ao qual se pode atribuir à literata Amélia de Freitas Bevilaqua, que por sua vez mesmo inserida num contexto de tanta resignação feminina perante a política foi ousada e extemporânea. Estas posições de Amélia por sua vez, vão contra o sugerido para a formação da família, como já citado, nos preceitos de sua contemporaneidade ser outro tipo de “Amélia” seria de “bom tom”.

A Amélia de Ataulfo e Mário Lago, nascera ano de 1941 cabe exatamente ao modelo proposto a todas as mulheres, e é, por conseguinte utilizada como propaganda do país para incentivar tal comportamento.

Ai meu Deus que saudade da Amélia Aquilo sim que era mulher Às vezes passava fome ao meu lado E achava bonito não ter o que comer E quando me via contrariado dizia Meu filho o que se há de fazer Amélia não tinha a menor vaidade Amélia que era a mulher de verdade. (ATAULFO; MÁRIO LAGO,1941).

Ao que tudo indica esta música tinha mesmo essa função de propagar a modelagem de como era a mulher de verdade para a nação e em especial para os homens.  Apesar de já preencherem alguns espaços de divertimento como cafés, a mulheres precisavam estar hábeis para o lar e esta premissa pode ser confirmada se analisarmos as propostas de educação do interventor Agamenon Magalhães em Pernambuco em que seguindo as orientações federais buscou diferenciar o ensino entres meninas e meninos, tendo por princípio prepará-las para o lar como mostra a citação abaixo.

Tais princípios foram mais especificados no ensino de Economia Doméstica e a elaboração desse curso teve dois momentos. Num primeiro, foi criado, em 1938, o Ensino Doméstico e curso de iniciação à vida do lar. Essa modalidade ficou dividida em dois períodos: o primeiro era um preparatório de um ano e o segundo era realmente o curso doméstico, de dois anos. (RAMOS, 2014, op. cit,p. 126).

Retomando a proposição acerca da música, pode-se aferir que embora criada numa temporalidade diferente, a influência de tal não se limita ao seu referido tempo, ela transpõe barreiras, adentra no imaginário social, forjando Amélias em todo o país. Até recentes tempos se pode ver pessoas da geração de 70 cantando em tom de nostalgia a referida canção, o que por sua vez escandaliza um pouco devido ao momento acalorado de discussões feministas, e um momento em que muitas mulheres se recusam a serem Amélias.

De modo generalizado, se vê mais movimentação de liberdade em trabalhar e dedicar-se ao letramento, não desconsiderando o trabalho duplo de muitas, divididas entre manutenção do lar e do sustento. Mas há de se convir que as mulheres conseguiram ocupar o espaço de uma outra Amélia, a Beviláqua.

  1. b. EXPRESSÃO E MOBILIZAÇÃO LITERATA NA REVISTA LYRIO.

No ano de 1930, Amélia Beviláqua estava por volta dos seus 70 anos de idade e já em 1920, um nome reconhecido por críticos como Sílvio Romero e Araripe Júnior, tendo várias obras publicadas pela Bernard de Fréres, importante editora da época. Sua projeção literária notavelmente inspirou outras mulheres.

Fora uma das fundadoras da revista O Lyrio (1902), e apesar desta conter em suas publicações poemas, crônicas entre outros gêneros, não deixava a desejar quanto a carga crítica de grande relevância que estimulava a produção de outras mulheres, muitas delas do Piauí, lugar de origem de Amélia.

Há dois aspectos a esclarecer um é acerca de sua origem e espaço de produção pois apesar ser piauiense, ela passa boa parte de sua vida no Recife, lugar de produção da revista citada acima. O segundo diz respeito a época de produção de O Lyrio bem anterior ao ano trabalhado, entretanto, há de se convir que a influência de sua literatura ultrapassa a temporalidade assim como sua pessoa, portanto a análise de O Lyrio permanecerá, já que tendo ele iniciado no começo do século XX, a seu modo tem um legado de extrema relevância a posteriori.

Amélia Bevilaqua era uma mulher como muitas, entretanto possuidora de qualidades intelectuais como poucas, no caso dessas era devido à escassez de oportunidade. Além de alfabetizada era letrada o que significa dizer que seus conhecimentos eram utilizados como meio de mobilização de outras mulheres, seja através da O Lyrio ou de outras obras. O fato é que seu entendimento e recusa não ficaram trancafiados no seio de sua mente, deixando fluir nas suas atitudes sua ousadia, que fora também mostrada ao candidatar-se a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1930, a qual foi recusada, o quão impactada não ficara a cidade do Recife, senão o país, diante de tal avidez? Decerto fora uma contribuinte da mobilização recifense para além de 1930.

Na primeira edição de O Lyrio, datado de 5 de novembro de 1902, são feitas colocações sobre o perfil de público pretendido pelas fundadoras, mais uma vez avidez é de se espantar já que de modo direto sem muitos rodeios explicitam suas bandeiras e interesses sociais estando inclusos o incentivo as mulheres para publicação de suas obras, anseio por democracia feminina e esperança do adentramento feminino nos espaços científicos, não deixando de enaltecer um sentimento austero de pernambucanidade. Vejamos alguns trechos referentes.

