03 jul 2015 @ 12:58 AM 

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

CFCH

A IDADE MODERNA E O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Aluna: Isabella Puente de Andrade

Professor: Severino Vicente

Data: 17/06/2015

Recife

2015

Sumário

INTRODUÇÃO.. 3

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS. 4

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01. 7

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS. 10

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO.. 13

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 15

VI. BIBLIOGRAFIA.. 16

INTRODUÇÃO

A Idade moderna e o Processo Civilizatório foi uma disciplina onde houveram muitas novidades a cada leitura. A maior delas, e também o escopo desses estudos, é o aprofundamento do sociólogo Norbert Elias, que raramente é trabalhado em outras disciplinas.

Os historiadores estão sempre abertos às diversas ferramentas do conhecimento, para melhor compreender os processos históricos. Segundo o Professor Severino Vicente citou em sala um pensamento recorrente nos historiadores dos Annales, o bom historiador também deve estudar Psicologia, Geografia, Sociologia, amplamente apto à interdisciplinaridade para construir sua narrativa como historiador. Assim, devido à sua capacidade de traçar paralelos com tamanha eloquência entre as diversas áreas do conhecimento, Norbert Elias vem ensinando a trabalhar melhor com a conexão de diferentes disciplinas.

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS

Logo na primeira leitura, de autoria de Philippe Salvadori e organização de Véronique Sales, foi possível compreender a importância e peculiaridade desse sociólogo. A primeira frase, pois, que inicia o capítulo referente a Elias, do livro Os Historiadores, já traz a indagação “Norbert Elias historiador? Ele próprio se considerava sociólogo, ensinou e teorizou a Sociologia” (SALVADORI, 2011, p.139); reafirmando a necessidade de aprofundar sua obra, e entender porque é tão importante para os historiadores. E é como afirma Salvadori, onde a peculiaridade de Elias encontra-se na maneira de estudar a vida na corte real, retratada em A sociedade de corte, A civilização dos costumes e A dinâmica do Ocidente – livros que podem se passar por obra de historiador.

O meio acadêmico brasileiro sempre reverenciou o sociólogo Max Weber, desde o colégio até dentro da Universidade. Sua chama se colocou tão acesa que tomou para si quase toda a luminosidade da sociologia contemporânea, no meio educacional. Ou melhor, tão acesa que fez-se ofuscar outras fortes chamas, que por muito tempo permaneceram apenas como faísca. Tanto no meio acadêmico, como na própria vida de Norbert Elias, sua glória foi tardia, muito pela “grande sombra do sociólogo Max Weber”[1]. Apesar de muito ser influenciado por este, Elias afasta-se de sua grande teoria sobre os condicionamentos espirituais da vida material.

Um crítico de Marx e, portanto, mal visto por muitos historiadores marxistas (talvez por isso não seja tão trabalhado na academia), Elias decide por abordar a “sociedade de corte” sem o modo anedótico que fora sempre tratada, e sim como papel central na construção do Estado absolutista[2]. A originalidade do sociólogo em tratar não em termos de economia do consumo, mas de uma antropologia cultural do homem de corte faz da economia apenas um, dentre muitos outros, aspectos para compreender aquela sociedade.

Seguindo pela trajetória de vida bem peculiar tomada por Norbert Elias, entre os polêmicos cenários de Primeira e Segunda Guerra, é de destaque o momento em que é citado rapidamente por Salvadori sua vivência na Universidade de Gana[3]. Apesar do nacionalismo pulsante em suas veias, a arte africana, como aponta o autor, “falou mais diretamente às emoções de Elias que a arte originada na Renascença” (SALVADORI, 2011, p.144). Para a sombra eurocêntrica que rondava tantos intelectuais, é muito interessante que Elias apresentasse esse fascínio na África, continente o qual merece um estudo aprofundado, podendo assim trazer a devida visibilidade.

Apesar de ter suas principais obras, como reitera Salvadori, passando-se por trabalhos de historiador, Elias não era muito terno com esse ofício. Critica, pois, o fato do historiador acreditar-se dispensado de teorizar, cabendo ao sociólogo o papel de tirar a narrativa histórica da subjetividade[4]. Ora, sua crítica era muito bem vinda ao novo panorama que surgia entre os historiadores franceses entre 1920-1930. Assim como Elias, Marc Bloch e Lucien Febvre davam início ao advento de uma Nova História, menos um “arquipélago de fatos e de datas” e mais uma ciência aprofundada e teorizada.

Nesse capítulo de Philippe Salvadori dedicado a Norbert Elias, foi também possível ter um breve gosto de sua abordagem em A sociedade de corte. Como captado nas discussões em sala, os comportamentos dessa sociedade são transmitidos através de um processo informal, por meio do convívio, do olhar. O escopo da análise dessa estrutura de aparências dá-se, para Elias, na concorrência por prestígio entre os cortesãos. Esse tal “fetiche do prestígio”[5], disputado entre a nobreza de toga e a burguesia ascendente, restringia a vida dos integrantes do mundo cortês, os quais detestavam a etiqueta mas para atingir seus interesses era impossível separar-se dela.

Outro ponto importante para compreender a análise de Elias da sociedade de corte é a interdependência existente nas classes. Tomando como exemplo o Rei Sol na corte francesa, Luís XIV, “por mais poderoso que seja o soberano, ele é resultante das forças opostas que dão forma a seu poder” (SALVADORI, 2011, p.149). Elias não recusa a luta de classes, contudo reconhece o simplismo da imagem de um mero enfrentamento entre nobreza e burguesia, onde a corte, na verdade, produz súditos iguais na dependência e apenas hierarquizados no favor.

Elias não abandona seu interesse por uma psicologia histórica. A recorrente atenção ao “hábito” demonstra sua pretensão em explicar a formação psicológica dos indivíduos, a partir do processo histórico e das configurações sociais. Sua análise, de grande sucesso historiográfico na década de 1980, foi referência para intelectuais como Pierre Bordieu, Roger Chartier, Georges Vigarello, Stephen Mennell, Hubert Ch. Ehalt[6].

