LÚCIO RENATO MOTA LIMA

 

 

 

 

HISTÓRIA DA CULTURA BRASILEIRA: LEITURA DIRIGIDA: HISTÓRIA CULTURAL DO NORDESTE

 

    Trabalho de conclusão da disciplina de História Cultural do Nordeste do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco solicitado pelo professor Severino Vicente da Silva.

 

RECIFE

2010

 

 

“A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza”.

 

A tese de doutorado A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza, de Francisco Agileu de Lima Gadelha, apresentada ao Programa de pós Graduação em História do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco,  enuncia o objetivo de “reconstruir a memória cultural de idosos de uma coletividade, cujos protagonistas apresentam suas práticas religiosas diferentes das de outros atores pelos seus atos comportamentais, produzindo sentidos e significações particulares de suas existências” (pág. 08). A coletividade em foco na pesquisa foi a dos presbiterianos da cidade de Fortaleza, Ceará, da qual o autor propõe como questão central caracterizar sua identidade cultural buscando identificar em suas práticas religiosas e em sua vida, encontros ou afastamentos em relação à orientação proposta pela Igreja Presbiteriana.  

            A aproximação entre o objeto de estudo e o historiador ocorreu através da própria história de vida do autor, que pertence à comunidade presbiteriana de Fortaleza. Os entrevistados são pessoas de sua convivência pessoal e religiosa (inclusive uma tia fez parte dos entrevistados), circunstância que até lhe provocou dúvidas sobre a possibilidade da realização de um projeto de pesquisa científica, como relata em suas “Considerações Finais”: “No início dessa pesquisa encontrei-me em uma encruzilhada. A de fazer a interlocução entre a minha história e o campo de conhecimento que priorizei estudar, pois carrego comigo a convivência religiosa e as relações pessoais mantidas ao longo dos anos com os sujeitos da presente pesquisa”. Procurou, então, afastar suas dúvidas por meio da literatura, encontrando respaldo no método da “observação participante”, que consiste na tentativa de integração do pesquisador com o seu objeto de pesquisa e que é um recurso utilizado principalmente pela antropologia. Em todo caso, na leitura do trabalho identifica-se um nítido envolvimento emocional do historiador com seu objeto de estudo.

            A tese foi dividida em quatro capítulos. Os três primeiros são de natureza contextual e de fundamentação teórico-metodológica.  O quarto apresenta as histórias de vida dos 16 sujeitos de pesquisa, elaboradas a partir de entrevistas gravadas pelo autor. Fazem parte de seus referenciais teóricos autores como: Roger Chartier, do qual utiliza as três noções basilares de sua obra: representação, apropriação e prática (que são discutidos amplamente por Agileu no segundo capítulo); Pierre Bourdieu e seu conceito de Campo Religioso e Poder Simbólico (discutido amplamente no terceiro capítulo); e Peter Berger e o conceito de legitimação e estruturas de plausibilidade (também analisado no terceiro capítulo); além de outros autores como Martinho, Ecléa Bosi, Michel de Certeau entre outros.

Desde o início, observa-se a disposição sistemática do autor em esclarecer, minuciosamente, sua caminhada teórico-metodológica, indicando suas fontes e como trabalhou com elas, principalmente em seu segundo capítulo. Nele analisa a trajetória da História Cultural e a renovação que esta abordagem promoveu no campo historiográfico. Ressalta, baseado em Certeau, a importância dos movimentos religiosos para a compreensão das sociedades humanas e analisa as possibilidades do conhecimento do cotidiano através da análise das práticas religiosas, assim como as vantagens para o trabalho do historiador na utilização da memória das pessoas idosas na reconstrução do passado. 

Como dissemos, o primeiro capítulo tem o objetivo de contextualizar, temporal e espacialmente, a comunidade presbiteriana de Fortaleza, desde a chegada dos primeiros missionários estrangeiros na segunda metade do século XIX. O primeiro pastor que dirigiu o trabalho missionário no Ceará foi o Reverendo De Lacy Wardlaw, que desembarcou em Fortaleza em 1882. Anteriormente, a obra de conversão ficava a cargo dos chamados colportores – pessoas que penetravam os sertões do Brasil pregando o Evangelho e que levavam em lombos de animais Bíblias para vender ou doar. Foram os esforços desses colportores que resultaram nas primeiras conversões ao presbiterianismo no Ceará. Mas foi a partir da chegada do pastor De Lacy, que tem início a história da comunidade dos presbiterianos de Fortaleza, sendo sua Igreja erguida no ano de 1890.

Agileu descreveu a biografia do Reverendo De Lacy e de outros missionários, nacionais e estrangeiros, que tiveram papel de liderança na Igreja Presbiteriana de Fortaleza em sua fase de estabelecimento, período que o autor situa entre 1882 e 1930. No entanto, identificamos nesse ponto uma ausência de maiores discussões sobre as possíveis diferenças nas identidades culturais entre os pastores estrangeiros, que eram principalmente estadunidenses, e os pastores nacionais. Menciona, apenas de passagem, as dificuldades com o idioma do Reverendo De Lacy, o que atrapalhava a sua compreensão pelos fieis. Apesar de indicar que “a doutrina, ditames teológicos e conceitos de valores” (pág. 32) desses missionários estrangeiros obedeciam a um planejamento traçado pelas Juntas Missionárias de Nova York e Nashiville, não discute que valores culturais poderiam condicionar a sua prática religiosa nesse outro contexto sociocultural e se isso poderia ter contribuído para o surgimento de desavenças, como, por exemplo, no caso do Cisma de 1903, que deu origem a Igreja Presbiteriana Independente. A explicação fornecida para esse importante episódio indica a existência de uma oposição entre nacionais e estrangeiros, mas segundo Agileu estaria apenas atrelada à questão da maçonaria e da independência dos recursos das igrejas brasileira.

Com relação aos conversos, a maioria, assim como no restante do país, pertencia à classe média cearense, principalmente os comerciantes e profissionais liberais, embora ressalve que pessoas de todas as condições sociais tenham também se convertido, inclusive membros de famílias tradicionais. Essa maior inserção nos setores médios estaria vinculada ao embate entre forças tradicionalistas e modernizadoras em Fortaleza, reprodução do que ocorria em outros centros urbanos brasileiros. Defensores de um pensamento individualista e liberal, os setores de classe média lutavam contra a aristocracia por maior espaço político, encampando reformas para a modernização de Fortaleza. Segundo o autor, isso teria contribuído para a maior identificação desses setores com o protestantismo, que expressava esse espírito progressista e modernizador a parir da defesa do individualismo e da ascensão social através do esforço próprio, em contraposição com o espírito conservador e antimodernizante do catolicismo romanizado hegemônico e mais identificado com a aristocracia.

A Igreja Católica vivia nesse período uma crise de credibilidade devido ao mau comportamento do seu clero e a pouca assistência dos fieis. Os presbiterianos se aproveitaram dessa fragilidade para tentar por meio da estratégia do proselitismo, conquistar sua posição no campo religioso brasileiro (abordagem baseada em Bourdieu). Evidentemente, a Igreja Católica reagiu a essa contestação à sua posição hegemônica no campo religioso brasileiro, e, no caso em questão, ao cenário cearense. Perseguições, atos de violência física, destruição de templos e discriminação dos convertidos (eram apelidados de “bodes” pelos católicos) foram cometidos. O autor destaca a atuação de dois importantes personagens da história da Igreja Católica nordestina como emblemas dessa intolerância religiosa católica: Padre Cícero e Frei Damião.

Em resposta, os presbiterianos empregaram como estratégia a busca por distinção social e prestígio entre as pessoas letradas da sociedade cearense, como forma de conquistar uma posição no campo religioso cearense. O jornal foi um dos principais veículos de divulgação da mensagem presbiteriana, mesmo antes do advento da República e da implantação da liberdade de culto.

Esses embates no campo religioso, no caso em questão entre católicos e protestantes, foi aprofundado, como dissemos acima, no terceiro capítulo, a partir da análise da obra de dois importantes teóricos: Bourdieu e Berger. A religião teria para Bourdieu a função de legitimadora do mundo social e do cotidiano, o chamado “poder simbólico”: “que funciona pelo poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e de fazer crer, de confirmar ou transformar a visão de mundo, ação perseguida pelos presbiterianos” (pág. 88).

A religião exerceria a função de reduzir a complexidade social, a partir do estabelecimento de certezas diante da contingência do mundo natural e social. Essa redução da complexidade combateria as situações de anomia (desordem) que põem em risco a estabilidade das estruturas de plausibilidade (Berger). Um exemplo são as situações marginais, sendo a morte a mais relevante. Os presbiterianos a vêem como um desígnio de Deus e como a passagem para uma vida ao lado Dele para os que foram salvos. Essa crença diminuiria o impacto da perda de parentes e amigos, mantendo a harmonia pessoal e social dos indivíduos.

A moral protestante moldaria o comportamento dessas pessoas, pois o desvio da orientação da Igreja significaria uma depravação, um afastamento de um comportamento santo, que tem que ser santo porque Deus é santo. A moral, portanto, estaria acima de tudo. Honestidade, trabalho, poupança e disciplinarização do corpo – o sexo visto como ligado ao casamento e a procriação, a condenação à dança e ao consumo de drogas como bebidas alcoólicas – fazem parte do comportamento esperado do presbiteriano. Em suas entrevistas, Agileu procurou identificar a repercussão da mensagem religiosa no comportamento dos membros da comunidade.

