Que História é essa

Hoje na História

 

16 de junho de 1950:

Inaugurado no Rio de Janeiro o estádio do Maracanã

Aline De Biase

Aluna do 5º período de História

Bolsista da Pró-Ext

 

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

  Na década de 1940, em virtude da Segunda Grande Guerra, não houve a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Com o fim da guerra em 1945, a Europa estava abalada e em reconstrução, e por isso, a Federação Internacional de Futebol Associado – FIFA – interessada em fazer ressurgir o campeonato, estava em dificuldades em encontrar um país para sediar o evento. No Congresso da FIFA de 1946, o Brasil apresentou o seu projeto de sediar uma Copa em 1950, mudando o ano do evento que estava previsto para 1949, salvou o torneio que talvez nem fosse mais ocorrer, pelo desinteresse da comunidade internacional.

  Proposta aceita, com a decisão do presidente Eurico Gaspar Dutra iniciou-se a 2 de agosto de 1948, a  construção de um estádio de futebol gigante para ser a sede da 4ª Copa Mundial de Futebol, na capital federal. Inúmeras críticas foram feitas aos gastos dirigidos para a construção desse estádio, por desviar os investimentos que poderiam ser aplicados na melhoria das estruturas sociais brasileiras. Na contra mão dessas opiniões, estava no jornalista esportivo Mário Rodrigues Filho, que pelo seu incentivo à construção, foi homenageado, dando seu nome ao estádio.

 Assim, em 16 de junho de 1950, o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã foi inaugurado como o maior estádio de futebol do mundo. O nome Maracanã, de origem tupi-guarani, significa “semelhante a um chocalho”, uma menção ao fato de que no local onde o estádio foi construído existia uma grande quantidade de aves, chamadas Maracanã-guaçu, que emitiam sons semelhantes ao de um chocalho.

 A partida de futebol que inaugurou o estádio ocorreu no dia 17 de junho de 1950 entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo, partida vencida pelos paulistas por 3 a 1. O autor do primeiro gol no estádio foi o meio-campista Didi, da equipe carioca, e depois bi-campeão mundial de 1958 e 1962, pela seleção brasileira.

Didi, o Mestre da Folha Seca

Didi, o Mestre da Folha Seca

  A aguardada Copa do Mundo de 1950 foi iniciada em 24 de junho, com a partida entre Brasil e México, em que a seleção brasileira venceu por 4 a 0. Entretanto, ao contrário da preferência e dos rumores de vitória esperados, a seleção brasileira não ganhou a Copa. Na partida final, o Uruguai venceu o Brasil, por 2 a 0, no que é considerado um dos maiores reveses da história do futebol e esta partida ficou conhecida pelo termo espanhol “Maracanazo”.

 No Maracanã, os grandes jogadores da história do futebol brasileiro iniciaram ou consagraram suas carreiras:  a primeira vez que Pelé jogou pela seleção brasileira foi nesse estádio, em 1957 e Zico é artilheiro do estádio com 333 gols em 435 partidas.

  Em 2000, no aniversário de 50 anos do Maracanã, foi inaugurada a Calçada da Fama, nela os maiores craques da história do estádio deixaram a marca dos pés. Em 2007, o estádio – que é utilizado para diversos eventos, como espetáculos musicais com artistas consagrados -  foi palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro.

  Por muito tempo, o Maracanã, que atualmente tem a capacidade de abrigar 94 751 pessoas, foi o maior estádio do mundo. Entretanto, perdeu o título para o estádio Rungrado May Day, inaugurado em 1º de maio de 1989, na Coréia do Norte e que tem capacidade para 150 mil pessoas.

 

Texto produzido para o programa QUE HISTÓRIA É ESSA, e lido no dia 16 de junho de 2010.

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Universidade Federal de Pernambuco

Curso de Bacharelado em Turismo 2010.1

História da Cultura, prof. Biu Vicente

Aluna Isabela Silvestre Fonsêca Ferreira

 

Resumo comparativo entre o livro de Peter Burke e o documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro

 

Somos uma sociedade multicultural, praticamos cultura em todos os aspectos de nossas vidas. Seja no modo de sentar, de comer, de falar ou andar, qualquer costume nosso adquirido pode ser classificado como cultura.

Peter Burke, no livro “Cultura popular na idade moderna” define a cultura como a história das ações da vida cotidiana, onde a cultura é tratada como um sistema com limites muito indefinidos. Burke fala da necessidade de pensar nas classes ‘menos favorecidas’ a partir de um mundo totalmente diferente do atual, onde as classes elitizadas participavam de festividades comuns as classes não elitizadas, como o carnaval por exemplo.  Fazendo ligação com o documentário de Darcy Ribeiro, é possível observar que a cultura desses pode ser comparada com os índios que criaram a sua própria cultura, passando para todos da tribo, disseminado-a pelo Brasil, formando a nossa identidade atual.

Ciranda em um palco

Ciranda em um palco

Identidade tal que só começou a ser modificada com o início da colonização, quando os europeus aqui chegaram, catequizando os índios e fazendo com que eles usassem vestimentas, adicionando parte da sua cultura para eles. . É notável que cada sociedade, seja ela qual for, tem sua crença, seus valores, comportamentos, e suas regras morais que a identificam.

A diversidade de culturas é o que torna cada povo fascinante, nenhuma cultura é igual a outra, mas se a idéia de que cada país, raça ou credo tem a sua cultura fosse amplamente aceita, e que respeitar essas diferenças é mais do que saudável, o mundo seria um lugar muito melhor, com certeza!

Bibliografia:

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2. Edição. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

DOCUMENTÁRIO. O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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 05 jun 2010 @ 11:37 AM 

Universidade Federal de Pernambuco

Curso: Turismo 2010.1

Alunos: Renato Santiago e Rebeca Santos

Profº Biu Vicente

História da Cultura

 

            A definição de Cultura Popular é, de fato, bastante complicada. É arriscado criarmos um conceito de cultura, pois ele se modifica de tempos em tempos. Segundo Burke, cultura popular seria um conjunto de práticas culturais influenciadas pelas camadas mais pobres da sociedade. O livro aborda que a cultura tendia a referir-se à arte, literatura e música. Hoje, contudo seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros cientistas sociais usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser apreendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. Peter Burke apresenta toda a complexidade do termo “cultura popular”. Primeiramente, é apresentado como sendo a cultura das classes marginalizadas, subalternas, valorizando os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna, partindo de um mundo diferente do de hoje, retirando os costumes contemporâneos.

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

No início dos tempos modernos, segundo o texto, existia uma cultura popular comum tanto na maioria da população quanto na pequena parcela privilegiada. Até a primeira metade do século XVII, havia participação das elites nas festas de rua, juntamente com as pessoas menos favorecidas, isso significou que, ao longo dos anos,  a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica fez com que os costumes se transformassem e fosse criada uma imensa distância entre as classes.

No século XIX, os intelectuais por meio do conhecimento e estudo do folclore, redescobrem a cultura popular. Segundo Burke, como a causa das transformações ocorridas na cultura popular foi o fato de as reformas religiosas empreenderem um esforço de reformulação da religiosidade popular na Europa com o objetivo de adaptar seus caprichos e aparências, ainda no século XVI. O real significado do conceito de cultura está relacionado entre a classe da elite e não-elite.

Apesar de o autor deixar vago que as duas culturas não permaneceriam estanques, mas em interação, o texto é desenvolvido baseado na análise da sociedade, decomposta em classes, podendo assim se chegar a um entendimento sobre quem é o povo detentor da cultura popular. Tal compreensão nos confunde, o autor compreende a cultura como um produto que é refletido através da hierarquia social, mas em outra ocasião fala que as culturas são únicas e não estão sujeitas a comparações.

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

A “descoberta do povo” foi quando os setores cultos da sociedade passaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos e músicas. Havia uma série de razões estéticas e intelectuais para isso ocorrer.  Há algumas coleções de canções populares que produziram sentimentos nacionalistas, como uma intitulada de Wunderhorn, publicada simultaneamente com a invasão napoleônica na Alemanha. Tal publicação teve o real objetivo de estimular a consciência nacional alemã, e segundo um líder prussiano, foi um auxílio na luta contra os invasores. Sendo assim podemos concluir que a cultura popular pode ser um elemento para unir a nação, no sentido de oferecer a esta uma memória a ser compartilhada.

Entender o sentido do que hoje somos é muito mais do que um desafio, constituí num longo e detalhado processo de trabalho. A reflexão sobre a nossa formação nos leva às nossas origens, à história que como brasileiros, fomos construindo. A realidade na qual nos encontramos traz reflexões e pontos de vista provenientes de outros contextos.

No que tange esse desafio de nos tornar “explicáveis”, Darcy Ribeiro indica um conjunto teórico a partir do nosso contexto histórico, ele reúne um conjunto de pesquisas que culminam em uma Teoria do Brasil até então inédita. Implicitamente à descrição desta teoria, está sua preocupação em entender por quais caminhos passamos e que nos levaram a diferenças sociais tão profundas no processo de formação nacional.

Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia, será? Essa unidade não significa, porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes, tolerância, convivência, civilidade, etc. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, um mesmo idioma só diferenciado por sotaques e gírias regionais. Mais do que uma junção de etnias formando uma etnia única, a brasileira, o Brasil é um povo nação, ajustado em um território próprio para nele viver seu destino.

Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Ao longo da costa brasileira se encontraram duas visões de mundo completamente opostas: a “selvageria” e a “civilização”. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram.

Ciranda

Ciranda

No primeiro capítulo, ele, Darcy Ribeiro, apresenta as diferenças entre as matrizes étnicas tupi e lusa; as suas opostas visões do mundo, da vida, da morte, do amor; o processo civilizatório, de colonização distinta da América anglo-saxônica, que estabelece aqui um império mercantil salvacionista; a “atualização histórica”, que forçou os índios a incorporarem-se a uma sociedade mais avançada.

 

Referências Bibliográficas

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro

BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. Ed. Ver. e atual. São Paulo: FTD, 2000.

http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/537837

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Aluna: Chamillys Teixeira dos Santos

 

 

ACERCA DO LIVRO CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA E DO FILME POVO BRASILEIRO

 

 

Acerca do livro Cultura Popular na idade moderna e do filme Povo Brasileiro foi possível fazer uma análise mais aprofundada do quem vem a ser a cultura, principalmente no Brasil.

Hoje se usa o termo cultura para referir-se basicamente a tudo que se aprende vivendo em sociedade, coisa simples como: comer, andar, falar entre outras. Cultura tornou-se algo que temos por cotidiano. Desde os povos mais antigos a cultura esteve presente e hoje em dia não seria diferente, a cultura indígena possui peculiaridade que a maioria dos povos desconhece, a cultura sertaneja é muito mais do que a seca que ouvimos falar constantemente, é incrível como nós que habitamos o mesmo país tenhamos tantas peculiaridades em cada pedaço geográfico que habitamos, cabe a nós respeitar e conservar cada uma delas.

Sobre a cultura popular seria interessante destacar o termo em si: Cultura Popular, que muitos interpretam a sua maneira que pode não a mais sensata, uns acreditam ser a cultura das classes populares, ou seja, as classes menos favorecidas o que não necessariamente seria uma verdade porque mesmo em classes populares se tem culturas diferentes, modos de pensar distintos, não se pode generalizar uma cultura única pelo meio em comum que as pessoas têm de viver. Uma outra parte pode interpretar esse termo com uma homogeneidade de cultura que não há em lugar algum do mundo, não seria diferente no Brasil.

Algumas faces do Brasil

Algumas faces do Brasil

Afirmar que um país como o nosso tem uma cultura singular é incorreto pelo fato  de termos até mesmo num mesmo bairro pessoas que vivem de formas distintas, num pais imenso geograficamente como o Brasil não seria humanamente possível se ter mesmas culturas em cada região; por isso que o nosso país possui singularidades que nenhum outro lugar tem, temos aqui culturas únicas,belas e impressionantes que devem ser valorizadas em todos os tempos.

Desde as mais antigas análises de culturas o Brasil sempre esteve como um pais multicultural, de culturas impares e belas o que sempre atraiu e muito olhares para o nosso precioso pais. Brasileiro tem que respeitar a cultura de outro brasileiro para que possamos fortalecê-las e não acabar com elas, como foi o caso de algumas tribos indígenas, que foram extintas e assim também sua cultura passou a ser apenas algo a ser lembrado e não observado de perto. Valorizar o que temos é a forma mais sensata que temos de mostrar o amor as nossas raízes.

 

 

Referências Bibliográficas:

BURQUE, Peter. Cultura popular na idade moderna. SP: Companhia das letras, 1995.

Documentário O povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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Universidade federal de Pernambuco

Centro de artes e comunicação

Curso de bacharelado em turismo

Prof. Severino Vicente da Silva

Historia da cultura

Aluno. Manoel Welington da Silva 

Data: 19/05/2010

 

Cultura popular na idade moderna Europa, 1500-1800

 

 

   A conhecida  e famosa cultura popular que conhecemos hoje, já foi algo de muita discussão entre  historiadores na idade moderna, principalmente entre os anos de 1500, o ano que o Brasil foi encontrado pelos portugueses, pois já havia habitantes no país – os índios -, a 1800, período em que estava ocorrendo o inicio da revolução industrial.

   A cultura popular começou a ser estudada entre o final do século XV e final do século XVIII, pois os historiadores da época perceberam que ela estava desaparecendo, pois as elites que comandavam naquele tempo tentavam “ reformar ” a cultura popular. No século XVI, Christian falou que o tipo de prática religiosa que está tanto na família real quanto na dos camponeses analfabetos tinham significados apenas para os habitantes locais e com isso não poderia ser considerada “popular”e sim “local”.

Ciranda, dança local e Roda universal

Ciranda, dança local e Roda universal

   O problema básico é  que uma “cultura” é um sistema muito indefinido, segundo Roger Charter; sobre “hábitos culturais populares”, ele argumenta que “não faz sentido tentar identificar cultura popular por alguma distribuição supostamente especifica de objetos culturais”, tais como ex-votos ou a literatura de cordel; esses objetos eram práticos, usados ou “apropriados” para suas próprias finalidades por diferentes grupos sociais, nobres e clérigos assim como artesãos e camponeses. Tudo isso que foi abordado até agora, vale relacionar a cultura popular que ocorreu, ou começou a ser estudado na Europa daquele período, com a cultura popular indígena que os portugueses encontraram. Aqui no Brasil existia também uma cultura que era comum a todos, como a construção de armar de caça e pesca, a produção de ocas se encaixaria muito bem na arquitetura. Darcy Ribeiro, no vídeo “o povo brasileiro”, e no livro que carrega o mesmo nome, nos mostra como os indígenas viviam antes da chegada dos portugueses. Esses queriam, além de explorar as terras indígenas, desejavam inserir uma nova cultura na terra que encontraram.

Deusa das águas, na religião Tupi - Iara

Deusa das águas, na religião Tupi - Iara

   Quando os europeus chegaram no Brasil eles começaram a implantar um novo jeito de pensar e viver, e transformam o modo de vida dos índios. Assim começa a ser injetada uma nova cultura no Brasil, a cultura da idade moderna, uma cultura que não dava valor ao que os antigos habitantes, que no caso eram os índios, tinham construído.

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Universidade Federal de Pernambuco

Departamento de Hotelaria e Turismo

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

Aluna: Maria Raíza Vicente

 

            Resumo: Cultura Popular na Idade Média / Aulas / O Povo Brasileiro – Matriz Indígena

           

            A definição de cultura é ainda muito imprecisa, mas de um modo geral, pode ser entendida como as ações e noções da vida cotidiana, é tudo aquilo que o ser humano faz, aprende, inventa e transmite socialmente. Segundo Peter Burke, é “um sistema de significados, atitudes e valores compartilhados, e as formas simbólicas nas quais eles se apresentam ou se incorporam”. A cultura não é estática, é uma construção social que muda de sociedade pra sociedade e de tempos em tempos.

            O homem e a mulher são seres incompletos que produzem cultura a partir das necessidades e possuem funções biológicas, como o aparelho fonador, o polegar oponível, uma visão estereoscópica, um cérebro desenvolvido e uma capacidade de abstração, que possibilitam e facilitam essa produção cultural.

O corpo visto Leonardo Da Vinci

O corpo visto Leonardo Da Vinci

            É importante saber distinguir o que é cultural do que é natural. Atividades como comer, dormir e urinar são naturais, mas a partir do momento em que eu e um conjunto as realizamos de modo particular, como comer com talheres ou seguindo regras de etiquetas, dormir de lado ou de bruços, urinar em pé ou sentado, então passamos a ter cultura.

            Numa época em que a “cultura” consumida era a francesa e o belo era o que vinha da França, começou na Alemanha um resgate da cultura tradicional local, que estava intimamente ligado a um sentimento nacionalista de valorização do regional. As poesias, contos e canções populares, outrora assimilados com a grosseria e a vulgaridade, passaram a ser admirados pelas classes medias e nobres pela simplicidade natural que possuíam, longe do rebuscamento existente na grande cultura da época.

            Estudiosos como os irmãos Grimm, passaram a pesquisar e registrar por escrito as tradições orais, evitando que se perdessem ao logo do tempo. A partir daí, podemos fazer um paralelo sobre os trabalhos dos irmãos Grimm e o de Darcy Ribeiro, todos procuram registrar as produções culturais de um povo, valorizando-os e evitando que se percam ao decorrer do tempo.

            O Brasil já existia antes da chegada dos portugueses, havia uma população indígena com hábitos e costumes próprios e diferentes dos europeus. Assim como na Alemanha o Belo era o que vinha da França, após a chegada dos portugueses no Brasil o Belo era o que vinha da Europa, sobretudo de Portugal. O trabalho de Darcy Ribeiro resgata essa produção cultural dos índios.

            Apesar de provirmos de diferentes matrizes somos um povo único. Herdamos hábitos e costumes das matrizes indígenas, africanas, européias e asiáticas. Essas tradições foram transmitidas socialmente, e transformadas com o passar dos tempos.

Índios brasileiros

Índios brasileiros

            Os índios são auto-suficientes, aprendem a fazer tudo o que vão precisar ao longo da sua vida como construir suas Malocas (casas) e a fabricar seus instrumentos. A história de seu povo e o que deveriam aprender para serem independentes era passada oralmente dos mais velhos para os mais jovens.

            A atividade mais honrada para os Tupinambás era a guerra e praticavam o canibalismo com seus prisioneiros. Havia um forte sentimento do bem comum. Eles possuíam sua casa, mas a terra não era de ninguém, era de todos e compartilhada por todos. O chefe não dá ordens a ninguém, cada um sabe sua função na tribo e não é obrigado a realizá-la. Conviviam pacificamente com a natureza e festejavam nascimentos, colheitas, chuvas, etc. Não havia diferença clara entre o que era trabalho e o que era arte.

