03 jul 2015 @ 12:58 AM 
 

Mozart era autosider?

 

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

CFCH

A IDADE MODERNA E O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Aluna: Isabella Puente de Andrade

Professor: Severino Vicente

Data: 17/06/2015

Recife

2015

Sumário

INTRODUÇÃO.. 3

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS. 4

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01. 7

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS. 10

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO.. 13

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 15

VI. BIBLIOGRAFIA.. 16

INTRODUÇÃO

A Idade moderna e o Processo Civilizatório foi uma disciplina onde houveram muitas novidades a cada leitura. A maior delas, e também o escopo desses estudos, é o aprofundamento do sociólogo Norbert Elias, que raramente é trabalhado em outras disciplinas.

Os historiadores estão sempre abertos às diversas ferramentas do conhecimento, para melhor compreender os processos históricos. Segundo o Professor Severino Vicente citou em sala um pensamento recorrente nos historiadores dos Annales, o bom historiador também deve estudar Psicologia, Geografia, Sociologia, amplamente apto à interdisciplinaridade para construir sua narrativa como historiador. Assim, devido à sua capacidade de traçar paralelos com tamanha eloquência entre as diversas áreas do conhecimento, Norbert Elias vem ensinando a trabalhar melhor com a conexão de diferentes disciplinas.

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS

Logo na primeira leitura, de autoria de Philippe Salvadori e organização de Véronique Sales, foi possível compreender a importância e peculiaridade desse sociólogo. A primeira frase, pois, que inicia o capítulo referente a Elias, do livro Os Historiadores, já traz a indagação “Norbert Elias historiador? Ele próprio se considerava sociólogo, ensinou e teorizou a Sociologia” (SALVADORI, 2011, p.139); reafirmando a necessidade de aprofundar sua obra, e entender porque é tão importante para os historiadores. E é como afirma Salvadori, onde a peculiaridade de Elias encontra-se na maneira de estudar a vida na corte real, retratada em A sociedade de corte, A civilização dos costumes e A dinâmica do Ocidente – livros que podem se passar por obra de historiador.

O meio acadêmico brasileiro sempre reverenciou o sociólogo Max Weber, desde o colégio até dentro da Universidade. Sua chama se colocou tão acesa que tomou para si quase toda a luminosidade da sociologia contemporânea, no meio educacional. Ou melhor, tão acesa que fez-se ofuscar outras fortes chamas, que por muito tempo permaneceram apenas como faísca. Tanto no meio acadêmico, como na própria vida de Norbert Elias, sua glória foi tardia, muito pela “grande sombra do sociólogo Max Weber”[1]. Apesar de muito ser influenciado por este, Elias afasta-se de sua grande teoria sobre os condicionamentos espirituais da vida material.

Um crítico de Marx e, portanto, mal visto por muitos historiadores marxistas (talvez por isso não seja tão trabalhado na academia), Elias decide por abordar a “sociedade de corte” sem o modo anedótico que fora sempre tratada, e sim como papel central na construção do Estado absolutista[2]. A originalidade do sociólogo em tratar não em termos de economia do consumo, mas de uma antropologia cultural do homem de corte faz da economia apenas um, dentre muitos outros, aspectos para compreender aquela sociedade.

Seguindo pela trajetória de vida bem peculiar tomada por Norbert Elias, entre os polêmicos cenários de Primeira e Segunda Guerra, é de destaque o momento em que é citado rapidamente por Salvadori sua vivência na Universidade de Gana[3]. Apesar do nacionalismo pulsante em suas veias, a arte africana, como aponta o autor, “falou mais diretamente às emoções de Elias que a arte originada na Renascença” (SALVADORI, 2011, p.144). Para a sombra eurocêntrica que rondava tantos intelectuais, é muito interessante que Elias apresentasse esse fascínio na África, continente o qual merece um estudo aprofundado, podendo assim trazer a devida visibilidade.

