O Ser Soldado na Idade Moderna

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de filosofia e ciências humanas
Departamento de História
Moderna II – Professor: Severino Vicente da Silva

O SER SOLDADO NA IDADE MODERNA

Equipe: Alex Moura, Diego Carvalho, Diogo Cordeiro, Mozart Anderson

1. Introdução


Inicialmente o tema de nosso trabalho foi, “o ser soldado na idade moderna”, mas resolvemos abranger mais o campo do estudo para a nossa apresentação. Até porque as fontes que dispomos não ajudam numa pesquisa tão especifica. Então a partir disso, resolvemos falar não só do “ser” soldado, mas dos exércitos formados por esses homens, sejam eles mercenários, sejam eles nacionais. Falar de como esses corpos militares influenciaram na formação do novo continente europeu. Agora formado por Estados nacionais, onde os exércitos tiveram papel fundamental. Resolvemos analisar isso de um pouco antes, de forma a tentar esclarecer mais como foram surgir tais tropas, a relação entre o príncipe e os seus soldados, inicialmente. Para isso vou falar um pouco dos estados principescos e como os exércitos se encaixavam nesse contexto.
Phillip Bobbit define quatro características dessas cidades-reino italianas que são o claro exemplo do estado principesco, usando como exemplo a cidade de Florença. A primeira dessas marcas segundo ele, é que elas eram definidas por meios geográficos, o que fazia com que tivessem uma maior consolidação, tanto cultural, quanto política. Outro fator muito importante é a grande receita dessas cidades, o texto mostra que Florença tinha um ganho anual maior do que o do rei da Inglaterra, o que dava a essa república condições de sustentar a sua burocracia e seus gastos, inclusive os com os militares. Terceiro ponto, é que essa riqueza era objeto de cobiça alheia, e para proteger-se disso que se tornava necessária a proteção armada do seu reino, já que, geralmente, as cidades italianas tinham populações muito reduzidas para que pudessem criar milícias eficazes, elas contratavam exércitos mercenários. Por fim, as novas tecnologias, como canhões muito mais móveis, por exemplo, fez com que essas cidades passassem à fase seguinte. O Estado teve que mudar para dar respostas, não só as inovações tecnológicas, que não os deixavam mais seguros atrás de suas muralhas, mas também como forma de garantir a legitimidade de um líder em uma forma de governo recém criada, dar a esse representante a proteção que ele necessitava.
O estado nesse período vai tomando um caráter jurídico, que antes não possuía. Vai ganhando seus traços característicos, personalidade, legitimidade, continuidade, integridade e soberania. Na península italiana, a intrincada questão de alianças tornava difícil confiar em mercenários que pertencem à outra região que não a sua. Nesse momento que aparece a figura do Condottiere que vou falarei mais a frente. O que importa agora é saber que com a aquisição desses guerreiros se tornou cada vez mais necessário à formação de uma burocracia para financiar os Condottes e também adquirir artilharia. Foi nesse contexto que a figura dos mercenários ganhou força, mas se engana que pensa que eles eram só condottieres italianos, havia na própria Itália mercenários de todas as partes do mundo. Eram esses grupos de homens que lutavam em busca do ganho financeiro, sem nenhum envolvimento pessoal com a batalha que travavam.

2. As tropas Mercenárias
Os soldados mercenários eram “Soldados que, mediante pagamento em dinheiro, luta por uma causa que não lhe concerne”. Isso é o que está escrito no livro de Anthony Mockle, História dos Mercenários (1969). E parece ser bem adequada para falar desses homens que viviam uma vida tão conflituosa, em busca de ganho financeiro. A seguir vai um breve de três importantes grupos mercenários desse momento que estamos estudando.

