12 jul 2016 @ 2:19 PM 
 

Análise da Novela Os Dez Mandamentos – Mário Pereira Gomes

 

UFPE – Universidade Federal de Pernambuco

CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Discente: Mário Pereira Gomes

Docente: Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Disciplina: Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro

Período: 5º

2016

Análise da novela Os Dez Mandamentos

Palavras-chave: RELIGIÃO, NOVELA, SOCIEDADE

Keywords: RELIGION, SOAP OPERA, SOCIETY

A novela Os Dez Mandamentos da Record fala sobre a saga de Moisés que é enviado por Deus para libertar os hebreus que, segundo a Bíblia, viviam como escravos dos egípcios. O presente artigo se propõe a demonstrar ao leitor a mensagem que a novela busca transmitir ao telespectador através da abordagem de três temas que são: uma comparação de como a religião dos hebreus e a dos egípcios aparece na novela, como os personagens dos dois povos (hebreus e egípcios) lidam com o ceticismo e quais são os caminhos simbolizados por Moisés e Ramsés.

A novela mostra a religião egípcia como desprovida de amor pelos mais necessitados, idólatra e que tem como centro dos cultos deuses que não passam de meras estátuas despossuídas de qualquer poder. Por falar em estátuas, há uma cena no início da novela na qual Simut, ajudante do sumo sacerdote Paser, derruba por descuido um ídolo e não diz nada por medo de uma possível represália do faraó Seti I. Quando Paser vai ao santuário e vê a estátua de um deus egípcio caída no chão ele se desespera, pois acredita que é um sinal de mau agouro e conta para o faraó e este ordena que um novo ídolo seja fabricado imediatamente pelos escravos. A crença egípcia está totalmente assentada em bases materiais, ou seja, a crença nos deuses se dá por causa do Egito ser uma nação próspera e não pelos egípcios terem fé em suas divindades, isto é tão verdadeiro na telenovela que muitas vezes eles questionam os hebreus sobre o que seria a fé.

A religião egípcia dá licença para grandes banquetes sem qualquer compaixão em ajudar os que passam fome; a crença egípcia também serve para legitimar a submissão dos hebreus ao Faraó, sendo este responsável por manter a ordem cósmica do universo que significa preservar o status quo da sociedade do Egito. Ele deve fazer tudo para sustentá-la, incluindo matar pessoas como ocorre na novela quando, nos primeiros capítulos, Seti I ordena que todos os bebês hebreus do sexo masculino sejam jogados no rio Nilo como forma de controle populacional dos escravos. A religião egípcia é uma crença exibida como autoritária que é seguida pelas pessoas mais por medo de serem severamente punidas pelo faraó do que por uma entrega sincera aos deuses. Estes são mudos e sua suposta vontade nada mais é do que uma projeção da vontade do faraó que, quando faz algo, diz que foi por ordem dos deuses como forma de legitimar a própria ação ou dos sacerdotes que diante de fenômenos naturais se dizem interpretadores da vontade dos deuses. Na novela, o medo que os antigos egípcios tinham da noite não é explicado, e fica claro que a mensagem que a telenovela tenta passar acerca da religião egípcia é de que os deuses cultuados não passam de criações humanas e que a chamada vontade divina apregoada pelos sacerdotes e o faraó é apenas um sinônimo dos desejos humanos. Outra coisa que se nota é que Paser descobre fatos ocultos, não por ter sido informado por um deus ou ter interpretado a vontade destes, mas sim por ele ter ouvido ou alguém ter contado para ele. Um exemplo disto é que Moisés mata um feitor para defender um escravo e depois ele oculta o cadáver. Então o faraó Seti I ordena que Paser descubra quem é o assassino e onde está localizado o cadáver. O sumo sacerdote usa a magia para tentar elucidar o problema, mas nada acontece até que sua esposa Yunet escuta uma conversa entre Ramsés e Moisés na qual este afirma que foi o responsável pela morte do feitor. Ela vai falar com Paser e o convence a contar toda verdade ao faraó, e ainda diz que o sumo sacerdote deveria dizer ao rei que foram os deuses que revelaram que Moisés era culpado pela morte do feitor, o que Paser faz depois de hesitar. Depois disso os crimes de Yunet são descobertos e ela é expulsa do palácio e fica perambulando pela cidade junto de seus ídolos aos quais ela pede que melhorem sua vida, mas como os deuses egípcios são apenas estátuas ela jamais consegue o que deseja através da vontade divina.

