23 mar 2011 @ 9:34 AM 

1
DE MITOS E PITOMBAS: A (DES)CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO
JABOATONENSE

Priscilla Santos*

“Eu amo o teu cruzeiro,/ teu sol que é
mais brasileiro;/ teus altos que a
gente vence/ até sem ser
jaboatonense./ Eu amo teu céu
profundo,/ maior que já vi no mundo,/
e no meu sonho ideal,/ quero mais a
ti./ Oh! Terra natal.”1.

 

Saindo da cidade do Recife, percorrendo a Avenida Marechal
Mascarenhas de Moraes, quem chega à cidade de Jaboatão dos Guararapes é
recebido por uma placa, cuja inscrição informa ao visitante que “a pátria nasceu
aqui”. Na saída da cidade outra placa, com a mesma frase da placa anterior se
despede do visitante. Essas são as portas de entrada e saída do município.
Os habitantes de Jaboatão dos Guararapes convivem todos os dias com
as placas. Como se fossem as trombetas que anunciam o início dos tempos, elas
permanecem sobre suas cabeças tal qual pêndulos inertes. Seus habitantes entram
e saem do município sendo lembrados de que “a pátria nasceu aqui”.
Por que é tão importante fazer esse anúncio, fazer lembrar essa
afirmação? E quem disse, afinal, que a pátria nasceu em Jaboatão dos Guararapes?
Será que alguém lê a inscrição das placas e, se lê, sabe o que realmente elas
significam? Afinal, que importância tem as inscrições nas placas de boas vindas e
despedida de um município? Quais razões inspiraram essas inscrições? Assim como
Noel Rosa cantava “se meu amor me deixar/ eu não posso me queixar/ vou sofrendo
sem dizer nada a ninguém/ a razão dá-se a quem tem” 2, vamos percorrendo as
histórias do munícipio como quem diz “a razão dá-se ao que tem”.

*Graduanda do curso de História
Universidade Federal de Pernambuco
E-mail: santos.priscilla3@gmail.com
1 Segunda estrofe do Hino de Jaboatão dos Guararapes. Letra de Benedito Cunha Melo e música de
Nina de Oliveira. Disponível em: http://www.jaboatao.pe.gov.br/index.php?opcao=9.
2 Música “A razão dá-se a quem tem”, 1932, de Noel Rosa.

2
O presente artigo, embora realizado em cumprimento às exigências de
atividades acadêmicas, não se pretende acadêmico no sentido estrito do termo. As
palavras que se seguem surgiram da curiosidade e inquietação das quais são
dotados todos os amantes da História. Da curiosidade, originou-se o desejo de
saber, de conhecer mais, e melhor, as histórias de um lugar, tornou-se imperativo redescobrir
um Jaboatão dos Guararapes “conhecido”; a inquietação, inflamada por
uma sensação de abandono, um certo mal-estar, do lugar para conosco e nosso
para com o lugar. É nosso objetivo, antes, descortinar as razões que inspiraram os
questionamentos lançados acima, do que reproduzir as respostas cristalizadas.
Importa-nos mais a aproximação com o tema. Aqui, não serão encontradas
verdades indiscutíveis, mas, dúvidas, possibilidades e, talvez, mais
questionamentos. Da tentativa de compreender por que as histórias foram contadas
de uma, e não de outra, maneira. Contaremos, aqui, “a história não como realmente
aconteceu, mas como lembramos ter acontecido” 3.
Toda região tem os seus mitos, lendas e contos. Com o município de
Jaboatão dos Guararapes não é diferente. Não é nosso interesse questionar se os
mitos e as lendas de Jaboatão dos Guararapes são verdadeiros ou não, mas saber
se os jaboatonenses se reconhecem nesses mitos, se o imaginário que esses mitos
permeiam e reconhecido como fazendo parte das imagens e representações do
cotidiano do morador do lugar. Será que o jaboatonense se reconhece como
fazendo parte do “berço da pátria”?