(…) “O Lyrio surge, porém surge mebriado de olores magicos, bafejado por uma atmosphera de estridentes aplausos, applausos que partem do âmago do coração d’aquelles que desejão ver desfraldado o estandarte da democracia feminina. ” (LIMA; LUIZ 1902, p.3)

(…) “entre lágrimas sorridentes diremos apenas, fazendo parte d’esse cortejo mirifico- a mulher pernambucana assim fazia jús pelo seu talento. (Idem.)

Contudo na chamada a leitura da revista uma das fundadoras na figura de Amélia Bevilaqua, coloca-a como algo inocente e puro ao dizer “Senhoritas gentis, entre o vosso minúsculo dedal, a vossa tesourinha de costuras, vossas fitas e os vossos estudos, reservai um cantinho para o Lyrio. (…) ele é inocente e puro como vossas almas diaphanas e amorosas. ”

Ou seja, ao que parece não há, portanto, uma busca por erudição literária, ou por manter a revista não só no plano intelectual, mas também no uso social aproximando as mulheres dos lares, o que colocaria tais mulheres em contato com pontos de vistas a favor do gênero feminino, sem muita radicalidade, se utilizando assim da sutileza e pureza do lírio. Dedica também parte do discurso aos “cavalheiros illustres”.

  1. 4. (IN)ELEGBILIDADE PERANTE A SUPREMACIA MASCULINA
  2. a. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E SEU DISCURSO EXCLUSÓRIO AO GÊNERO FEMININO.

“Não é preciso definir esta instituição, iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. ”

A Academia Brasileira de Letras (ABL) uma instituição cultural inaugurada em 2 de julho de 1897 e sediada no Rio de Janeiro, cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura nacionais Compõe-se a ABL de 40 membros efetivos e perpétuos, e 20 sócios correspondentes estrangeiros.

A citação a cima é uma parte integrante do discurso de Machado de Assis na fundação da instituição e fora como ele mesmo declarou, o anseio de conservar a unidade literária do Brasil o mote da fundação. Por esse discurso não se consegue ter claramente uma ideia da visão de Machados de Assis sobre a elegibilidade da mulher na ABL, mas de todo modo os termos utilizados por ele “(…)iniciada por um moço, aceita e completada por moços” evoca dúvidas as quais não podem ser sanadas de numa primeira leitura da frase. Há de se convir a priori que podendo ou não haver um sentimento misógino por parte dele, decerto há uma acomodação de que moços estariam a frente daquela instituição.

De toda forma a problemática se desenrola anos à frente, com a candidatura de Amélia Bevilaqua à uma das cadeiras da ABL em 1930, a qual não foi homologada por puro egoísmo senão machismo dos acadêmicos, é o que defende a pesquisadora Michele Asmar Fanini comprovando tal pensamento através da comprovação da própria Amélia em sua obra “A Academia Brasileira de Letras e Amélia Bevilaqua”, na qual esboça os elementos atenuantes pelos quais não foi deferida sua candidatura.

(…) sustentaram, energicamente, as barreiras da tradição. Selecionaram a raça, a espécie, que será por eles mesmos cultuada, na sua palidez sem relevo… e eu passei a contemplar as coisas mundanas, em seu aspecto exterior e interior, sob uma claridade nova (BEVILAQUA, p.13 apud FANINI, 2010).

Ainda para Fanini, a obra de Amélia acerca do processo vivido por ela foi uma forma de delação a qual teria a incumbência de contribuir para que sua reivindicação não caísse no esquecimento e pudesse mobilizar outras pessoas solidárias à questão.

Em suma a Academia no momento mostrou-se apenas indiferente, com exceção de um seleto grupo de intelectuais. Despreocupados com a elegibilidade feminina levantando apenas indagações frívolas como qual indumentária usaria a mulher neste caso em que os homens usam fardões, levando o acontecimento como simples modo de entretenimento e foi levado assim por muitos anos sendo a primeira cadeira ocupada apenas em na década de 70, pela escritora Rachel de Queiroz.

ANEXOS

Amélia Beviláqua e seu marido Clóvis Bevilaqua

1ª Edição da Revista Feminina O Lyrio.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações a serem feitas por mim não serão muito prolongadas, cabendo suscitar apenas algumas observações que incluem as lacunas do estudo por mim realizado e o aproveitamento geral da pesquisa. Quanto ao aproveitamento geral, pode se dizer que o mesmo incidiu de forma positiva na vida acadêmica, tendo em vista a carga de leitura com que se pode deparar afim de dar embasamento a temática, o que de fato não será desperdiçado pela memória, fazendo com que o arcabouço teórico se expanda. Decerto cada aspecto e fragmento aqui abordados serviram de instigue para novas pesquisas, afim de ultrapassar, inclusive, as lacunas ainda não superadas, já que talvez ao possuir um aporte mais filosófico e um domínio mais sagaz da periodicidade abordada pudesse extrair mais reflexões acerca da temática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 31 jul 2017 @ 07 55 PM

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02 de dezembro de 1870



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