Landsknechts:
A palavra Landsknecht literalmente significa “o servo da terra”. Provenientes da Suábia e da Alsácia principalmente, eles formaram a poderosa infantaria de mercenários de origem alemã, tão conhecida por volta de 1500.
Convocados pela primeira vez por Maximiliano I, para lutar na Guerra da Suábia, sob o comando de Georg Von Frundsberg, que é considerado o pai dos Landsknechts. Lutaram também nas repúblicas italianas e com a ajuda de Maximiliano, Frundsberg fundou o seu corpo de infantaria altamente treinado. Ganhou visão com seus homens ao defenderem Verona em uma guerra contra a cidade de Veneza, quando venceram os franceses. Geralmente suas tropas lutavam junto ao corpo do exercito local, eram contratados, principalmente pelas republicas italianas.
Em campo de batalha tinham comportamentos variáveis, mas ficaram conhecidos não só por sua bravura e organização em combate, mas pelo seu característico uniforme, que inspirado nos uniformes suíços, com bem mais cores. Seu regimento era formado em média por 10.000 homens, em um máximo registrado de 17.000, divididos em regimentos de 4.000 homens. O seu armamento tradicional era o Pique, uma lança bastante avantajada, muito comum na época e que era usada pela maioria dos homens. E também era muito comum o uso de uma espada longa de duas mãos.


Reislaüfer (Guarda Suíça)

Antes de fazer a guarda do vaticano, esses homens formavam um dos mais expressivos grupos de mercenários da Europa. Eram comandados por Kaspar Von Silenen. Foram os preferidos em fins do período medieval, na Suíça além de enormes, os contingentes de mercenários eram facilmente contratados, tinham ainda a vantagem de que na suíça, as milícias locais eram mantidas regularmente e assim eles dispunham sempre de armamentos e treinamento. Assim como os Landsknechts, lutaram nas guerras das republicas italianas, famosos por seus ataques em massa com seus piques e alabardas, suas principais armas, logo ficaram conhecidos em meio aos reinos europeus.
Deles é que se originou a famosa Guarda Suíça. Foi em um ataque do rei habsburgo, Carlos V ao Vaticano, no dia 6 de maio de 1527, dia em que até hoje se comemora o aniversário da guarda e o teste de admissão dos novos membros, que a Guarda provou o seu valor. A maioria dos seus homens morreu no ataque, mas os poucos que sobraram protegeram a vida do Papa Clemente VII. A partir desse dia os antigos mercenários suíços, ficaram responsáveis por uma das mais importantes missões de proteção do mundo. Hoje são senão a mais, uma das guardas mais respeitadas do mundo, não só por seu status mais devido também a seu preparo técnico e prático.

Condottiere

Uma espécie de senhores feudais muito comuns nas províncias italianas, que ao invés de deterem terras, controlavam milícias e vendiam suas forças de batalha aos príncipes italianos. Também foram bastante importantes nas batalhas das províncias italianas. Segundo Christophe Coureau, o nome condottiere vem do termo condottas (contratos). Que são vínculos assinados com o príncipe ou o principado, que definem o tipo de serviço a ser prestado por aquelas milícias.
Em Florença, por exemplo, existiam três tipos de condottas: “A condotta a solda disteso, pela qual o soldado deve obedecer às ordens do general local; a condotta a mezzo solda, segundo a qual o condottiere é livre para invadir, quando e como desejar, os territórios do inimigo; e, por fim, a condotta in aspetto (espera), que corresponde aos tempos de paz.” Esses condottieres evoluíram tanto, que alguns deles como Francesco Sforza de Milão, que casou com uma filha ilegítima de um príncipe que não tinha sucessores, buscaram legitimar-se no poder e conquistar para si tal província. Muitos outros buscaram também essa legitimidade, que era a única coisa que lhes faltavam para que pudessem assumir o poder em diversas províncias da Itália.


