19 out 2012 @ 12:23 PM 
 

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA – DHI

CENTRO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS – CFCH

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

José Dário dos Santos

Trabalho apresentado para disciplina de Idade Moderna e Processos Civilizatórios, ministrada pelo professor Severino Vicente da Silva, referente ao 1º semestre de 2012

Recife,

2012

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

José Dário dos Santos

Resumo: Este artigo tem por objetivo analisar o livro: O Processo Civilizador do Norbert Elias, esse livro que se constitui uma obra prima da Sociologia, uma obra importante para todos que queiram entender como os costumes tomam formas, assumem vários significados na Sociedade e de como esse processo foi difícil e demorado.                   Este livro que só veio ser descoberto pelo meio acadêmico muito tardiamente se mostra um belo guia para quem quer entender os Costumes e de como se deu a nossa maneira de se “Civilizar”, como a ética e as instituições se relacionavam e como se construíram essas ideias de Ética e Moral.

Palavras-chaves: Ética; Estado; Renascimento; Processo Civilizador; Norbert Elias.

O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes. A Construção da Moral e o Processo Civilizador.

Nietzsche em seu livro Crepúsculo dos Ídolos diz: “Em todos os tempos quis-se melhorar o homem; a rigor, isto é o que chamamos de moral.       Porém sob a palavra moral se ocultam tendências muito diferentes.           A domesticação do animal humano e a criação duma espécie determinada de homens, são um melhoramento e essas noções zoológicas as únicas que expressam realidades, porém realidades que o melhorador típico, o sacerdote ignora e não sabe nada à respeito.     Chamar melhoramento à domesticação dum animal soa aos nossos ouvidos quase como uma brincadeira.         Quem sabe o que se sucede em zoologia? Contudo, duvido muito que o animal acabe melhorando. É debilitado, é feito menos perigoso; com o sentimento deprimente do medo, com a dor e as feridas faz-se dele um animal enfermo.         O mesmo sucede ao homem domesticado, a quem o sacerdote tornou melhor.”

Demonstrando certo pessimismo com relação a um processo de Civilização pelo qual o homem passou durante o século XVI muito ditado pelo controle das pulsões, dos instintos e também de um processo de exportação de Civilização de Ingleses e Franceses para os outros, os ditos “menos-civilizados”, o Nietzsche entende a moral da Sociedade Moderna como uma diminuição da “Vontade de Potência”, como um ataque aos sentidos plenos da vida, já o Norbert Elias entende essa moral não como uma atrocidade contra o homem (apesar de salientar que o processo civilizacional foi um processo doloroso), mas como um processo que teve influências da Sociedade de Corte Francesa, da Burguesia Alemã e com essa nova ideia de moralidade, de mudanças de hábitos e costumes, a Sociedade Europeia canalizou tensões, diminuiu violências e se higienizou, ou seja: Melhorou a vida em Sociedade, tornou-a possível.                   A vida em sociedade, e principalmente a vida na Idade Moderna foi passando por transformações e mudanças, essas mudanças foram lentas e demoradas.

O rompimento não total, mas gradual com o modo de vida da Idade Média e a “adoção” da nova visão de vida se constitui um processo doloroso, irregular e dissonante, sabedores de que as diferenças são um dos muitos ritmos da História e que a Uniformização é impossível, podemos evitar certas generalizações que costumam fazer parte de algumas tentativas de análises da História. Aliado aos códigos de honras da Nobreza e da tentativa de afirmação de seus próprios códigos pela Burguesia, a sociedade moderna começou a se educar, e essa educação dos hábitos era carregada de conjuntos de leis morais, de padrões de éticas, dos padrões ditos Civilizados, dos padrões Modernos, na qual se passa a nossa tentativa de análise.

1.1- As concepções Medievais de Ética.

A Ética medieval teve em dois filósofos da Igreja suas principais interpretações: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino.  Santo Agostinho afirmava que o Ser Humano é uma alma que se serve de um corpo, para o Santo Agostinho a elevação ascética até Deus culmina no êxtase místico ou Felicidade, que não se encontra nesse mundo, algo que alguns estudiosos chamam de Neoplatonismo. Santo Agostinho acreditava que o ser humano era privilegiado na ordem das coisas, as três pessoas da trindade expressam também as três faculdades da alma: A memória se relacionaria com o Deus-Pai, a inteligência se relacionaria com o Deus-Filho e a Vontade com o Deus-Espírito. A vontade seria a mais decisiva das três faculdades, por ser em essência: livre e criadora, ela pode nos afastar de Deus, e o afastamento leva uma aproximação ao não-ser: O mal. A essência do Pecado reside exatamente nisso, no fenômeno do Livre-Arbítrio, através da inversão, onde: o corpo passa a dominar a alma, entregando-se a todo tipo de concupiscência. A graça na concepção agostiniana funciona como o guia do Livre-arbítrio, pois sem ela, o mesmo escolheria o mal.