Porém, não tardou para que sua obra fosse alvo de contundentes críticas, como as feitas por Daniel Gordon e Jeroen Duidam.[7] O primeiro atenua a dimensão estratégica das boas maneiras, acusando Elias de negligenciar uma sociabilidade literária, assim como negligenciara os estabelecimentos de educação na difusão dos novos comportamentos. Mas, como citado anteriormente, ao discutir em sala chegamos à conclusão de como é importante salientar a transmissão dos comportamentos cortesãos através do convívio, do processo informal. Jeroen Duidam, por outro lado, aponta o risco que Elias corre ao se apoiar em pesquisas históricas obsoletas, entendendo ser problemático o laço do sociólogo entre curialização e civilização. Segundo Salvadori, a ausência do fator religioso também revela uma lacuna em sua análise. Sem, no entanto, deixar de ressaltar que a obra de Norbert Elias é de suma contribuição historiográfica e, apesar das críticas, um clássico.

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01

Foi estudado em sala a primeira parte da obra O processo Civilizador, e muitas informações inéditas surgiram. Visando tratar da sociogênese da diferença entre “kultur” e zivilisation” no emprego alemão, Norbert Elias embasa sua reflexão acerca da história dos costumes no Ocidente.

A concepção do conceito de civilização possuía um certo “lugar comum” ao ser estudada. Elias, contudo, destrincha esse conceito com a definição devidamente adequada para o termo, sendo civilização “a consciência que o Ocidente tem de si mesmo (…) ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou as sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’” (ELIAS, 1939, p.23).

Embora o conceito de “civilização” seja vigorado com imo nos costumes do Ocidente, Alemanha e França, ambas nações europeias e ocidentais, possuem diferente conceito para tomar esse significado. A ideia de “kultur” na sociedade alemã alude em primazia a fatos intelectuais, artísticos e religiosos. Enquanto “civilização” descreve um processo que está em movimento constante, “kultur” delimita, ao expressar a individualidade de um povo a partir de suas produções humanas[8]. O conceito de civilização, segundo Elias, enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou o que deveria sê-lo – na opinião dos que o possuem.

Foi novo abordar não o conceito de civilização, mas seu destrinchar tão claro feito por Elias. Seu poder de síntese em: “por mais diferente que seja a auto-imagem dos alemães, que falam com orgulho de sua kultur, e a de franceses e ingleses, que pensam com orgulho em sua ‘civilização’, todos consideram axiomático que a sua é a maneira como o mundo dos homens, como um todo, quer ser visto e julgado” (ELIAS, 1939, p.24), aproxima os dois conceitos por um breve momento, ainda que priorize suas origens de um conjunto de situações históricas distintas.

Desde a infância, como afirma Elias, é ensinado a ver o mundo sobre a lente desses conceitos. E, da mesma forma, com toda a produção intelectual e identidade nacional alemã, uma das maiores novidades na obra de Elias, de suma relevância histórica, encontra-se aqui: a corte alemã do século XVII e ainda no XVIII à sombra da civilização francesa. Quase como um choque. Tamanha é a naturalidade com a qual se absorve a afirmação intelectual alemã, que é difícil imaginar que apenas há três séculos atrás esta encontrava-se ainda tão pouco autêntica. A opção da burguesia pela valorização da língua alemã, pela produção própria daquela nação fragmentada, é justamente o que contrasta com a predominância da língua e costumes franceses na corte.

Ao tratar de exemplos de atitudes de corte na Alemanha, o autor destaca a situação alemã no século XVII, ainda não-unificada, com o comércio em declínio, pós Guerra dos Trinta Anos[9]. Com poucos recursos para luxos como literatura e arte, as cortes alemães, quando mais abastadas, imitavam a conduta da corte de Luís XIV e falavam francês. Elias cita Leibniz como o único grande alemão dessa época, que, apesar de intelectual, raramente utilizava o idioma nativo, apropriando-se da escrita e fala francesa ou latina. Como expressão desse enaltecimento às cortes da França, convém citar a frase da noiva de Gottsched, escrita em 1730: “Nada é mais plebeu do que escrever cartas em alemão”[10]. E, de fato, a corte falava francês, mas o povo falava alemão, cujo era visto pejorativamente por seu aspecto bárbaro. Até o próprio Frederico, o Grande, lamenta a rudeza de sua língua-mãe[11], assim como o escasso e insuficiente desenvolvimento da literatura alemã. Frederico vivia entre o paradoxo de uma política prussiana e uma tradição estética francesa, com sucessos militares e políticos que acendiam a autoconsciência alemã, porém sua atitude em questão de língua e gosto eram reverentes aos costumes franceses.

A pequena burguesia intelectual, contudo, num curto espaço de tempo que compreendia a segunda metade do século XVIII, passaria a ganhar espaço e visibilidade. Figuras como Immanuel Kant e Goethe já são exaustivamente inclusos na  formação de praxe, como grandes exemplos de intelectuais alemães dessa época. Mas Norbert Elias traz também intelectuais notáveis como Schiler, Lessing, Herder e Sophie de la Roche[12], os quais foram imprescindíveis para a ascensão da intelectualidade alemã que se afirmava.

Uma marca saliente na nobreza da corte era o controle dos sentimentos individuais pela razão, o comportamento reservado e a eliminação de todas as expressões plebeias. Em contrapartida, a burguesia, cada vez mais próspera, deleita-se com sua própria exuberância de sentimentos, exaltando a rendição às emoções do coração. Esta classe média tinha como representantes mais importantes da intelligentsia administrativa o clérigo e o professor, com expoente na universidade alemã em contrapeso com a corte. Segundo Elias: “por um lado, a superficialidade, cerimônia, conversas formais; por outro, vida interior, profundidade de sentimento, absorção em livros, desenvolvimento de personalidade individual” (ELIAS, 1939, p.37).

