23 dez 2010 @ 2:50 PM 
 

“A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza”.

 

 

LÚCIO RENATO MOTA LIMA

 

 

 

 

HISTÓRIA DA CULTURA BRASILEIRA: LEITURA DIRIGIDA: HISTÓRIA CULTURAL DO NORDESTE

 

    Trabalho de conclusão da disciplina de História Cultural do Nordeste do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco solicitado pelo professor Severino Vicente da Silva.

 

RECIFE

2010

 

 

“A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza”.

 

A tese de doutorado A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza, de Francisco Agileu de Lima Gadelha, apresentada ao Programa de pós Graduação em História do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco,  enuncia o objetivo de “reconstruir a memória cultural de idosos de uma coletividade, cujos protagonistas apresentam suas práticas religiosas diferentes das de outros atores pelos seus atos comportamentais, produzindo sentidos e significações particulares de suas existências” (pág. 08). A coletividade em foco na pesquisa foi a dos presbiterianos da cidade de Fortaleza, Ceará, da qual o autor propõe como questão central caracterizar sua identidade cultural buscando identificar em suas práticas religiosas e em sua vida, encontros ou afastamentos em relação à orientação proposta pela Igreja Presbiteriana.  

            A aproximação entre o objeto de estudo e o historiador ocorreu através da própria história de vida do autor, que pertence à comunidade presbiteriana de Fortaleza. Os entrevistados são pessoas de sua convivência pessoal e religiosa (inclusive uma tia fez parte dos entrevistados), circunstância que até lhe provocou dúvidas sobre a possibilidade da realização de um projeto de pesquisa científica, como relata em suas “Considerações Finais”: “No início dessa pesquisa encontrei-me em uma encruzilhada. A de fazer a interlocução entre a minha história e o campo de conhecimento que priorizei estudar, pois carrego comigo a convivência religiosa e as relações pessoais mantidas ao longo dos anos com os sujeitos da presente pesquisa”. Procurou, então, afastar suas dúvidas por meio da literatura, encontrando respaldo no método da “observação participante”, que consiste na tentativa de integração do pesquisador com o seu objeto de pesquisa e que é um recurso utilizado principalmente pela antropologia. Em todo caso, na leitura do trabalho identifica-se um nítido envolvimento emocional do historiador com seu objeto de estudo.

            A tese foi dividida em quatro capítulos. Os três primeiros são de natureza contextual e de fundamentação teórico-metodológica.  O quarto apresenta as histórias de vida dos 16 sujeitos de pesquisa, elaboradas a partir de entrevistas gravadas pelo autor. Fazem parte de seus referenciais teóricos autores como: Roger Chartier, do qual utiliza as três noções basilares de sua obra: representação, apropriação e prática (que são discutidos amplamente por Agileu no segundo capítulo); Pierre Bourdieu e seu conceito de Campo Religioso e Poder Simbólico (discutido amplamente no terceiro capítulo); e Peter Berger e o conceito de legitimação e estruturas de plausibilidade (também analisado no terceiro capítulo); além de outros autores como Martinho, Ecléa Bosi, Michel de Certeau entre outros.

Desde o início, observa-se a disposição sistemática do autor em esclarecer, minuciosamente, sua caminhada teórico-metodológica, indicando suas fontes e como trabalhou com elas, principalmente em seu segundo capítulo. Nele analisa a trajetória da História Cultural e a renovação que esta abordagem promoveu no campo historiográfico. Ressalta, baseado em Certeau, a importância dos movimentos religiosos para a compreensão das sociedades humanas e analisa as possibilidades do conhecimento do cotidiano através da análise das práticas religiosas, assim como as vantagens para o trabalho do historiador na utilização da memória das pessoas idosas na reconstrução do passado. 

Como dissemos, o primeiro capítulo tem o objetivo de contextualizar, temporal e espacialmente, a comunidade presbiteriana de Fortaleza, desde a chegada dos primeiros missionários estrangeiros na segunda metade do século XIX. O primeiro pastor que dirigiu o trabalho missionário no Ceará foi o Reverendo De Lacy Wardlaw, que desembarcou em Fortaleza em 1882. Anteriormente, a obra de conversão ficava a cargo dos chamados colportores – pessoas que penetravam os sertões do Brasil pregando o Evangelho e que levavam em lombos de animais Bíblias para vender ou doar. Foram os esforços desses colportores que resultaram nas primeiras conversões ao presbiterianismo no Ceará. Mas foi a partir da chegada do pastor De Lacy, que tem início a história da comunidade dos presbiterianos de Fortaleza, sendo sua Igreja erguida no ano de 1890.

Agileu descreveu a biografia do Reverendo De Lacy e de outros missionários, nacionais e estrangeiros, que tiveram papel de liderança na Igreja Presbiteriana de Fortaleza em sua fase de estabelecimento, período que o autor situa entre 1882 e 1930. No entanto, identificamos nesse ponto uma ausência de maiores discussões sobre as possíveis diferenças nas identidades culturais entre os pastores estrangeiros, que eram principalmente estadunidenses, e os pastores nacionais. Menciona, apenas de passagem, as dificuldades com o idioma do Reverendo De Lacy, o que atrapalhava a sua compreensão pelos fieis. Apesar de indicar que “a doutrina, ditames teológicos e conceitos de valores” (pág. 32) desses missionários estrangeiros obedeciam a um planejamento traçado pelas Juntas Missionárias de Nova York e Nashiville, não discute que valores culturais poderiam condicionar a sua prática religiosa nesse outro contexto sociocultural e se isso poderia ter contribuído para o surgimento de desavenças, como, por exemplo, no caso do Cisma de 1903, que deu origem a Igreja Presbiteriana Independente. A explicação fornecida para esse importante episódio indica a existência de uma oposição entre nacionais e estrangeiros, mas segundo Agileu estaria apenas atrelada à questão da maçonaria e da independência dos recursos das igrejas brasileira.