            Embora não possuamos todos os hábitos dos índios, alguns costumes como o de tomar banho todos os dias, passou de geração em geração e persiste até hoje. A diferença está em como esse “tomar banho” adequou-se a nossa realidade urbana. Os índios banhavam-se em rios, nós tomamos banho em banheiros com chuveiros ou banheiras. Eis uma das adaptações e transformações que uma cultura pode obter ao longo dos anos.

 

            Bibliografia

            BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Média. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

            DOCUMENTÁRIO O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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 05 jun 2010 @ 10:48 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE HOTELARIA E  TURISMO

BACHARELADO EM TURISMO

PRIMEIRO PERÍODO

 

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

 

 

 

 

Alunas:

Rafaella Fonseca de Albuquerque

                                                        Maria Cecília Novaes Ferraz

 

 

 

 

 

No livro “Cultura Popular na Idade Moderna” de Peter Burke, é mostrada toda a concepção do que chamamos de  “cultura popular”, o que ele define a partir de Gramsci, primeiramente como sendo aquela não oficial, a da “não-elite”, a das classes menos favorecidas. Burke fala da necessidade de ver os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna a partir de um mundo totalmente livre de conceitos e valores contemporâneos. Ele expõe sua idéia de que a cultura popular no início dos tempos modernos não era diferente à minoria culta da Europa Ocidental. A maioria da população e sua pequena parcela erudita compartilhavam de uma cultura popular comum. Essa visão de compartilhamento da cultura também é vista do filme “O Povo Brasileiro” baseado na obra de Darcy Ribeiro, que mostra que os índios não fazem monopólio de bens e de conhecimento, ao contrário do que se percebe na elite européia. Percebe-se que até a metade do século XVII as elites iam às festas de rua junto com os grupos menos favorecidos. Isto mostra que ao longo dos tempos modernos a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica e a ilustração fizeram com que a cultura erudita fosse se modificando, ao ponto que entre pequenas e grandes tradições foi estabelecida uma grande distancia.

P. Burke.

P. Burke.

A tradicional cultura popular foi vista pela minoria letrada como algo muito diferente, a ponto de ser extraordinário, sendo assim tornou-se interessante. A partir do século XIX essa cultura tradicional começa a ser chamada de folclore.  Como  conseqüência destas transformações, Burke fala que a reforma Tridentina, assim como as reformas protestantes no geral exerceram um esforço de reorganização da religiosidade popular na Europa a partir do século XVI, tendo como objetivo diminuir suas extravagâncias carnavalescas e exterioridades.

Quanto a isso Burke explica que o significado deste conceito está em função da hierarquização da sociedade em classes, entre a classe da elite e a classe da não-elite. Assim, a cultura popular se mostrava como uma cultura não oficial, como a cultura da não-elite, das classes subordinadas; do outro lado, a cultura oficial pertenceria à elite. Logo, para o autor esta definição traria a necessidade de analisar melhor a sociedade, dividindo-a em classes para entender quem é o “povo comum” possuidor da cultura popular. Apesar de demonstrar que é indeterminada a fronteira entre o que se chama de cultura de elite e de cultura popular, e que as duas culturas permaneceriam em interação, Burke deixa subentendido que enxerga a cultura fundamentalmente separada em blocos: o bloco da cultura da elite e o bloco da cultura do povo. Dessa maneira, o autor entende a cultura como produto de uma situação de classe, de forma que a divisão da cultura entre elite e povo seria um espelho da hierarquia social. Indo de encontro com o que ele mesmo denominou de “concepção aristocrática de cultura”.

Curupira

Curupira

Essa visão sobre a cultura popular, segundo Burke, foi aceita rapidamente  e os setores cultos da sociedade começaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos populares e música popular. Esse movimento foi denominado pelo historiador inglês como “a descoberta do povo” e ele via uma série de fatores para que isso estivesse acontecendo naquele momento. Eram eles: razões estéticas, que mostravam uma insubordinação contra o artificial na arte culta e assim a valorização das formas simples; razões intelectuais, que se relacionavam com uma postura hostil para com o iluminismo, enquanto pensamento valorizador da razão em detrimento do sentimento e das emoções. Existia também com relação ao aspecto intelectual um certo desprezo com as regras clássicas da dramaturgia, herdadas do pensamento aristotélico.

O povo brasileiro

O povo brasileiro

No filme “O Povo Brasileiro” é mostrada a idéia de que “somos símbolos da utopia”, ou seja, de algo idealizado, que no imaginário dos europeus seria o paraíso, sem doenças, cobranças e guerras. A cultura popular pôde servir de elemento básico para a formação de uma unidade nacional, dando a esta uma memória a ser compartilhada e símbolos capazes de produzir um eficiente nível de coerência social. Por outro ela também pôde ser um impedimento, no sentido de que a constituição do estado – o povo se formou sem dar importância às unidades culturais já existentes tentando impor sua cultura, homogeneizando-as, modificando-as em parte dessa nova estrutura nacional. Nesse sentido podemos perceber que a cultura popular serviu, contraditoriamente, como resistência cultural ao processo de unificação nacional.

 

Bibliografia

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

 Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro.

             

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 05 jun 2010 @ 10:33 AM 

  

      Universidade Federal de Pernambuco     

 

Resumo da parte I “A descoberta do povo”, do livro “ cultura

popular na idade moderna”

 

                                  A DESCOBERTA DO POVO

 

Trabalho apresentado ao professor Severino Vicente

Da disciplina História da cultura

 Turma: I Turno: tarde Curso: Turismo

Aluna: Luany Maria Gondim Campos

Data: 22 de maio de 2010

 

 

A descoberta do povo, parte I do livro cultura popular na idade moderna nos mostra como o povo, seu jeito e seus costumes se tornaram curiosidade para muitos estudiosos. Foi no inicio do século XIX, justamente quando a cultura popular tradicional estava começando a desaparecer que o “povo” se tornou “objeto” de interesse de grandes intelectuais da época. Houve uma série de razões para esse interesse pelo povo nesse momento da história européia, entre elas, uma das principais que pode se destacar é a revolta contra a “arte”, o artificial se tornou um termo pejorativo, enquanto selvagem virou elogio. Os artesãos e camponeses ficaram assustados ao verem suas casas sendo invadidas por gente bem vestida querendo que eles cantassem suas canções tradicionais ou contassem velhas estórias. Herder, jornalista, e os irmãos Grimm construíram obras de grande influência na época,

J. HERDER

J. HERDER

Herder dizia, ou deixava implícito, que no mundo pós-renascentista, apenas a canção popular conservava a eficácia moral da antiga poesia, e os irmãos Grimm consideravam a poesia popular uma “poesia da natureza”. Além da canção popular, outras formas de literatura passaram a ser elegantes, como o bilder-reimen, mais conhecidos como panfletos satíricos alemães que segundo o poeta Ludwig Tieck tinha uma maior inventividade autêntica e são mais simples e muito melhores do que os livros da época. Havia também o conto popular transmitido por tradição oral, que inclusive os irmãos Grimm fizeram uma coletânea dos contos, e acreditavam que, de fato, aquelas estórias exprimiam a natureza do povo. E finalmente, havia a “peça popular”, categoria que incluía o teatro de bonecos. Esse grande interesse por diversos tipos de literatura popular era parte de um movimento ainda mais amplo que se pode chamar a descoberta do povo. Houve ainda a descoberta da religião popular, das festas populares e da música popular, embora não tenha sido visto um interesse mais próximo pela arte popular.

 

Embora esse tenha sido um movimento de grande amplitude e se fale na descoberta da cultura popular durante essa época, antes mesmo disso, estudiosos já haviam descrito os costumes populares; o que difere em Herder, os irmãos Griim e seus seguidores é a ênfase no povo e a crença de que cada um deles fazia parte do “todo”, expressando o espírito de uma nação. Para alguns intelectuais o povo era visto de uma forma exótica, e o apelo desse exótico estava no fato de ser selvagem, natural, livre das regras do classicismo. Esse movimento foi também uma reação contra o iluminismo, contra seu elitismo, seu abandono da tradição, contra sua ênfase na razão, a descoberta da cultura popular estava intimamente ligada à ascensão do nacionalismo. Tinha a idéia de unir o povo dividido, da autodefinição e da libertação nacional, a sociedade estava sob domínio estrangeiro e tinha o desejo de reviver a cultura tradicional. Em suma, a descoberta da cultura popular  fazia parte de um movimento de primitivismo cultural no qual o antigo, o distante e o popular eram todos igualados.

 

Amamentando - Lui Gonzaga, Goiana. Foto de Biu Vicente

Amamentando - Lui Gonzaga, Goiana. Foto de Biu Vicente

 

Bibliografia 

 

 

BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: compainha das letras, 1995.

 

http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/descobertapovo.html

Acesso em 22/05/2010

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Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH

Departamento de História

História Moderna I

 

O Desenvolvimento da Justiça na Idade Moderna: A Inquisição e os Tribunais Seculares

 

Recife,2010

 

 

Trabalho apresentado por

Dayanne S. de Souza;

Joana Maria L. de Araújo;

João Paulo S. Barbosa;

Lara Ribeiro;

Ronaldo Sobreira 

Vanda L. Borba,

      ao curso de Graduação em História da Universidade

Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos

obrigatórios à segunda avaliação da disciplina

História Moderna I ministrada pelo Professor Dr.

Severino Vicente da Silva.

Sumário:

 

Introdução …………………………………………………………………………….6

Ronaldo Sobreira e Joana Lucena

O Santo Ofício na França do Século XVII………………………………8

Ronaldo Sobreira

A Inquisição na Espanha…………………………………………………………14

 Joana Maria L. de Araújo

Advento………………………………………………………………………………….15

Organização…………………………………………………………………………….17

Metodologia……………………………………………………………………………18

Inquisição na América Latina – México e Peru……………………………23

Outras considerações………………………………………………………………..24

 

As visitações do Tribunal do santo Ofício às Partes do Brasil…..26

Vanda Leonôra Borba Filha

Características desta Inquisição…………………………………………………26

Construção da Religião sincrética e Especificamente Colonial………28

Cristãos Novos e a Inquisição……………………………………………………30

Feitiçaria e Vida Cotidiana………………………………………………………..32

Falhas Morais e Sexuais……………………………………………………………34

Os Jesuítas………………………………………………………………………………39

Visitação do Santo Ofício à Pernambuco…………………………………….40

 

A Relação entre Igreja e Estado…………………………………………….44

João Paulo S. Barbosa

 

O Uso da Tortura na Inquisição……………………………………………..46

Lara Ribeiro

Métodos………………………………………………………………………………….48

 

Uma nova Mentalidade: O Fim da Inquisição…………………………..52

Dayanne S. de Souza

Introdução……………………………………………………………………………….52

O Exemplo Francês…………………………………………………………………..52

Ordens do Rei…………………………………………………………………………54

Os Sacrilégios………………………………………………………………………….55

Falsos Feiticeiros…………………………………………………………………….55

As Possessões………………………………………………………………………….55

 

Conclusão…………………………………………………………………………..58

Dayanne S. de Souza

  

Bibliografia………………………………………………………………………..66

 

 

 

 

 

O Santo Ofício na França do Século XVII

 Algo levou o Poder Judiciário a parar de executar os feiticeiros e a mandá-los aos médicos. A Igreja havia renunciado a caça às bruxas muito tempo antes do Poder Judiciário laico. Saber o motivo que levou os magistrados a interromper a caçada nos indicará a forma que eles concebiam toda a situação presente no contexto de sua época.  Tal interrupção feita pelas autoridades mostra a mudança nas mentalidades destas pessoas, que viveram  em um período turbulento em que até as suas próprias funções foram postas em xeque. Os abusos foram questionados e os magistrados passaram a repensar os seus atos. Sobre isso, Mandrou fala:

 

“Como e por que os juízes, que, durante séculos, aceitaram a feitiçaria e condenaram milhares de infelizes à fogueira, decidiram, no século XVII, renunciar e cessar de perseguir aqueles que passaram por vendidos ao Diabo?”[1]

           

            Entre os séculos XVI e XVII situa-se a última grande onda de caça às feiticeiras. Após o ano de 1660, o crime de feitiçaria se transforma em um menor crime, o de charlatanice. As angústias da declinante Idade Média fizeram com que se acendessem fogueiras, às centenas, devastando milhares de vidas. Os magistrados que repensavam as suas atitudes eram poucos, “enquanto que, ao mesmo tempo, seus colegas de Bordeaux, fiéis às mais inveteradas tradições, perseguem alegremente aldeias inteiras denunciadas por um garoto de quatorze anos”[2].

Três são os pontos que legitimam a caça às feiticeiras: primeiro: uma crença cristã fundada sobre a tradição eclesiástica e sobre os muitos exemplos de uma jurisprudência sem falhas; segundo: uma experiência visível a todos com um processo judiciário que implica num fácil consenso geral; terceiro: elementos trágicos que representam o julgamento de Deus e dos homens. Estes três elementos são fundamentais para solidificar toda uma tradição de fundamentar inúmeros relatos como verdadeiros, mesmo sendo altamente fantasiosos.

O Diabo parece estar em toda parte, assim como Deus, e ele pode se apoderar das fraquezas humanas e utilizá-las para si a seu bel-prazer. Além disso, ele promete maravilhas àqueles que o seguem e os “protege” debaixo de seu poder e influência. Isso fazia parte da crença popular, que deve ter ajudado a disseminar esta aversão ao mal e a ferrenha caça às bruxas.

Há uma diferença clara entre um feiticeiro e um sábio dos segredos da natureza: o primeiro se vendeu ao Diabo para obter poderes sobre os homens e sobre as coisas, e o segundo não. Segundo a crença, o Diabo torna insensível à dor algumas partes do corpo[3] de seus servos, e, ao achá-las, já se considerava extraída uma confissão. Para encontrá-las, os inquisidores usavam longos alfinetes.

O Sabá[4] é o lado pitoresco, e despertou uma enorme curiosidade nos juízes. Lá, dizia-se, são realizados diversos rituais, e a sua freqüência e local variavam. Nele havia uma cerimônia chamada “Missa às Avessas” (Culto ao Diabo). Todos os feiticeiros vão ao Sabá, menos os licantropos[5].

Satã incentivava os seus súditos a confessarem as suas atitudes obscuras a fim de encorajá-los a disseminarem o mal. A reunião do Sabá era o elemento mais palpável e concreto da ação de Satã sobre os homens, e era tão importante quanto.

Os desastres oriundos da vida rural são freqüentemente atribuídos à ação e intervenção satânica. A crença e o senso comum confundem freqüentemente a magia natural com a magia diabólica.

Dentre os feitiços praticados, dois merecem ser destacados, pois nos esclarecem um pouco mais sobre a influência do Diabo na vida do homem: o primeiro, no plano das finalidades, era o feitiço de impotência sexual, que impedia a consumação do casamento; o segundo, no plano dos meios, era o emprego, de forma diabólica, dos ritos da Igreja, que era o local predileto para a atividade satânica.

Tal presença diabólica no dia-a-dia alimentava-se de duas fontes: a primeira, para os juízes e cultos, era uma literatura na qual a base era o Malleus Maleficarum[6], de Jacob Sprenger; e a segunda, uma tradição oral imensa que misturava diversos elementos presentes na memória coletiva das aldeias e cidades.

As leis da Igreja são diretas e sem ambigüidade. Nelas podia ver-se claramente a distinção entre mágico e feiticeiro. Os demonólogos gastavam uma boa parte de seu tempo procurando, na Bíblia, inúmeras provas de Satã e seus sortilégios[7]. Jean Bodin[8] foi um destes demonólogos, e citou bastante o Antigo Testamento e o Apocalipse, além da Cidade de Deus[9], de Santo Agostinho.

Todos os demonólogos concordavam em um ponto: a onipresença de Satã, persistente inimigo do homem. Isto ocorria porque várias fontes faziam acreditar que Satã possuía um “principado” sobre a Terra, um domínio só seu que precisava ser destruído.

Em se tratando da perseguição dos seguidores de Satã, os dois motivos que levavam aos demonólogos a fazer tal ação eram os sortilégios e os malefícios.

Os juízes mais eloqüentes poderiam se basear na jurisprudência[10] para julgarem os casos de envolvimento com Satã, mas eram uma minoria que contrastava com uma maioria que simplesmente designava o crime como “feitiçaria”. Podemos citar um trecho que Mandrou nos explica muito bem:

 

“(…) os juízes franceses têm à sua disposição uma rica jurisprudência. Ela lhes fornece sobre o crime de feitiçaria propriamente dito motivos absolutamente idênticos, e uma escala de penas de uma simplicidade perfeita, já que quase na totalidade dos casos a condenação à fogueira é a sanção adotada.” [11]

 

Os juristas se baseavam, para as condenações julgadas por eles, em sentenças anteriores e nos segredos da natureza e das espertezas, sutilezas e ardis de Satã, fontes usadas por sábios e filósofos, e não por juristas. Tanto a jurisprudência quanto o aparelho judiciário mesclam as suas autoridades à da Bíblia.

O processo de feitiçaria consistia basicamente em: o juiz abre um dossiê sobre a denúncia, confirma-a através do rumor público, mantém o suspeito encarcerado, interroga-o, procura neste as marcas, arranca-lhe a confissão e o encaminha à fogueira. Os juízes poderiam hesitar e ter incertezas em seus julgamentos, assim como poderiam suspeitar da capacidade mental do acusado, mas ambos os casos são raros.

A feitiçaria oriunda no Medievo é mais presente no meio rural por conta das relações de denúncias e rumores, mais passíveis de acontecer no campo. Bastava alguém não reclamar às denúncias feitas sobre feitiçaria relacionada a ela que automaticamente era classificada como tal. Nesse meio era mais fácil, já que qualquer querela, por menor que fosse, levaria a uma acusação de alguém que aparentasse a mínima suspeita.

Fora da França a Inquisição contava com mais recursos para apurar as provas e testemunhos. Havia também a feitiçaria urbana, mas, durante um longo período de tempo, era mais rara.

As pessoas da época viviam em uma constante névoa de medo, e, por conta disso, qualquer elemento poderiam ser atribuídos aos feitos de Satã, e tanto os citadinos quanto os camponeses poderiam agir desta forma.

