18 jul 2018 @ 11:16 PM 

O CANTO DO SOFRER DE UM NORDESTE ESQUECIDO [1]

SAMARA FRANÇA GOUVEIA DA SILVA[2]

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SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………….04
  2. O FENÔMENO DA SECA…………………………………………………………………….05
  3. A INDÚSTRIA DA SECA………………………………………………………………………09
  4. O ÊXODO RURAL……………………………………………………………………………….11
  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS…………………………………………………………………..17
  6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………….18

INTRODUÇÃO

O presente artigo visa abordar a relação entre as músicas do cantor e compositor brasileiro Luiz Gonzaga com as temáticas referentes à seca do Nordeste, a cultura de migração e o sofrimento dos nordestinos frente a realidade que os mesmos estão inseridos.

Luiz Gonzaga do Nascimento, também conhecido pelo título de Rei do Baião, nasceu em 13 de dezembro de 1912 em Exu, um município pertencente ao estado de Pernambuco, situado à altura do que é conhecido como Serra do Araripe, na divisa entre os estados Pernambuco e Ceará. Filho de Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos, o mestre Januário, o sanfoneiro de 8 baixos. Cresceu vendo e vivendo as dificuldades do Sertão. Saiu de sua terra, conheceu a vida, as pessoas, os lugares.

Iniciou sua produção musical por volta da década  de 1930, onde quando tornou-se  artista conhecido, Gonzaga se utilizou de sua posição no cenário musical brasileiro, bem como do veículo de comunicação mais importante de sua época, o rádio, para cantar os problemas existentes na região do Nordeste do Brasil, transmitindo em algumas de suas canções um ar de protesto, exaltando um Nordeste que transcende o campo geográfico dando espaço ao homem que nele habita e ao sentimento do mesmo para com sua terra. Suas músicas nos levam à reflexão e ao conhecimento de um Nordeste singular, difícil de se viver, mas que possui uma beleza própria e uma gente única.

Assim, neste artigo será observada a ligação que há entre as canções de Gonzaga e o Nordeste que castiga, que expulsa o homem de sua região, que lhe traz a dor. A dor da seca, da miséria, da partida, da saudade. A dor de um Nordeste por muito tempo esquecido, silenciado, absorvido pelas dificuldades.

A convivência do homem no Sertão reside no espaço dos opostos, ou seja, entre o tormento e a esperança. Torna-se um forte pelo fato de viver cada dia enfrentando sua morte. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.80).

O fenômeno da seca

“Alguns avistam a seca, poucos enxergam a seca”.

(Ariano Suassuna)

A seca presente na região semiárida do Nordeste brasileiro é histórica, tendo seu primeiro registro datado entre 1583/1585 pelo padre Fernão Cardin, esse que teria atravessado o Sertão da Bahia para Pernambuco, onde se deparou com uma forte seca pelo caminho. Desse modo, podemos notar que tal fenômeno não é recente, mas ainda assim é presente e recorrente na atualidade.

A zona característica ao semiárido corresponde a uma extensão de cerca de 969.589,4 km² de todo seu território, sendo referente ao Nordeste 89%. O Nordeste, por sua vez, corresponde a 18,2% do território do Brasil e possui 1.561.177,8 km². A respeito da população do semiárido, ela abrange cerca de 25 milhões de habitantes que vivem em condições severas devido a inúmeros fatores.

O fenômeno da seca é um evento climático que ocorre em decorrência das chuvas irregulares e mal distribuídas geograficamente, bem como da temperatura elevada presente na região. As estiagens próprias do semiárido nordestino podem ocorrer em períodos de tempo curtos ou muito longos – a exemplo a grande seca que foi de 1979/1985 onde nesses seis anos de duração castigou toda uma gente. Vale salientar que o período correspondente a estiagem só se torna um problema quando impossibilita a subsistência da população que, por não conseguir manter as plantações e os animais, a exemplo o gado, por conta da falta de água e de alimento, debilita-se e se torna vulnerável, entregue à própria sorte, recorrendo a meios que permitam a sobrevivência de tal situação, um desses meios é a migração para centros urbanos como forma de fugir da realidade de um Nordeste difícil.

A canção Asa Branca, composição de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira, gravada em 1947 e um dos grandes sucessos de Gonzaga até a atualidade, retrata muito bem a questão da perca dos animais e da plantação por conta da seca.

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação

Por farta d’água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

É importante ressaltar que os nordestinos também relacionam o fenômeno da seca com alguns animais que lhes indicam quando haverá estiagem. Gonzaga canta algumas músicas na qual aparecem pássaros que representariam muito bem isso, sendo eles a asa branca e a acauã, ambas deram nome a canções de Gonzaga.

A asa branca é uma ave símbolo do Sertão visto que a mesma possui o papel de anunciar as mudanças climáticas por ser ela uma ave de migração que, quando pressente a seca, debanda em busca de um clima melhor. A canção Asa Branca, composta em 1947 por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga retrata muito bem essa questão.

Inté mesmo a asa branca

Bateu asas do Sertão

Depois eu disse, adeus rosinha

Guarde contigo meu coração

No mais, a asa branca também foi tema de uma segunda música que retrata o seu regresso ao Sertão e, consequentemente, o regresso das chuvas na região. Seu nome é A volta da Asa Branca, composta por Gonzaga e Zé Dantas no ano de 1950.

Já faz três noites

Que pro Norte relampeia

A asa branca

Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas

E voltou pro meu Sertão

Ai, ai eu vou me embora

Vou cuidar da plantação

A seca fez eu desertar da minha terra

Mas felizmente Deus agora se alembrou

De mandar chuva

Pra esse Sertão sofredor

Sertão das muié séria

Dos homes trabaiador

Rios correndo

As cachoeiras tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Ai, ai o povo alegre

Mais alegra a natureza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Acauã é um pássaro que, em algumas regiões do Brasil, acredita-se que o mesmo traz com seu canto o “mau agouro”, prenunciando uma morte próxima àquele que o escuta. No caso da canção que recebe seu nome, o mau agouro seria a seca e a morte anunciada seria a da terra.   A Canção é composição de Zé Dantas, gravada em 1952.

Acauã, acauã vive cantando

Durante o tempo do verão

No silêncio das tardes agourando

Chamando a seca pro Sertão

Chamando a seca pro Sertão

Acauã, Acauã

Teu canto é penoso e faz medo

Te cala acauã

Que é pra chuva voltar cedo

Que é pra chuva voltar cedo

Toda noite no Sertão

Canta o João corta-pau

A coruja, mãe da lua

A peitica e o bacurau

Na alegria do inverno

Canta sapo, gia e rã

Mas na tristeza da seca

Só se ouve acauã

Só se ouve acauã

Acauã, acauã

Paralelamente, é comum relacionar o fenômeno da seca como o motivo principal da pobreza e do sofrimento dos nordestinos, mas não é bem assim. A má distribuição de água e de terras, bem como falta de políticas públicas efetivas voltadas para solucionar, ou pelo menos amenizar, o problema da estiagem afeta diretamente o âmbito social. Vale salientar que desde o período colonial foram desenvolvidos projetos que visavam, ou se diziam visar, a solução das secas. Além disso, apesar do semiárido possuir um grande contingente populacional e uma grande extensão territorial, o subdesenvolvimento no qual a região se encontra fomenta ainda mais a pobreza que a maior parte da população lá existente enfrenta. Desse modo, pode-se entender o fenômeno da seca, bem como o sofrimento do nordestino, como decorrente de questões sociais, econômicas e políticas.

No mais, o homem que vive no semiárido quando confrontado pelas dificuldades advindas da seca, muitas vezes vende sua mão-de-obra e seus bens a preços demasiadamente baixos a um afortunado qualquer que tenha condições e esteja disposto a compra-los, visto que já não mais possui garantias econômicas, já que em tal período o desemprego cresce, e os meios de sustento se esvaem. Gonzaga em uma das canções que interpreta formidavelmente traz à tona tal problema, e descreve a situação entonando, de certa forma, a tristeza através de sua voz. A música é A triste partida, do compositor Patativa do Assaré, gravada em 1964.

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

A seca em si já inspirou diversas obras tanto no campo literário como no campo musical e cinematográfico, obras consagradas que descreveram, a partir da ótica de seus autores, o sertanejo, sua vida e sua terra. Dentre tantos artistas que descreveram o Sertão nordestino destaco aqui Luiz Gonzaga, o rei do baião, que difundiu pelo Brasil um novo Nordeste, um Nordeste real, que além das dificuldades enfrentas e do sofrimento já conhecido, também tem uma cultura rica, uma gente forte, animada e que ama sua terra.

Gonzaga conseguiu, através de suas músicas, criar um Nordeste que não era conhecido por aqueles que viviam na região Sudeste, quebrando estereótipos por muito tempo perpetuado. Conseguiu também protestar contra o descaso dos governantes e o esquecimento da região que ele nasceu, cresceu e saiu muito cedo para ganhar a vida. Suas músicas acalentavam um povo que sofria, ora por estar vivendo situação de flagelo em uma terra difícil ora por estar distante do seio de sua terra natal, e que se identificava com as letras de suas canções. Luiz, ou Lua, como também era conhecido, cantou o homem, as festas e a terra; cantou a saudade, a tristeza e o amor. Cantou também a felicidade, a partida e a fé, a fé na volta da chuva, na melhora da situação. Luiz cantou o que ele viveu, como nordestino de Exu, que passou pelas dificuldades que um sertanejo passa. Luiz, através de sua arte, deu visibilidade aos anseios de seu povo, que por muito tempo foi esquecido na invisibilidade de um país que desvaloriza o que não é da cidade grande. Luiz Gonzaga cantou o que acreditava e traduziu de forma singular o Nordeste e sua gente.

[...] a partir da arte de Luiz Gonzaga, os nordestinos passaram a ouvir então uma música que trazia no seu conteúdo a consciência de seus autores em relação aos verdadeiros valores do homem do Nordeste e os problemas de sua terra. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.141).

A indústria da seca

O que é conhecido como indústria da seca é o movimento do âmbito político e econômico das regiões atingidas pela seca. Por conta da situação vulnerável que a população se encontra frente as dificuldades que a seca lhe impõe, muitos políticos e até mesmo comerciantes se utilizam dessa fragilidade para se beneficiar, faturando com a falta de água e de alimento, ou até mesmo explorando a mão-de-obra sertaneja.

Dito isso, os políticos aproveitam da debilidade de tal momento para se candidatarem, comprando votos através de envios de carros-pipas, de alimentos ou até mesmo através de promessas de melhorias. Usam do assistencialismo para imprimir em tal sociedade uma política de paternalismo, de clientelismo que se perpetua ao longo dos tempos. Assim, esses governantes podem até implementar projetos que visam ajudar os sertanejos, mas são apenas projetos de curto prazo, medidas adotadas para socorrer a população em um momento de seca, amenizando temporariamente o problema. Não se pensa em resolvê-lo por completo visto que é muito mais viável para eles, e todos aqueles que possuem certa posição de poder, manterem uma situação que lhes renderão lucros, do que solucioná-la. Desse modo, no período de grande estiagem é disponibilizado para o sertanejo um auxílio dado pelo governo, com o propósito de dar certa condição de sobrevivência para aqueles que estão sofrendo a perda de suas plantações e de seus animais.

Luiz Gonzaga canta uma música que aborda essa temática, a esmola, por assim dizer, cedida pelo governo, para um povo que perdeu tudo por conta da negligência dos donos do poder que fecham os olhos para a realidade cruel do semiárido do Nordeste brasileiro. A música de composição do próprio Gonzaga em parceria com o compositor Zé Dantas, gravada em 1953, é um apelo escancarado por melhorias e uma crítica aos governantes que acham que o pagamento de tal esmola em tempos difíceis é o suficiente para suprir as necessidades de um povo.

Seu dotô os nordestino

Têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista

Nesta seca do Sertão

Mas dotô, uma esmola

A um home que é são

Ou lhe mata de vergonha

Ou vicia o cidadão

É por isso que pedimo

Proteção a vosmicê

Home por nós escuído

Para as rédias do pudê

Pois dotô dos vinte Estado

Temos oito sem chuvê

Veja bem, quase a metade

Do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo

Encha os rios de barrage

Dê comida a preço bão

Não esqueça a açudage

Livre assim nós da esmola

Que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juro

Sem gastar nossa corage

Se o dotô fizer assim

Salva o povo do Sertão

Se um dia a chuva vim

Que riqueza pra nação

Nunca mais nós pensa em seca

Vai dá tudo nesse chão

Como vê, nossos destino

Mecê tem em vossa mão.

Na primeira e segunda estrofe Luiz canta o descontentamento da situação de dependência em governantes que parecem esquecer que eles foram escolhidos pelo povo no qual eles mesmo fazem pouco, bem como lembra que em um país de 26 estados, quase a metade se encontra em situação de miséria.

Na terceira e quarta estrofe fica claro que ele não quer receber auxílio do governo, mas quer meios de viver através de seu trabalho, pois quando a chuva vier tudo irá se ajeitar, sendo não mais necessária a ajuda dos políticos, pois com a chuva é possível plantar e assim também se torna possível viver de forma independente. Ao final, ele lembra que o destino de toda uma gente se encontra nas mãos daqueles que foram escolhidos para governar.

Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político.

(Dominique Dreyfus, 1997).

Outra canção interpretada por Gonzaga e que pode ser lembrada neste artigo ao que diz respeito das músicas que falam acerca dos que se utilizam da situação da seca para benefício próprio, fazendo uso das promessas de melhorias ao povo e da troca de favores em prol de candidaturas, é Procissão, composição de Gilberto Gil, gravada em 1971.

Muita gente se arvora a ser Deus

E promete tanta coisa pro Sertão

Que vai dar um vestido pra Maria

E promete um roçado pra João

Entra ano, sai ano, e nada vem

Meu Sertão continua ao deus-dará

O êxodo rural

O êxodo rural proveniente da seca do semiárido nordestino surge por conta da falta de condições de sobrevivência em um cenário precário no qual a negligência política e a falta de projetos governamentais efetivos não tornam possível manter o sertanejo em sua terra. A falta de trabalhos, dinheiro e chuva, contribuem para o distanciamento do homem de suas raízes.

Os espasmos que interrompem o ritmo habitual do clima semi-árido regional constituíram sempre um diabólico fator de interferência no cotidiano dos homens dos sertões. Mesmo perfeitamente adaptados à convivência com a rusticidade permanente do clima, os trabalhadores das caatingas não podem conviver com a miséria, o desemprego aviltante, a ronda da fome e o drama familiar profundo criado pelas secas prolongadas. (Ab’Sáber, 2003, p. 85).

O sertanejo, quando encurralado pela seca e todos os problemas que ela traz, como a fome e a miséria, encontra na fuga do sertão uma forma de melhorar de vida, e como consequência, ocorrem as migrações para áreas urbanas, vistas como meio de desenvolvimento, que carregam em si a utopia da prosperidade do retirante que largou tudo em busca de uma realidade diferente da do sofrimento que vivia no Sertão. Homens e mulheres corajosas juntavam o que podia e se arriscavam em viagens perigosas, muitas vezes feitas através do pau de arara, meio de transporte muito utilizado pelos sertanejos em meados do século XX. O pau de arara correspondia a um transporte irregular, muitas vezes um caminhão, que transportava um grande número de pessoas, era de certa forma um substituto imperfeito do ônibus. Desse modo, para compreendermos a forma que Luiz Gonzaga aborda tal temática, nos utilizaremos mais uma vez da canção A triste Partida, composição de Patativa do Assaré que fora gravada por Gonzaga.

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheias

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

[...]

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Outras duas canções interpretadas por Gonzaga que retratam a migração sertaneja são O andarilho, composição de Dalton Vogeler em parceria de Orlando Silveira, gravada em 1968 e A vida do viajante, composição de Luiz Gonzaga em parceria de Hervê Cordovil, gravada em 1953.

O andarilho, demonstra a solidão de quem largou a família e foi embora ganhar a vida em terras que possuem chuva, onde Deus olha pelos seus, bem como demonstra que para chegar na cidade grande o sertanejo teve que desafiar as dificuldades que a seca lhe impõe.

Caí do céu por descuido

Se tenho pai, num si não

Venho de longe, seu moço

Lugar chamado Sertão

Vivo sozinho no mundo

Zombei da sede, zombei

Cortei com minha peixeira

Todo mal que encontrei

Fui caminhando, enfrentando

As terras que o sol secou

Até chegar a cidade

Dos homens que Deus olhou

A vida do viajante, por sua vez, retrata a saga daquele que, ao sair de sua terra em busca de descanso e felicidade, guarda em sua memória o afeto pelos lugares em que passou e pelas pessoas que deixou pelo caminho.

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia descano feliz

Guardando as recordações

Das terras onde passei

Andando pelos Sertões

E dos amigos que lá deixei

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E a alegria no coração

O repertório de Gonzaga aborda o processo migratório por diversas vezes em várias canções por ele interpretadas, visto que o mesmo entendia tal situação de partir em busca de melhores condições de vida, bem como de melhores oportunidades, pois ele mesmo havia passado por isso. Suas narrativas cantadas contribuíram para o conhecimento da cultura existente no Nordeste. O êxodo é, por assim dizer, uma cultura forte do Sertão: a cultura do abandono, da tristeza de largar a terra e tudo aquilo que ela representa.

Eu ia contando as coisas tristes do meu povo, que debandava do Nordeste para o Sul em busca de melhores dias, de trabalho. Porque lá chove no período exato, lá se sabe o que são as estações. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando… Então, minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício do meu povo. (Luiz Gonzaga).

O apego do sertanejo com sua terra, a saudade e a tristeza frequentemente presente na vida daqueles que foram forçados por fatores políticos, econômicos, sociais e climáticos a debandar para regiões distantes, se jogando na incerteza de um futuro, bem como o saudosismo do homem e sua vontade de retornar para seu lugar de origem são questões denotadas com maestria através da música A triste partida.

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos plano

De um dia voltar

[...]

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as agua nos óio

Começa a cair

[...]

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o pau

Outra característica presente nas canções de Gonzaga e também presente em A triste partida é o apego religioso do povo sertanejo que se agarra na fé em Deus, rogando por chuvas e, consequentemente, melhor condição de vida. Na música aparecem, como exemplo, a citação de São José que representa a fé do nordestino no seu santo padroeiro, bem como a recorrente frase “Meu Deus, meu Deus”, que implica um ar de súplica. A fé no socorro que vem do céu é muito bem demonstrada na música Súplica cearense, composição de Gordurinha em parceria com Nelinho, gravada em 1979, e interpretada por Gonzaga.

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou

E só por isso o sol se arretirou

Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

Pedi pra chover, mas chover de mansinho

Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito

O Senhor me perdoe

Eu acho que a culpa foi

Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher meus olhos de água

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa

Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir toda hora pra chegar o inverno

Desculpe eu pedir pra acabar com o inferno

Que sempre queimou o meu Ceará

Nessa canção, é nítido o tom de clemência por parte de alguém que apenas quer que o seu Deus envie aquilo que vai lhe livrar da dor de viver no “inferno” no qual a seca é comparada. O personagem dessa canção, um nordestino cearense, chega a pedir perdão por não saber rezar direito, como se a culpa da chuva não ter vindo ser sua. Como o próprio nome da música diz, ela é uma súplica. Súplica de quem já não sabe o que fazer e recorre a sua fé para conseguir viver dias melhores.

Outra canção interpretada por Luiz Gonzaga que também atenta para a religiosidade do povo nordestino é São Francisco de Canindé, composição de Julinho com parceria de Luiz Bandeira, gravada em 1977.

