20 fev 2015 @ 11:22 PM 
 

ASCENSÃO E QUEDA DAS LIGAS CAMPONESAS EM PERNAMBUCO

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

DISCIPLINA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

2014.2

ARTIGO

ASCENSÃO E QUEDA DAS LIGAS CAMPONESAS EM PERNAMBUCO

Paulo Marcelo Medeiros de Albuquerque e Mello


Resumo

Este artigo analisa as Ligas camponesas em Pernambuco desde a sua formação até a total desarticulação em 1964. O início das Ligas camponesas ocorreu em janeiro de 1955 no Engenho Galiléia na cidade de Vitória de Santo Antão-PE como resultado de uma série de dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores rurais ao longo do processo de formação da sociedade pernambucana.

Abstract

This article analyzes the peasant leagues in Pernambuco since its formation until the total disarticulation, in 1964. The beginning of the peasant leagues took place in January 1955 in Galilee sugar Mill, located in the Vitoria de Santo Antão city, (Pernambuco, Brazil) as a result of several difficulties faced by rural works in the formation process of the society of Pernambuco.


Palavras-chave: esquerda, Reforma – agrária, revolução.

Keywords: lefet-wing party

Land reform, revolution,

1)      INTRODUÇÃO:

Este artigo é parte integrante da cadeira História de Pernambuco, ministrada pelo professor Severino Vicente da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Apesar de existirem outras experiências na história brasileira que retratam o fenômeno das ligas Camponesas, o principal indutor deste movimento no Brasil foi o nascimento em 1 de janeiro de 1955 da Sociedade Agrícola de Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP).

Como coloca Camargo (CAMARGO, Aspásia, in Francisco Julião, uma biografia, Aguiar Cláudio p. 146).

“assim conhecidas foram precedidas de alguns movimentos de natureza idêntica que, em virtude de seu isolamento, não tiveram a mesma repercussão social e política. Este seria o caso, por exemplo, do conflito do Precato, no norte do Paraná (1950-1951) e do movimento do Formoso (1953-1954), que, no entanto, influíram de maneira durável nas respectivas áreas de origem. O movimento que ficou nacionalmente conhecido como Liga Camponesa iniciou-se, de fato, no Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão, nos limites da região do Agreste com a zona da Mata de Pernambuco

Desta afirmação da professora Aspácia Camargo¹ podemos aferir a importância deste movimento para as conquistas sociais no Brasil. Idealizada pelo agricultor José dos Prazeres, a Associação contou, com os decisivos serviços do advogado Trabalhista e Deputado Estadual Francisco Julião para a sua constituição legal. A SAPPP era localizada no engenho Galiléia² na cidade pernambucana de Vitória de Santo Antão. Como parte das festividades que marcaram os sessenta anos da SAPPP foi inaugurada no dia 1 de janeiro de 2015 uma biblioteca com um monumento que simboliza a luta pelos direitos no campo no Brasil. A biblioteca tem o nome de José Ayres dos Prazeres o acervo tem em torno de 5,5 mil obras. Apesar de hoje termos nos comandos da Presidência da República do Brasil e do Governo do estado de Pernambuco governantes integrantes da chamada “esquerda brasileira” a iniciativa da construção da biblioteca, não foi do governo Federal, nem tão pouco do governo do Estado de Pernambuco ela veio dos esforços de um homem do povo o motorista aposentado Zito da Galiléia que na verdade é sobrinho de um dos agricultores fundadores da Sociedade Agrícola e que até hoje ainda reside no engenho Galiléia. Este fato indica como tratamos a nossa memória política e social. A arrecadação do dinheiro para construção da biblioteca, que pretende resgatar o legado das pessoas que no passado lutaram por conquistas sociais, veio exclusivamente da venda de um DVD (Documentário – A Liga que ligou o Nordeste- 26’) e de poucas doações de particulares, portanto sem nenhuma ajuda do poder público. O nome escolhido para a biblioteca-José dos Prazeres- tem a intenção de fazer uma repararão histórica naquele que um dia fundou a SAPPP, o seu idealizador espera que haja um resgate do patrimônio histórico da sua comunidade. Contudo, em matéria publicada no dia 11/01/2015 no jornal Diário de Pernambuco seu Zito confessa “Fico sozinho falando para o povo”. A intenção de realizar este artigo, também vai nesta mesma linha, ou seja, preservar a memória dos movimentos sociais. O movimento intitulado de Ligas Camponesas foi executado por militantes que apesar de alguns erros de avaliação, de planejamento e de execução estavam embasadas em sentimentos de melhoria das condições sociais e obstinadas por uma mudança da realidade social do Brasil, sentimento que hoje em dia anda bastante escasso nesse nosso mundo contemporâneo assolado por consumismo e egoísmo. Durante a fase de pesquisa para elaboração deste artigo fiquei impressionado com a falta de conhecimento das pessoas, com quem tive contato, sobre as Ligas Camponesas. Nas próximas páginas deste artigo, procurarei traçar um histórico das Ligas camponesas que atuaram em Pernambuco a partir de 1955 até o advento do Golpe Militar em 1964.