Maquiavel X Mercenários

Maquiavel diz logo de inicio do capitulo sobre os mercenários: “Os principais fundamentos de um estado, sejam ele hereditários ou novos, ou mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não é possível haver boas leis onde não há boas armas, e onde existem boas armas é conveniente que existam boas leis, falarei apenas das armas.” Desse pensamento inicial, quisemos extrair uma das bases desse trabalho. Tentamos nele mostrar como os exércitos, sejam eles mercenários ou não, foram importantes para a conservação e até mesmo a criação de alguns estados nacionais. Mas nessa parte inicial, tentaremos mostrar como o pensamento de Maquiavel é totalmente contra o uso de força mercenárias.
O autor do príncipe subdivide as tropas militares em quatro grupos: Mercenários, Mistos, Particulares e Auxiliares. As mistas são formadas em parte de mercenários e em parte particulares. Mas para ele são as mercenárias e as auxiliares, que são tropas enviadas por um outro reino para ajudar na defesa, que são demasiadamente perigosas para o príncipe que as contrata. Em suas palavras: “As tropas mercenárias e auxiliares, são inúteis e perigosas. Se alguém mantiver seu estado apoiado nessas tropas. Nunca haverá de estar seguro…”. Esse trecho mostra sua total desconfiança nesses homens que luta somente por dinheiro.
Em seu pensamento Maquiavel repudia os mercenários, por vários motivos, mas ele deixa claro, o fato de que a falta de ligação desses homens com o Estado Principesco é perigosíssimo para a soberania dos regentes. Nas palavras do pensador Florentino: “O Estado é espoliado por elas (tropas mercenárias) na paz, na guerra, pelos inimigos. O motivo disso é que não nutrem nenhum amor nem força que as conserve em campo, apenas um pequeno soldo, e ele não é suficiente para que desejem dar a vida por ti.”
Isso se demonstra em vários casos em que os mercenários se vendem pra estrangeiros, mudando totalmente o rumo de um combate. O próprio Maquiavel dá o exemplo de Carlos, rei de França, que conquista a Itália com grande facilidade, apoiado por tropas que antes lutavam pelos príncipes, em dado momento do livro, ele chega até a dizer que: “a presente ruína da Itália não tem como causa outra coisa senão o fato de, durante muitos anos, estarem apoiada em forças mercenárias”.
Fica claro que Maquiavel era totalmente contra os serviços dos mercenários. Ele mesmo presenciou momentos em que esses soldados se voltaram contra o seu príncipe ou o abandonaram. Ele acreditava que uma milícia local seria muito mais eficiente. Prova disso é o estatuto que ele mesmo cria em 1505, citado no texto de Bobbit, determinando a forma de organização de uma milícia florentina. Para ele a justiça e as armas eram fundamentais para o estado, então o príncipe tinha de ter plena poder e confiança sobre seus comandados, além de um corpo de funcionários públicos, que desse a ele maior controle sobre esse estado.

3. A formação do exército moderno

Na Europa moderna houve um grande processo de metamorfose onde a ascensão e a que das monarquias influenciaram na formação do Estado. Este Estado Moderno Absoluto presenciou fases, como: principesco, régio e territorial. Cada qual com suas especificidades, o período régio destacou – se pela transformação do exército e influências de novas técnicas militares, como diria Michael Roberts, especialista na formação do exército moderno. “Houve uma revolução militar”.
Estudando as organizações militares percebemos que há vários conceitos e generalidades, como afirma John Keegan em seu livro Uma História da Guerra, onde há seis tipos de organizações militares ao longo da história: o guerreiro, o mercenário, o escravo, a tropa regular, a milícia e o recruta. O que vamos estudar nessa parte são as tropas de linha, também chamada regular formada inicialmente por mercenários e logo depois por soldados das suas nações. Essas tropas regulares exerciam tarefas permanentes e dependentes em princípio de um soberano, logo depois assumido pelo Estado Burocrático.
O sistema de manutenção das tropas era por conta do erário, diferentemente dos exércitos independentes e formados totalmente por mercenários, seja em tempo de crise ou paz, essas organizações burocráticas reforçam o poder monárquico assim sendo militarizam a nobreza, e adotam um recrutamento que contribui na formação da sociedade. Muito acima da lealdade e da técnica dos cavaleiros com sua vassalagem.
“A razão decisiva para o progresso da organização burocrática foi sempre a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização”, análise feita por Max Weber. Antes de tudo essas tropas eram subordinadas ao Estado mostrando assim toda submissão possível ora no papel, ora nas atitudes. Novas construções mentais apareceram na Europa moderna, criadas acima de tudo pelos Estados Absolutistas e seus filósofos, assim a nova definição de militar sustenta-se em três pilares: ordem, disciplina e obediência, tendo na sua labuta manter a ordem no estado, refletindo assim na formação de instituições sociais, como a família.
Este estado centralizado tornou-se o senhor bélico a partir da ordem política e social criando assim a disciplina como forma de controle e de dominação, pois toda estrutura estatal estava reformulada devido o fim da vassalagem. Os estados nacionais consolidam a formação de exércitos burocráticos, afirma Weber 1. A cavalaria passa a ter valor secundário, ela que um dia representou status social e sentimento de nobreza, perde espaço para a infantaria2 .
Os soldados passam a ser pagos pelo soldo, podendo voltar para casa a cada 40 dias, apesar de mínimo e muitas vezes não são pagos, a guerra continua, como pilhagem, saques, perdão de sentença para condenados e propagandas nacionalistas como na guerra de cem anos. O exercito do séc. XVII entra em guerra com a infantaria, artilharia, a cavalaria os piqueiros, os lanceiros, os arqueiros e os besteiros. Sendo que os comandantes de tropa buscavam através de estratégia utilizar a proporção certa de todas as especialidades. A regra certa. (SILVA, 2007, pp.31)

