27 jan 2015 @ 12:00 PM 

Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH

Departamento de História

AS TESES DE LUTERO

Trabalho apresentado por Isabella Puente de Andrade ao Curso de Graduação em História, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco; como parte dos requisitos obrigatórios à segunda avaliação da disciplina História Moderna. Professor: Severino Vicente da Silva.

Recife

2014

A carta ao arcebispo mostrava que Lutero reconhecia o seu lugar perante as autoridades e, mesmo em certos momentos usando de uma linguagem incisiva, legitimava a submissão aos seus superiores. A Reforma Protestante foi uma consequência não prevista por Martinho Lutero à princípio.

Sumário

1.      Introdução. 2

2. Contexto das Indulgências. 3

3. O que diziam as 97 teses. 4

4. As 95 teses. 6

5. O que Lutero realmente quis dizer com suas 95 teses. 13

6. Bibliografia. 17

1.           Introdução

A Reforma Protestante impulsionada por Martinho Lutero no século XVI contou com o contexto da evolução cultural ocorrida na Europa. Entre os séculos XIV e XV, o mundo europeu superpovoado proporcionou uma nova técnica intelectual concorrente dos antigos saberes, que reconhecia suas bases na devotio moderna – uma filosofia de meditação pessoal, em detrimento da celebração litúrgica. Contrária ao universo essencialmente comunitário da Alta Idade Média, a oração solitária ganhou espaço, numa busca inovadora de relação de solidão com Deus[1]. As teses apresentadas por Lutero em 1517 foram influenciadas por essa inovação cultural, que em muito caracterizou seu pensamento. No entanto, o grande fenômeno que tomou a frente, dentre os novos meios de reflexão do povo europeu, foi o chamado Humanismo.

O Humanismo, sobretudo, continha em sua essência um conflito de ideias e meios com a escolástica. O humanista Erasmo de Roterdã, apesar do doutorado em Teologia, não hesitou em expressar seu pensamento adverso, em Elogio da Loucura:

“Seria melhor não mencionar os teólogos, afirma o Elogio da Loucura, evitar remexer nessa seita, tocar nessa erva infecta. Raça surpreendentemente minuciosa e irritável [...] No seu estilo abundam neologismos e termos inusitados, prossegue Erasmo, As suas subtis tolices são inúmeras”[2]

O novo conhecimento que, diferentemente da escolástica, possuía a finalidade de ser aprofundado, amplificou-se ainda mais com o nascimento da impressão. A imprensa tornou possível e apropriada a leitura fora do meio universitário. E, ainda que o Humanismo fosse totalmente independente do livro impresso, é com esse artifício que a revolução humanista ganha força. O retorno ao simples, a contestação, acabam por incutir o humanista a disseminar uma leitura muito mais maciça da Bíblia, visto que o Humanismo é também um meio essencialmente de Igreja.

O afastamento do sentido literal da Bíblia ocasionou na nova edição e tradução do Novo Testamento para o latim, a partir dos manuscritos originais. Nessa leitura humanista da Escritura, nota-se os atos apostólicos e das Epístolas numa estrutura profética muito pouco hierarquizada.[3]A reforma Humanista, contudo, era aparentemente conciliatória, sem grandiosas perturbações à ordem escolástica, diferentemente do questionamento luterano.

2. Contexto das Indulgências

Nascido em 10 de novembro de 1483, Martinho Lutero e sua descoberta espiritual da salvação pela fé revolucionaram o pensamento tradicional da teologia escolástica. Foi professor universitário, teólogo e monge agostiniano – como faz questão de se auto intitular, devido à inspiração em Santo Agostinho, bem como em Pedro Lombardo[4]. A partir de suas 95 teses, Lutero iniciou o debate acadêmico acerca das questões da tradição católica que o incomodavam e, com o auxílio da imprensa e do Humanismo, suas ideias tiveram uma inesperada difusão e aceitação. Entre as questões principais, estavam as indulgências – remissão dos castigos temporais impostos pela Igreja, como sinal exterior da verdadeira contrição.

