02 jul 2015 @ 12:32 PM 
 

AS CONTRIBUIÇÕES DAS OBRAS DE NORBERT ELIAS PARA ESTUDO DA SOCIEDADE MODERNA

 

AS CONTRIBUIÇÕES DAS OBRAS DE NORBERT ELIAS PARA ESTUDO DA SOCIEDADE MODERNA

*Bianca Cruz dos Anjos

RESUMO

Este artigo foi solicitado pelo professor Severino Vicente para a disciplina A Idade Moderna e O Processo Civilizador (Uma Leitura de Norbert Elias) e visa discutir as contribuições das obras de Norbert Elias para compreender a forma como as transformações sociais ocorrem ao longo da evolução humana, quais são os fatores internos e externos que constituem as relações entre o indivíduo e a esfera coletiva. Embora, as obras desse autor descrevam o processo de formação da sociedade moderna, observa-se que suas concepções transpõem a temporalidade que se aplica no seu estudo, os conceitos e ideias trabalhadas podem ser analisados na contemporaneidade, isso nos faz refletir a respeito de nossos próprios hábitos e costumes. Desse modo, as obras de Norbert Elias ressaltam que não há um projeto civilizador em cada nação, mas os atos singulares de cada indivíduo se somam a outras ações, resultando em uma rede relações, na qual se fazem presente os fatores psicológicos e sociais na construção da interindependência social.

PALAVRAS-CHAVE: Civilização, Comportamento, Norbert Elias, Psicogênese, Sociogênese.

INTRODUÇÃO

As obras de Norbert Elias apresentam como um material denso e rico que permite o surgimento de novas perspectivas e indagações acerca do processo e formação da sociedade ao longo da evolução humana, imprescindíveis para o conhecimento histórico e para concatenação de inúmeras reflexões acerca da sociedade em diferentes temporalidades.

Os aportes teóricos e metodológicos adotados pelo autor mostram a amplitude de fontes utilizadas em seus estudos, como também, ressalta a problematização dos dados colhidos em uma pesquisa, pois um estudo não se faz apenas com números, são pistas para trilhar as indagações acerca de uma concepção, os dados fundamentam e estruturam as ideias. Nessa linha de pensamento, observa-se o uso da interdisciplinaridade como uma ferramenta de amplitude dos horizontes de conhecimentos, não só do autor, como do leitor, o trabalho com abordagens Psicológicas sobre o desenvolvimento da civilização nos mostra que, embora pareça que os seres humanos sejam civilizados por natureza, nós possuímos uma disposição natural para nos adaptar, transformar e construir ao ambiente ao nosso redor, sobretudo, nossas relações em sociedade, de acordo com as circunstâncias externas e internas, logo, percebemos que a evolução humana trilhou o caminho da auto regulação individual de instintos do comportamento, frente às relações coletivas, o resultado disso será a interindependência social trabalhada pelo autor em suas obras, a sociedade é uma construção de laços coletivos, mas que se originam da singularidade de cada individuo na tentativa de construir um ambiente no qual todos exerçam uma função e siga determinadas regras de civilização.

Norbert Elias nos mostra que uma sociedade embora possua suas singularidades históricas e culturais, ela é fruto de uma rede relações com outras sociedades, além disso, a sua proposta de observar os processos de desenvolvimento e transformações sociais sob o ângulo da longa duração corrobora o fato de que não há rupturas bruscas no tempo, os valores e os hábitos não surgem e acabam do nada, a sociedade demonstra uma frenética dinâmica, mas a consolidação de valores e costumes é trilhada gradualmente sem que a gente perceba.

Dessa maneira, o conceito e o significado da palavra “civilização” não pressupõe sociedades modelos, com destinos sociais uniformes, com mentalidades comuns e específicas a um determinado período da história humana, Norbert Elias discute abertamente em suas obras que a sociedade se constrói na heterogeneidade de crenças e costumes, posto isso, a civilização se forma em termo de identidade, pertencimento a grupos ou a situações sociais concretas.