Apesar de ter suas principais obras, como reitera Salvadori, passando-se por trabalhos de historiador, Elias não era muito terno com esse ofício. Critica, pois, o fato do historiador acreditar-se dispensado de teorizar, cabendo ao sociólogo o papel de tirar a narrativa histórica da subjetividade[4]. Ora, sua crítica era muito bem vinda ao novo panorama que surgia entre os historiadores franceses entre 1920-1930. Assim como Elias, Marc Bloch e Lucien Febvre davam início ao advento de uma Nova História, menos um “arquipélago de fatos e de datas” e mais uma ciência aprofundada e teorizada.

Nesse capítulo de Philippe Salvadori dedicado a Norbert Elias, foi também possível ter um breve gosto de sua abordagem em A sociedade de corte. Como captado nas discussões em sala, os comportamentos dessa sociedade são transmitidos através de um processo informal, por meio do convívio, do olhar. O escopo da análise dessa estrutura de aparências dá-se, para Elias, na concorrência por prestígio entre os cortesãos. Esse tal “fetiche do prestígio”[5], disputado entre a nobreza de toga e a burguesia ascendente, restringia a vida dos integrantes do mundo cortês, os quais detestavam a etiqueta mas para atingir seus interesses era impossível separar-se dela.

Outro ponto importante para compreender a análise de Elias da sociedade de corte é a interdependência existente nas classes. Tomando como exemplo o Rei Sol na corte francesa, Luís XIV, “por mais poderoso que seja o soberano, ele é resultante das forças opostas que dão forma a seu poder” (SALVADORI, 2011, p.149). Elias não recusa a luta de classes, contudo reconhece o simplismo da imagem de um mero enfrentamento entre nobreza e burguesia, onde a corte, na verdade, produz súditos iguais na dependência e apenas hierarquizados no favor.

Elias não abandona seu interesse por uma psicologia histórica. A recorrente atenção ao “hábito” demonstra sua pretensão em explicar a formação psicológica dos indivíduos, a partir do processo histórico e das configurações sociais. Sua análise, de grande sucesso historiográfico na década de 1980, foi referência para intelectuais como Pierre Bordieu, Roger Chartier, Georges Vigarello, Stephen Mennell, Hubert Ch. Ehalt[6].

Porém, não tardou para que sua obra fosse alvo de contundentes críticas, como as feitas por Daniel Gordon e Jeroen Duidam.[7] O primeiro atenua a dimensão estratégica das boas maneiras, acusando Elias de negligenciar uma sociabilidade literária, assim como negligenciara os estabelecimentos de educação na difusão dos novos comportamentos. Mas, como citado anteriormente, ao discutir em sala chegamos à conclusão de como é importante salientar a transmissão dos comportamentos cortesãos através do convívio, do processo informal. Jeroen Duidam, por outro lado, aponta o risco que Elias corre ao se apoiar em pesquisas históricas obsoletas, entendendo ser problemático o laço do sociólogo entre curialização e civilização. Segundo Salvadori, a ausência do fator religioso também revela uma lacuna em sua análise. Sem, no entanto, deixar de ressaltar que a obra de Norbert Elias é de suma contribuição historiográfica e, apesar das críticas, um clássico.

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01

Foi estudado em sala a primeira parte da obra O processo Civilizador, e muitas informações inéditas surgiram. Visando tratar da sociogênese da diferença entre “kultur” e zivilisation” no emprego alemão, Norbert Elias embasa sua reflexão acerca da história dos costumes no Ocidente.

A concepção do conceito de civilização possuía um certo “lugar comum” ao ser estudada. Elias, contudo, destrincha esse conceito com a definição devidamente adequada para o termo, sendo civilização “a consciência que o Ocidente tem de si mesmo (…) ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou as sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’” (ELIAS, 1939, p.23).

Embora o conceito de “civilização” seja vigorado com imo nos costumes do Ocidente, Alemanha e França, ambas nações europeias e ocidentais, possuem diferente conceito para tomar esse significado. A ideia de “kultur” na sociedade alemã alude em primazia a fatos intelectuais, artísticos e religiosos. Enquanto “civilização” descreve um processo que está em movimento constante, “kultur” delimita, ao expressar a individualidade de um povo a partir de suas produções humanas[8]. O conceito de civilização, segundo Elias, enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou o que deveria sê-lo – na opinião dos que o possuem.

