03 ago 2015 @ 10:50 AM 
 

UM BREVE PASSEIO POR PERNAMBUCO

 

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Cultura Popular de Pernambuco

Docente: Severino Vicente da Silva

Estudante: Rafaella Fernanda Villa Nova

Recife, 1º de julho de 2015.

UM BREVE PASSEIO POR PERNAMBUCO

Resumo: O presente trabalho se propõe a expor alguns dos temas apresentados e discutidos em sala de aula, assim como também em atividade externa (viagem do dia 20 de maio de 2015) os quais contribuíram para o desenvolvimento de conhecimentos sobre a Cultura Popular em nosso estado. Tais conteúdos compuseram a disciplina eletiva no primeiro semestre de 2015. Contempla também outros aspectos relevantes a respeito da cultura e da sociedade pernambucana. No princípio da disciplina conhecemos as divisões do estado Pernambuco, sendo destacadas as macrorregiões; são elas: litoral, zona da mata, agreste e sertão. Cada uma destas apresentando características distintas entre si em sua vegetação e em seu clima. Urge dizer que as populações presentes em tais espaços geográficos desenvolveram maneiras próprias de se relacionar social e politicamente. Desta maneira, pode-se falar sobre uma gama de culturas populares desenvolvidas dentro do mesmo território, chamado Pernambuco.

Palavras chave: Pernambuco, Geografia, Política, Economia, Sociedade, Cultura.

Características Geográficas, Sociais e Econômicas do Estado de Pernambuco

Pernambuco localiza-se na região Nordeste do Brasil, fazendo fronteira com cinco estados da mesma região e, a leste, tendo o Oceano Atlântico por limite. A área do território estadual é composta por 98.311,616 km². Seu Clima é tropical atlântico no litoral e semiárido no interior, em parte graças ao Planalto da Borborema, que impede que nuvens mais baixas sejam levadas pelos ventos adentrando no interior do território. Desta maneira, uma grande massa do interior é seca, havendo problemas sociais atrelados à escassez de água nos sertões. Contudo, neste mesmo sertão está o Rio São Francisco, tradicionalmente conhecido por “Velho Chico”, responsável por banhar a parte sudeste do estado. O Rio Ipojuca é outro que recebe destaque na hidrografia pernambucana. É conhecido especialmente por sua poluição que já há muito alcançou níveis avançados.

Na região Agreste, está presente importantes polos têxteis, que infelizmente continuam a derramar as águas das lavagens dos tecidos no Ipojuca, que, assim como outros rios do território pernambucano, noutros tempos fora local de lazer, local de banhos das sinhás e dos moleques, como assinalava Gilberto Freyre ainda no século passado. Eram indicados os banhos de rio como cuidado à saúde. Nos rios se transportava o açúcar de um canto a outro do estado. Além de ser fonte de renda para pescadores. Ainda neles, ocorre a formação de populações ribeirinhas, ou seja, que moram à beira do rio. Quando há enchentes, estas são as maiores vítimas. Necessitam deixar seus lares e ficam dependendo da ajuda dos governos.

Quando chove na capital do estado – o Recife – há vários tipos de transtornos urbanos. As ruas ficam alagadas de tal forma, que em certos trechos torna-se impossível transitar pelas vias de acesso. Árvores caem, prédios ficam sem energia elétrica, o trânsito de carros fica congestionado para além do comum e, não raro, ocorrem registros de tragédias relacionadas ao desabamento de barreiras. Porém, não só de turbulências é composto o Recife. Guardando ele muitas belezas, pode-se falar dos dias de sol, onde as pessoas aproveitam para ir às belas praias que compõe a costa do estado. Algumas em destaque são Maria Farinha, Boa Viagem (praia urbana), Gaibu e Porto de Galinhas. Todas estas importantes para o turismo e, consequentemente, para a economia local.

Outra importante característica da vegetação litorânea é o mangue, que serviu de inspiração para trabalhos de artistas e intelectuais. O mangue traz consigo uma grande importância ecológica. Carrega também fardos sociais, como apontados por Josué de Castro (1948):

O mangue abriga e alimenta uma fauna especial, formada principalmente por crustáceos, ostras, mariscos e caranguejos, numa impressionante abundância de seres que pululam entre suas raízes nodosas e suas folhas gordas, triturando materiais orgânicos, perfurando o lodaçal e umidificando o solo local. Muitos desses pequenos animais contribuem também com suas carapaças e seus esqueletos calcários, para a estruturação e consolidação do solo em formação. Desempenha também essa fauna especializada um importante papel no equilíbrio ecológico da região ocupada pelo homem, ao possibilitar recursos de subsistência para uma grande parte das populações anfíbias que povoam aqueles mangues, vivendo nas suas habitações típicas — os mocambos.