2-ANTECEDENTES HISTÓRICOS QUE CONTRIBUIRAM PARA A FORMAÇÃO DAS LIGAS CAMPONESAS.

O meio ambiente de propagação das Ligas Camponesas foi o mesmo dos engenhos de cana-de-açúcar no Nordeste. Para entendermos melhor esta dinâmica é preciso historiar as modificações e permanências em que estiveram inseridos os trabalhadores braçais que na verdade foram a mola propulsora que sustentaram a economia açucareira.

Em 1535 Duarte Pereira Coelho4 chegou a Pernambuco com o firme propósito de plantar cana-de-açúcar, para isso, escreveu ao rei solicitando permissão para utilizar escravos em sua capitania, portanto, já na sua formação o processo de plantio da cana tinha uma matriz excludente. Os engenhos então se multiplicaram tendo como base a exploração da mão de obra escrava e sobre uma orientação para enriquecimento de uma elite canavieira. Mesmo com a dominação holandesa em Pernambuco (1630-1654), esta realidade não se alterou. Com a saída dos Holandeses do Brasil houve um aumento na concorrência do comércio de açúcar, pois os holandeses de posse das novas técnicas, implementaram uma grande competição, isto gerou dificuldades para a produção de açúcar no Nordeste. No entanto, na última metade do século XVIII, aumentou a demanda européia pelo açúcar brasileiro motivada pela crise do açúcar das “Índias Ocidentais”. Com isso, os donos de engenho continuaram a ter um controle absoluto que extrapolavam as suas propriedades.

Como coloca Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.34).

“Inevitavelmente o sistema político que evolui dessa estrutura neofeudal estava destinado a ser preservado, senhores de engenhos da zona açucareira e grandes proprietários de todo resto do nordeste assumiram o papel de chefes políticos dos seus arredores imediatos. Tornaram-se conhecidos como coronéis”

Mesmo com a abolição da escravatura a situação dos negros que viviam nos engenhos quase não mudou. Eles continuaram dependentes dos antigos proprietários. Neste momento, a relação entre patrão e rendeiro começou a ser regida pelo sistema de cambão, neste sistema o rendeiro teria que pagar a renda em trabalho e não em dinheiro. Além da perda de força econômica do Nordeste em relação ao sudeste, face o incremento dos cafezais, houve paulatinamente uma mudança profunda na produção do açúcar. É o momento do surgimento das Usinas. Esta mudança trouxe um refinamento ainda maior do poder econômico e político local, pois só alguns proprietários de engenhos se transformaram em Usineiros. Estes tinham créditos garantidos ofertados pelo governo de Pernambuco. O fato é que em 1950 um grupo pequeno de usineiros resistiu às mudanças estruturais e financeiras. Esta elite mantendo suas tradições seculares gastava os seus dividendos em festas e viagens ao exterior, não reinvestindo os recursos na produção industrial, este fato gerou entre os anos de 1950, um descompasso econômico entre a produção açucareira nordestina em relação à recém instalada produção açucareira do sul bem mais modernizada. Isto tudo gerou uma dependência ainda maior dos usineiros aos recursos governamentais enquanto seus trabalhadores continuavam explorados, sem nenhuma proteção do Estado brasileiro e a mercê da elevação dos gêneros alimentícios. Na verdade, eles trabalhavam basicamente para pagar o armazém de comidas. Naquela época, o tipo mais comum de trabalhador de cana era o morador que vivia com toda família no casebre do engenho sem nenhum direito de permanência, totalmente subordinado aos ditames dos Usineiros. Sem água, luz e saneamento básico, sem apoio médico, escola, etc. Segundo Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p. 40).