A disciplina como forma de poder

Adestramento é a inovação tática? Bem, para a forma em que o adestramento era feito no exército da era moderna, sim. Mas treinar para lutar já era feito pelas sociedades anteriores, os homens de guerra como: Samurais, Vikings, tupinambás, etc.
As táticas são técnicas de guerra utilizadas para prever e antecipar batalhas. “O adestramento é assim o instrumento de controle que os estados modernos, já unificados, usam sobre suas tropas, já agora regulares. Ele aparece nas unidades militares criadas no século XVII. “Unidades essas que se caracterizam por suas profissionaliza ao contraio de seus predecessores medievais” (SILVA, 2007,pp.32)
O individualismo do guerreiro deixa de existir, o soldado pensa em conjunto, formando assim as tropas coesas conceituadas como unidade por Foucault, enquanto Weber denomina de massa essa consistência massificada da formação de soldados para guerra, são palavras diferentes que possuem os mesmos significados.
Vários instrumentos eram utilizados para controlar a cadência da marcha, por exemplo, o tambor no pé direito, o apito para executar ordens, os passos eram medidos para uniformidade de movimento até conseguir atitudes simultâneas com eficiência. Sendo assim o treinamento com disciplina foi essencial para formar as tropas. Enquanto para Foucault a disciplina é a arte de dispor em fila, organizando homens, enquanto para Weber foi, mas importante que a própria pólvora, pois só assim esse instrumento de controle foi eficiente, as atitudes não eram feitas apenas por obrigação.
Essa época nasceu também à necessidade dos quartéis, de acordo Kalina Vanderlei objetivo de criar espaço onde as novas tropas burocráticas possam ser tanto alojadas quando vigiadas, e mantidas sob estrito controle. Como deveria ser mantido um exército após as batalhas ou como preparar-se antes das mesmas, sem ameaçar sua sociedade e sem perder o controle, só com disciplina e violência para obter um efetivo domínio, ter medo do inimigo como também dos oficiais que comandam os quartéis, que seja obediente antes que útil, uma estrita relação de poder (FOUCAULT, 1997).

“As bases econômicas em que alicerçam as organizações não é o único agente que determinou o desenvolvimento da disciplina, embora sua importância tenha sido considerável. A disciplina dos exércitos bem treinados e o papel, maior ou menor, que tiveram na guerra dependiam, ainda mais e com efeitos duradouros, da ordem política e social. Essa influência, porém, era ambígua.” (WEBER, 1959)