Quando o acusado era entregue à justiça, passava por uma maratona que consistia no julgamento de processo. Enquanto estava encarcerado, o acusado era forçado a assumir a culpa de duas formas: uma era uma prova infalível (duvidosa) e a outra era a tortura (implacável). No interrogatório, o juiz pode conseguir arrancar uma confissão com certa facilidade, seja porque o acusado tenha através das crenças populares, noções do maligno, seja porque o juiz “molda” as respostas dos réus, fazendo-os responder aquilo que ele quer ou próximo disso. Essas sessões duravam incontáveis semanas até que o acusado confessava uma culpa que provavelmente não tinha.

            O juiz demonstrava, nos julgamentos, possuir erudição satânica para rebater o acusado. Para confirmar a acusação, os juízes precisavam da confissão, mas muitos preferiam a morte rápida à continuação das torturas, que resultavam na confissão.

O magistrado que cuidava de um processo de feitiçaria não considerava o acusado como qualquer um, pois, por ser servo de Satã, poderia encher de mentiras as suas declarações e, assim, modificar o veredicto. Por isso, o juiz poderia usar artifícios nos julgamentos para arrancar confissões dos réus. Estes últimos, por sua vez, sempre são rechaçados em suas ações e depoimentos, já que qualquer coisa que façam será prova de cumplicidade com o Diabo.

Os juízes são incumbidos da missão suprema de caçar e derrotar os seguidores do Diabo para assegurar a vitória de Deus. Eles são seres importantes por possuírem tal dever.

Quando o acusado confessava os seus crimes, estava declarada a vitória de Deus perante o Diabo, e quem comandava o julgamento (o juiz) também se sentia satisfeito, tornando o resto dos procedimentos mera rotina.

Após a sua vitória em um caso, os juízes se ocupavam em encarar novas perseguições. Esta justiça era implacável e por muito tempo não chegou a ser perturbada, e só pode ser compreendida neste clima de medo constante ante a salvação. Medo tão grande que levava certas pessoas a se enforcar na prisão enquanto aguardavam julgamento, por não agüentarem tais suplícios.

Havia casos de revogação das acusações para as pessoas que resistiam bravamente às torturas e ao penar do processo, mas isso era muito raro. Os processos ainda possuíam uma cláusula que exigia que fosse retirada, dos bens do acusado, a quantia necessária para bancar os custos com o julgamento.

Além do medo, outros fatores que levavam às inúmeras perseguições eram: a miséria das aldeias e a ambição dos juízes, que desejavam possuir uma parte dos bens dos acusados.

Na hora da execução, havia aqueles que estrangulavam os condenados antes da fogueira e outros que preferiam ouvir os gritos enquanto estes eram queimados vivos.

Acreditava-se na hereditariedade da feitiçaria, que passaria dos pais, condenados à fogueira, aos filhos, que viravam suspeitos anos após a morte de seus progenitores. Nessa época se acreditava fortemente nos efeitos da hereditariedade. Isso demonstra uma herança medieval nos processos de feitiçaria.

Havia também a feitiçaria rural, que era amplamente procurada pelas pessoas, e, com o tempo, foi rejeitada pelas mesmas por diversos motivos, como: “acúmulo de atos malfazejos, fracasso de medicamentos aconselhados, aparição de signos celestiais, calamidades atmosféricas atribuídas à sua influência.” [12]

Todo um imaginário é criado em torno dos feiticeiros, como conta Mandrou:

 

“Feiticeiro e mágico são seres de mistério, cercados de uma aura que se dirige antes de mais nada à sua comunicação particular com as coisas e com os homens: os seus poderes, mal definidos, impossíveis de serem conhecidos e por isso mesmo temíveis.”[13]

 

As atas judiciárias afirmavam que o crime de “Lesa Majestade Divina” bastava para justificar todas as inúmeras perseguições e “milhares de fogueiras flamejantes sobre a Europa inteira.”[14]

Os próprios juízes colaboraram para a perpetuação da crença na feitiçaria, graças às suas investidas vorazes, que demonstravam todo o seu conhecimento das artes ocultas, conhecimento este que servia como arma contra os próprios feiticeiros, que se viam pressionados a confessar frente às tamanhas informações.

 

                                          A Inquisição Espanhola

 

                        É muito comum, ao pensarmos em Inquisição nos lembrar da Espanha. Mas a verdade é que essa instituição se estabeleceu neste país relativamente tarde e, em alguns aspectos, foi muito diferente do que em outros lugares. Foi certamente na Espanha que a Inquisição atingiu novas dimensões de intolerância, perversidade e terror.

                        Nos tempos anteriores (séc. XII a XIII) a Espanha podia ser considerada um país tolerante, pois viviam sob seus auspícios mouros e judeus. Segundo Henry Kamen[15] a Reconquista não teve como principal objetivo a “conversão” dos mouros, nem tinham os espanhóis problema algum com a religião seguida por eles, mas sim, por causa das terras que ocupavam e tão-somente por essa razão. O autor ainda afirma:  “o que tornou a situação diferente, no século XV, foi que não mais era possível aos cristãos, mouros e judeus, viverem sob o mesmo teto, porque os cristãos julgavam-se suficientemente fortes para romperem o costume tradicional da Espanha, segundo o qual a população cristã fazia a guerra e cultivava o solo, os mouros construíam casas e os judeus presidiam os empreendimentos como agentes fiscais e técnicos hábeis. Deste modo, a possibilidade de a Espanha poder contemplar a evolução de uma sociedade multirracial baseada na tolerância mútua foi, explicitamente, rejeitada pelos homens que então passaram a governar a península”.

                        Em 31 de março de 1492 os Reis Católicos Fernando de Aragão e Isabel de Castela decretaram a expulsão de todos os judeus da Espanha. Em menos de três meses antes eles haviam entrado com grande pompa na cidade de Granada. Porém esse  edito proclamado em 1492, não solucionou o problema. Os milhares de judeus que preferiram permanecer na Espanha e aceitar, “voluntariamente”, o batismo, continuaram despertando a desconfiança das classes nobres e  eclesiásticas da época já que antigos e novos conversos ou não-cristãos continuaram a manter o domínio de sua classe e de sua raça sobre o comércio e o capital. Foi para examinar a sinceridade da conversão que um decreto do papa, datado de novembro de 1478, instituiu a Inquisição.

                        A monarquia espanhola preferiu se unir aqueles em que confiava a classe considerada por eles essencial para sua existência, a nobreza. Esse ponto de vista é confirmado pela recusa de Fernando a ouvir as representações, feitas pelas municipalidades das principais cidades da Espanha, contra os resultados econômicos que, provavelmente se seguiriam à introdução da Inquisição e a conseqüente fuga dos conversos. O rei  afirmou que razões de ordem espiritual eram mais importantes que simples considerações de ordem material; outro incidente parecido aconteceu em 1482 quando alguns bispos espanhóis, horrorizados com o terror espalhado pela instituição, enviaram ao papa uma carta suplicando que voltasse  seus olhos para a Espanha. Em resposta, o pontífice emitiu uma Bula deplorando o fato de que a Inquisição espanhola era movida não pelo zelo pela fé, mas pela ganância. O monarca ficou indignado pela “ofensa” e fingindo duvidar que o documento fosse de fato composto pelo papa enviou uma hipócrita carta ao mesmo, recheada de sutis ameaças.

                        Por fim, para entender a importância do conhecimento do contexto histórico pré-inquisitorial Kamen diz que “é somente contra esse cenário que se pode começar a compreender a Inquisição. Sua introdução estava intimamente ligada ao regime, aos ideais e à sociedade prevalente na Espanha ao fim do séc. XV, e somente em relação a isso é que se pode estudá-la. A Inquisição só começa a cair quando o regime que a criou começou a declinar”[16].

 

Inquisição Espanhola – Advento

 

                        Na última década do século XIV, muitas famílias judias na Espanha, intimidadas pela perseguição contra elas dirigida, haviam renunciado á sua fé e abraçado o cristianismo, esses ficaram conhecidos como “conversos”.

                       Os conversos ocupavam a mesma posição social dos judeus, estavam entre as pessoas mais instruídas da Espanha e ocupavam cargos muito importantes na sociedade. Como sempre, a esfera em que eles mais tinham sucesso e fama era a das finanças; acredita-se que a viagem de Colombo a América não teria acontecido sem o apoio financeiro de banqueiros conversos. A medicina também era uma atividade que os conversos se dedicavam bastante. Tendiam a tornar-se algumas das famílias mais ricas do país, esse status social e econômico provocava inveja e ressentimento entre os vizinhos. Contudo havia muitos médicos cristãos-novos  famosos por isso não houve dificuldade em espalhar o boato de que os judeus  entravam para a medicina porque isso lhes dava maior oportunidade para executarem suas ações nefastas.

                        Um dos mais famosos fomentadores de idéias anti-semitas na Espanha foi Alonso de Espina, que em 1450 estava excepcionalmente ocupado numa campanha para forçar a conversão de judeus. Para Espina, os judeus eram uma raça funesta, eram todos traidores, homossexuais, blasfemadores, assassinos de crianças, assassinos (sob o disfarce de médicos), envenenadores, usurários etc.. A Inquisição endossou com entusiasmo os argumentos de Espina, que odiava, igualmente, judeus e conversos. Ele queria expurgar da Espanha todas essas pessoas por expulsão ou extermínio. É interessante notar que os principais anti-judeus (inclusive Espina) eram antigos judeus, como também, os dois primeiros inquisidores-mores  – Tomás de Torquemada e Diego de Deza – descendiam de conversos.             

                          A inquisição em si não era desconhecida na Espanha. Em 1238, uma Inquisição do papado, diretamente subordinada a Roma e controlada pela Ordem dos Dominicanos, foi instituída no reino de Aragão; esse organismo, no entanto acabou ficando completamente inativo por volta do século XV.

                        Os bispos e os padres de suas igrejas até então eram os únicos que tratavam da punição dos hereges. O argumento usado pelos anti-semitas e outros, porém, foi de que o problema dos conversos era tão grave e de tão grande dimensão que somente a introdução de uma Inquisição plenamente ativa poderia enfrentar tal situação. Essa teoria foi “ajudada” pelas denúncias feitas por alguns frades afirmando que alguns conversos estariam praticando secretamente o judaísmo na cidade de Sevilha.  Essa atitude por parte dos cristãos-novos significou que os mesmos estavam deliberadamente indo contra as ordens reais.  

                        Em conseqüência o papa Sixto IV expediu uma Bula em 1º de novembro de 1478 que discorria sobre a nomeação de dois ou três sacerdotes, acima de 40 anos de idade, para inquisidores; à coroa espanhola foram dados poderes para fazer nomeações e demissões. Depois de dois anos de complacência, em 27 de setembro de 1480, em Medina del Campo de expediram decretos, de conformidade com a Bula papal, nomeado os dominicanos Juan de San Matín e Miguel de Morillo, com Juan Ruiz de Medina como acessor ou conselheiro. Com essas nomeações, a Inquisição espanhola passou a existir definitivamente.      

                        O primeiro tribunal inquisitorial se instalou em Sevilha, cidade essa que teve seu primeiro auto-de-fé realizado em 6 de fevereiro de 1481 quando seis pessoas foram queimadas na fogueira. Em fevereiro de 1482 um Breve Papal nomeou mais sete inquisidores, todos dominicanos, figurando entre eles o nome muito conhecido de Tomás de Torquemada[17]. Por volta de 1492, o reino de Castela tinha tribunais em Ávila, Córdoba, Jaén, Medina del Campo, Segóvia, Siquenza, Toledo e Valladolid; porém, nem todos eram permanentes.

                        Nos primeiros oito anos de vida, só pelo tribunal de Sevilha, foram queimadas mais de setecentas pessoas e mais de quinhentas foram punidas.

 

Inquisição Espanhola – Organização

 

                        Era intenção de Fernando e Isabel, desde o começo, que a Inquisição ficasse sob o controle dos reis de Espanha, e não sob o do papa, como aconteceu no tribunal medieval. Sixto IV, em sua Bula de 1º de novembro de 1478, dava aos Reis Católicos poderes, não só para fazer nomeações, mas também para ordenar confiscos. Os inquisidores teriam jurisdição sobre os hereges, mas não sobre os bispos.

                        A Inquisição de 1483 era, em todos os sentidos, um instrumento de política real, prestava contas diretamente a Fernando e Isabel. Como os domínios dos monarcas espanhóis compreendiam uma teocracia, com a igreja e o estado atuando conjugados, a Inquisição espanhola era um adjunto da coroa e da igreja também.

                        Em contrapartida, é errado pensar que como a Inquisição era um instrumento da monarquia espanhola, a igreja é isenta da responsabilidade de seus excessos. Qualquer autoridade e jurisdição exercidas pelos inquisidores da Espanha vinham, direta ou indiretamente, de Roma, sem o quê o tribunal teria deixado de existir. Bulas de nomeações, regulamentos canônicos, esferas de jurisdição, tudo devia ter prévia aprovação de Roma. Era a Inquisição, conseqüentemente, um tribunal essencialmente eclesiástico pelo qual a Igreja de Roma assumira inteira responsabilidade.

                        O que é importante salientar também a respeito da organização do tribunal, é que apesar de ter um dominicano – Tomás de Torquemada – ocupando o cargo de Inquisidor Geral, não devemos pensar que foi dado aos dominicanos o controle sobre a instituição como anteriormente. Quase sempre encontramos leigos em postos geralmente reservados a eclesiásticos; e vamos encontrar, no século XVIII, o tribunal governado em grande parte por jesuítas, notórios rivais da Ordem dos Dominicanos.

 

 

A Inquisição Espanhola –  Metodologia

 

                        No que diz respeito ao seu procedimento, a Inquisição espanhola concorreu com a Inquisição papal original do século XIII, e aplicou sua metodologia e técnicas de forma ainda mais severa.

                     Um dos métodos usados pela Inquisição que era muito decorrente na Espanha (não só lá, mas em todos os lugares em que o tribunal atuou) era a prática de convencer a população a denunciar seus vizinhos, ou seja, trabalhar com o medo da denúncia levava as pessoas a quererem denunciar primeiro.

                        Em 1485, os inquisidores de Toledo reuniram os rabinos da província e fizeram-nos jurar que lançariam em suas sinagogas, grandes anátemas contra qualquer judeu que não denunciasse os judaizantes[18] secretos que estavam entre os conversos.

                        Na metade do século XIV, mais de cem anos antes da criação da Inquisição espanhola, Castela fora devastada pela guerra civil. As duas facções – nobreza e monarquia – haviam procurado um bode expiatório e encontraram-no na comunidade judaica. É sabido que as massas, muitas vezes se identificam com as idéias que a elite governante divulga, não ocorreu de forma diferente na Espanha. Os nobres espanhóis, invejosos da riqueza dos judeus pregoaram para a população em geral que essas pessoas seriam a causa dos males que a Espanha estaria sofrendo na época. Não é raro encontrarmos casos de judeus acusados e condenados por assassinar e mutilar crianças cristãs em rituais obscuros de magia sendo que naquela aldeia não se deu falta de nenhuma criança, e nenhum corpo foi encontrado. Idéias racistas como as espalhadas pelo pregador Alonso de Espina encontraram um terreno fértil para se propagarem.

                      Os judeus eram abundantes na Espanha graças à tolerância religiosa que havia na época dos muçulmanos, porém, a Inquisição usou técnicas contra os judeus que iriam ser adotadas por Josef Goebbels quatro séculos e meio depois. De todos os julgados em Barcelona, entre 1488 e 1505, 99,3% eram judeus ou conversos. Estes representavam 91,6% de todos os casos julgados pelo tribunal inquisitorial em Valência entre 1484 e 1530. O tribunal, em outras palavras, não se interessava pela heresia em geral. Interessava-se apenas por uma forma de desvio religioso: a aparente prática secreta de ritos judaicos.

                      Apesar de a expulsão dos judeus ser apontada como uma das principais causas para o declínio espanhol não devemos esquecer-nos dos mouros, pois, sua expulsão em 1609 contribuiu com os altos preços dos produtos espanhóis e para o decaimento da indústria espanhola. Durante o reinado de Felipe II foi que se deu a maior perseguição contra essa população, segundo Durant[19] o monarca “conferia tão alto valor à unidade religiosa enquanto instrumento de governo, que considerava preferível não exercer governo algum a reinar sobre hereges”.

            O rei estava convencido de que os mouros estavam praticando secretamente o ritual islâmico por conta disso ele expediu uma lei em 1567 proibindo todos os costumes mouristicos, o uso da língua árabe e a posse de livros nesse idioma. Em 1568 os mouros se revoltaram e a Espanha se viu mergulhada em uma verdadeira guerra civil, cristãos foram massacrados, padres torturados e mulheres e crianças vendidas como escravas. Essa revolta só foi sufocada depois de dois anos de atrocidades de ambas as partes. Depois desse episódio todos os mouros foram expulsos de Granada e alguns se espalharam pelo reino de Castela, porém, seus filhos foram internados em escolas cristãs e, pela primeira vez na Europa, a freqüência foi cobrada de todas elas. Ainda tinha-se certa suspeita de que os mouros residentes na Catalunha e Valência estivessem se mancomunando para iniciar outra revolta, no entanto Felipe II se encontrava muito ocupado com os conflitos contra a Inglaterra e acabou deixando para seu sucessor a tarefa de lidar com os revoltosos.

 

     Envolvendo a população

               Ensinou-se claramente a toda a população como reconhecer  judaizantes secretos em seu meio. Quando os inquisidores começavam a operar num distrito, declaravam, geralmente, um “período de graça” durante o qual nas confições voluntárias não se aplicariam penas muito duras. Um mês ou quarenta dias era o prazo imposto para que as pessoas se apresentassem; como a reconciliação com a fé durante o período de graça não envolvia penas graves – como o confisco de propriedades, por exemplo – os primeiros anos na Inquisição assistiram à considerável número de denúncias voluntárias.

                         A atmosfera de denúncia e de mútuas recriminações assim criada teria sido certamente, “igual à morte” para os infelizes que a suspeita do povo levava inevitavelmente à condenação. Por volta de 1530 Aldonça de Vargas nas Ilhas Canárias, foi denunciado por haver sorrido ao ouvir pronunciar o nome da Virgem Maria. Em 1635, Pedro Ginesta, homem de mais de 80 anos, foi conduzido perante o tribunal de Barcelona por um antigo companheiro em virtude de ter, por esquecimento, comido carne de porco e cebolas num dia de abstinência. Porém, nem todas as denúncias tinham algo a ver com heresias, como no caso de Alonso de Jaén, processado em 1530 por urinar nas paredes de uma igreja.

                        O período de graça continha uma cláusula primordial. Denunciar-se como herege não bastava para capacitar o indivíduo a beneficiar-se dos termos do Edito de Graça; era necessário também denunciar todos os cúmplices que partilhassem do seu erro. A reação em cadeia processada em decorrência disto, era extremamente eficaz para a extirpação da heresia.