Dados biográficos

Norbert Elias nasceu em Breslau, 22 de junho de 1897, e veio a falecer em 1990, nos Países Baixos, onde passou a fase final da sua vida. Por ser de família judaica teve que fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França, se estabeleceu na Inglaterra onde passou grande parte de sua carreira.

Quanto à vida acadêmica de Norbert Elias, posso dizer que foi árdua e preenchida de obstáculos, pois seus trabalhos foram reconhecidos tardiamente, para explicar esse fato irei utilizar as circunstâncias sociais da época e o pensamento teórico e científico vigente na sua época. Seus trabalhos em alemão tardaram a ser reconhecidos e sofreram muitas críticas. Sua formação teve base nas áreas da Medicina, Filosofia, Psicologia e Sociologia, lecionou na Universidade de Heidelberg (1924-29) e na Universidade de Frankfurt (1939-33), onde teve Karl Mannheim por colega, mas foi na Universidade de Leiocester (1954-1962) que obteve seu primeiro posto de professor, ganhou também o Prêmio Adorno e se tornou doutor honoris causa da Universidade de Bielefeld.

Em linhas gerais, suas obras focam a relação entre poder, comportamento, emoção e conhecimento na História. Devido a circunstâncias históricas, Elias permaneceu durante um longo período como um autor à margem das regras epistemológicas de diversas ciências, tendo sido redescoberto por uma nova geração de teóricos nos anos 70, quando se tornou um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos.

Reflexões sobre as obras de Norbert Elias vistas em sala

Quando nos indagamos à respeito da questão do termo civilização e seu significado[1], levamos em conta o caráter ocidental, isto é, uma sociedade permeada pelo avanço da tecnologia, desenvolvimento científicos, as ideias religiosas e os tipos de costumes. É muito comum analisarmos a cultura e os processos políticos que regem outras sociedades através de um ângulo europeu, encontramos isso no nosso cotidiano quando nos referimos  aos conceitos, “sociedade oriental”  e “sociedade oriental” essa ideia não deve ser pensada pela dualidade geográfica e histórica, pois devemos analisar também os aspectos psicológicos e funcionais que cada grupo social constrói, nesse bojo de observações críticas à respeito das divisões e funções sociais de cada grupo conseguimos adentrar nos primeiros princípios adotados por Norbert Elias para se estudar as sociedades européias, são eles: a Psicogênese e a Sociogênese, que se somam a demais aspectos encontrados no processo de civilização, como a importância da cultura para formação de uma identidade, o uso do poder proveniente do acúmulo de bens ou até mesmo de conhecimento, são fatores relevantes na construção da postura de grupo, discutindo também sobre o autocontrole delineado por funções conscientes e inconscientes na evolução humana.

Diante da explanação desses aspectos que permeiam as principais concepções de Norbert Elias, considero fundamental analisar a civilização como um processo, isso dá nome a uma das obras do autor estudado, O Processo Civilizador, uma obra com teor extremamente interdisciplinar que conjuga abordagens que podem ser utilizadas para as observações da sociedade contemporânea, isso mostra o quanto o autor é importante para ser estudado em disciplinas que visam entender como uma sociedade se articula, como e quais são as regras seguidas pelos indivíduos, o que permeou as expressões e experiências sociais que originam uma nação.

Essa obra contém profundas reflexões acerca da construção da sociedade, definindo o conceito “civilização”, Elias procura desvendar e investigar a formação de cada regra de conduta e comportamento dos grupos sociais, nesse panorama de pesquisa o autor vai aplicar seus métodos, um deles é o estudo particular de um caso, por meio da visão microssocial do fato, ele vai trilhar os meandros sociológicos, notificando os aspectos culturais, até chegar a uma totalidade, ou seja, uma visão macrossocial  formada por cada ponto particular do seu estudo, resultando em um novelo de conhecimentos e acontecimentos que se relacionam entre si.

