24 fev 2010 @ 1:08 PM 
Madonna de Yarnwinder - Leonardo da Vinci

Madonna de Yarnwinder - Leonardo da Vinci

RESENHA: “Rompendo o Silêncio – Uma Fenomenologia Feminista do Mal” de Ivone Guebara (Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2ª Edição – 2000).
 
 

 

 

 Lidiane Pereira

Ivone Guebara não esconde sua imensa fé nos atos de Jesus Cristo e em nenhum momento pretende renegá-lo, por isso mesmo denuncia as formas de repressão feminina dentro do círculo cristão, abarcando também, mesmo de uma forma sutil, um âmbito bem maior e mais complexo, levando à superfície os ensinamentos de igualdade do Cristo.

Sua idéia sobre a separação de “mal masculino” e “mal feminino”, bem como a pluralidade, ou seja, a existência de “males”, nos revela a existência de uma estrutura excludente que perpassa o conceito de Gênero, fazendo-se presente na cultura, na simbologia – também perpetuada pela tradução e entendimento da bíblia – e imaginário das sociedades.

Guebara nos fascina com a mistura de sensibilidade e realidade, usando como exemplos: a personagem Ruku, de um romance indiano escrito por Kamala Markandaja, que representaria o “mal de não ter”, ou seja, o sofrimento feminino torna-se particular quando se trata da manutenção da vida doméstica, sendo jogado as mulheres o dever de cuidar dos velhos e doentes, bem como providenciar as provisões necessárias à manutenção da sobrevivência; ainda podemos citar o caso da irmã Joana Inês da Cruz como exemplo do “mal de não saber”, onde a sede pelo entendimento mostra-se, desde o século XVII na América Latina, tão difícil de se saciar como em qualquer outro lugar do planeta, sendo necessário a esta mulher renegar sua liberdade mundana e resignar-se a Igreja para ter acesso ao tão almejado tesouro de sapiência.

Fartos são os pontos interessantes na obra de Ivone, sendo um deles algo rotineiro, mas nem sempre notado. Trata-se da reprodução do que a autora chama de “teia do mal” por parte das próprias mulheres, onde estas estão imbuídas de um sentimento patriarcalista avassalador.

Enfim, o texto de Ivone nos faz pensar em como as distorções de comportamento na sociedade vão além do que é tangível e humanamente aceitável. Rompendo o Silêncio seria uma tentativa de abrir nossos olhos para a real missão que Cristo no deixou, utilizando a relacionalidade constitutiva de nosso ser para fazer valer a igualdade entre homens e mulheres, brancos e negros, ricos e pobres.

Lidiane Pereira é aluna do 7º período de História na UFPE, e estagiária no programa QUE HISTÓRIA É ESSA.

Resenha lida no Programa QUE HISTÓRIA É ESSA am na rádio Universitária 820 am,em 8 de outubro de 2008.

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 18 fev 2010 @ 10:01 AM 

CARUARU DO PASSADO E O CARNAVAL
José Daniel da Silva

 

É muito comum ouvirmos que Caruaru, hoje, não tem Carnaval. Se compararmos com outras cidades pernambucanas, indicadas no calendário da Empetur, esta afirmativa é verdadeira. Entretanto, o Carnaval é uma festa que é vivenciada de diversas maneiras, nos diversos lugares de uma cidade ou região. Sendo assim, em Caruaru e noutras cidades também se vive e se festeja o Carnaval: muitos, como sabemos, viajam para o Recife, Olinda, Bezerros, Pesqueira ou região litorânea, etc., em busca de uma folia mais massificada. No entanto, aqueles que ficam, procuram alternativas de lazer e brincadeira que, dentre outras, podem ser a ida para sítios, chácaras ou fazendas, piscinas, clubes de campo, bares, bem como a casa de amigos ou o próprio meio da rua, para a celebração carnavalesca, regada a comidas e bebidas, músicas e animação. É, portanto, um Carnaval não-oficial.