Intitulado A Memória dos presbiterianos idosos: momento de construção de sua História Cultural, o quarto capítulo objetiva mostrar como foi forjada a maneira de ser dos presbiterianos de Fortaleza, o seu comportamento e a sua relação com os não presbiterianos. Para isso, utiliza como estratégia o mergulho na história de vida de dezesseis sujeitos de pesquisa. As entrevistas expressariam a pluralidade de sentidos que esses presbiterianos transmitem a sua religião, ao seu modo de pensar, trabalhar. A forma como encaram o nascimento, a doença e a morte seriam características distintivas em relação a outros grupos sociais.

A aproximação da pesquisa com o contexto sociocultural de Fortaleza foi através da vida e prática religiosas dos entrevistados. As mudanças e permanências sofridas pela cidade e que poderiam ter repercutido na vida da comunidade presbiteriana são apresentadas através dos seus relatos de vida. Essa estratégia metodológica adotada, sem dúvida interessante, permitiu muito mais ao nosso ver, uma caracterização de uma identidade presbiteriana do que de uma identidade cultural particular dos presbiterianos de Fortaleza, que seria a questão central da pesquisa. Assim como ocorreu no caso da apresentação dos missionários estrangeiros, sentimos mais uma vez a ausência de uma discussão do que seria próprio, específico, dessa coletividade em foco e, portanto, uma insuficiência em relação ao objetivo proposto.

 

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 13 dez 2010 @ 4:11 PM 

 

A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO CARMO EM RECIFE/PE

 Trabalho apresentado por João Paulo Andrade Rodrigues do Ó.

na Disciplina Problemas da História do Nordeste,

ministrada pelo Prof; Severino Vicente da Silva,

segundo semestre de 2010.

1 ORIGEM DOS CARMELITAS E DA ORDEM

            Os primeiros carmelitas surgem no século XII no Monte Carmelo, do hebraico “jardim”, uma montanha situada junto do Mar Mediterrâneo e da Baía de Haifa.

Carmelo significa graça e fertilidade. A Bíblia o retrata como uma torrente – a fonte de Elias – e uma vinha muito fértil. O Monte Carmelo é rico em cavernas, bosques, dunas, arbustos e plantas aromáticas, elementos que contribruem para a beleza da paisagem e que serviram de inspiração ao Rei Salomão para expressar a beleza da esposa no Cântico dos Cânticos: “A tua cabeça sobre ti é tão linda quanto o Carmelo e teus cabelos como a púrpura” (Ct 7,5)   

O Monte Carmelo é considerado sempre em sua referência no mundo bíblico como sinal de graça e de bênção. (BOAGA, 1989, p. 23)

             Foi no Monte Carmelo onde segundo a tradição bíblica viveram os dois grandes profetas de Israel: Elias e Eliseu.

Segundo Sciadini (1997, p. 16) Elias é o profeta que causou a mais profunda e duradoura impressão no povo de Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento, seu nome significa “Javé é Deus”.

O profeta Elias aparece na Sagrada Escritura como o homem que caminha sempre na presença de Deus e combate, inflamado de zelo, pelo culto do único e verdadeiro Deus. Reivindica os direitos divinos no desafio feito aos profetas de Baal, goza no Horeb da íntima experiência do Deus vivo.

Segundo São Gregório Magno[1]:

O Horeb representa um exercício habitual das virtudes num espírito de graça. A caverna é o mistério da sabedoria escondida na alma, e seu santuário. Quem nela penetra terá a intuição profunda e mística do saber “que supera toda ciência” e na qual se manifesta a presença de Deus. Pois se alguém, como o grande profeta Elias, busca verdadeiramente a Deus, deve não somente “subir ao Horeb” (e é evidente que quem se consagrou à ação deve também aplicar-se à virtude), como também “penetrar no interior da caverna” situada sobre o Horeb, isto é, estar completamente dedicado à contemplação, na obscuridade e no mistério mais profundo da sabedoria, fundada sobre uma prática habitual da virtude.

Segundo a tradição bíblica eremitas passaram a habitar o Monte Carmelo, esses cristãos viviam na simplicidade, buscando a solidão e a oração, vivendo em obséquio de Jesus Cristo, isto é, no seu seguimento e a seu serviço. Construíram uma capela e a dedicaram a Virgem Maria, com o passar do tempo, começaram a ser chamados de Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo ou Carmelitas.

Os carmelitas têm por característica essenciais a origem eliana e a dedicação a Maria. 

Por força da instabilidade política da Palestina e pelas dificuldades provenientes dos sarracenos que iam ganhando espaço, no ano de 1238, os carmelitas migram para a Europa. (BOAGA, 1989, p. 38).

 Os primeiros carmelitas sentiram a necessidade de se organizar e de criar uma regra para sua convivência, regra esta elaborada por Alberto, Patriarca de Jerusalém e aprovada pelo Papa Inocêncio IV em 1241.

Surgem assim rapidamente vários conventos carmelitas na Europa, que ao exemplo dos Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos passam a vivenciar os valores evangélicos de maneira mais radical.

Segundo Boaga (1989, p. 25) “a vida apostólica está interpretada como vida comum em pobreza coletiva e em pregação itinerante e mendicante, esta vida apostólica é a resposta às exigências do ideal da pobreza evangélica”.

Assim, nasceu no Carmelo um modo de “vida mista”: a vida ativa se exerce como fruto e consequência da contemplação que continua sendo fundamento e princípio da vocação carmelitana.

 

2 OS CARMELITAS EM PERNAMBUCO

No final do século XVI, durante o período do padroado, a Coroa Portuguesa com o objetivo de povoar as terras brasileiras, desenvolveu estratégias de ocupação. Para isso, contou com a ajuda da Igreja, trazendo para a colônia religiosos de diversas ordens religiosas, entre as quais, os carmelitas.

A Igreja Católica influenciou e participou do processo de formação da nossa sociedade, principalmente nos três primeiros séculos de colonização, era quase impossível viver na colônia sem seguir ou respeitar a religião católica. (HOONAERT, 1978, p.13)

Foi em Pernambuco onde desembarcaram os primeiros carmelitas e se estabeleceram no Brasil, vindos de Portugal, no ano de 1580. Aportados em Olinda, receberam de doação uma ermida dedicada a Santo Antônio. Construíram com ajuda dos olindenses e do Reino, a primitiva Igreja e convento do Carmo de Olinda. É nesse momento que é implantada a semente da devoção a Nossa Senhora do Carmo em Pernambuco.

No século XVII, as ordens religiosas que possuíam conventos em Olinda, passam também a desejar fundar conventos em Recife, e os carmelitas não ficaram de fora. Receberam no final do século XVII como doação o Palácio da Boa Vista, pertencente a Maurício de Nassau. (MEDEIROS, 2003, p. 168)

Em 1665, o Capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos deu início às obras de construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo do Recife, mandando executar, com os seus próprios recursos, a capela-mor.

Concluída em 1767, a Igreja do Carmo, apresenta características arquitetônicas que apontam para a fase de transição do barroco, passando do seiscentismo para o setecentismo. Ricamente ornamentada, possui a Igreja uma beleza rara e uma singular importância para a história da arte barroca em Pernambuco.

A atividade pastoral e intelectual propiciou o bom conceito da comunidade carmelita do Recife perante a população, o que resultou em uma devoção ainda maior à Virgem do Carmo.

Na segunda metade do século XVIII, a rainha Dona Maria I, em sinal de reconhecimento pelos trabalhos desenvolvidos pelos carmelitas, doa para a Ordem, uma belíssima imagem de Nossa Senhora do Carmo, feita de cedro maciço, no estilo barroco rococó, medindo 2 metros e meio de altura e ornada de luxuosas jóias.

Os frutos da atividade intelectual e missionária vão surgir no começo do século XIX, quando inúmeras personalidades ligadas ao Carmelo vão se destacar nas mais variadas áreas do conhecimento, tais como: Botânica e Ciências Naturais, Gramática, Retórica, Geometria, Filosofia Política, História e Geografia.

Segundo Américo Jacobina Lacombe (1993, p.75):

… coube afinal à Igreja, na formação da nacionalidade, o aspecto mais nobre da colonização. Quase tudo que se fez em matéria de educação, de cultura, de catequese e de assistência social, correu por conta de sua hierarquia, de seu cleto, de seus religiosos.

 

 

3 A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO CARMO

A partir de 1828, tem-se notícias das Solenidades em honra a Nossa Senhora do Carmo, apesar de não ser ainda a padroeira do Recife, mas sim Santo Antonio.

Segundo Severino Vicente (2007):

”no século XIX cresce a importância dos frades carmelitas na sociedade recifense, em uma época de mudanças, tanto na vida urbana quanto na religião católica que estava inicianado uma reforma interna, e essa reforma afetou as práticas de expressão externa na religiosidade dos católicos.

 

 Em 1850, o governo imperial proibe às ordens religiosas receber novos noviços, o que significa uma ameaça a continuidade das ordens em território brasileiro em um curto espaço de tempo, sem falar nas constantes investidas dos Bispos para incorporarem à Mitra Diocesana o patrimônio dos religiosos. (MEDEIROS, 2003, p. 170). 

O reerguimento da Ordem do Carmo em Pernambuco começa no final do século XIX, com a chegada dos frades carmelitas espanhóis, oriundos das províncias de Aragão, Valência e Catalunha.