Somado ao uso da longa duração para compreender a construção da sociedade, há a demarcação do tempo e do espaço, o autor tem um faro de historiador, pois problematiza e concatena os acontecimentos para uma melhor compreensão do leitor, deixando claro que a individualização não se isola do contexto coletivo, na verdade, Elias acredita na ideia de interindependência entre as relações sociais, como um fator primordial para o processo de civilização. Dessa maneira, analisando o método elisiano, a Sociologia trabalha com modelos de sociedade, procurando compreender melhor a dinâmica social, isso não implica dizer que não há transformações na ordem e na estrutura do desenvolvimento de cada sociedade, ela não está em repouso, mesmo  sob a perspectiva do tempo da longa duração.

Elias fez uso da Psicologia e da História, como ferramentas teóricas na sua concepção de enxergar as sociedades e os fenômenos sociais que estudou, pontos marcantes dessa interdisciplinaridade podem ser vistas nas entrelinhas de suas obras, como: o fator psicológico envolvido na ação de cada grupo, como se formam e dividem as funções entre si, a distinção entre um grupo dominador e um dominado e os pontos de convergência estabelecidos por acordos entre dois grupos distintos.

A Psicogênese inserida no método elisiano corresponde ao desenvolvimento da sociedade sob uma perspectiva da longa duração, visando compreender a evolução da personalidade humana e as transformações comportamentais, o indivíduo, ao longo da evolução humana, assumiu um autocontrole sob sua vida, orientado por fatores exteriores que são internalizados e levando até a disciplinização, essa regra de conduta, ou seja, a disciplina é um dos pontos que regem a civilidade, o autocontrole se alia também ao uso do poder, seja ele físico ou verbal.

Mas se fosse consciente ou inconsciente, a direção dessa transformação da conduta, sob a forma de uma regulação crescentemente diferenciada de impulsos, era determinada pela direção do processo de diferenciação social, pela progressiva divisão de funções e pelo crescimento de cadeia de interindependência nas quais, direta ou indiretamente cada impulso, cada ação do indivíduo tornavam-se integrados. (ELIAS, 1994. p.196)

A civilidade carrega consigo a disciplina e o processo de individualização frente a imposição de regras elaboradas por certo grupo social, esses dois aspectos estavam presentes na educação de Mozart, como vemos na obra Mozart,  Sociologia de um Gênio, essa produção traz consigo vários pontos abordados nas outras obras do autor, como a questão da etiqueta, comportamentos estabelecidos por um certo grupo, exclusão e reconhecimento de um indivíduo na sociedade e adaptação do indivíduo as convenções sociais, para que ele possa adentrar em algum grupo social. Ao longo da descrição biográfica de Mozart, Elias nos permite observar a dinâmica social de um grupo ao partir de indivíduo, contudo sem isolá-lo, tornando-o como uma figura única nos desdobramentos dos fenômenos, ressaltando como  Mozart se torna o produto das dependências entre os indivíduos que constituem uma sociedade, além disso, nos faz enxergar a importância de cada âmbito social no qual o indivíduo se insere, pois é nesse espaço que as pessoa constroem suas vidas, significados pessoais e coletivos.

A música, como já se disse, não existia primariamente para expressar ou evocar os sentimentos pessoais, as tristezas e as alegrias das pessoas individualmente. Sua função primária era agradar aos senhores e senhoras elegantes da classe dominante. O que não quer dizer que nela não estivessem presentes as qualidades a que nos referimos com termos como “seriedade” ou “profundidade”, mas, simplesmente, que ela tinha de se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos. (ELIAS, 1995, p.89)

A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses, considerados outsiders em uma sociedade regida pelas ordens aristocratas, presentes na corte, uma época em que o equilíbrio de forças ainda era muito favorável a figura cortesã, mas não a ponto de consolidar todas as expressões de subversão as estruturas sociais consolidadas por esse grupo dominante, mas esses aspectos de se livrar das amarras aristocratas, poderiam ser vistas timidamente na esfera cultural. Como um burguês outsider a serviço da corte, Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores. Fez isto com seus próprios recursos, em prol de sua dignidade pessoal e de sua obra musical, mas acabou sofrendo com a decisão tomada, é nessa perspectiva que se centra a obra, mostrando o quanto a individualização sofre as interferências dos interesses coletivos, libertar-se das ordens de um grupo social em busca da realização pessoal, era muito mais complicado na época de Mozart, já que a escolha de se estabelecer como artista autônomo ocorreu numa época em que a estrutura social ainda não oferecia tal lugar para músicos ilustres.