De forma oficial, institucionalizada pelos poderes públicos, nos tempos atuais, a tentativa mais recente de fazer de Caruaru uma cidade de Carnaval foi no início da primeira gestão do ex-prefeito Tony Gel (2001-2004), quando ele criou o Carnaval da La Ursa. Porém, a tentativa não chegou aos frutos esperados e não se repetiu nos anos seguintes. Neste ano de 2010, a Fundação de Cultura da cidade realizará um evento religioso, um retiro carnavalesco. Outras tentativas carnavalescas foram e são feitas por particulares: até 2007, saía, no bairro do Salgado, o bloco Vem Comigo, organizado por Naldinho, do Mastruz com Leite. Alguns outros pequenos blocos e agremiações foram organizados em 2009 ou anos anteriores: Pé-de-Galo, A Mulher de Todos os Dias, Carnaval da Confraria da Sucata.

Contudo, durante quase todo o século 20, Caruaru realizava um Carnaval destacável. Nos anos 1900, por exemplo, as pessoas saíam pelas ruas do Centro da cidade, brincando através do entrudo, jogando água e água-de-cheiro uns nos outros, fazendo brincadeiras e cantando uma marchinha que é considerada uma das primeiras músicas sobre a cidade: Vamos partir/ Sacudindo flores / Adeus terrinha Santa/ Caruaru dos meus amores (bis) / Sai o sol, saem as estrelas / Sai a lua a clarear / Sai a nossa turma boa / Dando viva ao Carnaval. Nos anos 1920, já era comum acontecer um corso bastante movimentado, com diversos automóveis Ford, frutos da movimentação econômica de Caruaru, ligada ao comércio e à indústria, principalmente as relacionadas ao algodão.

Os melhores carnavais da cidade se deram nos anos 1950 e 1960: realizava-se das melhores festas do Estado, atraindo foliões de diversas regiões e rivalizando, no interior, com o Carnaval de Vitória de Santo Antão. Por seguidas vezes, autoridades políticas da Capital pernambucana, dentre elas Cid Sampaio, Miguel Arraes, Otávio Corrêa, Pelópidas Silveira, etc., vinham para a abertura das festividades. Nas festas de Momo caruaruenses havia Comissão Organizadora do Carnaval, semana pré-carnavalesca e, nos dias específicos, desfile de troças, blocos, escolas de samba, clubes carnavalescos, maracatus, caboclinhos, bois de bandeira, etc. O corso continuava bastante intenso, com carros abertos, principalmente jipes, caminhonetes e caminhões, repletos de pessoas fantasiadas. Houve anos, inclusive, nos quais se montou um trio elétrico em forma de navio, patrocinado por uma empresa de refrigerantes.

Das figuras carnavalescas mais conhecidas na cidade destacamos o Mestre Tota, Zé de Ney, Caboré do Boi Bandeirantes, Zé de Donzinha, Maria Boi Brabo, Vovô, Zé Tatu e Cacho-de-Coco, líder do velocíssimo bloco Sou Eu o Teu Amor, que inspirou o frevo de Carlos Fernando e Alceu Valença: Lá vem, lá vem o bloco / Mas, cadê o bloco, já passou / Um bloco veloz como um raio / Chamado Sou Eu o Teu Amor. Figuras folclóricas “apareciam” nos dias de festejo: o Vereador Bode Cheiroso, o Zé Pereira e o Rei Momo, a grande autoridade do Carnaval. A escolha da Rainha do Carnaval era feita a partir de garotas indicadas como representantes dos ranchos, blocos e clubes.

Os principais clubes carnavalescos eram Sapateiros em Folia, Motoristas e Vassourinhas. Havia grande rivalidade entre os ranchos do Bairro Novo e da Rua da Matriz. Outras agremiações e instituições eram Mocidade em Folia, Palmeiras e 13 de Maio, bloco Infantil do Salgado, Índios Guaranis e Tupinambás, Boi Tira Teima, Cambinda Nova e os clubes sociais Caroá, Colombo, Vera Cruz, Onze Unidos, Clube dos 60, Comércio, Central, Intermunicipal, etc. Além dos desfiles e corsos pela Rua da Matriz, havia manhãs de sol e matinées em ambientes fechados.

