30 set 2008 @ 8:42 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: IDADE MODERNA II
PROF. SEVERINO VICENTE DA SILVA
ALUNOS:
CRISTHIANE ANDRADE,
FERNANDO CARVALHO,
MARIA CRISTINA,
RAFAEL CRUZ,
TALITA ALBUQUERQUE.

O JOVEM NA IDADE MODERNA

OS TUTORES DA DESORDEM: RITUAIS DA CULTURA JUVENIL NNOS PRIMÓRIDIOS DA IDADE MODERNA

Nos séculos XVI e XVII, na Europa ainda saindo do medievo, ainda não se traçava uma demarcação nítida entre infância e juventude e ainda não se tinha uma noção precisa daquilo que hoje chamamos de adolescência, existia ainda uma compatibilidade na epistemologia das palavras “criança” e “adolescente”, por denominarem muitas vezes a mesma coisa, no fim a significação segundo o autor, “aqueles que não eram responsáveis por suas próprias ações”, o que abre uma nova discussão, por buscar a delimitação do fim da infância e juventude para a fase adulta, tal delineação era determinada e até hoje muitas vezes é, pelo advento do matrimônio, da saída da casa da família e da instituição da sua própria família, abarcando responsabilidades em relação a outras pessoas, porém, ao analisar-se a questão social, em estruturas camponesas, a questão de responsabilidade era definida muito cedo por conta da iniciação nos campos para auxiliar a família, e o casamento adiado por questões sociais, tal transição espaçada por questões de subsistência e meios de sustentabilidade.

Esta ausência de responsabilidades e, muitas vezes, apoio silencioso legitimador por parte dos adultos originava uma cadeia de eventos provocados pelos jovens, “anônimos regentes da noite”; aqui já não se encontra diferenciação entre as práticas dos jovens seja no campo ou em núcleos urbanos, os mesmos agiam livres das fundamentações adultas, seus atos revelavam reivindicações “coletivas” que serviam para proteger os mesmos através de suas práticas que procuravam abalar os sistemas que regiam o certo e o errado na sociedade em que viviam.

Os jovens reinavam nas noites promovendo arruaças, gritarias e estragos, tal ritualização de atos acabava por se caracterizar como uma afirmação da masculinidade e da coragem. Arrastando pelas ruas o que estivesse pelo caminho, invadindo casas e campos de colheita sejam de uvas ou de cerejas e outros itens mais; nossa pesquisa nos indica que é visível a forte oposição à figura religiosa local, por conta da imagem reprovadora e moralizadora que o mesmo passava, servindo assim tal figura para ataques noturnos aos bens do mesmo, além de ataques verbais sobre sua moral e costumes; enfrentavam também, aqueles que por medidas de segurança foram colocados como meio de tentar controlar os jovens e manter a paz noturna, a ponto de o governo permitir o uso da violência para com os jovens.

Porém, na segunda metade do século XV medidas foram tomadas para controlar as ações juvenis que desafiavam as relações de poder impostas pelos adultos, através dos “Decretos Comunais”, criaram-se penas como trancar em torres e multas, para aqueles que provocassem desordens; locais conhecidos como “berlindas”, “casa dos loucos” eram construídos para alocar tais jovens e utilizá-los como exemplo para outros mais; as ruas receberam lampiões para uma maior iluminação. Muitas dessas medidas serviram para incentivar e provocar maior audácia em burlar e atacar os costumes e regulamentos da sociedade. Ainda como parte de tais intervenções, foi instituído o caráter de “furto” às tradicionais brincadeiras em atacar às casas; e isso dava maior amplitude na hora de julgar e aplicar pena aos jovens, colocados como “garantia ‘orgânica’ da transformação social”. Porém tais penalidades eram brandas, se comparadas com as dos adultos, as próprias práticas juvenis serviam de estrutura para sua proteção dificultando o entendimento de até onde o ato juvenil era de desaforado ou reprovador.

