15 out 2012 @ 7:03 AM 
 

Frevo-de-rua: A essência artística e social de uma arte pernambucana

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO II

2º Exercício de avaliação

Professor: Severino Vicente da Silva

Aluno: Virgilio de Almeida Bomfim Neto

Frevo-de-rua: A essência artística e social de uma arte pernambucana

Discursar sobre o frevo na atualidade é recordar um fenômeno musical que a pouco passou a entrar na academia como objeto de estudo das ciências humanas. Fundamentados em conhecimentos da recém intitulada etnomusicologia, da sociologia e história podemos nos aprofundar na temática do frevo-de-rua clareando assim aspectos histórico-culturais indissociáveis de seu surgimento. Seria impossível separarmos as origens do frevo do contexto social em que este surge.

Sendo assim, estudando as manifestações musicais é necessário ter em mente alguns pontos basilares para o entendimento das mesmas. O individuo que participa do frevo é formado e formador dessa arte sendo ambos  elementos de memória, tradição e espelho da sociedade, aqui especificamente  a sociedade pernambucana marginalizada da década de 30. Com este fundamento poderemos ampliar nosso entendimento de como se encontram e o que significa esta arte e tradição centenária. A música é fenômeno cultural em espaço social, carregando consigo características da organização político-social de seu tempo e estando intrinsecamente ligada a sua relação com as mudanças seculares da urbanização, do aprimoramento tecnológico-industrial e da explosão demográfica.

O frevo-de-rua é tipicamente instrumental e seu surgimento corresponde a uma inovação decisiva na produção musical pernambucana e brasileira do início do séc.XX. Com sua saída da marginalidade e difusão entre as elites sociais o frevo será gravado pela indústria fonográfica loca e nacional ganhando destaque entre todos os segmentos sociais.

Segundo Cavalcanti (1997) as raízes do frevo estariam na modinha, no dobrado militar, na quadrilha, na polca e no maxixe, gêneros musicais que o “povão” com criatividade usou dos elementos essenciais (ritmo, timbre e harmonia) para criar um novo gênero musical. Já para José Teles (2007) o frevo deste período não era o gênero musical, mas sim as multidões fervendo nas ruas dos bairros do São José, Santo Antônio, ou Boa Vista, próximos ao Centro do Recife, onde desfilavam a maioria dos clubes, troças e blocos do animado carnaval da Capital pernambucana. O frevo só se tornaria um gênero musical nos anos 30 quando deixa de ser chamado de marcha para ser chamado de frevo-de-rua. O IPHAN (2007) aponta que o frevo tem suas origens na brincadeira portuguesa conhecida como entrudo que foi trazida para o Brasil no período colonial, compreendia gracejos e peças entre amigos, os comes e bebes e o uso de limas-de-cheiro, que eram jogados por grupos ou individualmente.

“Nesta brincadeira que acontecia nos dias que antecedem a Quaresma, a distinção entre os espaços privados – o lugar das classes mais abastadas – e os públicos – o lugar do povo – era nítida. Quando os jogos se tornam mais violentos – entrando nos combates urina, frutas podres e lama, o Governo Imperial começa a proibir os seus excessos. Em 1855, num Congresso das Sumidades Carnavalescas, decide-se que o carnaval passaria a existir nos moldes europeus, em “nome da ordem e manutenção dos bons costumes”. Todos os Estados, menos Pernambuco, aderem ao novo modelo. O fato de Pernambuco não aderir ao novo modelo permite que dê continuidade ao frevo que estava surgindo lentamente e agora com um caráter de resistência popular” IPHAN (2007).

Está nestes eventos o ambiente propício para o surgimento do frevo-de-rua, um gênero musical instrumental regional e autentico que levará produção musical pernambucana para todo Brasil. Segundo alguns autores o frevo-de-rua não possuía letra devido aos seus altos e baixos na pauta musical, os trechos curtos de límpidas e corridas melodias, de mistura de paradas instantâneas, os freios, as síncopes que formam um conjunto de compassos que o grupo de instrumentos de metais como os clarinetes, pistões e clarins dão forma à dança.