Foi novo abordar não o conceito de civilização, mas seu destrinchar tão claro feito por Elias. Seu poder de síntese em: “por mais diferente que seja a auto-imagem dos alemães, que falam com orgulho de sua kultur, e a de franceses e ingleses, que pensam com orgulho em sua ‘civilização’, todos consideram axiomático que a sua é a maneira como o mundo dos homens, como um todo, quer ser visto e julgado” (ELIAS, 1939, p.24), aproxima os dois conceitos por um breve momento, ainda que priorize suas origens de um conjunto de situações históricas distintas.

Desde a infância, como afirma Elias, é ensinado a ver o mundo sobre a lente desses conceitos. E, da mesma forma, com toda a produção intelectual e identidade nacional alemã, uma das maiores novidades na obra de Elias, de suma relevância histórica, encontra-se aqui: a corte alemã do século XVII e ainda no XVIII à sombra da civilização francesa. Quase como um choque. Tamanha é a naturalidade com a qual se absorve a afirmação intelectual alemã, que é difícil imaginar que apenas há três séculos atrás esta encontrava-se ainda tão pouco autêntica. A opção da burguesia pela valorização da língua alemã, pela produção própria daquela nação fragmentada, é justamente o que contrasta com a predominância da língua e costumes franceses na corte.

Ao tratar de exemplos de atitudes de corte na Alemanha, o autor destaca a situação alemã no século XVII, ainda não-unificada, com o comércio em declínio, pós Guerra dos Trinta Anos[9]. Com poucos recursos para luxos como literatura e arte, as cortes alemães, quando mais abastadas, imitavam a conduta da corte de Luís XIV e falavam francês. Elias cita Leibniz como o único grande alemão dessa época, que, apesar de intelectual, raramente utilizava o idioma nativo, apropriando-se da escrita e fala francesa ou latina. Como expressão desse enaltecimento às cortes da França, convém citar a frase da noiva de Gottsched, escrita em 1730: “Nada é mais plebeu do que escrever cartas em alemão”[10]. E, de fato, a corte falava francês, mas o povo falava alemão, cujo era visto pejorativamente por seu aspecto bárbaro. Até o próprio Frederico, o Grande, lamenta a rudeza de sua língua-mãe[11], assim como o escasso e insuficiente desenvolvimento da literatura alemã. Frederico vivia entre o paradoxo de uma política prussiana e uma tradição estética francesa, com sucessos militares e políticos que acendiam a autoconsciência alemã, porém sua atitude em questão de língua e gosto eram reverentes aos costumes franceses.

A pequena burguesia intelectual, contudo, num curto espaço de tempo que compreendia a segunda metade do século XVIII, passaria a ganhar espaço e visibilidade. Figuras como Immanuel Kant e Goethe já são exaustivamente inclusos na  formação de praxe, como grandes exemplos de intelectuais alemães dessa época. Mas Norbert Elias traz também intelectuais notáveis como Schiler, Lessing, Herder e Sophie de la Roche[12], os quais foram imprescindíveis para a ascensão da intelectualidade alemã que se afirmava.

Uma marca saliente na nobreza da corte era o controle dos sentimentos individuais pela razão, o comportamento reservado e a eliminação de todas as expressões plebeias. Em contrapartida, a burguesia, cada vez mais próspera, deleita-se com sua própria exuberância de sentimentos, exaltando a rendição às emoções do coração. Esta classe média tinha como representantes mais importantes da intelligentsia administrativa o clérigo e o professor, com expoente na universidade alemã em contrapeso com a corte. Segundo Elias: “por um lado, a superficialidade, cerimônia, conversas formais; por outro, vida interior, profundidade de sentimento, absorção em livros, desenvolvimento de personalidade individual” (ELIAS, 1939, p.37).