Estudiosos levantam a questão da existência da juventude e da adolescência no começo da era moderna e a forma como esta permeia a consciência de si que teriam os jovens, passando pela dimensão cultural de sua auto-definição. A distinção entre infância e juventude era feita pelos próprios grupos juvenis que, em defesa de seus privilégios específicos perante os jovens do início da Idade Moderna tinham sua força social através do princípio em que as pessoas permanecem unidas porque já se conhecem há muito tempo. Mecanismo social simples, pois eles se encontravam regularmente à noite na praça, em pequenos grupos ligados por amizade, vizinhança ou parentesco. As conversas giravam, sobretudo, em torno das moças e de como atrair a sua atenção. O ponto nodal da cultura dos grupos jovens eram essas práticas para estabelecer contatos com o sexo oposto, visando à escolha matrimonial. Estas formas organizadas de se cortejar constituíam um controle sobre o “mercado matrimonial”.

A atitude de pretendentes estranhos que tentavam cortejar as moças da comunidade, era tida como “invasão”. Os jovens locais os rechaçavam e, às vezes ocorriam lutas brutais. Os jovens solteiros assumiam a função patriarcal de guardiões das moças núbeis da comunidade. Consideravam-se os tutores da moral e da honra das moças que estavam em idade de casar da própria aldeia. Era difundido o costume de indicar pessoalmente para cada moça um jovem, que durante algum tempo seria o guardião da sua honra. Um tipo de “teste de casamento temporário” para os futuros papéis matrimoniais.

Aos jovens era reservada a função de preparar o carnaval e os costumes carnavalescos, onde eles eram considerados os verdadeiros protagonistas. Essa dimensão cultural dava um perfil de grupo à cultura juvenil masculina. A função social dos jovens enquanto detentores de costumes típicos do “mundo às avessas” era, segundo a concepção adulta, que nada mais natural que aqueles em fase de transição administrassem os jocosos rituais de transformação e renovação do carnaval.
Nas cidades suíças havia numerosas organizações juvenis associadas ao carnaval, que por seus nomes criativos provocavam por vezes problemas de interpretação aos historiadores. Nomes divertidos representavam a auto-ironia, como a “Corporação da Porca” e a “Sociedade do Pontíssimo, Grandioso e Insuperável Conselho”. Fazia-se paródia da ordem constituída e de reivindicações do poder. Demonstrações essas que a juventude assumiria no futuro.

O papel dos jovens como detentores dos costumes carnavalesco assumiu relevância social. Eram atividades exclusivas deles as preparações de festas de passagem. Aos jovens eram também concedidas certas funções de manutenção da ordem, de censura moral, que ampliava a atividade de controle das moças solteiras, e também exerciam sobre os adultos infratores da moralidade. O grupo de jovens considerava como infração aqueles que abandonavam o teto conjugal por certo período, condenando-os e pretendendo como reparação certa quantidade de vinho que era bebida pelo grupo. Caso não pagasse o vinho a transgressão seria dada ao conhecimento de todos da comunidade. Eles exerciam sua censura controlando de maneira geral a moral e a ordem da vida cotidiana.

Nossas leituras indicam que as regulamentações meticulosas entre comportamento “justo” e “errado”, criadas ao longo dos séculos XV e XVI. Constituem a formação de um o projeto burguês de “bom comportamento”, e tiveram sua origem numa das funções mais simples dos grupos juvenis, o controle da sexualidade. O campo de ação dos jovens era atravessado por verdadeiras contradições, e esse caráter paradoxal reflete-se nas atitudes em que os jovens solteiros resguardam a virgindade de “suas” moças, mas o fazem para que elas a entreguem só a eles no fim.
Nos seus júris simulados os jovens Imitavam do modo mais próximo possível os procedimentos judiciários oficiais. As obscenidades contidas em protocolos como nos do “Tribunal da Porca” demonstravam como o espírito carnavalesco das organizações juvenis levava ao absurdo os rituais do poder dominante.
Sobre a juventude feminina, não se conhece formas de organização como os rapazes.

Algumas fontes documentais isoladas mostram ações de grupo de jovens solteiras. Porém, existiu sempre uma forte reação a inversão dos privilégios do grupo juvenil masculino. Numa política cada vez mais severa de separação dos sexos em lugares públicos e o delineava-se com mais força que o lugar da mulher era em casa e não em lugares públicos.

Nesta política de privilegiar um âmbito exclusivamente doméstico, observa-se o propósito de encerrar mulheres e moças, numa função meramente reprodutora e sexual, com papel de “donas de casa” e de “mães”, tendo pouco espaço para a socialização externa. Nesse contexto social público, o comportamento dos jovens demonstra o privilégio do sistema patriarcal.