As indulgências tinham como finalidades majoritárias a construção da Basílica de São Pedro e o acobertamento da dívida adquirida pelo arcebispo Alberto de Bradenburgo, devido ao empréstimo feito aos banqueiros Fugger para o custo do pálio. Além disso, precisava-se suprir os elevados gastos dos pregadores, comissário geral e subcomissários da bula.[5] À princípio por uma questão prática e espiritual, Lutero criticava as indulgências argumentando que essas não encontravam respaldo algum nos dogmas da Igreja. Para ele, se a absolvição dos pecados podia ser comprada, a fé cristã estaria enormemente danificada. E, dessa forma, ao descobrir em São Paulo a doutrina da misericórdia divina em Jesus Cristo “sem ação da lei”, firma a ideia de que o que Deus concebe por misericórdia não pode ser comprado com dinheiro.

A acumulação material exacerbada, ilustrada pelo “tesouro divino” da Igreja, em nada agradava a Lutero. Na Igreja do castelo de Frederico o Sábio, em Wittenberg, havia notáveis 17.413 relíquias, capazes de produzir 128.000 anos de indulgências.[6]Nessa mesma região alemã, cenário da carreira acadêmica de Lutero, o inescrupuloso subcomissário-geral da tesouraria do Papa Leão X, João Tetzel, passa a vigiar a cobrança da indulgência, a qual desfalcava o rendimento dos alemães. Como aborda Pierre Chaunu, reiterando as palavras de Tetzel:

“Aqueles que pagam uma quotização não têm a necessidade de se penitenciarem ou de se confessarem, pois essa graça supõe que o defunto morreu em estado de graça [...] Tetzel não ultrapassa as suas instruções ao proclamar que a alma abandona o purgatório no instante em que a doação entra na caixa de esmolas”.[7]

O monge decide então por persistir na ideia de que só a fé salva, e não apenas as boas obras, sobretudo as “falsas obras” conseguidas à força de dinheiro. Com a influência de Staupitz, vigário-geral dos agostinistas, aquilo que é o objetivo da penitência no sistema ockamista[8] torna-se o ponto de partida de Lutero em seu protesto perante as contradições eclesiásticas.

3. O que diziam as 97 teses

Um pequeno grupo de Wittenberg reunido em torno de Lutero apoia sua forma de humanismo militante, onde torna-se, fugindo ao seu propósito, um reformador da Igreja. Porém, antes de isolar as 95 teses de outubro de 1517 para estudo, é necessário atentar para as anteriores 97 teses de setembro, elaboradas no mesmo ano.

Ao orientar o aluno Francisco Günter de Nordhausen em seu desejo de tornar-se bacharel bíblico, sendo seu devido mestre, Lutero redige as 97 teses as quais o jovem teria de argumentar. Esses escritos deixam claro o atrito entre a teologia escolástica inspirada em Aristóteles e Tomás de Aquino, e a nova teologia baseada em Santo Agostinho, aclamada por Lutero:

“Agostinho era patrono da Universidade de Wittenberg, e seu pensamento foi de grande importância para a Ordem dos Agostinianos Eremitas, à qual Lutero pertenceu. A partir de critérios tomados da Bíblia e de Agostinho, Lutero percebeu que a teologia estava acorrentada no cativeiro da escolástica, impossibilitada de articular adequadamente a questão essencial da fé cristã [...] Escreveu a seu amigo João Lang, em Erfurt, que ‘nossa teologia e Agostinho progridem bem, com a ajuda de Deus, e predominam em nossa universidade. Aristóteles decai pouco a pouco e está sendo arruinado’.”[9]

A influência agostiniana é clara logo na primeira e segunda tese, as quais afirmam “Dizer que Agostinho se excede ao atacar os hereges é dizer que Agostinho quase sempre teria mentido. Contra a opinião geral” e “Isto é o mesmo que oferecer aos pelagianos e a todos os hereges uma oportunidade de triunfo ou mesmo uma vitória”[10]. As quarenta primeiras teses são, em geral, um ataque ao moralismo otimista, criticam o poder do homem em adquirir um meritum de congruo, ao ter o domínio de poder escolher o bem em vez do mal. Como sustentado nas teses 4 e 5 “Por isso, é verdade que o ser humano, sendo árvore má, não pode senão querer e fazer o mal” e “Está errado que o desejo é livre para optar por qualquer uma de duas alternativas opostas; pelo contrário: ele não é livre, e sim cativo. Contra a opinião comum”.

As 97 teses são, portanto, indissociáveis das próximas 95, ainda que as primeiras não tivessem sido publicadas. Elas já trazem consigo a ideia central de Lutero, baseada na predestinação[11], onde o homem deve passar a vida fazendo penitência, e ser salvo apenas pela sua fé – invalidando a salvação oferecida pela indulgência.