Um dos crimes de Yunet é que ela envenenou a princesa Henutmire para que esta abortasse toda vez que ficasse grávida, pois a vilã não queria que o general Disebek tivesse filhos da princesa visto que Yunet era apaixonada por ele chegando até ter tido uma filha chamada Nefertari e esta depois se transformou na grande esposa real do faraó Ramsés.

A religião egípcia é demonstrada na telenovela Os Dez Mandamentos como opressora, pois é através dela que se tenta justificar a escravidão. A magia usada pelos magos nada tem de miraculosa, pois é apenas um conhecimento aprofundado sobre as propriedades medicinais de certas plantas como se pode observar no episódio em que os magos Janes e Jambres contaminam a fonte de água dos hebreus depois de jogarem um pó que deixa a água com uma coloração avermelhada e imprópria para o consumo humano. A crença dos egípcios é individualista, pois seus seguidores não se preocupam com o bem estar do próximo, mas em desfrutar dos prazeres da vida sem se preocupar com os outros e, por último, é uma religião mostrada pela novela como falsa por ter deuses que na verdade não existem; e todas estas características são totalmente contrárias à religião professada pelo povo hebreu.

A religião dos hebreus é completamente oposta à dos governantes, pois o povo de Israel é cheio de compaixão para o outro mesmo que este seja um egípcio. É imensa a quantidade de cenas nas quais a maioria dos hebreus reparte o pão cotidiano com aqueles que nada têm para se alimentar, pois os hebreus ao contrário dos egípcios são solidários e sempre dispostos a ajudar o próximo independente de quem seja. A religião dos hebreus é baseada na fé em um deus que provê o que o povo dele precisa, ou seja, não importa quão difícil esteja a situação os hebreus continuarão acreditando que Deus irá lhes ajudar ao contrário dos egípcios que tendo uma crença fundamentada no mundo material qualquer crise pode destruir a crença nos deuses egípcios. O deus cultuado pelos descendentes de Abraão existe, apesar de não poder ser visto. A divindade adorada pelos hebreus não é só mais uma entre dezenas, mas a única. Deus cumpre a promessa que fez para os filhos de Jacó mesmo que demore décadas ou séculos e, segundo os personagens hebreus, os planos do Criador são perfeitos e seu tempo é diferente do que é seguido pelos mortais. Os hebreus conhecem as aplicações medicinais de certas plantas, mas ao contrário dos sacerdotes egípcios, não dizem que é magia, pois acreditam que o poder sobrenatural não é proveniente de plantas, mas de Deus. A fé dos hebreus faz com que eles sejam resilientes mesmo nas situações mais adversas, o que impressiona os egípcios, e estes não entendem como escravos podem ser tão confiantes quanto ao futuro. Mas nem todos hebreus são devotos da religião judaica e há alguns que duvidam das promessas feitas por Deus a Abraão, Isaac e Jacó e estas pessoas são vistas como párias pelos os outros da comunidade hebraica. Todavia, não penseis que entre os egípcios a relação com os céticos é diferente.