Na Itália podemos observar que a Igreja da Contra-Reforma se dedicou a um projeto de disciplina, que, sob a bandeira da “moralidade”, tentou disciplinar os súditos aos seus ideais cristãos. No entanto, esse projeto sofreu resistência dos jovens, que chegavam a brincar e protestar contra a postura da Igreja, como o fato da obrigatoriedade de freqüência às funções religiosas.

A cultura popular, como os relacionamentos entre jovens, que faziam parte do rito de passagem para a vida adulta, era duramente criticada pela Igreja reformada. Esta utilizava de abstratas argumentações morais para criticar e reprimir alguns costumes, como as danças e o carnaval, caracterizando tais costumes como sendo “escandalosos”. O autor entende que a Igreja reformada estava incapacitada de compreender a lógica social e a cultura popular, vendo apenas distúrbios e imoralidade em atos como brincadeiras e namoros entre os jovens.

Nesse choque entre moralidade cristã e cultura popular, foi inevitável o conflito no início da Idade Moderna entre eclesiásticos, extremamente rigorosos acerca dos valores cristãos, e os jovens, com suas necessidades de auto-afirmação e as vontades pela oposição, típicas da juventude. Com a vontade dos eclesiásticos de “reformar” os costumes, tentando reprimir atos considerados “heréticos” pela Igreja, os jovens atacavam o “campo ético” da Igreja, tornando-se uma espécie de “braço armado” em defesa dos direitos e costumes de suas comunidades, fazendo, como maneira de protestar, algum tipo de “bagunça”, como os párocos costumavam dizer de suas ações. Com esses atos, os jovens buscavam demonstrar o descontentamento da comunidade, numa tentativa de aconselhar o pároco a não ir de encontro aos costumes da aldeia.

Podemos analisar também a relação entre os jovens e os adultos. O que se observa é que os jovens não eram reprimidos por suas atitudes. Existia certo elo entre jovens e velhos, tendo os jovens certa liberdade cedida pelos velhos, num tipo de preparação para a vida adulta. Não se tratava de um complô, mas uma permissão aos jovens de agir. Podemos observar essa “preparação” em alguns acontecimentos, como a participação da juventude de certas comunidades em momentos importantes, como as assembléias eleitorais. Essa certa liberdade cedida pelos adultos pode ser mais bem compreendida se analisarmos os aspectos culturais no sistema da sociedade rural da época.

É fácil se observar que, no início da era moderna, adotava-se o partido de deixar que os jovens se virassem sozinhos em seus negócios. Além de criar espaços específicos para os jovens, essa liberdade aliviava as responsabilidades dos adultos, que se dedicavam aos seus negócios, como os necessários contatos sociais. Os jovens, por si, admiravam os adultos e suas atividades sem que fosse necessário os ensinar os valores da sociedade rural, tendo os jovens a imagem do que queriam ser na fase adulta.

Apesar disso, preocupante eram certas atitudes violentas dos jovens, nas arruaças por eles cometidas. Podemos entender isso como a maneira que os jovens possuíam de se mostrarem como seres existentes. Gritavam, agrediam e usavam do próprio corpo como maneira de declarar a sua presença. Os rapazes solteiros utilizavam desses meios para se mostrarem para as moças, ou pra impor respeito entre os outros rapazes, que eram seus rivais em potencial. É possível comparar essa situação com a dos rapazes hoje em dia, que saem cantando pneu com seus carros em frente a discotecas com o intuito de impressionar. Apesar da tentativa das autoridades de controlar essas arruaças e gritos noturnos, a cultura e valor social desses “ritos de passagem” dos jovens não permitiu que a situação mudasse. Apenas o Absolutismo e algumas mudanças rígidas na maneira de tratar esses jovens fizeram com que a situação apaziguasse.

Podemos dizer que, apenas com a mudança cultural, com o mundo do consumismo do século XX, além da defesa dos interesses burgueses que fez com que as instituições tivessem um apoio maior, a juventude deixou de ser um ponto de inquietação e construiu-se então uma visão positiva dos jovens. O jovem deixou de ser visto como um “quase adulto” que tinha que caminhar sobre suas próprias pernas, e o sonho de “eterna juventude” se difundiu. Ocorreu uma inversão: o jovem começou a ser visto como um ser perto da infância, e sendo doutrinados a se aprisionar com a nova cultura industrial e missionária do capitalismo. A troca de gerações deixou de ser uma atitude de confiança na sociedade, orientada para o futuro.