Os baluartes do exército moderno

“Pode-se defender que a guerra era possivelmente o mais racional e rápido modo de expansão de extração de excedentes ao alcance de qualquer classe dominante sob o feudalismo”, é o que pensa Perry Anderson nas linhagens do Estado Absolutistas.
Basta pensar em disputar sem que haja sangue violência que assim mesmo é considerado Guerra. Thomas Hobbes, na obra Leviatã, assim disse:”Guerra não é apenas luta,…, basta o desejo de rivalizar através de batalhas é suficiente…”

a) Nesse mundo disputado nasce o holandês Maurício de Orange-Nassau em 1567, filho de Guilherme, o Taciturno. Sucedeu o irmão Felipe Guilherme em 1618. Estudioso em técnicas de guerra, ele formou o primeiro exército profissional, ainda boa parte de mercenários, com recursos da expansão marítima, mas adotou a disciplina tática para rivalizar com vitórias em cima dos tercios espanhóis, os quais detinham o maior poder de luta, com seus prototanques, inspirados nos gregos, formação massificada retangular de piques, porém lentos e formação de blocos. Nassau buscou nos romanos, utilizou fileiras e rapidez em municiamento, deixando que os piquetes protejam os mosquetes. Saraivadas sucessivas e ininterruptas sufocava o inimigo, coreografia ágil, ocupando grandes espaços devido à extensão das tropas lateralmente e pouca profundidade. (BOBBIT, 2005, pp.92).

b) O dinâmico e impetuoso Gustavo Adolfo, o Leão do Norte, Rei da Suécia, filho de Carlos IX, nasceu em 1594-1632. Subiu ao trono com 16 anos, lutou ao lado dos protestantes. Aprimorou a técnica de Nassau, admirado pelo seu pai, as saraivadas tornou-se cerradas em fileira simultâneas, concentrou o fogo em três tiros por vez. Novo alinhamento e contramarcha com revezamento na Guerra Linear.
Só pode ter um Estado régio centralizado devido ao seu diplomata Axel Oxestierna, dando um novo formato constitucional, reformou o tesouro, fisco, educação e justiça. Tendo apoio da Dieta, do Conselho, da Administração Provinciana e a Igreja. Ela própria participava na elaboração dos Decretos como os Artigos de Guerra em 1621. Um das mais importantes revoluções sociais no exército foi o sistema de recrutamento, todo cidadão sueco estaria preparado para a guerra, superando o número de mercenários, assim nascendo um sentimento de nação com seu Estatuto do Pessoal Militar em 1620.

c) Wallenstein foi um grande general imperial, príncipe de Sagan, lutou pela Liga Católica, financiava, suprimia grandes forças chegando a 100 mil homens, se tornou credor do imperador, começou agir independentemente gerando insegurança no Estado Régio e na Liga, sendo destituído e assassinado por oficiais de confiança do Imperador.
“A tática de Gustavo atendia a uma estratégia de aniquilação; representava, pois, uma profunda mudança de pensamento em relação à estratégia de desgaste de Wallenstein ou a tática de cerco de Maurício” (BOBBIT, 2005, pp.106).

Chegamos à conclusão no fim desse período que a disciplina foi mais importante que a pólvora, pois soube utilizar de maneira eficiente e determinante. E que as mudanças táticas introduzidas pelos baluartes, não só mudou as estratégias da guerra como também o modo de vida da sociedade, uma verdadeira transformação social, finalizando com o pensamento de Michael Roberts assim como abrimos nossa parte.

Guerra dos 30 anos

Foi por um lado uma guerra civil alemã entre regiões que queriam autonomia diante do poder imperial e outras que queriam manter o império. Por outro lado foi internacional, pois os defensores católicos do Sacro Império Romano Germânico em aliança com os espanhóis, lutaram contra os protestantes de diversas regiões da Europa que tinham o apoio da franca católica.