Norbert Elias demonstra a contemporaneidade dos conceitos de “civilização” e “kultur”, onde atribui-se para cada um padrão de indivíduo. Esses termos acabaram por assumir um estereótipo do francês, inglês e alemão, expresso em vários excertos como o de Nieztsche, com ironia, “o alemão adora a ‘sinceridade’ e a ‘integridade’” ou o de Fontane sobre a Inglaterra “o alemão vive para viver, o inglês para representar. O alemão vive para si mesmo, o inglês vive para os outros.”[13].

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS

“Os Estabelecidos e os Outsiders” é a obra de Norbert Elias capaz de expandir desmedidamente os horizontes. O sociólogo analisa a pequena comunidade de Winston Parva, localizada na Inglaterra, como modelo para uma teoria que se estende para a análise dos mais diversos espaços, das mais variadas sociedades.

Apresentando a edição brasileira da obra, o Doutor em Antropologia social e Professor da UFRJ Federico Neiburg traz uma profícua conceituação dos termos “establishment”, “established” e “outsider”. Originados na língua inglesa, esses conceitos são utilizados para “designar grupos e indivíduos que ocupam posições de prestígio e poder. Um establishment é um grupo que se autopercebe e que é reconhecido como uma ‘boa sociedade’, mais poderosa e melhor, uma identidade social construída a partir de uma combinação singular de tradição, autoridade e influência: os established fundam o seu poder no fato de serem um modelo moral para os outros. (…) Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da ‘boa sociedade’, os que estão fora dela” (NEIBURG, 2000, p.7).

Ainda a partir da apresentação de Federico Neiburg, um aspecto saliente na teoria de Elias é o afastamento da análise das relações de poder meramente através do conceito marxista de luta de classes. Como aponta Neiburg acerca da obra em questão, mesmo sendo Winston Parva uma comunidade relativamente homogênea, por apresentar semelhantes índices de renda e educação, não era essa a percepção daqueles que ali moravam.[14] Para os habitantes, era muito claro como dividiam-se os moradores em estabelecidos e outsiders, em que “Os primeiros fundavam a sua distinção e o seu poder em um princípio de antiguidade: moravam em Winston Parva muito antes do que os outros, encarnando os valores da tradição e da boa sociedade. Os outros viviam estigmatizados por todos os atributos associados com a anomia, como a delinquência, a violência e a desintegração” (NEIBURG, 2000, p.7). Dessa forma, Norbert Elias, juntamente a John Scotson, elabora um estudo capaz de esclarecer processos sociais de alcance geral na sociedade humana, com um inédito olhar da construção das desigualdades sociais.

O índice de delinquência mais elevado em um dos bairros da comunidade de Winston Parva foi o ponto de partida de Norbert e Scotson para a pesquisa[15]. O decorrer do estudo, no entanto, acaba por tomar um novo rumo, quando tal índice elevado de delinquência passa a cair. Elias e Scotson percebem o estigma dos antigos habitantes de que a zona dos habitantes mais recentes possuía mais delinquência. Assim, o problema é examinado muito além dos “casos elevados de delinquência”, em que a problemática geral estava nas relações entre as diferentes zonas de uma mesma comunidade.

Para tratar de “Os Estabelecidos e os Outsiders” foram abordados alguns tópicos em sala de aula para dinamizar a fixação do conteúdo. Entre eles, é profícuo ratificar a discussão feita sobre a crítica de Norbert Elias a Sigmund Freud[16]. Apesar de reconhecer a grande contribuição do psicanalista para a compreensão dos processos coletivos, Elias critica o fato de Freud definir o homem como um indivíduo isolado. A crença freudiana de que todo o homem é uma unidade fechada em si mesma – um homo clausus – perturba o sociólogo que, diferentemente da ótica do ser humano como indivíduo enclausurado em sua construção na infância, preza pela imagem do nós e do ideal de nós. Ou seja, as funções de autocontrole do indivíduo[17], para Elias, relacionam-se também com processos grupais que toda pessoa continua envolvida, não só na infância.

A imagem do “nós” que foge ao horizonte de Freud é, para Elias, essencial na percepção dos grupos estabelecidos. O amor-próprio coletivo é mantido através do reconhecimento auto engrandecedor desses grupos, inaptos a reconhecer o detrimento de sua posição independente em prol da interdependência inevitável que passa a existir entre esses e os recente chegados outsiders.

A mudança para uma dinâmica correlacionada com os que estão fora do establishment, em que nota-se o fraquejo da posição estabelecida costuma ser traumática. Contudo, antes passando pela crença dos estabelecidos em seu carisma e especialidade, agindo “como um escudo imaginário que as impede de sentir essa mudança e, por conseguinte, de conseguir ajustar-se às novas condições de sua imagem e sua estratégia grupais” (ELIAS, 1990, p.45). Dessa forma, fica claro para o sociólogo o quão irrealistas são as percepções de auto grandeza dos grupos estabelecidos, visto que se desfazem com as mudanças correntes.

Nesse complexo ensaio teórico de Elias, compreender como a imagem do nós se configura para o caráter “superior” dos estabelecidos é crucial. As fronteiras que são traçadas para distinguir grupos que se referem como “nós” e grupos que se referem como “eles” são construídas através de um dos recursos clássicos dos establishments sob pressão. Assim como o exemplo esmiuçado sobre as castas-párias indianas[18], a boa sociedade consiste em reforçar as restrições que seus membros impõem a si mesmos e ao grupo dominado mais amplo.[19]

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO

Em “Mozart – Sociologia de um gênio”, Norbert Elias traça uma íntima biografia sociológica da vida do gênio musical Wolfgang Amadeus Mozart. Desta obra, o foco foi no capítulo “A juventude de Mozart”, onde Elias esmiúça a parte da vida do músico que capta o cerne de sua mais preciosa teoria: Mozart era um outsider nas cortes as quais tentava se colocar.