Uma breve história de Jaboatão dos Guararapes4

O município de Jaboatão dos Guararapes, atualmente, faz parte da
Região Metropolitana do Recife. Foi criado por uma Lei Provincial, a lei de nº 1.093,
de 24 de Maio de 1873, elevado à categoria de cidade pela Lei Provincial, a lei de nº

1.811, de 27 de Junho de 1883.
3 Essa frase faz referência a uma frase do filme “Great Expectations”, de 1998, dirigido por Alfonso
Cuarón. O filme é baseado numa obra de Charles Dickens.
4 Para mais informações sobre a história de Jaboatão dos Guararapes ver: REZENDE, A. P.
Jaboatão: Histórias, Memórias e Imagens. Coordenação de Iara Helena Rodrigues de Melo. Jaboatão
dos Guararapes: Fundação Yapoatan, 1996.

3
Para os 678.6885 habitantes do Jaboatão atual – com grande parte dos
seus 259 km² urbanizados, um parque industrial, um shopping, arranha-céus – não é
comum imaginar que a história da cidade começou bem antes. Por aqui passaram
escravos, aristocratas do açúcar e os indígenas que aqui já estavam.
Nos tempos de glória dos engenhos de açúcar, muito já foi produzido e
exportado. Os portugueses aproveitaram-se das terras do massapé e dos rios
Jaboatão e Duas-Unas. No passado, no lugar onde havia plantações de cana-deaçúcar
e engenhos, hoje, há bairros, fábricas, rodovias.
Começar a história de Jaboatão falando de açúcar e não, como está no
título, de pitombas parece incoerente. Entretanto, a história de Jaboatão e permeada
pela cana-de-açúcar e possui uma relação estreita com a produção do açúcar. O
prefeito de Jaboatão afirmava em um documento oficial de 1894, que o município
possuía mais de 55 engenhos. E mais, foi um engenho que deu origem a Jaboatão,
o Engenho São João Batista, mais tarde Engenho Bulhões. O engenho foi adquirido
em 1593, por escritura pública, pelo português Bento Luiz de Figueroa. Este, doou
terras à construção de casas aos primeiros povoadores, oriundos principalmente de
Olinda e Recife.
No século XVII, o interesse pela produção do açúcar tinha ultrapassado
as dimensões da colônia Brasil. Despertando o interesse dos holandeses que
invadiram a colônia portuguesa. Primeiro, na Bahia (1624); depois, em Pernambuco
(1630).
Os holandeses tinham intenções colonizadoras e os senhores de
engenho reagiram à presença holandesa.
Em 21 de Outubro de 1633, 700 holandeses invadiram e saquearam
Jaboatão. Foram rechaçados pelas tropas luso-pernambucanas, sob o comando do
Major Pedro Luiz Barbalho Bezerra. Com a vinda de Mauricio de Nassau, as
desavenças diminuíram, tentando-se viver de maneira pacífica para restaurar a
produção de açúcar prejudicada pelos conflitos.
5 Estimativa da população para no ano de 2010. Dados retirados do IBGE.

4
A tentativa de fugir da ruína que levou muitos engenhos à falência não
deu certo, durando pouco, sobretudo depois da volta de Nassau à Holanda. As
insatisfações tornavam-se cada vez maiores.
Com as pressões da Companhia das Índias, que exigia o pagamento das
dívidas dos senhores de engenho, alguns proprietários resolveram conspirar,
organizando um movimento armado para expulsar os holandeses. O movimento
tinha em Fernandes Vieira sua principal liderança e fazia reuniões nas matas de
Jaboatão.
O primeiro confronto se deu em 1645, no monte das Tabocas, com os
rebeldes saindo vitoriosos.
Em 1647, com o fim da União Ibérica e a colônia de volta ao domínio
português, Portugal envia Francisco Barreto de Menezes para comandar as tropas
na luta contra os holandeses.
O confronto maior se deu em terras jaboatonenses, nos montes
Guararapes. Os montes são formados por três elevações. O primeiro monte é o
Oitizeiro – em referencia a árvore encontrada ali. Este monte está cercado, ao Norte,
por duas elevações gêmeas, conhecidas anteriormente como outeiros dos
Guararapes6.
Depois de duas grandes batalhas travadas, as Batalhas dos Guararapes,
a primeira em 1648 e, a segunda, em 1649, os holandeses foram derrotados pelas
tropas luso-pernambucanas.
Em homenagem às vitorias alcançadas, o mestre de campo Francisco
Barreto de Menezes, mandou edificar uma capela para Nossa Senhora dos
Prazeres, também deveriam ser realizadas comemorações todos os anos em
homenagem a santa.
“O Mestre de Campo General do Estado do Brazil Francisco Barreto
mandou em acção de graças edeficar a sua custa esta Capela à Virgem
Sem.hora Nossa dos Prazeres, com cujo favor alcançou neste lugar as duas
memoraveis victorias contra o inemigo olandes, a primeira em 18 de abril de