A maior parte das pessoas que seguiam uma carreira musical não era de origem nobre e se quisessem ter sucesso na sociedade de corte, e encontrar oportunidade para desenvolver seus talentos como músicos ou compositores eram obrigados, por sua posição inferior, adotar os padrões cortesãos de comportamento e de sentimento, não apenas nos gosto musical, mas no vestuário e em toda a sua caracterização enquanto pessoas. Não havia, portanto, apenas uma nobreza de corte, mas também uma burguesia de corte é nesse cenário que Norbert Elias trabalha as maneiras pelas quais um indivíduo poderia sobressair as regras impostas por certos grupos sociais e quais as estratégias destes para submeter esses indivíduos inferiorizados.

Permanecendo nessa linha de pensamento sobre as relações sociais, nas quais o poder sempre se faz presente, ressalto que o poder, muitas vezes, é manipulado por certo grupo, e as principais estratégias do uso desse poder se relacionam com condicionantes psicológicos e sociológicos, como podemos observar na obra Os Estabelecidos e Outsiders que descreve e reflete sobre as condições sociais de dois grupos instalados em Winston Parva, Londres, os dois grupos pertenciam mesma classe social, eram operários e não se diferenciavam nem por cor e questão econômica, mas havia uma divisão entre eles, então qual o motivo da divisão social entre indivíduos que aparentemente viviam a mesma realidade ? A tradição se mostrou um como um elemento primordial para instalar essa distinção entre indivíduos que convivem em um mesmo ambiente, tornando-se um instrumento de poder, a tradição e os costumes dos grupos mais antigos não se articulavam com os moradores novatos que chegavam na área, de acordo com Elias, os estabelecidos são  considerados grupos com um caráter mais homogêneo e que apresentavam interesses em comum, como também possuem inúmeras maneiras de fazer uso do seu poder diante dos outsiders, que são definidos como aqueles indivíduos que não conseguem adentrar em certo grupo social, por não atender as regras impostas por tal grupo.

Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa sociedade”, os que estão fora dela. Trata-se de um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos do que aqueles que unem os eslablished. A identidade social destes últimos é a de um grupo. Eles possuem um substantivo abstrato que os define como um coletivo: são o establishment. Os outsiders, ao contrário, existem sempre no plural, não constituindo propriamente um grupo social.

(NEIBURG, 2000, p.7)

Nesse caso de Winston Parva, o panorama cultural e social visto por Elias em sua pesquisa de campo, um dos métodos da Sociologia, nos mostra de perto e de maneira direta como a sociedade se comporta diante de algumas circunstâncias, pois se percebe que a comunidade de Winston Parva mantém suas interconexões e interdependências na medida em que a força da tradição prevalece, isto é, quanto mais antigo fosse o grupo instalado mais privilégios ele teria.

Embora, a Sociologia esteja sob os pilares da pesquisa estatística, Norbert Elias não descreve apenas fatos e números, a estatística não suplanta as características qualitativas, isto é, a análise dos interesses e das ações tomadas por cada grupo, que formam a sociedade. Elias descreve que a noção de antigo e novo transita no encadeamento de fenômenos sociais presentes em Winston Parva e isso afeta diretamente o modo pela qual cada grupo vai e comportar diante do outro.