A festa e a devoção à Virgem do Carmelo começa a ganhar força e notabilidade a partir da chegada dos espanhóis, isso porque os hispanos incentivam a devoção de forma lúdica, ao mesmo tempo que educam para a preparação aos sacramentos e a participação na procissão e na missa solene, em geral, presidida pelo bispo diocesano.

Na sua tradição, sobretudo a partir do século XVI, o Carmelo manifestou a proximidade amorosa de Maria ao povo mediante a devoção do Escapulário[2]: sinal de consagração a ela, meio de agregação dos fiéis à Ordem Carmelita e forma popular de evangelização.

Segundo o Papa Pio XII[3] (1950):

“entre todas as devoções a Maria, deve-se colocar, em primeiro lugar, a do Escapulário dos Carmelitas, a qual, pela sua simplicidade ao alcance de todos e pelos abundantes frutos de santificação que tem produzido, se acha extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”.

 

 Acontece que o culto a Nossa Senhora do Carmo vai ganhando cada vez mais espaço na cidade, enquanto que o padroeiro, Santo Antônio, vai caindo em importância, pois os franciscanos alemães que chegaram para restaurar a Ordem Franciscana, não tiveram a mesma sensibilidade para com as devoções populares.

Aproveitando a “queda de popularidade” do antigo patrono, os frades carmelitas de grande respaldo na sociedade pernambucana empreendem a campanha da Senhora do Carmo como Padroeira do Recife. A população adere a ideia, e em 1909, Nossa Senhora do Carmo é proclamada oficialmente Padroeira do Recife.

Os frades carmelitas ajudados por leigos influentes, conseguem que o dia 16 de julho seja feriado municipal. Encabeçam uma grande campanha pela coroação canônica, cuja aprovação é dada pelo Papa Bento XV. Em 21 de setembro de 1919, a imagem doada por Maria I sai da Igreja do Carmo, desfila pelo centro do Recife até o Parque 13 de Maio, onde é coroada solenemente, com a presença de 34 bispos brasileiros. Diante do êxito da coroação, os frades lançam, três anos depois, a campanha para a Igreja do Carmo receber o título de Basílica, o que acontece em 1921. Em 1922, é celebrada a cerimônia solene de Sagração da Basílica, presidida pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Miguel de Lima Valverde. (MEDEIROS, 2003, p. 171-172).

As festividades dos 700 anos do Escapulário, foi sem dúvida nenhuma, a maior obra missionária já realizada pelo Carmelo brasileiro. Houve, portanto, pela primeira vez, uma ação conjunta entre os frades Calçados[4] e os Descalços[5]. A peregrinação da Imagem de Nossa Senhora do Carmo percorreu todas as capitais e cidades mais importantes do Brasil, entre o período de 31 de agosto de 1950 e 14 de julho de 1951. Além da visita da imagem, houve pregação dos frades, confissões, distribuição de milhares de escapulários, culminando no Congresso Nacional do Escapulário, com a participação de inúmeros estudiosos nacionais e internacionais sobre os mais variados temas ligados ao Carmelo.

Um dos elementos fundamentais que atraía, e atrai até hoje, a população para a novena do Carmo é a música. Desde a chegada dos espanhóis, alguns deles músicos,  o uso da música foi incetivado. Trouxeram uma novena própria, para coral e orquestra, bem como o Ofício solene das Vésperas, cantado na noite do dia 15 de julho. Além da beleza dos cantos, que variam em latim e português, estes cantos são exclusivos e escutados apenas durante as festividades de Nossa Senhora do Carmo.

Desde os anos 1980, a procissão não termina dentro da Basílica, em virtude do grande número de fiéis que a acompanha. Arma-se um palanque na frente do templo, e o Arcebispo fala e dá a bênção final da parte religiosa da festa.

Assim como algumas devoções marianas são celebradas nos terreiros[6] afrobrasileiros, Nossa Senhora do Carmo também é celebrada no Recife, no Xangô e na Umbanda. É sincretizada com o orixá feminino que é a divindade das águas doces e do ouro, chamada Oxúm. É representada pela cor amarela, é comum encontrar pessoas vestidas dessa cor durante as festividades do Carmo, o que pode-se concluir trata-se de pessoas praticantes desses cultos ou simpatizantes. (MEDEIROS, 2003, p. 174) 

 

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Maria das Graças Aires. A influência da Ordem Carmelita no processo de formação da sociedade pernambucana. In: II Encontro Internacional de História Colonial. Natal, 2008.

BOAGA, Emanuele. Como pedras vivas: para ler a história e a vida do Carmelo. Roma, 1989

______. A Senhora do Lugar: Maria na história e na vida do Carmelo. Paranavaí, 1994.

HOONAERT, Eduardo. Formação do catolicismo brasileiro: 1550-1800. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1978

LACOMBE, Américo J. Ensaios Históricos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1993.

MEDEIROS, Batolomeu Tito F. Nossa Senhora do Carmo do Recife: a brilhante Senhora dos muitos rostos e sua festa. 1987. Dissertação (Mestrado) – Curso de Antropologia, UFPE, Recife, 1987.

______. “… me chamarão Bem-aventurada”: Textos de Mariologia Carmelitano. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2003.

PROVÍNCIA CARMELITANA PERNAMBUCANA. Basílica do Carmo: História, Cultura e Fé. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2002.

______. Em oração com Maria, Mãe do Carmelo. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2005.

PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS. Carmelita: um estilo de vida. Belo Horizonte, 1980.

MESTERS, Carlos. A caminhada do profeta Elias. Curitiba: Gráfica Damasco, 1991.

SCIADINI, Patrício. O Carmelo: história e espiritualidade. São Paulo: Loyola, 1997.

SILVA, Severino Vicente. Padroeiros e Padroeiras do Recife. Recife: UFPE, 2007. Disponível em: <http://www.biuvicente.com/blog/?p=175>. Acesso em: 01 dez. 2010.

www.festadocarmo.com.br acesso em 01/12/2010

http://ocarm.org/es/content/ocarm/origen  acesso em 01/12/2010

www.pcp.org.br acesso em 01/12/2010

http://www.carmelitas.org.br/default.asp?pag=p000032 acesso em 01/12/2010

http://iconacional.blogspot.com/2008/07/hegemonia-do-culto-do-carmo-no-recife.html acesso em 01/12/2010

http://www.carmelitasmensageiras.com.br/carmelo.htm acesso em 01/12/2010

 

 


[1] Monge beneditino, governou a Igreja durante 14 anos (590-604). Foi o responsável pela divulgação e expansão da música sacra, principalmente a que conhecemos como Canto Gregoriano.

[2] O Escapulário do Carmo está ligado a uma tradição carmelita, na qual, Nossa Senhora do Carmo teria aparecido a São Simão Stock, em 1251, trazendo o escapulário na mão e dizendo: “aquele que fizesse parte da Ordem (recebesse e usasse o escapulário como sinal dessa pertença) seria salvo definitivamente. Portanto, o Escapulário é um sinal externo da devoção a Maria. O escapulário recorda aos seus utilizadores o compromisso da Ordem Carmelita e o seu modo de vida e a dimensão mariana do carisma carmelita

[3] Governou a Igreja durante 19 anos (1939-1958), a sua ação durante a II Guerra Mundial tem sido alvo de debates e polêmicas.

[4] Frades da Antiga Observância

[5] Frades reformados por Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz em 1593.

[6] Nome mais comum que se dá aos templos das tradições afrobrasileiras, entre elas o Xangô e a Umbanda.

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Resumo: “Alianças Políticas Em Pernambuco: A(S) Frentes(S) Do Recife (1955-1964)”, de Taciana Mendonça Santos

Airton de Souza Melo

  

Resumo apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina História da Cultura Brasileira: Leitura Dirigida: História Cultural do Nordeste, ministrada pelo prof. Dr. Severino Vicente da Silva do Programa de Pós-Graduação em História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco.

 

 

  

Recife, novembro de 2010.

 

A Frente do Recife foi uma aliança interpartidária formada em 1955, para a realização de eleições municipais no Recife e que, ao longo das campanhas obteve contínuas vitórias na disputa de cargos. As idéias nacionalistas era um dos principais pontos de união entre os partidos da frente assim como a forma de enfrentar o Partido Social Democrata (PSD), a principal força política dentro de Pernambuco.

O objetivo da dissertação é defender a idéia que, ao renegociar a participação de cada partido, a aliança passava por um processo de reformulação, compreendendo que cada nova formulação era uma aliança especifica, pois a cada aliança os novos partidos e novas idéias eram levadas em conta para a realização da frente nos períodos de eleições.

Para alcançar o objetivo pretendido, Santos analisa a historiografia sobre o tema, o jornal Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, tabelas eleitorais e documentos dos grupos políticos. A partir dessa metodologia que Santos levanta a hipótese que houve “Frentes do Recife”, e consegue defende-la.

Na introdução da dissertação é apresentado o quadro político dos anos 1950, que motivou para as eleições municipais do Recife em 1955, a formação da primeira Frente do recife com a participação dos Partidos PSB, PTB e PCB, mesmo este ultimo estando ilegal seus militantes participavam ativamente da política brasileira. Alem disso explica como foram divididos os capítulos.