6 História da Guerra de Pernambuco (Recife, 1943) pp. 665/666. Citado in: MELLO, J. A. G. de. A
Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitária, 1971,
p. 8.

5
1648 em domingo de Paschoella vespora da ditta Senhora a segunda em
18 de fevereiro de 1649 em hua sexta feira e ultimamente em 27 de janeiro
de 1654 ganhou o Recife e todas as mais prassas que o inemigo pesuhio 24
annos” 7.
Da construção original da capela pouco resta, senão a descrição contida
na escritura de doação.
“A descrição conhecida é pormenorizada e, através dela, sabe-se ter sido a
capela ‘de pedra, e cal com trinta e seis palmos de cumprido e vinte e
quatro de largo, e de abóbada de tijolo com hum copear fora da dita capela
de vinte palmos de cumprido com a mesma largura; assentado sobre duas
colunas de pedra, e toda capela e copear ladrilhado de tijolo com toda a
terra, e sítio, e árvores de fruto8”.
O local escolhido para a construção da capela foi o outeiro dos
Guararapes, em terras do engenho de mesmo nome. O engenho era de propriedade
do Capitão Alexandre de Moura. Em escritura lavrada em 23 de agosto de 1656, o
senhor do engenho fez a doação do terreno9. Em 8 de novembro do mesmo ano
Barreto de Menezes fez doação do terreno e da capela ao Mosteiro de São Bento de
Olinda; este, ficava obrigado a não apenas conservar a capela bem como melhorála.
O documento de doação faz menção à festa de Nossa Senhora dos Prazeres:
“em intenção das almas dos que morreram nas duas batalhas e na
recuperação do Recife ‘em serviço de Deus e de Sua Majestade’, devendo
ser celebrada festa especial no dia em que a Igreja festeja a dita Senhora,
‘com vésperas, missa cantada e pregação’, e não se fazendo assim
passaria a capela à Santa Casa de Misericórdia de Olinda” 10.
A capela passou por modificações ao longo dos tempos. Na primeira
delas, em 1676, uma ampliação foi feita no corpo da ermida que passou a constituir

7 Essa inscrição, está gravada em uma placa que ficava no adro esquerdo da atual Igreja de Nossa
Senhora dos Prazeres. Atualmente, encontra-se na parede direita do altar-mor da igreja. Citado in:
MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 8.
8 Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento de Olinda (Recife, 1948) – p. 271 – Padre Lino do Monte
Carmelo Luna “Memória Sobre os Montes Guararapes e a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
Edificada em um Deles, Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, nº
17 (Recife, 1968) p.p. 253/189. Citado in: MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
– Guararapes. Cadernos de Cultura nº 1. Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973.
9 MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 12-3.
10 Ibid., p. 13.