                        Na Inquisição espanhola as testemunhas tinham mais vantagens que em qualquer outro tribunal de justiça secular, porque seus nomes não vinham á luz. Essa ocultação dos nomes dos denunciantes significava muitas vezes que o acusado nunca viesse a ter o conhecimento de quem foi/foram seu/seus acusadores(s). Ou seja, o prisioneiro era mantido inteiramente no escuro no tocante às razões de seu encarceramento e, se era acusado de heresia, devia confiar em sua memória para descobrir qual o motivo que o levara a ser preso. Segundo os inquisidores a necessidade da ocultação era justificada pelos casos de testemunhas que haviam sido assassinadas para impedir que testemunhassem. O sistema de sigilo se tornou um convite aberto ao perjúrio e ao testemunho maldoso. Na Espanha, como em outras partes, as pessoas valiam-se do aparato inquisitorial para acertar velhas contas, fazer a desforra contra vizinhos ou parentes, eliminar rivais nos negócios ou no comércio.

                        Em teoria, cada caso devia ser examinado por um Conclave de Teólogos – os inquisidores visitantes e pelo manos um assessor local. Só se fosse julgada suficientemente válida a prova, devia-se prender o acusado. Na prática, porém, muita gente era presa antes mesmo da avaliação de seus casos. As prisões da Inquisição viviam abarrotadas de presos, grande número dos quais ainda não tivera nenhuma acusação feita contra eles.

                        A prisão era acompanhada do imediato confisco dos bens do acusado. Fazia-se um inventário de tudo o que estivesse em poder do preso ou de sua família e tudo permanecia em mãos dos funcionários da Inquisição até o caso ser decidido. Alguns historiadores comentam que esses inventários têm grande valor histórico já que os mesmos continham uma relação detalhada de como funcionava uma casa nos séculos XVI e XVII e de todos os objetos utilizados no funcionamento das mesmas, por exemplo, panelas, colheres, pratos, obras de arte etc..

                        Se o caso de um prisioneiro se arrastasse por anos a fio, sua família se via em verdadeiras dificuldades já que ficavam privadas de todos os seus bens, inclusive suas casas. Houve casos de filhos de prisioneiros que morreram de fome e outros entraram para a mendicância. Só em 1561 as regras foram ligeiramente modificadas para permitir o sustento de dependentes, pelo menos em parte, com o produto da venda dos bens confiscados.

                        Judicialmente, os tribunais da Inquisição não eram piores nem melhores que os tribunais seculares da época. Falhas existentes nos processos do Santo Ofício seriam igualmente encontradas nos tribunais do rei, nos quais as reformas tinham sido instituídas pelas célebres Cortes de Toledo, em 1480. A característica que distinguia a Inquisição, seu sigilo absoluto, era o que a tornava sujeita a abusos mais que qualquer tribunal público. Ao que parece, esse sigilo, originalmente, não fazia parte da estrutura da organização; os primeiros registros citam julgamentos e prisões públicos em vez de secretos. Mas no começo do séc. XVI o sigilo tornou-se a regra geral e foi aplicado em todos os processos do tribunal.

                        O mecanismo administrativo do tribunal colocava no papel até mesmo as questões mais insignificantes. Graças a isso, a Inquisição espanhola é uma das primeiras instituições modernas sobre cuja organização e processo existe um considerável volume de documentos.

                    Na teoria a Inquisição só deveria prender uma pessoa se as provas apresentadas contra ela se mostrassem concludentes, por conta disso os acusados eram considerados automaticamente culpados e cabia somente a ele tentar provar sua inocência. A única função do tribunal seria obter do prisioneiro a culpa e sua submissão a penitencia.

                        Sobre o funcionamento do processo inquisitorial Henry Kamen diz que: “Ao invés de acusarem os prisioneiros os inquisidores aproximavam-se deles e advertiam-nos três vezes, num período de semanas, para que examinassem a consciência, confessassem a verdade e confiassem na misericórdia do tribunal. A terceira advertência era acompanhada da informação de que o promotor tencionava apresentar uma acusação e que seria mais prudente confessar antes que ela fosse apresentada. Quando após três advertências, o procurador lia os artigos da acusação, o acusado devia responder a acusação in loco, sem tempo ou advogado para auxiliá-lo a elaborar a defesa”[20].

                        Complementando o exposto acima, é interessante observar que, ao contrário da Inquisição medieval, a Inquisição espanhola permitiu que o acusado contasse com a ajuda de um advogado. Nos primeiros anos o prisioneiro podia escolher quem o defenderia, entretanto, com o passar do tempo o Santo Ofício limitou a escolha a advogados especiais nomeados pelo próprio tribunal, de modo que, a partir do século XVI, esses advogados ficaram conhecidos como funcionários do próprio tribunal.

                        O acusado contava com diversos recursos de defesa, porém nem sempre esses eram válidos já que muitas vezes, como o nome das testemunhas era ocultado, a defesa não tinha acesso ao processo na íntegra, pois eram cortadas as partes que poderiam oferecer ao acusado uma idéia de quem o estava denunciando.                   

                        A condenação significava na maioria das vezes que a vítima deveria comparecer a um  auto  de  fé. Para os casos mais leves a cerimônia era particular, para os mais graves, pública. Reservava-se a pena de morte basicamente para os hereges não arrependidos, e para os que haviam recaído após a conversão nominal ao catolicismo. Como logo se verá, reservavam-na com mais freqüência aos judeus. A Inquisição espanhola entregava o condenado às autoridades seculares para a execução. Se ele se arrependesse nos últimos momentos na estaca, era “piedosamente” estrangulado antes de acenderem a fogueira.

                        Existiram casos de absolvição, porém o número era muito pequeno, mesmo assim isso mostrava uma melhoria em relação ao medievo que nunca absorvia. Absolvição imediata, contudo, significava admitir um erro; portanto a orientação mais comum era dar por encerrado ou suspender o caso de pessoas inocentes.

 

Inquisição na América Latina – México e Peru

 

                        Em 1492, ano em que os muçulmanos e judeus foram definitivamente expulsos da Espanha, Cristóvão Colombo desembarcava nas Índias Ocidentais. Começou então a conquista das Américas; e a Inquisição de apressou a aproveitar-se das oportunidades oferecidas pelo Novo Mundo. Como o continente era praticamente “desabitado” os funcionários do tribunal se concentraram em trabalhar com a parte burocrática da conquista. Os inquisidores escreviam despachos para a Espanha numa base quase diária, resumindo as minúcias da vida em redor, atuando na verdade como diaristas, cronistas e operadores de uma complicada rede de vigilância digna de uma polícia secreta ou agência de espionagem moderna.

                        Ao contrário do que acontecia na Espanha aproximadamente 60% dos julgamentos feitos na América do Sul e Central foram por ofensas menores, como uma ou outra blasfêmia, transgressão sexual ou manifestação de superstição.

          A inquisição estabeleceu seu próprio tribunal no México em 1570. O primeiro auto de fé aconteceu em 28 de fevereiro de 1574 com um grande espetáculo que atraiu pessoas de várias partes da colônia. Os inquisidores se ocuparam mais em administrar e lucrar com os bens que confiscava, freqüentemente, fabricava acusações contra alguma pessoa abastada só para se apossar de suas propriedades.

            Em 1813, a supressão da Inquisição na Espanha por Napoleão foi reafirmada pela restaurada monarquia Bourbon. Essa medida aplicava-se por extensão às colônias espanholas no exterior, incluindo o México.

            No México e Peru a heresia inicialmente ficava sob a jurisdição dos bispos locais. Quando a inquisição foi oficialmente estabelecida em 1570, havia mais de cem casos pendentes em Lima e Cuzco. Nessas duas colônias os índios foram isentos da jurisdição da Inquisição, já que os mesmos nunca tinham sequer sabido da existência do cristianismo não tinham como cometer heresias.

            Uma ocorrência muito comum na América eram os casos de padres que seduziam mulheres no confessionário. Em geral, as sentenças proferidas contra padres sexualmente delinqüentes eram risíveis. A maioria simplesmente ficava proibida de ouvir confissões durante algum tempo, ou trancada por mais ou menos um ano num claustro.

            Um tipo de vítima que a Inquisição latina punha as mãos de vez em quando eram os protestantes, que em sua maioria eram condenados por heresia e queimados na fogueira, os prisioneiros mais freqüentes eram corsários franceses e ingleses.

                        Com ferocidade em nada reduzida, a Inquisição espanhola realizou seu trabalho por mais de 200 anos. Em 1701, o Bourbon Filipe V ascendeu ao trono antes ocupado pelos Habsburgos, pareceu haver uma passageira perspectiva de esclarecimento quando o novo monarca se recusou a assistir a um auto de fé realizado em sua honra. Porém ao contrário do que se pensou na época ainda não era a vez de a Inquisição na Espanha encontrar seu fim. O poder e a influência da organização só começou a enfraquecer após 1730 e seus funcionários, com o passar do tempo de tornaram indolentes e descuidados

                        Em 4 de dezembro de 1808, o próprio Napoleão chegou a Madri e no mesmo dia emitiu um decreto abolindo a Inquisição e confiscando suas propriedades. Quando Fernando VII ascendeu ao trono espanhol os tribunais inquisitoriais foram nominalmente restaurados, porém, nunca que Inquisição teria a mesma força de outrora.

                        A inquisição na América foi final e definitivamente suprimida em 1820.

  

As visitações do Tribunal do Santo Ofício às partes do Brasil 

 

                        A colônia também parece não ter sido, no período quinhentista, meio muito favorável à implantação de certos padrões éticos e costumes portugueses.[21] Ora, era difícil manter a ortodoxia: faltavam mulheres brancas, sobravam uniões irregulares. Gilberto Freyre se refere a essa falta de mulheres brancas e fala assim da adaptação lusa em se misturar a outras raças. É bem verdade que vários autores também questionam os católicos portugueses, mais desleixados que ortodoxos. Seriam os portugueses católicos de costumes desregrados o que por sua vez atrelado a frouxidão das regras ao sul do equador e somado a escassez de mulheres cristãs, provocava a amancebação com mestiças de caráter religioso místicos, feiticeiro. Freqüentemente estes costumes pagãos aparecem envolvidos com transgressões sexuais. Para tentar impor uma ordem, levar o valor moral verdadeiramente cristão, combater as práticas pagãs, heréticas e sodomíticas, a degradação social, a propagandeação de outras morais religiosas como luteranos e calvinistas, e a manutenção dos costumes judaicos sob a falsa pecha de cristão novo é que, por três vezes, os representantes da Igreja no Brasil chegam em visitação para essas terras (a fim de procurar, julgar e punir), o Tribunal do Santo Ofício.

 

Características desta Inquisição na Colônia

 

                        Com relação à lida com a feitiçaria, em especial, a Inquisição portuguesa em visitação ao Brasil, adotou hábitos diferentes. Na França, por exemplo, havia, por um longo período, o hábito de queimar junto aos condenados seus objetos mágicos, as peças do processo. Já no Brasil houve a preservação dos registros dos casos, com seus relatos minuciosos, acusações. O que gerou uma gama de documentos riquíssimos a serem trabalhados, onde se podem observar os comportamentos transgressivos de caráter sexual e feiticeiro, como é encontrado no estudo de Ligia Bellini em A Coisa Obscura. Ou a preocupação da difusão de pensamentos judaicos, o que por sua vez gerou uma série de questionamentos sobre o caráter dos ditos cristãos novos. Ou ainda a difusão do protestantismo, sobre essa causa pode-se citar o processo do francês João de Bolés[22].

                        Inicialmente, na primeira visita de 1536, era focada para punir judeus que, convertidos compulsoriamente em novos cristãos, não se mantiveram assim, e insistiam em realizar seus costumes hebraicos. As técnicas empregadas nesse primeiro Tribunal foram radicais, e foram mesmo os judaicos os mais severamente punidos, era o único crime punido com morte no Brasil. Mas não acabou sendo este o único crime a ser julgado. Em se chegando às partes da Colônia, a Inquisição deparou-se com uma série de desvios morais, como bigamia, sodomia, blasfêmia, bruxaria, concubinato, fornicação. Essa preocupação com o sexual, a desnaturalização da sexualidade como fruto do Concílio de Trento[23] e da época da implantação da Reforma. Nesse momento de transição de época, era preciso mudar o pensamento das pessoas. Foi neste âmbito em que surgiram Reforma e Contra-Reforma. No século XVI tudo o que existia antes passa a ser visto como pecado, é o fim da cultura popular, ou seja, da cultura medieval. Há assim em conseqüência a condenação do corpo. Este passa a ser o mais visado, os prazeres passaram a ser evitados; é o maltrato do corpo que leva à glória, o mundo sendo negado para obter a glória de Deus. É mesmo uma negação do medievo, pois nele a relação sexual era muito mais livre, os sentimentos também, a afetividade e o sexo eram naturais. Considere-se que a grande massa vivia em casas de um único cômodo, o que não possibilitava espaço para o individualismo, ou particularidades, nem mesmo durante o sexo, que era praticado num ambiente comum onde dormia a família e os animais.

                        E, ainda que na Europa, os movimentos reformadores e contra-reformadores tenham dizimado essa cultura popular, reconstruindo a mentalidade comum, criando novos valores de moral, no Brasil a realidade era outra. Havia o convívio do paganismo indígena com as heresias negras, e o convívio quase passivo, se não participativo, daqueles brancos portugueses cristão de pouca expressão. Quando chegou ao Brasil, Heitor Furtado de Mendonça, o Visitador do Santo Ofício, veio trazer a moralização, uma tendência se formava desde o Concílio de Latrão. Foi instaurada, na colônia, uma atmosfera de insegurança e medo. Os sermões realizados eram atemorizantes, mas foram os autos-de-fé que realmente desesperaram as pessoas. Criou-se uma atmosfera de intriga no ar, todos se entregando solidários antes do interrogatório, tanto que alguns nem esperavam a delação e se confessavam. Mas as delações não eram só fruto de zelo, como também se observou na Europa. Robert Mandrou fala em Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII, havia também as denúncias por vingança, inimizade e retaliação.

 

Construção da Religião sincrética e especificamente colonial  

               Para compreender as Colônias é preciso primeiro refletir sobre a própria Europa: Trento havia sido feito, mas a incorporação de suas resoluções não foi absoluta, tão pouco imediata pelas massas. O universo europeu ainda era muito pagão, o sincretismo tinha graus de confusão tão elevados que autores como Oliveira Marques chegam a usar termos como cristianismo de fachada. A mentalidade popular era mágica, arraigada as velhas crenças, e tinha grande dificuldade para compreender as metáforas no discurso cristão. Geralmente os elementos eram agregados, sem lhes conhecerem o real significado. Desconheciam-se os dogmas, o sentido do sacramento e das missas também se perdia. Na Bretanha há registro de atos litúrgicos onde chifres faziam vezes de cálice, vale salientar que o Deus Cornudo foi grandemente proeminente na cultura Bretã pagã, os elementos de vida Celta, também absorvidos por povos com que se misturaram.          Como conceber elementos tão fortes do paganismo sendo associados e usados no lugar do Santo cálice, onde deveria repousar o sangue do Cristo? Isso só é possível num mundo onde nem se quer os próprios religiosos tinha muita noção sobre a volta de Jesus, e era comum que lhes desconhecessem suas palavras. É ainda na própria Bretanha que são as histórias produzidas sobre o Rei Arthur, os romances de cavalaria, nos quais Lancelot em sua busca espiritual, assim como os outros cavaleiros, se dedica incessantemente a buscar o cálice sagrado. O supra-sumo dessa confusão mental, que mescla a toda esta cena o mago Merlin e a fada Morgana.

                        Apenas no século XVII é que se deve falar das ações tridentinas no que diz respeito à busca por uniformizar a fé e dela extirpar as reminiscências com efetividade. É dessa desconstrução da cultura popular, mundo medieval, religiosidade lúdica pagã, que Peter Burke fala quando trabalha a vitória da Quaresma, isto é, a vitória da Reforma popular, em detrimento à velha cultura das populações medievais. Tanto no mundo católico quando no protestante houve esse movimento de reforma. As autoridades caçaram o entrudo, as festas, o deleite, as músicas, o teatro e, sobretudo a comédia. A vida deveria ser séria, tal e qual os retratos de Felipe II. Até o século XVI as tentativas ainda não lograram grande mudança, é que apesar das pregações e campanhas foi preciso considerável tempo para o povo desmemoriar-se do que havia sido o cotidiano durante toda a Idade Média, mas eram tempos modernos e, o comportamento “indígena” de Huelva em Sevilha não seria mais aceito, e a intervenção jesuíta deveria ser imediata.

   Não deve pois causar espécie que, na colônia, os padres ignorassem a ordem das pessoas da Santíssima Trindade, a maneira certa de se persignar, não soubessem se Cristo ressuscitaria ou não.[24]

No Brasil Colônia foram os jesuítas os primeiros a organizar o catolicismo. Em função do Padroado[25], definido antes da descoberta, cabia a Portugal levar missões católicas e instituições eclesiásticas a África, Ásia e Brasil. Na mesma época em que se criou o bispado da Bahia a Europa estava começando a vivenciar as aplicações do Concílio de Trento. Este estava voltado ao velho continente inicialmente. Na colônia a organização eclesiástica era fluida daí a possibilidade de existirem capelães que serviam ao interesse dos senhores de Engenho seria o catolicismo de família do qual falou Freyre. Por essa fluidez e, por só ter havido aqui um único bispado em cem anos, a ausência de visitas pastorais recomendadas por Trento, agregado ao fato da cristandade colonial não ser de origem romana e sim formada por uma mestiçagem e convívio de brancos, índios e negros, a sincretismo acabou se fazendo presente. Além disso, a evangelização servia mais aos interesses do Estado que da salvação da alma, daí ter sido concebido o retrocesso no processo histórico tendo se readmitido a escravidão.[26] A originalidade da cristandade brasileira residiria, portanto na mestiçagem, na excentricidade em relação a Roma, e no eterno conflito representado pelo fato de, sendo expressão do sistema colonial, ter que engolir a escravidão: uma cristandade marcada pelo estigma da não-fraternidade.[27]

                        Como diria Bastide o sincretismo marca, pois uma das condições dos países de escravidão… uma nova forma de solidariedade, no sofrimento, uma solidariedade de cor. Ao serem misturadas as três raças básicas que constituíram a população nacional, as espiritualidades se tornaram diversas criando um todo único e específico e, assim, multifacetado. Na colônia o catolicismo se recheou de elementos pagãos, e desde seu primeiro século começariam a surgir figuras sincréticas de cultos prolíferos. Parte também desse grupo miscigenado estão os judeus. Sua mistura ao processo já vem do próprio Portugal, para onde haviam fugido após a caça e expulsão da Espanha fervorosa. Em Portugal se integraram aos lusos, e tiveram até em algumas situações, sua cultura absorvida por aqueles. 