O QUE DIZIAM AS 95 TESES

Propor um debate acadêmico com questões polêmicas dentro da Teologia era plenamente comum na época. Ao ter feito o Comentário dos Salmos (1513) e o Comentário da Epístola aos Romanos (1515), esse segundo apresentando o texto fundamental da Reforma[12], Lutero sente-se incutido a acirrar o debate teológico das ideias já firmadas em seu pensamento. Essas, refletidas tanto em seus primeiros comentários como em suas 97 teses.

4. As 95 teses

Com base em minuciosos estudos, historiadores católicos contemporâneos asseguram que Lutero jamais chegou a fixar suas 95 teses nas portas do palácio da Igreja de Wittenberg[13]. Contudo, é fato que às vésperas do dia de Todos os Santos, em 31 de outubro de 1517, Lutero enviou ao arcebispo Alberto de Brandeburgo uma respeitosa carta, juntamente às suas polêmicas teses.

A ruptura com a Igreja católica foi uma consequência não prevista por Martinho Lutero à princípio. A carta ao arcebispo mostrava que Lutero reconhecia o seu lugar perante as autoridades e, mesmo em certos momentos usando de uma linguagem incisiva, legitimava a submissão aos seus superiores. De qualquer forma, não hesitou em expor suas indignações: “Gracia e misericordia de Dios, a quyen debo todo lo que soy y puedo. Padre reverendíssimo em Cristo, princípe sereníssimo perdoad que yo, humilde entre los humildes sea tan osado e hasta me haya atrevido a tomar em consideración dirigir uma carta a vossa augustíssima alteza [...] piensan que con esta indulgencia el hombre queda libre e fuera de todo castigo y culpa. ¡Dios Mío!”[14]

As 95 Teses[15]

Debate para o Esclarecimento do Valor das Indulgências pelo Doutor Martinho Lutero

31 de outubro de 1517

Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do Reverendo Padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito.

Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1. Ao dizer: “Fazei penitência”, etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental, isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes.

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne.

4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones.

6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá- la, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11. Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança.

17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor.

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor.

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão.

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus.

34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência.

38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor.

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia.

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena.

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência.

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.

48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas.

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto – como é seu dever – a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55. A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias.

56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior.

59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente.

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas.

66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens.

67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz.

69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas.

70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas.

72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências.

73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências,

74. Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura.

76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente, poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc., como está escrito em 1 Co 12.

79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo.

80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos.

82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas – o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica – que é uma causa tão insignificante?

83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito?

85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais – de fato e por desuso já há muito revogados e mortos – ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes?

90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: “Paz, paz!” sem que haja paz!

93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: “Cruz! Cruz!” sem que haja cruz!

94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95. E, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz

5. O que Lutero realmente quis dizer com suas 95 teses

À princípio trazendo a público suas teses em latim, Lutero jamais esperou que sua popularidade fosse tão ampla, ao que afirmou Myconius, contemporâneo de Lutero, acerca das 95 teses:

“As teses atravessaram em catorze dias toda a cristandade, como se os próprios anjos tivessem sido seus mensageiros.”[16]

O sarcasmo nos argumentos falando dos leigos como “sagazes em seus argumentos” nas teses 81 e 90 provam como o monge estava tão convicto de suas ideias que, até possíveis questionamentos de leigos deixavam o clero católico sem resposta em relação à legitimidade das indulgências. Em “Um sermão sobre a indulgência e a graça”[17], um folheto publicado por Lutero em 1518 esclarecendo os pontos centrais das 95 teses, sua indignação com as indulgências é devidamente destrinchada.

A partir do pensamento que Tomás de Aquino e seus seguidores atribuem três partes à penitência – a contrição, a confissão e a satisfação, Lutero indica que esse conceito dificilmente, ou mesmo de forma alguma, se acha fundamentado na Sagrada Escritura e nos antigos santos mestres cristãos. Tornando inválido, pois, que esses conceitos possam justificar a compra de indulgências para a salvação dos fiéis.