Nos anos 1960, contudo, ocorreu o enfraquecimento do Carnaval caruaruense, dentre outras coisas, devido à concorrência do Recife e Olinda, à prática das viagens dos foliões ao litoral pernambucano, bem como à questão econômica: custear as agremiações, em tempos de altos índices inflacionários e problemas de crescimento econômico não era fácil. Além disto, alguns dos antigos patrocinadores ou foliões de destaque morreram nestas décadas e não tiveram substitutos com a mesma intensidade na preparação do Carnaval. Nos anos 1980 e 1990, os festejos carnavalescos nestes portes foram diminuindo gradativamente: a prefeitura deixou de fazer investimentos, os donos de agremiações não conseguiram patrocínios suficientes, os foliões começaram a migrar para outras cidades e, portanto, esta grande tradição carnavalesca caruaruense tornou-se uma saudosa lembrança para a população.

As tentativas recentes mostram o desejo de parcela da população de refazer um grande Carnaval. E, sendo assim, usando o nome de um bloco que saía na cidade: Acorda, Caruaru, ainda dá tempo de recuperar o seu brilhante Carnaval.

» José Daniel da Silva é caruaruense, professor universitário, mestrando em História na UFPE

Publicado em 15.02.2010, JC Agreste

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Last Edit: 18 fev 2010 @ 10 08 AM

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rua direita RJ - RugendasMALERBA, Jurandir: A Corte no Exílio: civilização e poder no Brasil às vésperas da independência (1808 – 1821). São Paulo: Companhia das Letras, 2000. 432p.

 

Resenhado por Carlos Antônio Pereira Gonçalves Filho*

 

 

Durante muito tempo, a história política foi associada unicamente às ações dos grandes homens do Estado ou, então, às estratégias de uma determinada geopolítica da guerra ou das disputas partidárias. Era uma abordagem muito centrada nas “decisões oficiais” dos governos, visto que estas eram consideradas determinantes para o movimento da História. Mas como as coisas não permanecem muito tempo no mesmo lugar, a própria noção de política, bem como a forma como os historiadores lidavam com ela, passou por sensíveis mudanças. Hoje, percebe-se uma presença cada vez maior de trabalhos que analisam o mundo político através do seu aspecto simbólico; são estudos que enveredam pelo campo das representações e do imaginário construídos em torno do Estado Moderno ou de vários sistemas de governo em diversas épocas e sociedades. Esta nova postura de muitos historiadores reflete, sem dúvida, a inserção que a História Cultural tem experimentado nesse campo, concorrendo, portanto, para aprofundarmos questões relevantes sobre o significado e a influência da política no nosso cotidiano.

            Neste sentido, o livro de Jurandir Malerba, A Corte no Exílio, pode ser tomado como um exemplo dessa nova prática historiográfica. A obra procura analisar o período em que a corte joanina permaneceu no Brasil destacando, não só os efeitos mais diretamente relacionados com as transformações no espaço público do Rio de Janeiro, mas também o impacto simbólico e social que a vinda da família real ocasionou para os fluminenses.

            Tomando como referencial teórico-metodológico a obra de Norbert Elias, o autor empreende toda uma leitura do capital simbólico trazido pela corte e implantado no cotidiano da cidade através de arcos do triunfo, ruas ornamentadas, colchas estendidas nas janelas das residências, fogos de artifício, retratos do rei, gestos, etc. Para Malerba, a instalação da corte portuguesa nos trópicos demandou uma série de adaptações que iam desde a remodelação física do Rio de Janeiro até a representação pública do poder real. Não bastava simplesmente abrigar o rei; era preciso que este se fizesse presente e reconhecido por seus súditos diariamente, através das festas, das saídas programadas ou não, e dos desfiles oficiais como o que ocorreu por ocasião da chegada da princesa Leopoldina. O modo de apresentação pública do rei e de sua corte teatralizava o próprio Estado Monárquico, representando a hierarquia e o compromisso entre o governante e os seus governados.