  

Cristãos-Novos e a Inquisição

                        Quando a Inquisição foi estabelecida em Portugal, os judeus que até então conviviam com o cristão português, passaram a ser perseguidos e acabaram emigrando em fuga para Amsterdã. E como não mais podiam ir para o Oriente, após a instauração em Goa, sociedade Luso-Indiana de relevância notável no Império Português no Oriente[28], do Tribunal do Santo Ofício, sua única opção além de Amsterdã, era o Brasil. A adoção da religião católica, no entanto, seria uma possibilidade para não serem expulsos, serem menos inferiorizados e repelidos pela sociedade: Julgava o monarca (Dom Manuel) lusitano que o meio acertado para incorporá-los à Igreja e à sociedade seria através do batismo, rito peculiar à nação. Assim desapareceriam as discriminações existentes, tornando-se todos súditos cristãos, equiparados aos demais, porquanto haveria uma só lei, uma religião apenas, um povo único. Era a política da época no Velho Mundo e fora do mesmo, e que perduraria por mais tempo.[29] Os acontecimentos que se seguiram, no entanto não foram fáceis para essas pessoas, surgiram desavenças com esses cristãos recém convertidos, que eram desacreditados em sua mudança.

                        O que se observou não foram guerras sangrentas, mas contrariamente aos planos inclusivos do rei, surgiu a máquina do Santo Ofício. As intenções de Dom Manoel na verdade tinham falhas na elaboração que as pôs em prática: o batismo era forçado, e não foram chamados simplesmente de cristãos, de iguais, mas neles pairava o estigma de novo, de recém convertido, a eles e aos seus descendentes. Já estavam assim distintos da massa que era cristã há mais tempo, e que os via como inferiores e duvidosos. Para os “desde sempre” cristão o “nobre” título de cristão velho: assim, novamente, a sociedade se dividia. Obrigar um judeu a mudar ia muito além questão religiosa. Ser judeu, ser hebreu, diz respeito a toda uma cultura, uma compreensão de vida. Impor-lhes a cristandade não só era obrigá-los a cultuar um Deus que na verdade era uma trindade, enquanto eles eram monoteístas ao estremo, era mudar toda sua filosofia de vida. É, por exemplo, do ser judeu, não comer carne de porco, ser preocupado com a higienização, a observância do jejum na segunda e quintas-feiras, a guarda do sábado.

                        É  na vigência do governo de Dom João III e com o tribunal já instaurado em Portugal, é que começa e se desenvolve a colonização do Brasil. É então que se acentua a vinda dos judeus sefardins[30] para as regiões Sul e Norte. No Rio de Janeiro formaram uma rica comunidade que trabalhava na Indústria, e Comércio, principalmente. Mas essa relação durou pouco, pois a atenção do Tribunal se voltou para o Novo (e próspero) Mundo. Através de vários recursos, já em Portugal, vários israelitas conseguiram ingressar na vida eclesiástica. No Brasil isso também não seria diferente, uma vez que em uma colônia há sempre carência de elementos para a vida religiosa. Alguns contavam inclusive com apoio régio. Quando depois lhes foram exigidas provas com relação a sua pureza quanto a serem cristãos, burlaram, e enganaram. Com exceção dos convertidos que deliberadamente cometiam atos heréticos, dos apostadores, devassos e bígamos, os outros eram tratados sem exclusão ou perseguição. Havia complacência das autoridades.

                        Em Portugal, quando se iniciou o processo de querer instaurar um Tribunal, os judeus se manifestaram, foram contrários, uma vez que já haviam vivenciado esse processo na Espanha. Retardaram-no um pouco, mas não foram capazes de detê-lo. Uma vez estabelecido, o Santo Ofício converteu-se em horroroso fantasma para a gente da nação, que nunca mais pôde viver tranqüila, ainda que muitos da progênie fossem adeptos fiéis da Igreja.[31] No Brasil, antes da chegada dos bispos, a população quase vivia sem regras morais, pela já explicada questão dos párocos e vigários não se envolverem tanto com os colonos, e sim estarem por assim dizer, mais a serviço dos senhores. A chegada da primeira Visitação da Inquisição significou que não mais se poderia viver ao bel prazer, e que seriam punidos os transgressores, sobretudo os que mantinham o culto judaico. Também houve muitos casos, e isto sim era mais freqüente, de pessoas serem enviadas daqui para serem julgadas por exemplo, no tribunal de Lisboa. Um dos casos mais importantes a este respeito que podemos citar é o de Pero do Campo Tourinho, donatário da capitania de Porto Seguro, em 24 de novembro de 1546. Sobre ele recaiam várias suspeitas e denúncias, como a de obrigar a trabalhar aos domingos, de gênio forte sua justificativa era que o trabalho de colonizar era árduo e não tinha tempo para as folgas de domingo ou dias santos, que deveriam sem extintos. Foi inquirido e julgado em Portugal.

 

Feitiçaria e Vida Cotidiana

                         Ainda no primeiro século de vida, a colônia veria proliferarem em seu solo as santidades sincréticas, misturas de práticas indígenas e católicas.[32] O catolicismo de origem européia continuaria, na colônia, a se mesclar com elementos estranhos a ele, multifacetados, muitas vezes, como a própria religião africana transmigrada.[33] O imaginário europeu concebeu as mais fantásticas criaturas como habitantes das terras do Brasil, os mais fantásticos monstros marinhos habitariam as águas do Atlântico, Atlântico negro, Atlântico brasileiro. Terras que se fariam mestiças em coros, gostos e crenças. Uma fusão ímpar se promoveu quando se misturaram sem regras pensamentos de três povos numa terra, por assim dizer, em seus primeiros momentos, quase sem lei. E as idéias cresceram livres, e as magias conversaram entre si, e geraram mais magias. Se fizerem feitiços de elementos portugueses com um gingado africano e oferendas nativas. Laura de Mello e Souza fala de um engendrar das práticas mágicas e de feitiçaria extremamente complexos e originais: Conforme avança o período, os traços se esfumaçam, se interpenetram, e começa a surgir um só corpo de crenças sincréticas.[34]

                        Uma prática muito comum na Colônia era a adivinhação. Como as práticas mágicas, o seu objetivo era servir às necessidades da comunidade, e podia ir desde a procura de simples objetos até a de escravos fugidos. Era comum a estigmatização de pessoas que se dedicavam a essa tarefa, sobretudo mulheres, o que compôs na mentalidade popular um estereótipo de feiticeiros. O processo das práticas mágicas era comum, e podia ser encontrado nos mais variáveis níveis. Desde Felícia Tourinho, uma pernambucana filha de clérigo, praticante de adivinhação, até Antonia Maria, que praticou sortilégios para um homem a fim de lhe ter a certeza de que se tornaria clérigo, este, quando alcançou o cargo temos por tê-lo conseguido usando das trevas e a denunciou. A mulher também havia cobrado pelo serviço, um costume comum em algumas religiões de matrizes africanas. Vale salientar que as práticas africanas são diversas e os grupos divergem entre si, podendo inclusive ter concepções paradoxais.

                        Existe um caso bastante interessante: um encobrimento consentido de sincretismo, por conta do senhor de engenho Fernão Cabral de Taíde. Este encobrimento e concessão têm raiz totalmente funcional: era uma manipulação, um controle social, que ele fazia através deste sincretismo. Os índios se mantinham à sua vista e lhe tinham certa consideração por ele também fazer referências a figura de uma índia santa, que adoravam como se fosse a virgem Maria. Tinham para ela um templo, onde também adoravam a figura que talvez fosse seu filho, e contavam lendas sobre um papa que habitava os sertões e era remanescente do dilúvio de Noé.

                        Outro elemento bastante marcante nesta cultura popular colonial era a figura do curandeiro. O curandeiro, diferente da grande maioria de praticantes de mágicas, costumava ser homem. A sua figura era muito importante porque não só tratava de doenças, mas era uma resposta natural à busca na natureza por soluções para problemas sem explicação, tais como mortes repentinas e doenças estranhas. Além dessas deve se entender infecções, que não podiam ser compreendidas se não por fruto do sobrenatural, uma vez que o conhecimento da infecção, contaminação, germes, ocorre muito mais tarde. Esse fenômeno do curandeirismo trata da medicina popular, a mais antiga de todas, são práticas empíricas feitos do povo, pelo próprio povo, ou seja, um elemento da comunidade: o curandeiro, empiricamente conhecedor de remédios naturais, busca a cura para males físicos e espirituais. A imagem do pajé indígena é fortemente aludida aqui. O pajé em grande parte das culturas pré-colombianas trazia segurança de eficiência a tribo porque como vidas lhe eram dadas a tratar. Falhas contínuas não poderiam ser aceitas e a morte seria seu castigo. Assim, através do inflexível sistema tribal se garantia a eficiência e se produziu conhecimento atentado dos usos medicinais das ervas, que somados aos também seculares conhecimentos trazidos da Europa e África produziram um conhecimento popular riquíssimo, incomparável.

                        Outro elemento existente, embora pouco relatado, eram as benzeduras. Sobre isso Laura de Mello escreveu: Nos tempos coloniais, a documentação fala muito pouco dos benzedores. Fica difícil dizer se realmente eram escassos ou se a Inquisição, as devassas episcopais e os demais poderes se importavam pouco com eles. Como o hábito de benzer perdura ainda hoje entre nós, a segunda hipótese parece ser a mais provável.[35]

                         Um caso muito rico a ser estudado é o de Paula de Sequeira. Mulher de considerável status social, que coletou variadas acusações desde ter posse de livros proibidos, ou seja, contidos no Index Librorum Prohibitorum, lista de livro pribidos pela Igreja. E também de exercer práticas mágicas, já desde os tempos em que morava em Lisboa. Tais sortilégios teriam por finalidade acalmar o marida e para que ele a desejasse. É nesse ponto que apronfundamos outra questão importante deste universo: o envolvimento de práticas mágicas e condutas sexuais inadequadas.

  

Falhas morais e sexuais

                         No Brasil, a mesma Paula, mulher do Contador da Fazenda D’El Rei, procurou por outras opções de bruxaria e sortilégio, era mesmo conhecida por sua ousadia e gosto por experimentar o novo. Procurou a conhecida bruxa Boca-torta, em Salvador, e recorreu a muitas outras mulheres, das quais não se sabe, também para praticar feitiços. Cedeu também às investidas de Felipa de Souza, lésbica conhecida, que por dois anos lhe enviou cartas, com quem acabou tendo “ajuntamento carnal”. Um das muitas acusações que lhe recaem é a de ter sido vista transmutada em pata, através de usos demoníacos. Ter se envolvido com a Boca-torta, mulher solteira, conhecida pelas práticas de feitiçaria erótica, para fazer práticas que lhe garantissem sorte no casamento é um nítido caso da feitiçaria em função do sexual, elementos muito próximos e intrincados no cotidiano colonial.

                         As críticas aos costumes coloniais são recorrentes quanto à questão do desregramento sexual. Charles Boxer disse, com relação aos primeiros colonizadores: baseavam-se na teoria de que não existiam mandamentos ao sul do equador.  O moralismo se fazia no Brasil e na Europa, os desejos eram reprovados, o sexo foi literalmente colocado em pauta, debatido, censurado. Suas manifestações tornaram-se obscenas, uma desnaturalização, pois assim jamais o foram. Todo esse debate foi amplamente desenvolvido na Colônia uma vez que esta, pelos elementos já citados, acabou criando um ambiente de intoxicação sexual aos olhos dos moralistas; mas esse debate também diz respeito à questão da volta dos ideais de ascetismo, ideal genuinamente cristão, que estava voltando a ser propagado, contra os rumos que as pessoas davam naturalmente a sua vida, seguindo muito mais o ideal da renascença de buscar e valorar o prazer e a liberdade terrena.

                        Ronaldo Vainfas vai mais além à leitura dessas falhas morais e sexuais, sugere que para muito além do desejo carnal, falta de preconceitos, ou interesse nas mulheres exóticas, a fornicação era uma imposição, elemento fundamental para o sucesso colonial. Foi entendido que misturar era preciso, reproduzir, marcar no território novo uma linha de influência que cultura algum poderia se livrar: a mestiçagem no sangue, que depois se funde pela mentalidade, cultura, religião… Foi assim que se deu: a política colonizadora, não necessitava ser uma lei escrita, era um pressuposto estratégico, subterfúgio, aliás, bem antigo. Já nos tempos de Alexandre os soldados eram estimulados a se unirem em matrimônio as mulheres orientais. Com relação à poligamia, pode-se ler a velha influência mourisca ainda sobre os lusos, como também uma simples questão adaptativa da cultura índia.

                        A escravidão esteve de sempre relacionada a abusos e crimes sexuais. Negras, índias e mulatas eram comumente abusadas, e as autoridades, já que o importante mesmo era aumentar a população e não espantar os poucos brancos que se aventuravam nessas terras, faziam vista grossa, e recomendava sempre indulgências a esses colonizadores praticantes de abusos. E tradições lamentáveis se formavam. Havia por exemplo a crença popular que manter relações com uma negra virgem conferia cura à sífilis. Fato é que para o Estado português o descontrole moral de seus cidadãos era conveniente, e a lenda de uma lascívia incontrolável provocada pelo clima acabou permanecendo viva, e contra toda essa ausência de moral e leis nem os jesuítas puderam lutar firmemente.

                        Sobre a defloração nem mesmo em Portugal as leis eram muito úteis, para uma mulher provar seu estupro era necessário que na própria situação gritasse e o acusado ainda se encontrasse presente quando testemunhas chegassem, e ela mostrasse a vagina desvirginada, e neste, e somente neste caso, caberia reparação por casamento. Desvirginadas que não conseguiam provar o estupro tinham como caminho natural a prostituição. Juntavam-se assim as chamadas solteiras. Nesta época solteira não é o contrário de casada e sim a mulher sem família, sem marido, em que os homens têm mais facilidade de conseguir favores sexuais. Até mesmo na colônia os libertinos tinham certa noção que não se deveria se envolver com casadas ou donzelas, no caso de mulheres brancas evidentemente. Ser solteira era quase que ser mulher pública, pois tais mulheres sempre incorriam na suspeita de viver desregradamente.

                        As prostitutas eram comuns na Colônia e mesmo em Portugal, e desde o medievo, gozavam de certa complacência. A perspectiva dessa complacência é de que por elas existirem, as jovens donzelas dedicadas ao casamento, ficavam em mais segurança. Era quase como se a prostituição fosse um mal necessário. No Brasil, como em todo o mundo ocidental, as prostitutas eram muito desejadas, até foram cantadas em versos por poetas boêmios. Eram na verdade um fenômeno social perfeitamente adequado à vida moderna, e eram aceitas como elemento dessa vida, e de certa forma, a prostituição também era aceita pela Igreja uma vez que era vista como um fato comum a vida dos homens e esse ato não era julgado pecado mortal. E mais não se constituiria fornicação se tais mulheres fossem pagas pelos serviços. Ao Brasil vieram muitas dessas prostitutas e também solteiras, para tentar a sorte ou pelo degrado. Aqui eram muito apreciadas, e vieram para incendiar ainda mais a libertinagem tropical. Mas a prostituição não se ateve a licitude dos homens em deitar com tais mulheres, prática que traziam de Portugal. Isso descambou, sim, para um grande mal: em pouco tempo tornou-se hábito o ataque a nativas e escravas, as indígenas se convertiam em meretrizes enquanto os homens índios eram dizimados. E as negras foram tão maltratadas e abusadas que acabam por quase que virar sinônimo de prostitutas, onde os homens brancos podiam exigir delas o que quisessem. E muitos não viam pecado em manter relação com essas mulheres fossem elas ou eles casados, eram “só” negras.

                        Com tantas prostitutas e solteiras, além das negras coisificadas e das indígenas impossibilitadas de reação pela construção social que se dava, não era de se espantar que esses homens tenham perdido o interesse no casamento. Casamentos legítimos, ou seja: seguindo um padrão legal, sendo entre homem e mulher brancos, tendo a mulher boa origem, e dentro do que manda Igreja, era raridade. Esse casamento era encontrado somente nas elites, as massas estavam restritas aos concubinatos, e os senhores de escravos não faziam gosto em organizar o casamento de cativos. Fornicação simples ou adúltera, relação entre amantes, escandalosa e contumaz, assim o direito eclesiástico parecia enquadrar os amancebamentos.[36] Para a Igreja e suas leis era nítida a diferença entre concubinato e casamento clandestino. Já para os juristas o casamento era um contrato legítimo desde que feito segundo as leis da Igreja, e poderia ser anulado, por exemplo, se não houvesse testemunhas de sua realização. Mas o concubinato implicava em transgressão dos mandamentos “Não cometerás adultério”, e “Não desejar a mulher do próximo” e ainda dos próprios códigos civis. Era ilegal, mas não era para o Estado uma oposição ao casamento tridentino, era apenas mais um caso de casamento ilegal, tal qual o um casamento clandestino.