Norbert Elias demonstra a contemporaneidade dos conceitos de “civilização” e “kultur”, onde atribui-se para cada um padrão de indivíduo. Esses termos acabaram por assumir um estereótipo do francês, inglês e alemão, expresso em vários excertos como o de Nieztsche, com ironia, “o alemão adora a ‘sinceridade’ e a ‘integridade’” ou o de Fontane sobre a Inglaterra “o alemão vive para viver, o inglês para representar. O alemão vive para si mesmo, o inglês vive para os outros.”[13].

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS

“Os Estabelecidos e os Outsiders” é a obra de Norbert Elias capaz de expandir desmedidamente os horizontes. O sociólogo analisa a pequena comunidade de Winston Parva, localizada na Inglaterra, como modelo para uma teoria que se estende para a análise dos mais diversos espaços, das mais variadas sociedades.

Apresentando a edição brasileira da obra, o Doutor em Antropologia social e Professor da UFRJ Federico Neiburg traz uma profícua conceituação dos termos “establishment”, “established” e “outsider”. Originados na língua inglesa, esses conceitos são utilizados para “designar grupos e indivíduos que ocupam posições de prestígio e poder. Um establishment é um grupo que se autopercebe e que é reconhecido como uma ‘boa sociedade’, mais poderosa e melhor, uma identidade social construída a partir de uma combinação singular de tradição, autoridade e influência: os established fundam o seu poder no fato de serem um modelo moral para os outros. (…) Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da ‘boa sociedade’, os que estão fora dela” (NEIBURG, 2000, p.7).

Ainda a partir da apresentação de Federico Neiburg, um aspecto saliente na teoria de Elias é o afastamento da análise das relações de poder meramente através do conceito marxista de luta de classes. Como aponta Neiburg acerca da obra em questão, mesmo sendo Winston Parva uma comunidade relativamente homogênea, por apresentar semelhantes índices de renda e educação, não era essa a percepção daqueles que ali moravam.[14] Para os habitantes, era muito claro como dividiam-se os moradores em estabelecidos e outsiders, em que “Os primeiros fundavam a sua distinção e o seu poder em um princípio de antiguidade: moravam em Winston Parva muito antes do que os outros, encarnando os valores da tradição e da boa sociedade. Os outros viviam estigmatizados por todos os atributos associados com a anomia, como a delinquência, a violência e a desintegração” (NEIBURG, 2000, p.7). Dessa forma, Norbert Elias, juntamente a John Scotson, elabora um estudo capaz de esclarecer processos sociais de alcance geral na sociedade humana, com um inédito olhar da construção das desigualdades sociais.

O índice de delinquência mais elevado em um dos bairros da comunidade de Winston Parva foi o ponto de partida de Norbert e Scotson para a pesquisa[15]. O decorrer do estudo, no entanto, acaba por tomar um novo rumo, quando tal índice elevado de delinquência passa a cair. Elias e Scotson percebem o estigma dos antigos habitantes de que a zona dos habitantes mais recentes possuía mais delinquência. Assim, o problema é examinado muito além dos “casos elevados de delinquência”, em que a problemática geral estava nas relações entre as diferentes zonas de uma mesma comunidade.

Para tratar de “Os Estabelecidos e os Outsiders” foram abordados alguns tópicos em sala de aula para dinamizar a fixação do conteúdo. Entre eles, é profícuo ratificar a discussão feita sobre a crítica de Norbert Elias a Sigmund Freud[16]. Apesar de reconhecer a grande contribuição do psicanalista para a compreensão dos processos coletivos, Elias critica o fato de Freud definir o homem como um indivíduo isolado. A crença freudiana de que todo o homem é uma unidade fechada em si mesma – um homo clausus – perturba o sociólogo que, diferentemente da ótica do ser humano como indivíduo enclausurado em sua construção na infância, preza pela imagem do nós e do ideal de nós. Ou seja, as funções de autocontrole do indivíduo[17], para Elias, relacionam-se também com processos grupais que toda pessoa continua envolvida, não só na infância.

A imagem do “nós” que foge ao horizonte de Freud é, para Elias, essencial na percepção dos grupos estabelecidos. O amor-próprio coletivo é mantido através do reconhecimento auto engrandecedor desses grupos, inaptos a reconhecer o detrimento de sua posição independente em prol da interdependência inevitável que passa a existir entre esses e os recente chegados outsiders.