O trabalho esta dividido em três capítulos mais as considerações finais. O primeiro capítulo intitulado “Construindo a Frente do Recife – Trajetória política e historiográfica”, o segundo capítulo “Edificando uma estrutura democrática – o universo das leis”, o terceiro capítulo intitulado “A conquista do poder e os desafios da transição”.

No primeiro capítulo: Construindo a Frente do Recife – Trajetória política e historiográfica, Santos descreve as negociações ocorridas antes de cada campanha eleitoral entre 1955 – 1963 e analisando os partidos que comportam cada frente do Recife. Explica que a Frente do Recife não foi um fenômeno único o país, mas ocorreram alianças semelhantes em outros estados.

Nas eleições de 1958, a Frente do Recife (PCB, PSB e PTB) tem a concentração dos votos da capital, mas o agreste e o sertão eram redutos do PSD. No entanto a “esquerda dissidente” do PSD forma aliança para lançar como candidatos a governador e vice Cid Sampaio e Pelópidas Silveira, pela Frente do Recife. Com isso é analisado que a frente vai sofrendo novas composições e também há rupturas com a saída de partidos que não voltam a participar da frente em futuras eleições. Nas eleições municipais de 1959, Miguel Arraes (PST) o candidato da Frente do Recife foi eleito. Na mesma eleição o PTB não apoiou a Frente e lançou candidato.

Ainda no primeiro capítulo é feita a analise historiográfica das principais obras a cerca da Frente do Recife, onde Santos analisa cada uma das obras dialogando com seu objetivo que é provar que existiram “Frentes do Recife”. A partir da analise da historiografia sobre o tema a autora defende a idéia que a criação e consolidação de uma frente oposicionista seriam fruto de um amplo desejo de reformas sociais, sustentado por vários setores da sociedade. Pernambuco comunga com fatores comuns a outras regiões.

O segundo capítulo intitulado “Edificando uma estrutura democrática – o universo das leis” apresenta e analisa como foram feitas as leis democráticas e suas implicações no período proposto pela autora. O caráter aparente da constituição que dividia os poderes para funcionar democraticamente. O capítulo vai destacar a lei Agamenon Magalhães de 1945, que recriou a justiça eleitoral no Brasil, regulando o alistamento eleitoral e as eleições.

No terceiro capítulo, A conquista do poder e os desafios da transição, a autora estuda os acordos e desacordos durante o período de mandatos de representantes das frentes do Recife. A importância do poder judiciário junto às disputas políticas. Ainda no terceiro capítulo, Santos explica acontecimentos políticos que marcaram o período das Frentes do Recife como o “causo dos gatos” e a “batalha da acumulação”.

Nas considerações finais a autora afirma que, embora coligados nas Frentes do recife, os partidos defendiam seus próprios interesses, pois tinham uma composição diversa. E a partir de sua analise historiográfica e das fontes afirma comprovar que no estado de Pernambuco houve Frentes do Recife, que a cada eleição se reformulava com ideais diferentes de acordo com os partidos e forças participantes.

 

 

Referência Bibliográfica

 

SANTOS, Taciana Mendonça. Alianças Políticas: A(s) Frente(s) do Recife (1955-1964). Recife: UFPE, Dissertação de Mestrado, 2008.

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 04 dez 2010 @ 7:08 AM 

  

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

 

 

 

                                                                     Disciplina: Problemas da História do Nordeste

Professor: Severino Vicente

    Alunos: Cícero Filgueira

                      João Sacerdote

                    Rafael Arruda

 

  

 

Recife

2010

 

REPENTE NO SERTÃO DO PAJEÚ PERNAMBUCANO

 

Trabalho apresentado ao professor da disciplina Problemas da História do Nordeste, do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco.

 

  

ÍNDICE

 

1)      Introdução.

2)      Uma História do Repente no Pajeú pernambucano
Cícero Filgueira

3)       Difusão Do Repente Pelo Mundo
João Sacerdote

4)      Alguns dos principais nomes do Repente
João Sacerdote

5)      Generos Poéticos do Repente
Rafael Arruda

6)      A Missa do Poeta (Tabira-PE)
Rafael Arruda

7)      Conclusão

8)      Bibliografia

 

 

INTRODUÇÃO

 

            Neste trabalho, vamos nos deter a falar sobre o Repente, e mais especificamente o que é feito no sertão do Pajeú pernambucano. Tendo estudado a disciplina eletiva “Problemas da História do Nordeste” com o professor Severino Vicente, tentaremos encaixar as implicações históricas, sociais, políticas, econômicas, geográficas e culturais que influenciaram na formação dessa forma de arte e como ela se tornou tão importante na vida de vários nordestinos.

            Trataremos desde a origem do Repente, surgida da Literatura de cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (vinham do Norte da Península, sul da França) e também de influências Árabes até como é feito hoje no sertão do Pajeú. Abordaremos os diversos gêneros poéticos de se fazer o Repente e seus principais cantadores, como Pinto do Moneteiro e João Furiba.

            E para mostrar a concretude dos repentistas na região do Pajeú, falaremos da Missa do Poeta, que é realizada hoje em Tabira-PE, mas teve sua primeira edição em Serra Talhada-PE.

 

Uma História do Repente no Pajeú Pernambucano

O Repente surge como uma arte de improvisar, de divertir e aguçar o imaginário do povo do Sertão. Forma um dos gêneros poético-musicais mais importantes da cultura nordestina, o Repente (no caso desse trabalho focalizamos o Repente de Viola do sertão do Pajeú pernambucano). O Repente de Viola se torna um elemento que fará de seu praticante, o repentista, uma espécie de pessoa dotada de um dom especial de improvisar que, como alguns dos repentistas citam, a inspiração vem do som da sua viola. Sua origem está juntamente com a Literatura de Cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (principalmente do Norte da Península, sul da França). Também sofreu influência dos árabes que migraram do norte da África e viveram na parte sul da Península do século VIII ao XV quando houve a Reconquista Espanhola. A influência da África também está presente na poesia de improviso (Repente) no caso, por exemplo, o Coco de Embolada e Maracatu, sem contar do próprio Repente que tem em sua raiz a cultura africana negra que, além dos trovadores, também eram exímios improvisadores[1].

O verso como forma de contar histórias está arraigada na cultura Ocidental desde os tempos dos gregos antigos, como as famosas obras de Homero, que com os versos mostrou a história da grande batalha dos gregos contra os troianos nas obras Ilíada e Odisséia. Os contadores de histórias utilizavam do verso para mostrar os eventos porque era de mais fácil fixação por parte da população, pois a história fixava no imaginário quase como uma música. E esse papel coube também aos menestréis, trovadores e jograis que faziam o imaginário da população nas feiras da Idade média e início da Moderna. É nesse meio que surge o cordel, com o advento da imprensa (inventada por Gutenberg no século XV) uma forma de publicar as histórias, mitos, contos populares em geral de um povo através de versos, que eram vendidos em folhetins pendurados por cordões nas feiras populares e, auxiliando o cordel, aparece a xilogravura como uma forma de chamar atenção do indivíduo para a história através de imagens, que muitas vezes vinham gravadas seres mitológicos, anjos e demônios, etc. Câmara Cascudo assegura ser o cantador um “descendente do Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos, do Gleeman anglo-saxão, dos Moganis e Metris árabes, do velálica da índia, dos Runóias da Finlândia, dos bardos armoricanos, dos escaldos da Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres cantadores da Idade Média. Canta ele, como há séculos, a história da região e a gesta rude do homem”[2]. Sobre a origem do Repente, o poeta Sebastião Dias declama:

Foi na Grécia inspiração

Nos tempos anteriores

Na Europa fez história

Dos antigos trovadores

E no nordeste é a vida

Dos poetas cantadores

 

Os menestréis eram errantes contadores de histórias que usavam o instrumento de corda, o alaúde, para melhor sonorizar seus versos e deixar a história mais agradável aos ouvidos do publico, que desproviam da escrita e tinham a oralidade e a memória como fonte da cultura. O alaúde também era um instrumento bastante utilizado pelos árabes que, como já vimos, conviveu com os ibéricos e ajudaram a difundir o alaúde. E no contato com esse povo este instrumento sofreu várias modificações fazendo com que mais tarde recebesse o nome de “Vihuela”, que teve no século XVI sua grande fase. Posteriormente uma variante da “Vihuela” de quatro cordas ganha mais duas cordas e passa a ser chamada de Guitarra. Esses instrumentos tinham em sua maioria dez trastes o que se assemelha em muito com a “Viola Meia-Regra” encontrada no Sertão. Portanto temos um elo em comum com a tradição dos errantes europeus com os violeiros sertanejos.

 

A viola como conhecemos hoje com cinco pares de cordas foi desenvolvida ainda na Península Ibérica durante a segunda metade do século XVI, já no século XVII surge outra variante que acrescenta nessas dez cordas mais duas formando assim um instrumento de doze cordas. Tal instrumento ficou conhecido em Portugal como viola, na Espanha ainda continuou a ser chamada de guitarra. A importância da viola é tanta que podemos sintetizar nessa citação do poeta João Paraibano:

“A viola é minha companheira, é uma arma, é minha fonte de inspiração, é por onde tudo começa…”.

Os poetas do Repente chegam ao Brasil durante a colonização portuguesa e se fixaram principalmente na Bahia, Capital do Governo-Geral. Eram os poetas da literatura de oral. No entanto, somente depois de 1763 começam a surgir os poetas com as características tipicamente brasileiras. Fato esse que tem como principal causa a falta de difusão da poesia escrita, que somente cria força no século XX, no caso do Cordel, quando os índices de analfabetismo começam a cair no Nordeste e, também, pelo maior fortalecimento da imprensa.