Eu vi a terra fumaçá

Vi graveto estalando o sol

Eu vi o rio virar

Um deserto de pedra e pó

A noite se avermelhou

De tão quente o céu e o chão

Meu povo se encomendou

Esperando o fim do Sertão

Dê um jeito meu São Francisco

Foi assim que pedi com fé

De repente choveu bonito

O rio encheu de fazer maré

Só pode mesmo julgar

Que não é exagerado meu

Pessoa de boa fé

Ou então quem por lá viveu

É triste acompanhar

O Sertão secar e morrer

Compensa a graça de Deus

O milagre do renascer

Obrigado meu São Francisco

Louvo a Deus sua sagração

Tenha sempre ao seu cuidado

O povo humilde do meu Sertão

Não precisa prometer

Ele ajuda a quem tem fé

Fazer bem é seu poder

São Francisco em Canindé

A música retrata muito bem a fé, de forma a apontar o “milagre do renascer” da terra, que com a chegada da chuva tornou-se a vida, onde o rio encheu ao ponto de virar maré. Essa canção dispõe da presença de Deus e do padroeiro, São Francisco, ambos seres de fé e devoção, que possuem em si o poder de trazer vida ao Sertão.

Considerações finais

A partir da análise feita do cenário nordestino levando em consideração as músicas produzidas pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga podemos notar como foi interpretado e difundido um Nordeste que a muito tempo fora esquecido e estereotipado por grande parte do país, mas que na voz de Gonzaga ganhou certa visibilidade e representação, de modo a ser transmitido para várias regiões um Sertão desconhecido e difícil de se viver.

Ele mostrou nas letras de seu repertório a poesia singular que está presente na figura icônica do Rei do baião, Luiz Gonzaga do Nascimento, nordestino que ganhou o país cantando e encantando o povo, falando de sua gente, sua luta e sua terra. Mostrando que o Nordeste é real e único, e que os nordestinos sofrem, mas possuem demasiada força para saberem lidar com a dor da seca, da fome, da miséria, do abandono e da saudade, visto que, como disse Euclides da Cunha em seu livro intitulado Os Sertões, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Referências bibliográficas

AB’SÁBER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

AUSTREGÉSILO, José Mário. Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta. Recife: FASE Faculdade, 2012.

DREYFUS, Dominique. Vida de viajante: a saga de Luiz Gonzaga. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

DUARTE, Renato. Seca, pobreza e políticas públicas no nordeste do Brasil. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101030020924/16duarte.pdf

Acessado em 02/06/018

MADEIRO, Carlos. Alimentada pela escassez, “indústria da seca” fatura com a estiagem no Nordeste. Disponível em:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/05/19/alimentada-pela-escassez-industria-da-seca-fatura-com-a-estiagem-no-nordeste.htm

Acessado em 02/06/2018.

VILAR FILHO, Manoel Dantas. Xorocentelha Nº 5 – do profeta paraibano da Seca, Manelito: a busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/images/stories/observafundaj/a-busca-de-elementos-biologicos-e-conhecimentos-apropriados.pdf

Acessado em 02/06/2018.


[1] Trabalho apresentado com o intuito de concluir a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro da graduação do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, ministrado pelo Prof. Dr. Severino Vicente da silva

[2] Graduanda nno curso de História da Universidade Federal de Pernambucco – UFPE

Tags Categories: História do Brasil, Histório da Cultura, Luiz Gonzaga; José Austragésilo, Nordeste Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 18 jul 2018 @ 11 16 PM

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As Representações da Cultura Nordestina Através da Música e Literatura[1]

Nathália Mendes[2]

Introdução

Uma região esquecida e constantemente associada à seca e as mazelas decorrentes da mesma, o Nordeste constitui grande parcela da riqueza do Brasil em diversas esferas, sobretudo a cultural. Pensando nessas problemáticas e nas concepções negativas dadas a região Nordestina, intelectuais, cantores locais e outras personalidades, passam a representar o Nordeste em suas diversas faces, não se esquecendo de denunciar as questões sociais, mas, de evidenciar o leque da cultura produzida e vivida pelo povo nordestino.

Dessa maneira se deve pensar a região como resultado de uma produção, de agentes históricos que abandonaram a divisão do País em Norte e Sul, e com as mais diversas dinâmicas e artifícios criaram uma unidade entre esses estados, agrupando características afins criando o que denominamos de Nordeste, como cita Durval Muniz de Albuquerque Jr:

“O Nordeste não é um fato inerte da natureza. Não está dado desde sempre. Os recortes geográficos, as regiões são fatos humanos, são pedaços de história, magma de enfrentamentos que se cristalizam, são ilusórios ancoradouros da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente, originada por uma tradição de pensamento, uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença”. (MUNIZ,  1966 , p.66)

No presente trabalho, visa-se a evidenciação do Nordeste, em seus diversos conceitos, nos diálogos e representações culturais através da música e literatura, pontuando questões indispensáveis como a seca e as relações do povo nordestino a partir dela, e de como constitui um elemento de problemática social frente ao descaso dos governos em suas políticas públicas. Pontuando também aspectos culturais do Nordeste a partir das obras de algumas personalidades, como: João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga.

1. Conceitos de Nordeste

Por muito tempo, o Nordeste não era assim denominado, nem considerado, faltava-lhe o reconhecimento de sua identidade. Marginalizado pela ótica lançada sobre o Brasil que de maneira mais geral era divido entre Norte (a parte mais superior), e Sul (a parte inferior). E apesar de durante a colonização o que concebemos como Nordeste constituir um pilar na economia canavieira, após a descentralização da economia para a região Sul, a “importância” dessa região Nordeste foi abandonada.

Nessa perspectiva de regionalização, uma visão estigmatizada do Nordeste e da figura do nordestino é reproduzida culturalmente, como uma verdadeira introjeção concebida até mesmo pelo povo nordestino. A ideia de inferioridade, de ausência de cultura, de inteligência e, sobretudo, de capacidade são as concepções atribuídas ao nordestino e durante muito tempo  constituintes de uma barreira. Que apesar do surgimento de diversos movimentos e produções no objetivo de romper essas estruturas preconcebidas, ainda na atualidade existe a negação de um Nordeste importante e contribuinte nas mais diversas esferas, situação presente não apenas na consciência autônoma do nordestino a respeito de sua relevância, mas, de outras regiões e estados brasileiros.

Devido a essas determinantes que o Nordeste foi pensado, não só em sua nomenclatura, usada até os dias atuais, mas, enquanto importante de fato para a construção de identidade de um povo que tem suas raízes culturais, e de como contribuem com a economia, a forma de pensar e fazer política. Sendo assim, em sua obra A Invenção do Nordeste e outras artes, Durval Muniz versa sobre o Nordeste como uma projeção de determinados grupos, pela necessidade de desprender-se desse ideal de um Brasil apenas de Norte e o Sul. Tratando também de uma criação e representação da região nordestina que consumimos: na mídia, no cotidiano, nas produções científicas. Assim como pontua, o Nordeste evidenciado pelos intelectuais e informais que pensaram na sua cultura, principalmente a do sertão e a de caráter mais popular demonstrando através de suas artes.

Para Muniz, o Nordeste assim terá varias definições e concepções, dependendo da época e do olhar lançado sobre a região. Logo, demonstra o Nordeste de Gilberto Freyre, surgido a partir da influência holandesa, insurreição pernambucana, o jornal diário de Pernambuco e as revoltas mais específicas que produzem a identidade nordestina, Por outro lado, o de Câmara Cascudo representa o popular, através do movimento do folclore como representativo da identidade nordestina, valorizando outros aspectos divergentes aos ressaltados por Freyre. Ariano Suassuna, por sua vez, visualiza o Nordeste do sertão, aquele representado pela figura do sertanejo, mas, também das diferenciações sociais, utilizando elementos populares, como a literatura de cordel e assuntos próprios da história do sertão, temáticas ligadas a vida do povo e sua memória. Através dessas perspectivas regionalistas e tradicionalistas que se constroem o Nordeste.

No que diz respeito a perspectiva regionalista, a cerca dos costumes e hábitos, dos aspectos mais próprios e recorrentes da região Nordeste. A seca, a miséria e todas as mazelas sociais decorrentes dessa problemática constituem temáticas bastante evidenciadas, assim como a religião e a questão dos poderios locais. O que de certa forma passa a tornar os retratos do Nordeste muito específicos, segundo Muniz, em privilegiar a seca e esquecer-se de outras áreas, que também são parte do Nordeste:

“A imagem do Nordeste passa a ser pensada sempre a partir da seca e do deserto, ignorando-se todas as áreas úmidas existentes em seu território. A retirada, o êxodo que ela provoca, estabelece uma verdadeira estrutura narrativa. Uma fórmula ritualística de se contar uma fuga de homens e mulheres do sertão que lembra a própria narrativa cristã da saída dos judeus do deserto” (MUNIZ, 1996, p.121)

Ainda no retrato da seca, a figura do cangaceiro, se tornou algo bem característico e presente na cultura nordestina, como um elemento constituinte do sertão, trazendo as características de violência, coragem, e do lado animalesco do nordestino, mas, como fator de resistência a modernidade, (ressalvando que o sertão não representava felicidade, nem progresso, diferente do setor urbano que significava avanço) como cita Muniz:

“O cangaceiro é tomado como símbolo da luta contra um processo de modernização que ameaçava descaracterizar a região, ou seja, ameaçava pôr fim à ordem tradicional que faziam parte. Ao lutarem contra os correios, arrancarem fios de telégrafo e trilhos de trem, sequestrarem “gringos”, enfrentarem os agentes do Estado, enquanto respeitavam os coronéis amigos e o padre, estes agentes de poder tradicional, os cangaceiros são vistos, por este romance, como uma figura trágica para quem o mundo também estava acabando. “Quixotes em luta pela defesa de uma sociabilidade que se perdia”. (MUNIZ, 1996, 126-127)

Podemos inferir que diversos elementos e formas constituem as diversas representações do Nordeste, não se esquecendo da imagética da região nordestina futurista, isto é, a valorização de seus aspectos apenas “turísticos”, suas belas praias no litoral, monumentos históricos e até mesmo os da própria natureza, imagens e representações que constituem uma pequena parcela do que venha a ser o Nordeste, mas, que comercialmente e midiaticamente, revela uma das concepções principais do que se entende pela região.

Através dessa perspectiva pode-se pontuar a cerca da intencionalidade de certas interpretações, baseando-se na perspectiva de Focault a cerca das relações de poder, a fim de compreender a necessidade de alguns agentes nessas construções da figura de um nordestino, sempre retratado como sofredor, de um Nordeste seco e improdutivo, nessa última afirmação nos seria mais variados sentidos, incluindo a economia e a cultura, reforçando, por exemplo, o poder do Sul, e a única imagética positiva do Nordeste residiriam na parte urbana, mais especificamente no litoral, que está contida as “belezas” a serem mostradas e visitadas:

“O Nordeste e o nordestino miserável, seja na mídia ou fora dela, não são do produto de um desvio de olhar ou fala, de um desvio no funcionamento do sistema de poder, mas inerentes a estes sistemas de forças e dele constitutivo. O próprio Nordeste e o nordestino são invenções destas determinadas relações de poder e do saber a elas correspondente”. ( MUNIZ,1996, p.21)

Nesse fundamento, das relações de poder e na batalha pela memória da concepção do Nordeste, que diversas correntes nos mais diversos campos vão surgir como já citadas anteriormente elaborando através de suas óticas arcabouços teóricos, literários e artísticos para compor a História da região nordestina através da evidenciação de suas problemáticas, belezas, costumes e dos agentes históricos em sua espacialidade e tempo. Tecendo a heterogeneidade que é o Nordeste em todas suas esferas, não podendo ser reduzido a um estigma negativo de miséria e fome e nem tão pouco o espaço idealizado das paisagens litorâneas:

“O Nordeste não é recortado só como uma unidade econômica, política ou geográfica, mas, primordialmente, como um campo de estudos e produção cultural, baseado numa pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica. O Nordeste nasce onde se encontram poder e linguagem, onde se dá a produção imagética e textual da espacialização das relações de poder.” (MUNIZ,1996, p.23)

2. O Nordeste na Literatura

Através das obras literárias, da música e das obras de artes podemos reconhecer diferentes e semelhantes representações do Nordeste. Na literatura, intelectuais como Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto versam a cultura do sertão, a pobreza, a miséria, mas, em cada obra as suas particularidades referentes a vida do sertanejo, as relações sociais e aspectos que permeiam o campo dos sentimentos, a esperteza, a esperança, a coragem e a força. Atribuindo espaço e dando voz a figuras estigmatizadas, demonstrando outros elementos presentes nas vidas secas.

Em O Auto da Compadecida, peça teatral escrita por Ariano Suassuna revela o sertanejo e as relações sociais na religião e no trabalho, com a seca e a própria tradição popular. Escrita a partir da compilação de literaturas de cordel e histórias de dito popular revelam muito a cultura do povo.  Nos atos da peça retratados como o enterro da cachorra, o gato que descomia dinheiro e a gaita que ressuscita percebemos a riqueza nas histórias comuns do povo, a presença da Igreja em toda a peça versa a relação do povo com a mesma, mas, tratam também dos privilégios concedidos as oligarquias da região.  No enterro da cachorra, o padre ao pensar que se tratava de um animal pertencente ao coronel Antônio de Moraes, logo se prontifica a benzer:

“João Grilo- Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do Major Antônio Moraes [...] Padre: Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro.” (O AUTO DA COMPADECIDA, P.23)

A obra de Ariano também trata das doações feita a Igreja e como os comerciantes locais se relacionam com a mesma, na medida em que ameaçam o pároco a não lhe dar pão e tomar de volta a vaca que lhes era deram de propriedade, a mulher do padeiro e o padeiro. Esses últimos também protagonizaram a questão da traição e covardia respectivamente. Outra temática importante tratada foi à valentia e o medo na figura do cangaceiro Severino e seu bando.

No entanto, a parte mais emblemática da obra reside depois da morte da maioria dos personagens e do julgamento no purgatório. Esse momento revela a crença no céu e no inferno, no apego e devoção a Nossa Senhora e nas absolvições dadas pelos pecados através da misericórdia. Por outro lado, demonstram o preconceito racial dos clérigos ao verem Jesus como uma figura negra, e a presença da importância do dinheiro para os padres em detrimento das almas. No que se refere ao perdão, versa sobre a miséria e o medo de assolam o nordestino serem causa pela misericórdia como João Grilo que pela fome e seca, usou da esperteza para sobreviver, sendo perdoado e tendo outra chance para viver sem apregoar mentiras e enrolações.

Na obra Vidas Secas de Graciliano Ramos, por sua vez, nos deparamos com uma literatura mais dura na intenção de permitir ao leitor as sensações difíceis e angustiantes vividas por Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho e o mais novo, e a cachorrinha baleia que também era parte da família. As questões colocadas por essa história, além da seca e do êxodo provocado pela fome e miséria, as problemáticas com a elite local e os desmandos da própria policia e milícias, além das características animalescas atribuídas a Fabiano pela vida que estava levando e a firmeza e frieza que tinham que enfrentar as adversidades impostas pela seca da terra.

Podemos pontuar consideravelmente o dia de Natal e o esforço de Fabiano e sua família para se enquadrar no estereotipo de festa, no que diz respeito, as roupas e o modo de se comportar, até mesmo dentro da Igreja, que era algo sagrado, mas, não tão habitual em sua rotina o que diverge da obra de Ariano. A morte da cachorra baleia, pela fome e o mau trato da vida que levavam, o fato de Fabiano ter de acabar com o sofrimento do animal atirando com espingarda, demonstra o apego que tinha a mesma e após o ocorrido a lembrança triste presente em sua mente e na de sua pequena família.

Alguns pontos a mais para serem observados residem nas aspirações e anseios por quem vive de uma forma tão simples como aquela família. Sinhá Vitória sonhava apenas em ter uma cama de lastro de couro e Fabiano um lugar que pudesse ser respeitado e a sua dignidade de homem e provedor da família. Somado a esses apontamentos, os sentimentos estão sempre presentes em toda narrativa: a tristeza e a vergonha de ser humilhada por um cabo no caso de Fabiano, a esperança de uma vida melhor para seus filhos e para si como dona Sinhá e a coragem de todos em seguir em frente, na espera de um horizonte próspero e digno. Essas questões revelam o homem do sertão em sua brutalidade e pobreza como já característico na visão do estigma atribuído, mas, sobretudo, os valores e relações de união, amor, de sonhos e de contentamento com as pequenas coisas que conseguiam e permitiam a sobrevivência, como um preá ou a água de um xique-xique, que matasse a fome ou a sede naquele instante.

A obra de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, trata do êxodo, da fome e da seca, mas, de algumas questões características dessa cultura do sertão.  O lucro com a morte, através das rezadoras e cantadores de ladainha que eram presentes na população encontrada logo após o início de sua partida. A propriedade configura uma questão muito importante nessa sociedade, e demonstra que mesmo entre o Agreste e Caatinga, devido o sofrimento do trabalho a vida não é fácil. E o autor retrata a morte, como sempre presente e de como está inserida nas mais diversas. No Recife, por exemplo, há hierarquia até mesmo nos cemitérios. Nesse sentido, a obra tem uma face ainda mais dura e demonstra a constante esperança frustrada pelo sertanejo Severino em querer estender sua vida, mas, encontra sempre a morte onde quer que se dirija.

3. O Nordeste na Música

Na música através de Luiz Gonzaga podemos perceber a presença da denúncia social sobre a seca, a fome, o descaso das políticas públicas, e, também a exaltação a terra e a costumes bem regionais. Em Vozes da Seca, ele faz uma petição em prol dos nordestinos e da questão da seca como uma situação natural, que acabou por se tornar um problema social:

“Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê;

Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê ;

Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage

Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage;

Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage;

Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage …” (GONZAGA,1953)

Na letra forte de Triste Partida, retrata o êxodo rural e todas as mazelas decorrentes da problemática da seca no sertão. Mas, em canções como a Samarica Parteira traz o elemento da medicina popular na figura da parteira muito comum nas regiões interioranas. Tratando também de tradição nordestina, compôs ainda São João na Roça, música que revela os festejos populares do período junino. Vale ressaltar que o auge de Gonzaga na propagação de suas músicas e na adoção de identidade regional nordestina está muito ligado ao surgimento do rádio e sua disseminação, como um veículo de integração nacional o que proporciona o sucesso e a criação dessa visão de Nordeste, aquele esquecido pelas autoridades, assolado pela seca, no entanto, cheio de vida, alegria, festa, dança e ritmo. Além, é claro de sua roupagem característica como um vaqueiro fazendo a representatividade desse elemento tão presente na cultura nordestina.

Bem representativa do Nordeste de suas formas mais gerais e aspectos é a música do cantor Lenine, denominada Leão do Norte, essa última versa sobre como o nordestino deve ser visto na cultura, na economia, na religião, na política, na literatura, sobretudo a figura do pernambucano:

“Sou mamulengo de São Bento do Una

Vindo num baque solto de um Maracatu

Eu sou um auto de Ariano Suassuna

No meio da Feira de Caruaru

Sou Frei Caneca no Pastoril do Faceta

Levando a flor da lira pra Nova Jerusalém

Sou Luiz Gonzaga, eu sou do mangue também” (LENINE,1996)

Ainda a respeito da marginalização sofrida pelo Nordeste, de composição de Braúlio Tavares e Ivanildo Vila Nova, a música Nordeste Independente, faz alusão a independência do Nordeste do Brasil e a autossuficiência do primeiro, e também a necessidade do último em buscar no exterior elementos produzidos pela região nordestina que abastecem e fazem lucrar a economia de todo o país. Embora, represente um sonho utópico retrata a visão de algumas personalidades expressando a indignação frente a marginalidade do Nordeste e ressaltando as possibilidades e benesses numa independência. Isto é, por que como a região do Nordeste possui o estigma negativo, a separação faria bem ao desenvolvimento do país, incluindo da própria região. Que não estaria a serviço de outras regiões e seria independente em suas esferas:

“O Brasil ia ter de importar do Nordeste algodão, cana, caju,

carnaúba, laranja, babaçu,abacaxi e o sal de cozinhar.