Este trecho extraído da obra “Fatores de localização da cidade do Recife: um ensaio de geografia urbana” mostra esclarecimento por parte do autor sobre as condições de vida daquele povo que habitava as regiões do mangue. Assim, percebemos que as denúncias da situação em que viviam os seres humanos no mangue já ocorriam nos anos 1940. Neste encalço, Manuel Bandeira escreve em sua poesia:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

A fome não era e não é ausente da história deste povo batalhador. O nordestino e suas vivências dolorosas, os dissabores que a vida lhes apresenta estão retratados também no poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Nele o retirante migra dos sertões pernambucanos em direção ao litoral, na esperança de uma vida melhor. Em seu caminho encontra sofrimento e morte. Quando já no Recife, o pernambucano, o homem sertanejo, já mergulhado em profunda desesperança, angustia-se sensivelmente com todos os infortúnios que percebe cercar-lhes a perene vereda pela vida, e é aí que toma a decisão trágica de acabar com sua própria vida. Porém, um choro de menino o faz mudar de ideia, despertando nele novamente a vontade de viver, anunciando a renovação da vida através da posteridade que se origina no novo ser que se anuncia. Eis uma representação do nosso povo, elaborada na forma de poema e ressignificada na forma de denúncia. É um retrato social que não está tão distante quanto talvez aparente para alguém menos atento às questões sociais que estão às vistas de quem quer ver, de quem é capaz de enxergar além de si mesmo; alguém que volte os olhos para o povo o percebe.

Ocupação da Terra de Pernambuco

Como em outras regiões do Brasil, a ocupação do território pernambucano se iniciou pela costa. No litoral, as terras foram apropriadas e designadas para desenvolvimento da agroindústria do açúcar. No início do empreendimento eram os indígenas e os africanos que serviam de mão de obra escrava nos engenhos e no trabalho das lavouras.

Além do açúcar, a economia era movimentada pelo gado, que, além de produto básico da alimentação, servia como meio de transporte, dando origem à primeira fase de expansão da pecuária que se transformaria rapidamente na forma mais generalizada de ocupação das terras do interior nordestino.

No litoral, a agricultura e a criação de gado mostraram-se desde cedo incompatíveis, e, em defesa das plantações, promoveu-se a retirada dos currais para o interior, distante dos engenhos, dos canaviais e dos mandiocais.

Nos fins do século XVIII, já eram vastas as extensões do médio São Francisco ocupadas por currais. Havia os tropeiros, que eram os homens que andavam em tropa com seus burros. Inclusive, esta nomenclatura foi utilizada para batizar um prático típico da região, que segundo exposição do professor Biu Vicente em sala de aula se deu pela necessidade do preparo rápido e prático do alimento. Os tropeiros coziam o feijão, acrescentavam a carne e os temperos de que dispusessem, misturavam farinha e estava dado o prato, eis a origem do feijão tropeiro.

Avançando um século, o XIX foi marcado por relevantes transformações nas esferas política e social. Desde seu início, o século XIX foi palco de importantes revoltas, sobretudo as de cunho separatista. Pernambucanos almejavam a independência. As ideias que circulavam eram liberais; desejava-se uma constituição republicana. Contudo, quando o governo alcançava a repressão, a condenação das lideranças costumava ser a de morte. Apesar disto, nota-se a bravura dos povos desta terra desde tão cedo. Os contatos estabelecidos com estrangeiros com experiências políticas deste tipo contribuiriam para influenciar os pernambucanos na formação de ideologias e no preparo para os combates. Tais contatos eram facilitados graças ao Atlântico e a posição estratégica do estado em relação ao continente europeu.

Tradição e Musicalidade

Maracatu Rural, também chamado de “Maracatu de Baque Solto”, é das mais importantes e conhecidas manifestações da cultural de Pernambuco. Neste brinquedo, se figuram os conhecidos “caboclos de lança“. Distingue-se do Maracatu Nação em organização, personagens e ritmo. Para os integrantes do Maracatu Rural, ele não é apenas uma brincadeira. Trata-se de uma herança secular, motivo de muito orgulho e admiração.  O cortejo do Maracatu Rural acontece no período de carnaval, festa em destaque no estado de Pernambuco.