Na opinião de Rui Duarte (1968) apenas o frevo-de-rua foi verdadeiramente frevo e as outras variedades como o frevo-canção e o frevo de bloco são uma descaracterização. Segundo ele “Foram uns jornalistas e intelectuais que entenderam que o frevo tinha que apresentar letra, quando a música, pela sua própria natureza, não foi feita para ter a parte do canto”. Já Cavalcanti (1997) afirma que qualquer um dos gêneros do frevo é legítimo por tanto que este respeite as características da “primitiva marcha-frevo”.

É curioso que mesmo com a criação da gravadora Rozenblit os frevos pernambucanos foram inicialmente gravados por artistas de outros estados. As partituras foram enviadas para o Rio de Janeiro onde eram gravadas por grandes músicos cariocas da época. O Resultado não agradou aos pernambucanos que o chamaram de frevo frouxo, pois o fato de não ter sido tocado por seus verdadeiros compositores pernambucanos o descaracterizou bastante.Muitos aspectos da execução musical não podiam estar escritos na partitura e como não havia gravações os músicos interpretavam o que liam.

O frevo-de-rua possui variações dentro do mesmo, José Teles (2007) afirma: O frevo-de-rua, por exemplo, subdivide-se em ventania (o frevo mais, modo de dizer, tranqüilo, formado quase que inteiramente por semicolcheias), o coqueiro (o de alta tessitura, com notas que vão além da pauta, com os trompetes aparecendo mais). Por fim o abafo, tocado quando uma agremiação cruza com outra no meio da folia. Neste os trombones têm destaque, pois o objetivo é abafar a orquestra dos adversários.

No Recife, as bandas que tinham o maior número de adeptos foram as do 4° Batalhão de Artilharia, conhecido como o Quarto, e a banda do Corpo da Guarda Nacional, ou a Espanha, por ter como mestre o espanhol Pedro Francisco Garrido.

Nos carnavais, a presença dos capoeiras também era expressiva. Acredita-se, e vários autores corroboram com esta idéia, que os passos tenham surgido com os negros que vinham à frente das bandas militares, percorrendo as ruas do Recife no final do Século 19. “Os capoeiras, desordeiros e valentões que costumavam saltar à frente das bandas de músicas foram fundamentais no processo de criação da manifestação popular. Os golpes da luta, adaptados ao ritmo das marchas e disfarçados da polícia, originaram uma série de passos que vieram a compor o repertório mais ou menos fixo da dança”, afirma Rita de Cássia (1996).

O simbolismo do frevo está fortemente ligado ao trabalho, clubes populares com nomes como vassoura, espanador, vasculhador, ciscador, abanador refletiam a condição social dos que faziam parte do mesmo. A sombrinha, por sua vez, um dos símbolos do frevo, tinha outro significado em sua origem. Segundo Iphan:

“A utilização da sombrinha, símbolo inquestionável do frevo, também remonta a esta época e aos capoeiras. Com a proibição da capoeira e a ação do Estado no sentido de controlar o carnaval e sua agitação, a sombrinha é uma espécie de arma branca, disfarçada – como o são, aliás, os símbolos de muitas agremiações carnavalescas, onde um cabo, cacetete em potencial, é muito recorrente: a pá, o machado (onde o que importa é o cabo, pois a “lâmina” era confeccionada em papel), o pão (feito de madeira), o abanador, a vassoura etc”  IPHAN (2007).

A opinião de Rita de Cássia é bem divergente em relação à de IPHAN. A autora afirma:

“Além dos significados simbólicos, esses artefatos – as insígnias dos clubes – eram levados pelos componentes do cordão durante os passeios nas ruas estreitas e parcamente iluminadas do Recife. Confeccionados geralmente com a madeira do resistente quiri de castão de quina – madeira de que eram feitos os cacetes dos capoeiras –, não raro traziam na extremidade, escondidas sob a piaçava das vassourinhas ou sob os penachos dos espanadores, afiadíssimas facas de pontas. Cacetes, facas de pontas – as temíveis pernambucanas –, os pontiagudos canos de ferros dos guarda-sóis e destreza corporal eram elementos importantes num Carnaval em que brigas e desavenças pessoais ou de grupo eram freqüentes e rivalidades entre agremiações congêneres provocavam terríveis confusões, resultando até mesmo em mortes”(1997).