            Jurandir Malerba ainda chama a atenção para um outro aspecto importante da instalação da corte no Brasil: a relação desta com a elite local. Aqui o autor destaca o papel representado pelos comerciantes de “grosso trato” que financiaram o rei e seu séqüito em terras brasileiras. Eram homens ligados principalmente ao tráfico de escravos, mas que também abrangia gente ligada ao sistema de crédito, empresas de seguro, etc. Para Malerba, a ajuda destes homens tinha um objetivo claro: “buscavam e receberam distinção, honra e prestígio social em forma de nobilitações, títulos, privilégios, isenções, liberdades e franquias, mas igualmente favores com retorno material como postos na administração e na arrematação de tributos”. Deste modo, o autor defende a idéia de que, apesar da visibilidade que os proprietários de terras tiveram no jogo político imperial, não podemos desprezar o papel decisivo que os grandes comerciantes exerceram na construção do Estado Nacional brasileiro.

            Livro ricamente ilustrado e com valiosas considerações sobre os anos que antecederam a independência, A Corte no Exílio, destina-se a todos que se interessam pelo período imperial de nossa história. É obra igualmente indicada para se trabalhar na sala de aula, visto que o período joanino no Brasil, e a própria história política são, geralmente, tratados de maneira um tanto esquemática e superficial desconsiderando, portanto, toda uma complexidade inerente ao jogo do poder político, principalmente no que tange ao universo das representações. A leitura de A Corte no Exílio, bem como de outros trabalhos semelhantes, possibilita-nos, desta forma, o descortinar de novos pontos-de-vista sobre o mundo da política para além do quais tradicionalmente estamos acostumados a ver.

           

 

*Mestrando em História pela UFPE.

Resenha lida no programa QUE HISTÓRIA É ESSA, na Rádio Universitária 820Am, no dia 8 de outubro de 2008.

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Last Edit: 18 fev 2010 @ 09 12 AM

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SILVA, Maciel Henrique Carneiro da: Pretas de Honra: trabalho, cotidiano e representações de vendeiras e criadas no Recife do século XIX (1840-1870).  Dissertação (Mestrado em História) UFPE: Recife, 2004. 295p.

 

Resenhado por Carlos Antônio Pereira Gonçalves Filho*

 

           

            Escrever sobre o Recife e sua história tem sido uma atividade permanente de muitos pesquisadores que vêem destacado diversos aspectos da vida cultural, social e política da capital pernambucana ao longo de várias épocas. Uma parte consideravelmente importante desse conhecimento histórico já produzido sobre a cidade do Recife, encontra-se na universidade sob a forma de teses e dissertações, trabalhos estes que resultaram de uma extensa e exaustiva pesquisa em nossos arquivos públicos e que revelam muitas facetas desconhecidas de nossa história urbana.

            Assim é, por exemplo, o caso da dissertação de Maciel Henrique Carneiro da Silva, um trabalho que vem descortinar o mundo das vendeiras e criadas que circulavam pelo Recife no século XIX. A obra aborda o cotidiano das escravas e libertas que vendiam gêneros diversos pelas ruas da cidade ou que atuavam nos serviços domésticos como mucamas, lavadeiras, engomadeiras e costureiras. Seguindo os caminhos percorridos por estas personagens, o autor nos apresenta um cenário urbano complexo, delineado pelas práticas de sobrevivência dessas mulheres que precisavam, a todo instante, marcar seu espaço, seja através da desobediência deliberada às posturas repressoras do poder público, seja pela apropriação e manipulação de idéias e preconceitos de uma sociedade escravista e patriarcal.