6
a capela-mor da nova igreja. Abriu-se no local da fachada o arco-cruzeiro atual,
construí-se a nave com as três portas de entrada mais a sacristia, atrás da capelamor.
Os altares laterais – um em cada lado do arco-cruzeiro, o do Senhor Bom
Jesus Crucificado e o da Senhora Sant’Ana11.
A partir de 1756, o Regente da Igreja, Frei Manoel de São José, começou
a construir o frontispício atual. As obras se estenderam até a regência do Frei José
de São Bento (1769-75).
Em princípios da década de 1780, começa uma nova etapa de construção
da Igreja. Pedras dos arrecifes da praia de Piedade foram largamente utilizadas na
construção das molduras das portas e janelas12. É dessa época o revestimento da
fachada em azulejos brancos nacarados. As torres foram concluídas em 179213.
É claro que a história de Jaboatão dos Guararapes não se limita às
palavras breves acima, mas optamos por nos ater somente até o ponto da vitória
dos luso-pernambucanos sobre os holandeses. Porque é a fonte de inspiração para
o mito que atribui à cidade de Jaboatão dos Guararapes a posição de berço da
nacionalidade brasileira é que interrompemos essa breve história no fim das
Batalhas dos Guararapes. Essas batalhas vão servir de justificativa para o mito de
berço da pátria, da formação do povo brasileiro – um povo de todas as “raças”,
credos e que se orgulha da sua pluralidade. O índio, o negro e o branco lutaram
juntos para erguer as bases que nos sustentam como uma nação “sem barreiras”
culturais, étnicas ou sociais.

Conceituando o mito
Durante muito tempo, o mito era o meio através do qual o mundo, e os
seus fenômenos, era conhecido e explicado.

11 Idem, pp. 16-7.
12 MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres – Guararapes. Cadernos de Cultura nº
1. Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973. Encontrado ainda em: MELLO, J. A. G. de.
A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitária, 1971,
p. 19.
13 MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 20.

7
As sociedades arcaicas entendiam o mito como sendo uma história
verdadeira. As experiências do sagrado, por meio do encontro com uma realidade
que estava muito além da realidade humana, é que fazem surgir a noção de que
alguma coisa realmente existe, que valores absolutos existem e são capazes de
guiar o homem, conferindo significado à existência humana14.
A rememoração do mito, como evento primordial, ajuda o homem
“primitivo” a reter o que e distinguir o que é real.
As sociedades arcaicas vivem o tempo sagrado, o tempo reversível. Por
isso a possibilidade de, através da repetição, entrarem em contato com o mundo
transcendente dos deuses, dos heróis e dos ancestrais míticos. “A realidade se
desvenda e se deixa construir a partir de um ‘transcendente’, mas um
‘transcendente’ que pode ser vivido ritualmente e que acaba por fazer parte
integrante da vida humana” 15.
Nesse sentido, o mito funciona como uma tradição sagrada, uma
revelação primordial, um modelo exemplar a ser seguido. É o “mito das origens”.
Essa maneira de entender o mythos contrasta sensivelmente com os
significados que o lhe foram sendo atribuídos nas sociedades posteriores.
No mundo antigo, desde os idos tempos de Xenófanes (aproximadamente
565-470 a.C.), que foi o primeiro a fazer críticas e rejeitar as expressões mitológicas
feitas por Homero e Hesíodo, os gregos passaram a despojar o mito de todo o seu
valor sagrado e metafísico. No seu lugar, ficaram o logos e, posteriormente, a
História; o mythos passou a representar, então, tudo o que não pode existir em
realidade. O mundo judaico-cristão relegou o mito à posição de falsidade, àquilo que
não pode ser justificado, validado por um dos dois Testamentos16.
É esse o sentido que, durante a modernidade, o mito vai adquirindo, quer
dizer, esse sentido de representar o que é falso, o que não pode ser real vai sendo
atribuído ao mito.

14 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 124.
15 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.
16 Idem, p. 8.