A mudança para uma dinâmica correlacionada com os que estão fora do establishment, em que nota-se o fraquejo da posição estabelecida costuma ser traumática. Contudo, antes passando pela crença dos estabelecidos em seu carisma e especialidade, agindo “como um escudo imaginário que as impede de sentir essa mudança e, por conseguinte, de conseguir ajustar-se às novas condições de sua imagem e sua estratégia grupais” (ELIAS, 1990, p.45). Dessa forma, fica claro para o sociólogo o quão irrealistas são as percepções de auto grandeza dos grupos estabelecidos, visto que se desfazem com as mudanças correntes.

Nesse complexo ensaio teórico de Elias, compreender como a imagem do nós se configura para o caráter “superior” dos estabelecidos é crucial. As fronteiras que são traçadas para distinguir grupos que se referem como “nós” e grupos que se referem como “eles” são construídas através de um dos recursos clássicos dos establishments sob pressão. Assim como o exemplo esmiuçado sobre as castas-párias indianas[18], a boa sociedade consiste em reforçar as restrições que seus membros impõem a si mesmos e ao grupo dominado mais amplo.[19]

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO

Em “Mozart – Sociologia de um gênio”, Norbert Elias traça uma íntima biografia sociológica da vida do gênio musical Wolfgang Amadeus Mozart. Desta obra, o foco foi no capítulo “A juventude de Mozart”, onde Elias esmiúça a parte da vida do músico que capta o cerne de sua mais preciosa teoria: Mozart era um outsider nas cortes as quais tentava se colocar.

Para a compreensão do momento juvenil da vida de Wolfgang Mozart, é imprescindível tomar conhecimento de uma das figuras mais importantes na vida do jovem, seu pai Leopold Mozart. Um servidor burguês no mundo da corte de Salzburgo, encontrava-se numa posição inferior inescapável, de um mero serviçal limitado por sua classe.[20] Assim, confiando no filho prodígio e ansioso por conseguir uma corte para Wolfgang que fosse diferente da de Salzburgo, maior mais bem situada, Leopold faz da vida do filho uma série de frequentes viagens com o intuito de que fosse reconhecido o seu virtuosismo. A necessidade de alcançar uma renda que superasse as despesas da família Mozart fez o jovem ser alertado da prioridade em ganhar dinheiro com sua música[21], que apesar de tamanha genialidade, encontrou sólidas barreiras entre os estabelecidos.

Norbert Elias configura os tais estabelecidos na aristocracia da corte, que enquanto classe ociosa, era típico desta exigir um completo programa de entretenimento. O gosto nas artes era ditado pelo consenso dos poderosos, os quais priorizavam uma variedade nas músicas tocadas a seu cortejo. A música, tendo que se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos[22], tinha como função primária o intuito de agradar os senhores e senhoras das classes dominantes. É incrível o entrelaçamento dos conceitos trabalhados em sala, visto que o que Mozart sofre constantemente é o processo civilizador ao qual está submetido.

A genialidade de Mozart encontrava seu reconhecimento subordinado aos padrões e etiquetas da sociedade de corte. Grande parte dos conhecidos do músico logo perdia o interesse por suas apresentações, ficando tediosa após algum tempo para a aristocracia detentora do “gosto nas artes”,[23] em que a maioria prezava por se divertir, apesar de haver uma parte da corte amante da boa música.

Revelando seu olhar de sociólogo, Elias analisa que o fato de Mozart não conseguir se colocar numa corte não estava ligado apenas à vil percepção da genialidade do músico pela aristocracia. Um homem tão jovem com aspirações tão altas acabava por assustar os responsáveis pela distribuição de cargos. Ainda agregando-se à personalidade de Mozart, longínqua da polidez social de Rosseau[24], habituado a dizer francamente o que sentia e pensava. Este possivelmente fora uma das grandes razões para seu insucesso de se estabelecer numa corte.