O arroz e o agave do lugar, a cebola, o petróleo, o aguardente;

o Nordeste é auto-suficiente nosso lucro seria garantido

imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente.”

( VILLA NOVA E TAVARES, 1980)

4. Considerações Finais

Podemos inferir diante das informações apresentadas o Nordeste como espaço de continuidades e descontinuidades, de construções e reafirmações, de tradição e modernidade.  Revelado pela criação de personalidades que pensaram o Nordeste do sertão e do urbano, moderno e rural, da seca e da esperança, das mazelas e das bonanças. Demonstrando a heterogeneidade da identidade nordestina e da multiplicidade de elementos formadores do que caracterizamos como constituintes da cultura do Nordeste. Desde obras mais tradicionalistas à  regionalistas,  a composições literárias, a música de caráter mais popular ou erudito, todas contribuem para concepção de Nordeste. Quer seja uma produção proveniente da elite na Paraíba, um doce no município de Pesqueira ou uma renda no Sertão no Pernambuco, a compilação desses elementos é o Nordeste. A importância reside justamente em visualizar e compreender as diversas representações como componentes dessa cultura.

Referências Bibliográficas

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 125ª. ed. Rio de Janeiro: Record,2014.

MUNIZ DE ALBUQUERQUE, Durval. A invenção do Nordeste: e outras artes. 2ª. ed. São Paulo: Massangana, 2001.

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 35ª. ed. Rio de Janeiro: AGIR, 2005.

DE MELO NETO, João Cabral. Morte e Vida Severina. São Paulo: Alfaguara, 2007.


[1] Texto apresentado na disciplina Tópicos da Cultura do Nordeste, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no primeiro semestre de 2018

[2] Graduanda em História na Universidade Federal de Pernambuco

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Posted By: Biu Vicente
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O IDEÁRIO PEDAGÓGICO DO BISPO AZEREDO COUTINHO NO MUNDO LUSO-BRASILEIRO NO INÍCIO DO SÉCULO XIX

Luis Felipe de Lima Durval[1]

Resumo: Este trabalho se propõe a analisar o ideário educacional do bispo brasileiro Azeredo Coutinho (1742-1821), atenuado para o seu trabalho educacional na Diocese de Olinda através da fundação do Seminário Episcopal Nossa Senhora da Graça em 1800. Organizamos a redação do texto em três partes, a primeira, trataremos sobre a biografia do sujeito que ora estudamos e algumas de suas ideias principais, a segunda parte, discutiremos o mundo em que viveu Azeredo Coutinho, trataremos sobre o iluminismo luso-brasileiro e as reformas pombalinas no Brasil, por fim, na terceira parte, iremos expor as motivações para a criação do Seminário de Olinda e a aspiração pedagógica do bispo ilustrado. Algumas considerações que extraímos deste estudo é que a proposta educacional do bispo Coutinho, embora renovadora para o Brasil, foi mantedora de um status quo na relação Portugal-Brasil.

Palavras chave: Azeredo Coutinho. Seminário de Olinda. História da Educação

Azeredo Coutinho: senhor de engenho, economista e bispo

José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1742-1821) foi um brasileiro de família abastada do Rio de Janeiro, advindo de uma classe senhorial canavieira de São Salvador dos Goitacás. Na cidade do Rio de Janeiro, fez seus estudos fundamentais de Gramática e Retórica e seus primeiros estudos de Filosofia e Teologia no Convento dos Carmelitas Calçados. Com a morte do pai em 1789, aos 25 anos de idade, Azeredo assumiu a administração das posses da família conforme o costume da primogenitura. Após seis anos à frente dos negócios da família, ele abdicou do seu direito e foi para Universidade de Coimbra, a convite do seu tio, o reitor D. Francisco de Lemos. Em Coimbra, Coutinho estudou Letras e Filosofia, e licenciou-se em Direito Canônico, onde tornou-se sacerdote e, mais tarde, foi sagrado bispo.

O bispo Coutinho foi um personagem controvertido pela historiografia[2], embora sendo adepto do liberalismo econômico, foi um ferrenho defensor da escravização negra, do absolutismo despótico e contrário a independência do Brasil, o que o distanciava dos liberais brasileiros do século XIX. As principais obras do fundador do Seminário de Olinda não foram escritas no campo da religião, tampouco em educação, mas área da economia[3], o que demostram que embora Azeredo tenha deixado o mundo aristocrático, a visão de sua primeira formação, “senhor de engenho”, ainda permanecia com ele. O historiador Sérgio Buarque de Holanda biografando Azeredo Coutinho assinala: “Deus acha-se estranhamente ausente da obra dêsse eclesiástico, salvo talvez onde pareça ajudar a justificar os apetites de alguns poderosos da terra.”[4]

Compreendendo o mundo a partir da casa grande, o bispo Coutinho defendeu ferrenhamente a escravidão, embora considerasse necessária a existência do trabalho livre nas condições típicas europeias. Em sua percepção, o trabalho livre no Brasil seria impensável, a liberdade estaria ligada ao controle do Estado sobre a propriedade, para ele, uma nação com muitas terras devolutas habilitaria o negro escravizado adentrar no interior das terras desconhecidas e recriar uma nova estrutura social, assim ele admite a necessidade da escravização no Brasil, na África e na Ásia, para garantir uma “melhor condição” para o escravizado junto ao senhor e garantir a ordem na sociedade.

“(…) entre as nações em que há muitas terras devolutas e poucos habitantes relativamente, onde cada um pode ser proprietário de terras, se acha estabelecida, como justa, a escravidão. Tais são as nações da África, da Ásia e da América: e entre as nações em que há poucas ou nenhumas terras devolutas e sem proprietários particulares, se acha estabelecida a liberdade, assim como na maior parte das nações da Europa; mas esta chamada liberdade não é devida às luzes ou ao maior grau de civilização das nações: é, sim, devida ao maior ou menor número de habitantes relativamente a o terreno que ocupa esta nação.” (COUTINHO, J. J.: 1798, p. 225, in: ALVES: 2001, pág. 84)

As convicções políticas de Azeredo Coutinho, são compreensíveis à medida em que identificamos que o prelado de Pernambuco era um funcionário da Cora e príncipe da Igreja. Sua preocupação em seus escritos e empreendimentos centra-se no pleno desenvolvimento da metrópole portuguesa, a partir da exploração de suas colônias. Vassalo real e fiel ao papa, as convicções políticas do bispo Coutinho não agradaram aos liberais brasileiros de seu tempo, além de defensor da escravização negra, era contrário a independência do Brasil em relação a Portugal, o que lhe conferiu a categoria de pensador colonialista pela historiografia do século XX.

“José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho tem, a sujeita-lo, dois laços de subordinação: é um vassalo fiel – esta é a subordinação civil; é um príncipe da Igreja – e esta é a subordinação religiosa. Condicionam e molduram esses laços de subordinação todos os vínculos derivados de sua condição de classe: é o morgado de Mirapicu, grande senhor de terras e escravos, que abandou tudo para servir a Deus. [...] Está vinculado à metrópole, mas não esquece de sua terra, dentro dos moldes que lhe permitem seus sentimentos de saudade, afeição e apego, que também o condicionam.”

(SODRÉ: 1984, pág. 20-21)

Diferentemente do ponto vista político, Azeredo Coutinho, influenciado pelas ideias de Adam Smith, assumiu uma postura liberal na economia. Para Nelson Werneck Sodré (1984), seu pensamento econômico esteve integrado à Revolução Industrial e nas suas exigências mais prementes da época, o devassamento e a abertura das áreas enclausuradas. Ele combateu políticas monopolistas no Brasil[5] e alertou ao Reino Português sobre o comércio do açúcar que pudera crescer no mercado internacional com a desorganização da produção açucareira nas Antilhas.

Em seus trabalhos, apontou caminhos para “salvação” de Portugal, que naquele momento encontrava-se atrasado em comparação aos demais estados europeus, sobretudo a Inglaterra e França. Sobre o ponto de vista econômico, os lusos ainda se recuperavam dos desastres do Terremoto de Lisboa de 1755[6]. É pois, com este tom salvacionista que chega o iluminismo em Portugal, aliado ao absolutismo despótico, os intelectuais adeptos as ideias ilustradas detiveram-se a reparar o atraso do mundo luso em relação a outras nações europeias.

O iluminismo no mundo luso-brasileiro

O século XVIII em Portugal foi marcado pela penetração de novas ideias que circulavam na Europa através do movimento iluminista, tais ideias chegaram ao mundo luso através de intelectuais portugueses que fizeram escola nos principais centros da efervescência das Luzes da época, sobretudo na Inglaterra, Itália e França. Estes intelectuais burgueses, os “estrangeirados” como eram chamados, defendiam o desenvolvimento cultural do Império Português, através da difusão das ideias de base empirista e utilitarista, combateram principalmente o monopólio dos jesuítas na educação, considerado atrasado no modo de fazer ciência. Dom Luís da Cunha, Luís Antônio Verney, Alexandre de Gusmão e Sebastião José de Carvalho e Melo, foram alguns destes estrangeirados decisivos para uma nova prática política, educacional e administrativa em Português e suas colônias através do despotismo esclarecido[7].

“O pensamento do século XVIII foi marcado em Portugal pelo olhar estrangeiro. Muitos intelectuais lusitanos escreveram sobre a renovação da cultura portuguesa enquanto viviam no exterior. Eram homens ilustrados, com plena consciência do descompasso do país em relação à Europa. [...] O movimento e a circulação dessas novas ideias produziram maneiras diferentes de se olhar o tema da nação direcionadas para aquilo necessitava ser modernizado, para que se pudesse corrigir os malefícios que a cultura escolástica havia causado à pátria, fechando-se para o progresso da técnica.”

(FÉRRER: 1999, pág. 79-80)

Esta nova prática baseada na renovação ganhou força com a chegada de Dom José I (1718–1777) ao trono, seguida da nomeação de um destes intelectuais estrangeirados, Sebastião José de Oliveira de Carvalho e Melo, que fora para Corte da Inglaterra como diplomata português e, logo em seguida, enviado para uma missão diplomática no reduto da imperatriz Maria Teresa, na Áustria, de onde Carvalho pode compreender o movimento de afastamento da Igreja perante o Estado. Em 1756, assumiu o cargo de secretário de Estado dos Negócios do Reino, o posto mais alto do governo, tornando-se ministro plenipotenciário, em 1759 recebe o título de Conde de Oeiras e em 1769 torna-se o Marquês de Pombal, título que deu nome as suas reformas empreendidas no Reino Português, as reformas pombalinas.

A começar pela Universidade de Coimbra o processo de reforma educacional dos estudos maiores (chamado superior atualmente), deu-se com a criação da “Junta da Providência Literária” em 1770, a primeira providência deste organismo foi a redação de novos estatutos para Universidade. A base desta reforma foram as propostas dos pensadores estrangeirados Luís António Verney no Verdadeiro método de estudar (1746) e de Antonio Nunes Ribeiro Sanches nas Cartas sobre a educação da mocidade (1759) e no Método para aprender a estudar medicina (1763). O cerne do novo paradigma de ensino instituído com as ideias iluministas foi a superação do método jesuítico baseado no Ratio Studiorum[8]. Os estatutos foram criados como forma norteadora para o mundo intelectual em Coimbra, servindo também de molde para estatutos de outras instituições educacionais, tais como o próprio Seminário de Olinda.

“Partindo de uma crítica incisiva ao espírito escolástico predominante no período em que a universidade esteve sob controle jesuítico; desenvolvendo uma longa, minuciosa e contundente análise crítica da ética de Aristóteles, os reformadores decidiram-se a transformar radicalmente a tradicional universidade portuguesa.” (SAVIANI: 2013, pág. 93)

Todo este esforço esteve a serviço das proposições políticas do governo de Dom José I, a reforma educacional da época pombalina visou a formação de um novo corpo de funcionários ilustrados para burocracia estatal e à hierarquia da Igreja. A este respeito, as reformas não punham em questão o fim da formação religiosa, mas a preocupação central foi o reajustamento educacional às novas condições políticas e sociais. A visão regalista imprimia a subordinação dos assuntos da religião ao poder real e não a negação da religião, como pensou alguns iluministas franceses à época. O catolicismo regalista na dinâmica do despotismo esclarecido, serviu como aparelho para assegurar ao monarca as condições de realização da modernização econômica do reino, para isto foi criada a Real Mesa Censória, órgão de censura literária, e foi secularizada a Inquisição, para punir os subversivos, inimigos do Estado.

Diferentemente de Portugal onde as reformas educacionais foram empreendidas nas universidades, estas reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal no Brasil iniciaram um período na História da Educação Brasileira denominado por José Antônio Tobias (1986) de “aristocratização do ensino”, segundo o autor, as reformas consistiram na expulsão dos jesuítas sem estabelecer um novo planejamento para substituí-los. Neste período, o ensino tornou-se inferior e mal remunerado, institucionalizou-se a instrução pública, obrigando o ensino em língua portuguesa nos colégios. Em contrapartida, a aprovação do Alvará Régio de 1759, além de ter extinta a presença dos jesuítas no ensino, viabilizou ao mesmo tempo a realização de concursos na Bahia para as cadeiras de latim e retórica, nomeou também os primeiros professores régios em Pernambuco, inauguração assim a fase da educação iluminista no Brasil. Consideramos como principal centro difusor destas ideias o Seminário de Olinda, uma instituição típica do período pombalino.

O Seminário de Olinda e a proposta educacional do bispo Coutinho

O Padroado Régio, aliança entre a Sé Romana e os Reinos Ibéricos, conferiu aos monarcas o poder de arrecadação do dízimo em suas colônias, bem como a responsabilidade pela construção de igrejas e sua manutenção, a nomeação de padres por meio de concursos e de bispos, tendo vigorado no Brasil na Colônia até o período Imperial. Os bispos neste acordo não possuíam autonomia para fundação de Paróquia, em resumo, o corpo eclesiástico da Igreja Católica não agia sem a permissão da Coroa, esta dependência afetou diretamente o processo de formação de sacerdotes na América. O recrutamento e a formação de clérigos esteve de maneira desorganizada, o que em muitos casos tornou a figura do padre muito mais ligada a um homem público, atuante na vida social e na administração de suas posses, do que propriamente ligado a compromissos de fé, tais como a disciplina celibatária por exemplo.

Em contrapartida, desde o século XVI, a Igreja no Concílio de Trento[9] (1545-1563) tratou de deliberar, dentre outras coisas, a disciplina do clero, a fixação dos bispos em suas dioceses e a criação de centros de formação para padres, os seminários. Na História da Igreja no Brasil percebemos que as determinações tridentinas começaram a serem implementadas tardiamente. Cumprindo parte da cartilha de Trento, no Alvará datado em 22 de março de 1796, D. Maria I (1734–1816) doou o Colégio dos Jesuítas e a Igreja Nossa Senhora da Graça com todos os seus pertences a Diocese de Olinda, para criação de um estabelecimento de ensino para formar jovens, visando à educação moral e religiosa, modificando assim a mentalidade sobre o sacerdócio na colônia.

Neste contexto, insere-se a fundação do Seminário Episcopal Nossa Senhora da Grasa[10], uma instituição de educação católica voltada para formação de padres e leigos, que fora fundada no ano de 1800, nas instalações do antigo Colégio dos Jesuítas e da Capela Nossa Senhora da Graça em Olinda pelo bispo D. Azeredo Coutinho. Como vimos, a formação educacional de Coutinho deu-se na reformada Universidade de Coimbra, no período pós-jesuítico, ou seja, uma formação baseada no iluminismo, que em Portugal caracterizou-se de modo singular pelo fortalecimento do poder real e pelo reformismo administrativo, protagonizado pelo Marquês de Pombal.

“O Iluminismo português encarnou um desejo incontido de modernização do reino, pobre e atrasado ainda na segunda metade do século XVIII, cuja justificativa apelava sempre para o estágio das nações europeias mais ricas e evoluídas.”

(ALVES: 2001, pág. 112)

Nos Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda (1798), uma das únicas obras voltadas propriamente para educação do bispo ilustrado, podemos identificar a finalidade educacional no pensamento de Azeredo Coutinho. Logo no preâmbulo, o bispo redige a função social daquele estabelecimento de ensino: “fazer Ministros dignos de servirem a Igreja e ao Estado[11], ou seja, a modernização do ensino esteve a serviço da formação de vassalos fiéis ao rei e ao papa. Azeredo Coutinho, exemplifica esta visão iluminista despótica presente no mundo pombalino e advogando nesta mesma direção à modernização do Reino, elaborou um projeto com uma solução a longo prazo para a superação dos problemas estruturais e inserção de Portugal na modernidade.

“Já aquelas outras obras de sua autoria [Azeredo Coutinho], de natureza mais pedagógica, como os dois ‘Estatutos’ [Seminário de Olinda e Recolhimento Nossa Senhora da Glória], são vistas como solução a longo prazo, se não da crise do sistema colonial, pelo menos das carências estruturais e históricas para a educação na colônia, tal como escolas, em maior número e qualidade, onde se forjariam os vassalos úteis e leais, segundo o espírito do tempo e as necessidades do sistema.” (SIQUIERA: 2012, pág. 157)

Para o pesquisador Gilberto Luiz Alves (2001), seu projeto pedagógico, materializado com a criação do Seminário de Olinda em 1800, possuiu um caráter eminentemente econômico. Para o autor, Azeredo Coutinho tinha clareza que a possibilidade de aumento de riqueza do reino já não seria viabilizada pelas navegações, nem tampouco pelo comércio marítimo, como foi nos séculos XV e XVI. Adviria pois pelo emprego de novos recursos, que eram para ele: o desenvolvimento da agricultura, a expansão das manufaturas e o pleno conhecimento das riquezas naturais do reino, visando sua futura exploração econômica.

A este serviço, Coutinho elaborou uma resposta educacional, seu ideário pedagógico pautava-se na formação de filósofos naturalistas, que estivessem dispostos a se interiorizarem nos sertões afim de que os recursos brasileiros (mineral, da fauna e flora) fossem explorados. Naquele momento, início do século XIX, ainda havia um profundo desconhecimento das riquezas naturais do Brasil, era necessário a realização de um imenso inventário para a devida exploração material do reino. Os filósofos naturalistas, cientistas da época, eram homens de gabinete e não almejavam fixarem-se nos sertões, para Coutinho quem estava habilitado a fazê-lo era justamente o sacerdote, por ser seu dever de ofício, estar no meio povo.

“O bispo de Olinda anteviu uma solução: se o indagador da natureza, por profissão, não deseja internar-se permanentemente nas brenhas, o homem que podia fazê-lo, até mesmo por dever de ofício, era o cura.” (ALVES: 2015, pág. 68)

O cerne desta formação ofertada no seminário esteve relacionado a um redirecionamento dos estudos clássicos humanísticos e entronização das ciências modernas (cientificas-humanistas) dentro dos quadros dos estudos filosóficos. Segundo Gilberto Luiz Alves (2001), esta formação fomentou uma visão de mundo burguesa, ou seja, preocupada com o domínio material, influenciada pela orientação pragmática das Luzes. Esta visão significou um distanciamento da proposta educacional dos antigos colégios jesuíticos, embora guardassem o mesmo formato, a preparação de jovens para hierarquia da Igreja e para conclusão dos estudos superiores na metrópole, a proposta educacional do fundador do Seminário de Olinda demarcou novas posições para elite eclesiástica nas relações do mundo luso-brasileiro.