O papel desempenhado neste estudo pela “antigüidade” e “novidade” relativas dos bairros é um exemplo disso. Ele deixa claro que os fenômenos examinados tinham uma dimensão histórica e que a descoberta de índices quantitativos, mesmo que se incluísse o “tempo de residência”, não seria suficiente para dar acesso às diferenças configurativas, estruturais, a que se referiam os rótulos de “antigo” e “novo”. (ELIAS, 2000, p.59)

Diante desses questionamentos, Elias transgrede o próprio campo de formação, a Sociologia, e adentra na História, observa-se que a linha que divide as duas ciências se apaga, para entrar em cena a interdisciplinaridade, integrando-se aos aportes teóricos-metodológicos da História, o autor situa no tempo e no espaço os fenômenos concernentes a Winston Parva, para descrever o bairro operário, ele faz uso de uma retrospectiva histórica para delinear os principais desdobramentos dos dois grupos que lá viviam, desse modo, Elias procura refletir sobre as principais estratégias de interiorização da imagem que cada grupo faz de si, já que o grupo dominante não faz uso da violência e da força para subjugar o grupo inferiorizado, o uso do poder se mantém intrínseco aos costumes e as tradições presentes no cotidiano do bairro, além disso,fica claro a relação de interindependência entre os dois grupos, porque quem tinha uma visão externa da comunidade acreditava que ela era homogênea, mas não era, a percepção de quem vivia no bairro era outra.

Nessa linha de pensamento, a pesquisa de Elias e John Scotson nos mostrou que nenhuma comunidade é tão integrada ao ponto de haver uma equidade total, mesmo sendo uma pesquisa local, podemos levar os questionamentos para uma esfera macrossocial, trazendo para nossa realidade, como disse o professor em sua aula  alunos de uma mesma sala em uma universidade pertencem a uma mesma realidade naquele espaço que se constitui o seu cotidiano de estudo, mas fora da instituição de estudo,eles são diferentes entre si, ou pela classe social ou pelos interesses políticos,todos os aspectos que formam a sociedade são delineadores das disparidades entre grupos sociais.

Os Estabelecidos e Outsiders pode até ser um reflexo da vida de Norbert Elias, mas, os conceitos presentes em suas obras não se limitam a descrever a sociedade do seu tempo, suas reflexões transitam em diferentes temporalidades, é esse um dos pontos mais importantes da leitura de suas obras. Os questionamentos e descrições encontrados nessa obra, nos mostram como nossa sociedade está em movimento e o quanto somos presos a uma só explicação para os fenômenos, a interdisciplinaridade de Norbert Elias demonstra que a historia de uma nação não é unívoca, devemos estar atentos as raízes históricas e os processos de formação da sociedade. Winston Parva traz em seu bojo social as atualidades do nosso cotidiano, como a superioridade de um grupo se consolida, onde o reconhecimento e a exclusão não se constroem apenas pelo uso da força, os fatores psicológicos são fundamentais para essa lógica de poder entre dominadores e subordinados, nenhum grupo social se subordina facilmente, o grupo deve se sentir em uma condição de inferioridade e estigma, pois, se não houvesse essa condição de “aceitação de imagem” sempre haveria conflitos permanentes em uma sociedade.

A concepção de ser civilizado sempre esteve muito presa à noção ocidentalizada de ver os comportamentos do indivíduo, logo, para ser um indivíduo civilizado era necessário seguir os padrões europeus determinados pelas nações mais desenvolvidas, esse desenvolvimento era referente, sobretudo, aos aspectos políticos e intelectuais, não é por acaso que a França por muitos anos foi a nação modelo para as expectativas dos outros países, exemplo disso está formação das classes sociais na Alemanha no século XVIII, é óbvio que outros fatores acentuaram a demora pela formação de uma identidade nacional entre os alemães, e na busca pela construção de uma cultura própria, seguindo, muitas vezes, os aspecto intelectuais difundidos pela França.