Para a compreensão do momento juvenil da vida de Wolfgang Mozart, é imprescindível tomar conhecimento de uma das figuras mais importantes na vida do jovem, seu pai Leopold Mozart. Um servidor burguês no mundo da corte de Salzburgo, encontrava-se numa posição inferior inescapável, de um mero serviçal limitado por sua classe.[20] Assim, confiando no filho prodígio e ansioso por conseguir uma corte para Wolfgang que fosse diferente da de Salzburgo, maior mais bem situada, Leopold faz da vida do filho uma série de frequentes viagens com o intuito de que fosse reconhecido o seu virtuosismo. A necessidade de alcançar uma renda que superasse as despesas da família Mozart fez o jovem ser alertado da prioridade em ganhar dinheiro com sua música[21], que apesar de tamanha genialidade, encontrou sólidas barreiras entre os estabelecidos.

Norbert Elias configura os tais estabelecidos na aristocracia da corte, que enquanto classe ociosa, era típico desta exigir um completo programa de entretenimento. O gosto nas artes era ditado pelo consenso dos poderosos, os quais priorizavam uma variedade nas músicas tocadas a seu cortejo. A música, tendo que se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos[22], tinha como função primária o intuito de agradar os senhores e senhoras das classes dominantes. É incrível o entrelaçamento dos conceitos trabalhados em sala, visto que o que Mozart sofre constantemente é o processo civilizador ao qual está submetido.

A genialidade de Mozart encontrava seu reconhecimento subordinado aos padrões e etiquetas da sociedade de corte. Grande parte dos conhecidos do músico logo perdia o interesse por suas apresentações, ficando tediosa após algum tempo para a aristocracia detentora do “gosto nas artes”,[23] em que a maioria prezava por se divertir, apesar de haver uma parte da corte amante da boa música.

Revelando seu olhar de sociólogo, Elias analisa que o fato de Mozart não conseguir se colocar numa corte não estava ligado apenas à vil percepção da genialidade do músico pela aristocracia. Um homem tão jovem com aspirações tão altas acabava por assustar os responsáveis pela distribuição de cargos. Ainda agregando-se à personalidade de Mozart, longínqua da polidez social de Rosseau[24], habituado a dizer francamente o que sentia e pensava. Este possivelmente fora uma das grandes razões para seu insucesso de se estabelecer numa corte.

A dependência que Wolfgang Mozart possuía de seu pai certamente refletiu em muitos aspectos de sua vida. Elias aborda que o isolamento de Mozart em muito se deve às constantes mediações do pai[25], em sua juventude, que o fizeram nutrir cada vez mais sentimentos agressivos pela classe dominante da época. A não-identificação do gênio com o establishment aristocrático[26] relacionava-se ao seu almejo de ser reconhecido como músico e não pelo título, diferentemente dos anseios de seu pai.

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como essência de seu pensamento, Elias trouxe novos conceitos com os quais se faz possível trabalhar nos mais diversos espaços da sociedade, quanto ao estudo das relações de poder. Encaixando a teoria dos “estabelecidos e outsiders” tanto no século XIX como nesse século. Tanto na vida do músico alemão Wolfgang Mozart como na de um brasileiro qualquer, que também se enquadrasse como outsider. Os ditames do processo civilizador e seus efeitos são trabalhados pelo sociólogo de modo a encontrar uma teoria tão geral e bem fundamentada quanto cada uma das obras trabalhadas nessa disciplina.

VI. BIBLIOGRAFIA

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990.

ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011.


[1] SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011. p.141

[2] Idem. p.143

[3] Idem. p.144

[4] Idem. p.145-146

[5] Idem. p.147-148

[6] Idem. p.155

[7] Idem. p.157-158

[8] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990. p.24

[9] Idem. p.29

[10] Idem. p.30

[11] Frederico, o Grande, apesar de seu tamanho afeto e luta pela prosperidade da fragmentada Alemanha, disse sobre a sua língua nativa “Considero-a uma língua semibárbara, que se fraciona em tantos dialetos diferentes como a Alemanha tem províncias. Cada grupo local está convencido que seu patois é o melhor”. Idem. p.31

[12] Schiller foi autor de Die Rauber (Os Bandidos), em 1781. Lessing foi autor de Laokoon (Laocoonte), em 1776, e Die Hamburgische Dramaturgie (Dramaturgia de Hamburgo), em 1767. Herder escreveu as peças Sturm und Drang. Sophie de la Roche foi autora da série de romances Das Fräulein von Sternheim.

[13] Idem. p.49

[14] ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. p.7

[15] Idem. p.15

[16] Idem. p.41-42

[17] As funções de autocontrole do indivíduo, conceituadas por Freud, são o “eu” e o “super eu”. Essas seriam influenciáveis por certos aspectos da vida do ser humano, como os processos grupais de pai-mãe-filho, determinantes para a formação do homem logo na infância. Para Elias, porém, as funções de autocontrole eram também dependentes de outros processos grupais que toda pessoa é envolvida, da infância à velhice.

[18] Elias, ao discutir como nasce essa noção de “nós” e “eles”, traz o exemplo dos brâmanes e das castas-párias indianas. Faz-se necessário pô-las numa sequência temporal e contexto histórico que aprofunde a reflexão, para entender as fronteiras estabelecidas no establishment.

[19] Idem. p.46-47

[20] ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. p.86-87

[21] Idem. p.88

[22] Idem. p.89

[23] Idem. p.90

[24] Norbert Elias faz uma comparação entre a forma de Rosseau e Mozart de lidar com a corte aristocrata, ambos vindo da pequena burguesia. Enquanto Rosseau apresentava uma certa habilidade em manobrar as caricaturas sociais e agradar a aristocracia adequando-se ao processo civilizador, Mozart era um legítimo outsider, sem possuir tal dom de mascarar as emoções.