JOVENS NOBRES NA ERA DO ABSOLUTISMO: AUTORITARISMO PATERNO E LIBERDADE

A partir do século XVI houve uma maior difusão da instituição da primogenitura, e ela era usada de forma mais firme que em outros períodos. Havia variações em cada Estado, mas se tornou comum nesse período que os pais passassem todo o seu patrimônio, bem como o seu nome e o direito de perpetuá-lo a um único herdeiro, o filho mais velho. Quanto aos filhos mais moços, cabiam-lhes a vida religiosa, o exército ou, em poucos casos, um casamento menos vantajoso.

Porém, essa questão da primogenitura variava de acordo com o sexo dos filhos. Se fossem homens, teriam essa oportunidade de gozar dos bens paternos. No entanto, se fossem mulheres, as primogênitas quase sempre estavam destinadas ao claustro. Isso ocorria por conta dos valores dos dotes de casamento, que despendiam quantias bastante altas (que às vezes chegavam a ser cerca de 5 anos de renda familiar). Às filhas mais novas era destinado o casamento em virtude de haver um maior tempo para que essa quantia fosse guardada.

Com relação à liberdade de escolha, alguns teóricos vão se posicionar a respeito, bem como os que estavam ligados à área religiosa. A educação deveria ser rígida, com pouca afetuosidade, porém, deveria ser respeitada a “vocação” de cada um. Baseados no Quarto Mandamento, os pais deviam obediência aos pais. Contudo, cabia aos pais observar também a “natureza” de cada filho, não o condenando a viver uma vida de dissabores.

No que diz respeito à educação dos rapazes, pode-se dizer que existia um padrão até pelo menos a adolescência, não importando a quais carreiras profissionais as crianças estavam mais ou menos predestinadas: todos, primogênitos ou caçulas, meninos ou meninas, eram educados da mesma forma.
Com relação aos valores morais cultivados e incutidos nos jovens, há uma grande diferença comportamental que distingue as crianças dos adolescentes, e a passagem de uma fase para outra não pode ser outra coisa senão conflituosa. Graça, vivacidade, exuberância e vitalidade são virtudes moralmente aceitas numa criança, ao passo que a obediência e principalmente a modéstia e a humildade são as virtudes que guiarão o comportamento dos jovens rumo à fase adulta.

Sem dúvida, o fato de a península itálica abrigar a sede da Igreja Católica – e, por conseguinte, a presença dessa instituição ser especialmente forte nessa região – contribuiu consideravelmente para a difusão desses valores (humildade, modéstia, retidão, recato), uma vez que as famílias italianas estavam sempre repletas de membros do clero. Mas esses valores morais não têm só raízes eclesiásticas. Inúmeros tratados de pedagogia, escritos por pensadores como Erasmo de Rotterdam, propalavam a idéia de que a modéstia e a humildade serviam como um antídoto a um dos mais censuráveis defeitos da época: o orgulho, característica que faz parte da natureza dos adolescentes.

Mas é claro que, além das questões de ordem moral e religiosa, os interesses sociais e familiares também estavam em jogo. Os pais acreditavam que através dessas virtudes, os filhos galgariam importantes lugares-sociais, obtendo êxito nas carreiras escolhidas. Existia também o temor de que os jovens, moralmente frágeis, inseguros e altamente influenciáveis, fossem desvirtuados por más companhias, maculando a honra da família. Por isso era recomendável que eles só andassem acompanhados por um preceptor ou por um membro adulto da família, principalmente quando em público.

Essa fragilidade moral dos jovens foi uma das razões pelas quais se difundiu pela Europa o hábito de mandar os rapazes para colégios. Essa instituição era vista pelos pais como uma garantia de uma boa disciplina e educação, além de encaminhamento profissional; servia tanto aos primogênitos, futuros grandes proprietários e chefes de família, tanto aos caçulas, que seguiriam na magistratura ou no clero, tendo a educação formal desses últimos um enfoque ainda maior. Os jovens poderiam ser enviados para os colégios propriamente dito, de onde geralmente sairiam formados em ciências jurídicas; poderiam ir para a escola de pajens, onde ingressariam na vida militar, ou ainda enviados para convetos-seminários, iniciando carreira no clero.
A decisão das carreiras profissionais dos jovens ocorria por volta de doze ou treze anos. Eram fortemente influenciadas pelos pais, mas não de forma totalmente arbitrária. As decisões eram baseadas ao menos em dois fatores: a vocação, necessária para o êxito profissional, e os interesses familiares, a partir dos quais os pais persuadiam os filhos. Portanto, pode-se dizer que o livre-arbítrio do jovem era quase sempre respeitado, mas os pais tratavam de encaminhar seus filhos desde cedo para os caminhos que mais convinham às famílias.