            Utilizando um amplo leque de fontes que vai de jornais a processos da justiça, o trabalho de Maciel Henrique, permite ao leitor ter não só uma visão de como era a cidade fisicamente na época, mas também perceber como se davam determinadas relações sociais que marcavam o cotidiano das cativas e libertas no espaço público e privado do Recife oitocentista. Vale destacar, ainda, que o autor empreende uma importante discussão a cerca das representações que a sociedade da época tinha dessas trabalhadoras e de como tais representações influíam na contratação de serviços e eram percebidas pelas próprias vendeiras e criadas.

            Trabalhos como o de Maciel Henrique demonstram que a história e, sobretudo, a História do Recife permanece sendo continuadamente escrita. A todo o momento novas pesquisas são produzidas sobre o nosso passado, sobre nossa cidade. Mas este não é um movimento que visa um saber meramente acadêmico. Não. Ele é mais amplo. Está interligado a um outro movimento, o da cidadania. Conhecer o nosso passado, a história de nossa cidade, é conhecer um pouco sobre nós mesmos e sobre os outros. É saber que as coisas não se apresentam simplesmente porque o são, mas que têm um passado, um começo, uma história.  

 

 

*Mestrando em História pela UFPE.

Resenha lida no programa QUE HISTÓRIA É ESSA, da Rádio Universitária 820AM, UFPE, no dia 29 de outubro de 2008

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Last Edit: 11 fev 2010 @ 07 44 AM

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NASCIMENTO, Alcileide Cabral do: A Sorte dos Enjeitados: o combate ao infanticídio e a institucionalização da assistência às crianças abandonadas no Recife (1789-1832). Tese. DOUTORADO EM HISTÓRIA. Recife: UFPE, 2006.     304 fls.

 

Carlos Antônio Pereira Gonçalves Filho*

 

 

            É interessante notar como o acervo documental depositado nos mais variados arquivos de uma cidade pode ser revelador das práticas e sentimentos de seus moradores. Os (as) historiadores (as) sabem muito bem disso e, por vezes, os resultados de suas pesquisas podem surpreender a quem imagina viver num mundo onde as relações e os sentimentos das pessoas são como pontos fixos, confortavelmente instalados no plano cartesiano da vida cotidiana. Um bom exemplo disso é o trabalho de Alcileide Cabral do Nascimento, A Sorte dos Enjeitados. A pesquisa se concentra num período compreendido entre os últimos anos do século XVIII e as três primeiras décadas do século XIX tendo, como cenário, a Cidade do Recife.

            A leitura da tese de Alcileide nos transporta para um tempo e uma cidade onde se podiam encontrar muitas coisas pelas ruas, tais como lixo, água suja, lama, buracos, excrementos, animais e bebês. Sim, bebês. Havia uma prática, há muito arraigada na população recifense de então, de se abandonar os filhos enjeitados nas ruas onde morriam de inanição, doenças ou eram devorados pelos animais que perambulavam pela cidade. Segundo a autora, em fins do século XVIII, este costume passou a ser combatido pelo Estado através da criação de uma instituição destinada a receber as crianças que fossem renegadas por suas mães ou que tivessem sido tiradas destas por algum motivo. Nascia, assim, a Casa dos Expostos. Para Alcileide, não havia uma preocupação moral com a prática de expor bebês, ou seja, de abandoná-los. Não se questionava o ato em si, mas o local onde o mesmo era feito: as ruas. A palavra de ordem era disciplinar o costume, evitando a exposição pública desses recém-nascidos, considerada agora indecente, incivilizada e não adequada ao “século das luzes”. Tentava-se promover uma “nova sensibilidade” na população para com o espaço urbano, evitando assim, o espetáculo bárbaro de crianças mortas nos becos, vielas e transversais da capital pernambucana. Era mais civilizado esconder da vista de todos o fruto indesejado, renegado ou proibido.

            A partir disso, Alcileide vai perseguindo os caminhos e as histórias de vida dessas crianças enjeitadas. Investiga quem e quantas eram, e de como se deu o processo de sua inserção na sociedade da época, mostrando os instrumentos utilizados pelo Estado para definir-lhes um papel social de acordo com a cor da pele e com o sexo de cada uma delas.