Norbert Elias discorre sobre os contrastes entre as classes sociais, como também, menciona as atitudes da corte para com a classe media em ascensão. O termo que mais se aplica a essa situação é o conceito intelligentsia, que se refere às realizações intelectuais e artísticas, no entanto havia um estrato social que embora tivesse poder, não costuma “realizar” nada, e dependia de uma classe inferior que tinha muitos dotes intelectuais. Comparando muitas estruturas sociais da Alemanha com a França e Inglaterra, podemos perceber que de início não havia um valorização da cultura alemã, devido à fragmentação territorial que resultava na existência de vários dialetos, considerados semibárbaros, a língua francesa era padrão para o uso do corte, pois transparecia algo mais “civilizado”. Isso também acarretava contrastes sociais, pois as tarefas que eram realizadas pela classe média na Alemanha, quem realizava na França eram os aristocratas, desse modo, percebemos que quem vai criar uma esfera intelectual na Alemanha é a classe média.

Se o indivíduo fala alemão, é considerado de bom tom incluir tantas palavras francesas quanto possível. (ELIAS, 1994, p.30)

Atualmente, em pequenos detalhes do nosso cotidiano podemos observar reminiscências da influência européia para a construção da civilidade brasileira, isso se verifica na historia da indumentária e da moda desde a colônia ate o Império, a roupa era um elemento de distinção social, cada tipo de roupa exigia certas regras de etiqueta, comportamentos orientados pelos costumes europeus, de origem francesa e inglesa que se faziam presente no Brasil desde o uso do chapéu ate a forma do penteado das senhoritas.

Foi importado para o Brasil o sistema europeu em que se estabeleciam regras rígidas de como cada grupo social se apresentar em publico. Naquele continente, a alta e a pequena nobreza, o clero, os negociantes, os cortesãos, os trabalhadores braçais, as prostitutas, os servos, os judeus, todos tinham obrigações e restrições quanto ao uso de determinados tecidos e outros pequenos luxos. É interessante observar não apenas a moda da aristocracia, mas, sobretudo, os esforços da população em geral em imitar poderosos. O estudo da indumentária também pode nos ensinar muito sobre as relações sociais e raciais desde os primeiros tempos de colonização. (RASPANTI, 2011, p.185)

Considerações finais

Anteriormente a esta disciplina não tinha lido nenhuma obra de Norbert Elias, e a disciplina atendeu justamente minhas perspectivas, que eram: conhecer o autor, visando compreender seus métodos de pesquisa, se era possível aplicar suas teorias na realidade, sua importância para os meus estudos e como profissional na área de pesquisa em História.

Sendo assim, achei enriquecedor os debates em sala de aula, pois mostraram o quanto as obras e as concepções de Norbert Elias se aproximam da nossa realidade, mesmo que ele fosse um homem do seu tempo e procurasse entender a sociedade moderna. São as indagações do presente que se voltam para o passado, as épocas passadas se refletem no nosso cotidiano, as suas obras nos permitem compreender a importância da História, como também, da Sociologia e Psicologia como ferramentas teóricas para investigar os fenômenos sociais inseridos em uma rede dinâmica de relações pessoais e coletivas.

Recomendo a todo estudante e profissional das Ciências Humanas a ler as obras de Norbert Elias e ver a dimensão de conhecimentos contidos em suas reflexões e teorias, além de escrever muito bem, o autor problematiza as temáticas relevantes do nosso cotidiano, pois ainda temos costumes e valores frutos da sociedade moderna, observando a construção da civilização e da identidade nacional na Alemanha e na França.

Referências

DEL PRIORE, Mary; AMANTINO, Márcia (Orgs.) História do corpo no Brasil.São Paulo: Ed. UNESP, 2011.

ELIAS, N. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1994, v I e II.

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

ELIAS, Norbert; e SCOTSON, John. L.; Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


* ANJOS, B. C. Graduanda em História-Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco.

[1] Na sua obra O processo Civilizador, volume 1, Norbert Elias procura refletir sobre o conceito e significados dados ao termo civilização.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 02 jul 2015 @ 12 36 PM

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02 de dezembro de 1870



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