“Dizem eles que a indulgência não elimina a primeira ou a segunda parte – a contrição ou a confissão -, mas sim a terceira, a satisfação. A satisfação também é subdividida em três partes: orar, jejuar, dar esmola, e isto da seguinte forma: “orar” compreende todas as obras próprias da alma, como ler, meditar, ouvir a palavra de Deus, pregar, ensinar e similares; “jejuar” inclui todas as obras de mortificação da carne, como vigílias, trabalho, leito duro, vestes grosseiras, etc.; “dar esmolas” abrange todas as obras de amor e misericórdia para com o próximo. Para todos eles não resta dúvida que a indulgência elimina as obras da satisfação, que devemos fazer ou que nos foram impostas por causa do pecado. Se ela de fato eliminasse todas essas obras, nada de bom restaria que pudéssemos fazer. Para muitos foi uma questão importante – e ainda não resolvida – se a indulgência elimina mais do que essas boas obras impostas, ou seja, se ela também elimina a pena que a justiça divina exige pelos pecados. Desta vez não questiono a opinião deles. Afirmo, entretanto, que não se pode provar, a partir da Escritura, que a justiça divina deseja ou exige do pecador qualquer pena ou satisfação, mas sim unicamente sua contrição ou conversão sincera e verdadeira, com o propósito de, doravante, carregar a cruz de Cristo e praticar as obras acima mencionadas.”[18]

Ao iniciar as teses 41 à 51 com a presunçosa frase “deve-se ensinar aos cristãos que…” não é surpresa que o debate não tenha ficado apenas na questão das indulgências.[19] As distinções teológicas são percebidas principalmente nas teses 1,21 e 32, visto que, inspirado no neoplatonismo de Agostinho, Lutero afirmava que a penitência deveria ser praticada durante toda a vida. A escolástica, diferentemente, pregava as indulgências serem uma possibilidade de se purificar dos pecados, sem a necessidade de fazer penitência e mitigando o temor a Deus. Esta doutrina – a escolástica – induzia a ociosidade da fé. Assegurando-se em Filipenses II,12, Lutero proclamava que a salvação vinha não com boas obras, mas com temor e tremor.[20]

A discussão arrematava os fiéis a um questionamento ainda mais profundo a partir das teses, que era a questão da limitação do “poder das chaves”[21], expresso na 26ª tese. Sobre o purgatório, afirma Lutero, expresso sobretudo entre as teses 11-29, deve-se crer piamente que as almas sofrem tomentos indizíveis, e que é necessário ajuda-las com orações, jejuns, esmolas, boas obras. Essas são essenciais ao temor a Deus e, portanto, principais a um homem piedoso e sábio[22]. Porém, implicitamente questiona a extensão do poder pontifício sobre o purgatório e a cobrança econômica feita aos vivos, em benefício de objetos fúteis[23]. Usando da ironia entre as teses 11-81, incitando que o Papa estava alienado da extorsão aos fiéis através das indulgências, Lutero demonstrava ter sérias desconfianças acerca da moralidade do Papa Leão X.  Ao publicar um artigo no qual explicou o que queria dizer com cada uma das 95 teses, afirmou acerca da tese 48:

“Certo, todavia, é que, antes de mais nada, o pontífice deve desejar a oração de seus súditos, assim como também S. Paulo frequentemente a desejou dos seus. E esta é uma razão muito mais justa para dar indulgências que se fossem construídas mil basílicas. Isto porque o sumo pontífice, mais sitiado do que rodeado por tantos monstros de demônios e pessoas ímpias, não pode errar senão causando o maior mal para toda a Igreja [...]da mesma maneira a que diz: ‘Todos os direitos positivos estão no escrínio de seu peito.’ Presume-se que ele não erra, mas é de se perguntar se essa presunção é boa; todos os seus direitos estão no escrínio de seu coração, mas é de se perguntar se seu peito é bom”.[24]

Sem dúvida, Lutero descria nas boas intenções papais, ainda que a ruptura com a Igreja não fosse a prioridade de seus planos. O protesto de Lutero acabou por ocasionar a Reforma Protestante e a ruptura com a Igreja Católica, mesmo defendendo que ainda que “por desgraça” as coisas iam muito mal em Roma, afirma que nem por isso é razão para romper com a Igreja, pelo contrário, entendia que a melhor opção era ficar ao seu lado[25]. Com a publicação das 95 teses, no entanto, a Igreja acabou optando por não ficar ao lado do monge. A difusão dessas teses foi um marco na história da religiosidade Ocidental, reformada em seus mais profundos âmbitos, mesmo que o debate para essa revolução fosse ocasionado num mero intuito de debate acadêmico.