            A Sorte dos Enjeitados trata, portanto, de uma época e de um lugar; aborda idéias e sentimentos próprios de personagens que viveram num passado que também é nosso. Talvez, por isto mesmo, sua leitura seja recomendada para entendermos melhor certas reações e atitudes do nosso presente com relação à sorte de uma infância tantas vezes abandonada, violentada, escondida, silenciada…

 

 

*Mestrando em História pela UFPE.

Resenha lida no programa QUE HISTÓRIA É ESSAm Rádio Universitária 820AM. do dia 1º de outubro de 2008.

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Last Edit: 10 fev 2010 @ 10 22 PM

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 10 fev 2010 @ 3:24 PM 

Gilberto Freyre e a Política Brasileira

Soleno Rodrigues,
   Como escritor, Gilberto Freyre deixou um legado à cultura brasileira; o clássico, Casa Grande & Senzala; livro traduzido para vários idiomas e estudado nas principais universidades do mundo inteiro, levando o seu autor às honrarias. Condecorado e festejado, o título de cavalheiro do reino — Sir – é apenas um exemplo “alegórico” das suas conquistas. Houve até quem afirmasse, que ao lado de aleijadinho, Gilberto Freyre, seria um dos poucos gênios    surgido no continente latino americano.

   O sociólogo – antropólogo também defendeu tese vitoriosa, como a que atribui ao indígena brasileiro influência na revolução francesa.De acordo com o mestre de Apipucos, o asseio, hábito comum ao nosso nativo , fora absorvido pela burguesia daquele país-    França-, e isso gerou    um novo comportamento a quela classe social, até então , à sombra da nobreza e da aristocracia, que a partir daí, passou a tomar posições mais audaciosas, e culminou na queda do ‘ ancien régime” No romance, criou obra delicada, como ,Dona sinhá e o filho padre.Não muito compreendida em sua época: a questão religiosa causava polêmica.Tempo depois, Nilo Pereira, mostrava em um dos seus trabalhos, que a admiração de Gilberto Freyre pelo bispo de Olinda    : Dom Vital , era inconteste.

   Na vida pública, Gilberto Freyre, teve uma passagem, no mínimo, emocionante.Estácio Coimbra foi o seu mestre,até certo ponto, ressalvou o discípulo, que não se achava um virtuose, na arte política,na política, digamos convencional. Deputado federal, Gilberto Freyre, foi o autor do projeto que criava o instituto- hoje, Fundação- Joaquim Nabuco de pesquisas sociais, no ano do centenário de nascimento desse outro ilustre pernambucano, 1949. O objetivo: estudar e defender o homem do nordeste, em especial, o trabalhador rural e o pequeno lavrador. Não foi uma tarefa fácil. Gilberto Freyre encontrou muitos obstáculos, os próprios pernambucanos – alguns , evidentemente – foram seus adversários. Embora , na câmara, o projeto    tenha sido aprovado sem maiores dificuldades, no senado , houve muitos problemas: empecilhos. Mesmo assim, Gilberto Freyre não perdeu o ânimo; a vontade de ajudar o povo sofrido de sua região, prevaleceu. E após muita luta, o projeto fora aprovado pelos senadores e sancionado pelo presidente Dutra. Enfim, seu sonho transformara-se em realidade. Parecia que tudo teria terminado bem , que as diferencias deram lugar a coerência e a tranqüilidade. Não foi bem assim, Gilberto Freyre, passaria por outro constrangimento: fora excluído das solenidades de inauguração do referido instituto. O governador do estado: Barbosa Lima Sobrinho, por essa atitude, foi acusado, por algumas pessoas, de ser “mesquinho”. No entanto, na as sembléia legislativa, onde estava sendo homenageado; Gilberto Freyre, discursou, dizendo que continuava a julgá-lo simplesmente fraco, porém pessoa distinta e simpática. Destacou que nunca o centenário de um Joaquim Nabuco poderia servir para separar pernambucanos de pernambucanos ou brasileiros de brasileiros ,mas, ao contrário uni-los no plano das aspirações e interesses suprapartidários do estado e da nação. Acredito, que com esse procedimento, Gilberto Freyre, fez bonito, na política– na política brasileira.

