11 mar 2010 @ 6:41 PM 

Anne Frank

Anne Frank

FRANK, Anne: O Diário de Anne Frank. Trad. Ivanir Alves Calado. 9ª ed. Rio de Janeiro: BestBolso, 2009. 373p.

 

Carlos Antônio Pereira Gonçalves Filho, Mestre em História, UFPE

 

 

 

Há um bom tempo eu já ouvira falar do nome de Anne Frank. Uma referência rápida aqui ou ali, dita em meio a uma aula na universidade ou lida na página de algum livro de História Contemporânea. E só. Não acho que cheguei a anotar alguma coisa a seu respeito. Tinha sempre muitas outras coisas para ler e ainda pouco tato em lidar com os livros. Em meio ao turbilhão de papéis, trabalhos e aulas, Anne Frank passou, ou melhor, eu a deixei passar…

Há alguns dias, porém, a coisa toda mudou. Anne Frank novamente se fez presente e, desta vez, não a deixei passar em branco. Seu rosto jovem e sorridente apareceu na TV motivado pelo falecimento de uma simpática velhinha que morava em Amsterdã, Miep Gies. Miep, como informou o noticiário, foi uma das pessoas que ajudou a manter escondida a família Frank dos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Os Frank residiam na Holanda, ocupada pelos alemães em 1940. Quando a perseguição aos judeus recrudesceu naquele país, a família de Anne teve que se esconder numa espécie de anexo secreto construído no prédio da empresa em que trabalhava o pai de Anne. No esconderijo, além dos Frank, também havia a família van Pels e o dentista Fritz Pfeffer compondo um grupo de oito pessoas que dividiram um espaço apertado sofrendo toda a sorte de privações durante dois anos. Como ninguém podia sair, o contato com o mundo exterior era feito através de pessoas como Miep, que adquiriam mantimentos e outras coisas indispensáveis à sobrevivência, tais como (imaginem só!), livros. Anne tinha, então, 13 anos quando chegou ao esconderijo, em 1942, e pouco mais de 15 quando dele saiu para morrer num campo de concentração em 1945.

Durante o período em que esteve no Anexo Secreto – como ela costumava se referir ao esconderijo – Anne anotou suas impressões, angústias, descobertas, alegrias e tristezas no diário que a tornaria famosa no mundo todo. Ler o Diário de Anne Frank constitui uma experiência das mais interessantes. É um texto extremamente rico do ponto de vista psicológico, sociológico e histórico. Nele, o leitor é apresentado a um mundo íntimo e complexo, dificilmente perceptível ao olhar estrangeiro. O Diário apresenta a comunidade do Anexo Secreto sob várias nuances. O dia-a-dia do esconderijo é marcado pelo trabalho duro e rotineiro do preparo dos alimentos, limpeza da casa e estudos. Apesar de segregados do mundo exterior, os oito ocupantes se esforçam por reproduzir sua rotina anterior, quando ainda podiam transitar livres pela capital da Holanda. Entretanto, com o passar do tempo, as coisas vão se tornando mais difíceis, sobretudo no que diz respeito à convivência. O espaço é pequeno e a privacidade é mínima. A diferença nos costumes e modos de viver das famílias do esconderijo vai sendo acentuada pelas brigas, discussões e “picuinhas” entre os membros. O conflito entre pais e filhos também é destacado por Anne. Ela mesma dedica uma parte considerável do seu Diário à sua mãe, Edith Frank. Na ótica de Anne não havia espaço para dialogar, para estabelecer uma relação mais íntima, mais aberta com sua mãe. A adolescente se ressente da impossibilidade de encontrar em Edith uma mãe que estivesse pronta a ouvir a filha, para entender seu mundo, seu momento, suas angústias e suas dúvidas. É curioso ler tais comentários quando sabemos que, hoje em dia, uma das coisas que os psicólogos e pedagogos mais enfatizam é a necessidade de os pais dialogarem com seus filhos. Neste aspecto o Diário de Anne Frank também chama a atenção do leitor para o tema da sexualidade. Sendo um assunto tabu para os adultos, jovens como Anne, tinham de recorrer a outros meios para descobrir as mudanças que aconteciam no seu corpo e nos seus sentimentos. Por isso recorriam à revistas, livros e conversas com amigos para terem uma idéia mais ou menos clara acerca das transformações porque passavam. Outro dado interessante que o Diário nos revela é que os habitantes do Anexo Secreto sempre arranjavam um jeito de se divertir. Comemoravam aniversários, feriados judaicos e até o natal. A guerra, nestes momentos, dava uma pausa e o pequeno grupo aproveitava para se divertir trocando presentes, brincando, recitando poesias, contando piadas e comendo iguarias especialmente adquiridas para a ocasião. Era como se o mundo voltasse ao normal, ou quase…

A última anotação de Anne no seu Diário data de 1º de agosto de 1944. Três dias depois, os moradores do Anexo Secreto seriam descobertos pelos nazistas e enviados para campos de concentração de onde apenas Otto Frank, o pai de Anne, retornaria e faria publicar o diário da filha em 1947. Ao término da leitura deste documento, envolto nas mais variadas emoções que o contagiará ao longo do Diário, o leitor talvez se pergunte o porquê da existência da guerra. Por que se fabricam armas, movimentam exércitos, lançam bombas nas casas das pessoas, trucidando homens, mulheres, velhos e crianças exterminando vidas, famílias e sonhos? Esta pergunta também foi feita por Anne e a resposta que ela deu no seu Diário talvez sirva de reflexão para um mundo que, a despeito de surgir dos escombros da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto, tenha a disposição de banalizar, com surpreendente facilidade, a vida humana nas telas do cinema, na televisão, nas decisões do poder, nas ruas das cidades e no interior dos mais recônditos lares:

 

3 de maio de 1944:

 

Não acredito que a guerra seja apenas obra de políticos e capitalistas. Ah, não, o homem comum é igualmente culpado; caso contrário, os povos e as nações teriam se rebelado há muito tempo! Há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas, e tudo o que foi cuidadosamente construído, cultivado e criado será cortado e destruído, só para começar outra vez!

Este foi escrito para o programa QUE HISTÓRIA É ESSA do dia 10 de março de 2010

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 11 mar 2010 @ 06 46 PM

EmailPermalinkComments (39)
\/ More Options ...
Change Theme...
  • Users » 1
  • Posts/Pages » 179
  • Comments » 2,366
Change Theme...
  • VoidVoid « Default
  • LifeLife
  • EarthEarth
  • WindWind
  • WaterWater
  • FireFire
  • LightLight

02 de dezembro de 1870



    No Child Pages.