Os egípcios e hebreus apesar de terem religiões distintas possuem a mesma postura quanto ao ceticismo, ou seja, total ojeriza em relação aos que duvidam principalmente dos que duvidam do poder divino seja do faraó ou de Moisés. O rei do Egito é considerado um deus pelo povo e ele exige ser adorado como tal e que as ações que pratica não sejam contestadas, afinal o faraó, sendo tido como divino, sabe exatamente o que é melhor para seu povo; vê a si mesmo como um filho dos deuses e não aceita que as pessoas digam o que ele deve ou não fazer. Assim, as pessoas se submetem a vontade do faraó mesmo que seja uma ação deletéria para a sociedade egípcia. As decisões do governante nunca são contestadas, pois isto significaria uma afronta aos deuses o que é passível de morte. Deste modo, o faraó é absoluto em seu governo graças à legitimidade adquirida por causa da religião que afirma a autoridade divina do rei. Os egípcios, em certos casos, duvidam da divindade do governante, mas fazem isto de forma velada, pois caso sejam descobertos poderão receber do faraó a pena capital. Já entre os hebreus a descrença em Deus é malvista, mas não significa que se um hebreu duvidar da existência de Deus ele será apedrejado pelos outros integrantes da comunidade hebreia, pois se lembrem de que, na novela, os hebreus que seguem a fé judaica são solidários e cheios de compaixão. Todavia, há quatro hebreus que podem ser caracterizados como céticos, sendo o primeiro aquele que duvida por estar perdido espiritualmente mesmo tendo um bom caráter e os outros três são céticos quanto ao poder divino e são pessoas de mau caráter. O primeiro hebreu é Arão, pois durante grande parte da novela se mostra descrente das promessas feitas por Javé aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, chegando ao ponto de dizer que não acredita que Deus existe, sendo logo reprimido pelos familiares e amigos. Arão é um questionador que suscita a dúvida acerca das profecias hebraicas por todos aqueles que o cercam. Ele não segue as ordens divinas, mas a própria consciência. Sua revolta faz com que os outros hebreus acreditem que tudo de ruim que acontece em sua vida é por causa da incredulidade nas promessas de Deus, mas a família de Arão reitera várias vezes que, se ele se arrepender das dúvidas que teve e voltar a acreditar no que Javé prometeu, a vida irá mudar para melhor. Neste caso, o que a novela tenta passar é que, por maior que seja o pecado, este poderá ser perdoado, pois Deus é misericordioso ao contrário do faraó que mandaria matar qualquer um que dissesse abertamente não crer nos deuses.

Outros exemplos de hebreu cético e mal na novela é Corá, Datã e o irmão deste de nome Abirão. Corá e Datã são os chefes dos escravos e usam o cargo em benefício próprio, mas isto ocorre prejudicando os outros hebreus. Corá é uma pessoa falsa que não hesita em fazer coisas ilícitas se estas lhe beneficiarem. Um exemplo disto é que ele fala para o chefe dos feitores, Apuki, informações sobre os escravos e em troca ganha certas regalias como mais porções de alimento e consegue que os próprios filhos não trabalhem nas obras egípcias, como a construção de templos. Para os hebreus ele se mostra solícito, atencioso e crente na religião judaica, mas por trás Corá revela o que de fato é: uma pessoa mesquinha, que não acredita que um dia Deus irá libertar seu povo da escravidão e que deseja levar uma vida confortável à custa do sofrimento dos hebreus. Ao longo da novela Corá se mostra uma pessoa perversa, exemplo disto é que ele tenta beijar Safira, irmã de sua esposa Bina, à força. A esposa de Corá ao ver tal cena se desespera, então de repente entra na casa Datã, que é o esposo de Safira, e ele pergunta o que está acontecendo. Bina diz que a própria irmã tentou seduzir Corá e este confirma dizendo que resistiu o máximo que pode, mas que acabou cedendo por ser homem. Datã se enfurece e arrasta Safira para fora de casa onde ela segundo o costume dos hebreus seria apedrejada até a morte pelo adultério. No momento em que Datã iria atirar a primeira pedra, aparece Bina que pede que Safira não seja morta, mas expulsa de casa ao que o marido da acusada aceita tal pedido.