8
Durante o século XIX, o lugar do mito era as fábulas, as ficções, as
invenções. Essa mudança no valor semântico do termo “mito”, torna o seu uso, hoje,
em grande medida, equívoco. Atualmente, o mito pode significar tanto uma ilusão,
quanto tradição sagrada.
Porque contém em si variados significados, o mito não é simples de
definir, pois, “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser
abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares” 17.
Questionando-se se seria possível encontrar uma definição que fosse
aceita por todos os eruditos e, concomitantemente, acessível aos não-especialistas,
Mircea Eliade diz:
“A definição que a mim, pessoalmente, me parece ser a menos imperfeita,
por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele
relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do
‘princípio’.Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos
‘Entes Sobrenaturais’, uma realidade passou a existir, quer seja uma
realidade total, o Cosmos, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie
vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É, portanto, a
narrativa de uma ‘criação’: ele relata de que modo algo foi produzido e
começou a ser” 18 (Grifo nosso).
Para Eliade, o mito não se caracteriza por ser uma ficção, uma falsidade.
O mito é, antes, uma narrativa que conta uma história verdadeira. Os mitos sempre
se referem às realidades19.
Em contrapartida, Roland Barthes, entende o mito como sendo uma fala,
mas não uma fala qualquer. Os mitos são falas para as quais são necessárias
determinadas condições especiais para que a linguagem se transforme em mito20.
“É a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda
a vida e a morte da linguagem mítica. Longínqua ou não, a mitologia só
pode ter um fundamento histórico, visto que o mito é uma fala escolhida
pela história: não poderia de modo algum surgir da ‘natureza’ das coisas.

17 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 11.
18 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 11.
19 Idem.
20 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 131.

9
Esta fala é uma mensagem. Pode, portanto, não ser oral; pode ser formada
por escritas ou por representações: o discurso de um escrito, assim como
uma fotografia, o cinema (…) o mito não pode definir-se pelo nem pelo seu
objeto, nem pela sua matéria, pois qualquer matéria pode ser
arbitrariamente dotada de significação” 21 (Grifo nosso).
Barthes vê o mito como sendo uma fala escolhida, construída pela
história, e não como sendo uma história verdadeira, um relato que fala do modo
como as coisas foram produzidas. Os homens não mantêm com o mito uma relação
de verdade, mas sim de utilização. Basta modificar o que rodeia o mito para poder
determinar a exatidão do seu alcance.
Ainda de acordo com Barthes, o mito, por ser uma mensagem, apresentase
numa relação entre significante, significado e signo. De maneira genérica, o
significante é a forma ou o sentido que o mito apresenta, o significado é o conceito
do mito e o signo é a totalidade associativa do conceito à imagem22. Isso significa
dizer que a linguagem do mito necessita de uma mensagem, alguém que receba
essa mensagem e um canal através do qual a mensagem será transmitida.
O mito passa, ainda, uma mensagem apropriada, intencional. O mito é
uma fala definida muito menos pela sua literalidade do que pela sua intenção. A
função do mito é transformar uma intenção que é puramente histórica em algo
natural, uma contingência em uma eternidade23. O mito serve às ideologias, para
justificá-las.
“O mito não nega as coisas; a sua função é, pelo contrário, falar delas;
simplesmente, purifica-as, inocenta-as, fundamenta-as em natureza e
eternidade, dá-lhas uma clareza, não de explicação, mas de constatação
(…) passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a
complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das
essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do
visível imediato, organiza um mundo sem contradições, porque sem

21 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 132.
22 Para maiores esclarecimentos sobre esse esquema tridimensional ver: BARTHES, R. Mitologias.
Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 9º edição,
1993, p.p. 137-148.
23 Idem, p. 163.

10
profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, cria uma
clareza feliz: as coisas significam sozinhas, por elas próprias” 24.
A única linguagem, segundo Barthes, que não é mítica – pois permanece
sendo política, já que a linguagem mítica é despolitizada – é a linguagem do homem
produtor. Essa seria a linguagem propriamente revolucionária e livre da linguagem
mítica25.
O mito da identidade nacional
Durante o Estado Novo de Vargas (1937-45), foram lançadas as bases do
sentimento nacionalista26. A conjuntura do período exigia a busca pela afirmação
nacional. Surgem, assim, os heróis nacionais: o índio potiguar, Felipe Camarão; o
militar branco, André Vidal de Negreiros; e o negro, filho de escravos africanos,
Henrique Dias.
Coube a Domingos Fernandes Calabar o papel de traidor da pátria; pátria
esta que nem sequer existia.
“Quando, em vez de um multiculturalismo, quando as nações sentem a constante
ameaça de serem aniquiladas, quando os países subdesenvolvidos precisam
combater a exploração estrangeira e empreendem uma luta desesperada contra a
fome de sua população ou para lhe explicar por que está morrendo de fome, o
nacionalismo proporciona uma forte e útil ferramenta de preservação da cultura. Isso
é verdade especialmente para uma comunidade de estados nacionais de fortes
tendências à homogeneização, e é um aspecto das conseqüências da globalização”
27.