O investimento de Azeredo Coutinho na formação de sacerdotes através da “Teologia da Ilustração”[12] criou uma sólida estrutura de ensino para formação de futuros padres e leigos, para o bispo beneficiariam a Igreja a o Estado, contraditoriamente, o que vimos é que professores e estudantes do Seminário fornecerem as bases intelectuais para as Revoluções Republicanas em Pernambuco, o currículo prescrito com as ideias iluministas acabaram influenciando movimentos de rompimento da ordem vigente, como as revoluções liberais de 1817 e 1824.

Azeredo Coutinho permaneceu na província de Pernambuco até 1802, quando ele retornou para Portugal para assumir o bispado de Bragança e Miranda. O bispo desempenhou papéis importantes na administração, esteve à frente da Diocese de Olinda, da Diretoria de Estudos, da Presidência da Junta da Fazenda, além de ter sido governador interino da Capitania de Pernambuco até 1802, último inquisidor-geral do Reino Português e eleito deputado as cortes constituintes no Rio de Janeiro, mas não chegou a assumir devido a seu falecimento. O Seminário de Olinda permaneceu funcionando com os estatutos elaborados pelo bispo Coutinho até sua desarticulação, após a proclamação da independência de 1817, seguido do seu fechamento, somente em 1836 o seminário foi reaberto, desta vez somente para a formação religiosa com novos estatutos.

Considerações finais

A compreensão da educação no início do século XIX nos permite identificar o processo embrionário de laicização iniciado pelo Estado, a partir das instituições religiosas. Através do ideário educacional do bispo Azeredo Coutinho notamos que as mudanças educacionais promovidas no período pombalino, possuíram um caráter reformista e não revolucionário, ou seja, estiveram a serviço da manutenção de um status quo da relação do Brasil com Estado Português, paradoxalmente sabemos que a difusão do pensamento burguês-iluminista no Seminário de Olinda, fomentou um terreno fértil para as bases intelectuais dos movimentos republicanos independentistas, contrário ao pensamento e proposta educacional do seu fundador. Deste modo, não podemos relativizar a importância de D. Azeredo Coutinho e do Seminário de Olinda na História da Educação no Brasil, que na historiografia da educação sua presença é ainda, muitas vezes, passada por despercebida, a história da educação atual passa pelo Seminário, pelo esforço modernizador de superação da “educação cristã” (Tobias; 1986), por um ensino cientifico-humanístico baseado nas ideias ilustradas.

Referências bibliográficas

ALVES, Gilberto Luiz. O pensamento burguês no Seminário de Olinda. 2 ed. Campinas, SP: Autores Associados / Editora UFMS, 2001

______. O Seminário de Olinda. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes de; LOPES, Eliane Marta Teixeira; VEIGA, Cynthia Greive (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. 5 ed. 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BRAZ, Fabiana Schondorfer; CONTI, Paulo Fillipy de Souza. “D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho: Um Bispo ilustrado em Pernambuco. Revista Tempo Histórico. Vol.5 – Nº 1. (2013) ISSN: 2178-1850

COUTINHO, J. J. da Cunha de Azeredo. Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda de Parnambuco: ordenados por D. Jozé Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho XII Bispo de Parnambuco do Conselho de S. Magestade Fidelissima fundador do mesmo seminário. Lisboa: Typografia da Acad. R. de Siencias, 1798.

FÉRRER, Francisco Adegildo. “O Marquês de Pombal e a instrução pública em Portugal e no Brasil (século XVIII)”. CLIO Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco. n. 18. Recife, UFPE, 1999.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. 4 ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2013.

SIQUEIRA, Antonio Jorge. Bispo Coutinho e o Clero Ilustrado de Pernambuco na Revolução de 1817. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano V, n.14, setembro 2012. ISSN 1983-2850.

SODRÉ, Neslson Werneck. A ideologia do colonialismo: seus reflexos no pensamento brasileiro. 3 edição. São Paulo: Vozes, 1984.

TOBIAS, José Antônio. História da educação brasileira. 3. Ed. São Paulo: IBRASA, 1986.


[1] Licenciando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

[2] “Transitava, por diversas vezes, entre o liberalismo e o pensamento conservador – até mesmo reacionário -, entre o religioso e o profano, entre o homem das luzes e o defensor da escravidão.” (BRAZ e CONTI: 2013, pág. 15)

[3] Ensaio econômico sobre o comércio de Portugal e suas colônias (1794); Memória sobre o preço do açúcar (1791); Discurso sobre o estado atual das minas do Brasil (1804) e Análise sobre a justiça do comércio do resgate dos escravos da Costa da África (1798), obra complementada pela Concordância das Leis de Portugal e das Bulas Pontifícias (1808). Estatutos do Recolhimento de Nossa Senhora da Glória (1798), que era um educandário para mulheres no Recife e os Estatutos do Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça de Olinda de Pernambuco. (1798)

[4] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Apresentação. In: COUTINHO, J.J. da Cunha de Azeredo. Obras econômicas de J. J. da Cunha de Azeredo Coutinho.

[5] “Combateu o monopólio do sal; o monopólio da exploração e da comercialização da madeira e o monopólio do tabaco. Combateu, igualmente, a taxação do açúcar, por diminuir a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional.” (ALVES: 2001, pág. 88)

[6] “O Sismo de 1755, também conhecido por Terramoto de 1755, ocorreu no dia 1 de novembro de 1755, resultando na destruição quase completa da cidade de Lisboa, especialmente na zona da Baixa, e atingindo ainda grande parte do litoral do Algarve e Setúbal. O sismo foi seguido de um maremoto - que se crê tenha atingido a altura de 20 metros – e de múltiplos incêndios, tendo feito certamente mais de 10 mil mortos. Foi um dos sismos mais mortíferos da história, marcando o que alguns historiadores chamam a pré-história da Europa Moderna.” Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Lisboa_de_1755. Acesso: dia 15 de junho de 2018. 01h57.

[7] “Afirma-se, em muitos pontos, o poder real absoluto, inclusive em assuntos eclesiásticos, ao mesmo tempo em que se tenta limitar os poderes da Igreja Católica exclusivamente às matérias estritamente espirituais, ou seja, do foro íntimo da consciência. Toda a legislação desta época exalta o poder absoluto do rei, como defensor e protetor da Igreja, e o dever que ele tem de prover o bem, mesmo espiritual, dos seus súditos, em contraponto às teorias que reafirmavam os poderes do Papa e de seus delegados acreditados junto às Cortes europeias.” (FÉRRER: 1999, pág. 83)

[8] “O Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Jesu, mais conhecido pela denominação de Ratio Studiorum, foi o método de ensino, que estabelecia o currículo, a orientação e a administração do sistema educacional a ser seguido, instituído por Inácio de Loyola para direcionar todas as ações educacionais dos padres jesuítas em suas atividades educacionais, tanto na colônia quanto na metrópole, ou seja, em qualquer localidade onde os jesuítas desempenhassem suas atividades. [...] O método educacional jesuítico foi fortemente influenciado pela orientação filosófica das teorias de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, pelo Movimento da Renascença e por extensão, pela cultura européia. Apresentava como peculiaridades a centralização e o autoritarismo da metodologia, a orientação universalista, a formação humanista e literária e a utilização da música.” Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/er/n31/n31a11. Acesso dia 16 de jun de 2018.

[9] O Concílio de Trento foi uma grande reunião de bispos convocado pelo Papa Paulo III dentro do movimento chamado de “reação católica”, em resposta a cisão da cristandade ocorrida com a Reformas Religiosas do século XVI, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica.

[10] Nome impresso nos Estatutos do Seminário elaborados pelo bispo Azeredo Coutinho em 1798.

[11] COUTINHO, J. J. da Cunha de Azeredo. Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda de Parnambuco: ordenados por D. Jozé Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho XII Bispo de Parnambuco do Conselho de S. Magestade Fidelissima fundador do mesmo seminário. Lisboa: Typografia da Acad. R. de Siencias, 1798.

[12] SIQUEIRA, Antonio Jorge. Os Padres e a Teologia da Ilustração – Pernambuco, 1817 / Antonio Jorge Siqueira. – Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009.

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NOS ENTREMEIOS DA PISADA: MANIFESTAÇÕES CULTURAIS NA CIDADE DE LIMOEIRO, O COCO DE RODA DE ZÉ DE TETÉ E REPRESENTAÇÕES NO DISCO “POETAS DA MATA NORTE”.[1]

Emanuel Antunes da Silva Holanda

Graduando em História pela UFPE

emanuel_antunes13@hotmail.com

Resumo:

O presente artigo procura investigar representações sociais da cidade de Limoeiro, no agreste pernambucano, a partir de composições do coco de roda, principalmente do coquista Zé de Teté em álbum gravado no projeto “Poetas da Mata Norte” pela Fábrica Estúdios em 2008, assim como a construção de identidades na cidade do interior do estado, a partir de fatores culturais, religiosos ou políticos.

Palavras-chave: Coco de roda, Limoeiro, Música popular.

Introdução

A hidrografia e o relevo explicam e proporcionam determinados acontecimentos e verdades sobre seus respectivos lugares. Enquanto o Capibaribe corta Limoeiro de ponta a ponta, o Planalto da Borborema ergue-se como protetor mor de todo um povo, sem distinção para com cor ou classe. É nesse fluxo entre fauna e flora que as crenças e manifestações populares tomam forma na cidade.

A lenda já conhecida por grande parcela sobre o nascimento do Limoeiro que conhecemos apresenta suas verdades históricas e estas devemos reconhecer abaixo. Conta à narrativa que onde hoje é Limoeiro residia o padre Ponciano Coelho, enviado para aquela aldeia tupi em missão catequizadora, este acabara por rivalizar com o português Alexandre Moura, e desse modo o território agrestino encarou um duelo luso, político e religioso, entre a aldeia de Limoeiro e a de Poço do Pau, tudo por conta de uma imagem de Nossa Senhora da Apresentação, trazida de Portugal por Alexandre Moura. Entre os homens a virgem viu a formação de uma cidade que por décadas obteve o monopólio econômico da região, que influenciou os arredores com estratégias políticas e modelos governamentais. Vemos Limoeiro passar por mudanças diversas, desde sua emancipação em 1893, que afetam bruscamente o fazer cultural.

As heranças da colonização luso aparecem de palmo em palmo. As edificações religiosas católicas erguem-se em todos os lugares da cidade, desde o Alto de São Sebastião até o término da Pirauira, bairros que presenciaram acontecimentos que até hoje são comentados nas mesas de bares e no vai e vem de pedestres no pátio principal do município, conhecido por Pátio da Feira. Percebe-se semelhanças entre o coco de roda que toma conta das festividades de São João e o fado português, principalmente quando ouvimos a voz do cantador que se alonga no início da canção, sem instrumentação ao fundo, no seco e limpo silêncio que a música pode propiciar, é o cantador que resgata a herança luso, negra e indígena a medida que diz uma frase ou duas, que definem a música ou abrem as portas para rimas inimagináveis.

Não podemos nos remeter aqui a estruturação poética e musical, mas pincelaremos e discutiremos um pouco sobre isso, sabendo o foco do que deve ser dissertado. Uma linha tênue entre religião (lê-se aqui os dois segmentos mais fortes na região: As religiões de matrizes africanas e o catolicismo) e cultura é sempre cruzada e muitas vezes essas se mesclam para formatar as manifestações que viemos a conhecer. Um exemplo prático disso é a festividade do boi bumbá que varre as ruas limoeirenses principalmente no carnaval, onde o branco e o indígena bailam, onde os caboclinhos dançam em volta de um boi ressuscitado, trazido de volta a vida para comprovar o poder do denominado pejorativamente, gentio. Os “bois” desfilam em Limoeiro de acordo com o calendário católico, sempre acompanhando as maiores festas ligadas à religião cristã. Ainda permanecendo conservador até certo ponto na cidade, o catolicismo predomina quando o assunto é “delimitar espaço”. A igreja matriz é um marco territorial na cidade, é ela que interrompe o fluxo de carros em plena avenida, que foi fincada ali para ser via de mão única entre os fieis e não adeptos. É impossível transitar em Limoeiro sem esbarrar com a magnitude da Igreja arquitetada na época de Ponciano.

O espectro de grandes figuras ligadas ao catolicismo é constante no imagético popular da cidade. Ponciano, Luís Checchin (1924 – 2010) e tanto outros figuram como líderes religiosos, e acima de tudo, populares. A figura do bem e do mal está presentes nesses dois representantes maiores, os padres e os coronéis, sendo o principal representante dessa segunda classe, o coronel Chico Heráclito (1885 – 1974)¹. A tradição de colocar o vigário contra o líder político se mantém e renova-se, seja na música, na poesia ou no teatro (É válido destacar que isto faz-se presente no imaginário popular, mas no que condiz a política essas duas figuras caminham juntas e muitas vezes de mãos dadas). As produções artísticas da cidade margeiam esse embate e por consequência lhes apresentam novos significados.

“As obras da natureza”

Outro ponto que caracteriza o município são os períodos de cheia. É sabido que Limoeiro vive de contradições que nem a fé consegue explicar, mas em alguns momentos é a ciência que escancara determinados fatos. Por ter, como dito, o rio Capibaribe rasgando e dividindo a cidade em duas, sempre que o nível do mesmo ganha alguns centímetros a mais, toda a população fica apreensiva. É costumeiro que o rio transborde e por isso mesmo esse fato ganha destaque nas produções e manifestações. A cheia de 1975, que assolou o estado de Pernambuco, foi a de maior impacto no município e costumeiramente é citada nos entremeios populares.

A oralidade é veículo primordial da comunicação local, seja por meio da rádio do município que vigora atualmente, mas que descende de uma tradição de décadas, até o boca a boca também preservado sob manutenções que o tempo exige e delimita. Um local crucial para a existência dessa oralidade forte é o Pátio da Feira (já citado no início do texto). Localizado em um ponto que poderíamos encarar como “rosa dos ventos”, o pátio da Feira (Pátio de Eventos Toinho de Limoeiro ‘personagem esse que abordaremos mais adiante’) encara a Prefeitura da cidade ao lado oeste, o antigo açougue municipal ao lado sul (próximo ao açougue temos uma passagem direta para o rio Capibaribe), o Mercado Municipal ao norte (e entre o Mercado e a Prefeitura a Igreja de Santo Antônio, esta que é ponto final da segunda principal avenida da cidade) e ao leste o prosseguimento da Avenida Matriz. O fluxo de pessoas no Pátio da Feira é bem maior do que ocorre na Praça da Bandeira, outro ponto movimentado do município, e por conta disso é tal pátio o local básico para a ocasião de manifestações culturais e provem deste o cotidiano mais amplo e acessível que podemos ter para observação.

A relação comercial no cujo pátio acontece das mais variadas formas, desde a troca de produtos no início da manhã até a feira que se estende ao entardecer. Se habita o pátio como uma casa. Sua conexão com o Mercado Municipal (Ou Mercado da Farinha) faz com que as pessoas se envolvam entre as barracas alojadas ali como se aquilo tudo fosse um labirinto de conversas e afazeres. Vez ou outra pode-se encontrar um coquista puxando versos, ou um sanfoneiro cantando Luiz Gonzaga. São figuras comuns ao cotidiano limoeirense, e são estas que fazem as duas principais festividades do local, o carnaval e o São João.

Entre fevereiro e junho a cidade fervilha nas diferentes manifestações, faz do início do ano a algazarra que o carnaval exige (e permite) e entra em resignação durante a quaresma, seguindo as demandas religiosas, aguardando a ressurreição de um Cristo que a todos enxerga. Entre Abril e Junho, Antônio, Pedro e João são celebrados diariamente, com as comidas advindas do milho, com as fileiras de fogueiras que crepitam no prelúdio do inverno, e com o som inquietante do coco de roda, filho do pandeiro, do ganzá e do surdo, das palmas, dos círculos e aglomerações, da gente que fala a partir da voz do cantador, que não desafina nem peca na simetria poética. Limoeiro ganha rosto e movimento à medida que seu povo dança e salta no ritmo que desconcentra e revela as origens de uma cultura mística.

“Campo verde bonito”

Da popularmente conhecida por “Serra do Cristo” descem as expressões culturais de Limoeiro. Do Bairro Nossa Senhora de Fátima até os pés da escadaria os caboclinhos, os cirandeiros, os coquistas, todos estão presentes e quando se faz necessário eles caminham como em procissão para o pátio da feira, vão em busca de uma confraternização que tornou-se hábito, e entre estes mestres da produção cultural encontramos um dos conquistas mais reconhecidos em todo o estado. Zé de Teté, aprendiz de Paulo Faustino e filho de Limoeiro, nasceu no dia 20 de julho de 1944, influenciado desde criança pelos grupos de coco da cidade, José Rodrigues da Silva figura como um dos representantes mais conhecidos do município. Cantador e barbeiro, Zé de Teté gravou o disco que vamos abordar mais a frente entre os anos de 2004 e 2005. A obra é uma coletânea presente na série “Poetas da Mata Norte”, tendo por produtor musical o cantor e compositor Siba Veloso. O projeto reuniu vários artistas da região para gravações de ritmos que vão desde a ciranda até o coco aqui estudado (Entre os convidados está o também cidadão limoeirense, João Limoeiro).

Com doze faixas, todas compostas por Zé de Teté, o álbum nos remete a uma visão que predomina nas populações ribeirinhas e nas que habitam a encosta do planalto. Destes lugares advém a poesia do mestre coquista e são eles que celebram a música. A faixa número 3, intitulada “Campo verde bonito” nos encaminha para um problema recorrente da localidade e até mesmo de lugares vizinhos a Limoeiro. A música coloca em questão o êxodo constante para a capital, ao ter como verso a seguinte frase “se passar mais três dias sem chover, vendo tudo que tenho e vou embora…”, e junto a este ponto vem também o fator de Limoeiro ser fronteira entre o Agreste e o Sertão e como o clima é fator crucial para o comercial local. A chuva é tida como miragem, não só nesta composição, mas também na faixa 8, “Canto ruim de morar”. O poeta narra o processo comum dos habitantes da cidade, de colocar o roçado (plantação) e dele cuidar dia após dia, e os desafios que este acarreta a partir que a chuva não vem.

Os roçados são predominantes na cidade, grande parte da estrutura econômica de Limoeiro formou-se graças a essa forma de produção individual, onde o dono da terra pode ou não ser o agricultor, mas que no fim das contas uma parcela da produção e venda fica nas mãos do cultivador. Algodão, milho, feijão e outras monoculturas ganharam força no município e isso aparece constantemente nas composições de Zé de Teté. O fluxo populacional da cidade para os roçados, a vegetação que rodeia a cidade surgindo na canção “Machadeiro Moacir (Faixa 9)” e os desafios que são impostos a cada trabalhador.

A rima que surpreende e acompanha a “pisada” do pandeiro junto ao surdo faz do coco de Zé de Teté obra genuína do seio do agreste pernambucano, e o próprio autor tem consciência disso, pois na faixa 2 (Ai, ai meu Deus) o coquista canta de modo saudosista sua própria música. “Eu não sei o porque é, que Zé de Teté só canta coco pesado” fala o coro que acompanha o cantor, e completa na mesma dose o compositor “Sou respeitado, eu nunca temi valente, brigo, morro, eu mato gente, não sou desmoralizado”. Fascinante como funciona essa interpretação de si, pois é reflexo da interpretação popular de limoeirenses, que levantam a bandeira da cidade e reproduzem esse sentimento de pertencimento e soberania. Uma via de mão dupla, entre compositor e povo que traduz o íntimo de uma visualização de local, de cidade e de ser daquele determinado lugar.