Outro exemplo de que Corá não é uma boa pessoa é quando Moisés aparece dizendo ser o libertador enviado por Deus para tirar os hebreus da condição de escravos, Corá é o primeiro a questionar a veracidade do que é contado pelo libertador. Para o chefe dos escravos, o antigo príncipe do Egito não passa de um mentiroso que se utiliza da crença dos hebreus para enganá-los. Há um episódio em que Moisés e Arão reúnem todos os habitantes da vila dos escravos para que saibam do plano divino de libertação dos hebreus. Corá, juntamente com Datã e Abirão, questiona os dois sobre como ocorrerá a libertação dos filhos de Israel, então Moisés para provar que é o libertador transforma o cajado que carrega nas mãos em serpente, a mão fica leprosa voltando ao normal logo em seguida, e a água se transforma em sangue. Mesmo assim Corá, Datã e Abirão não se convencem de que Moisés irá de fato libertar os hebreus e começam a criticar, durante vários capítulos, as ações de Moisés e Arão por estarem supostamente enganando o povo e trazendo a fúria do faraó Ramsés sobre os escravos. Nos capítulos em que ocorrem as pragas, Corá e Yunet se unem para acabar com Moisés e para isto o chefe dos escravos arquiteta o plano de roubar o cajado de Moisés, pois acredita que o poder causador das pragas está no objeto portado pelo libertador dos hebreus. Ele consegue o cajado fazendo com que os próprios filhos roubassem o objeto e entregassem ao pai, este depois entrega para Yunet que, por sua vez, dá para Ramsés. Ela pede para o faraó que a deixe ficar no palácio e ele atende ao pedido da mãe da rainha, mas esta se esquece de seu comparsa hebreu e não lhe dá uma casa nova como ele desejava. Corá é enfim descoberto e diz que está arrependido, mas quando confrontado por Abirão e Datã, fala que de nada se arrependeu mostrando o quão falso ele é. Corá é uma pessoa que continua cometendo pecados mesmo depois de ser castigado pelos erros que cometeu. Na verdade, há pessoas na novela que podem sofrer os mais dolorosos castigos pelos pecados cometidos, mas mesmo assim continuarão praticando os mesmos erros e ficarão com mais ódio das pessoas que dizem que elas devem parar de agir contra a vontade de Deus. Corá é o exemplo hebreu deste tipo de pessoa e há entre os egípcios uma pessoa que pode receber os maiores castigos por causa de seus pecados, mas que não se arrepende do que fez. Esta pessoa egípcia que segue apenas a própria vontade, e que não pede perdão para Deus é o faraó Ramsés.

Na novela há dois personagens que representam os extremos entre uma pessoa que segue a própria vontade e outra que segue apenas o que Deus lhe ordena. Estas pessoas são respectivamente Ramsés e Moisés. O primeiro é o faraó do Egito que assume o trono depois do assassinato de seu pai Seti I e que, ao se tornar o governante máximo, passa por uma grande mudança em sua personalidade. Ramsés desde pequeno foi educado para ser o futuro rei do Egito, por isso todos os seus desejos sempre foram satisfeitos tornando-o uma pessoa mimada e incapaz de receber um não. Quando cresce e se torna o faraó, Ramsés demonstra ser um governante mesquinho, vaidoso, que quando contrariado se vinga da pessoa que lhe ofendeu e que trata os escravos com mais ódio do que o pai. Ele não poupa esforços para que sejam erguidas estátuas de si mesmo e chega ao auge da vaidade quando manda que fabriquem um ídolo dele para ser colocado no santuário, lugar onde só poderia ter estátuas dos deuses egípcios. Paser tenta mostrar que tal ação é errônea, mas Ramsés o repreende por dizer o que o Hórus vivo deve fazer. Quando Moisés volta ao Egito e exige em nome de Deus a libertação dos hebreus, o faraó se torna mais cego por causa do poder. Ramsés afirma para Moisés que nunca deixará o povo hebreu partir, então começam as pragas que afligem o Egito e tem como propósito obrigar o faraó liberar os hebreus para que estes sigam até a terra de Canaã. As pragas só tornam o Senhor das duas coroas mais intransigente e evidencia que ele não se importa com o sofrimento do povo egípcio, sendo este tido pelo faraó como sua propriedade, além dos escravos e do gado. As chamadas dez pragas do Egito representam um dilema para o governante das duas coroas, pois se ele concordar em libertar os hebreus estará indo contra o objetivo de seu cargo que é a manutenção da ordem cósmica do universo que nada mais é do que, como já foi dito anteriormente, a conservação do status quo da sociedade egípcia. Todavia, ao não dar a liberdade aos escravos o faraó coloca em risco a segurança do Egito fazendo com que esta nação mergulhe no caos, algo que um faraó não deveria permitir que acontecesse. As pragas se sucedem até que se chega à derradeira punição de Deus sobre o Egito que é a morte de todos os primogênitos humanos e animais dos egípcios. Quando Ramsés percebe que o próprio filho Amenhotep não foi poupado pela praga, o rei expulsa os hebreus da terra tida por Heródoto como uma dádiva do Nilo, mas de repente Deus “endurece” o coração do faraó e faz com que este persiga os hebreus com seu exército até a beira do Mar Vermelho. Neste momento, Deus ordena que Moisés estenda seu cajado fazendo com que o mar seja aberto permitindo assim a passagem dos filhos de Israel pela parte seca. Mais uma vez Deus endurece o coração de Ramsés e este decide mandar seus soldados pela terra que apareceu depois da divisão do mar, mas neste momento as rodas dos carros de guerra começam a se partir por causa das pedras e os egípcios tentam voltar para a praia. Todavia, Deus manda Moisés erguer o cajado e ao fazer isto o mar retorna ao que era antes matando assim todos os egípcios que perseguiam os hebreus. Ramsés é um rei que não escuta os conselhos dos que estão ao seu redor como Paser, o amor próprio do rei é maior do que seu amor pelo país que governa. O faraó sempre tenta resolver os problemas na base da força e o diálogo é algo que ele raramente pratica. Quando as pragas afligem seu povo, Ramsés diz que tudo vai se resolver e que não será um deus desconhecido e sem rosto dos escravos que destruirá a nação mais poderosa da Terra. Isto muda com a morte de seu filho e na destruição do seu exército no Mar Vermelho, pois no primeiro desastre ele perde uma das poucas pessoas que realmente amava. No segundo evento, o faraó mostra ao telespectador até que ponto um governante dominado pelo ódio e cegado pelo poder pode levar seu povo a ruína e Ramsés que se achava senhor da própria vontade descobre da pior forma possível que não é ele que está no controle do mundo, mas Deus.