                         Para os brancos era inconcebível casar com suas índias concubinas, elas tinham seus filhos e trabalhavam na casa e fornicavam com eles, mas nada além. Apesar dos esforços jesuítas para que casassem com elas. Já que não abandonariam a vida com tais mulheres, seria então melhor que fosse uma coisa legal, através de um casamento abençoado por Deus; mas esses homens não aceitavam o encaminhamento jesuítico, e viam essas mulheres, que eles haviam colocado naquela situação, como simples solteiras, e solteiras são mulheres públicas, ninguém casaria com uma solteira. Encontra-se aqui associado ao racismo e a escravização dessas relações de amantes que pertenciam a grupos sociais e étnicos distintos. As mulheres escravas mesmo eram usadas sexualmente pelos senhores e como já se foi dito quase nunca lhes era permitido que sua relação com seus iguais fosse oficializada. Parece ter sido, antes, uma imposição do escravismo e do preconceito racial – notável fusão de ideais ibéricos de “pureza de sangue” com as exigências do moderno colonialismo. Confundiu-se, em várias situações, com diversos graus de prostituição, alcovitagem e exploração de pobreza, mais de que com casamentos, mesmo que aos olhos da sociedade colonial – e não do poder. Foi, especialmente, o campo privilegiado da miscigenação, que por meio dele, concubinato, “ficaria estabelecida de forma definitiva”.[37]

                        A sodomia era um crime tão sério que se quer deveria ser nomeado, era considerado antinatural, tanto quando praticado entre homem e mulher, tanto quando entre homossexuais. Nos casos de sodomia inclusive a inquisição fazia distinção entre cópula por sodomia: quando o líquido seminal era despejado dentro ou fora. Quando a cópula era imperfeita, no caso de não haver penetração, e o crime de sodomia perfeita era quando havia penetração e a ejaculação era interna. Sobre os sodomitas Luiz Mott observa: Uma regularidade comportamental, no entanto, foi observada tanto na Bahia quanto em Pernambuco: embora no Monitório com a lista dos crimes que deviam ser denunciados ao Visitador não constasse menção explícita à sodomia, parece que o pecado nefando era o que os culpados mais temiam, tanto que em Salvador como em Olinda, os primeiros colonos a madrugarem na porta do Visitador para se autodelatarem logo que é aberto o tempo da graça, foram exatamente dois sodomitas: em Salvador, o Padre Frutuoso Álvares; em Olinda, Antonio Rodrigues, morador em São Lourenço.[38] 

                         A homoafetividade foi assim tão praticada na colônia não só em função dos degradados vindos de outras terras, mas sobretudo porque entre os negros muitos vinham de partes da África onde a prática era comum, e também podemos falar da forte presença de relações homoeróticas entre os indígenas, inclusive Freyre fala da bissexualidade de pajés, que eram sim muito respeitados, embora fossem conhecidas suas práticas, naquela sociedade era absolutamente normal o envolvimento desses homens sábios tanto com mulheres quanto com homens.

 

O drama dos Jesuítas

                        A má vontade com que os jesuítas viram os índios, a demonização de seus costumes, a violência da catequese, tudo isso pertence a história do moderno colonialismo, à sujeição dos povos encontrados no além-mar, à escravidão e à exploração do Novo Mundo pelos europeus. (…) O olhar que deformou o ameríndio foi o do colonialismo eurocêntrico, mas seria ainda o olhar tridentino da Contra-Reforma, o mesmo que simultaneamente deplorava as condições em que viviam os fiéis da velha cristandade, afastados de Deus, próximos do inferno.[39] E o inferno era aqui, o inferno era o novo mundo, o desconhecido, aquele Novo Mundo temido e desejado, aquele mundo repleto de cenas mágicas e temerárias no imaginário do europeu.

                         Não tardou para que os jesuítas percebessem que aquele clima sem lei e de muita liberdade, de excessos, não era exclusividade das altas rodas, mas atingia os nativos, e os portugueses que acabavam de chegar, toda aquela libertinagem moral, em sua visão, se constituía terrível ofensa a Deus. Em muitos momentos estiveram na contra maré dos interesses da empresa colonial. Um deles foi o de irem contra ao plano da coroa com relação ao povoamento; ora, por claros motivos políticos o povoamento deveria ser rápido, eficiente, não podia então esperar que bons casamentos com mulheres de família e fé conhecida fossem objetivados, era necessário povoar, e esse era um custo a ser pago, custo incompreensível inaceitável à intransigência religiosa jesuíta. Também os jesuítas não aceitavam a escravização do índio quando este era batizado; mas era fundamental à estrutura da colônia aqueles braços para o trabalho, e o homem lisboeta, ainda que viesse de lá degradado, havia se lançado na aventura que era o novo mundo para fazer riqueza e ter status, e não para trabalhar no pesado. Por uma questão de próprio tempo histórico, levaria ainda muitos séculos para que na colônia se constituísse o quadro que já se vislumbrava na Europa: uma massa de trabalhadores miseráveis dispostos a vender seu trabalho por remuneração.

                        A colônia era mesmo um desespero para os jesuítas. Os nativos tinham arraigada a sua religiosidade, e muitos posteriormente conheciam a “real fé”, mas se dissimulavam no caminho mesclando as religiosidades, essa conduta, é claro, é inaceitável para esses clérigos. E os brancos que aqui vieram, em sua grande parte eram degradados de Portugal, pessoas que tiveram por pena o desterro a estas terras, após os mais variados crimes na metrópole. Muitos dos que vieram haviam incorridos em crimes, além dos óbvios crimes religiosos e morais,  como homicídio e estupro.

                        Em suas ações desesperadas para tentar dar ordem ao caos de purgatório que era o Brasil, ameaçavam os bígamos, que tendo mulher em Portugal, se amancebavam com índias, para que buscassem suas reais mulheres; os padres insistiam mesmo na vinda dessas brancas, pois assim se cessaria as bigamias, e as índias estariam salvas dessa tentação e não mais incorreriam no crime de fornicação e emancebação com homem casado. Mas eles não só mudaram a Colônia, como a Colônia também os mudou. As regras se afrouxaram um pouco ao permitirem casamento entre índios consangüíneos, prática muito comum aos indígenas que não pode simplesmente ser erradicada, no máximo moldada a um mínimo de regras de conduta. E também a permissão para casamento inter-racial, mesmo no caso de já ter mantido relação com alguma parente da noiva, fato que era muito comum no princípio da colônia, e que de princípio era elemento para a proibição pelos jesuítas, mas que depois se revogou. Domesticar o pecado de mil faces e convertê-lo em instrumento de fé, assim pretendiam os jesuítas levar a reforma Católica ao ultramar.[40]

                        Os jesuítas estiveram no meio da grande questão paradoxal da colonização ibérica: novas terras ampliavam a possibilidade de expandir os dogmas espirituais pregados, fazer levar para longe a palavra de Deus, aqui, o catolicismo. No entanto as riquezas eram desejadas a qualquer custo pelo braço secular, e a miscigenação é que permitiria o êxito, o que por sua vez comprometia fatalmente o sucesso contra-reformista.

                         Os inacianos se esforçaram na promoção do casamento no século XVI e no século seguinte o Estado se uniu a esta causa. A coroa evitou instalação de mosteiros de freiras e também do envio de donzelas para os conventos portugueses, embora a prática fosse comum entre os ricos. Também estimularam sem sucesso que os homens que tinham concubinas, geralmente índias, com as quais tinham filhos, se casassem com elas.

 

Visitação do Santo Ofício à Pernambuco

                         O terrível tribunal do Santo Ofício, durante o tempo de sua existência, celebrou nos quatro distritos de Lisboa, Évora, Coimbra, Goa, 760 autos-de-fé, em que figuraram 31.349 vítimas, das quais 1075 foram relaxadas em carne (mortas na fogueira) e 638 queimadas em estátua por se acharem ausentes em países estrangeiros onde não podia chegar a autoridade da Inquisição. Nas vítimas da Inquisição, figuram 339 infelizes remetidos do Brasil, alguns dos quais pereceram nas chamas.[41]

                        Em se tratando de Visitação à Pernambuco não se foge à regra: obtenção de informação sobre prováveis cristãos-novos acusados de má fé. Um caso bastante marcante nos relatos das denunciações pernambucanas refere-se ao casal Branca Diaz e Diogo Fernandes, e posteriormente de seus filhos e alguns outros parentes. Além de relatos sobre eles serem freqüentes é interessante observar a construção das perseguições no Brasil ao analisá-los. De fato o casal mantinha tradições judaicas uma vez que em suas terras, é fato, se fez erguer uma sinagoga. Daí ser provável que realmente tenham vindo às novas terras após o degrado[42] no velho continente, tal qual acusa Isabel Frasoa nos autos. No entanto quando a visitação chegou ao Brasil já haviam falecido. Nisto podemos observar a frouxidão que havia na colônia nos seus primeiros momentos, certa liberdade severamente tolhida após a primeira visita. Já no segundo momento se observa toda a “caça” aos heréticos, entra então a questão dos descendentes de Branca e Diogo.

                        Denúncias recaiam sobre toda a família, mas apenas um elemento foi escolhido para a prisão e a tortura (esta já em Lisboa, no Rossio). Beatriz Fernandes foi presa em 25 de agosto de 1595, em Olinda e de lá mandada a Portugal; a jovem sofria de problemas mentais além de ser aleijada. E embora não tenha demorado muito a assumir sua culpa (a de exercer a religião o modo de vida de seus pais), foi preciso mais de um ano e a submissão na Câmera de tormentos para que fosse lhe dada à condenação. Sua sentença: excomunhão maior e confisco dos bens. Longe do lar, atormentada e torturada, a jovem denunciou muitos de seus irmãos e familiares, estes também sofreram futuros processos. Mas porque escolher para levar simplesmente uma jovem de doenças físicas e mentais que a incapacitavam de qualquer compreensão maior sobre seus atos?  Porque a jovem era de família abastada, o que muito interessava, tanto que é parte de sua pena a retirada de suas posses. Segundo Leonardo Dantas Silva ela não foi morta. Fica a questão de que vida levou estando num país estranho e sem dinheiro além de todos os problemas que já possuía anteriormente. Todo esse processo explica esta função recorrente, intrínseca ao processo inquisitorial de Portugal: o interesse econômico. Na maioria dos autos do Brasil se observa um padrão: algum dos elementos da denúncia tem posses, ou ao menos sua família o tem. Seja no caso dos judeus filhos de Branca e Diogo, ou ainda nos de Felipa de Souza e todo o escândalo por seu romance com a mulher do Contador da Fazenda D’El Rei, Paula de Sequeira. Em que parte da condenação de Paula é o pagamento da quantia de 50 cruzados, uma alta soma.

                        O apogeu da comunidade judaica e de alguns cristãos novos no Brasil é atingido durante a dominação holandesa (1630-1654), quando foram instaladas no Recife duas sinagogas, as primeiras das Américas, sendo a mais antiga localizada na atual Rua do Bom Jesus.[43]

                        Luiz Mott fala sobre a questão das práticas sodomíticas e, sobretudo do homossexualismo dizendo que eram práticas conhecidas por boa parte da população. E que “fazer as sacanas” era muito comum. Essas sacanas incluem beijos, abraços, masturbação e gozo nas cochas.

 

Outras considerações

                        Embora quase não se fale desse assunto, houve, sim, Inquisição no Brasil. E ela disseminou o racismo aqui por mais de 200 anos. “A Inquisição nunca foi oficialmente instituída no país, mas nem precisava. Qualquer religioso regional fazia o papel de inquisidor”, diz a historiadora Neusa Fernandes, autora do livro A Inquisição em Minas Gerais no Século XVIII. “Bispos, padres, párocos, todos eram vigias, todos delatavam. A pessoa era presa, o processo era aberto e ia para Lisboa.” O Tribunal da Inquisição funcionava aqui através de representantes locais, os “comissários”. Eles contavam com a ajuda dos “familiares”, homens influentes que espionavam e faziam denúncias, e dos “visitadores”, funcionários do Santo Ofício que vinham da metrópole para acompanhar os processos de devassa. Estima-se que mais de mil pessoas tinham sido presas e levadas para os cárceres de Portugal e cerca de 30 condenadas à morte na fogueira. A maioria era formada por cristãos-novos, mas também havia acusados de feitiçaria, blasfêmia, bigamia, sodomia, concubinato e até frades apontados como fornicadores. Como o Santo Ofício sempre agiu no rastro dos homens de negócio, que rendiam confiscos mais polpudos, a caçada pegou para valer no século 18 com a descoberta do ouro em Minas Gerais. A Inquisição exigia ainda que candidatos às ordens religiosas brasileiras provassem que não tinham antepassados “hereges”. Documentos arquivados na Cúria Metropolitana de São Paulo mostram, por exemplo, que o poeta Cláudio Manoel da Costa foi recusado por “suspeita de sangue”.[44]

 

 

 

 

 

 

 

A Relação entre a Igreja o Estado

 

                        Ao analisarmos as práticas da Inquisição no denominado período moderno pode-se identificar continuidades e aspectos novos, em que estas práticas novas se mostram muito mais ligadas as mudanças políticas no contexto da formação dos Estados Nacionais do que em mudanças dentro da esfera religiosa.

                        Este período é marcado por uma centralização política, em que se percebe uma “migração de poder” que antes ocupava a área da religião católica para o poder régio. Assim a fé católica aparece como elemento unificador e afirmador no poder dos estados que se formavam. Podem-se identificar estas relações entre a Inquisição e as coroas das nações Ibéricas a serem discutidas a seguir.

                        Ao se fazer uma comparação entre as atividades da Inquisição na Idade Média e Moderna percebe-se que na última, sua ação é muito mais durável e intensa. Foi na Espanha e Portugal, durante a época moderna nos séculos XVI, XVII e XVIII, que a Inquisição alcançou seu apogeu. Um exemplo deste aspecto se identifica no período de estabelecimento dos tribunais do Santo Ofício nos dois reinos, que chega a durar em Espanha III séculos praticamente sem interrupções.

                        Outro fator importante a ser explanado é que as atividades da Inquisição nestes reinos e suas respectivas colônias ocorrem não só com a permissão de seus líderes, como também a pedido e forte desejo dos mesmos. No caso da Espanha os reis Fernando e Isabel, visando a plena unificação de seus domínios, solicitaram a Roma à ação da Inquisição com o fim de reprimir um perigo religioso e civil contra as atividades dos marranos (judeus) e mouriscos (árabes). Em Portugal as práticas se assemelham, pois nos dois reinos Ibéricos as atividades da Inquisição encontram-se sob liderança régia.

                         Apoiados na licença pontifícia, os reis da Espanha e Portugal nomearam inquisidores, (principalmente dominicanos) para a empreitada contra os hereges, constituídos em sua maioria de judeus e cristãos novos. Os Inquisidores entraram logo em ação, parecia que a lnquisição estava a serviço não da Religião propriamente, mas dos soberanos, os quais procuravam atingir prováveis focos de inimigos políticos. Deve-se lembrar os benefícios econômicos resultantes destas práticas, pois os reis atribuíam a si todas as rendas materiais da lnquisição (impostos, multas, bens confiscados).

                        Tamanha foi à ação dos inquisidores, que queixas se fizeram ouvir em Roma, ao qual merece destaque o Breve enviado pelo papa Sixto IV aos reis de Espanha, “Visto que somente a caridade nos toma semelhantes a Deus. rogamos e exortamos o Rei e a Rainha, pelo amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, a fim de que imitem Aquele de quem é característico ter sempre compaixão e perdão. Queiram, portanto, mostrar-se indulgentes para com os seus súditos da cidade e da diocese de Sevilha que confessam o erro e imploram a misericórdia!” , vale também lembrar com referência a Portugal os apelos empreendidos pelo padre jesuíta Antônio Vieira contra as violência da Inquisição em Portugal.

                        Segundo este trecho retirado do (L. Pastor, Histoire des Papes IV 370), se percebe que aqueles que detém um maior controle sobre a ações inquisitórias são os monarcas, pode-se citar outros exemplos do controle régio sobre a Inquisição. Aos poucos as decisões ficam cada vez mais centralizadas nas coroas como no caso das nomeações para Inquisidor Mor, não mais escolhido pelo Papa, mas pelas coroas. Vale também destaque a forma como a as esferas estatal e religiosa se mesclam.

            Pode se observar tal junção na criação do “Conselho Régio da Inquisição”, comissão de consultores nomeados pelo poder civil e destinados como que a controlar os processos da Inquisição que gozavam de voto deliberativo em questões de Direito civil, e de voto consultivo em temas de Direito Canônico.

            Assim fica claro a grande pluralidade entre o poder régio e a Inquisição que é mais intenso no caso espanhol, porém tanto em Portugal como em Espanha esta instituição serviu como ferramenta a unidade de poder, atrelando-se ao poder estatal através da ideologia religiosa e confluências nas relações legais entre estado e religião. Em suma percebe-se que as práticas da Inquisição no período moderno vão além das perspectivas e religiosas e tem influências diretas dos interesses políticos da época.

 

 

 

 

 

 

O Uso da Tortura na Inquisição – Uma Ferramenta Eficaz em um Interrogatório

 

                        Quando eram entregues à justiça, os acusados pelo Santo Ofício, principalmente os feiticeiros, dificilmente saiam livres da longa batalha que travavam nos interrogatórios, haja vista que o objetivo desta fase do processo era a comprovação da culpabilidade do acusado e não a averiguação desta. Como destaca Robert Mandrou em seu texto.

 

“Os interrogatórios, as confrontações com os testemunhos, constituem já uma prova terrível, uma vez que os juízes conhecem bem esses problemas e podem perguntar sobre feitiços e malefícios, sabás e orgias, confiantes em sua experiência, tendo em vista que instruíram já outros casos, ou de seu saber livresco, já que leram e meditaram sobre Sprenger, ou Bodin, Massé e Boguet mais tarde. Aquele que entra na prisão, a fronte elevada, indignado por uma denúncia imprópria e responde com altivez às primeiras questões, termina por se persuadir e se confessar feiticeiro após um mês deste tratamento”.[45]

 

 

                        Duas ferramentas eram extremante eficaz para a obtenção das respostas que satisfaziam os interrogadores.  A primeira era a busca incessante por uma prova concreta, objetiva e independente dos testemunhos dos acusados, mesmo sendo contraditória e retratável. A segunda medida era o uso das torturas como método de obter a confissão. 

                        Quanto à forma de obtenção de provas, o interrogador estava preparado de tal forma, utilizando-se inclusive de informações de conhecimento geral, que suas perguntas levam inevitavelmente a contradição e confusão do acusado, chegando à confissão involuntária.  Mandrou, afirma:

 

“O juiz dispõe, no interrogatório mesmo, de vantagens consideráveis: a crença comum preparou certamente os incriminados que não podem pretender ignorar o sabá; sobretudo, as acusações recuperadas de um processo anterior (seguindo um encadeamento freqüente), os depoimentos dos vizinhos, os parentes que evocam as calamidades sofridas na aldeia, constituem um dossiê comumente bastante denso, o qual lhe basta consultar, para acusar ou sugerir: a maior parte dos interrogatórios põe, com efeito,  o acusado no caminho,  lembrando-lhe os fatos antigos que pertencem à crônica da comunidade; ou então fornecendo-lhe os elementos da resposta. Inquirindo se ele não está orgulhoso de ter ido ao sabá ante tal ou tal pessoa, o acusado não tem outro recurso senão contradizer a si mesmo (…) Da mesma forma a resposta já vem pronta, uma vez que o juiz especifica bem em sua pergunta (…); ou então quando ele fornece alguns nomes de participantes que já reconheceram sua culpa e empreende a descrição das danças e da missa que o Malino celebrou. Certamente o acusado pode negar,  recusar todos os testemunhos ‘todos eles feiticeiros’,  protestar a sua ignorância;  a pergunta repetida a cada vez que se reinicia o interrogatório,  termina por obcecar o incriminado perturbado, acuado,  perseguido durante meses.” [46]

 

 

                        Nos casos de acusação por feitiçaria, um método bastante utilizado na França do século XVII era a procura por uma marca incriminatória. O punctum diabolicum, segundo se estabelecia, era uma marca imposta pelo Diabo a todos os seus seguidores, tratando-se de uma prova cabal da culpa do acusado. Para sua comprovação, o sentenciado era imposto a um flagelo que consistia em procurar a marca diabólica, com a ajuda de um cirurgião, raspando totalmente o indiciado, por um barbeiro, e sendo este submetido a picadas em todo o corpo a procura de pontos de insensibilidade. Quando culpado, o defendente não sente nada quando uma agulha é enfiada em sua carne, e não sangra quando ela é retirada. Este processo poderia durar horas.

