23 out 2012 @ 7:20 AM 
 

“Aquela presença se afirma e se clarifica”: A importância dos trabalhadores na formação social do Recife

 

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

História de Pernambuco II -

prof. Severino Vicente da Silva

Izabel Helena Acioli Siqueira dos Santos

“Aquela presença se afirma e se clarifica”: A importância dos trabalhadores na formação social do Recife

Recife

2012

“Aquela presença se afirma e se clarifica”: A importância dos trabalhadores na formação social do Recife

Izabel Helena Acioli Siqueira dos Santos[1]

Resumo: A partir das discussões em sala de aula e incentivada por leituras que a disciplina História de Pernambuco II possibilitou – destacando aqui a grata provocação que senti ao ler o brilhante “Recife, o Caranguejo e o Viaduto, do saudoso Professor Dênis Bernardes – procurei refletir e tentar compreender acerca das relações sociais e a contribuição dos trabalhadores na formação social do Recife, nas primeiras décadas do século XX. Com este trabalho, procuro discorrer sobre essas reflexões à luz da bibliografia que tanto me estimulou.

“(…) a cidade não se restringe apenas a uma classe dominante de contornos mal definidos. Enquanto cresce, enquanto se transforma, enquanto se integra ao conjunto nacional, Recife cria, recria e se defronta com as suas próprias contradições (…)”

Prof. Dênis Bernardes

A geografia do espaço é a materialização das relações sociais, conforme podemos compreender em ARRAIS (2004). Assim, o delineamento espacial do Recife, ainda no século XIX, já indicava a forma que tomaria a cidade no século XX, com as divisões que as classes sócias reproduziram no território.  O autor nos fala do prestígio de áreas como as situadas ao longo do Rio Capibaribe, na zona oeste da Cidade, habitadas pelas “belas e senhoriais propriedades”. Assim como, em Boa Viagem, por exemplo, área de beira-mar, “um lugar de honra dentro da geografia da cidade”, era ocupada por moradores que possuíam automóveis.

Neste mapeamento, os alagados ao norte que, ainda no Século XIX, acomodavam o cemitério público e o asilo de loucos, recebem, também, as vilas operárias, já no século XX. O espaço que cabe à classe trabalhadora, segundo ARRAIS (2004), também é demarcado no flanco sul do Recife, que na segunda década do século passado, abrigava a maior população entre os bairros da cidade, desenhada por moradias de paredes de barro e cobertura de palhas. Esse era o bairro de Afogados, que assim dava continuidade ao seu destino, marcado, desde o século XIX, pela instalação de um temível matadouro.

De acordo com BERNARDES (1996), Recife é uma cidade polarizada, dividida, de mundos que por vezes o vivem, sem na verdade, conviverem. Há, na cidade, uma dialética de segregação e convivência. Corroborando com ARRAIS, Denis enxerga o Recife como um “espaço dividido” e apresenta a diferenciação sócio-espacial da moradia como a primeira grande divisão dos espaços sociais. A ampliação dos limites urbanos que ocorrem em Recife, no início do Século XX, de acordo com SILVA (2011), dá uma “nova feição” à Cidade e tinha como objetivo criar uma distância geográfica de “parte da população que enfeava a sociedade, a paisagem, que a elite queria mais semelhante à paisagem européia”.

Apresentando uma análise mais aprofundada sobre a formação social do Recife, BERNARDES (1996) defende que “é na existência de um espaço regional integrado que se concretiza a formação das classes sociais no Recife”. Ou seja, não se trata de situar as classes sócias apenas dentro de um quadro de estratificação, onde as mesmas só existiriam em/para si, uma vez que, nessa concepção, as classes sociais existem de fato nas relações que estabelecem entre si, situadas no conjunto da formação social brasileira e, de forma mais ampla, na formação do sistema capitalista mundial.

Assim, o autor compreende a dinâmica da formação social do Recife situando-a no processo mais geral, em nível nacional, da passagem de uma economia de base agrária para uma economia urbano/industrial capitalista e todas as implicações contidas nesse processo. O Estado, as classes agrárias, sobretudo as ligadas ao complexo latifúndio açucareiro e os comerciantes, são os três elementos básicos que compõem a história de longa duração da formação da sociedade de classes no espaço urbano recifense.

As classes agrárias ganham destaque nesse processo de formação social do Recife, pois o seu conservadorismo define, em muitos momentos, os rumos da política e da economia na capital e no Estado como um todo. É, também, na análise do setor agrícola que procuramos entender sobre a evolução demográfica da Cidade. Tal setor, “é a chave mais imediata para esse entendimento”, afirma BERNARDES (1996), uma vez que a “decomposição das relações coloniais no campo” explica o crescimento populacional.

A influência dos comerciantes na cidade se expressa nas transformações materiais na fisionomia urbana, além de estar presente no espaço sócio-cultural da cidade, através das instituições em que exercem seu poder. Sobretudo, é o comércio o ramo mais importante de ocupação da população economicamente ativa. Amortiza o desemprego e ocupa um grande contingente de trabalhadores. Tal aspecto ajuda a entender a postura da categoria dos comerciários quase sempre aliada compreensiva dos empregadores.

Os valores e os costumes da sociedade recifense da década de 1920 denunciam quão patriarcal era a estrutura familiar. Isso também fica evidente na pesquisa de FILGUEIRAS (2009) que apresenta dados de violência contra a mulher que se separava do marido, muitas vezes, porque precisava trabalhar. O papel da mulher aos olhos do patriarcado, de mansidão, submissão, se desfazia com a busca pela autonomia, a recusa em ser vítima passiva e passar a ser agente de transformação. Sem dúvidas, mais uma relevante contribuição ao processo de formação social do Recife.