“Até a década de 1960, nenhum desses trabalhadores gozava de qualquer proteção legal efetiva, pois antes desse tempo as poucas leis que existiam em seu benefício nunca eram praticadas. Eles viviam assim fora dos processos legais e políticos e fora da economia monetária”

Ou mesmo segundo Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.45).

“Esse era o cenário do qual emergiam as Ligas Camponesas. Os primeiros membros da liga eram rendeiros e trabalhadores assalariados da zona do açúcar. Suas atitudes ações e reações refletiam um ambiente que tinha mudado muito pouco durante séculos. O mesmo poderia ser dito dos proprietários de engenho e das famílias de classe alta que controlavam a riqueza do Nordeste”.

3)      ATUAÇÃO DAS LIGAS CAMPONESAS NO PERÍODO DE 1955 A 1964.

As Ligas Camponesas sugiram na segunda metade dos anos 1950 em Pernambuco, como a uma forma de mobilização dos trabalhadores rurais em defesa de suas reivindicações baseadas na reforma agrária e na extensão de direitos trabalhistas ao campo. Na verdade, a nomenclatura Ligas Camponesas não partiu do comando do movimento e sim da imprensa pernambucana, principalmente do Diário de Pernambuco e do Jornal do Comércio, que tentou vincular de maneira pejorativa o movimento às práticas subversivas. Como explica Aguiar (AGUIAR, Claudio, in Francisco Julião, uma biografia ,p.146,147).

“Julião costumava dar ênfase ao fato de que foi a imprensa, sobretudo a do Recife, que vinculou suas iniciativas políticas às das Ligas, mas, a princípio, com o objetivo de queimá-lo como comunista, agitador, subversivo, incendiário etc. O noticiário aparecia inclusive nas páginas policiais. Segundo Julião foram os donos dos jornais recifenses que crismaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco com o nome Ligas Camponesas”

Como dissemos anteriormente, a formação das Ligas Camponesas esta relacionada com o surgimento da SAPPP, José dos Prazeres agricultor e residente no engenho Galiléia, tomou a iniciativa de formar a sociedade, pois a qualidade de vida no engenho era muito precária. O engenho que possuía cerca de 500 hectares havia deixado de produzir açúcar desde 1930, seu proprietário repartiu as terras com os camponeses rendeiros que tinham que mensalmente pagar o administrador do engenho, com dinheiro ou colheita. Este processo deixou os moradores expostos às mazelas do sistema capitalista. Sendo assim, José dos Prazeres pensou em uma Fundação de ajuda mútua, para que os camponeses com contribuições mensais pudessem estabelecer um fundo que seria utilizado para educação dos seus filhos e formação de uma cooperativa de crédito para aquisição de sementes e defensivos agrícolas. Além disso, pretendia constituir um fundo para despesas com os funerais dos camponeses e de seus familiares.

A princípio a ideia foi aceita pelo proprietário do engenho, contudo como destaca Porfírio (PORFÍRIO, Plabo, in Medo, Comunismo e Revolução, p, 23)

“Fernando Azevedo5em seu estudo sobre as Ligas Camponesas, afirma que, a princípio o senhor Oscar Beltrão, dono do engenho, teria recebido e aceito o convite para ser presidente de honra daquela Sociedade Agrícola. Contudo, após ser alertado de um possível caráter comunista da mesma, o dono do engenho ordena o fechamento da SAPPP. Os camponeses não acataram tal ordem e passaram a buscar auxílio de autoridades públicas, a fim de lhes ajudarem no conflito com o senhor Oscar Beltrão”.

Neste momento, os agricultores procuraram apoio nas autoridades constituídas em Pernambuco, primeiramente foram rechaçados pelo então Governador Cordeiro de Farias6, depois consultaram alguns advogados, mas todos cobraram quantias absurdas para os defenderem. Na assembléia legislativa encontram apoio no advogado e Deputado estadual Francisco Julião, que aceitou defende-los sem custos. Julião tinha na verdade raízes no campo, nascido em Bom Jardim – PE, no dia 16/2/1915-este ano se completa 100 anos de seu nascimento- seus avós eram proprietários de Engenhos, tanto que o próprio Francisco Julião era dono de alguns hectares de terras no interior do Estado. Porém Julião trilhou a linha acadêmica, chegando em 1939 a concluir o curso de Direito na Faculdade do Recife. Durante os seus estudos Julião começou a ter acesso às obras Marxistas7 as quais alicerçaram sua estrutura de pensamento em prol da melhoria qualidade de vida dos oprimidos, este suporte vinha no bojo de sua visão humanitária proveniente de uma formação religiosa cristã. Antes mesmo do surgimento da SAPPP Julião já dedicava parte do seu tempo de labuta na defesa dos camponeses contra a exploração dos patrões. A sua vida política foi inaugurada no Partido Republicano (PR), contudo só conseguiu uma cadeira na assembleia Legislativa em 1954 quando já era integrante do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