Com o passar do tempo o Cordel e Repente de origem portuguesa foi adquirindo particularidades e características tipicamente nordestinas, apesar de também ter se irradiado para outras regiões do país. A Literatura Popular em Folhetos (outra denominação dada posteriormente pelos estudiosos e considerada até hoje a mais correta) passou a retratar em suas histórias a realidade, a cultura e as crendices do povo sertanejo.

No entanto, foi no Sertão do Pajeú pernambucano que o Repente de Viola criou sua forma convencional por volta de meados do século XIX. Contudo, os primeiros grandes cantadores vieram da Paraíba, na região da cidade de Texeira-PB (divisa com Pernambuco na cidade de Brejinho de São José-PE), tendo seus principais representantes Germano da Lagoa, Hugolino Nunes da Costa, Silvino Pirauá, Romano do Texeira, entre outros; considerados esses pelo estudioso Bráulio Tavares como os pais do Repente brasileiro. A primeira cantoria realizada com dois cantadores com registro na história da arte popular aconteceu em 1870, na vila de Patos, no estado da Paraíba, com os repentistas Inácio da Catingueira e Romano do Teixeira, no local denominado Casa do Mercado. Essa cantoria foi toda em desafio e durou uma semana inteira. Os cantadores repousavam durante o dia, arrumando idéias, sem contato entre si, para a noite se debaterem. No final da semana, numa avaliação pelo povo que compareceu à disputa, não houve vencedor, apenas o cantador Romano do Teixeira se deu por rendido em função do cansaço. A partir daí, apesar das dificuldades de acesso e de comunicação, começou a cantoria a dois, cuja finalidade era o embate para um cantador vencer o outro. Por isto, o violeiro, a convite de admiradores, enfrentava viagens longas, preparando idéias, para descarregar no companheiro, com o fim de vencê-lo na arte. As cantorias duravam noite inteira, e o cantador vencido emborcava a viola, como gesto de demonstrar à platéia que se considerava derrotado. Os assuntos eram os mais variados possíveis, porém giravam, principalmente, sobre ciência, história sagrada, contos religiosos, etc. O cantador vencido não tinha direito ao dinheiro apurado na cantoria, ficando toda a quantia com o vencedor.

As vitórias é que davam nome aos cantadores, que passavam a serem chamados pelos fazendeiros para encontros marcados, com muita antecedência, com o fim de ser feito o confronto. Cada um dos dois cantadores convidados para a cantoria não sabia quem seria o seu parceiro, passando a conhecê-lo somente no momento da apresentação. Mesmos chegando um dia ou dois antes da cantoria, os repentistas permaneciam incomunicáveis, em áreas isoladas. O repentista vencedor da batalha colocava nas cravelhas da viola uma fita colorida como forma de ir colecionando as vitórias da arte.

Os primeiros cantadores do século XX foram de suma importância para a cantoria dos dias de hoje, pois esses marcaram e são considerados os melhora/maiores cantadores de todos os tempos, como uma espécie de grandes heróis do Repente. Porém as informações sobre esses cantadores são muito escassas, só temos maior conhecimento desses poetas já no fim da carreira. Os principais representantes desse período são os irmãos Batistas de São José do Egito (Otacílio, Dimas e Lourival), o mais famoso e considerado o melhor improvisador, Pinto do Monteiro, entre outros. Esses poetas tiveram seu auge por volta dos anos 40 e 50, mas até os anos 70 ainda estavam em atividade.

 Hoje, com a modernização dos tempos, com o rádio e com o fácil acesso à escola por parte dos cantadores, a cantoria ganhou nova roupagem e, por conseqüência, novo conceito. São várias as definições de cantoria hoje, entre eles um dos conceitos mais simples, pode-se dizer que a cantoria é a apresentação, sem disputa, sem luta, sem duelo, de dois repentistas ou poetas populares, a convite de um interessado para uma platéia por este escolhida. Portanto, cantoria é o momento em que se encontram presentes cantadores, viola e público, com o ânimo de apresentação. Existem dois tipos basicamente de cantoria, que são: o “Pé-de-parede” que é quando ocorre um festival onde todos os participantes improvisam na hora; e o “Balaio” que é quando os cantadores ficam sabendo dos motes antes do festival e já chegam pelo menos com uma ideia formada na cabeça.

 Apesar de se dizer, sem duelo, existe o momento da cantoria em que a platéia geralmente pede o famoso “Desafio”, que é um gênero no qual os repentistas se debatem em forma de gracejo, engrandecendo-se e apontando defeitos entre si, sob os acalorados aplausos do povo presente, tudo terminando sem deixar mágoa ou qualquer rancor.

Os cantadores de hoje são homens de estudo, bem informados e atualizados com os acontecimentos do mundo, isto porque a platéia de cantoria também está bem instruída e solicita, nos eventos, os mais variados temas, principalmente da atualidade, como: política, futebol, etc., além de fatos sociais e outros que envolvem a lei da natureza.

A cantoria, por ter brotado inicialmente no meio rural do nordeste, com difícil desenvolvimento, ainda não é reconhecida por grande parcela da população brasileira, sofrendo ainda acentuada discriminação no mundo artístico.

No entanto, merece destaque o avanço que teve a cantoria no Nordeste, quando o cantador já tem abundante acesso ao rádio e até a televisão, com apresentações em clubes e teatros, inclusive, sendo tema de discussão em algumas escolas.

 

 

  

Difusão Do Repente Pelo Mundo

 

O canto de viola como conhecemos hoje teve um período no início e meados do século XX o que poderíamos chamar de “Urbanização” do Repente. Normalmente quando o repentista vai para a cidade é para contar os costumes rurais, de suas vivências para o meio urbano, ou seja, o repentista não perde suas origens no sentido artístico e tradicional. É comumente falado que mais antigamente a cantoria era 10% ( dez por cento) urbana e 90% (noventa por cento) rural, mas agora esse quadro está invertido.

A inversão brusca desse percentual se deve pela migração do homem do campo para a cidade. Com os avanços das tecnologias, indústria e setor terciário no Brasil em meados do século XX, o trabalhador rural deixa sua vida no interior e segue para os grandes centros urbanos. Os cantadores não fogem essa regra e também vão para as cidades, ganhar a sua vida. Hoje existe quatro grandes capitais do Nordeste onde se valoriza muito o Repente, são elas: Recife, Fortaleza, Natal e João Pessoa.

A cantoria também se difundiu para o sudeste, mas especificamente em São Paulo e Rio de Janeiro, que basicamente era onde a economia estava crescendo no país na época. A difusão do Repente pelo mundo está muito ligada ao êxodo rural. Por volta da década de 50, o Repente se torna mais evidente no sudeste, e se instala a partir das periferias, pois os imigrantes nordestinos não viam morar no centro e sim nas áreas mais afastadas e pobres.

Porém engana-se quem pensa que o repentista não sente falta do interior e se adaptou completamente ao meio urbano, a necessidade fez com que eles migrassem para o sudeste, mas a vida e história deles se dá no interior. O que acontece, é que a arte é comprada, o artista tem que ir onde existe o dinheiro, para poder continuar fazendo a sua arte, e isso não é ser mercenário, mas a arte não sobrevive só por arte.

Então começamos a pensar. O que mudou na vida dos repentistas nessa urbanização de sua cantoria? Em 1974, os cantadores começam a encarar sua arte como profissão, passa a criar horários para cantoria, normas, cobram ingressos, isso tudo graças a Ivanildo Vila Nova, que faz o cantador perder um pouco de sua imagem folclórica e o torna mais real, mais humano. O apologista e pesquisador Ésio Rafael nos diz que antes de Ivanildo, o cantador chegava na casa de alguém e se hospedava na casa desse tal alguém, então cantava a noite toda, na madrugada, sem horário e sem regra, sem receber nada por isso, somente em troca da casa e comida. Após Ivanilldo, o cantador de viola é mais valorizado, e começa a sua profissionalização, sua moralização e dignificação da cantoria. A urbanização só intensifica isso, e faz do cantador um profissional, onde seu tempo de carreira é extenso, dura entre 25 a 30 anos, e se for um bom cantador, pode ter estabilidade e viver de sua cantoria por toda uma vida. Através da divulgação pela televisão e rádio o cantador pode participar de vários festivais, nacionais e internacionais. 

Alguns Dos Principais Nomes Do Repente

Existem diversos repentistas no Brasil, porém vamos nos deter a falar de alguns, para o referido trabalho não ficar demasiado extenso colocaremos alguns dos principais nomes, que são:

  • Pinto do Monteiro: Severino Lourenço da Silva Pinto nasceu em 21 de novembro de 1895, uma da madrugada, morava em Carnabuinha em Monteiro–PB. A sua data de nascimento é duvidosa, pois em suas conversas ele sempre dizia ter nascido em datas diferentes, alguns dizem que ele morreu depois dos cem anos. Ele é considerado o rei do improviso e cantava tão rápido que engolia várias sílabas de sua rima. Foi da polícia e lutou contra cangaceiros, depois foi morar no Acre, época da expansão da borracha, ficou com saudade e voltou para Paraíba. No final de sua vida não usava mais viola e sim um pandeiro, por dizer que o “pacote é mais maneiro”. Morreu cego e paralítico, porém lúcido.