O fator efetivamente indutor de transformação em determinadas áreas da cidade, foi a instalação de indústrias. Vinculado à economia agrário-exportadora e ao capital comercial, Recife conheceu também condições propícias ao desenvolvimento de um setor urbano-industrial. Nesse contexto, forma-se uma nova camada de trabalhadores assalariados, modificando a estrutura social da cidade.

Do ponto de vista histórico, o mais importante ramo da indústria de bens de consumo, foi a têxtil. Tais indústrias tiveram grande importância não somente na formação social da cidade, mas também, na estruturação do seu espaço. São as fábricas, de acordo com BERNARDES (1996), mais do que engenhos ou usinas, os principais dinamizadores da ocupação da cidade, de sua definição sócio-espacial. Parte da população trabalhadora acompanhava as mudanças ocasionadas, por exemplo, com o fechamento ou transferência de uma fábrica para outra área. Tal exemplo, aliás, dá uma boa dimensão do papel que teve o trabalhador, não só na produção de riqueza, mas também, na ocupação do espaço urbano, ajudando a criar muitos bairros, existentes até hoje.

Até o início dos anos 60, o Recife era caracterizado como uma cidade de forte população operária e essa população trabalhadora também começa a ocupar os espaços políticos, os espaços de poder. A presença dos trabalhadores na vida da Cidade se “afirma e se clarifica”, como vimos em BERNARDES (1996, p. 57.) quando afirma que:

desde o século XIX, apesar da presença de escravos nas atividades urbanas, novas categorias de trabalhadores ou outras mais antigas, adquirem gradativamente expressão e importância e começam a participar mais ativamente da vida social e política da cidade.

Com o fim do Estado Novo a representação política local está fortemente marcada por uma representação sócio-espacial. Bairros e categorias sociais de trabalhadores passam a ter representantes nos espaços legislativos. Como vimos em SANTOS (2008, p. 10), os trabalhadores passam a se organizar em associações de bairros que vão surgindo nos subúrbios do Recife “se apresentando como uma ameaça às práticas políticas então vigentes”.

Novas representações também surgem do lado de lá das classes sociais, quando líderes empresariais retiram o poder estadual das mãos dos agraristas. Era um processo marcado pela grande polarização ideológica, bem como, pelas primeiras manifestações de organização política do campesinato, que à época, ao ocupar as ruas do Recife, transformaram-se em atores urbanos ameaçadores, de acordo com BERNARDES (1996), muito mais do que fora o movimento operário. Recife se apresenta, desta forma, como a intermediadora das grandes tensões criadas no campo, ao mesmo tempo em que gera as suas próprias, semelhantes a qualquer cidade superpovoada.

As relações conflituosas entre as classes sociais também se manifestam no campo cultural. O fundamento da cultura do Recife é o espaço, em seu sentido amplo. Expressões culturais quase sempre em conflito, entre dominados e dominadores, forjaram a identidade cultural do Recife. Ganhando um caráter sócio-político mais forte a partir dos anos de 1950, do século passado. Quando Miguel Arraes de Alencar foi eleito prefeito do Recife, em 1959, criou o Movimento de Cultura Popular – MCP, voltado para as camadas mais pobres da população, se propunha a combater o analfabetismo entre jovens e adultos e a incentivar as diversas manifestações culturais. Contudo, de acordo com SANTOS (2008), os opositores políticos de Arraes criticavam a proposta, acusando-a de eleitoreira e subversiva.

Portanto, estimulada pelas reflexões despertadas com as discussões em sala de aula e baseada nas análises desses diversos autores, faço minhas observações e busco construir minha leitura sobre as relações sociais nas primeiras décadas do século XX que possibilitaram, do conflito entre classes, modificar as estruturas sociais da cidade, ainda que parcialmente, não representando mudanças na estrutura de poder, permanecendo a velha elite no controle. Buscando compreender essas relações sociais, percebo, contudo, que é inegável a relevante contribuição dos trabalhadores na construção da modernidade, na formação social do Recife e no enfrentamento ao conservadorismo.

REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS:

ARRAIS, Raimundo. O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2004.

BERNARDES, Dênis. Recife: o caranguejo e o viaduto. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 1996.

FILGUEIRA, Carlos Eduardo de Albuquerque. Crimes passionais no Recife na década de vinte: cortes e regularidades. Documentação e Memória. TJ/PE, v. 1, n. 1. 2008.

LEVINE, Robert. Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937. In: FAUSTO, Boris. (org.) História Geral da Civilização Brasileira. 2ª Edição. São Paulo: Difel, 1977. Tomo III, 1º vol., p. 122-151.

SANTOS, Taciana Mendonça. Alianças políticas em Pernambuco: a(s) frente(s) do Recife (1955-1964). Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Federal de Pernambuco. Recife: 2009.

SILVA, Severino Vicente da. História de Pernambuco Contemporâneo. Recife, 2011.


[1] Trabalho apresentado à disciplina “História de Pernambuco 2”, do Curso de Bacharelado em História da UFPE, ministrada pelo Professor Dr. Severino Vicente da Silva, como um dos requisitos básicos para cumprir o componente curricular obrigatório da referida disciplina, no semestre letivo de 2012.1.

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Posted By: Biu Vicente
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