O ritmo e clima de “dono de si” são anteriores a essa música, quando a faixa 1 (Dei um brado na terra) já diz “não bula comigo que eu sou um terror”. Ninguém mexe com o cantador, ninguém interfere o ritmo do coco, porque o coco flui e não existe força que consiga burlar tudo isso. Está presente palavra após palavra da faixa de abertura que possui tom apocalíptico, pois onde o cantador chega os seres se ouriçam, os espaços em branco são preenchidos, e cada coisa muda de lugar. É uma ideia de afirmação que perpetua na ciranda, e nas próprias serestas românticas do também vangloriado Toinho de Limoeiro, que ao cantar “Meu grito” nos bares e clubes transformou a música do município. Uma imagem de Limoeiro ganha forma nas músicas de Zé de Teté aos poucos, não é algo vago, nem simples. Trata-se de ser representante de determinado público, de cantar por estas pessoas e essas pessoas o acatam seja nas palhoças durante o São João, ou no cotidiano, ouvindo e colocando o cantor em lugar especial, em determinado hall de artistas que não condiz com a normalidade.

A faixa 4 (Os Serrotes) cita Zé de Teté em terceira pessoa e descreve uma festa rotineira da população. Trata-se de um mundo idêntico a outro inserido neste mesmo mundo. O cantador esquematiza a canção com certo cuidado e necessidade de detalhes que faz desta uma das melhores poeticamente falando do álbum. A constante mantida pelo pandeiro produz um efeito que pessoa alguma consegue ignorar. Limoeiro é festa e reunião nas músicas de Zé de Teté, assim como também é seca e problemática. Não se delimita a música sobre o que seja ou não a localidade, as definições ocorrem entre os versos e pescamos as mais claras, entre elas a crítica ao sistema político.

A premissa de “Quem viver em Pernambuco, não há de estar enganado: Que, ou há de ser Cavalcanti, ou há de ser cavalgado” predomina na cidade e Zé de Teté coloca essa insatisfação popular e descrença no sistema político em uma canção do álbum, intitulada “Votei tanto que cansei” (Faixa 11). No verso “eu só voto de hoje em diante se Jesus for candidato” traduz todo o clima da canção. A política limoeirense, assim como na maioria das cidades do Agreste, Sertão e Mata norte, é feita por grandes famílias, detentoras de poder agrícola e “prestígio”. A corrida eleitoral não fica fora disso em Limoeiro, que tem o poder concentrado em duas famílias, mas não nos ateremos aos problemas vigentes, pelo contrário, veremos como essa parcela da população encara os acontecimentos. Na poesia gravada na faixa 11 o sentimento de “inutilidade” do eleitor após as eleições predomina e esse discurso é comumente difundido nas ruas do local, onde eleição virou circo, onde não existe mais seriedade no que se faz politicamente, e assim regressamos para o modelo de bem e mal falado no início do texto.

O quesito religioso não desaparece do coco de roda de Zé de Teté, que após mostrar seu domínio sobre a música, dita que o “homem faz uma garrafa, só não faz uma girafa, que é obra da natureza” e assim na faixa 7 (As obras da Natureza) a onipotência e onipresença de um Deus cristão ocupa lugar. Durante toda a canção o autor detalha versos sobre isso, que o homem pode de tudo efetuar, mas o que se é natural, o que foi produzido por Deus em seus sete dias na criação, não pode ser obtido pelo homem em seus meios industriais. Em igual tom na faixa 10 (SOS) Zé de Teté coloca em xeque a “clemência” popular  e mostra como essa submissão a um Deus pode salvar a população de tragédias que assolam o mundo, mas em certos casos a cidade de Limoeiro. Reúnem-se assim vários conceitos e verdades populares na produção musical de Zé de Teté, artista que nasceu neste ambiente e que até hoje permanece, cantando e falando diretamente com a população que representa no coco.

O encerramento do disco apresenta uma participação especial de Paulo Faustino, mestre coquista de Zé de Teté, também limoeirense e cantador fiel as raízes da cidade. Na música “Ta solto no meio do mundo” o professor de José Rodrigues da Silva conta os feitos do aprendiz e mostra que Zé de Teté soltou-se mundo a fora para representar Limoeiro e um grande grupo dos habitantes da cidade. A imagem que é transmitida sobre Limoeiro nas composições demonstra as dificuldades e alegrias da população, mas sem auto-vitimismo ou algo do gênero. Temos o ganzá fazendo seu habitual movimento de leva e trás e a voz sem receios do cantador. O coco de roda cantado por José Rodrigues reafirma a força do nordestino e o coloca como figura incansável, desafiador de preceitos. Canta-se o menino que desce a ladeira para ver o desfile do boi bumbá, o agricultor, a lavadeira, a continuação de um ciclo cultural que vigora em partes específicas da cidade.

Conclusão

Buscou-se nessa explanação uma breve compreensão sobre as representações e óticas de mundo presentes nas composições do coco de roda e como certas narrativas se mantém através dos tempos. Vimos que tanto poetas como Zé de Teté ou outros influenciadores políticos e culturais criam e representam um mesmo lugar de diferentes formas, trejeitos e significados. Os signos do coco de roda são transmutados a cada dia que se passa, assim como o boi que transcorre as ruas de Limoeiro e a ciranda que chega ao fim das festas populares. Compreender estas manifestações como o cotidiano de uma cidade chega a ser de maior validez do que tentar decifrar suas intenções, por hora, enquanto estas só tangem ao livre expressar de indivíduos.

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. 4º Edição, Editora Cortez, 2009.

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A feira dos mitos: A fabricação folclore e da cultura popular (Nordeste 1920 – 1950). 1ª edição, Editora Intermeios, 2013.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? (Who is Cultural History) 2ª edição, Editora Zahar, 2008.

AYALA, Maria Ignez Novais. Os cocos: uma manifestação cultural em três momentos do século XX. Estudos Avançados, Vol 13, Ano 35, 1999. Disponível: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141999000100020.


[1] Trabalho apresentado na disciplina História de Pernambuco, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal de Permabuco. 2018.

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Last Edit: 11 jul 2018 @ 11 32 AM

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A atuação da Historiografia na Construção da Verdade sobre o Nordeste[1]

Aluno: Geovane Augusto da Costa Tavares[2]

Introdução

O que é Nordeste? A verdade sobre esta região é múltipla, não sendo única e nem muito menos imutável, em verdade, existem várias concepções e realidades dentro de um espaço imaginário que se constrói. Essas realidades são diversas, sendo baseadas em aspectos econômicos, sociais, culturais e que a partir disso, a verdade sobre o nordeste vai se construindo a partir de diferentes interesses, de diferentes regiões, de diversas histórias, e que assim vão se concretizando ao longo do tempo -através da repetição de um discurso- e sincronizando com outras até a construção de uma verdade, podendo ser ela  de boa ou má fé.

Muitos, quando pensam sobre esta região, visam-na como região de miséria, violência, corrupção, seca, região que determina os indivíduos que lá nascem à miséria etc. Outros já a pensam como região onde remete saudade, lugar de fartura e até polo cultural do Brasil. Essas visões e verdades refletem também como vai se escrever a história desta região, podendo ser elas com o objetivo de enaltecer a Região, como fez o sociólogo Gilberto Freyre, ou almejando a depredar, como fez, por exemplo, o jornalista Paulo Barros, do jornal O Estado de São Paulo.

Este presente artigo terá como objetivo principal de mostrar como a historiografia influência na construção da verdade sobre o Nordeste, como essa historiografia nasce e sob qual contexto ela é construída. Utilizando-se como metodologia a análise de estudos sociológicos, textos jornalísticos e até escritos literários sobre a região e demonstrar como eles participam do processo de construção da historiografia Nordeste, e demonstrar como podemos utilizar estudos históricos como arma para a desconstrução deste Nordeste criado.

Dividirei este artigo em 3 partes, a primeira, chamada de “O nascimento das regionalizações” terá como objetivo investigar como nasce a ideia de nação e as regiões de nosso país, tendo início na segunda metade do século XIX e os vários movimentos que surgem em busca da ideia de nação e como isso acaba influenciando na construção da historiografia e o modo de ver o território nordestino. A segunda parte, chamada de “Como a historiografia vê o Nordeste”, tem como objetivo mostrar como o Nordeste nos é construído e nos é mostrado (os estereótipos sobre Nordeste) e mostrar os principais autores que ainda nos influenciam na visão da região e como nasce a “historiografia da seca”. A terceira parte possui a denominação de “Em busca da autêntica verdade sobre o Nordeste” mostrarei estudos historiográficos e análises que ajudam a desconstrução da visão estereotipada sobre o Nordeste e os autores que buscam trazer à tona a verdade, desconstruindo a historiografia positivista e mostrando um novo modo de contar a história pelo próprio Nordeste.

O nascimento das regionalizações

Para compreendermos melhor como nasce a historiografia que aborda o Nordeste, é necessário voltarmos ao início, desde os movimentos nacionalistas e modernistas emergentes da segunda metade século XIX, pois é neste momento de revolução intelectual que nasce as regiões e as formas especificas de como enxergá-las. Estes movimentos possuíam por objetivo construir a ideia de nacionalidade em nosso país, pois ainda que fossemos independentes desde o início do século XIX, a ideia de nação e regionalidade – este como pré-requisito da construção nacional – em nosso país era embrionária e estática.

O Nordeste que falaremos, não é o que costumamos ver no mapa do Brasil, que se resume a um ponto físico entre o Norte e o Leste, mas sim como região que possui traços socioculturais próprios e que é construída historicamente de forma única e região que é vista por várias vertentes, devemos voltar no processo de construção da nação brasileira, pois é nesse contexto que nascem as várias verdades que constroem o que é o Nordeste.

Na segunda metade do século XIX, o Brasil vai se emancipar como Estado independente da coroa portuguesa e com isso surge em nosso território novas formas de enxergarmos o espaço e região na qual os indivíduos estão inseridos. Essas visões sobre nosso território aparecem com mais força no período de transição do regime monárquico para a república, pois é nesse período que a região onde, predominante os modernistas estão, que é o Sul, vai avançar e mostrar progresso em relação às outras regiões. Antes o Brasil era visto através da visão Belle époque europeia, visão esta que definia uma verdade determinista sobre o nosso país, olhando de maneira naturalista e de tropicalidade exótica, ignorando as diferenças regionais e explicando-as como uma pequena variante do clima tropical brasileiro. Colocando o meio e a raça como fatores determinantes para o atraso sociocultural brasileiro. Esta visão eurocêntrica decai a partir do surgimento da primeira “grande” guerra e a partir daí o Brasil necessita da criação de uma identidade nacional para se auto afirmar como nação independente da influência cultural europeia.

Segundo o historiador, Durval Muniz, a identificação com o local de vivência é uma necessidade do homem ocidental, sendo culturalmente praticada desde o século XVIII, que com isso, tem por objetivo de criar um valor ao local em que nasceu, cresceu e adquiriu comportamentos sociais, linguísticos e culturais únicos. Baseado nisso, é que foram, como exemplo, criados os primeiros Estados-Nações da Europa.

No Brasil, a partir deste momento de desconstrução da antiga territorialidade, as regiões irão à procura de símbolos e costumes que tornem autêntico a construção daquela região, pois é principalmente depois da década de 1920 que se constrói uma ideia de “macro” regionalismo (região composta de vários grupos que mesmo com suas diferenças individuais, compartilham semelhanças entre si) em detrimento do “micro” regionalismo (valorização somente de um grupo como o único agente criador de uma região), e nesse processo, nasce o Nordeste e também outras regiões de nosso país, que é um rompimento do complexo Norte do Brasil, destacando-se pelas suas próprias características socioculturais e econômicas.

Concomitantemente a esta época, o brasil estava em processo de transição político cultural. O contexto brasileiro, principalmente o sul/sudeste (fatores como a vinda da mão de obra valorizada culturalmente e economicamente da Europa, o capital acumulado nessa região e o posterior investimento no café que fez um grande sucesso, ajudaram no processo de crescimento desta região), entra em um processo de modernização, tanto ideológico quanto no espaço físico das grandes metrópoles, e isso ocasionará um momento de grande expectativa para o progresso da nação brasileira e a partir disso, acreditava-se que a nação só iria se construir a partir do progresso econômico e modernização, porém, quem não se enquadrasse nesse processo, não se enquadraria na nação. Cabe dizer que a verdade sobre uma região ela é imposta, e isso interfere na busca de uma real verdade sobre o Nordeste, sendo assim, é através da valorização de alguns elementos, que nesse caso eram o progresso e o avanço econômico, em detrimento do antigo espaço brasileiro, ignorando fatores histórico-culturais

Surge nesse período, dois grandes movimentos que criam as regiões e como elas se organizam no imaginário de nação, são eles o regionalismo, propriamente dito, e o modernismo. O regionalismo é um movimento que busca trazer identificação a uma certa região, e colocá-la em posição de destaque, sendo ela o produto do imagético e das relações sociais entre os indivíduos e/ou grupos que ali estão e a partir disso, valorizar e engrandecer o seu território e dizer que é a partir deste produto anteriormente citado, construir o ideal de nação, exemplo disso é o “bairrismo”, expressão esta muito utilizada por Gilberto Freyre para designar que o centro de referência cultural é a sua própria localidade. De certa forma é considerado um movimento até que separatista. Já o movimento modernista é um movimento que visa nacionalizar, ele prega que o regionalismo é um pré-requisito para a construção da nação. Podemos entender melhor essa ideia com a parte do trecho de Durval de Muniz de Albuquerque JR:

“O regionalismo é, no entanto, visto com bons olhos por alguns intelectuais nacionalistas. Sampaio Ferraz, por exemplo, considera que o apego natural à terra natal não colide com a formação da nacionalidade, mas achavam que a consciência regional era a primeira forma de manifestação da consciência nacional. Só que esta era um estágio a ser ultrapassado, quando houvesse a criação da consciência brasileira.”(pág. 63)

Com isso o modernismo acreditava que a verdadeira nação se construiria a partir da incorporação das diferentes regiões do Brasil, como por exemplo, a relação entre o mundo costeiro e litorâneo com o homem sertanejo, visto em Macunaíma de Mário de Andrade

Porém, em verdade, esse nacionalismo pregado pelo movimento modernista era um regionalismo disfarçado, pois maior parte dos que pertenciam ao movimento exaltavam o eixo sul, principalmente São Paulo, pois naquela época, o sul passou economicamente sobre o Nordeste, sendo assim o novo polo industrial e moderno do país, logo, a nação moderna que eles pregavam era inspirada na região Sul, principalmente São Paulo – berço do movimento modernista brasileiro – e todas aquelas regiões que não apresentavam o desenvolvimento equivalente ao do Sul/Sudeste não enquadrava-se na nação, assim afirma o historiador Durval Muniz:

“Um regionalismo que, após a proclamação da república, passa a se expressar cada vez mais sob o disfarce do nacionalismo. São visões e interpretações regionalistas que buscam impor como nacionais, e cujo embate é um dado fundamental na história do país.”(A invenção do Nordeste e outras artes, pág. 65)

Para a propagação destes pensamentos, utilizou-se o campo das artes, sendo preferencialmente o uso da literatura e os artigos científicos jornalísticos pois com esses recursos, reconhecia se as diferentes regiões do Brasil e ajudavam na construção da nação ideal, integrando as diferentes regiões e afirmando que é justamente nessa dualidade de realidades que a nação brasileira nasce. Os artistas pertencentes a esse movimento preocupavam-se bastante com o que eles mesmo poderiam abordar, tendo como preocupação a construção na produção desse novo espaço nacional.

Assim, começou a se construir um Nordeste carente, miserável, violento etc. Ou seja, um cenário totalmente caótico e distópico, em que pela própria natureza da região, ela é fadada a dar errado, tanto pelos fatores da Natureza – como a seca que vinha de alguns tempos se tornado frequente, principalmente no fim do século XIX e no século XX – também pelos fatores sociais, que são consequentes aos períodos de estiagem, causando fome, morte e o desejo de retirada desse lugar – tendo como principal destino a região sul/sudeste – e com isso, cria-se uma visão estereotipada sobre Nordeste. Tanto pelos fatores também culturais da sociedade Nordestina, que foi demonizada como retrógrada, principalmente culpando a presença da raça negra na formação da sociedade desta região e outros fatores, como a religiosidade, movimentos sociais como o cangaço, etc.

Como a historiografia vê o Nordeste

Como vimos anteriormente, para a construção da verdade sobre uma região, um dos elementos essenciais é a coleta de dados históricos e a produção cultural que os grupos daquele imaginário espaço produzem, porém, dependendo da intenção e da ideia, constrói-se métodos para que se omita a verdade de outra para elevar a sua região. Um desses métodos é a escrita da história que se relatados somente de um lado, imponha-se e cria-se somente uma visão, sendo ela universal (fazendo com que até as próprias vítimas da estereotipização acreditem nesta versão) para todos.

Cabe dizer que a historiografia não se resume somente na análise de trabalhos científicos ou textos acadêmicos, mas também abrangem qualquer forma escrita de passagem de informações e de discurso ideológico, incluindo assim, os textos jornalísticos e as artes, principalmente a literatura, sendo assim, sendo necessário a análise de toda a forma historiográfica que construiu o Nordeste como a região do caos e regresso e como isso interfere no modo de escrita da história desta região.

Surge no final do século XIX, o desejo de se construir uma historiografia nacional, com o objetivo de construir nossa história de nossa nação e exaltar a todos aqueles que participam desse processo de avanço e progresso (um exemplo disso é como está bem explicito as palavras, em nossa bandeira republicana, “Ordem e Progresso”, insinuando, claramente, que o Brasil é um país do futuro). Nesse contexto, existe uma dualidade entre Norte e Sul de nosso país, enquanto o “Complexo Sul” demonstrava progresso, evolução e intelectualidade, a região oposta, o Norte, demonstrava atraso, improdutividade e dependência do Estado. Os pioneiros de nossa produção historiográfica foram os modernistas, e como vimos antes, sabemos que os modernistas pregavam um falso nacionalismo, e que na verdade era um regionalismo de exaltação da região Sul, pois naquele contexto tinha virado o centro do Brasil. Com isso, começa-se a criar todo uma exaltação em torno do “eixo do progresso” e constrói-se uma imagem de perdição ao “eixo do regresso”.

A relação da seca e Nordeste é um ponto essencial que precisamos conhecer da região, pois ela é uma temática que é diretamente ligada, pela historiografia, à região. O historiador Manuel Correia de Andrade, nos traz essa dimensão, dizendo que na região:

“há dois tipos de seca no Nordeste, a anual, que dura de sete a oito meses, correspondendo ao longo período de estio entre dois períodos chuvosos de três a quatro meses, de vez que o sertanejo já está adaptado e ela dispõe de reservatório d’água que dão para atravessar estes períodos. Ao lado desta existem as secas periódicas, de difícil previsão e que se efetivam quando em um período normalmente chuvoso – dezembro a março – não caem as chuvas esperadas, fazendo com que aquele período seco de sete a oito meses se estenda por dois e às vezes três a quatro anos.” (A Intervenção do Estado e a Seca no Nordeste do Brasil. Revista de Economia Política. Pág. 126)

Durval Muniz diz que o surgimento da visão da seca e da intervenção estatal Nordeste surge a partir do reconhecimento das secas na região Nordeste, sendo a de 1877-1878 a primeira reconhecida e espalhada massivamente pela mídia, é que se começa a maior preocupação, por parte dos governantes, sobre esta realidade de estiagem e suas consequências desastrosas para as populações da região. Os governantes do Norte irão a partir deste momento, descobrir uma enorme arma para o ganho de verba, requisitando mais e mais ajuda financeira no Parlamento, através da militância política, reclamando e exigindo o mesmo tratamento, por parte do Governo Federal, que era dado ao “Sul”. E é a partir deste momento que surgem dois problemas que se tornaram verdades sobre a região, tanto pela repetição do discurso quanto pela sua ocorrência após esse fato, surge então o “Nordeste clientelista” e a “Industria da Seca”.