Com relação aos conversos, a maioria, assim como no restante do país, pertencia à classe média cearense, principalmente os comerciantes e profissionais liberais, embora ressalve que pessoas de todas as condições sociais tenham também se convertido, inclusive membros de famílias tradicionais. Essa maior inserção nos setores médios estaria vinculada ao embate entre forças tradicionalistas e modernizadoras em Fortaleza, reprodução do que ocorria em outros centros urbanos brasileiros. Defensores de um pensamento individualista e liberal, os setores de classe média lutavam contra a aristocracia por maior espaço político, encampando reformas para a modernização de Fortaleza. Segundo o autor, isso teria contribuído para a maior identificação desses setores com o protestantismo, que expressava esse espírito progressista e modernizador a parir da defesa do individualismo e da ascensão social através do esforço próprio, em contraposição com o espírito conservador e antimodernizante do catolicismo romanizado hegemônico e mais identificado com a aristocracia.

A Igreja Católica vivia nesse período uma crise de credibilidade devido ao mau comportamento do seu clero e a pouca assistência dos fieis. Os presbiterianos se aproveitaram dessa fragilidade para tentar por meio da estratégia do proselitismo, conquistar sua posição no campo religioso brasileiro (abordagem baseada em Bourdieu). Evidentemente, a Igreja Católica reagiu a essa contestação à sua posição hegemônica no campo religioso brasileiro, e, no caso em questão, ao cenário cearense. Perseguições, atos de violência física, destruição de templos e discriminação dos convertidos (eram apelidados de “bodes” pelos católicos) foram cometidos. O autor destaca a atuação de dois importantes personagens da história da Igreja Católica nordestina como emblemas dessa intolerância religiosa católica: Padre Cícero e Frei Damião.

Em resposta, os presbiterianos empregaram como estratégia a busca por distinção social e prestígio entre as pessoas letradas da sociedade cearense, como forma de conquistar uma posição no campo religioso cearense. O jornal foi um dos principais veículos de divulgação da mensagem presbiteriana, mesmo antes do advento da República e da implantação da liberdade de culto.

Esses embates no campo religioso, no caso em questão entre católicos e protestantes, foi aprofundado, como dissemos acima, no terceiro capítulo, a partir da análise da obra de dois importantes teóricos: Bourdieu e Berger. A religião teria para Bourdieu a função de legitimadora do mundo social e do cotidiano, o chamado “poder simbólico”: “que funciona pelo poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e de fazer crer, de confirmar ou transformar a visão de mundo, ação perseguida pelos presbiterianos” (pág. 88).

A religião exerceria a função de reduzir a complexidade social, a partir do estabelecimento de certezas diante da contingência do mundo natural e social. Essa redução da complexidade combateria as situações de anomia (desordem) que põem em risco a estabilidade das estruturas de plausibilidade (Berger). Um exemplo são as situações marginais, sendo a morte a mais relevante. Os presbiterianos a vêem como um desígnio de Deus e como a passagem para uma vida ao lado Dele para os que foram salvos. Essa crença diminuiria o impacto da perda de parentes e amigos, mantendo a harmonia pessoal e social dos indivíduos.

A moral protestante moldaria o comportamento dessas pessoas, pois o desvio da orientação da Igreja significaria uma depravação, um afastamento de um comportamento santo, que tem que ser santo porque Deus é santo. A moral, portanto, estaria acima de tudo. Honestidade, trabalho, poupança e disciplinarização do corpo – o sexo visto como ligado ao casamento e a procriação, a condenação à dança e ao consumo de drogas como bebidas alcoólicas – fazem parte do comportamento esperado do presbiteriano. Em suas entrevistas, Agileu procurou identificar a repercussão da mensagem religiosa no comportamento dos membros da comunidade.

Intitulado A Memória dos presbiterianos idosos: momento de construção de sua História Cultural, o quarto capítulo objetiva mostrar como foi forjada a maneira de ser dos presbiterianos de Fortaleza, o seu comportamento e a sua relação com os não presbiterianos. Para isso, utiliza como estratégia o mergulho na história de vida de dezesseis sujeitos de pesquisa. As entrevistas expressariam a pluralidade de sentidos que esses presbiterianos transmitem a sua religião, ao seu modo de pensar, trabalhar. A forma como encaram o nascimento, a doença e a morte seriam características distintivas em relação a outros grupos sociais.

A aproximação da pesquisa com o contexto sociocultural de Fortaleza foi através da vida e prática religiosas dos entrevistados. As mudanças e permanências sofridas pela cidade e que poderiam ter repercutido na vida da comunidade presbiteriana são apresentadas através dos seus relatos de vida. Essa estratégia metodológica adotada, sem dúvida interessante, permitiu muito mais ao nosso ver, uma caracterização de uma identidade presbiteriana do que de uma identidade cultural particular dos presbiterianos de Fortaleza, que seria a questão central da pesquisa. Assim como ocorreu no caso da apresentação dos missionários estrangeiros, sentimos mais uma vez a ausência de uma discussão do que seria próprio, específico, dessa coletividade em foco e, portanto, uma insuficiência em relação ao objetivo proposto.

 

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 23 dez 2010 @ 02 50 PM

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02 de dezembro de 1870



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