 

  • Lourival Batista: Conhecido também como Louro do Pajeú, nasceu em São José do Egito-PE em 6 de Janeiro de 1915, morreu em 5 de dezembro de 1992. É considerado o rei do trocadilho, quando terminou o ginásio em 1933 em Recife, saiu pelo mundo fazendo suas cantorias. Sua família era de repentistas também, era irmão de Dimas e Otacílio Batista. Lourival foi um grande parceiro do paraibano Pinto do Monteiro.

 

  • João Paraibano: Nasceu em Princesa Isabel, Paraíba, mas vive em Afogados da Ingazeira, Pernambuco, fez discos, dentre eles: “Encontro co a poesia” e “A arte da cantoria” com Ivanildo Vila Nova. È um poeta especialista em falar sobre as coisas da natureza, dizem que se o mote for sobre coisa da natureza, ele não perde para ninguém.

 

  • João Furiba: João Batista Bernardo, nasceu em 4 de julho de 1931 em Taquaritinga do Norte, Pernambuco. Começou a carreira na adolescência e seu apelido Furiba foi dado por Pinto do Monteiro, que significa “coisa sem importância”. Ele contava uma história sobre o seu nascimento e seus primeiros meses de vida que era um tanto quanto absurda, mas tinha que ser Furiba pra contar isso, pois diziam que ele era o poeta mais mentiroso da região. Ele dizia que sua mãe, jovem e inexperiente, quando o pariu em uma bomba d’água, ela pensou que tivesse abortado e saiu gritando pra dentro de casa: “Mãe, acho que abortei na beira da água”. O avô correu e encontrou, dizia ele que era do tamanho de um preá. Pegou-o ainda envolto na placenta e levou para casa, pensando que estivesse morto. Na casa ele fez alguns movimentos e viram que estava vivo, então o agasalharam e o embrulharam, e o colocaram em uma caixa de sapatos. Espalhava-se o boato que ele teria nascido de três meses, mas o mais provável era que tinha sido de sete. Muitos iam ver o menino da caixa, para ver se morria ou se sobrevivia. Em seus dois primeiros meses de vida, muito difíceis, uma coruja teria tentado lhe comer, mas a mãe lhe salvou matando a coruja com um cabo de vassoura. Após 10 meses já caminhava e a partir daí “vingou”. Depois cresceu e se tornou grande cantador de viola, bonito e saudável. João Furiba tinha dessas histórias. 

 

  •  Ivanildo Vila Nova: Nasceu em Caruaru-PE, em 13 de outubro de 1945 e quando fala da história dos cantadores de viola. Podemos dividir em antes e depois de Ivanildo. Antes a cantoria era amadora, feita para simples divertimento, era da boêmia, depois de Ivanildo, o cantador se profissionaliza e se torna um artista verdadeiramente reconhecido. As características da poesia de Ivanildo são a sutileza dos seus versos e a grande variedade temática que ele consegue falar. Reconhecido como profissionalizador da cantoria, em 2000 é eleito o cantador do século XX, eleição feita pelos líderes das Associações de Cantadores do Nordeste. Tem orgulho de dizer que é tradicional, e que sua viola não é eletrificada, mas reconhece que tem que acompanhar os novos tempos, se não vai ficar para trás. Ivanildo é um homem muito inteligente, e sabendo que o Repente muda, assim como tudo muda com o tempo, expande seus conhecimentos gerais e consegue continuar fazendo suas cantorias até hoje. 

 

  • Dedé Monteiro: José Rufino da Costa Neto, não perdeu suas origens e é muito regionalista. Em suas rimas a cidade de Tabira, onde nasceu, está muito presente. Ele serve, respira, decanta, vive, pensa, louva, recita e ama Tabira. Em 1984, escreveu o livro “Retalhos do Pajeú”, dizem que ele fica “tabirando” demais em seus versos, e que isso pode ser negativo, que talvez o seu bairrismo dificulte ser mais reconhecido. Em 1994 escreveu “Mais um baú de retalhos”, continuação de sua “Tabiragem”. Uma vez, Santana, O cantador, disse em uma entrevista ao TV Jornal Meio-Dia ao ser perguntado se o seu regionalismo não o atrapalhava de ser um sucesso mundial. Ele respondeu dessa maneira: “Nada mais universal que a arte regional”. De fato, o rock, o punk, a bossa nova, o baião e a cantoria de viola são artes regionais, que o mundo tomou para si, pois a arte quando é boa deixa de ser pessoal e exclusiva e se torna de todos. Dedé Monteiro é tabirense e fala de Tabira, mas sua arte é bela e sincera, e por isso o seu bairrismo pode se tornar universal com toda certeza. 

 

  • Rogaciano Leite: Nasceu em 7 de outubro de 1929 em São José do Egito, Pernambuco. Filho de agricultor iniciou sua carreira aos 15 anos quando desafiou o cantador Amaro Bernadito na cidade de Patos- Paraíba. Depois foi morar no Rio Grande do Norte, onde fez amizade com Manoel bandeira, grande escritor. Aos 29 anos foi para Caruaru, Pernambuco, onde aparentava um programa de rádio, pouco depois foi para Fortaleza, Ceará e se tornou bancário. Teve 6 filhos e em 1968 foi morar na França e depois Rússia. Neste último país, deixou gravado um monumento na Praça de Moscou o poema “Os trabalhadores”. Foi jornalista e era formado em direito e letras. Faleceu com um infarto. Rogaciano era um repentista menos regional e mais formal, mais intelectualizado. Morou em diversos lugares conheceu diversas culturas, fez da cantoria uma forma de expressão das injustiças que via pelo mundo. 

 

  • Mané Filó : Manoel Filomeno de Menezes, nasceu no dia 13 de outubro de 1930, em Afogados da Ingazeira. Tinha onze irmãos. Dizem ser um poeta por vocação e um cigano por instinto, pois passou a vida mudando de uma cidade para outra. Morou em Recife, Paulo Afonso, Monteiro, Arcoverde, São José do Egito, onde lá construiu uma empresa de auto-peças e que ganhava um bom dinheiro. Era conhecido como um homem muito generoso, e distribuía sua riqueza, tanto com os que precisavam com os que não precisavam e por isso sua vida foi de altos e baixos. Talvez não tenha sido um dos melhores cantadores e mais famosos propositalmente, por generosidade, para não ofuscar o brilho dos seus companheiros. 

 

  • Job Patriota: Job Patriota de Lima nasceu no sítio Cacimbas em Itapetim, Pajeú, sertão pernambucano. Chegou ao mundo no dia 1 de janeiro de 1929 e faleceu em 11 de outubro de 1992, foram 63 anos de poesia como gostam de falar seus amigos. Quando Job morreu, foi embora com ele uma antiga tradição, a dos “Líricos”, que eras os poetas que tocavam acompanhados da lira, instrumento de cordas da Grécia Antiga. Conhecido como a “criança” dos cantadores, por rir e chorar a qualquer momento, não ligava para o dinheiro e dizia sempre “Se pudesse, pagava para cantar”. Escreveu o livro “Na senda do lirismo”, mostrando ai o diferencial na cantoria com a lira.

 

  • Mocinha de Passira: Antes mesmo de Leila Diniz se deixar fotografar grávida de biquíni em Ipanema e escandalizar a sociedade brasileira da época, Maria Alexandrina da Silva, Mocinha de Passira, enfrentava nos anos 50 as duras normas nordestinas para mulheres. Uma das poucas presenças femininas no meio dos repentistas, hoje aos 65 anos se considera boêmia, bebe uísque e fala palavrão. Casou uma vez com Duda Passira, onde ela relata como foi a história do seu casamento: 

 

“Casei no dia 3 de dezembro, no dia 5 de maio eu já tinha quebrado tudo. O negócio dele era me levar pros forrós a pulso, pra ficar me tocaiando. Ninguém tocaia ninguém. Não deu certo. Um dia amanheci virada, apanhei um cacete que havia lá. A primeira coisa que quebrei foi a sanfona dele. Está manifestada, gritou ele, e foi buscar uns catimbozeiros. Eu avisei que o primeiro que entrasse quebrava no cacete, e expliquei: O problema é que eu vou embora e ele não quer deixar. Quando arrumo minhas coisas, olho para trás e está ele se enforcando. Corri, cortei a corda, e ele caiu em cima do fogão. Fui embora.”

 

 Mocinha sempre lutou contra o machismo da sua profissão, mulher de fibra e coragem venceu barreiras e hoje é um dos principais nomes do Repente.

 

Algumas Poesias

  • Pinto do Monteiro e João Furiba:

Há tempo em que eu não vinha

nesta santa moradia

visitar o velho Pinto
Me traz tanta alegria

Que é mesmo que ter tirado
O bolão da loteria”

Pinto com muito bom humor, disse:

“Eu não imaginaria

que você chegasse agora

Com essa sua presença

Obtive uma melhora

Quer ver eu ficar bom mesm

É quando você for embora”

 

  • Lourival Batista

Numa cantoria em São José do Egito, um rapaz que atendia pelo nome de DECA, ouvia os belos improvisos de Lourival, sem manifestar qualquer desejo de colaborar com os cantadores. A certa altura da cantoria, Lourival dirigiu-se ao rapaz, tomando por base as quatro letras que formavam seu apelido:

Boto o “d” e boto o “e”
Boto o “c” e boto o “a”
Depois um acento agudo
Em vez de DECA, é decá!
Tiro o “d” e tiro o “e”
Seu Deca, venha até cá.

 Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou

  • Ivanildo Vilanova

Eu já fui igualmente um samurai,
porém vi se quebrar minha coluna,
que a volta no jogo da fortuna,
pois a gente não sabe aonde cai,
eu fui filho, fui noivo, hoje sou pai,
já fui neto, e já hoje sou avô,
e o relógio do tempo não quebrou,
porém deu um defeito no seu pino.
Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou.

  • Mané Filóquando o sertão vira poesia

    “O sopro da ventania
    Torce a calda do novilho
    O pelo de um gato preto
    Começa a perder o brilho
    Depois de ter se coçado
    Num caco de torrar milho.

    Quando falta a companheira
    Na vida d um passarinho
    Ele busca um pau bem alto
    Para construir seu ninho
    Devido ser menos triste
    Para quem vive sozinho.

    Da meia noite em diante
    Ninguém mais sabe meu giro
    Eu começo gaguejando
    Porém depois que me inspiro
    Tenho a grandeza do tato
    De um cego jogando firo.”

Gêneros Poéticos no Repente

           

            O Repente como cantoria improvisada é bastante diverso em gêneros e estilos poéticos. A forma da construção de seus versos e estrofes é variável, tendo em comum o caráter de improviso, por outro lado a estrutura das poesias se altera conforme as ocasiões em que se pedem determinados tipos, como numa mesa de glosa onde o estilo homônimo é pedido ou de acordo com a criatividade do repentista que é livre para escolher determinado gênero e até modificá-lo criando outro. A imaginação e capacidade de improvisação nunca é desmerecida.

            Existem vários gêneros poéticos referentes ao Repente entre eles os principais são: a sextilha, galope a beira-mar, décima, toada alagoana, moirão, septilha, oitava . Cada um desses estilos tem suas peculiaridades em relação a suas estruturas e a forma de composição e a construção de suas rimas. Além desses estilos principais existem ramificações de suas formas muitas vezes por conta da criatividade e das diferenças regionais dos repentistas.

            O estilo mais recorrente é a sextilha, mais difundida e apreciada talvez devido a sua simplicidade e facilidade de improvisação. A sextilha é constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação, sendo rimados os versos pares entre si, ou seja, a segunda, quarta e sexta rimam entre si e os demais versos ficam brancos. A septilha é outro estilo também apreciado e bastante parecido a sextilha. Também chamado de Sete Pés rima os versos pares até o quarto, como na Sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto criado pelo Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador no início do século XX. O esquema das rimas desses dois estilos é exemplificado nos versos de Leandro Gomes de Barros na sextilha e do criador da septilha:

 

Meus versos inda são do tempo�
Que as coisas eram de graça:�
 Pano medido por vara,�
 Terra medida por braça,�
 E um cabelo da barba�
Era uma letra na praça.

 

Amigo José Gonçalves,�
Amanhã cedinho, vá�
A Coatis, onde reside�
Compadre João Pirauá;�
Diga a ele dessa vez,�
Que amanhã das seis a seis,�
Deus querendo, eu chego lá!

 

Existem ainda a Oitava e Décima que apresentam a quantidade de linhas indicada  em seus nomes. Como o nome já sugere a Oitava, também conhecida como quadrão, é composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta rima a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. A Décima é outro estilo muito difundido. Embora de origem clássica, a Décima é um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a receber a denominação de glosa. Como o próprio nome diz Décima é uma estrofe ou estância de dez versos de sete sílabas, assim distribuídos: o primeiro rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. Segue-se exemplos desses dois estilos respectivos o primeiro um quadrão de Lourival Batista e depois uma glosa (décima) de Zé Limeira:

 

O Cantador repentista,�
Em todo ponto de viste,�
Precisa ser um artista�
De fina imaginação,�
Para dar capricho à arte,�
E ter nome em toda parte,�
Honrando o grande estandarte�
Dos oito pés de Quadrão!

 

 

 

Mais de trinta da sua qualistria

Não me faz eu correr nem ter sobrosso

Eu agarro a tacaca no pescoço

E carrego pra minha freguesia

Viva João, viva Zé, viva Maria

Viva a lua que o rato não lambeu

Viva o rato que a lua não roeu

Zé Limeira só canta desse jeito

Você hoje me paga o que tem feito

Com os poetas mais fracos do que eu.

 

 

            A Toada Alagoana é um gênero mais raro, mas de rica construção e de rimas encadeadas. Nessa estrofe de Otacílio Batista pode-se ver a toada que norteia esta poesia:

Vai Otacílio Batista,�
Repentista,�
Neste momento tão forte,�
Num estilo diferente,�
No Repente,�
Correndo em busca da sorte…�
Em noite de lua cheia,�
Sou a sereia�
Dos oceanos do norte!

 

            O galope a beira-mar é outro gênero bastante peculiar. Sua construção é pautada por dez versos de onze sílabas, com o estribilho cuja palavra final é mar. Normalmente é utilizado em poesias com temáticas praieiras. Suas estrofes são de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica, e que finda com o verso “cantando galope na beira do mar” ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra “mar”. Às vezes, porém, o primeiro, o segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é “meu galope à beira-mar”. É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeiras sílabas como é observado nesses versos de Zé Limeira:

Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato

Capando carneiro no cerco do bode

Não gosto de feme que vai no pagode

O gato fareja no rastro do rato

Carcaça de besta, suvaco de pato

Jumento, raposa, cancão e preá

Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará

Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão

Dom Pedro Segundo de sela e gibão

Cantando galope na beira do mar.

 

O Moirão é mais um dos estilos altamente difundidos e em paralelo um dos que mais sofreu alterações em suas estruturas. Tradicionalmente é uma modalidade na qual dois cantadores se revezam na feição da estrofe. Esta constituída por seis versos é feita de modo intercalado pelos poetas: as duas primeiras frases são de autoria de um cantador as duas próximas de outro e as duas últimas daquele que iniciou a estrofe. Exemplo de Moirão é este verso de Romano e Inácio:

 

Seu Romano, estão dizendo�
Que nós não cantamos bem!�
Pra cantar igual a nós,�
Aqui, não vejo ninguém!�
E o diabo que disse isto�
É o pior que aqui tem!

 

Com o passar do tempo o Moirão foi sendo modificado e ganhando novos contornos. Exemplos é o Moirão de Sete Pés composto por uma estrofe de sete linhas cabendo, ao iniciante, a formação de cinco versos, isto é, os dois primeiros e os três finais; enquanto a cargo do segundo cantador ficam os versos de ordem três e quatro e o Moirão Trocado que difere do anterior pelo aparecimento de palavras que se alternam nas quatro primeiras linhas da estância assim como nos mostra Lourival Batista e Severino Pinto:

L: Eu, da graça, faço o riso,�
     E, do riso, faço a graça!�
P: E da massa, faço o pão,�
    E, do pão, eu faço a massa!�
L:Você desgraçou a peça:�
    Que u’a misturada dessa�
    Não há padeiro que faça! 

 

            Dessa forma pode-se ver a pluralidade de gêneros que o Repente conseguiu produzir. Afora estes modelos já citados existem muitos outros que vão se ramificando e desenvolvendo como o Martelo Agalopado, Parcela, Gemedeira, Gabinete entre muitos outros. A única coisa que parece restringi-los é a criatividade e a capacidade de improvisação dos poetas repentistas que vivem para cantar tais gêneros ao lado de suas violas espalhando a tradição que tanto prezam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Missa do Poeta (Tabira-PE)

 

      A missa do poeta é realizada na cidade de Tabira localizada no sertão do Pajeú pernambucano. Grande evento que mescla várias práticas da cultura popular nordestina tais como festivais de sanfoneiros e apresentações de repentistas, a missa, entretanto nasceu com o intuito de homenagear Zé Marcolino, compositor e poeta de Sumé na Paraíba mas que viveu e ganhou reconhecimento em Serra Talhada. Contudo ano a ano a Missa do Poeta foi ganhando cada vez mais uma conotação de celebração e promoção da poesia popular especialmente o Repente que na região é difundido e apreciado visto a grande quantidade de poetas e violeiros que são originários não só de Tabira mas da região do Pajeú em geral. Este evento é citado neste trabalho para que se possa perceber a força e a forma como este traço da cultura popular que é o Repente é vivido na tradição nordestina e divulgado continuamente.

      A celebração da missa nasceu por iniciativa do padre Assis Rocha com a intenção de homenagear Zé Marcolino. Este foi grande compositor e teve suas músicas e poesias gravadas por vários intérpretes o mais proeminente Luiz Gonzaga que com músicas como “Cacimba Nova”, “Maribondo”, “Numa Sala de Reboco” e “Cantiga de Vem-vem” só para citar algumas das mais de cinqüenta gravadas por ele espalhou a arte de Marcolino por onde passou. Marcolino apesar de ser paraibano de Sumé viveu parte de sua vida em Serra Talhada onde ficou até sua morte em 20 de setembro de 1987 num acidente de carro. Reconhecido por sua obra em Pernambuco muito mais do que m sua terra de origem, no ano seguinte a seu falecimento a primeira Missa do Poeta foi celebrado em Serra Talhada local que era saudoso desta figura e que adotou três dias de luto por sua morte. A missa ficaria até 1990 em Serra Talhada onde o padre Assis Rocha era vigário, a partir de 1991 foi mudada seu local por conta da falta de patrocínio da prefeitura e passou a ser realizada em Tabira onde Assis era pároco. Desde então fixada em Tabira a missa ganhou cada vez mais importância e reconhecimento. Hoje em dia ela é organizada pela APPTA (Associação de Poetas e Prosadores de Tabira) tendo em 2009 alcançado a vigésima segunda edição.