Este encontro entre Julião e a SAPPP na verdade se processou de maneira altamente positiva para os dois lados, pois fez com que a Sociedade encontrasse um porto seguro para a efetivação de suas reivindicações e o político Julião encontrou uma entidade que poderia alavancar os seus projetos políticos saindo de ações pontuais para um universo de amplitudes coletivas e nacionais. A princípio Julião providenciou que a SAPPP fosse registrada obedecendo às leis do Estado. Na Sociedade, ele era o representante legal e presidente honorário. O deputado defendia a SAPPP em dois campos de ação, um nas barras da justiça e outro na ALEPE.

Esta não foi uma tarefa fácil como indica Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve p. 60).

“A estrutura do poder na zona rural não aceitava de bom grado nenhum tipo de organização camponesa”.

As ações do governo do Estado estavam equalizadas com os interesses dos proprietários de terra como assinala Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.61-62).

“A atitude do governador do de Pernambuco, general Cordeiro de Farias, foi o que mais contribuiu para este “reino de terror” nos anos iniciais do movimento das ligas camponesas. Ele adotou uma posição inflexível em favor da lei e da ordem”.

Mesmo assim, as Ligas Camponesas se multiplicaram de maneira exponencial como destaca Porfírio (PORFÍRIO, Plabo, in Medo, Comunismo e Revolução, p, 24)

“Na segunda metade da década de 1950, a mobilização dos camponeses por melhores condições de vida passou a ser o tema da imprensa, principalmente a partir da realização do Congresso de Salvação do Nordeste, em 1955, cujos debates procuraram desassociar a questão da seca dos aspectos geográficos. Outro evento que contribuiu para dar destaque à luta dos trabalhadores rurais foi o 1° Congresso de camponeses de Pernambuco organizado pela SAPPP, com participação de aproximadamente 3.000 camponeses. O congresso ajudará, de forma decisiva, a tornar cada vês mais conhecida a organização dos camponeses do Engenho Galiléia, além disso, utilizando-se de cordéis cantados nas feiras livres dos municípios do interior, de panfletos e de reuniões para mobilizar os camponeses, o parlamentar socialista Francisco Julião passou a apoiar a organização de novas sociedades agrícolas chamadas de Ligas Camponesas”.

Podemos perceber aí a importância da formação da SAPPP na proliferação das Ligas Camponesas em Pernambuco, o sucesso daquela Sociedade encorajou outros camponeses a seguirem o mesmo norte, aprofundando cada vez mais as suas demandas trabalhistas.

Segundo Azevedo (AZEVEDO, Fernando in Medo, Comunismo e Revolução, PORFÍRIO Pablo, p.24)

“O objetivo das novas Sociedades Agrícolas não era mais de ajuda, como fora a primeira criada no Engenho Galiléia, mas de luta por uma nova distribuição da terra, ou seja, por uma reforma agrária”.

Ainda segundo Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.62).

Provavelmente vários fatores contribuíram para a sobrevivência e crescimento das ligas. Primeiro de toda uma corrente subterrânea de inquisição permeava as margens da zona canavieira fazendo com que pelo menos alguns camponeses fossem receptivos à idéia de organização. Os galileanos não eram os únicos moradores que tinham plantado cultura de subsistência em terras arrendadas e agora se sentiam ameaçados pelas intenções dos proprietários de utilizá-las novamente para produção de açúcar, ou transformar suas plantações em fazendas para criação de gado. “Estes camponeses, ao contrário dos trabalhadores rurais sem terra que eram empregados nos engenhos de açúcar, podiam pelo menos, alimentar-se do mínimo necessário, estando, portanto, em posição de se arriscar a participar do movimento.”