[25] Idem. p.97

[26] Idem. p.102

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 03 jul 2015 @ 12 58 AM

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AS CONTRIBUIÇÕES DAS OBRAS DE NORBERT ELIAS PARA ESTUDO DA SOCIEDADE MODERNA

*Bianca Cruz dos Anjos

RESUMO

Este artigo foi solicitado pelo professor Severino Vicente para a disciplina A Idade Moderna e O Processo Civilizador (Uma Leitura de Norbert Elias) e visa discutir as contribuições das obras de Norbert Elias para compreender a forma como as transformações sociais ocorrem ao longo da evolução humana, quais são os fatores internos e externos que constituem as relações entre o indivíduo e a esfera coletiva. Embora, as obras desse autor descrevam o processo de formação da sociedade moderna, observa-se que suas concepções transpõem a temporalidade que se aplica no seu estudo, os conceitos e ideias trabalhadas podem ser analisados na contemporaneidade, isso nos faz refletir a respeito de nossos próprios hábitos e costumes. Desse modo, as obras de Norbert Elias ressaltam que não há um projeto civilizador em cada nação, mas os atos singulares de cada indivíduo se somam a outras ações, resultando em uma rede relações, na qual se fazem presente os fatores psicológicos e sociais na construção da interindependência social.

PALAVRAS-CHAVE: Civilização, Comportamento, Norbert Elias, Psicogênese, Sociogênese.

INTRODUÇÃO

As obras de Norbert Elias apresentam como um material denso e rico que permite o surgimento de novas perspectivas e indagações acerca do processo e formação da sociedade ao longo da evolução humana, imprescindíveis para o conhecimento histórico e para concatenação de inúmeras reflexões acerca da sociedade em diferentes temporalidades.

Os aportes teóricos e metodológicos adotados pelo autor mostram a amplitude de fontes utilizadas em seus estudos, como também, ressalta a problematização dos dados colhidos em uma pesquisa, pois um estudo não se faz apenas com números, são pistas para trilhar as indagações acerca de uma concepção, os dados fundamentam e estruturam as ideias. Nessa linha de pensamento, observa-se o uso da interdisciplinaridade como uma ferramenta de amplitude dos horizontes de conhecimentos, não só do autor, como do leitor, o trabalho com abordagens Psicológicas sobre o desenvolvimento da civilização nos mostra que, embora pareça que os seres humanos sejam civilizados por natureza, nós possuímos uma disposição natural para nos adaptar, transformar e construir ao ambiente ao nosso redor, sobretudo, nossas relações em sociedade, de acordo com as circunstâncias externas e internas, logo, percebemos que a evolução humana trilhou o caminho da auto regulação individual de instintos do comportamento, frente às relações coletivas, o resultado disso será a interindependência social trabalhada pelo autor em suas obras, a sociedade é uma construção de laços coletivos, mas que se originam da singularidade de cada individuo na tentativa de construir um ambiente no qual todos exerçam uma função e siga determinadas regras de civilização.

Norbert Elias nos mostra que uma sociedade embora possua suas singularidades históricas e culturais, ela é fruto de uma rede relações com outras sociedades, além disso, a sua proposta de observar os processos de desenvolvimento e transformações sociais sob o ângulo da longa duração corrobora o fato de que não há rupturas bruscas no tempo, os valores e os hábitos não surgem e acabam do nada, a sociedade demonstra uma frenética dinâmica, mas a consolidação de valores e costumes é trilhada gradualmente sem que a gente perceba.

Dessa maneira, o conceito e o significado da palavra “civilização” não pressupõe sociedades modelos, com destinos sociais uniformes, com mentalidades comuns e específicas a um determinado período da história humana, Norbert Elias discute abertamente em suas obras que a sociedade se constrói na heterogeneidade de crenças e costumes, posto isso, a civilização se forma em termo de identidade, pertencimento a grupos ou a situações sociais concretas.

Dados biográficos

Norbert Elias nasceu em Breslau, 22 de junho de 1897, e veio a falecer em 1990, nos Países Baixos, onde passou a fase final da sua vida. Por ser de família judaica teve que fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França, se estabeleceu na Inglaterra onde passou grande parte de sua carreira.

Quanto à vida acadêmica de Norbert Elias, posso dizer que foi árdua e preenchida de obstáculos, pois seus trabalhos foram reconhecidos tardiamente, para explicar esse fato irei utilizar as circunstâncias sociais da época e o pensamento teórico e científico vigente na sua época. Seus trabalhos em alemão tardaram a ser reconhecidos e sofreram muitas críticas. Sua formação teve base nas áreas da Medicina, Filosofia, Psicologia e Sociologia, lecionou na Universidade de Heidelberg (1924-29) e na Universidade de Frankfurt (1939-33), onde teve Karl Mannheim por colega, mas foi na Universidade de Leiocester (1954-1962) que obteve seu primeiro posto de professor, ganhou também o Prêmio Adorno e se tornou doutor honoris causa da Universidade de Bielefeld.

Em linhas gerais, suas obras focam a relação entre poder, comportamento, emoção e conhecimento na História. Devido a circunstâncias históricas, Elias permaneceu durante um longo período como um autor à margem das regras epistemológicas de diversas ciências, tendo sido redescoberto por uma nova geração de teóricos nos anos 70, quando se tornou um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos.