 

“O exame do corpo inteiro pode necessitar de um largo tempo, várias horas durante as quais o juiz espera pacientemente que cada cicatriz devidamente sondada seja avaliada pelo cirurgião. Este conclui mais ou menos rapidamente, pode mesmo reservar seu julgamento, já que os sinais de antigas feridas poderiam ter causas naturais muito evidentes.” [47]

 

                        Mas desmascarar, expor, provar a culpa do acusado vai além das implicações jurídico científicas. Diferentemente da procura da marca, que era realizado no gabinete do juiz, efetuada nos intervalos do interrogatório e que se embasava em critérios fundamentados, o banho tem uma característica pública muito baseada na cultura popular, e era uma prova pública para a multidão. Segundo a crença do povo, o feiticeiro que fosse jogado na água com os pés e as mãos amarradas e flutuasse, estaria comprovando sua culpabilidade, mas aquele que afundasse seria de fato inocente.

                        Todavia, todas estas provas não eram suficientes sem a confissão explicita do réu para ratificar definitivamente a acusação. É neste aspecto que a tortura é utilizada na inquisição, principalmente quanto o acusado se apresenta contumaz em suas negações, ou resistente em dar respostas sendo variados os instrumentos de tortura, de acordo com cada jurisdição. Sobre este tema afirma Mandrou:

 

“(…) de fato, eles fazem variar os sofrimentos a fim de não diminuir ao extremo a resistência do paciente, que deve poder responder de quando em quando às questões reiteradas pelo juiz (os processos, além do mais, não fornecem dessas sessões senão as transcrições dos interrogatórios – e não as operações sofridas pelas vítimas)” [48]

 

                        A capacidade de resistência dos acusados é impressionante, seu único elo de força está sustentado por sua fé, acreditando que Deus, Jesus e todos os Santos, que invocam no momento da iniciação do suplício lhe darão ânimo para resistir à tentação do inquisidor para não cometerem perjúrio ao confessar um crime, ou uma heresia não cometida.

 

“Nesse sentido, a própria tortura, como o banho, toma a aparência de julgamento de Deus, do qual os juízes respeitam o significado após terem prolongado as sessões tanto quanto foi possível.” [49]

 

                        Contudo, o tratamento da tortura resulta eficaz na maioria dos casos, onde o delatado prefere a morte rápida, à continuidade do longo processo de sofrimento, levando-o a confissão e à denúncia das suas pessoas próximas e vizinhas.

 

Métodos de Tortura

 

                        Para explicitar alguns métodos de tortura utilizados, com destaque para aqueles largamente aplicados nos períodos correspondentes aos séculos XV a XVIII em alguns países europeus, já na época moderna. Pode se destacar a roda do despedaçamento, o réu era amarrado com as costas na parte externa da roda e sob ela, colocavam-se brasas incandescentes. O carrasco, girando lentamente a roda, fazia com que o réu morresse praticamente “assado”.  Em outros casos, no lugar de brasas, colocavam-se agulhões de madeira, sendo o corpo, girado devagar e continuamente, arranhado terrivelmente. Este suplício estava em voga na Inglaterra, Holanda e Alemanha, de 1100 a 1700.

                        O despertador foi idealizado pelo italiano Ippolito Marsili, e deveria marcar uma mudança decisiva na história da tortura. Seria um sistema capaz de obter confissões, sem infligir crueldade ao corpo humano. Não se quebrava nenhuma vértebra, calcanhar ou junta da vítima. Consistia o aparelho em deixar o condenado acordado o maior espaço de tempo possível. Era também denominado “suplício do sono”. O tormento do despertador, definido no início como tortura não cruel, diante da Inquisição teve muitas variações, até chegar ao procedimento absurdo de se amarrar com cordas firmes a vítima, suspendê-las e deixá-las cair com todo o peso do corpo contra o ânus e as partes sexuais mais sensíveis sobre a ponta da pirâmide, esmagando os testículos, o cóccix e, no caso de uma condenada, a vagina, causando dores atrozes. Muitas vezes a vítima desmaiava de dor. Então era reanimada para se repetir a operação. O despertador passou, então, a ser chamado “o berço de Judas”. 

                        Botas, instrumento de tortura e interrogatório concebido para esmagar os pés e as pernas, consistiam em cunhas que assentavam as pernas dos tornozelos aos joelhos. O torturador usava um pesado martelo para bater as cunhas,  apertando-as cada vez mais. Sua variante era a “bota espanhola”, invólucro de ferro para as perna e pés. Um parafuso ou manivela seria usado para o comprimir cada vez mais, e ainda eram frequentemente aquecida antes ou durante a sua aplicação, aumentando consideravelmente o sofrimento imposto à vítima.

                        A cadeira de inquisição era um instrumento essencial usado pelo inquisidor. Usada na Europa Central, especialmente em Nurembergue, onde foi usada até 1846 durante regulares interrogatórios dos processos. O réu deveria sentar-se nu e com mínimo movimento, as agulhas penetravam no corpo. Em outras versões, a cadeira apresentava o assento de ferro com um espaço, em baixo, para se acender uma fogueira, e podia ser aquecido até ficar em brasas. A agonia do metal pontiagudo perfurando a carne nua era intolerável; segundo registros, poucos acusados agüentavam mais de 15 minutos nessa cadeira, antes de confessar.

                        Havia também a cadeira da bruxa, onde o condenado era preso de cabeça para baixo em uma grande cadeira. Tal posição criava atrozes dores nas costas, desorientava e aterrorizava a vítima. Além disso, consentia a fácil imposição de uma interminável gama de tormentos. A esta tortura eram submetidas principalmente as mulheres acusadas de bruxaria.   Foi usada de 1500 a 1800 em quase todos os países da Europa.

                        O cavalete, este é, sem dúvidas, um método requintado: O condenado era colocado deitado com as costas sobre o bloco de madeira com a borda cortante, as mãos fixadas em dois furos e os pés em anéis de ferro. Nesta posição (atroz por si mesma, se pensarmos que o peso do corpo pesava sobre a borda cortante), era procedido o suplício da água. O carnífice, mantendo fechadas as narinas da vítima, introduzia na sua boca, através de um funil, uma enorme quantidade de água: dada a posição, o infeliz corria o risco de sufocar. Mas, o pior era quando o carnífice e os seus ajudantes pulavam sobre o ventre, provocando a saída da água, então, se repetia a operação,  até ao rompimento de vasos sanguíneos internos, com uma inevitável hemorragia que colocava fim ao suplício. Outro sistema de tortura que usava o cavalete, reservado às suspeitas de bruxarias, era aquele do “fio de água”. A imputada era colocada nua sob um finíssimo jato de água gelada e deixada nesta posição por 30 a 40 horas. Este suplício era chamado “gota tártara” porque foi inventada na Rússia (país que sempre privilegiou os sistemas de tortura lentos e refinados).

                        Esmaga cabeça: Este instrumento, do qual se tem notícia já na Idade Média, parece que gozava de boa estima especialmente na Alemanha do Norte. O seu funcionamento é muito simples: o queixo da vítima era colocado sobre a barra inferior, depois a calota era abaixada por rosqueamento sobre sua cabeça. Primeiro despedaçavam-se os alvéolos dentais, depois as mandíbulas, quando advinha à saída da massa cerebral pela caixa craniana.  Com o passar do tempo, este instrumento perde sua função de matar e assume aquela inquisitória, ou de tortura.

                        Forquilha do herege, ao herege era reservado um tratamento diferente daquele aos condenados comuns, visto que o objetivo era de salvar sua alma mesmo em ponto de morte.  Era encaixada abaixo do queixo e sobre a parte alta do tórax, e presa com um colar no pescoço. As pontas penetravam na carne com tormentos muito fortes. Esta tortura era muito comum de 1200 – 1600. Não era usada para obter confissões, mas era considerada uma penitência antes da morte, à qual o herege, sem escapatória, era destinado.

                        Sobre a mesa de evisceração, ou “esquartejamento manual”, o condenado era colocado deitado, preso pelas juntas e eviscerado vivo pelo carrasco. A tortura era executada do seguinte modo: o carrasco abria o estômago com uma lâmina. Então prendia com pequenos ganchos as vísceras e, com uma roda, lentamente puxava os ganchos e as partes presas saíam do corpo até que, após muitas horas, chegasse à morte.

Bem conhecida, a dama de ferro é uma espécie de sarcófago com espinhos de metal internos. Os espinhos não atingiam órgãos vitais, mas mesmo sendo usada como um método de tortura era comum deixar as vítimas por dias lá dentro, o que causava sua morte. Geralmente era usada em traidores ou criminosos. A primeira referência confiável de uma execução com ela foi em 14 de Agosto de 1515, e foi usada em um falsificador de moedas.

                        O garfo era mais utilizado como uma penitência. Com pontas perfurantes era amarrado abaixo do pescoço, assim com os movimentos naturais do corpo provocava o efeito punitivo desejado. Já as garras de gato eram propriamente garras usadas para arranhar e açoitar a carne. Podem ser citadas dentre punições mais leves as máscaras da infâmia, que não eram terríveis fisicamente falando. A tortura real estava na humilhação pública, pois as pessoas que recebiam essa pena deveriam assim se expor perante a sociedade.

                        A pêra era outro instrumento também bastante simples e macabro. Usado em punições de crimes relacionados a questões sexuais, como sodomia e adultério, era simplesmente um instrumento metálico, algo como uma pêra, que depois de introduzido nos orifícios da vítima era por comando expandido dentro dela.

                        A roda alta era reservada aos criminosos responsáveis por delitos contra a ordem pública: assassinos, ladrões, estupradores. De uso muito comum na Europa alemã, na Baixa Idade Média até o início do século XVIII. Era um suplício duplo: o réu era colocado nu, deitado no chão, com os pés e as mãos fixados em anéis de ferro. Sob seus ombros, cotovelos, joelhos e tornozelos, eram colocados robustos pedaços de madeira. Então, o carrasco, com a roda, despedaçava-lhe todos os ossos, esmagando as juntas, mas evitando ferimentos mortais. Na segunda parte do suplício, o corpo da vítima, assim todo triturado, era dobrado sobre si mesmo e colocado em cima de uma roda de carroça, na horizontal, sobre uma estaca, e ali deixado por vários dias até morrer. Alguns chegavam a durar vinte dias nessa posição, e eram alimentados à noite para prolongar o seu sofrimento.

                        Estes, entre outros instrumentos, representavam uma das ferramentas da ciência do interrogador, no intuito eminente de provar as suas suspeitas dos acusados, tanto em nome de Deus como no nome do Estado. Sendo, portanto, todos estes, não apenas instrumentos de tortura senão a antecâmara da condenação capital.

 

Uma nova mentalidade: O fim da inquisição

 

Introdução

 

                        A inquisição que perdurou por toda a idade média encontra também o seu espaço nos tempos modernos quando, a propósito, fez o seu maior número de vítimas, e é comum tanto no mundo católico, tratado neste trabalho, como no âmbito das nações protestantes, que merecem também serem destacadas.

                        Na Escócia entre os anos de 1500 e 1600 cerca de oito mil “feiticeiras” foram queimadas. Já na Inglaterra a feitiçaria foi tornada um crime capital a partir das leis de 1562 da rainha Elisabeth, durante seu reinado 81 mulheres foram executadas por esse crime. Essas punições fizeram seu maior número de vítimas, entre os ingleses, durante o parlamento longo que levou a fogueira 200 mulheres num período de dois anos (1645-47)[50]

                        Na França, onde os casos de feitiçaria são definidos nas jurisdições seculares, até o século XVII, os juízes condenam facilmente pelos crimes de feitiçaria, sortilégio ou malefício, seguindo apenas a tendência dos tribunais da época, guiados pelas obras de importantes demonólogos a exemplo de Bodin, Bouguet Dupleix, Lê Loyer e Rémy.

                        Um longo tempo de transformações foi necessário para que ocorressem as inovações que levariam ao fim da caça as bruxas. Usaremos aqui o caso francês para figurar o processo de desenvolvimento que promoveu o abandono da mentalidade tradicional, considerando as similitudes com que a inquisição foi empregada desde a França ou a Espanha até a Inglaterra, assim também foi o seu abandono.

   

O exemplo francês

 

                        È no final do século XVI que começam a surgir nas cortes franceses, as primeiras contestações. São vozes isoladas de juízes e médicos que procuram explicações naturais para os casos julgados. Os primeiros tentam se desvencilhar da jurisprudência tradicional, mas esbarram nos seus escrúpulos e no próprio cansaço o que determina posições flutuantes que não promovem uma mudança fundamental. Já no caso dos médicos, esses se apóiam na experiência científica, “o que lhes permite afirmar sua convicção com certa serenidade”[51]

                        Nas cortes mais esclarecidas, alguns casos de feitiçaria começam a serem encarados com uma nova postura, a exemplo do que aconteceu em Djon, ou em Paris, que, ao serem deparadas com denúncias semelhantes a possessões e encantamentos, apenas  exortam a as autoridades religiosas locais a catequizar melhor os seus fieis e tratam a estes como  ” pobres criaturas” necessitadas de esclarecimento. Em 1640 a corte de Paris torna-se pioneira ao abandonar as execuções por crimes de feitiçaria. Sua influência será fundamental no processo que irá se seguir.

                        Os decênios de 1640-50 são marcados por incertezas e confusões por toda França com a exceção de Paris, pela freqüência de processos primários que ressurgem, em conseqüência dos casos de feitiçaria rural. A esse respeito Mandrou explica bem:

 “Frente a esse recrudescimento da feitiçaria rural, os magistrados das cortes viram-se embaraçados: uns opinando para que se siga o exemplo parisiense e se suste a epidemia, de fato pela utilização do procedimento utilizado naquela alçada; outros, continuando apegados a jurisprudência tradicional, impressionados mesmo pela amplitude da ofensiva desenvolvida pelo demônio em sua província, e poucos dispostos a modificar suas posições costumeiras”.[52]

                        Mesmo com algum progresso, quando outras cortes passam a levar em consideração os preceitos da corte parisiense, as estórias de encantamentos e bruxarias continuam a impressionar as populações rurais e os membros da jurisdição mais ligados a elas. No entanto, são as ocorrências de possessões citadinas, incluindo-se aí os casos de possessões conventuais, que se desdobram em casos extraordinários e põem em discussão diversas cortes e esferas diferentes de jurisdição. Essas pretensas possessas são, na maioria dos casos, desmascaradas por médicos e também religiosos, que fazem uso de meios perspicazes como, por exemplo, a utilização de água normal nas suas sessões de exorcismo, afirmando ser água benta o que fazem ela se traírem e inocenta aqueles denunciados por elas como feiticeiros responsáveis pelo malefício em obediência às ordens do diabo.

                        As repercussões de casos como estes provocam muitas discussões entre as diferentes esferas do poder jurídico, como já foi citado, e em alguns momentos até mesmo intervenções reais.

 

Ordens do rei

 

                        È esse quadro que leva a ordenações de códigos reais, que buscam uniformizar a jurisprudência das diferentes cortes, sob aquelas idéias que são defendidas em Paris. Neste processo merece destaque a figura do ministro Colbert e de seu conselheiro jurídico Uplessis, entre outras causas defenderam que  a confissão por si só não deve servir como prova para o crime e que deve ser instaurado  um processo detalhado nas investigações. O primeiro desses códigos é a ordenança criminal de agosto de 1670, assinado em Saint- Germain- em lay, que recomenda a consideração dos detalhes do processo e a revisão de todos as modalidades que regem o funcionamento do aparelho judiciário.Porém esses códigos não são decretados sob a forma de sentença geral, o que faz com que algumas cortes ainda fiquem divididas sobre a questão.

                        Mesmo depois desta primeira ordenança voltam a ocorrer muitos casos de epidemias rurais que provocam perseguições no sul e na Normandia, este cenário, entretanto muda intensamente após a assinatura em Vesalhes por Luís XIV, Colbert e Le tellier do  edito de julho de 1682. Este  é o ponto final que se apóia sob várias intervenções anteriores através do qual as cortes de Rouen, Pau, Bordeaux e Tolouse, após Djon foram perfeitamente esclarecidas sobre a vontade do governo. Esta ordenança geral passa a regulamentar os crimes de feitiçaria, mas não trata dele especificamente,  admite apenas que exista “uma”pretensa magia”, significa a negação implícita do pacto diabólico e das práticas satânicas ligadas ao Sabá e aos malefícios  tradicionalmente denunciados outrora pelos demonólogos”[53] institui assim o fim da perseguição criminal aos feiticeiros mas não da maneira habitualmente admitida. O objetivo é sim, reprimir os abusos criminosos das práticas ligadas a feitiçaria. Tal como a mágica, adivinhações e outras ilusões semelhantes para abusar da ignorância e da credulidade de suas vítimas podendo chegar ao extremo criminal de associar o malefício e o envenenamento, estes dois últimos casos continuam a ser punidos com a morte. Forma-se deste modo duas categorias de criminosos diferentes: envenenadores e sedutores podendo as duas, por ocasião se somarem.

         

Os sacrilégios

 

                        Os atos sacrílegos continuam também a receber a morte como punição já as palavras sacrílegas não recebem o mesmo castigo, elas são apenas delitos de palavras e podem, no máximo, serem punidas com o corte da língua se for o infrator entregue a justiça pela sexta vez. Nesta mesma categoria criminal inserem-se os vizinhos difamadores, que são a partir daí obrigados a se retratar e reabilitar as pessoas difamadas.

      

Falsos feiticeiros

 

             Os feiticeiros e as feiticeiras são tidos agora como charlatães e simuladores, a justiça procura, após 1682, averiguar o caráter financeiro de suas iniciativas. A repressão a eles se situa, simplesmente ao nível da polícia, são agora perseguidos e impedidos de prejudicar; na maioria das vezes são enviados à internação “os mais incômodos na Bastilha por Lettre de cachet, os peixes miúdos em Bicêtre  e na Salpêtriére com os alienados,” [54]  em alguns casos, ainda, grupos de vagabundo e ledores de sorte  foram alistados ao exército.