Já Moisés é um hebreu que foi colocado dentro de um cesto de junco pela sua mãe Joquebede para que pudesse fugir do decreto do pai de Ramsés que mandava matar os hebreus recém-nascidos do sexo masculino. O cesto que levava o bebê parou num lugar onde estava a princesa Henutmire que se banhava no rio Nilo juntamente com suas damas de companhia. Ela que não tinha nenhum filho por causa de Yunet resolveu adotar o garoto que recebeu o nome de Moisés por este ter sido salvo das águas do rio. Ele era muito amado por sua mãe adotiva, mas Seti I e Yunet o desprezavam pelo fato dele ser um hebreu o que na concepção geral dos egípcios era sinônimo de inferioridade. Moisés cresce e se torna um poderoso guerreiro, mas sua origem hebreia ainda é motivo de raiva por parte do faraó Seti I. Quando todos descobrem que foi Moisés que matou um feitor, ele foge do Egito sem rumo certo. Dias depois Seti I é assassinado por Yunet, mas as pessoas acham que ele morreu de causas naturais. Quando Ramsés assume, este revoga o decreto que punia Moisés com o exílio perpétuo. Moisés chega a Midiã e neste lugar conhece a mulher que viria a ser sua esposa chamada Zípora, num belo dia Moisés sobe uma montanha para buscar uma ovelha perdida quando de repente surge a sarça ardente e nesta planta Deus se revela para o pastor de ovelhas e diz que ele é o libertador aguardado pelos hebreus para libertá-los do jugo do faraó. Moisés hesita, mas acaba aceitando os desígnios divinos. Ele ruma em direção ao Egito e no meio do deserto se encontra com seu irmão Arão que tinha sido ordenado por Deus para encontrar o libertador de Israel no deserto. Deste lugar, o dois vão para o Egito munidos de seus cajados, com os quais irão operar milagres e pragas, sendo a primeira ação para convencer o povo hebreu de que eles foram enviados por Deus e o segundo ato é para obrigar Ramsés a deixar os escravizados partirem. Moisés durante a novela demonstra ser uma pessoa que tenta sempre resolver os problemas através do diálogo, pois ele vê nisto a melhor solução. Ele é uma pessoa racional e sabe que o melhor tanto para os egípcios quanto para os hebreus é fazer a vontade de Deus. O libertador de Israel tem compaixão pelos outros e fica aflito com o sofrimento que os egípcios passam durante as pragas por causa da teimosia do faraó. Moisés é o exemplo que todos os que creem em Deus devem seguir por ser uma pessoa boa, misericordiosa, racional e temente aos mandamentos divinos.