O bloco dos Habsburgos

· Áustria e Hungria – do rei Fernando II
· Alemanha (especialmente a Bavária) do rei Maximiliano I
· Espanha – Felipe III, com apoio do papa e da polônia
· Durante algum tempo recebeu apoio dos luteranos (saxônia) e dos calvinistas (Brandemburgo)

Bloco protestante
· Protestantes da boemia, Palatinato (Frederico V), Holanda, Suécia, Dinamarca e Inglaterra
· Franca católica na fase inicial de forma indireta e na segunda metade se junta à Suécia e define o destino da guerra

A Alemanha da época

No século XVII a Alemanha era uma complexa região formada por mais de mil unidades políticas e não possuía fronteiras definidas. Matinha uma estrutura política feudal. Entre essas regiões erguiam-se diversas barreiras para cobrança de pedágio e postos de aduana. Antes do inicio da Guerra dos 30 anos existiam dois lados em briga constante pelo poder, de um lado a liga católica representada por Maximiliano da Bavária e de outro os protestantes liderados por Frederico V, do Palatinado, que defendia os cultos reformados.

Espanha

Era a Herdeira do maior império do mundo, abrangendo áreas em todos continentes do México a filipinas. A península empírica havia sido praticamente imune as transformações impostas pelo renascimento e pelos avanços da ilustração, e careceu de uma revolução burguesa democrática. Com a renuncia de Carlos V em 1555 o império foi dividido em dois ramos dos Habsburgos
1. O império filipino que abrangia Espanha, Portugal, parte da Itália, flandres e as diversas colônias ultramarinas
2. E o rei da Áustria que dominava o sacro império

Holanda

Já estava na luta pela sua independência, contra a Espanha desde 1568. Na guerra dos 30 anos interferiu fornecendo tropas bem treinadas, formalizadas pela academia militar, de Mauricio de Nassau e dando apoio financeiro, aos países protestantes. Com o fim da guerra estava com a maior frota naval militar e comercial, com o controle de parte das colônias asiáticas e americanas e com um imenso desenvolvimento urbano e cultural

França

Entrou na guerra na época de Luis XIII e seu chanceler Richelieu, que tinha habilidade estratégica suficiente para impedir que espanhóis e austríacos, em seus avanços sobre a Europa central. Richelieu internamente manteve uma política de relativa tolerância com os protestantes e uma orientação externa baseada nos interesses nacionais franceses, o que fica evidenciado com sua participação na Guerra dos trinta anos. Em 1635 após concluir seu tratado de alianças com a Suécia e com as províncias unidas declarou oficialmente guerra contra a Espanha e ao arquiduque governador dos países baixos

Suécia

Entrou em conflito contra a Dinamarca e polônia e buscava, sobretudo o controle sobre a região do mar báltico, recebendo apoio da Rússia que tinha o interesse de neutralizar a polônia. Gustavo Adolfo junto com o ministro Axel Oxenstierna revoluciona o cenário militar europeu, como foi visto anteriormente.

Outros Países

Os países da península itálica, principalmente Milão, Nápoles, Sicilia, Sardenha e os territórios papais apoiavam o lado Habsburgo. Enquanto o ducado de Sabóia, a toscana, Veneza e outros ducados menores oscilaram em suas alianças maior parte destes se juntaram aos franceses contra o domínio espanhol e austríaco sobre a Itália. Já Inglaterra estava em guerra civil que culminou com a execução do rei Carlos I em 1649 e colocou no poder o parlamento representado por Oliver Cromwell. Apoiou a primeira fase da guerra discretamente o lado protestante, porem não desempenhou um papel importante na guerra continental.

Fases da guerra

De inicio uma serie de conflitos iniciados na Alemanha culmina com a invasão espanhola ao palatinado, onde expulsou Frederico V, a região passou a ser controlada pelo imperador Maximiliano da Bavária. A partir de 1621 foi rompida a trégua de 12 anos entre Espanha e os países baixos. A luta entre os principados alemães protestantes e o império Habsburgo não era apenas uma disputa religiosa, mas também estava em jogo o controle do centro da Europa e também as rotas comerciais marítimas e terrestres.

A guerra foi motivada ao mesmo tempo pelas rivalidades, franco-espanhola, Holanda-espanha, reforma-contra. reforma, fora as divergências entre diversas regiões da Europa central. Em todas as fases essas regiões protestantes lutaram contra a coligação formada pela Espanha, estados germânicos católicos e a Bavária.