Como o tema Ligas camponesas permeava o noticiário local houve um despertar de intelectuais, estudantes e membros da classe média para as questões agrárias contribuindo decisivamente para a proliferação e divulgação das Ligas. Os litígios entre camponeses e patrões cresceram demasiadamente e desta forma Julião foi incapaz sozinho de atender a demanda trabalhista. Desta forma, o deputado contou com o apoio de outros advogados para prestar assistência aos trabalhadores rurais. Instalou em vários municípios um escritório da Liga, chamado na verdade de Delegacia. Contudo, este movimento, desde o seu nascedouro apresentava uma deficiência gravíssima, pois apesar de terem um objetivo concreto “A Reforma Agrária”, ele não apresentou de forma clara e objetiva um Plano de Ação, como salienta Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.62).

“Julião e todos os que trabalhavam, constantemente salientavam a necessidade de se produzirem mudanças radicais no sistema global de posse de terra e da produção agrícola do Nordeste. Mas não elaboravam uma descrição detalhada do novo sistema que estavam defendendo ou os métodos específicos para alcançar os objetivos”

Apesar desta falha de planejamento as Ligas camponesas continuaram a aferir ganhos para os camponeses, dois anos após o avento da SAPPP, Francisco Julião tentou através de projeto desapropriar as terras do engenho Galiléia, contudo não teve êxito, porém em 1959 durante o governo do recém eleito governador de Pernambuco Cid Sampaio8 um novo projeto o de n°264 do deputado Carlos Luis foi apresentado e aprovado no dia 7/12/1959 em 3° Turno- Anais da Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco.

As reações a esta aprovação começaram internamente na ALEPE, como esclarece Porfírio (PORFÍRIO, Plabo, in Medo, Comunismo e Revolução, p, 34)

“Algumas ações ao resultado daquela sessão foram imediatas. Os deputados Adauto José da UDN, Miguel Santos do PSD e Francisco Falcão do PTB pediram a palavra e solicitaram à consignação em ata de que votaram contrariamente àquele projeto e as respectivas emendas Na sessão seguinte o deputado Drayton Nejaim do PSP, justifica a sua ausência na votação noturna e afirma se lá estivesse votaria de forma contrária, porque considera aquela ação um precedente perigoso criado para um Estado pobre como Pernambuco”.

No final da década de 50 o governador Cid Sampaio8(UDN) assinou a desapropriação do engenho Galiléia na sacada do palácio do governo, os trabalhadores rurais comandados por Francisco Julião participaram do evento, que representou o primeiro caso de reforma agrária no Brasil após o afinal da 2º Guerra Mundial. A propriedade foi dividida em lotes que variavam de 3 a 8 hectares.

Houve críticas também fora das dependências da ALEPE segundo Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve p. -65).

“Um jornalista do Rio de Janeiro, Antônio Calado, observou que o Estado estava pagando a Oscar Beltrão um preço elevado pela sua propriedade cheia de pedras. Realmente posteriormente alguns proprietários procuraram Julião para que ele agitasse para obter a desapropriação de suas terras”.

Apesar das vantagens auferidas pelos proprietários, fica claro que as Ligas Camponesas tiveram notadamente um ganho político, pois pela primeira vez tinham conseguido que o governo do Estado fizesse uma ação positiva para os trabalhadores rurais.

Em uma tentativa de introduzir a consciência política na classe dos trabalhadores rurais Julião promoveu nos anos de 1957 e 1958 dois eventos importantes, como nos conta Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p. -65).

“No dia 1 de maio de 1957 ele trouxe para Recife aproximadamente 600 camponeses, a fim de participarem das comemorações tradicionais do dia dos trabalhadores. No dia 13 de maio de 1958, ele reuniu uns 3.000 camponeses na cidade, para comemorar o aniversário da abolição dos escravos”.

Enquanto as Ligas Camponesas trilharam a via legalista, contaram com total apoio do PCB, como indica Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.66).

“O PCB apoiou Julião desde o começo. O seminário comunista do Recife deu-lhe bastante cobertura. Quando líder Luis Carlos Prestes fazia suas visitas políticas no Recife Julião estava no palanque com ele. Em 1957, uma delegação da ALEPE foi convidada a visitar a Europa ocidental. Julião estava entre aqueles que viajaram à Polônia, Tcheco-eslováquia e União Soviética”

Na eleição presidencial de 1960, disputadas entre o Marechal Lott e Jânio Quadros, Julião acompanhou as teses adesistas à Burguesia nacional do PCB, tanto que cerrou fileiras com Luis Carlos Prestes no palanque de Lott, acompanhados do então prefeito do Recife Miguel Arraes de Alencar que tinha chegado ao poder através de uma vasta aliança política que envolvia liberais, socialistas, comunistas, católicos progressistas, trabalhadores, estudantes e intelectuais.