Reflexões sobre as obras de Norbert Elias vistas em sala

Quando nos indagamos à respeito da questão do termo civilização e seu significado[1], levamos em conta o caráter ocidental, isto é, uma sociedade permeada pelo avanço da tecnologia, desenvolvimento científicos, as ideias religiosas e os tipos de costumes. É muito comum analisarmos a cultura e os processos políticos que regem outras sociedades através de um ângulo europeu, encontramos isso no nosso cotidiano quando nos referimos  aos conceitos, “sociedade oriental”  e “sociedade oriental” essa ideia não deve ser pensada pela dualidade geográfica e histórica, pois devemos analisar também os aspectos psicológicos e funcionais que cada grupo social constrói, nesse bojo de observações críticas à respeito das divisões e funções sociais de cada grupo conseguimos adentrar nos primeiros princípios adotados por Norbert Elias para se estudar as sociedades européias, são eles: a Psicogênese e a Sociogênese, que se somam a demais aspectos encontrados no processo de civilização, como a importância da cultura para formação de uma identidade, o uso do poder proveniente do acúmulo de bens ou até mesmo de conhecimento, são fatores relevantes na construção da postura de grupo, discutindo também sobre o autocontrole delineado por funções conscientes e inconscientes na evolução humana.

Diante da explanação desses aspectos que permeiam as principais concepções de Norbert Elias, considero fundamental analisar a civilização como um processo, isso dá nome a uma das obras do autor estudado, O Processo Civilizador, uma obra com teor extremamente interdisciplinar que conjuga abordagens que podem ser utilizadas para as observações da sociedade contemporânea, isso mostra o quanto o autor é importante para ser estudado em disciplinas que visam entender como uma sociedade se articula, como e quais são as regras seguidas pelos indivíduos, o que permeou as expressões e experiências sociais que originam uma nação.

Essa obra contém profundas reflexões acerca da construção da sociedade, definindo o conceito “civilização”, Elias procura desvendar e investigar a formação de cada regra de conduta e comportamento dos grupos sociais, nesse panorama de pesquisa o autor vai aplicar seus métodos, um deles é o estudo particular de um caso, por meio da visão microssocial do fato, ele vai trilhar os meandros sociológicos, notificando os aspectos culturais, até chegar a uma totalidade, ou seja, uma visão macrossocial  formada por cada ponto particular do seu estudo, resultando em um novelo de conhecimentos e acontecimentos que se relacionam entre si.

Somado ao uso da longa duração para compreender a construção da sociedade, há a demarcação do tempo e do espaço, o autor tem um faro de historiador, pois problematiza e concatena os acontecimentos para uma melhor compreensão do leitor, deixando claro que a individualização não se isola do contexto coletivo, na verdade, Elias acredita na ideia de interindependência entre as relações sociais, como um fator primordial para o processo de civilização. Dessa maneira, analisando o método elisiano, a Sociologia trabalha com modelos de sociedade, procurando compreender melhor a dinâmica social, isso não implica dizer que não há transformações na ordem e na estrutura do desenvolvimento de cada sociedade, ela não está em repouso, mesmo  sob a perspectiva do tempo da longa duração.

Elias fez uso da Psicologia e da História, como ferramentas teóricas na sua concepção de enxergar as sociedades e os fenômenos sociais que estudou, pontos marcantes dessa interdisciplinaridade podem ser vistas nas entrelinhas de suas obras, como: o fator psicológico envolvido na ação de cada grupo, como se formam e dividem as funções entre si, a distinção entre um grupo dominador e um dominado e os pontos de convergência estabelecidos por acordos entre dois grupos distintos.

A Psicogênese inserida no método elisiano corresponde ao desenvolvimento da sociedade sob uma perspectiva da longa duração, visando compreender a evolução da personalidade humana e as transformações comportamentais, o indivíduo, ao longo da evolução humana, assumiu um autocontrole sob sua vida, orientado por fatores exteriores que são internalizados e levando até a disciplinização, essa regra de conduta, ou seja, a disciplina é um dos pontos que regem a civilidade, o autocontrole se alia também ao uso do poder, seja ele físico ou verbal.

Mas se fosse consciente ou inconsciente, a direção dessa transformação da conduta, sob a forma de uma regulação crescentemente diferenciada de impulsos, era determinada pela direção do processo de diferenciação social, pela progressiva divisão de funções e pelo crescimento de cadeia de interindependência nas quais, direta ou indiretamente cada impulso, cada ação do indivíduo tornavam-se integrados. (ELIAS, 1994. p.196)

A civilidade carrega consigo a disciplina e o processo de individualização frente a imposição de regras elaboradas por certo grupo social, esses dois aspectos estavam presentes na educação de Mozart, como vemos na obra Mozart,  Sociologia de um Gênio, essa produção traz consigo vários pontos abordados nas outras obras do autor, como a questão da etiqueta, comportamentos estabelecidos por um certo grupo, exclusão e reconhecimento de um indivíduo na sociedade e adaptação do indivíduo as convenções sociais, para que ele possa adentrar em algum grupo social. Ao longo da descrição biográfica de Mozart, Elias nos permite observar a dinâmica social de um grupo ao partir de indivíduo, contudo sem isolá-lo, tornando-o como uma figura única nos desdobramentos dos fenômenos, ressaltando como  Mozart se torna o produto das dependências entre os indivíduos que constituem uma sociedade, além disso, nos faz enxergar a importância de cada âmbito social no qual o indivíduo se insere, pois é nesse espaço que as pessoa constroem suas vidas, significados pessoais e coletivos.

A música, como já se disse, não existia primariamente para expressar ou evocar os sentimentos pessoais, as tristezas e as alegrias das pessoas individualmente. Sua função primária era agradar aos senhores e senhoras elegantes da classe dominante. O que não quer dizer que nela não estivessem presentes as qualidades a que nos referimos com termos como “seriedade” ou “profundidade”, mas, simplesmente, que ela tinha de se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos. (ELIAS, 1995, p.89)

A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses, considerados outsiders em uma sociedade regida pelas ordens aristocratas, presentes na corte, uma época em que o equilíbrio de forças ainda era muito favorável a figura cortesã, mas não a ponto de consolidar todas as expressões de subversão as estruturas sociais consolidadas por esse grupo dominante, mas esses aspectos de se livrar das amarras aristocratas, poderiam ser vistas timidamente na esfera cultural. Como um burguês outsider a serviço da corte, Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores. Fez isto com seus próprios recursos, em prol de sua dignidade pessoal e de sua obra musical, mas acabou sofrendo com a decisão tomada, é nessa perspectiva que se centra a obra, mostrando o quanto a individualização sofre as interferências dos interesses coletivos, libertar-se das ordens de um grupo social em busca da realização pessoal, era muito mais complicado na época de Mozart, já que a escolha de se estabelecer como artista autônomo ocorreu numa época em que a estrutura social ainda não oferecia tal lugar para músicos ilustres.