Antes de receber o reconhecimento atual, o prestigiado maracatu passou por momentos menos felizes em sua trajetória. O maracatu nação tem sua origem nas festas de coroação dos Reis do Congo que aconteciam nos séculos XVII e XVII, portando atrelado à cultura africana, o que infelizmente acaba por relacionar-se a preconceitos de cunho racista.

Desde o início do século passado, o governo municipal da cidade do Recife insistia nas proibições aos batuques dos negros, mas após o I congresso Afro-Brasileiro as influências da cultura africana foram paulatinamente sendo incorporadas à cultura pernambucana. Hoje a figura do caboclo de lança é reconhecida em várias regiões do país e imediatamente associada à cultura e ao carnaval pernambucano.

A festa de carnaval, na concepção de Bakhtin, é o locus privilegiado da inversão, onde os marginalizados apropriam-se do centro simbólico, onde se privilegia o marginal, o periférico, o excludente. Terra de muita exploração, desde suas origens, Pernambuco perpetua-se sorrindo através de suas festas, de sua cultura. O povo explorado e trabalhador se fantasiam, vestem as máscaras e vivenciam o carnaval famoso por ser o melhor do mundo.   Para o mesmo autor “a máscara está longe de ser apenas um adorno de carnaval; ela desempenha uma espécie de função catártica ao libertar o povo, durante os dias de festividades, das rotinas cotidianas, da estagnação habitual”.

Mas a máscara que precisa cair é a do preconceito que vem em processo de desconstrução há tempos. Apesar deles ainda fazerem parte da sociedade como um todo, é reconhecida a importância das contribuições dos africanos e dos indígenas na formação da cultura popular de Pernambuco. Sem a influência destes grandes grupos étnicos a configuração cultural do nosso estado seria bem diferente da que é conhecida e apreciada por tantas pessoas. Gilberto Freyre reconhece estas contribuições:

Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente e espelhinho no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão remotas avós.

Outra apresentação ligada à constituição das comunidades negras em Pernambuco, e que detém forte influência indígena, é o Samba de Coco. Os quilombolas cantam enquanto praticam o ritual da quebra do coco para a retirada da “coconha” (amêndoa), essencial no preparo de alguns alimentos. No Samba, o tirador do coco, também chamado de coqueiro ou conquista, é quem puxa os versos que podem ser tradicionais ou improvisados, que são sempre respondidos pelo coro de participantes. A tradição possui inúmeras variantes: coco de umbigada, coco-de-embolada, coco-de-praia, coco de roda, entre outras.

Mas não é apenas na capital que as manifestações da cultura popular atuam. Na cidade de Pesqueira, agreste do estado, há o grupo Cambinda Velha, o grupo Cancão Piou e também o grupo dos Caiporas.

Reza a lenda, que tochas sobrenaturais apareciam em cima de árvores, assustando os caçadores do município de Pesqueira. As assombrações ficaram conhecidas como caiporas, que são seres que pregam peças em caçadores e cães. Para “acalmar” os caiporas, colocavam-se fumo e cachaça nos troncos das árvores. Para os moradores de Pesqueira, o caipora, figura do imaginário popular, é motivo de orgulho e alegria.

Trata-se, portanto, de uma cultura recheada de singularidades e histórias. Com muitos aspectos atrelados diretamente à geografia do território pernambucano. Nossa cultura é arraigada a valores de distintos povos, que no passado histórico sofreram explorações e muito trabalharam. Este povo mestiçou-se, e até hoje, faz-se referência aos amigos, como que num sinal de camaradagem, chamando-o de “caboclo”, ou de “caboclo véi”. Este caboclo é o pernambucano.

Referências Bibliográficas:

BANDEIRA, Manuel 1986 ‘O bicho’. Em Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.

BAKHTIN, M. M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1999.

CASTRO, Josué de. Fatores de localização da cidade do Recifeum ensaio de geografia urbana. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional. 1948

FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. 7ª edição. São Paulo: Global. 2004.

GUILLEN, Isabel Cristina. (organizadora) Tradições & traduções: a cultura imaterial em Pernambuco. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.

NETO, João Cabral de Melo. Morte e Vida Severina. Recife: Editora Tuca, 1968.

SILVA, Severino Vicente da. FREITAS, Walter. Encontros Culturais, Migração e Cultura em Pesqueira.

SILVA, Severino Vicente da. Da formação do Sertão ao Reinado do Baião. Texto produzido para a Escola de Samba Unidos da Tijuca.

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Caiporas+do+Carnaval&ltr=C&id_perso=920, acessado em 29 de junho de 2015.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 03 ago 2015 @ 11 28 AM

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