O frevo-de-rua como manifestação cultural pernambucana se expandiu pelo Brasil rapidamente, porém em outras regiões do país ficou em geral restrita a pequena parte da população freqüentadora dos salões nobres e a pequenos grupos de trabalhadores que organizavam saídas de bloco apenas no carnaval. A dança nas outras regiões do país tiveram suas características próprias e não mantinham relação direta com a dança dos capoeiras que moldaram a luta para transformá-la em uma dança que entrou para o conjunto das manifestações culturais são parte integrante do frevo.

Considerações finais

Há poucas divergências entre a maior parte dos autores em relação à origem do frevo como movimento cultural, provavelmente devido ao fato de que o frevo tenha completado 100 anos de existência neste ano. Para melhor aprofundamento sobre a origem do frevo faz-se necessário uma pesquisa de campo em busca dos foliões mais antigos e suas histórias na memória familiar.

Apesar ser rotulado tradicionalmente como música de carnaval em boa parte do Brasil, o frevo resiste e se renova a cada dia em Pernambuco. A orquestra Spokfrevo vem retrabalhando o frevo de maneira inovadora, abrindo espaço para improvisações expondo as semelhanças entre o frevo e o jazz que já desde suas raízes possui convergências visíveis como a instrumentação dos metais, o solista em destaque sendo um saxofone ou trompete e o grupo social em que se originou. A improvisação abre um novo universo para o frevo já que improvisar para alguns tradicionalistas da música seria uma heresia.

O se constata é que a construção deste gênero musical não foi estática e nem continuidade objetiva das práticas do passado, mas que passou pelas mudanças advindas do século XX que modificaram a cidade e o povo.

É certo que renovação do frevo o mantém atual e permite uma ponte entre o presente da música pernambucana e o passado da mesma. Mostra que este ainda possui o seu caráter de resistência, mantendo a sua identidade e força no mundo de cultura globalizada.

Referências

ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Festas: máscaras do tempo (entrudo, mascarada e frevo no carnaval do Recife). Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 1996.

ARAÚJO, Rita de Cássia Barbosa de. Carnaval do Recife: a alegria guerreira. Estudos Avançados, São Paulo: USP, novembro 1997.

BLACKING, J. Hay música em el hombre?.Madrid: Alianza Editorial: 2006 179 p.

CAVALCANTI, Paulo. “Frevo”. Estudos Avançados. São Paulo: USP janeiro 1997.p. 222.

DUARTE, Ruy. História social do frevo. Rio de Janeiro: Leitura, 1968. P.19.-20.

GALVÃO, Olympio. O carnaval próximo. Jornal do recife, 11 fev. 1900.p. 1.

IPHAN. Registro do frevo. Recife, 11 fev. 2007. Disponível em: http://maxpressnet.com.br/iphan/ifrevo.html. Acesso em 15 nov. 2007.

TELES, José. “E o frevo segue o compasso…”. JC on line. Pernambuco, 08 fev. 2007. Disponível em: http://www2.uol.com.br/JC/sites/100anosdefrevo/historia_teles.html .Acesso em 12 nov.2007.

Tags Tags: , , , ,
Categories: Sem categoria
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 15 out 2012 @ 07 03 AM

EmailPermalink
 

Responses to this post » (38 Total)

 
  1. lonnie disse:

    lunchtime@insistence.clergymen” rel=”nofollow”>.…

    hello….