A maior parte das pessoas que seguiam uma carreira musical não era de origem nobre e se quisessem ter sucesso na sociedade de corte, e encontrar oportunidade para desenvolver seus talentos como músicos ou compositores eram obrigados, por sua posição inferior, adotar os padrões cortesãos de comportamento e de sentimento, não apenas nos gosto musical, mas no vestuário e em toda a sua caracterização enquanto pessoas. Não havia, portanto, apenas uma nobreza de corte, mas também uma burguesia de corte é nesse cenário que Norbert Elias trabalha as maneiras pelas quais um indivíduo poderia sobressair as regras impostas por certos grupos sociais e quais as estratégias destes para submeter esses indivíduos inferiorizados.

Permanecendo nessa linha de pensamento sobre as relações sociais, nas quais o poder sempre se faz presente, ressalto que o poder, muitas vezes, é manipulado por certo grupo, e as principais estratégias do uso desse poder se relacionam com condicionantes psicológicos e sociológicos, como podemos observar na obra Os Estabelecidos e Outsiders que descreve e reflete sobre as condições sociais de dois grupos instalados em Winston Parva, Londres, os dois grupos pertenciam mesma classe social, eram operários e não se diferenciavam nem por cor e questão econômica, mas havia uma divisão entre eles, então qual o motivo da divisão social entre indivíduos que aparentemente viviam a mesma realidade ? A tradição se mostrou um como um elemento primordial para instalar essa distinção entre indivíduos que convivem em um mesmo ambiente, tornando-se um instrumento de poder, a tradição e os costumes dos grupos mais antigos não se articulavam com os moradores novatos que chegavam na área, de acordo com Elias, os estabelecidos são  considerados grupos com um caráter mais homogêneo e que apresentavam interesses em comum, como também possuem inúmeras maneiras de fazer uso do seu poder diante dos outsiders, que são definidos como aqueles indivíduos que não conseguem adentrar em certo grupo social, por não atender as regras impostas por tal grupo.

Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa sociedade”, os que estão fora dela. Trata-se de um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos do que aqueles que unem os eslablished. A identidade social destes últimos é a de um grupo. Eles possuem um substantivo abstrato que os define como um coletivo: são o establishment. Os outsiders, ao contrário, existem sempre no plural, não constituindo propriamente um grupo social.

(NEIBURG, 2000, p.7)

Nesse caso de Winston Parva, o panorama cultural e social visto por Elias em sua pesquisa de campo, um dos métodos da Sociologia, nos mostra de perto e de maneira direta como a sociedade se comporta diante de algumas circunstâncias, pois se percebe que a comunidade de Winston Parva mantém suas interconexões e interdependências na medida em que a força da tradição prevalece, isto é, quanto mais antigo fosse o grupo instalado mais privilégios ele teria.

Embora, a Sociologia esteja sob os pilares da pesquisa estatística, Norbert Elias não descreve apenas fatos e números, a estatística não suplanta as características qualitativas, isto é, a análise dos interesses e das ações tomadas por cada grupo, que formam a sociedade. Elias descreve que a noção de antigo e novo transita no encadeamento de fenômenos sociais presentes em Winston Parva e isso afeta diretamente o modo pela qual cada grupo vai e comportar diante do outro.

O papel desempenhado neste estudo pela “antigüidade” e “novidade” relativas dos bairros é um exemplo disso. Ele deixa claro que os fenômenos examinados tinham uma dimensão histórica e que a descoberta de índices quantitativos, mesmo que se incluísse o “tempo de residência”, não seria suficiente para dar acesso às diferenças configurativas, estruturais, a que se referiam os rótulos de “antigo” e “novo”. (ELIAS, 2000, p.59)

Diante desses questionamentos, Elias transgrede o próprio campo de formação, a Sociologia, e adentra na História, observa-se que a linha que divide as duas ciências se apaga, para entrar em cena a interdisciplinaridade, integrando-se aos aportes teóricos-metodológicos da História, o autor situa no tempo e no espaço os fenômenos concernentes a Winston Parva, para descrever o bairro operário, ele faz uso de uma retrospectiva histórica para delinear os principais desdobramentos dos dois grupos que lá viviam, desse modo, Elias procura refletir sobre as principais estratégias de interiorização da imagem que cada grupo faz de si, já que o grupo dominante não faz uso da violência e da força para subjugar o grupo inferiorizado, o uso do poder se mantém intrínseco aos costumes e as tradições presentes no cotidiano do bairro, além disso,fica claro a relação de interindependência entre os dois grupos, porque quem tinha uma visão externa da comunidade acreditava que ela era homogênea, mas não era, a percepção de quem vivia no bairro era outra.

Nessa linha de pensamento, a pesquisa de Elias e John Scotson nos mostrou que nenhuma comunidade é tão integrada ao ponto de haver uma equidade total, mesmo sendo uma pesquisa local, podemos levar os questionamentos para uma esfera macrossocial, trazendo para nossa realidade, como disse o professor em sua aula  alunos de uma mesma sala em uma universidade pertencem a uma mesma realidade naquele espaço que se constitui o seu cotidiano de estudo, mas fora da instituição de estudo,eles são diferentes entre si, ou pela classe social ou pelos interesses políticos,todos os aspectos que formam a sociedade são delineadores das disparidades entre grupos sociais.