A dependência que Wolfgang Mozart possuía de seu pai certamente refletiu em muitos aspectos de sua vida. Elias aborda que o isolamento de Mozart em muito se deve às constantes mediações do pai[25], em sua juventude, que o fizeram nutrir cada vez mais sentimentos agressivos pela classe dominante da época. A não-identificação do gênio com o establishment aristocrático[26] relacionava-se ao seu almejo de ser reconhecido como músico e não pelo título, diferentemente dos anseios de seu pai.

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como essência de seu pensamento, Elias trouxe novos conceitos com os quais se faz possível trabalhar nos mais diversos espaços da sociedade, quanto ao estudo das relações de poder. Encaixando a teoria dos “estabelecidos e outsiders” tanto no século XIX como nesse século. Tanto na vida do músico alemão Wolfgang Mozart como na de um brasileiro qualquer, que também se enquadrasse como outsider. Os ditames do processo civilizador e seus efeitos são trabalhados pelo sociólogo de modo a encontrar uma teoria tão geral e bem fundamentada quanto cada uma das obras trabalhadas nessa disciplina.

VI. BIBLIOGRAFIA

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990.

ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011.


[1] SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011. p.141

[2] Idem. p.143

[3] Idem. p.144

[4] Idem. p.145-146

[5] Idem. p.147-148

[6] Idem. p.155

[7] Idem. p.157-158

[8] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990. p.24

[9] Idem. p.29

[10] Idem. p.30

[11] Frederico, o Grande, apesar de seu tamanho afeto e luta pela prosperidade da fragmentada Alemanha, disse sobre a sua língua nativa “Considero-a uma língua semibárbara, que se fraciona em tantos dialetos diferentes como a Alemanha tem províncias. Cada grupo local está convencido que seu patois é o melhor”. Idem. p.31

[12] Schiller foi autor de Die Rauber (Os Bandidos), em 1781. Lessing foi autor de Laokoon (Laocoonte), em 1776, e Die Hamburgische Dramaturgie (Dramaturgia de Hamburgo), em 1767. Herder escreveu as peças Sturm und Drang. Sophie de la Roche foi autora da série de romances Das Fräulein von Sternheim.

[13] Idem. p.49

[14] ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. p.7

[15] Idem. p.15

[16] Idem. p.41-42

[17] As funções de autocontrole do indivíduo, conceituadas por Freud, são o “eu” e o “super eu”. Essas seriam influenciáveis por certos aspectos da vida do ser humano, como os processos grupais de pai-mãe-filho, determinantes para a formação do homem logo na infância. Para Elias, porém, as funções de autocontrole eram também dependentes de outros processos grupais que toda pessoa é envolvida, da infância à velhice.

[18] Elias, ao discutir como nasce essa noção de “nós” e “eles”, traz o exemplo dos brâmanes e das castas-párias indianas. Faz-se necessário pô-las numa sequência temporal e contexto histórico que aprofunde a reflexão, para entender as fronteiras estabelecidas no establishment.

[19] Idem. p.46-47

[20] ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. p.86-87

[21] Idem. p.88

[22] Idem. p.89

[23] Idem. p.90

[24] Norbert Elias faz uma comparação entre a forma de Rosseau e Mozart de lidar com a corte aristocrata, ambos vindo da pequena burguesia. Enquanto Rosseau apresentava uma certa habilidade em manobrar as caricaturas sociais e agradar a aristocracia adequando-se ao processo civilizador, Mozart era um legítimo outsider, sem possuir tal dom de mascarar as emoções.

[25] Idem. p.97

[26] Idem. p.102

Tags Tags: , , ,
Categories: Sem categoria
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 03 jul 2015 @ 12 58 AM

EmailPermalink
 

Responses to this post » (None)

 

Sorry, but comments are closed. Check out another post and speak up!

 Comment Meta:
RSS Feed for comments
\/ More Options ...
Change Theme...
  • Users » 1
  • Posts/Pages » 181
  • Comments » 2,366
Change Theme...
  • VoidVoid « Default
  • LifeLife
  • EarthEarth
  • WindWind
  • WaterWater
  • FireFire
  • LightLight

02 de dezembro de 1870



    No Child Pages.