      Nas festividades da Missa do Poeta, que ocorre sempre no terceiro sábado de setembro por conta da data da morte de Zé Marcolino, estão inseridos uma celebração litúrgica e um show cultural. Outros eventos acabaram por serem assimilados e incorporados a missa ainda que não ocorram em conjunto com esta mas estejam relacionadas diretamente.  Entre esses esta o Festival de Sanfoneiros o Festival Zé Liberal, a Noite de Autógrafos e a Mesa de Glosas.

      A missa em homenagem e memória a Zé Marcolino também faz homenagem a outras pessoas, poetas ou não, mas que de alguma forma contribuíram para a difusão da cultura popular. Alguns desses homenageados foram; Zé Catota, Manoel Filó, padre Assis Rocha,Albino Pereira, Zé Feitosa, Cazuza Nunes, Jaci Paulino, entre outros. A missa tem as atribuições idênticas a uma missa comum a diferença é que em conjunto com o padre os poetas também participam ativamente na mensagem e pregação passada. A abertura da missa, assim como os comentários dos textos lidos são feitos através de versos como este de Dedé Monteiro na edição de 2009 que serviu como mensagem inicial e abertura da missa:

Oh! bem vindos, vocês, irmãos queridos!

O poeta Jesus, que à terra veio,

Garantiu que estaria em nosso meio

Toda vez que nos visse reunidos.

Esta festa feliz tem dois sentidos,

Sacrossantos e doces como um hino:

Celebrar o amor do pai divino,

Que nos ama e nos livra dos pecados,

E assistir os poetas inspirados

Relembrando o poeta Marcolino!

 

Essa participação direta dos poetas na liturgia acaba por incomodar as alas mais ortodoxas da igreja. Porém os poetas justificam sua participação ao não profanar as liturgias adicionando a elas a poesia e a viola em seu papel de cristãos atuantes na celebração que reúne a fé católica a cultura e memória popular. Logo após a missa dá-se o início de shows para festejar o evento.

      Em conjunto a Missa do Poeta acontecem outros eventos, um deles é o Festival de Sanfoneiros que acontece desde 2006. Há ainda o Festival Zé Liberal feito para homenagear este poeta que foi o primeiro presidente da APPTA, realizado pela PAVAM ( Patrulha de Violeiros Amadores de Tabira) e incluída nas festividades da missa sendo realizada na quarta-feira anterior a missa. Esse festival conta com a participação de poetas amadores e profissionais que atuam em duplas improvisando sobre um tema dado na forma de sextilhas e mote em decassílabos. Existe o espaço para a divulgação da literatura na Noite de Autógrafos que reúne escritores, cordelistas, poetas que divulgam suas obras neste espaço que ocorre na quinta-feira precedente ao sábado da missa. Entretanto talvez a maior festividade que acontece junto a missa seja a Mesa de Glosas que acontece na sexta-feira véspera da Missa do Poeta. Sendo realizada desde 1997 em conjunto com a missa a Mesa de Glosas trata de uma apresentação de Repente sem viola onde vários repentistas advindos principalmente da região do Pajeú improvisam glosas com os motes dados na hora sem conhecimento prévio.

      A participação dos cidadãos e suas influências nessa festa e na conservação e divulgação da poesia popular é sentida diretamente em pelo menos dois espaços. O primeiro o Concurso de Trovas de Tabira que faz uma espécie de competição para escolher o melhor verso sobre cada tema dado pela organização. Esta acontece na ocasião da Mesa de Autógrafos e tem a participação das pessoas da cidade. O outro espaço é o Recital de Poesia da Escola Pedro Pires Pereira que tem o intuito de homenagear um poeta através dos versos feitos por seus alunos. Em 2009 o homenageado foi Dedé Monteiro e acontece no meso dia da Mesa de Glosas para que possa ter a presença de alguns de seus poetas. Aqui cito o primeiro lugar do concurso de trovas com a temática Deus, o aluno João Vitor da sexta série da escola Pedro Pires:

 

Deus mora dentro de mim,

É minha maior paixão.

Por isso que vivo assim

Com amor no coração.

 

 E esta poesia Brasil de Maria Aparecida Rodrigues aluna do segundo ano da mesma escola que participou do recital:

 

Brasil, cadê tua glória?

Onde esta tua igualdade?

Por que os teus próprios filhos

Não agem com lealdade?

Teu progresso eu não conheço,

O que eu vejo é só maldade

.

Pátria amada, idolatrada,

És terra de grande porte,

Embora ainda não tenhas

No decorrer tanta sorte,

Por causa da injustiça,

Levando o teu povo à morte.

 

Por que tanta violência?

Pra que tanto preconceito?

O Brasil só vai pra frente

Se tratarem com respeito

A paz, o amor a esperança,

E o orgulho for desfeito.

 

A política tão corrupta

Ganha espaço todo dia.

Nosso país não merece

Desemprego e covardia.

Nosso futuro inda espera

Mais amor, mais harmonia.

 

Espero de ti, Brasil,

Que haja força e mudança,

Mas que mude pra melhor,

Acabando com a vingança,

Ódio, desordem e miséria,

Seja um país de esperança!

 

Queria ver meu Brasil

Sem ter nada a desejar,

Ter emprego e moradia

E o povo saber amar,

Pois é um lugar bendito

Este país tão bonito,

Minha pátria, meu lugar!!!

 

      Dessa forma o Repente é difundido e perpetuado na região assim como uma prática cultural extremamente afeiçoada aos habitantes. Marca do nordeste que é salvaguardada na Missa do Poeta o Repente continua sua tradição.

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

O Repente, arte nordestina cantada e recitada com viola em forma de verso carrega em sua estética e origem tradições européias e africanas e em seu conteúdo a mais pura tradição nordestina que conta e canta suas práticas e vivências. Ao longo do tempo passou do amadorismo ligado estritamente a paixão pelo improviso e tradição até o nível em que o cantador se profissionalizou e passou a viver de sua arte, migrou do interior para cidade, adicionou novas temáticas e desenvolveu novas modalidades e gêneros para sua poesia. Entretanto suas raízes continuam conservadas e principalmente do sertão do Pajeú é que frutificam as sementes do Repente que não param de florescer como um puro testemunho de cultura popular. A Missa do Poeta nesse contexto surge como perpetuadora e divulgadora do Repente além de homenagear e lembrar os cantadores como foi mostrado.

            Como disse um intelectual finlandês anônimo do século XIX:

Nenhuma pátria pode existir sem poesia popular. A poesia não é senão o cristal em que uma nacionalidade pode se espelhar; é a fonte que traz á superfície o que há de verdadeiramente original na alma do povo.[3]

 

Ainda que se tenha que levar em conta a aura de romantismo presente nesta época as palavras deste finlandês são felizes ao tratar da poesia popular com tanto apreço e relacioná-la a identidade cultural de uma região. No nosso caso o Repente é sem dúvida espelho da tradição popular e suas falas são puro discurso de identidade para com suas regiões, ainda que cada vez mais o Repente se torne universalista aglutinando temáticas menos regionalistas e mais abrangentes. Repente arte da cantoria improvisada do Nordeste.

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

Livros:

  • LEITE, Roberta C. A voz do Sertão: Um desafio no Repente. Recife: Bagaço, 2008.
  • VERAS, Ivo Mascena. Lourival Batista Patriota. Recife: Ed. do autor, 2004.
  • PASSOS, Marcos. Antologia Poética: Retratos do Sertão. Recife: FacForm, 2009
  • A História da 22º Missa do Poeta: homenagem ao poeta Zé Marcolino, à música e à poesia do Nordeste. Organização: Associação dos Poetas e Prosadores de Tabira. – Tabira,PE: APPTA, 2010.
  • MONTEIRO, Dedé. Mais um Baú de Retalhos. Tabira: Ed Universitária UFPE, 1994.
  • BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Artigos:

  • “Cantoria de Viola: Expressão de alegria e esperança do povo nordestino”, José Maria Tenório Rocha.
  • “Cultura Greco-Romana Nos Cantares do Povo Nordestino”, José Maria Tenório Rocha.
  • “Da Cantoria Convencional Ao Festival De Viola”, Pedro Ernesto Filho.
  • Jornal do Comércio 08/04/2010

 

Documentário:

  • “Poetas do Repente” – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2008.
  • “Reminiscência em prosa e versos” Documentário de Taciana Lopes.

 

Sites:

 

 

 


[1] Segundo Bráulio Tavares no documentário “Poetas do Repente” produzido pela Fundação Joaquim Nabuco.

[2] Extraído do artigo “Cantoria de Viola: Expressão de alegria e esperança do povo nordestino” (Prof. José Maria Tenório Rocha)

[3] BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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Categories: Cantores populares, Cultura brasileira, História do Brasil, História do Século XX
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 04 dez 2010 @ 07 14 AM

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02 de dezembro de 1870



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