  2. Leslie disse:

    rackmil@catsup.rifles” rel=”nofollow”>.…

    thanks!!…

  3. brandon disse:

    statuto@espagnol.suspenders” rel=”nofollow”>.…

    tnx!!…

  4. tyler disse:

    byproducts@aminobenzoic.forefeet” rel=”nofollow”>.…

    tnx!!…

  5. Pedro disse:

    cinch@signally.cube” rel=”nofollow”>.…

    спс!…

  6. Dean disse:

    prosodic@takings.tornadoes” rel=”nofollow”>.…

    tnx….

  7. Don disse:

    copeland@candlestick.tailins” rel=”nofollow”>.…

    благодарен!!…

  8. dana disse:

    jist@itch.starre” rel=”nofollow”>.…

    tnx….

  9. gene disse:

    ferry@calibre.alsop” rel=”nofollow”>.…

    спасибо….

  10. Donnie disse:

    asymmetry@companies.castros” rel=”nofollow”>.…

    благодарствую!…

  11. Jay disse:

    trusted@pillspot.com” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info!!…

  12. max disse:

    trusted@pillspot.com” rel=”nofollow”>.…

    thanks for information….

  13. Darren disse:

    generator@fieldstone.cranky” rel=”nofollow”>.…

    áëàãîäàðþ….

  14. Dale disse:

    supermachine@absurd.identities” rel=”nofollow”>.…

    ñýíêñ çà èíôó!!…

  15. Perry disse:

    renfrew@unbelievably.koussevitzkys” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!!…

  16. Marc disse:

    frescoing@shaken.del” rel=”nofollow”>.…

    áëàãîäàðþ!…

  17. russell disse:

    nams@metabolic.diocesan” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!…

  18. Derek disse:

    grunting@urbana.nacht” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info!!…

  19. Hubert disse:

    nailed@solstice.dips” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!!…

  20. Joseph disse:

    megalopolises@cheek.ruptured” rel=”nofollow”>.…

    thanks!…

  21. Carlos disse:

    altar@regression.transmit” rel=”nofollow”>.…

    good!!…

  22. Albert disse:

    comas@throats.contributor” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info….

  23. Francisco disse:

    lasalle@lathered.vern” rel=”nofollow”>.…

    good info!…

  24. timothy disse:

    cortlandt@terraces.lustful” rel=”nofollow”>.…

    ñïàñèáî!…

  25. jeffery disse:

    quirks@vitality.caskets” rel=”nofollow”>.…

    good info….

  26. Henry disse:

    sphinx@piecemeal.mutilation” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!…

  27. Austin disse:

    jokes@sucking.unmolested” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ!…

  28. ronnie disse:

    vocalist@projectile.indulging” rel=”nofollow”>.…

    thanks!!…

  29. Lance disse:

    periodicals@hon.physical” rel=”nofollow”>.…

    áëàãîäàðþ!…

  30. erik disse:

    electors@diety.extension” rel=”nofollow”>.…

    hello!…

  31. clifford disse:

    dieu@arabian.cuirassiers” rel=”nofollow”>.…

    áëàãîäàðþ….

  32. manuel disse:

    freeze@capitalists.footage” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info….

  33. jeremiah disse:

    irritation@obscenity.reflects” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info!!…

  34. jay disse:

    infinitive@drafts.longings” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ çà èíôó….

  35. clifford disse:

    parisina@ally.mystified” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info!!…

  36. javier disse:

    appreciable@floral.false” rel=”nofollow”>.…

    ñïñ çà èíôó….

  37. kurt disse:

    compels@cooped.barns” rel=”nofollow”>.…

    hello!!…

  38. jorge disse:

    soeren@faulty.verplancks” rel=”nofollow”>.…

    tnx for info!!…

 Comment Meta:
RSS Feed for comments
\/ More Options ...
Change Theme...
  • Users » 1
  • Posts/Pages » 181
  • Comments » 2,366
Change Theme...
  • VoidVoid « Default
  • LifeLife
  • EarthEarth
  • WindWind
  • WaterWater
  • FireFire
  • LightLight

02 de dezembro de 1870



    No Child Pages.