O contexto militar

Durante a guerra a existência de milhares de soldados criou uma situação caótica durante décadas na Europa, chegando entre 1625 a 1635 a reunir cerca de um milhão de soldados em combate. O aparato de logística para o abastecimento dos soldados era quase nulo, seus pagamentos atrasavam, com isso ocorria constantemente os motins, o que dificultava mais ainda a organização das tropas.
Embora em algumas regiões a maioria dos soldados fosse voluntária, havia também o recrutamento forcado de civis e de ex-prisioneiros, e o pagamento era muitas vezes a própria pilhagem. As tropas mercenárias foram amplamente usadas, e os estragos provocados por elas foram muitas vezes mais destrutivos para os que as contratavam do que para os inimigos.
Uma grande falha desses exércitos especialmente o dos franceses seria a venda dos cargos militares que muitas vezes eram concedidos a nobres inexperientes em guerras longas e sistemáticas. Um fato interessante é que durante o conflito houve uma grande difusão do uso de bebidas alcoólicas pelo soldado, com destaque para os destilados de cereais, como o gim, que era usado principalmente pelos holandeses. O número estimado de vitimas é de quatro milhões de mortos, numero que só foi superado nas guerras mundiais do século XX.


A paz de Vestfalia

As conferencias de paz começam em 1644, com duas sedes, em locais distintos, os católicos, reunem-se em Munster e os protestantes em Osnabruck. O acordo só será concluído em janeiro de 1648, quando efetiva-se a paz do conflito nas províncias unidas, onde a Espanha reconhece após 80 anos a independência holandesa. A Espanha após Vestfalia prosseguiu em guerra contra a franca ate 1659, quando foi firmada a paz dos Pirineus.

Quadro geral depois de Vestfalia
· A franca ganha a Alsacia, Metz, Toul e Verdun;
· Suécia o controle do porto de Wismar no Báltico e dos estuários dos rios Oder, Elba e Weser;
· As províncias unidas e a Suíça são reconhecidas como republicas independentes;
· Brandenburgo ganha a Pomerania oriental e uns pequenos territórios, o que irá alicerçar as bases para a formação do Estado Germânico, com a fusão com o ducado da Prússia;
· A Bavária ganha o alto Palatinado;
· Cerca de 300 estados são reconhecidos do sacro império tem sua soberania reconhecida;
· O rio Reno deveria permanecer aberta a todas as nações;
· A paz de Augsburgo e confirmada e estendida aos calvinistas;
· A Espanha sofreu com as rebeliões na Catalunha, Portugal e em Nápoles.

O final da guerra determinou principalmente o fim do poderio Habsburgo e da Espanha, sobre a Europa, a emergência holandesa, e em seguida dos britânicos, o advento do máximo esplendor do absolutismo Frances. Além disso, no mundo europeu é estabelecido um sistema internacional de estados, surge um direito internacional, tendo como grande contribuinte Hugo Grotius, cada estado teria suas normas não mais se sujeitando a normas externas e as relações internacionais passam a ser estabelecidas em função do reconhecimento da soberania do estado, independentemente da sua religião.

Ocorre também após o conflito o triunfo do estado régio, e começa-se a prepara o terreno para o desenvolvimento do estado territorial. Após o fim da guerra em 1648 a paz de Vestfalia cria uma nova ordem na Europa moderna, na qual, a razão do estado, sobrepõe aos princípios religiosos medievais e na Europa não houve mais guerras motivadas por divergências religiosas.

Estados Territoriais

Os Estados Territoriais, como toda forma de organização política e administrativa, possuem bases de sustentação. A primeira e fundamental é o exército profissional e permanente. Não mais aos moldes do Estado Régio, que também possuía um exército permanente, mas estava impregnado pelos mercenários. A burocracia estava cada vez mais centralizada. Não na figura do rei, e sim, no serviço ao Estado. Estes cargos não eram mais vendidos para angariarem somas para os monarcas fazerem suas guerras. Havia se estabelecido outro nível de sistematização.