6. Bibliografia

CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975

DELUMEAU, Jean; Nascimento e Afirmação da Reforma; São Paulo: Pioneira 1989

DREHER, Martin N. Do Cativeiro Babilônico da Igreja: As 95 teses (texto complementar). In LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, São Paulo: Martin Craret, 2006

FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972

Martinho Lutero Obras selecionadas Vol. I Os Primórdios: Escritos de 1517 a 1519; Ed. Sinodal; São Leopoldo 1987

OLIVEIRA, Fábio Falcão; Herança Ockhamista – Uma via de leitura para entender a reforma protestante; Comunicações; Piracicaba Ano 21; n. 3; Edição especial; p. 185-202; jul.-dez. 2014


[1] CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975;. p.9

[2] Idem p.14

[3] CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975;. p.59

[4] DELUMEAU, Jean; Nascimento e Afirmação da Reforma; São Paulo: Pioneira 1989 p.87

[5] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p.12

[6] DELUMEAU, Jean; Nascimento e Afirmação da Reforma; São Paulo: Pioneira 1989 p.89

[7] CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975;. p.127-128

[8] Guilherme Ockham, teólogo escolástico inglês que viveu entre 1285 e 1349, desenvolveu o nominalismo ockhamista. “Entendia que as leis criadas por Roma eram uma validação dos costumes da Igreja, que foram transformados em artigos legislativos para uma estruturação eclesiástica. Com isso, o nominalista coloca-se como o primeiro reformador da Igreja quando arduamente apresenta uma via reflexivo-educativa cortante e sistemática que produziu uma nova percepção da realidade – as doutrinas eclesiásticas são convenções humanas. Isso bastava para iniciar uma disputa entre Ockham e o papado da época. Este homem é tido como o primeiro moderno e último medieval” (OLIVEIRA, Fábio Falcão; Herança Ockhamista – Uma via de leitura para entender a reforma protestante; Comunicações; Piracicaba Ano 21; n. 3; Edição especial; p. 185-202; jul.-dez. 2014)

[9] Martinho Lutero Obras selecionadas Vol. I Os Primórdios: Escritos de 1517 a 1519; Ed. Sinodal; São Leopoldo 1987; p.13-14

[10] Idem p.15

[11] Lutero encontrou em Agostinho a ideia de uma salvação que não dependia dos próprios seres humanos, mas sim de uma intervenção divina. A predestinação, em teologia, é a doutrina de que todos os eventos têm sido desejados por Deus.

[12] CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975;. p.94-103

[13] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p.11

[14] Idem p.15-16

[15] Martinho Lutero Obras selecionadas Vol. I Os Primórdios: Escritos de 1517 a 1519; Ed. Sinodal; São Leopoldo 1987; p.21-29

[16] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p. 18

[17] Martinho Lutero Obras selecionadas Vol. I Os Primórdios: Escritos de 1517 a 1519; Ed. Sinodal; São Leopoldo 1987; p.31-34

[18] Idem p.31-32

[19] DREHER, Martin N. Do Cativeiro Babilônico da Igreja: As 95 teses (texto complementar). In LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, São Paulo: Martin Craret, 2006. p.122-123

[20] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p.16

[21] O poder das chaves, apresentado na Bíblia em Mt16,19 – “Eu darei a ti as chaves do Reino dos céus; o que ligares na terra haverá sido ligado nos céus, e o que desligares na terra, haverá sido desligado nos céus” – estava ligado à maior autoridade da Igreja Romana (DELUMEAU, Jean; Nascimento e Afirmação da Reforma; São Paulo: Pioneira 1989 p.89)

[22] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p.27

[23] CHAUNU, Pierre; O Tempo de Reformas Vol. II A Reforma Protestante; Lisboa 1975;. p.127

[24] Martinho Lutero Obras selecionadas Vol. I Os Primórdios: Escritos de 1517 a 1519; Ed. Sinodal; São Leopoldo 1987; p.154

[25] FITZER, Gottfried; Lo que verdaderamente dijo Lutero; México 1972; p.27-28

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Categories: História Européia, Hisória do Cristianismo
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 27 jan 2015 @ 12 00 PM

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02 de dezembro de 1870



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