O “Nordeste clientelista” é uma visão (na qual torna-se verdade tanto pelo dizível, tanto por realmente sua ocorrência) na qual diz que a situação da região e, às vezes, do país são consequência dos “nordestinos” que não sabem votar e trocam seus votos por agrados clientelísticos, como cargos públicos, cestas básicas, acessórios para uso pessoal etc. e consequente a isso surge a “Indústria da Seca”, que é a corrupção por parte desses governantes (geralmente populistas que prometem que os problemas do povo irão terminar caso ele assuma o cargo na política), que solicitam verbas federais para o investimento nas áreas de estiagem, como obras de infraestruturas (Hospitais, Escolas e até de reservatórios de água.), porém, sempre desviam dinheiro, utilizam para outros fins e prejudicam realmente aqueles que precisam e os mantem na miséria para que nas próximas eleições possam novamente pedir votos e assim tornando um ciclo vicioso. E a historiografia costuma a retratar este fatídico fato como totalidade na região, passando assim a ideia de que esses problemas ocorrem por serem naturais da região e da própria população, não sendo problemas das pessoas que utilizam a fome e sede desse povo para se aproveitarem.

O nascimento da terminologia “Nordeste” na historiografia, surge a partir da designação feita pela Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca (IFOCS), criada em 1919, que teve por objetivo destacar dentro da região Norte, uma região que está mais suscetível aos males da estiagem, sendo assim, através do discurso desta instituição, podemos ver que o Nordeste nasce oficialmente como região que está ligada as secas. É através de discursos assim que vai se construindo a historiografia do Nordeste.

Uma das maiores obras historiográficas que ajudaram e muito na construção deste Nordeste na perspectiva e realidade das secas é o livro “Os Sertões”, publicado em 1906, pelo escritor e jornalista, Euclides da Cunha. Esta obra trata de relatar o conflito armado que estava ocorrendo na cidade de Canudos, no interior da Bahia, pois na época ele era correspondente do jornal O Estado de São Paulo. O contexto da guerra era que essa região do sertão baiano, historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise econômica e social. Milhares de sertanejos partiram para Canudos, cidadela liderada pelo peregrino Antônio Conselheiro, unidos na crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social. Os grandes fazendeiros da região, unindo-se à Igreja, iniciaram um forte grupo de pressão junto à República recém-instaurada, pedindo que fossem tomadas providências contra Antônio Conselheiro e seus seguidores. Criaram-se rumores de que Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e partir em direção à capital para depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia.

Esta obra é uma referência quando se trata na exposição das mazelas ocasionadas pela seca, mostrando também a ineficiência do Estado na aplicação das leis e a violência que se instaura neste local consequente a estiagem, sendo assim, esta obra se torna uma grande referência relacionada aos estudos das ciências sociais e a temática da seca. Porém, esta obra sócio literária torna a situação da seca como verdade absoluta na região Nordeste, sendo assim, a partir desta obra, infortunadamente, cria-se uma visão de caos e atraso na região Nordeste.

Outra obra, desta vez completamente literária, muito importante que contribui para a construção e disseminação deste Nordeste é “Vidas Secas”, de autoria do literata Graciliano Ramos. O livro aborda a pobreza e as dificuldades da vida do retirante no sertão nordestino, narrando as fugas de Fabiano e sua família das secas. Mostrando também relações de poder entre aqueles que dependem dos exploradores para sobreviverem. Com isso ele constrói um Nordeste baseado na visão da miséria e o caos, como diz Durval Muniz:

“Graciliano constrói um Nordeste de vidas infelizes, parcas, trapos de pessoas que rolam pelos monturos. (…) Nordeste das cidades sonolentas, onde homens nasciam oportunamente, casavam oportunamente e morriam oportunamente. E, entre estas ocorrências, comportavam-se mais ou menos direito, e examinavam as vidas alheias, sempre achando nelas motivos para desagrado. Nordeste onde o eleitor cambembe votava para receber um par de chinelos, um chapéu e um jantar que o chefe político oferecia, e onde todos queriam a fácil do serviço público. Nordeste da elite pragmática, sempre disposta a abandonar concepções antigas para aderir imediatamente aos vencedores do dia. Um Nordeste onde as ações se definem pela imitação, pelos gestos copiados dos mais velhos. Nordeste de pessoas que executam ações sem saberem as forças reais que as determinam, presas a quase rituais. Nordeste de homens que pensavam andando banzeiros como urubus, de pés espalhados como de papagaios, nos quais não estravam nem sapato, todos sonhando com a terra da promissão que ficava no Sul. Eram esses complexados e inferiores, derreados sob o peso da enxada, sofrivelmente achados, otimamente obtusos. Uma raça condenada a desaparecer, se não fosse acordada de se torpor, de seu sono, de sua ignorância.”(A Invenção do Nordeste e Outras Artes, Pág. 270)

A criação desta “verdade” deve-se também ao fato da repetição do discurso das imagens da seca que assolam o Nordeste. Os veículos de mídia, além da literatura, também participaram deste processo de construção de verdade sobre a região. A mídia jornalística vai ser um essencial propagador desta visão, principalmente no contexto político da época, em que o poder decisório em nosso país passa a se instaurar na região sul. Em relação a isso, o historiador Durval Muniz nos explica como ocorre este processo:

Torna-se comum a visita de “especialistas e curiosos” a outras áreas (nas Províncias do Norte) do país. Como a centralização do poder, no Rio de Janeiro, obrigava a vinda de políticos dos Estados do Norte, pelo o menos para essa cidade, o desconhecimento do restante do país era mais acentuado entre as populações dos Estados do Sul, que, em sua maioria, apenas ouviam falar do Norte pela imprensa, sobretudo daquilo que os discursos de seus representantes, no Parlamento, diziam e faziam ver. (A Invenção do Nordeste e Outras Artes, Pág. 54)

Com essas visitas, os jornalistas que aqui chagavam já vinham carregados visionariamente da visão euclidiana sobre o Nordeste, com isso, transcreviam aos jornais que tudo que aqui se encontrara era consequente da “natureza má” da região, logo as características socioculturais do Nordeste eram completamente descritas com a repetição de certas imagens que denigrem a região. A cultura nordestina é construída, através desses relatos, como uma cultura primitiva, por ser/ter uma cultura totalmente diferente da cultura “ideal” que os sulistas criaram, pois para eles o sucesso econômico e desenvolvimentista urbano do sul é graças à cultura europeia branca advinda dos imigrantes italianos, alemães, japoneses, etc. (exemplo disso é o movimento modernista que se expandiu a partir das décadas de 20 e 30 do século passado, que visava o objetivo de trazer uma visão moderna e única a todo o Brasil, desvalorizando as características exclusivas que cada região possuía). E prova disso é como os veículos de mídia retratavam e ainda retratam o nordeste, como sendo uma região totalmente sem preparo nenhum para o crescimento, e ainda, criou-se que o Nordeste é uma região que atrapalha o desenvolvimento da nação, um exemplo disto é que até hoje, tem-se como verdade, que culpa de toda a atual situação política/econômica/cultural do país é colocada sobre o nordeste, por ser uma região de pessoas miseráveis e não inteligentes, que vendem seus votos em troca de produtos e mercadorias de subsistência, para políticos populistas e que consequentemente elegem corruptos (mesmo que a verdade sobre a corrupção, é que este problema está no aparelho estatal brasileiro, independente de região e cultura, sendo um problema estrutural de nosso Estado-Nação) e todo o país paga as consequências das erradas escolhas da população nordestina brasileira, sendo assim, criando um discurso de verdade sobre a região, dizendo que o Nordeste é uma região de miséria e atraso em relação ao progressismo que o sul/sudeste prega.

Um dos jornalistas mais influentes na criação deste imagético nordestino é o jornalista Paulo de Moraes Barros, colunista do jornal O Estado de São Paulo. Ficou conhecido a partir de seus relatos em visita a Juazeiro, que lá considera, de forma explicita, que o meio (O clima e a natureza da região) e a raça (A presença do negro em maioria na composição étnica do Nordeste) são fatores determinantes para o atraso regional. Paulo Barros, em sua série de artigos intitulados como “Impressões do Nordeste” relata a presença, na região de seus estudos, de “fanáticos boçais que se disseminavam por toda a região” e pelas “turbas que os assediavam, homens e mulheres de aspectos alucinados, olhos esbugalhados , com os braços estendidos, atirando-se por terra, tentando tocar a barra da batina do beato”,  como também a “violência dos bandidos facinorosos” e com isso, questionava-se como podia um povo assim ser a base de construção de uma nação (visão essa claramente modernista). Analisando completamente essa série de artigos, encontramos também a construção de outras imagens negativas como verdade sobre a região, vemos a construção de um lugar onde possui uma história violenta, bárbara, que sua população vive na miséria por serem preguiçosos, região do coronelismo, região de cidades “interiorizadas”, o sotaque é visto de uma maneira inferiorizada, dando significância como o linguajar do caipira, a fé como questão de atraso, chamada de fanatismo religioso.

Nesse processo surge a historiografia em relação ao Nordeste, que como os outros meios, tende a distorcer a verdade sobre o Nordeste. Essa historiografia nos apresenta-nos de maneira fraca o Nordeste açucareiro, do lucro e da fartura, e dá a importância, de forma prioritária, do Nordeste da seca e das tentativas de intervenção do Estado, ignorando completamente a importância do Nordeste diante do cenário brasileiro e até mundial. É necessário afirmar que está historiografia é escrita por, majoritariamente, historiadores influenciados pelas ideias modernistas, na qual, a partir do século XX a diante a história do Brasil só é contada na perspectiva de crescimento e modernização, e que depois do crescimento e modernização da região Sul, o Nordeste torna-se totalmente do progresso e intervenção na economia do Estado.

Comumente, quando estudamos história do Nordeste e sua influência em cenário nacional, sob esta historiografia positivista, estudamos que o primeiro empreendimento português foi a exploração do Pau-Brasil, depois a metrópole exigiu a plantação da cana e depois, período esse que durou muito tempo (e percebe-se que o Nordeste nesse período não é citado, ele se quer existe nesse período), e logo vemos que a história do Brasil se volta ao movimento dos bandeirantes, crescimento do sul, principalmente depois da desvalorização da cana no Nordeste (deixando a partir deste momento totalmente de lado esta região) e vemos que a partir de fatores, sendo eles principalmente, a transição da monarquia para a república, o café e a vinda da mão de obra branca europeia, a exploração de metais preciosos em Minas Gerais, a região sul passou a tomar conta das decisões econômicas e políticas do país, tendo um dos maiores exemplos a política café com leite. Porém, até a história recente do nosso país é registrada a partir da visão e as decisões são tomadas pelos “sudestinos” e “sulinos”, deixando o “complexo Norte” para trás, e em alguns casos, culpando está região, já tão prejudicada, pelos problemas das regiões sul e sudeste (caso este, o julgamento sobre os retirantes que chegam lá com esperança para a construção de uma nova vida nessas metrópoles) e também os problemas gerais da nação.

Em busca da autêntica verdade sobre o Nordeste.

Contrapondo a imagética e verdade ideológica construída sobre a “região das secas”, existem autores que representam o contrário, representam a supervalorização da região, demonstrando-a não como uma região marginal ao centro civilizador brasileiro, mas sendo o centro civilizador brasileiro, sendo assim, colocando o Nordeste como primeira região do Brasil, construindo uma história do Nordeste pelo Nordeste. Assim, valorizando e amando o próprio espaço regional, nasce uma historiografia nova, que tem por objetivo, não de esconder a verdade sobre a região, mas sim, de demonstrar o outro lado que a historiografia tradicional e positivista ocultou de nós mesmos. A historiografia é uma ferramenta essencial para a desconstrução do Nordeste “euclidiano” que faz com que a verdade da região seja de miséria, seca e improdutividade, pois, se percebemos e analisarmos obras historiográficas, perceberemos que a região tem um significado muito maior do que é nos passados pela mídia, as artes e outros campos do conhecimento, como os estudos sociológicos e ecológicos.

Para descobrirmos este outro lado “oculto” do Nordeste, devemos voltar num período em que nem o Brasil (enquanto espeço geográfico oficial) existia, e analisarmos desde o período colonial os fatores que ajudaram na construção do que é esta região na atualidade. O Nordeste foi a primeira região de nosso país que foi povoada e explorada, tendo como marco inicial no litoral sul da Bahia, onde se localiza a atual cidade de Porto Seguro. A partir deste momento o Nordeste se tornou essencialmente a região fornecedora de riquezas e matérias-primas, principalmente as suas terras, fartas e saudáveis. Os maiores exemplos de riquezas que a metrópole portuguesa usufruiu foram a exploração intensiva do Pau-Brasil – que foi a primeira riqueza explorada de forma sistemática e esta exploração se deu de forma tão intensa que esta arvore é rara em seu território nativo – e a Cana-de-açúcar – que veio do oriente para aqui oficialmente em 1532 através de Martim Affonso de Souza, que foi o primeiro donatário da Capitania de São Vicente, porém, forma nas capitanias localizadas, onde atualmente é o Nordeste, que o plantio deram sucesso e os engenhos se multiplicaram, sendo os principais polos de plantação as capitanias de Pernambuco (do litoral à zona da mata) e da Bahia ( região conhecida como “Recôncavo baiano”, sendo o responsável por esse sucesso o Capitão-donatário Duarte coelho. Esta última riqueza citada, a Cana, foi essencial para a formação da estrutura social, cultural e econômica da região nordestina, pois desde o século XVI, até os meados do século XIX, foi a principal atividade econômica de toda a colônia. O crescimento econômico desta região foi estruturado totalmente à mercê dos interesses da coroa portuguesa, sendo assim chamada de economia colonial, ou seja, a colônia só cresce se for do interesse da metrópole, sendo assim, a região não tem autonomia de decisões sobre seu próprio território, servindo exclusivamente ao Estado metropolitano, Com isso, a estrutura sociocultural da região se constrói em torno da atividade econômica, ignorando os desejos individuais (caso aqueles que trabalhavam e serviam aos interesses metropolitanos) daqueles que ali estavam.

O tipo de economia anteriormente citado, a mercantilista, ajudou a formar vários “Nordestes” dentro de um (Nordeste canavieiro, Nordeste da pecuária, Nordeste do algodão etc.), pois para cada ambição da metrópole (e a região do Nordeste era produtiva o suficiente para atender aos interesses metropolitanos, do litoral ao “sertão”) construía-se uma forma social exclusivamente em torno daquela produção, sendo assim, aqui se formava expressões culturais, sociais e econômicas próprias, ou seja, a economia colonial foi um dos fatores que ajudaram na heterogeneidade de sociedades que estão presentes na região do Nordeste, sociedades essas que, contraditoriamente, eram próximas e afastadas. Próximas no sentido de possuírem em comum uma metrópole colonizadora única, considerada “progenitora” de sua bagagem cultural (religiosidade, linguística etc.), e afastadas pela própria característica do sistema colonial mercantilista, que exigia de suas colônias o pacto colonial, conjunto de regras e leis que a metrópole colocava sobre sua colônia, e uma delas era a proibição de qualquer tipo de relação comercial ou troca de informações de sua colônia com outras metrópoles ou outras colônias, ou seja, o produtor de riquezas – que era colocado de forma estratégica pela metrópole, assemelhando-se ao sistema feudal europeu – de uma determinada colônia era escravo dos ordens e interesses do Estado metropolitano, dono por legitimação da colônia. Com isso, podemos notar a construção de uma diversidade sociocultural e de riquezas em nossa região, contrariando a visão homogênea que a historiografia sulista nos descreve.

Quando se fala em “historiografia nordestina”, é impossível não falarmos do pioneiro que possibilitou a criação deste movimento historiográfico e o de desconstrução do Nordeste retrogrado que sulistas pregavam, e que nos possibilitou ver a região com outros olhos, esse pioneiro se chama Gilberto Freyre, pois é como o professor Frederico de Castro Neves fala sobre sua participação na construção da historiografia Nordestina:

“Mas, de qualquer maneira, em qualquer circunstância, a obra de Gilberto Freyre é central na configuração desta nova regionalização no Brasil. É dele, portanto, que podemos partir para tentar uma abordagem compreensiva sobre a historiografia e a construção do Nordeste como uma “região” – unidade cultural e política constituída imaginariamente, sedimentada na estruturação identitária brasileira”(O Nordeste e a historiografia brasileira, Frederico Castro Neves. Pág. 3)

Gilberto Freyre irá analisar o Nordeste através de uma metodologia única e inovadora, metodologia essa que a historiografia brasileira, contemporânea a Gilberto, abominava. Sua metodologia é fundada na análise sociológica e ambiental da região em que nascera, para isso, buscou intensivamente analisar a “sociedade canavieira” – maneira esta que ele conceitua a sociedade nordestina – reunindo dados históricos sobre a região, mostrando através dos fatos históricos como nossa região é prospera, tanto na quantidade e capacidade de criação de riquezas materiais, também como o Nordeste é rico culturalmente, influenciando assim todo o território brasileiro.

Durante três séculos e meio foi o Nordeste que alimentou o abastecimento das naus portuguesas, com principalmente a atividade da Cana-de-açúcar, e não somente isso, construiu-se aqui não somente a plantação da cana, mas, segundo a visão “Freyreana” também foi aqui o início da civilização brasileira, ou como Gilberto Freyre diria, “civilização açucareira”, pois é em volta da produção da cana que se constrói nossa sociedade, com a valorização do patriarcado, a mistura de raças e culturas, fatores esses que a cana proporcionava.

É dele, umas das Obras historiográficas mais complexas para compreendermos a realidade sociocultural e econômica da região Nordeste, tendo como base a influência da Cana-de-açúcar, é Nordeste: Aspectos da influência da Cana sobre a vida e paisagem do Nordeste do Brasil. Este livro foi revolucionário a seu tempo pois utiliza fontes históricas oficiais, como também jornais e cartas como fontes primarias de sua pesquisa ecológica sobre o Nordeste, também destacando as obras historiográficas de nordestinos, em detrimento da historiografia sulista. Este livro tem por objetivo pessoal de Gilberto de destacar características próprias da região – que em sua época era desconsiderada e de maneira estereotipada, ainda fazia nas relações oficiais parte do “complexo Norte do Brasil” – e consequentemente construir uma visão de Nordeste como, historicamente, centro civilizador do Brasil, ignorando e rebatendo os discursos que pregavam a “inferioridade nordestina” que o sul pregava em seus meios de comunicação e literatura, principalmente sob influência “euclidiana”. Nesta obras, o mestre de Apipucos procura mostrar como a chegada da economia canavieira modificou o ambiente natural e construiu uma sociedade escravocrata e aristocrata, onde uma minoria de senhores explorava as então chamadas “classes subalternas”, para Gilberto, o Nordeste real nasce do desenvolvimento de culturas e extração de riquezas; apoderando-se do meio natural e do homem, criando, destruindo e sincretizando o cultural europeu, indígena e africano e a partir do aproveitamento das ótimas condições climáticas e do solo roxo, rico em nutrientes, e que na junção desses fatores surge a “civilização do açúcar”.