Da mesma maneira os pais se posicionavam em relação ao casamento dos filhos. Ao contrário do que geralmente se imagina, os casamentos não eram de todo forçado: também as afeições entre os noivos eram relevadas. Os pais levavam em consideração a felicidade do filho, e talvez por isso mesmo se imbuíam do compromisso de arranjar-lhe uma boa parceira, pois, segundo o pensamento corrente da época, abandonar criaturas tão moralmente frágeis e inseguras à própria sorte seria desumano. É claro que essa escolha estava intimamente ligada aos interesses da família, mas não era totalmente arbitrária.

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 22 set 2008 @ 8:15 AM 
Universidade Federal de Pernambuco
Centro de filosofia e ciências humanas
Departamento de História
Moderna II – Professor: Severino Vicente da Silva

O SER SOLDADO NA IDADE MODERNA

Equipe: Alex Moura, Diego Carvalho, Diogo Cordeiro, Mozart Anderson

1. Introdução


Inicialmente o tema de nosso trabalho foi, “o ser soldado na idade moderna”, mas resolvemos abranger mais o campo do estudo para a nossa apresentação. Até porque as fontes que dispomos não ajudam numa pesquisa tão especifica. Então a partir disso, resolvemos falar não só do “ser” soldado, mas dos exércitos formados por esses homens, sejam eles mercenários, sejam eles nacionais. Falar de como esses corpos militares influenciaram na formação do novo continente europeu. Agora formado por Estados nacionais, onde os exércitos tiveram papel fundamental. Resolvemos analisar isso de um pouco antes, de forma a tentar esclarecer mais como foram surgir tais tropas, a relação entre o príncipe e os seus soldados, inicialmente. Para isso vou falar um pouco dos estados principescos e como os exércitos se encaixavam nesse contexto.
Phillip Bobbit define quatro características dessas cidades-reino italianas que são o claro exemplo do estado principesco, usando como exemplo a cidade de Florença. A primeira dessas marcas segundo ele, é que elas eram definidas por meios geográficos, o que fazia com que tivessem uma maior consolidação, tanto cultural, quanto política. Outro fator muito importante é a grande receita dessas cidades, o texto mostra que Florença tinha um ganho anual maior do que o do rei da Inglaterra, o que dava a essa república condições de sustentar a sua burocracia e seus gastos, inclusive os com os militares. Terceiro ponto, é que essa riqueza era objeto de cobiça alheia, e para proteger-se disso que se tornava necessária a proteção armada do seu reino, já que, geralmente, as cidades italianas tinham populações muito reduzidas para que pudessem criar milícias eficazes, elas contratavam exércitos mercenários. Por fim, as novas tecnologias, como canhões muito mais móveis, por exemplo, fez com que essas cidades passassem à fase seguinte. O Estado teve que mudar para dar respostas, não só as inovações tecnológicas, que não os deixavam mais seguros atrás de suas muralhas, mas também como forma de garantir a legitimidade de um líder em uma forma de governo recém criada, dar a esse representante a proteção que ele necessitava.
O estado nesse período vai tomando um caráter jurídico, que antes não possuía. Vai ganhando seus traços característicos, personalidade, legitimidade, continuidade, integridade e soberania. Na península italiana, a intrincada questão de alianças tornava difícil confiar em mercenários que pertencem à outra região que não a sua. Nesse momento que aparece a figura do Condottiere que vou falarei mais a frente. O que importa agora é saber que com a aquisição desses guerreiros se tornou cada vez mais necessário à formação de uma burocracia para financiar os Condottes e também adquirir artilharia. Foi nesse contexto que a figura dos mercenários ganhou força, mas se engana que pensa que eles eram só condottieres italianos, havia na própria Itália mercenários de todas as partes do mundo. Eram esses grupos de homens que lutavam em busca do ganho financeiro, sem nenhum envolvimento pessoal com a batalha que travavam.