Soleno Rodrigues, Vitória de Santo Antão

Texto lido no programa Que História é Essa, Rádio Universitária 820 AM, no dia 31 de março de 2009.

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Last Edit: 10 fev 2010 @ 03 24 PM

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 10 fev 2010 @ 3:20 PM 

Resenha: “A Dialética da Feijoada” – Renato Pompeu. Editora Revista dos Tribunais. São Paulo, 1986

 

Renato Pompeu nos presenteia com um livro surpreendente. A “Dialética da Feijoada” tem uma forma ímpar de discutir sobre Marx e sua dialética materialista, aparando as arestas que se formaram com o tempo e esclarecendo dúvidas corriqueiras que insistem em rondar o pensamento marxista.

Pontos, como a definição de infra-estrutura, superestrutura, constelação, sistema e homologia tomam um tom de leveza quando o escritor procura, através de analogias, explicar a complexidade de um Brasil que está contido num mundo efervescente.

E nada representa tão bem tal complexidade do que a feijoada, afinal segundo Pompeu, através da composição, preparação e degustação deste prato popular-nacional, estamos celebrando as migrações humanas e a evolução da sociedade, haja vista “na feijoada está também imbricada a história do relacionamento da sociedade brasileira com seus determinantes externos” (Pg. 43)

E a partir desta idéia, o autor analisa o socialismo, o imperialismo e o capitalismo com suas respectivas influências, tanto no idealismo quanto na prática da sociedade.

No entanto, o autor não se deixa hipnotizar pelas idéias de Hegel, muito menos pela limitada bipolaridade defendida pela dialética.

Os choques entre as múltiplas tendências internas e externas – já que numa sociedade há uma pluralidade de consciências e desta pluralidade nasce uma unidade, dando origem ao que chamamos de “consciência social” – levam Pompeu a admitir a multilética, que “ao contrário da dialética originada pela vivência individual, encontra correspondência tanto na sociedade como na natureza”. (pg. 79)

Um dos exemplos dado ao longo do livro é justamente o “desenvolvimento” do capitalismo no Brasil, sendo observado que um Estado erigido sem revoluções, herdeiro de um Estado português formador da sociedade brasileira e implantador do escravismo teve que se adequar as fôrmas externas e tornar-se, pelo menos no âmbito mundial, um país “ultramoderno”

Mas na feijoada brasileira também observamos ingredientes socialistas, como o ocorrido em 1986 na explosão do pacote inflacionário, mostrando a tendência da massa de cidadãos a procurarem a fusão com o Estado, experimentando de uma forma concreta o fato do desaparecimento do Estado, não de uma forma anarquista, mas sim como este integrado à sociedade.

A “Dialética da Feijoada” nos atinge por três frentes. Podemos intitulá-lo como uma obra reacionária, por ir de encontro à bipolaridade defendida pela dialética Hegeliana, no entanto não é a proposta do autor renegá-la, mas sim mostrar que esta se insere numa multipolaridade.

Podemos ainda chamá-la de revisionista e de idealista por, em nenhum momento, ir de encontro à determinação da superestrutura pela infra-estrutura – levando em consideração que a palavra “determinação” toma significado de “qualificar” ou “delimitar”.

Sem grandes complicações, Renato Pompeu nos leva a analisar a configuração mundial de um tempo não muito distante, já que ainda sentimos as conseqüências e os resquícios de uma sobrevida das décadas passadas.

 

 

Lidiane Pereira – Aluna do 6º período de Graduação em História pela UFPE.

Resenha lida no programa QUE HISTÓRIA É ESSA no dia 18 de março de 2009.

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