O São Tomás de Aquino entende que Deus é o bem último ou o sim supremo e a sua posse causa gozo ou felicidade que é o bem subjetivo, para se alcançar essa felicidade, são necessárias certas virtudes, essas virtudes são: intelectuais, morais, cardeais e teologais. A graça divina entra em cena mais uma vez para guiar o homem, o ser humano age em sintonia ou em agradecimento com o divino quando faz o bom uso do livre-arbítrio.

“Para que possa ser considerada boa, a vontade deve conformar-se à norma moral que se encontra nos Seres humanos como reflexo da lei eterna da vontade divina. Esta, no entanto, não pode ser conhecida pelo Ser humano, de tal forma que ele deve limitar-se a obedecer aos ditames da lei natural, entendida como lei da consciência humana”[1].

1.2- A Influência do Renascimento no Processo Civilizador e na Construção de uma nova ideia de Ética.

O renascimento teve influências incisivas nesse processo de “Civilização” do homem e da vida em sociedade, achando os pontos principais podemos citar: A queda do preconceito contra o corpo, as regras de limpeza, a diminuição da ideia do profano, o culto aos valores estéticos da Grécia Antiga. A queda, ou melhor: uma aceitação inicial de todos esses tabus representou muito para a vida em sociedade, a vida nas grandes cortes.                   O Peter Burke comenta em seu livro O Renascimento, que a ideia do Renascimento como um movimento Original de retomadas dos valores helenísticos é por si enganadora, a idade média influenciou claramente os ditos renascentistas que tentavam se distanciar do mundo feudal em que viviam, mas utilizavam-se de valores do período vigente que por muitas vezes acreditavam serem de origem clássica e por vezes eram misturados, acontecendo algo parecido com um sincretismo cultural.   Sobre o renascimento, Peter Burke diz: “É mais exato pensar neste movimento como um desenvolvimento gradual no qual cada vez mais indivíduos se tornaram progressivamente insatisfeitos com os elementos da sua cultura em finais do período medieval e cada vez mais atraídos pelo passado clássico” (BURKE, 2008: p.41).  Essa mentalidade do cuidado com o corpo, da suavização de comportamentos considerados imundos e anti-higiênicos foi uma das bases do processo civilizador e através de novos ideais de limpeza, de bons modos à mesa e do controle rigoroso do outro é que a sociedade ocidental pôde ir gradativamente se civilizando, a importância do renascimento vem dessa nova ideia de cuidado com o corpo, da noção do indivíduo, e também do afastamento das zonas rurais e a chegada às zonas urbanas, esse ajuntamento em cidades teve influências claras no processo de civilização, a necessidade de se civilizar foi também uma exigência das novas configurações infra- estruturais da chegada da modernidade, sair do campo onde as casas e a vivência eram mais afastadas e chegar nas cidades onde a vivência do cotidiano são mais exigentes, mais concorridos.         E essa nova convivência representou novas construções de valores e de costumes, novas ideias do que seja “Certo” e “Errado”

1.3- A Construção da Ética na Igreja durante a Idade Média e O Estado como definidor da Ética na Modernidade.