24 Idem, p. 164.
25 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 166.
26 Essa é uma afirmação baseada em conclusões pessoais nossas.
27 WEBER, M. , 1920, From Max Weber: Essays in Sociolog,. Org. por H.H. Gerth e C.W. Mills, Nova
York, Oxford University Press, 1946, p. 78. Citado in: PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e
Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro, 2004, p. 133-4.

11
A ideia de nacionalismo está estreitamente ligada ao sentimento de
pertencimento de um povo e de sua cultura, na tentativa de superar as minorias
étnicas e culturais28.
Esse mito da identidade nacional foi reafirmado nos governos militares
(1964-89). Durante esse período a cidade de Jaboatão dos Guararapes figura não
apenas como o berço da nacionalidade brasileira, mas, também, como a
“manjedoura” do exército brasileiro29.
Como geradora da identidade nacional, a nação, utiliza-se do mito para
corroborar o seu discurso.
“Ora, o mito sempre foi o mito de um evento e de um advento, o mito do
Evento Absoluto, fundador. As sociedades que viveram do mito e no mito,
viveram na dimensão de um ser-evento (événementialité) constitutivo
(deveríamos dizer ‘estrutural’ , se isso não fosse um paradoxo). Onde o mito
é procurado, é o evento que é desejado” 30.
O imaginário e a preservação da memória
O morador da cidade de Jaboatão dos Guararapes parece não se dar
conta – nem ser responsável – pela construção da história da sua cidade. Talvez,
mesmo, não se sinta inserido dentro do quadro jaboatonense.
Andar pelas ruas de Jaboatão é um exercício que, certamente, aguça a
memória, mas a memória do jaboatonense está fragmentada. Quem mora na
cidade, anda pelas ruas sem notar suas histórias. Sai de casa num dia qualquer da
semana, vai à feira de Prazeres e passa pela Avenida Barreto de Menezes
insensível e imune a compreensão de quem foi ele, ou do por que, a avenida tem
seu nome. O morador se preocupa, somente, com a lista de frutas e verduras que
precisa comprar.

28 Ibid., p. 133.
29 BENTO, C. M. Batalhas dos Guararapes:Descrição e Análise Militar. Recife: Universidade Federal
de Pernambuco, 1971. O autor faz uma verdadeira exaltação dos governantes militares.
30 LACOUE-LABARTHE, NANCY, 2002, P. 15. Citado in: PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e
Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro, 2004, p. 134.