Os Dez Mandamentos traz ao telespectador a mensagem de que a única maneira de se ter uma vida feliz é basear todos os atos na vontade de Deus, pois isto lhe dará uma vida bem-aventurada. Isto se alcança tendo uma atitude de confiança de que por mais difícil que seja a situação, tudo irá melhorar graças à vontade divina, mas a novela também lembra que Deus não luta pelos hebreus e sim com eles como fica evidente pela etimologia da própria palavra Israel que significa lutar ou prevalecer com Deus[1]. Se deve lembrar também de que Moisés e Arão só se tornaram os libertadores dos hebreus por terem se rebelado contra a condição humilhante de seu povo, ou seja, é preciso que o povo lute contra a opressão em que vive para que Deus comece a agir. Ele não quer fazer tudo pelo seu povo, mas ajudá-lo quando necessário. O faraó na novela representa o caminho de seguir somente a própria vontade ignorando o que Deus ordena, a pessoa faz o que quer e quando castigada ao invés de dobrar a cerviz para ser perdoada ela fica com mais raiva de Deus, fala mais blasfêmias e continua mais firme em suas más atitudes. Essa senda termina em tragédia por ir contra os desígnios divinos, já o libertador é o caminho do amor a Deus, a pessoa que anda por essa estrada pode passar por várias adversidades, mas depois será agraciada com muitas bênçãos. A busca pela justiça e a liberdade são características desse caminho, o amor ao próximo mostra ao telespectador que se ele for uma boa pessoa o caminho poderá até ser difícil, mas o destino será maravilhoso.

O que foi dito anteriormente é a mensagem da novela sobre como um cristão deve ser (Moisés) e quão deletério é o ateísmo (Ramsés), mas há também mensagens acerca das religiões de matriz africana e em menor quantidade o catolicismo. Sobre o ceticismo a visão da novela é de que se trata de algo praticado por pessoas que não têm fé em Javé mesmo com as evidências de ações divinas como Corá ou no caso de Arão de alguém que realmente gostaria de acreditar nas promessas feitas aos seus antepassados, mas que se mostra sem esperança por viver em tempos difíceis. Assim, a dúvida quanto ao deus hebreu existir ou ter mandado Moisés para libertar os escravizados se mostra como algo deletério e próprio de pessoas descrentes nas promessas divinas ou simplesmente más. Os céticos se convencem de que Javé é de fato o único deus, mas Corá, Datã e Abirão continuam céticos quanto a Moisés dizer que as leis que o povo deve seguir são provenientes de Deus, pois eles nunca viram uma conversa entre os dois e por isso acreditam que o libertador simplesmente mente ao dizer que fala com a divindade que se apresenta no Monte Sinai. Os diálogos de Simut com os deuses egípcios representados por estátuas num templo são reveladores quanto à visão que Os Dez Mandamentos busca passar sobre religiões de matriz africana e o catolicismo. Primeiro as estátuas não passam disto, são apenas produtos de mãos humanas que não possuem qualquer poder sobre a vida da humanidade. Segundo, os egípcios são vistos como pessoas que não adoram os deuses através de suas representações na forma de ídolos, mas de que eles seguem as próprias estátuas. Os sacerdotes egípcios nos rituais e vestimentas lembram tanto o catolicismo quanto os cultos de matriz africana e assim ao falar da crença religiosa do Egito Antigo como uma superstição a novela acaba criticando religiões contemporâneas da IURD, pois a sociedade apresentada não é a que de fato existiu milhares de anos atrás nas margens do rio Nilo, mas sim a visão de pessoas do século XXI sobre determinada população.

A novela Os Dez Mandamentos representa um marco na televisão brasileira, pois é a primeira novela bíblica que é recorde de audiência. A trama é sobre algo que todos no Brasil conhecem, mas que mesmo assim cativa o público. Percebe-se também a importância de assistir a novela de maior sucesso da Record para saber o que a IURD deseja que seus fiéis pensem sobre si mesmos e sobre os seguidores de outras crenças.

Na televisão já há propaganda da próxima novela intitulada A Terra Prometida que será sobre a conquista de Canaã pelos hebreus, então resta saber quais serão as novas mensagens que a Record passará para os telespectadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros:

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus: mitologia oriental. 6. ed. São Paulo: Palas Athena, 2008.

O Livro das Religiões. [tradução: Bruno Alexander]. São Paulo: Globo Livros, 2014.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TORÁ: a Lei de Moisés. São Paulo: Sêfer, 2001.

Sites:

Os Dez Mandamentos. Disponível em: <https://www.netflix.com/>

Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>

Página oficial da novela Os Dez Mandamentos. Disponível em: http://entretenimento.r7.com/os-dez-mandamentos


[1] Gn 32:28.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 12 jul 2016 @ 02 20 PM

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02 de dezembro de 1870



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