Gilberto quando afirma que o Nordeste é o centro civilizador do brasil e deve ter uma historiografia própria, ele tem por objetivo nos passar que foi aqui, a “mina de ouro” portuguesa, como ele relata:

De modo que escrever-se a História do Brasil durante esse período, dando maior relevo ao extremo Nordeste ou ao Recôncavo da Bahia, não é bairrismo, como tantas vezes se tem levianamente insinuado, em críticas a historiadores maranhenses, pernambucanos ou baianos. Será talvez bairrismo. Porque através daqueles dias mais difíceis de fixação da civilização portuguesa nos trópicos, a terra que prendeu os luso-brasileiros, em luta com outros conquistadores, foi essa de barro avermelhado ou escuro. Foi a base física não simplesmente de uma economia ou de uma civilização regional, mas de uma nacionalidade inteira. (Nordeste: Aspectos da influência da Cana sobre a vida e paisagem do Nordeste do Brasil. Gilberto Freyre. Pág. 50)

Baseando-se neste relato e em outras obras historiográficas sobre a região, a região Nordeste do Brasil foi a que mais provocou conflitos entre as metrópoles europeias, por justamente sua produtividade, sendo Portugal a protetora de seu “empreendimento” e nações como França e Holanda (através da Companhia das Índias Ocidentais, que foi uma grande empresa de comércio), apelidadas por Gilberto como “os loiros”, eram as concorrentes e interesseiras na colônia. Prova disso, é que se analisarmos numericamente a quantidade de fortes e fortalezas que se encontram em todo o Brasil, não somente nos litorais, mas também em terra a dentro, podemos perceber que a maior parte destas feitorias estão na região Nordeste, isto significa que era aqui que estavam as maiores riquezas que se explorava e é a partir desta luta e suas consequências, (podendo ser elas socioculturais e econômicas) que surge o Nordeste.

Outros autores nos mostram a importância do Nordeste para a nacionalidade e a construção do que é o país hoje, mesmo nos períodos de estiagem que assolam a região, temos por exemplo o historiador Manuel Correia de Andrade, autor do livro “A terra e o Homem do Nordeste”, que “a costa nordestina foi, inegavelmente, dentre a grande extensão litorânea brasileira, a primeira a ser explorada” e isto nos mostra como a região litorânea nordestina foi essencial para o estabelecimento português no Brasil, pois desde o litoral até o sertão. Outro historiador, Cristiano Luís Christillino, na qual nos mostra em seu estudo “O Nordeste na historiografia sobre a Política no Segundo Reinado” que o Nordeste, mesmo no processo de perda das decisões políticas do país ocorrida no final do século XVIII (consequentes das constantes crises da manufatura canavieira), ainda assim, as províncias do Norte eram respeitadas e ouvidas pelo Imperador, atuando ativamente com as decisões políticas do Império, porém este historiador nos mostra, como vimos antes, a mídia como atuante neste tempo para a construção desta verdade, pois os jornais sulistas só noticiavam as decisões de sua respectiva região, ignorando as províncias do Norte neste processo de influência na  politica nacional.

O Nordeste, segundo análise ecológica, é uma região farta em água pois a manufatura açucareira e a pecuária são áreas (que foram áreas fundamentais da economia colonial no Nordeste) que exigem bastante o uso de água, pois para mover as moendas da cana e saciar a sede dos animais se exige grandes quantidades de água, logo, conclui-se que o Nordeste é uma região muito boa na área hídrica e que os problemas naturais da seca são momentâneos. O Nordeste nos mostra diversidade em riquezas e que os problemas que aqui estão presentes, não são de sua natureza, mas como se organiza e a utiliza para bem próprio de grupos de minorias que usufruem-se dessa situação, contribuindo para a construção negativa da região, como ele mesmo nos diz “De qualquer forma observa-se que o grande problema do Nordeste semiárido não é físico, de solos ou de clima, mas de sensibilidade de governo de interesse social.” (Andrade, A interveção do Estado e a seca no Nordeste do Brasil, 1986)

É essencial dizer que foi por causa dos movimentos emigratórios da região do Nordeste para Sul (maior parte para o que hoje é a região sudeste) que as cidades dessa região cresceram tanto economicamente e consequentemente, estes emigrantes levavam daqui para lá sua eterna saudade do lar em que cresceram e aprenderam a amar e consequentemente, carregados de sua cultura popular, influenciaram e muito na construção sociocultural das grandes metrópoles. Exemplo disto é que hoje, no Estado de São Paulo, encontra-se o maior centro cultural de viola Nordestina, estudo esse realizado pelo o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que teve como tema da pesquisa “A cultura nordestina no contexto urbano do Sudeste”, mostrando assim, que muito de nossa história cultural, social e econômica está ligada com o Nordeste.

Considerações Finais

No estudo sobre a relação do Nordeste e historiografia vimos que é uma relação construída por várias vertentes, não sendo nunca homogênea, pois cada historiador, escola historiográfica, irá ter uma visão sobre o seu campo de estudo. Vimos também o poder que a utilização dos recursos historiográficos possui para a construção da verdade sobre algo, com o objetivo de justamente demonstrar superioridade em detrimento do outro.

Em nosso atual meio escolar e acadêmico, podemos notar que a historiografia positivista do século XIX ainda é muito presente no meio educacional, sempre nos mostrando a visão da seca e miséria como única verdade quando pensamos em Nordeste. Porém, a passo lentos vem perdendo a vez para a historiografia regionalista inspirada por Gilberto Freyre, que conta com a ajuda de historiadores, jornalistas literatas etc. que constroem o Nordeste na qual contrapõe-se a esta visão determinista sobre a região e constroem assim, um Nordeste do povo, farto, onde muitos usufruem do bom e do melhor e que possuem orgulho por serem desta região e possuírem de certa forma, uma cultura única e riquíssima construída a partir das vastas relações culturais.

Referências Bibliográficas

Albernaz, C. (s.d.). Crise da Lavoura Canavieira. Fonte: Casa do Concurseiro: www.acasadoconcurseiro.com.br

Andrade, M. C. (1963). A Terra e o Homem No Nordeste. xxx: Brasiliense.

Andrade, M. C. (Dezembro de 1986). A interveção do Estado e a seca no Nordeste do Brasil. Revista de Economia Política, 6, 125-130.

Barros, P. d. (3 de Setembro de 1924). Impressões de São Paulo. O Estado de São Paulo, pp. 3-4.

Christillino, C. L. (2013). O Nordeste na historiografia sobre a Política no Segundo Reinado. XXVII Simpósio Ncional de História, 9.

Freyre, G. (1937). Nordeste: Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. São Paulo: Global Editora e Distribuidora LTDA.

Júnior, D. M. (2011). A invenção do Nordeste. São Paulo: Cortez Editora.

Neves, F. d. (2012). O Nordeste e a Historiografia Brasileira. 18.

Severino Vicente da Silva . (1986). A Igreja e a Questão Agrária no Nordeste. São Paulo: Edições Paulinas.

https://www.culturagenial.com/livro-vidas-secas-de-graciliano-ramos/ (Último acesso às 16:55 do dia 18/06/2018)

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http://www.brasilescola.com/historiab/apogeu-acucar.htm (Último Acesso às 19:30 do dia 03/06/2018)

https://www.culturagenial.com/livro-vidas-secas-de-graciliano-ramos/ (Último Acesso às 20:00 do dia 04/06/2018)

https://www.todamateria.com.br/cultura-do-nordeste/ (Último acesso às 14:01 do dia 07/06/2018)

https://www.youtube.com/watch?v=DhFQK7etl04 (Último acesso às 23:30 do dia 08/06/2018)

http://historiasecenariosnordestinos.blogspot.com/2013/09/fortalezas-no-nordeste.html (Último acesso às 02:43 do dia 15/06/2018)

http://historiasecenariosnordestinos.blogspot.com/2013/09/historia-economica-da-regiao-nordeste.html (Último acesso às 02:45 do dia 15/6/2018)

https://www.todamateria.com.br/companhia-das-indias-ocidentais/ (Último acesso às 19:45 do dia 19/06/2018)

https://www.suapesquisa.com/colonia/pacto_colonial.htm (Último acesso às 15:45 do dia 16/06/2018

https://bndigital.bn.gov.br/francebr/equinocial.htm (Último acesso às 16:34 do dia 19/06/2018)


[1] Trabalho apresentado na disciplina Tópicos da História do Nordeste, ministrada pelo professor Severino Vicente da Silva, no Curso de Licenciatura de História da Universidade Federal de Pernambuco, 2018.

[2] Graduando de História na Universidade Federal de Pernambuco.

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 07 jul 2018 @ 11:36 AM 

RELAÇÃO DO CPOR/R E A BATALHA DA CASA FORTE[1]

JORGE VIANA DA SILVA[2]

RESUMO

O centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife, localizado na Avenida 17 de agosto, 1020, Casa Forte, organização militar tem em seu brado, proferido durante as cerimônias de formatura, o slogan “Nós somos os verdadeiros heróis da batalha de Casa Forte”. Este trabalho visa uma investigação buscando elos entre a organização militar e a batalha, ocorrida na região onde se encontra o CPOR do Recife.

DESENVOLVIMENTO

O Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife, localizado na rua 17 de agosto, 1020, Casa Forte, organização militar do Exército que forma Oficiais Temporário, externa durante as formaturas o orgulho de serem os representantes daqueles que lutaram contra os invasores holandeses quando proferem um brado afirmando: “ Nós somos os legítimos herdeiros dos heróis de Casa Forte”, o brado foi criado por um Ex-Comandante do Centro, General Ester, o  comandante ao perguntar a tropa perfilada “Quem Somos”, a mesma parafraseia.

Nós somos os legítimos herdeiros dos heróis de Casa Forte. Em nosso quartel, aprendemos no hoje, a defender a pátria, a conduzir homens, e a ser a voz civil do Exército na sociedade do amanhã!Gen. Ex. R/1 Antônio Gabriel Esper

O Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife – CPOR/R foi criado pela Portaria Ministerial de 13 de novembro de 1933, ficando ao lado do antigo QG da 7ª RM na Rua do Hospício,  a quem estava diretamente subordinado, onde iniciou suas atividades letivas. Seis anos após a sua inauguração, em 26 de outubro de 1939, o CPOR do Recife foi transferido para o Forte das Cinco Pontas, no bairro de Santo Antônio, onde permaneceu por apenas seis meses, até 17 de maio de 1940, ocasião em que retornara provisoriamente para suas antigas instalações na Rua do Hospício. Após alguns meses transferiu-se para a Rua Benfica nº 1150, no atual prédio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, conhecido também como Museu da Abolição,  até que, em 13 de junho de 1949, por ordem do Exmo. Sr. Cmt da 7ª Região Militar, General Braziliano Americano Freire, ocupou suas atuais instalações na avenida 17 de agosto nº 1020, no bairro de Casa Forte, Recife-PE, há quase 69 anos, região palco de um dos mais importantes episódios da expulsão dos invasores holandeses no século XVII: o combate de 17 de agosto de 1645, que ficou conhecido como a Batalha de Casa Forte, uma das mais notáveis vitórias pernambucanas na guerra contra o domínio holandês.

Nas proximidades de onde hoje se encontra instalado o CPOR/R, encontram-se locais que foram palco, no passado, de acontecimentos históricos de vulto como o Célebre Arraial do Bom Jesus (cerca de 1,4 Km), símbolo mais significativo do espírito de resistência ao longo da guerra contra os holandeses em 1635 e a Batalha de Casa Forte (cerca de 750m) que marca juntamente com a batalha dos montes das Tabocas, o início da derrota dos holandeses em nosso território em  1645, culminando na Batalha dos Guararapes em 1648. Depois de anos de luta e sacrifícios, homens como HENRIQUE DIAS, FELIPE CAMARÃO, VIDAL DE NEGREIROS E ANTÔNIO DIAS CARDOSO souberam demonstrar o espírito patriótico e o desejo de liberdade de um povo, restaurando a Pátria para os nativos.

O combate de 17 de agosto de 1645, que ficou conhecido como a Batalha de Casa Forte, em alusão ao local onde foi travado, foi uma das mais notáveis vitórias pernambucanas na guerra contra o domínio holandês.          Após a derrota imposta ao exército holandês pelos pernambucanos na Batalha das Tabocas no dia 3 de agosto de 1645, em Vitória de Santo Antão, ANTÔNIO DIAS CARDOSO, integrante do Exército Patriota, perseguiu o inimigo que retraia para  Recife, acampando no engenho de Casa Forte pertencente  Anna Paes. O deslocamento foi realizado num percusso de pouco mais de 50 km, sendo que seguiam no encalço dos invasores as tropas luso-brasileiras.

No dia 16 de agosto as tropas holandesas chegaram ao Engenho Anna Paes, onde na atualidade localiza-se a Igreja Matriz de Casa Forte, logo pela manhã. Na sequência, como forma de fragilizar e intimidar as tropas luso-brasileiras o Coronel Henrique Van Hous, comandante Holandês, ordena que separe seus melhores militares e desloquem-se para os Engenhos do Meio e da Várzea com o objetivo de aprisionar esposas, filhas e mães dos líderes da insurreição pernambucana.

As tropas luso-brasileiras chegam momentos depois do aprisionamento no Engenho do Meio e ficam sabendo do ocorrido. Os líderes reorganizam as tropas e deslocam-se ainda do dia 16 de agosto para as imediações do Engenho de Anna Paes. Na manhã de 17 de Agosto, pegos de surpresa pela fúria dos pernambucanos, os holandeses se refugiaram na casa-grande colocando as mulheres nas janelas. No entendimento dos líderes luso-brasileiros esse seria um sinal de rendição e ordenaram que um militar fosse à frente para realizar o primeiro contato e fazer acertos da suposta rendição, quando de forma inesperada e covarde, o militar foi alvejado por vários disparos.

Diante de tal covardia, a tropa luso-brasileira abandona suas posições e ateia fogo na Casa Grande, cabendo a ANTÔNIO DIAS CARDOSO a concepção e o dispositivo de ataque ao Engenho de Anna Paes. Como resultado da ação toda tropa holandesa foi aprisionada. Houve algumas mortes e feridos por parte do efetivo Holandês e as mulheres aprisionadas foram libertas e encaminhadas para suas residências.

A derrota custou aos holandeses 37 mortos, muitos feridos e mais de 300 prisioneiros, além de grande quantidade de armamento, cavalos e víveres. A perda na tropa pernambucana foi pequena. Os prisioneiros holandeses foram enviados para a Bahia. O coronel Henrique Hous partiu da Bahia para Portugal no dia 6 de fevereiro de 1646, chegando a Ilha Terceira onde foi encarcerado no castelo de São João até a sua ida para Lisboa. Tendo se recusado a servir a Portugal, foi enviado para a Holanda. Regressou depois a Pernambuco e foi morto na primeira Batalha dos Guararapes, em abril de 1648.

A “Casa Grande” do Engenho de Anna Paes, exato local onde se travou  e foi  palco a Batalha de Casa Forte, continua viva na memória dos pernambucanos que a preserva com inusitado zelo memorialístico. A “Casa” que foi transformada em fortaleza pelas tropas holandesas, após a derrota no Monte das Tabocas, continua bem cuidada, onde hoje funciona o “Colégio Sagrada Família” na praça do antigo Engenho Casa Forte, atualmente “Praça de Casa Forte” venerável sítio histórico da Batalha de 17 de Agosto de 1645, a  Av 17 de Agosto e Bairro de Casa Forte. A data homenageia, através do nome da sua principal avenida, a  vitória das tropas patriotas contra o holandês invasor, dia este em que o Exército Patriota chegou para atacar  a “Casa Forte”, assim como o nome do Bairro.

CONCLUSÃO

Segundo Darcy Ribeiro[3] a fantasia de que a nossa trajetória para a formação da identidade brasileira tem sido fundamentalmente pacífica, marcada pelo relacionamento cordial entre agrupamentos étnicos e entre classes sociais, não resiste ao menor escrutínio histórico. Na verdade, a história da violência nos trópicos brasílicos começa já com os conflitos sangrentos entre aldeias indígenas. Com a chegada dos europeus, as guerras se intensificaram, inclusive com alianças entre franceses e tupiniquins, combatidas por alianças entre lusos e tupinambás. E o fato é que a história do Brasil apresenta inúmeros (e sérios) casos de confrontos armados. Os negros foram o inimigo número um do sistema escravista, ao contrário do que se costuma pensar. Promoveram um rosário de revoltas rurais e insurreições urbanas, através dos séculos de regime escravo. Palmares e as rebeliões dos malês são pontos incandescentes desse espírito de recusa do cativeiro. Mas tivemos também outros gêneros de movimentações armadas, como a Guerra dos Cabanos e a de Canudos, com os seguidores de Antônio Conselheiro enfrentando o exército brasileiro. O programa Invenção do Brasil vai se concentrar, exatamente, nesta dimensão bélica de nossa história, sendo assim, a Batalha de Casa Forte contribui para a criação da identidade na nacionalidade brasileiro, em especial a ideia de pertencimento local, onde os militares pernambucanos se vem, historicamente como herdeiros da tradição da Batalha de Casa Forte.

REFERÊNCIAS:

COSTA, Francisco Augusto Pereira da, and José Antônio Gonsalves de Mello. Arredores do Recife. Vol. 117. Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2001.

COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais pernambucanos. 2. ed. Recife: Fundarpe, 1983. v. 3. p. 230-233. (Coleção pernambucana, 2a. fase).

DE MELLO, José Antônio Gonsalves. Tempo dos flamengos: influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do norte do Brasil. Vol. 50. Instituto Nacional do Livro, Fundação Nacional Pró-Memória, 1987.

GUERRA, Flávio. Casa Forte. Revista do Conselho Estadual de Cultura, Recife, p. 77-80, [2000]. Edição especial.

VASCONCELLOS, Telma Bittencourt de. Dona Anna Paes.Recife: Edição do Autor, 2004. 208 p., Telma. Dona Anna Paes.


[1] Este trabalho tem como objetivo fazer uma investigação a respeito da ligação do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Recife (CPOR/R) com a batalha de Casa Forte, ocorrida em 17 de agosto 1645, identificando sua importância na preservação da História Pernambucana. Apresentado na disciplina História de Pernambuco, em 2018, ao Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

[2] Graduando em História na UFPE

[3] Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. Global Editora e Distribuidora Ltda, 2015.

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INDÚSTRIA DA SECA NO NORDESTE: INTERVENÇÕES E LUCROS[1]

RAQUEL BARRETO NASCIMENTO[2]

RESUMO: O texto desenvolvido a seguir tem por objetivo destacar características pertencentes ao Nordeste brasileiro, atentando para o fenômeno da seca – recorrente nesta região e alguns aspectos das produções culturais sobre este período. Nos debruçaremos sobre algumas políticas públicas oriundas do Estado, que visam amenizar os efeitos da seca na região semiárida do Nordeste. Em contrapartida, poderemos perceber que tais ações nem sempre são benéficas à população, atendendo apenas aos latifundiários da região, caracterizando o processo que será denominado “Indústria da seca”.

Palavras-chave: Nordeste, Intervenção, Indústria da seca, Estado.

1 – Introdução

Uma das problemáticas mais tocantes no que diz respeito à economia nordestina, são as secas que assolam a região periodicamente. As contribuições intelectuais acerca deste assunto – que trataremos a seguir – visam destacar os principais problemas econômicos, políticos e sociais gerados em decorrência das estiagens, atentando para as políticas públicas oriundas do Estado, que visam contornar estes problemas. Atentaremos para os resultados das alternativas propostas pelo Estado, quer sejam positivas ou negativas.

Nesta análise busco tratar o fenômeno da seca o dividindo em 4 aspectos que serão, mais a frente, tratados separadamente. São eles (1) a seca enquanto desastre natural, analisando os fatores climáticos que contribuem para a estiagem e para a criação dos açudes públicos (construídos a partir de investimentos do DNOCS[3] – que visam atender às necessidades básicas da população, (2) a seca como crise de produção, onde serão averiguados os setores prejudicados pela seca – como a criação de gado – e o modo como a população cria artifícios de subsistência frente a estas condições. Atentaremos também para uma análise da (3) seca como calamidade pública. Por fim nos voltaremos para (4) as políticas públicas oriundas do Estado que visam diminuir os impactos da seca no Nordeste. Além disto, me pauto em alguns aspectos da produção cultural que tem por objetivo retratar a realidade do povo sertanejo. Trabalharei com a figura de Luiz Gonzaga e sua composição “Vozes da seca”.