A Idade Média tinha como base fundamental a influência da Igreja nas construções das ideias de política, economia, educação, valores dos indivíduos, ou seja: a Igreja em certo ponto determinava as cosmovisões da época e essa influência se leva também a construção dos valores morais e de ética.            Os costumes das pessoas estavam ligados como também as suas crenças e sua educação e construções de valores estavam ligados às visitações na Igreja e a participação no religioso. O Renascimento e o Processo Civilizador nos mostra que a partir desses dois acontecimentos históricos a Ética sai das mãos do clero e começa a flutuar entre a Cultura e o Estado. O Estado, principalmente o Francês assume o papel de fundamentador da ética a partir do reinado de Luís XIV, o rei com a construção do palácio de Versalhes e do recrutamento da Nobreza para junto de si passa uma mensagem clara de que o Estado legitimado em si próprio (“O Estado sou eu”) definiria a partir de então o que seria certo ou errado, o que se devia ou não fazer, assim a construção da Ética se afasta de junto do clero e começa a ser construída e influenciada pelo Rei e o Estado. A modernidade foi o período da saída da “Transcendentalidade” da Ética, das ideias religiosas hegemônicas, dos costumes medievais para a entrada das relações humanas como definidoras de códigos morais, da ideia de liberdade, das consolidações dos Estados Nacionais e o Norbert Elias ao escrever sobre a modernidade e o processo civilizatório demonstra como esse processo de definição, civilização dos “Costumes” foi também um processo que hegemonizou inicialmente o Estado como um dos definidores dos padrões éticos a serem seguidos.         O Renascimento anteriormente atribuiu o significado da Cultura como definidora dos padrões estéticos, das relações sociais e de uma menor hegemonia por parte da Igreja e do Clero nas definições do que seria o “Certo” e o “Errado”.

A Construção dos Valores Burgueses e a Antítese com a Sociedade de Corte.

O Norbert Elias no Capítulo primeiro do seu livro O Processo Civilizador analisa a importância e a sociogênese de duas palavras peculiares que representam muito para Franceses, Ingleses e Alemães. Para os Franceses Zivilisation e para os Alemães Kultur, o processo civilizacional dos franceses e ingleses fora terminado primeiro que o dos alemães, e as cortes (especialmente a francesa) exportavam seus hábitos e costumes para a Alemanha.           Na França, os cortesãos já admitiam a presença da Burguesia e dos intelectuais burgueses em suas reuniões e círculos, na Alemanha que passa por esse processo muito que tardiamente essa admissão dos intelectuais (que em sua maioria eram burgueses) não existia. Os burgueses alemães tentando se afirmar e tentando afirmar também a ideia de uma nação alemã começam a exaltar qualidades que são típicas dos modelos de vivência burgueses e de qualidades intelectuais que só existem na Alemanha: A vida sem a repressão dos instintos das sociedades de cortes, a vivência de uma classe intelectual, a admiração pela língua alemã, que era considerada pelos cortesãos como bárbara e sem nenhuma especialidade, tanto que os cortesãos conversavam em Francês por acharem que o falar Alemão era de propriedade das classes subalternas. Nos trabalhos dessa classe intelectual começa-se a notar críticas aos valores morais e éticos da Nobreza, a imoralidade das cortes, a indisposição intelectual, o ódio aos príncipes, em contraponto a isso se exalta uma vida de liberdade dos sentimentos, de valorização dos impulsos do homem, de uma vida “Natural”, em claro contraste com a vida “antinatural” das sociedades de cortes. A literatura passou a ser o principal meio de divulgação dessas ideias, tanto que na segunda metade do século XVIII e início do século XIX a literatura alemã estava em efervescência, lembrando que esse desenvolvimento da Literatura e de um conjunto de valores burgueses ainda não constituía uma tentativa de afirmação política, mas algo parecido com uma vanguarda, sobre isso o Norbert Elias diz: “… O movimento literário da segunda metade do século XVIII não tem caráter político, embora, no sentido o mais amplo possível, constitua manifestação de um movimento social, uma transformação da sociedade” (ELIAS, 1994: p.35).

Nas sociedades de cortes os valores eram diferenciados, sendo que nas cortes eram valorizados: os bons modos, a civilidade, a potencialização dos sentimentos, dos modos de se falar, e uma supervalorização do nascimento.     Esses valores começam a serem questionados na Alemanha do século XIX, na França do século XVII, e o questionamento desses valores irá levar a Burguesia ao poder e ao esfacelamento das Cortes, com o advento das revoluções burguesas e com unificação alemã.

Referências Bibliográficas

BURKE, Peter. O Renascimento. Lisboa: Edições Texto e Grafia, 2008.

COSTA, Jurandir Freire. A Ética e o Espelho da Cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: Uma História dos Costumes Vol.1. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,1994.

NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos: Ou a filosofia a golpes de martelo. São Paulo: Hemus, 1976.

TOMÁS DE AQUINO. Vida e Obra. Em: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1979.


[1] TOMÁS DE AQUINO. Vida e Obra. Em: Os Pensadores. Abril Cultural, São Paulo, 1979, p. XII.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 19 out 2012 @ 12 23 PM

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02 de dezembro de 1870



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