12
Em outra manhã qualquer, sai de sua casa para ir ao trabalho. Durante o
trajeto, seu caminho percorre toda a extensão da Estrada da Batalha. Mais uma vez,
o morador passa pela rua sem se dar conta de que, nos idos tempos, tropas
holandesas e luso-pernambucanas percorreram esse mesmo trajeto em direção à
vitória ou, ainda, à morte.
Afinal, por que os jaboatonenses não se dão conta do seu passado, da
sua memória?
Francisco Régis Lopes Ramos, quando pensa na posição que o ocupam
os museus, em geral, e os museus no ensino de história, em particular, acredita que
existe uma tendência dos responsáveis pela construção da memória de agir de
acordo com os seus próprios interesses.
“Seria coerente supor que as classes dominantes fariam investimentos para
conservar suas memórias. É assim que poderíamos concluir a partir das
teorias sobre o poder da memória. Mas, nem tanto. Se na Europa tal
investimento e quase regra, aqui no Brasil é exceção. A teoria da
preservação da memória oficial, quando pensada aqui, ganha outra
tonalidade.
A coisa está mudando, entretanto a mudança não é a favor da preservação
de documentos históricos, através dos quais pensássemos nossa própria
história. O que predomina é o patrimônio como ‘bem de consumo’ (…) aquilo
que era marca do tempo, vestígio de muitos pretéritos, tornou-se um
shopping center no estilo colonial”31.
Ramos, é de opinião de que existe uma questão de fundo político na
relação que se faz entre a preservação e a memória. E, aqui, recorremos novamente
aos mitos e sua relação com os símbolos.
O imaginário é parte integrante da construção da memória. “Todo
pensamento da sociedade e da história pertenci em si mesmo à sociedade e à
história”.
Pensamos, aqui, o imaginário como pensa Castoriadis, a saber:

31 RAMOS, J. R. L. A Danação do Objeto: O Museu no Ensino de História. Chapecó: Argos, 2004, p.
79.

13
“O imaginário de que falo não é imagem de. É criação incessante e
essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras/
formas/ imagens, a partir da quais somente é possível falar de ‘alguma
coisa’. Aquilo que denominamos ‘realidade’ e ‘racionalidade’ são seus
produtos32”.
Pensando o mito como tendo uma função que serve a uma instituição, um
discurso, um fazer da sociedade, seus aspectos são controláveis. Um desses
aspectos é símbolo, pois o mito – no nosso caso, o mito da nacionalidade – é um
mito adequado33. O mito precisa de uma simbologia que não é neutra.
“A idéia de que o simbolismo é perfeitamente ‘neutro’ ou então – o que vem
a ser o mesmo – totalmente adequado ao funcionamento dos processos
reais é inaceitável e, a bem dizer, sem sentido.
O simbolismo não pode ser neutro, nem totalmente adequado, primeiro
porque não pode tomar seus signos em qualquer lugar, nem pode tomar
quaisquer signos” 34.
A sociedade constrói o seu simbolismo, não de maneira totalmente livre,
pois ele serve a propósitos determinados. Esse simbolismo passa por uma
naturalização e se insere no histórico, determinando valores e aspectos da
sociedade35.
O sentido mais corrente do imaginário é o de representar alguma coisa
inventada quando queremos falar de uma história que não existe, uma história
imaginada. O imaginário utiliza-se do simbólico para exprimir-se, não somente por
isso, mas, também para existir, passando do campo virtual para o campo das coisas
a mais. Pressupõe a capacidade imaginária de enxergar uma coisa que, em
realidade, não é. Sob a forma de representação, uma coisa pode ser re-significada.
Pode, ainda, ser a capacidade de evocar uma imagem36.

32 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p. 13.
33 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 131.
34 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p.146
35Ibid., p.152.
36 Ibid., p. 155.

14
Na tentativa de dar uma resposta a alguma pergunta – quem somos? qual
é a nossa identidade? – de dar sentido e satisfação às suas necessidades, a
sociedade utiliza as significações imaginárias. “O papel das significações
imaginárias é o de fornecer uma resposta a essas perguntas., resposta que ,
evidentemente, nem a ‘realidade’ nem a ‘racionalidade’ podem fornecer” 37.
“O imaginário é igualmente, é claro, também condição todo e qualquer
pensamento – do mais simples, do quase não-pensamento, quase reduzido
à manipulação mecânica de signos, se é que isso é possível, ao mais rico e
mais profundo” 38.
Ao longo do tempo o imaginário – e seus significados – pode tomar outros
sentidos, passar por re-significações. Um exemplo disso é a Festa de Nossa
Senhora dos Prazeres.
Na escritura de doação da Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, de 8
de novembro de 1656, Barreto de Menezes, deixa instruções de como devem ser
realizados os festejos em homenagem a Santa39. No ano de 2010, a festa chegou a
sua 353ª edição. De festa em homenagem a Nossa Senhora dos Prazeres, a festa
passou a ser em culto às pitombas40. Não é que a Santa tenha sido esquecida, mas
atualmente, o vento é mais comumente conhecido como “Festa da Pitomba” – a
festa acontece no mês de abril, período de safra da fruta.
As missas, procissões e cortejos em honra à Santa, ainda ocorrem, mas,
à noite, a invocação do sagrado sai de cena para dar lugar ao “culto” profano: feiras
de artesanato, parque de diversões, apresentação de bandas de músicas,
cantadores, repentistas, maracatu. As comemorações acontecem nos Montes
Guararapes – atualmente, Parque Histórico Nacional dos Guararapes. Depois dos
festejos, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria41. Sobram os
campos com os fantasmas do passado de batalhas.