2 – Os efeitos da seca no Nordeste: ações estatais, migração, climatologia e lucros.

Antes de adentrarmos em uma análise de fato sobre os aspectos já mencionados, voltemos nosso olhar para a questão ligada ao povoamento da região nordestina e sobre a composição dessa massa populacional. De início, devemos pontuar que os sertões brasileiros passam a ser povoados a partir do Século XVII. Como pontua Severino Vicente da Silva (1986), este fora um povoamento ralo que, embora tenha produzido algo como a “civilização do couro”, não chegou a ocupar de fato os espaços de uma forma contínua e densa. Esta ocupação vem a ocorrer, ainda segundo o autor, após as invasões holandesas, devido a necessidade que se sentia na época de acabar com os Quilombos dos Palmares e com a Confederação do Cariri. Por outro lado, a ocupação efetiva das terras sertanejas só ocorrerá com a valorização do plantio de algodão – que passa a ocupar mais espaço em detrimento do plantio da cana-de-açúcar, que se voltava para o mercado externo.

Devido à situação de pobreza a qual está inserida a maior parte dos habitantes do Nordeste, a seca passa a atingir dimensões catastróficas, se transformando em uma calamidade pública. A pobreza da qual fazemos menção está diretamente ligada à falta de recursos a população deveria ter acesso, mas que em decorrência da má administração pública e da ambição de alguns grandes proprietários de terra, lhes são restritos. Sobretudo, a referida pobreza não diz respeito às produções artísticas e culturais de modo geral, como alguns lutam para fazer parecer.

Neste sentido, podemos perceber a vulnerabilidade desta população – principalmente rural, pois depende necessariamente de boas condições naturais para desenvolver suas atividades-, que sem outra alternativa, necessitam de auxílios emergenciais advindos do governo local para se manter, ou decide migrar para as áreas urbanas do próprio Nordeste ou para outras regiões do país, onde espera-se obter melhores condições de vida (DUARTE, 1999: 9). Como observamos adiante, nem sempre a migração proporciona melhores condições para tais.

As secas de 1977 – 1988 e 1988 – 1990 irão coincidir com o processo de valorização da borracha nos países industrializados. A seca então se torna uma facilitadora da migração para a região amazônica, onde se necessita de mão-de-obra para a extração da borracha das seringueiras, para atender as demandas do crescente mercado capitalista. (PINHEIRO, 1986: 31). Observando o estudo de caso proposto por Pinheiro, é possível perceber o processo de migração para diferentes áreas do próprio país, geralmente incentivadas pelo Estado, que por sua vez busca atender as demandas do mercado externo. O referido processo irá se repetir em diferentes momentos da história brasileira, sobretudo no Nordeste.

Ademais, as regiões semiáridas – que atingem oito dos nove estados nordestinos – são consideradas as localidades onde as precipitações não chegam a atingir as necessidades de crescimento da vegetação durante todo o ano. Destaquemos que estas áreas estão sujeitas à salinização e à sodidade dos solos e das águas, sejam profundas ou superficiais. Isto faz com que grande parte da região não esteja propícia para a irrigação, impossibilitando o plantio e o cultivo (COELHO, 1988: 67,90).

O Nordeste, caracterizado por seu clima semiárido, periodicamente é castigado pelas secas que, em maior ou menor intensidade assolam a região. O Estado cria políticas públicas que visem diminuir as consequências da estiagem, atuando na criação de açudes públicos e em programas de distribuição de água para a população – que necessita desse auxílio para subsistir. Retomando o debate acerca da construção dos açudes públicos, pontuamos que estas são obras voltadas para a região semiárida a fim de minimizar os impactos da seca.

A seca que atinge a região nordestina “pode caracterizar-se tanto pelo baixo nível da precipitação anual em relação à média de um ano de chuvas normais quanto pela sua distribuição irregular durante o período chuvoso – que dura de quatro a seis meses, entre janeiro e abril, ou maio, ou junho, dependendo da área – ou, como frequentemente acontece, as duas coisas. ” (DUARTE, 1999). No entanto, faz-se necessário pontuar que além da seca ser caracterizada como um desastre natural, constitui-se fundamentalmente em um problema social por ser utilizada por muitos com o propósito puro e simples de gerar lucros.

O que caracteriza esta região é a perda acentuada das águas na superfície através da evaporação. A conservação da água nestes açudes “depende tanto das características do reservatório (profundidade, extensão do espelho d’agua, impermeabilização do leito) quanto de elementos externos como a intensidade e distribuição das chuvas no período de seca e nos anos precedentes e, naturalmente, da quantidade de água retirada dos reservatórios” (DUARTE, 1999:16)

Algumas medidas para a manutenção da quantidade e qualidade das águas destes reservatórios são tomadas por parte do Estado. Podemos observar esta ação de forma clara nos açudes em regiões onde a ação da ANA[4] e do DNOCS são evidentes. No sentido de contornar os problemas gerados pela estiagem, a Agência Nacional de Águas  adota medidas regulatórias emergenciais. Estas medidas variam desde o controle da saída de água dos reservatórios à determinação de dias específicos para obtenção da água para recursos produtivos. Já em casos mais extremos, uma das medidas adotadas é a suspensão temporária do uso.

Salientemos ainda que outro problema notado nos açudes, além da própria redução no volume das águas, é justamente a qualidade desta, que pode vir a se tornar salobra[5] ou barrenta[6]. As atividades agropecuárias do semiárido nordestino dependem, em sua maioria, das chuvas. Em períodos de seca severa, nota-se grandes perdas nas safras e na criação de gado, resultando em enormes prejuízos para a produção nordestina, devido também a redução do PIB[7] da região. A grande maioria das famílias nordestinas praticam a agricultura de subsistência e por isso, quando as safras se perdem em decorrência das estiagens, são submetidas à precariedade.

Além dos efeitos devastadores dos fatores climáticos, as políticas públicas que visam contornar estes problemas, não são completamente eficientes, resultando muitas vezes no agravamento da situação – isto porque algumas destas políticas públicas favorecem apenas aos latifundiários, causando notável acentuação na hierarquização da região. Acrescido a outros, estes fatores corroboram para a necessidade de migração desta população para outras regiões, onde espera-se encontrar melhores condições de vida. Contudo, o Nordeste não pode ser caracterizado apenas pela desigualdade econômica a qual a população encontra-se imersa. Devemos atentar para a rica produção cultural e artística destes, como poderemos observar mais à frente. Mais à frente analisaremos aspectos da musicalidade nordestina que remontam às desigualdades sociais a qual nos referimos até então.

A pobreza da área rural nordestina “além de resultar das condições de posse da terra, é agravada pela instabilidade ocupacional representado pelo trabalho assalariado temporário” (DUARTE, 1999:23). Os efeitos da seca, sem dúvidas afetam de forma mais acentuada os pequenos proprietários e os trabalhadores sem terra, que constituem as camadas mais desfavorecidas da população rural.

Ainda devido a “heterogeneidade edafoclimática do semi-árido nordestino, não é possível estabelecer qual é a área ideal de uma propriedade que permita a uma família do semi-árido sobreviver aos impactos de uma grande seca (…) a reestruturação fundiária é, portanto, fundamental para a atenuação dos efeitos sociais da seca” (DUARTE, 1999:24)

Para fomentar nossa análise sobre as políticas públicas que têm por objetivo amenizar o efeito das secas no Nordeste, nos valemos de uma obra de fundamental importância para a temática, denominada “ A seca nordestina de 1998-1999: da crise econômica à calamidade social”, Escrita por Renato Duarte com publicação datada de Junho de 1999. A obra foi solicitada pela SUDENE[8] à Fundação Joaquim Nabuco.

O que nos vale, sobretudo, é destacar a ação das políticas públicas – de longo e curto prazo – no Nordeste atentando para como estas podem beneficiar a população mais carente ou os grandes proprietários de terra. Para Duarte a localização dos açudes e barragens geralmente obedeceu a critérios políticos ou de engenharia e não a determinantes sociais e agrônomos que contemplassem o uso da terra. Penso que este fator constitui em grande dificuldade para os pequenos e médios produtores rurais – que continuam dependentes do Estado e dos latifundiários e ainda que este desfavorecimento cria um “divisor de águas” entre as diferentes classes, ao passo que o mal planejamento da instalação destes açudes – e consequentemente a distribuição de água – inviabiliza o desenvolvimento autônomo dos pequenos proprietários, que ficam à mercê do grande produtor.

Duarte passa a discorrer, ainda nesta mesma obra, acerca da implementação de políticas à curto e longo prazo. As políticas de longo prazo são, neste sentido, as que visam longa durabilidade de suas ações, como a construção dos açudes, o perfuramento de poços e a criação de instituições que visam enfrentar o problema da seca a partir de projetos econômicos e agronômicos , como no caso da própria SUDENE (1959) e o Banco do Nordeste (1952). Tornando mais didática nossa apresentação do tema, destacamos as obras de transposição do Rio São Francisco, ou “Velho Chico”, como assim preferirmos.

Um dos mais importantes rios do Brasil, o São Francisco nasce em Minas Gerais, atravessando a Bahia, Pernambuco e dividindo os Estados de Sergipe e Alagoas. Mas além de sua extensa composição física, o rio é bastante relevante em seu sentido econômico. Por ser um rio perene, é capaz de proporcionar benefícios para a agricultura mediante a irrigação, além de sua importância fundamental na pesca e pecuária. Contudo, o que nos vale salientar é o desenvolvimento das regiões que entornam o Velho Chico.

O Governo Federal, em 2007, aplicou medidas para a transposição deste para que possa atingir o semiárido nordestino. As medidas preveem o desvio de cerca de 3% de suas águas para o abastecimento de rios temporários e açudes que não conseguem suprir as necessidades básicas da população em momentos de estiagem. Estas ações poderiam proporcionar o abastecimento constante de áreas secas, provocando aumento no setor agropecuário e de produção de bens de consumo. Contudo, a transposição do Rio São Francisco é um tema que acalora debates pontuáveis. Desde os prejuízos para o ecossistema que este feito poderia causar até a possibilidade de atenuar a fragilidade dos afluentes que jorram no Velho Chico, outro tema nos chama a atenção: a possibilidade iminente de que a transposição venha a beneficiar os latifundiários, uma vez que parte dos canais passam por suas fazendas. É preciso pensar até que ponto a transposição se transformaria em um feito positivo para a população e se esta, de fato receberia os benefícios que o São Francisco proporciona.

Retomando o debate sobre as políticas públicas, entendemos que as de curto prazo se dão através da abertura de frentes de trabalho, que visam atender a população carente, com efeito imediato. São caracterizadas como medidas emergenciais. Pontuamos que estas são necessárias, em muitos dos casos, devido ao insucesso das políticas de longo prazo.

O Nordeste – rica região em cultura e diversidade – fora palco das maiores decisões políticas do Brasil até o século XIX, quando este pólo se desloca para a região centro-sul – em especial São Paulo – em decorrência da instalação de indústrias mais sólidas do que a produção cafeeira nordestina propiciara. Este dinamismo da região Centro-Sul irá contribuir, entre outras, para a redução demográfica do Nordeste[9].

Contudo, observemos que as secas enfrentadas pela região nordestina também contribuem para esta diminuição do senso populacional, uma vez que provocam grande fragilidade na estrutura econômica regional, expulsando a população através dos processos de migração para outras áreas do país. É notório que apesar das obras de infraestrutura hídrica e as políticas públicas para a região nordestina, estas foram “incapazes de contribuir para a transformação da economia da aludida zona, especialmente em relação ao setor agrícola” (CARVALHO, 1988:15). Adiante poderemos observar os efeitos desastrosos provocados pela seca na agricultura.

3 – Estrutura socioeconômica do Nordeste e panorama geral das políticas públicas.

Para que possamos entender os efeitos da seca – mesmo que não em sua totalidade – nos setores políticos, econômicos e populacionais na região, faz-se necessário que analisemos a estrutura socioeconômica do próprio Nordeste, atentando para as políticas públicas de contenção dos efeitos da seca, analisando até que ponto estas foram – e continuam sendo – benéficas à população em geral ou a um pequeno grupo detentor de grandes porções territoriais e consequentemente dos meios de subsistência: os latifundiários. Para tal, atentemos para a agricultura nordestina – principal fonte de renda.

Ao longo do processo de formação das indústrias do Nordeste e em demais regiões do país, a agricultura exerce papel fundamental para tal, pois (a) supre a necessidade de matérias-primas que a indústria necessita, (b) oferece insumos alimentícios barateados que suprem as necessidades das forças trabalhadoras que movimentam a economia regional e  ao mesmo tempo, (c) a própria indústria possibilita a modernização da agricultura através do oferecimento de máquinas e equipamentos que esta necessita para o aumento de sua produtividade (CARVALHO, 1988).

A referida modernização pode vir a ser financiada pelo próprio Estado, pois a este interessa a produção acelerada dos bens de capital. Nas palavras de Otamar de Carvalho, “um maior grau de desenvolvimento agrícola e pecuário, nessas condições, significa o emprego produtivo em bases especificamente capitalistas, em função do qual as relações de produção já não constituem obstáculo para o desenvolvimento das forças produtoras” (CARVALHO, 1988:20). Como visto, esta modernização, portanto, dá-se a partir de bases capitalistas. Ainda mencionemos que em relação ao setor industrial, a agricultura no Nordeste tem se desenvolvido de forma lenta.

A seca constitui papel importante para o atraso econômico observado no Nordeste em relação às outras regiões do país. Estes fatos podemos perceber na fala de Otamar de Carvalho, quando pontua que “o estudo das diferentes manifestações das secas constitui passo decisivo e essencial para a investigação das reações determinantes do atraso econômico do Nordeste, e em particular da sua agricultura, notadamente quando se pretende estabelecer as relações causais sobre o lento avanço da agricultura irrigada na região” (CARVALHO, 1988:74).

4 – Produções culturais no Nordeste enquanto críticas à Indústria da Seca.

É preciso pontuar que ao contrário do que muitos acreditam e defendem, o Nordeste não é escasso em produção derivada de plantio, restando apenas grandes porções de terras incultiváveis e sem solução. Pelo contrário, o solo da região nordestina é rico em minerais e a população residente encontra meios de subsistir -  mantendo o gado e as plantações – frente às estiagens. O que a população nordestina precisa é de políticas públicas eficientes que visem o desenvolvimento autônomo da região e de seus residentes, como expresso na canção: “Vozes da Seca” de Luíz Gonzaga:

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão

Mas doutô uma esmola a um homem qui é são

Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão

É por isso que pidimo proteção a vosmicê

Home pur nóis escuído para as rédias do pudê

Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê

Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage

Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage

Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage

Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão

Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!

Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão

Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos.

Com base na musicalidade de algumas grandes figuras do nordeste, é possível compreender o cenário político, econômico e cultural da região. A escolha da referida canção de Luiz Gonzaga, um dos grandes nomes da música nordestina, dá-se pelo fato desta refletir o que buscamos analisar ao longo deste artigo: as políticas intervencionistas do Estado frente a seca enquanto fenômeno natural, enquanto crise de produção e enquanto calamidade pública.

A partir da análise de alguns versos da referida canção, notamos existência de uma visão pejorativa que as demais regiões brasileiras – e até o exterior – têm do Nordeste e de seu povo. Esta visão desconsidera o grande potencial produtor que possui a região, que pode ser considerada um dos motores da economia brasileira por produzir petróleo, ferro, exportar o cacau, açúcar, fumo etc.

Manuel Correia de Andrade, ao analisar a intervenção do Estado através de políticas públicas no Nordeste, pontua que esta região é conhecida “no exterior e nas áreas mais desenvolvidas do Brasil, como região superpovoada e a mais pobre do país. Aquela onde ocorrem periodicamente grandes secas “ (ANDRADE, 1986). Nisto notamos o grande desconhecimento por parte destes da realidade nordestina, uma vez que pensam só haver seca e grande estado de miséria.

Quando as secas se prolongam, os reservatórios secam, matando a plantação e parte do gado. É em referência a este período que Luiz Gonzaga rememora ao pedir auxílio dos governantes, expresso no trecho “É por isso que pidimo proteção a vosmicê. Home pur nóis escuído para as rédias do pudê (…) Dê serviço a nosso povo, encha o rio de barrage. Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage” de sua canção.

O caos[10] gerado nesse período requer a intervenção do Estado, por se tratar de um momento crítico para a economia da região. Precisamos analisar o papel do Estado neste sentido, entendendo, historicamente, a ação deste em momentos de seca. Manuel correia de Andrade realiza um elaborado estudo para tratar desta questão e nos valeremos de seus registros para nos aprofundarmos na temática.

“No período imperial (1822-89) a população sertaneja era a mais numerosa e as autoridades nacionais mais sensíveis aos seus reclames” pontua o referido autor. Destaquemos que neste período criaram-se planos de assistência a esta população, como a formação dos açudes e as expedições que visavam analisar o fenômeno da seca. É somente a partir de 1907 que se desenvolvem as obras de construção das barragens.

Porém, Manuel Correia de Andrade aponta que os verdadeiros beneficiários das ações estatais foram os grandes proprietários de terra por não haver políticas de caráter social que visassem o desenvolvimento autônomo da população, nem poder político suficiente para desapropriar esses latifundiários antes da construção dos açudes. A própria criação das rodovias, que visavam ligar o litoral ao sertão, não solucionou os problemas da seca, apenas tinha caráter de auxílio em momentos de extrema crise.

São notórias as diversas crises emergenciais que atingiram a região nordestina em decorrência das secas. O que nos chama atenção são as diversas tentativas, ineficazes, de solucionar estes problemas. O que acontece, sobretudo, é a falta de políticas públicas em períodos chuvosos, onde o Nordeste mostra seu potencial produtivo. O que acontece de fato é que os investimentos do Estado só se direcionam para o sertão em épocas de seca – muitas vezes de forma reduzida -, não sendo suficientes para barrar os seus catastróficos efeitos. Este ciclo irá gerar o que Manuel Correia denomina de “Indústria da Seca”, uma vez que os latifundiários lucram com a escassez de recursos direcionados a massa populacional.

Referências Bibliográficas

DUARTE, Renato. A seca nordestina de 1998-1999: da crise econômica a calamidade social. Recife: [s.n.], 1999.

MEIRA, Olyntho José. As secas do nordeste, suas causas e remédios. Rio Grande do Norte. Fundação Guimarães Duque, 1982.

CARVALHO, Otamar de. A economia política do nordeste: secas, irrigação e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/entenda-a-transposicao-do-rio-sao-francisco/


[1] Artigo para a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, 2018.

[2] Graduanda em História pela Universidade Federal de Pernambuco

[3] Departamento nacional de obras contra as secas

[4] Agência Nacional de Águas

[5] Água que perde sua qualidade por tornar-se mais salgada que doce. Este fenômeno ocorre devido a evontranspiração

[6] Ocorre devido ao assoreamento do leito

[7] Produto Interno Bruto

[8] Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste

[9] De acordo com o primeiro censo demográfico no Brasil (1872), a população nordestina correspondia a 46,7% do total do contingente populacional do país. Em 1980, este contingente só chega a atingir 29,2%

da população brasileira total. Dados analisados na obra “A econômia política do Nordeste: Secas, irrigação e desenvolvimento” escrita por Otamar de Carvalho, 1988.

[10] O caos a qual nos referimos se instala em decorrência do abandono de terras, animais e objetos que não podem ser transportados, em períodos de migração. Além disso, a concentração de flagelados desestabiliza a economia regional, levando ao empobrecimento das famílias e causando problemas de segurança e salubridade.

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 06 jul 2018 @ 09 16 AM

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02 de dezembro de 1870



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