Porém, como nos conta Moraes (MORAES, Denis, A Esquerda e o golpe de 64, p, 84).

“Em fins de 1961, a rota das Ligas se altera. Fortemente influenciado pela experiência revolucionária em Cuba, Francisco Julião o líder das Ligas, radicaliza a sua pregação pelo socialismo, abandonando a linha legalista que vinha adotando e colocando camponeses na condição de protagonistas da revolução socialista.”

Esta mudança de direção das Ligas Camponesas tem raízes em uma viagem empreendida por Francisco Julião para Cuba em companhia do então candidato a Presidente da República Jânio Quadros, como indica Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.67).

“Em 1960 Julião fez uma descoberta que afetou profundamente o seu relacionamento com o PCB e o resto da esquerda radical. Em março daquele ano, ele empreendeu sua primeira viagem a Cuba. Jânio tinha decidido visitar Cuba, como parte de sua campanha e convidou Julião para acompanhá-lo. Daí por diante foi um Fidelista ardente, proclamando repentinamente sua solidariedade a Castro e à revolução”.

Ao longo dos anos que se seguiram a esta transformação política no cerebro da Ligas Camponesas estes novos posicionamentos exigiriam que Julião estivesse amparado pelos ícones da esquerda brasileira nos tumultuados anos anteriores ao golpe de 64, no entanto, nem Luis Carlos Preste9 do PCB, que trilhava um caminho legalista e adesista à burguesia nacional, nem o PTB do então presidente João Goulart pareciam dispostos a prestar qualquer apoio neste sentido. Como sugere Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.105).

“Estas grandiosas ambições exigiam que Julião se articulasse com João Goulart do PTB e Luis Carlos Prestes do PCB, os quais tinham seus próprios planos quando ao curso do desenvolvimento político do Brasil no futuro. Estes planos excluíam um papel para revolucionários rurais independentes”

As divergências existentes entre o pensamento revolucionário de Julião e a opção legalista do PTB de Goulart e o PCB de Prestes se intensificaram durante I Congresso Nacional de Camponeses realizado no ano de 1961 na cidade de Belo Horizonte – MG, neste congresso apoiado pelo Presidente João Goulart, estavam presentes 1.600 delegados representando os movimentos agrários rurais do Brasil. Segundo nos conta Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve p.106).

Enquanto o PCB defendeu uma linha reformista Julião defendeu a reforma Agrária Radical. Julião obteve a maioria na sessão plenária e o congresso adotou uma declaração que exigia uma transformação radical na atual estrutura agrária do Brasil,com liquidação do monopólio da posse da terra pelos grandes latifundiários, principalmente através da desapropriação da terra pelo governo federal, substituindo a posse monopolística pela propriedade dos camponeses e propriedade do Estado”

Com este documento revolucionário, Julião cortou os laços que o ligava a Goulart e a Prestes, pois estes defendiam soluções dentro da legalidade brasileira e o Congresso teria aprovado por indução do líder das Ligas Camponesas uma solução que só se efetivaria as margens da constituição brasileira. Deste momento em diante é notório a preocupação tanto do presidente João Goulart quanto do PCB em descolar sua imagem da figura revolucionária de Francisco Julião. A preocupação do PCB era com as consequências futuras desta radicalização como mostra Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p. -109).

A violência nesta ocasião, argumenta o partido, seria  contraproducente, visto que poderia provocar elementos da direita e derrubar o governo”.

Com esta dissociação do governo Goulart e do PCB em relação a Francisco Julião começaram a haver ações que afetaram a sua liderança.

Goulart como forma de desestabilizar a liderança de Julião no Nordeste começou a apoiar financeiramente, Assis Lemos o líder das Ligas Camponesas de Sapé na Paraíba que rivalizava com Julião, pois tinha uma postura mais pragmática e reformista. Por outro lado, os comunistas do PCB começaram a promover várias infiltrações nas Ligas Camponesas estabelecendo um estorvo na liderança de Julião. Como sintetiza Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.112).

“Os comunistas começaram a se imiscuir nas ligas e a tentar tirar o seu controle das mãos de Julião. Tal competição serviu apenas para confundir os camponeses e desviá-los da luta pela reforma agrária”.

A discordância do pensamento de Julião em relação ao PCB é comentada por um antigo comunista que participou dos mais importantes fatos históricos do PCB incluindo a intentona de 193510, o político Gregório Bezerra11 observa em Moraes (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p. -84).