37 Ibid., p. 177.
38 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p. 380.
39 Ver nota 10, da página 5.
40 Talisia esculenta, família das Sapindaceae, conhecida popularmente como “pitomba”. A espécie é
encontrada por quase todo o Brasil em estado nativo, silvestre ou em cultivo. In: Repertório Botânico
da “Pitombeira” de Germano GUARIM NETO, Santina Rodrigues SANTANA E Josefa Valdete
Bezerra da SILVA.
41 Paráfrase do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.

15
Os montes são novamente lembrados quando do espetáculo de
encenação da peça “Batalha dos Guararapes: assim nasceu a nossa pátria”. A
última edição foi em novembro de 2010, foram investidos R$ 250 mil. O elenco
contou com 65 atores e 235 figurantes, sob a direção de José Pimentel42.
Poucos são os jaboatonenses que conhecem a história da sua cidade,
menos ainda, os que se reconhecem nela. Quem deveria cuidar – as escolas do
município, por exemplo – para que a memória não fosse esquecida, para que essa
história fosse contada, ao que parece, também não se lembra que ela aconteceu.
Percorrendo os Montes Guararapes, poucos foram os que encontramos
que puderam contar-nos essa história. Um deles foi o seu Rubens – sementeiro de
Pau-brasil que carregava, literalmente, em suas mãos o futuro do bosque que,
teimoso, ainda persiste nos Montes Guararapes. Foi ele quem, caminhando
tranquilamente sem camisa, de chinelos, um ramo de Pau-brasil nas mãos,
acompanhado do Totó, seu cachorro, contou-nos como a placa de bronze – com a
inscrição do belveder onde ficavam os canhões – foi roubada. Ele, ainda lembrava
da inscrição, palavra por palavra, que havia na placa: “Nesta colina sagrada, na
batalha vitoriosa contra o invasor, a força armada do Brasil se forjou e alicerçou para
sempre a base da nação brasileira” 43.
E, assim, a cidade de Jaboatão dos Guararapes vai seguindo. Com sua
memória sendo lentamente esquecida e seu imaginário sendo constantemente
(des)construído.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993.
BENTO, C. M. Batalhas dos Guararapes:Descrição e Análise Militar. Recife: Universidade Federal de
Pernambuco, 1971.
CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Ed.
Paz e Terra, 6º edição, 2007.
42 Informações retiradas do site da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Disponível em:
http://www.jaboatao.pe.gov.br/index.php?opcao=21&id=2950.
43 Essa é uma frase do Marechal Mascarenhas de Morais.
16
ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.
MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971
MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres – Guararapes. Cadernos de Cultura nº 1.
Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973.
PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro,
2004.
RAMOS, J. R. L. A Danação do Objeto: O Museu no Ensino de História. Chapecó: Argos, 2004.
REZENDE, A. P. Jaboatão: Histórias, Memórias e Imagens. Coordenação de Iara Helena Rodrigues
de Melo. Jaboatão dos Guararapes: Fundação Yapoatan, 1996.

Trabalho apresentado na disciplina eletiva sobre Pernambuco, no ano de 2010, pelo professor Severino Vicente da Silva

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Categories: História do Brasil
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 23 mar 2011 @ 09 34 AM

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02 de dezembro de 1870



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