     

As possessões

 

                         As pretensas possessões passam a serem encaradas como uma manifestação da religião mal compreendida “em muitos casos a justiça nem mesmo toma consciência delas e os exorcistas conseguem libertar sua possessa que retoma um comportamento religioso regular, sem demais incidentes”.[55]

 

 

                         Foi necessário um século para que a jurisprudência francesa passasse em definitivo a considerar a nova qualificação dos feiticeiros e para desconstruir a demonologia tradicional de Bodin e de Pierre de Lancre. Esta lentidão na modificação das estruturas judiciárias se deu pela independência quase total dos parlamentos franceses e pela dificuldade dos membros superiores das cortes em se fazerem obedecer pelos constituintes das jurisdições inferiores[56]; mas, sobretudo, este foi tempo necessário para que se pudesse abandonar a mentalidade tradicional arraigada aos preceitos de “uma longa idade média” conduzida pelo viés do teocentrismo, de uma mentalidade que pressupunha a onipresente vigilância de Deus e de Satã. Foi o tempo necessário para que o desenvolvimento da ciência e da filosofia promovesse uma nova tomada de consciência.

                        Salvo as particularidades, esse foi o quadro geral do desenvolvimento em todas as nações onde um imaginário supersticioso popular promoveu a caça às bruxas. A inquisição foi extinta completamente apenas no final do século XIX, na fase do triunfo da burguesia, que revolucionou comportamentos e modos de pensar quando “a ciência deslocou a religião e colocou-se a serviço das forças produtivas da sociedade”.[57]   A partir do Renascimento o direito começou a perder seu caráter sagrado, entre os anos de 1600 a 1800 começa a vigorar o direito racional que se caracteriza pela influência dos sistemas racionais na teoria jurídica. O Estado moderno diferencia-se de outros por arvorar-se do monopólio na produção do direito.

                         É no século XVII que surgem os dois grandes juristas modernos: Samuel Pufendorf e Christian Thomasius. Suas teses fundamentaram as bases do direito moderno; o objetivo prático delas é arrancar um pouco da competência omnicompreensiva da igreja para o Estado nacional que nascia, ou seja, tirar da competência da igreja aquela parte das ordens normativas que seria, exatamente, a parte jurídica, destinada a competência do Estado. Estão baseados aí os critérios diferenciadores do direito moderno da interioridade e exterioridade, sendo este competência do estado e aquele da igreja.

 

 

 

CONCLUSÃO

 

 

                         No início da Idade Moderna as leis permaneciam a obedecer a uma visão teocêntrica. Embora vigorasse também, em seu principio, a legislação moderna que punia crimes “comuns”, ressalta-se neste período a justiça inquisitorial que tinha a função de fazer cumpri as “leis de Deus”.          

                         Alguns historiadores dizem que a igreja não estabelecia os moldes da sociedade e sim era um produto dela. Ou seja, estabelecia normas sim, mas para uma sociedade já adaptada a determinadas características.

                        Seguindo essa lógica poderíamos dizer que assim também foi à inquisição, independente se católica ou protestante, foi uma manifestação da mentalidade reinante no tempo em que perdurou, seja na idade média ou moderna, o que permitiu as prisões e castigos inquisitórios foi a sociedade da qual ela era fruto. Tanto o é, que as formas inquisitórias adaptaram as características das regiões onde se estabeleceram: Nos trópicos, como não havia as mesmas superstições de uma Europa assombrada por bruxas, tal qual a maneira tradicional como a conhecemos, os “criminosos” mais perseguidos foram os cristãos-novos acompanhados por outros que cometiam “crimes” próprios de uma nova organização social carente dos preceitos morais tradicionalmente europeus, como os fornicadores, blasfemadores e bígamos. Já na Espanha as famílias judias foram as principais vítimas.

                        No Brasil, México, Peru e Gôa, casos extra-europeus demonstrados neste trabalho, os acusados eram transmitidos à suas metrópoles para que fossem julgados nos moldes desta. Nos Países como França e Espanha o principal meio que levava as pessoas aos tribunais era a delação de vizinhos ou a acusação dos cléricos locais, esta comum também no Brasil.

                        Após a denúncia, vinha o processo de colhimento de provas,  geralmente obedecendo a critérios tautológicos, como foi demonstrado, mesmo se não fossem achados indícios comprovando a culpa dos acusados, na maioria dos casos eles eram considerados culpados, pois se tinha a convicção que a ausência de provas era obra do diabo  tentando inocentar seus compactuados. Assim as confissões, resultados de terríveis sessões de tortura, acabavam sendo a principal prova.

                        O abandono da inquisição foi resultado da mudança de mentalidades ocorridas em conseqüência do triunfo da burguesia, que deslocou a religião ao plano espiritual e alocou a ciência no centro da razão. Do seu surgimento ao banimento, as formas inquisitórias acompanhou os modelos da sociedade, não o contrário.

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

 

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                    NOTAS                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                

  

[1] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 15.

[2] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 61.

[3] Essas partes eram conhecidas como Punctum Diabolicum.

[4] O Sabá era o encontro dos bruxos com os demônios. Constitui o elo entre o velho rito pagão dos bruxos e o ritual anticristão, no qual Satanás é divinizado e adorado com ritos e cerimônias cristãs pervertidas.

[5] O licantropo é um ser lendário com origem em tradições européias, segundo as quais um homem pode se transformar em lobo ou em algo semelhante todas as noites de lua cheia às 21 horas, só voltando à forma humana, novamente, quando o galo canta.

 

[6] É uma espécie de manual de diagnóstico para bruxas, publicado em 1487, dividindo-se em três partes: a primeira ensinava os juízes a reconhecerem as bruxas em seus múltiplos disfarces e atitudes; a segunda expunha todos os tipos de malefícios, classificando-os e explicando-os; e a terceira regrava as formalidades para agir “legalmente” contra as bruxas, demonstrando como inquiri-las e condená-las.

 

[7] Vem do latim sortilegium, composto de sortis (”sorte”) e legere (”ler”). Inicialmente o termo indicava o tipo de adivinhação em que o sacerdote ou feiticeiro interpreta os padrões formados por objetos jogados ao acaso sobre uma superfície (como búzios, ossos, dados etc.). Com o avanço do Cristianismo, estas artes divinatórias passaram a ser condenadas pela Igreja, e o vocábulo adquiriu o significado genérico de feitiço ou bruxaria.

[8] Jean Bodin (Angers, 1530 — Laon, 1596) jurista francês, membro do Parlamento de Paris e professor de Direito em Toulouse. Ele é considerado por muitos o pai da Ciência Política devido a sua teoria sobre soberania. Baseou-se nesta mesma teoria para afirmar a legitimação do poder do homem sobre a mulher e da monarquia sobre a gerontocracia. Bodin recomendou tortura até mesmo em casos de inválidos e crianças, para tentar confirmar a culpa de feitiçaria. Ele afirmou que nem mesmo uma bruxa poderia ser condenada erroneamente se os procedimentos corretos fossem seguidos, suspeita tida como suficiente para atormentar o acusado uma vez que rumores relativos à bruxaria quase sempre eram verdades.

[9] De Civitate Dei (A Cidade de Deus) é obra de Santo Agostinho, na qual descreve o mundo, dividido entre o dos homens (o mundo terreno) e o dos céus (o mundo espiritual). Teria sido a obra preferida pelo imperador Carlos Magno.

 

[10] Do Latim iuris prudentia, é um termo jurídico que significa conjunto das decisões e interpretações das leis.

[11] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 77.

[12] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 97.

[13] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 98.

[14] MANDROU, Robert. Magistrados e Feiticeiros na França do século XVII. Pág 99.

[15]  KAMEN, Henry. A Inquisição na Espanha. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1966

[16] Idem

[17] Em 1483 uma nova Bula papal estabelece um conselho, o Consejo de La Suprema y General Inquisición, conhecido como Suprema, para funcionar como a autoridade última da Inquisição. Foi nessa bula também que foi criado o cargo de Inquisidor Geral que teve como seu primeiro ocupante Tomás de Torquemada. Nos quinze anos seguintes até a sua morte em 1498, Torquemada teve um poder e influência que rivalizavam com os próprios Fernando e Isabel. O grande, austero e fanático frade dominicano, que foi prior do convento de Santa Cruz, em Segóvia, deixou a marca indelével de seu caráter no tribunal que dirigiu, se esforçou mais que qualquer outro homem antes ou depois dele, para estabelecer o poder e a autoridade da Inquisição na Espanha. Sua devoção ao cargo era tanta que ele chegou a recusar o bispado de Sevilha que lhe foi oferecido. Apesar de jamais ter abandonado o traje de dominicano pela moda, Torquemada acumulou uma grande riqueza confiscada, morava em palácios extravagantes e viajava com um séquito de cinqüenta guardas montados e duzentos e cinqüenta homens armados. Com sua severidade na perseguição aos hereges, estabeleceu o padrão que tornou o tribunal um nome de terror entre os fiéis.

 

 

                                                              

 

 

[18] Esses judaizantes seriam pessoas acusadas de ludibriar conversos para voltarem a sua antiga religião.

[19] DURANT, Will. A história da civilização VII, começa a idade da razão, a história da civilização européia no período de Shakespeare, Bacon, Montaigne, Rembrant, Galileu e Descartes :1558-1648 

 

[20] KAMEN, Henry. A Inquisição na Espanha. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1966

 

[21] Ligia Bellini, A coisa Obscura, mulher, sodomia e Inquisição no Brasil Colonial, p.12

[22] Calvinista, espalhou discretamente uma propagando contra a autoridade das Bulas e a própria autoridade Papal. Falava ainda contra os sacramentos e os usos das imagens. Foi mandado à Bahia e de lá a Portugal, por fim às Índias onde acabou por heresia.

[23] O Concílio de Trento foi realizado pela primeira vez em 1545, embora originalmente convocado para estabelecer a reunião de Lutero com a Igreja, acabou sendo a reafirmação da disciplina eclesiástica, visava assegurar a unificação da fé e condenava os protestantes, todos eles, de Lutera a Calvino.

Marco pelo qual o sexo passou a ser olhado com maior atenção pela Igreja.

[24] Sonia Siqueira, A Inquisição Portuguesa e a Sociedade Colonial, São Paulo, Ática, 1978, p. 87.

[25] Padroado consistiu na delegação de poderes ao Rei de Portugal, concedida pelo papado, em forma de diversas bulas papais, uma das quais uniu perpetuamente a Coroa Portuguesa à Ordem de Cristo, em 30 de dezembro de 1551. A partir de então, no Reino Português, o Rei passou a ser também o patrono e protetor da Igreja, com as seguintes obrigações e deveres: zelar pelas Leis da Igreja; enviar missionários evangelizadores para as terras descobertas; sustentar a Igreja nestas terras. O Rei tinha também direitos do Padroado, que eram: arrecadar dízimos (poder econômico); apresentar os candidatos aos postos eclesiásticos, sobretudos bispos, o que lhe dava um poder político muito grande, pois, nesse caso, os bispos ficavam submetidos a ele.

[26] Ver Estudo Preliminar de Pedro de Alcântara Figueira e Claudinei M.M. Mendes: O Escravismo

Colonial.

[27] Souza, Laura de Mello e, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, São Paulo: Companhia das Letras, 1986, p. 88

[28] Ver: Thomas, Luiz Felipe. De Ceuta ao Timor, cáp. V Goa: Uma Sociedade Luso-Indiana.

[29] Salvador, José Gonçalves, Cristãs-Novos Jesuítas e Inquisição, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1968, p. 19.

[30] Termo usado para referir aos descendentes de Judeus originários da Ibérica. A palavra tem origem na denominação hebraica para designar a Península Ibérica (Sefarad ספרד )

[31] Salvador, José Gonçalves, Cristãs-Novos Jesuítas e Inquisição, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1968, p. 81.

[32] Souza, Laura de Mello e, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 94.

[33] Idem.

[34] Souza, Laura de Mello e, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 156.

[35] Souza, Laura de Mello e, O Diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial, São Paulo: Companhia das Letras, 1986. p. 184.

[36] Vainfas, Ronaldo, Trópico dos Pecados: Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil, Editora Nova Fronteira, 3ª edição. P. 81.

[37] Vainfas, Ronaldo, Trópico dos Pecados Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil, Editora Nova Fronteira, 3ª edição, p. 87.

[38] Mott, Luiz. Cripto-sodomitas em Pernambuco colonial, Revista ANTHROPOLÓGICAS, ano 6, volume 13(2): 7-38 (2002), p. 6.

[39] Vainfas, Ronaldo, Trópico dos Pecados Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil, Editora Nova Fronteira, 3ª edição, p. 36.

[40] Vainfas, Ronaldo, Trópico dos Pecados Moral Sexualidade e Inquisição no Brasil, Editora Nova Fronteira, 3ª edição, p. 43.

[41] Costa, Pereira da. Anais Pernambucanos, vol. 7, p. 275.

[42] Desvios cometidos na Metrópole eram purgados na Colônia através do degrado, colonos desviantes, hereges e feiticeiro eram, por sua vez, duplamente estigmatizados por viverem em terra particularmente propícia à propagação do Mal. Laura de Mello e Souza, O Diabo e a Terra de santa Cruz, p. 17.

[43] Silva, Leonardo Dantas. Na introdução de Denunciações e Confissões de Pernambuco 1593-1595.

[44] Szklarz, Eduardo. Aventuras na História, edição 57. Abril de 2008.

[45]Mandrou, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do século XVII, São Paulo, Editora Perspectiva, 1979.

 

[46] Idem,

[47] Idem,

[48] Idem,

[49] Idem,

[50] DURANT, Will. A história da civilização VII, começa a idade da razão, a história da civilização européia no período de Shakespeare, Bacon, Montaigne, Rembrant, Galileu e Descartes :1558-1648 

[51] Mandrou, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do século XVII,São Paulo, editora perspectiva,1979 pág. 131

[52] Idem. Pág.301

 

[53] Mandrou, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do século XVII, São Paulo, editora perspectiva, 1979, pág 390

[54] Mandrou, Robert. Magistrados e feiticeiros na França do século XVII, São Paulo, editora perspectiva, 1979, pág, 416

[55] Idem, pág 424

[56] é necessário ressaltar que muitas mulheres foram mortas na fogueira por não ter sido dado a elas o direito de serem julgadas ,se não em primeira estância, por juízes profundamente ligados a mentalidade tradicional local.

[57] Lopes, Luiz Roberto. História da inquisição(série revisão). Porto Alegre,editora:mercado aberto,1983

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Universidade Federal de Pernambuco

História da Cultura

Professor: Severino Vicente da Silva

Alunos: Primícia Wanessa Tabosa de Azeredo

              Leonardo Malafaia Alves

 

 

No vídeo de Darcy Ribeiro, “O povo brasileiro”, que nos foi apresentado, obtivemos a oportunidade de ver a origem do nosso povo e cultura, identificando costumes, estilo de vida e todas as mudanças decorrentes a partir da chegada do povo europeu.

Sabe-se que cultura é a totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano, ou seja, são práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço, e pode-se notar claramente esta definição ao se observar o comportamento indígena da época, quando os índios produziam seu próprio alimento, pintavam a pele com diferentes cores, e até a forma com que educavam seus filhos demonstra a cultura vivenciada de forma livre e sem restrinções. E eles entraram em contato com os europeus e desse contado nasceram pessoas e novos costumes. Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de mestiços, que fundou esse país, porém, a forma com que viviam era de tão grandioso contraste comparando-se aos europeus, que concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente e, logo, o povo europeu tratou de impor seus costumes, desprezando aqueles praticados pelos índios e mestiços.

Dança no Alto Xingu

Dança no Alto Xingu

Para os europeus, os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção de “pecado”, porém com um grande defeito: eram “vadios”, preguiçosos não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Os portugueses invasores possuíam relações sociais baseadas na estratificação das classes, e já possuíam uma velha experiência como civilização urbana. Com a sua chegada, acorreu a  mistura de etnias, uma conseqüência da colonização. A miscigenação ocorrida em função dessa mistura racial deu origem à diversidade cultural pertinente até hoje em território nacional;  junto com eles veio a Igreja católica que exerceu uma grande influência no processo de formação sócio-cultural do povo brasileiro. Com isso, os povos passaram a se enfrentar e a se fundirem, fazendo surgir “um novo modelo de estruturação societária”. Passamos a fundir nossas culturas, o que explica o fato de hoje em dia termos traços em comum tanto com os europeus quanto com o antigo povo brasileiro.

Peter Burke10abrReferente ao livro “Cultura Popular na Idade Moderna” escrito por Peter Burke, para tratar da

questão da cultura popular faz-se necessário primeiro identificar que o termo é complexo, possui uma variedade de significados e possíveis interpretações; dentro de uma destas interpretações Peter Burke em seu livro nos mostra que com o passar do tempo a “cultura popular” foi se polarizando; polarização essa que se agravou com o aumento do abismo entre classes.

No início do que seria o período moderno, notamos que a elite da época e as demais classes subalternas compartilhavam de uma cultura que podemos chamar de popular única; onde eventos, tradições, festas, etc. eram desfrutados pelas classes em geral. Com o passar dos anos, e com as constantes evoluções e reformas dentro da sociedade, a elite passou a ver a cultura popular como algo afastado de sua realidade; chegando ao ponto de caracterizá-la como exótica, para, depois, vir a redescobrir esta mesma cultura popular na forma do folclore ou agregando alguns destes “rituais folclóricos” a sua “cultura elitista”.

Esta incorporação de valores e rituais se dá porque apesar de toda a pressão exercida pela minoria letrada da época e das igrejas para silenciar tradições seculares, muitos dos rituais estavam tão enraizados dentro da sociedade; eles perduraram até os tempos de hoje, e muitos destes rituais foram incorporados ao cristianismo; posteriormente, a cultura da própria elite, o que prova a tese de que, em certo ponto existiu, sim uma cultura popular compartilhada dentro das classes e esta cultura foi forte o bastante para garantir seu lugar na sociedade exclusiva que estava por vir.

Tanto o vídeo-documentário da obra de Darcy Ribeiro, quanto o livro escrito por Peter Burke referem-se a existência de culturas que foram modificadas ao longo do tempo, mostrando que quase nunca a passagem de uma cultura à outra se dá de forma pacífica pois há resistência dentro dos povos, resistência essa que permite o prevalecimento de certos elementos culturais originais, afinal, o que define um povo é a sua cultura.

 

 

 

 

Bibliografia

 

Burke, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

   Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro.

Tags Categories: Brasil, História do Brasil, Histório da Cultura Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 03 jun 2010 @ 07 06 AM

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02 de dezembro de 1870



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