A Idade Moderna foi a era dos acordos e tratados de guerra e paz. Neste nível se fazia necessário uma constante representação de diplomatas de um Estado em outro com o fim de selar acordos que permitissem uma maior mobilidade política. Um serviço que não apenas estivesse para acordar alianças dinásticas e matrimoniais. O território também passou ater um nível de preocupação maior por parte dos agentes do rei e do próprio rei. Queria-se uma unidade territorial contínua, e não fragmentária descontínua como no caso Habsburgo. O monarca deveria garantir suas fronteiras, pois eram nelas que passavam o comércio – importante fonte de recursos através dos impostos – a guerra travava-se muito mais neles, além de serem a passagem do comércio era o começo de sua soberania. A defesa do território começava com a defesa das fronteiras, muitas fortificações foram construídas nas fronteiras dos estados e lá as batalhas eram mais comumente travadas.

A guerra ajudou a forjar as bases deste Estado, não que ela tenha sido a única. Contudo, a forma de batalha não era mais aquela da Guerra dos Trinta Anos, cataclísmica de grandes embates e megalomaníacas. Tinham seus objetivos mais delimitados, travada com meios delimitados visando objetivos restritos. Com isso, as batalhas eram mais estratégicas colocando os exércitos em pé de uma relativa igualdade. O exército era profissional, vestido, armado e treinado durante todo o tempo pelo Estado. A disciplina era rigorosa, chegando ao patamar do exército prussiano onde se objetivava que o soldado possuísse mais medo do seu oficial do que do seu inimigo. O abastecimento das tropas em campanha despertou mais cuidado por meio dos homens de guerra. A comida para estes soldados em batalha era algo primordial para mantê-los dispostos a lutar, armas suficientes munição e transporte também completavam a lista de tarefas. E já se começou a imprimir na cabeça dos soldados a noção de lutarem pela pátria, se bem que isso não foi muito difundido por se tratar ainda de tema delicado e escorregadio.
Por fim, a paz de Vestefália e o Tratado de Utrecht foram primordiais para a consolidação dos estados territoriais. O primeiro por garantir uma expansão das fontes de legitimação, quando previa que os outros estados reconhecessem a soberania deles como estados independentes. E o segundo por sacramentar o sistema político dos estados territoriais. Onde os estados que melhor representaram este papel foram a Holanda, a Inglaterra, a Suécia e a Prússia.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:

BOBBITT, Philip. “A guerra e a paz na história moderna: o impacto dos grandes conflitos e da política na formação das nações”. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 11ª edição. Petrópolis: Vozes, 1987.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural, 1974

KEEGAN, John. Uma história da Guerra. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, 1987.

MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
MILLER, Douglas. The Landsknechts: The Osprey Men-at-Arms Series; 1976.

MOCKLER, Anthony. The New Mercenaries. London: Paragon House, 1987.

SILVA, Kalina Vanderlei Paiva da. O miserável soldo & a boa ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na Capitania de Pernambuco dos séculos XVII e XVIII. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002.
1 Esse tipo de formação é explicado justamente na obra Ensaios de Sociologia, pp.258, onde toda burocratização do exército corroborou na formação do Estado, basta ver nas transferências de serviços, privilegiando alguns qualificando outros. Semelhança a empresa capitalista privada, tanto no recrutamento quanto logo depois na indústria bélica, pois os chefes de companhias eram donos de materiais e suprimentos bélicos, toda pesquisa e instrução científica, tudo passou a ser regido pelos recursos do Estado burocrático, regulando assim a economia administrativa para canalizar e favorecer a nova elite.
2 A afirmação encontra-se no livro O Soldo Miserável de Kalina Vanderlei pp.29, que essa substituição foi gradativa que apesar dos valores da cavalaria medieval ela passou a ter outra função num exército, além de aprimorar a técnica, utilizando mosquete com Gustavo Adolfo, chegando a ter armaduras pesadas. No decorrer da história no exército prussiano já não encontrava isso, pois utilizaram armas portáteis, punhais, coletes e uniformes leves dando proteção e agilidade.

observação final do professor. Como uma parte do trabalho foi o simples control c – control v, retiramos essa parte, especilamente por não ter sido mencionado a fonte.

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