“Julião achava que o camponês organizado em Ligas Camponesas já era suficiente para fazer a revolução agrária e anti-imperialista. Nós discordamos dele, pois não havia condições para um movimento revolucionário. Nem a classe operária, nem a massa camponesa estavam preparadas para isso”.

Estas divergências ideológicas também nortearam as relações políticas de Julião com o governo de Pernambuco, mesmo quando Miguel Arraes de Alencar12 chegou ao poder como um representante autêntico da esquerda nacional. Na verdade, as formas defendidas pelos dois políticos para solução dos problemas agrários eram bastante conflitantes, o próprio Julião expôs por diversas vezes a falta de profundidade das ações de Arraes. O deputado entendia que o governador pernambucano (1963-1964) tinha uma preocupação incomensurável em manter seu arranjo político eleitoreiro, mitigando sempre que possível o avanço das conquistas dos trabalhadores rurais para manter as regalias de uma parte da elite canavieira que lhe dava respaldo político. Neste sentido, apresentamos um trecho da entrevista de Julião em Moraes (MORAES, Denis, A Esquerda e o golpe de 64, p, 223).

“Arraes não tinha interesse em que esse movimento desenvolvesse uma grande atividade, porque ele tinha que acomodar certas situações com os grandes senhores de terra. Tinha sido apoiado por alguns desses senhores. Então, toda vez que surgia um conflito, e que eu buscava naturalmente acelerar, dar um passo adiante, Arraes tratava de frear”.

Por outro lado, paulatinamente a falta de planejamento e de um plano de ação específico que norteasse os caminhos e avanços das Ligas Camponesas contribuiu decisivamente para a divisão interna no comando das Ligas Camponesas em duas correntes, como destaca Moraes (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p. -86).

“Os que defendiam uma ação de massas, legal, e os que preferiam uma organização central, clandestina e favorável à luta armada”.

Esta opção mais radical aos poucos ganha espaço no movimento, tanto que em 11/03/1964-dias antes do golpe de 1964- o jornal “A Liga,” porta voz do movimento, publica o documento Organização Política das Ligas Camponesas, onde confirma que o movimento é o resultado da união voluntária e combativa da vanguarda do povo para fazer a revolução brasileira e se constituir uma sociedade socialista. Contudo, durante toda existência das Ligas Camponesas a opção armada efetivamente só durou pouca mais de um ano entre 1961 e o segundo semestre de 1962 quando os paraquedistas do Exército e fuzileiros navais tomaram o campo de treinamento de Dianópolis-GO um dos oito existentes e prenderam os seus líderes. Segundo Moraes (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p.90) o ex-deputado Cladiomir Moraes13- principal dirigente do esquema de luta armada- diagnostica o fracasso da guerrilha.

“O movimento era bicéfalo, uma cabeça era o antigo grupo de comunistas que atuava na organização do campesonato e que passou a organizar o esquema guerrilheiro e outra era Julião. Além disso, organizações de esquerda (POLOP, PC do B, trotskistas) ampliaram a sua participação no movimento das Ligas e desestabilizaram o comando”.

Sobre a participação do líder da organização nos focos guerrilheiros encontramos em Moraes (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p.96)

“Julião estava alheio a este assunto, pois não tinha muito hábito do trabalho clandestino. Ele sabia do seu papel de organização de massas e não bisbilhotava assuntos militares”.

Sobre a existência destas organizações guerrilheiras no seio do movimento camponês Julião explica em Moraes (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p.96)

“Eu sabia que existiam as bases guerrilheiras, com muitos quadros recrutados dentro das Ligas, embora não soubesse a localização delas”.

Esta falta de informação do Líder das Ligas Camponesas retrata a sua gradual perda de comando do processo como observa Page (PAGE, Joseph, in A Revolução que nunca houve, p.118).

“O que realmente aconteceu é que Julião perdeu o controle sobre certos militantes dentro do movimento das Ligas Camponesas, e eles agiram em conta própria para planejar e preparar uma insurreição armada no interior do Brasil”.

Nos anos que antecederam a desarticulação das Ligas ocasionadas pelas prisões ou fuga dos seus principais dirigentes ocorridas no golpe militar de 1964, a liderança e as orientações de Francisco Julião já não eram mais uma unanimidade no seio das Ligas Camponesas. O Movimento agrário estava totalmente dividido acompanhando a tendência individualista e segregacionista da esquerda nacional na fase anterior ao golpe de 64, como destaca (MORAES, Denis, in A Esquerda e o Golpe, p.86).