Os Estabelecidos e Outsiders pode até ser um reflexo da vida de Norbert Elias, mas, os conceitos presentes em suas obras não se limitam a descrever a sociedade do seu tempo, suas reflexões transitam em diferentes temporalidades, é esse um dos pontos mais importantes da leitura de suas obras. Os questionamentos e descrições encontrados nessa obra, nos mostram como nossa sociedade está em movimento e o quanto somos presos a uma só explicação para os fenômenos, a interdisciplinaridade de Norbert Elias demonstra que a historia de uma nação não é unívoca, devemos estar atentos as raízes históricas e os processos de formação da sociedade. Winston Parva traz em seu bojo social as atualidades do nosso cotidiano, como a superioridade de um grupo se consolida, onde o reconhecimento e a exclusão não se constroem apenas pelo uso da força, os fatores psicológicos são fundamentais para essa lógica de poder entre dominadores e subordinados, nenhum grupo social se subordina facilmente, o grupo deve se sentir em uma condição de inferioridade e estigma, pois, se não houvesse essa condição de “aceitação de imagem” sempre haveria conflitos permanentes em uma sociedade.

A concepção de ser civilizado sempre esteve muito presa à noção ocidentalizada de ver os comportamentos do indivíduo, logo, para ser um indivíduo civilizado era necessário seguir os padrões europeus determinados pelas nações mais desenvolvidas, esse desenvolvimento era referente, sobretudo, aos aspectos políticos e intelectuais, não é por acaso que a França por muitos anos foi a nação modelo para as expectativas dos outros países, exemplo disso está formação das classes sociais na Alemanha no século XVIII, é óbvio que outros fatores acentuaram a demora pela formação de uma identidade nacional entre os alemães, e na busca pela construção de uma cultura própria, seguindo, muitas vezes, os aspecto intelectuais difundidos pela França.

Norbert Elias discorre sobre os contrastes entre as classes sociais, como também, menciona as atitudes da corte para com a classe media em ascensão. O termo que mais se aplica a essa situação é o conceito intelligentsia, que se refere às realizações intelectuais e artísticas, no entanto havia um estrato social que embora tivesse poder, não costuma “realizar” nada, e dependia de uma classe inferior que tinha muitos dotes intelectuais. Comparando muitas estruturas sociais da Alemanha com a França e Inglaterra, podemos perceber que de início não havia um valorização da cultura alemã, devido à fragmentação territorial que resultava na existência de vários dialetos, considerados semibárbaros, a língua francesa era padrão para o uso do corte, pois transparecia algo mais “civilizado”. Isso também acarretava contrastes sociais, pois as tarefas que eram realizadas pela classe média na Alemanha, quem realizava na França eram os aristocratas, desse modo, percebemos que quem vai criar uma esfera intelectual na Alemanha é a classe média.

Se o indivíduo fala alemão, é considerado de bom tom incluir tantas palavras francesas quanto possível. (ELIAS, 1994, p.30)

Atualmente, em pequenos detalhes do nosso cotidiano podemos observar reminiscências da influência européia para a construção da civilidade brasileira, isso se verifica na historia da indumentária e da moda desde a colônia ate o Império, a roupa era um elemento de distinção social, cada tipo de roupa exigia certas regras de etiqueta, comportamentos orientados pelos costumes europeus, de origem francesa e inglesa que se faziam presente no Brasil desde o uso do chapéu ate a forma do penteado das senhoritas.

Foi importado para o Brasil o sistema europeu em que se estabeleciam regras rígidas de como cada grupo social se apresentar em publico. Naquele continente, a alta e a pequena nobreza, o clero, os negociantes, os cortesãos, os trabalhadores braçais, as prostitutas, os servos, os judeus, todos tinham obrigações e restrições quanto ao uso de determinados tecidos e outros pequenos luxos. É interessante observar não apenas a moda da aristocracia, mas, sobretudo, os esforços da população em geral em imitar poderosos. O estudo da indumentária também pode nos ensinar muito sobre as relações sociais e raciais desde os primeiros tempos de colonização. (RASPANTI, 2011, p.185)

Considerações finais

Anteriormente a esta disciplina não tinha lido nenhuma obra de Norbert Elias, e a disciplina atendeu justamente minhas perspectivas, que eram: conhecer o autor, visando compreender seus métodos de pesquisa, se era possível aplicar suas teorias na realidade, sua importância para os meus estudos e como profissional na área de pesquisa em História.

Sendo assim, achei enriquecedor os debates em sala de aula, pois mostraram o quanto as obras e as concepções de Norbert Elias se aproximam da nossa realidade, mesmo que ele fosse um homem do seu tempo e procurasse entender a sociedade moderna. São as indagações do presente que se voltam para o passado, as épocas passadas se refletem no nosso cotidiano, as suas obras nos permitem compreender a importância da História, como também, da Sociologia e Psicologia como ferramentas teóricas para investigar os fenômenos sociais inseridos em uma rede dinâmica de relações pessoais e coletivas.

Recomendo a todo estudante e profissional das Ciências Humanas a ler as obras de Norbert Elias e ver a dimensão de conhecimentos contidos em suas reflexões e teorias, além de escrever muito bem, o autor problematiza as temáticas relevantes do nosso cotidiano, pois ainda temos costumes e valores frutos da sociedade moderna, observando a construção da civilização e da identidade nacional na Alemanha e na França.

Referências

DEL PRIORE, Mary; AMANTINO, Márcia (Orgs.) História do corpo no Brasil.São Paulo: Ed. UNESP, 2011.

ELIAS, N. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1994, v I e II.

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

ELIAS, Norbert; e SCOTSON, John. L.; Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


* ANJOS, B. C. Graduanda em História-Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco.

[1] Na sua obra O processo Civilizador, volume 1, Norbert Elias procura refletir sobre o conceito e significados dados ao termo civilização.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 02 jul 2015 @ 12 36 PM

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02 de dezembro de 1870



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