”Até 1961, as ligas tiveram ampla aceitação entre os trabalhadores rurais, a despeito da progressiva concorrência do PCB, da igreja e em menor grau de organizações como POLOP, AP e o POR. Por falhas no trabalho de organização e mobilização e a partir de 1961, da tentativa de focos guerrilheiros no país e também da manipulação de sindicatos rurais, as ligas chegaram a março de 1964 divididas e enfraquecidas. Outro fator de desagregação foi a infiltração no movimento camponês de militantes de esquerda com o propósito de conquistar bases de apoio”.

4)      CONSIDERAÇÕES FINAIS

Podemos assim perceber que durante os anos que se seguiram a criação da SAPPP, o movimento dos trabalhadores rurais tomou corpo e teve em Francisco Julião seu principal líder e articulador. Durantes vários anos no comando do movimento, crismado pela imprensa pernambucana com o nome de Ligas Camponesas, Julião conseguiu exercer uma liderança nacional, isto ficou evidente no resultado do I Congresso Nacional dos Camponeses onde Francisco Julião conseguiu sobrepor seus pensamentos revolucionários sobre uma grande liderança da esquerda nacional, o PCB de Luis Carlos Prestes. Porém aos poucos ele perdeu o comando das ações, tanto internamente como externamente houve uma série de interferências que prejudicam o comando do Líder das Ligas Camponesas. Esta perda de liderança causou uma divisão interna dentro do movimento que afetou a posição que as Ligas ocupavam no cenário nacional. Mesmo assim, não podemos deixar de enaltecer a importância do movimento para a História das lutas sociais no Brasil, pois apesar de ter sofrido uma forte oposição das autoridades constituídas e da imprensa local, ele conseguiu significativas vitórias para os trabalhadores rurais na luta contra a elite canavieira, tanto do ponto de vista individual quanto do coletivo como foi o caso da desapropriação do engenho Galiléia.

Bibliografia:

PAGE, Joseph,in “A Revolução que nunca Houve,Rio de Janeiro,Editora Record,1972.

MORAES, Denis, in “A esquerda e o golpe de 64”, 2° Edição, São Paulo, Editora Expressão Popular, 2011

PORFÍRIO, Pablo, ”Medo, Comunismo e Revolução”, Recife, Editora Universitária UFPE, 2009

AGUIAR, Cláudio, ”Francisco Julião uma biografia”, Rio de Janeiro, Editora Civilização brasileira, 2014

REIS, Daniel Aarão, ”Imagens da Revolução”, Rio de Janeiro, Editora Marco Zero, 1985

Notas:

1 Professora de socióloga e ciências políticas da universidade estadual do Rio de Janeiro e da Fundação Getúlio Vargas.

2 Segundo relatos orais, o nome é obra da família Beltrão, que tinha como tradição visitar a região de Israel todos os anos.

3 Após aceitar transferir alguns agricultores do engenho Galiléia por solicitação de Cid Sampaio Prazeres foi expurgado do movimento.

4 Donatário da capitania hereditário de Pernambuco.

5 Escreveu o livro As Ligas Camponesas e é considerado um referencial no assunto.

6 Governador do Rio Grande do Sul 1938/1943 e de Pernambuco 1955/1958 pelo PSD.

7 Leituras marxistas causaram a primeira prisão de Julião durante o Estado Novo

8 Governador de Pernambuco pela UDN entre os anos de 1959 e 1963

9 Secretário Geral do PCB Liderou a coluna Prestes e a intentona comunista de 1935

10 Também conhecido como Levante Armado de 35 tinha o objetivo de derrubar o governo do presidente Getúlio Vargas.

11 Político comunista integrante do PCB participou da intentona comunista no Recife.

12 Político integrante da Frente Popular Governou Pernambuco por três vezes 1963/1964, 1987/1990 e 1995/1999.

13 Preso em 1962 após desbaratamento do esquema de Luta Armada das Ligas Camponesas segundo seu depoimento em Moraes (MORAES, Denis, ”A Esquerda de Golpe de 64”) foi torturado pela polícia Militar do Rio de Janeiro.

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Categories: História do Brasil
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 20 fev 2015 @ 11 22 PM

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02 de dezembro de 1870



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