2. As tropas Mercenárias
Os soldados mercenários eram “Soldados que, mediante pagamento em dinheiro, luta por uma causa que não lhe concerne”. Isso é o que está escrito no livro de Anthony Mockle, História dos Mercenários (1969). E parece ser bem adequada para falar desses homens que viviam uma vida tão conflituosa, em busca de ganho financeiro. A seguir vai um breve de três importantes grupos mercenários desse momento que estamos estudando.

Landsknechts:
A palavra Landsknecht literalmente significa “o servo da terra”. Provenientes da Suábia e da Alsácia principalmente, eles formaram a poderosa infantaria de mercenários de origem alemã, tão conhecida por volta de 1500.
Convocados pela primeira vez por Maximiliano I, para lutar na Guerra da Suábia, sob o comando de Georg Von Frundsberg, que é considerado o pai dos Landsknechts. Lutaram também nas repúblicas italianas e com a ajuda de Maximiliano, Frundsberg fundou o seu corpo de infantaria altamente treinado. Ganhou visão com seus homens ao defenderem Verona em uma guerra contra a cidade de Veneza, quando venceram os franceses. Geralmente suas tropas lutavam junto ao corpo do exercito local, eram contratados, principalmente pelas republicas italianas.
Em campo de batalha tinham comportamentos variáveis, mas ficaram conhecidos não só por sua bravura e organização em combate, mas pelo seu característico uniforme, que inspirado nos uniformes suíços, com bem mais cores. Seu regimento era formado em média por 10.000 homens, em um máximo registrado de 17.000, divididos em regimentos de 4.000 homens. O seu armamento tradicional era o Pique, uma lança bastante avantajada, muito comum na época e que era usada pela maioria dos homens. E também era muito comum o uso de uma espada longa de duas mãos.


Reislaüfer (Guarda Suíça)

Antes de fazer a guarda do vaticano, esses homens formavam um dos mais expressivos grupos de mercenários da Europa. Eram comandados por Kaspar Von Silenen. Foram os preferidos em fins do período medieval, na Suíça além de enormes, os contingentes de mercenários eram facilmente contratados, tinham ainda a vantagem de que na suíça, as milícias locais eram mantidas regularmente e assim eles dispunham sempre de armamentos e treinamento. Assim como os Landsknechts, lutaram nas guerras das republicas italianas, famosos por seus ataques em massa com seus piques e alabardas, suas principais armas, logo ficaram conhecidos em meio aos reinos europeus.
Deles é que se originou a famosa Guarda Suíça. Foi em um ataque do rei habsburgo, Carlos V ao Vaticano, no dia 6 de maio de 1527, dia em que até hoje se comemora o aniversário da guarda e o teste de admissão dos novos membros, que a Guarda provou o seu valor. A maioria dos seus homens morreu no ataque, mas os poucos que sobraram protegeram a vida do Papa Clemente VII. A partir desse dia os antigos mercenários suíços, ficaram responsáveis por uma das mais importantes missões de proteção do mundo. Hoje são senão a mais, uma das guardas mais respeitadas do mundo, não só por seu status mais devido também a seu preparo técnico e prático.

Condottiere

Uma espécie de senhores feudais muito comuns nas províncias italianas, que ao invés de deterem terras, controlavam milícias e vendiam suas forças de batalha aos príncipes italianos. Também foram bastante importantes nas batalhas das províncias italianas. Segundo Christophe Coureau, o nome condottiere vem do termo condottas (contratos). Que são vínculos assinados com o príncipe ou o principado, que definem o tipo de serviço a ser prestado por aquelas milícias.
Em Florença, por exemplo, existiam três tipos de condottas: “A condotta a solda disteso, pela qual o soldado deve obedecer às ordens do general local; a condotta a mezzo solda, segundo a qual o condottiere é livre para invadir, quando e como desejar, os territórios do inimigo; e, por fim, a condotta in aspetto (espera), que corresponde aos tempos de paz.” Esses condottieres evoluíram tanto, que alguns deles como Francesco Sforza de Milão, que casou com uma filha ilegítima de um príncipe que não tinha sucessores, buscaram legitimar-se no poder e conquistar para si tal província. Muitos outros buscaram também essa legitimidade, que era a única coisa que lhes faltavam para que pudessem assumir o poder em diversas províncias da Itália.


Maquiavel X Mercenários

Maquiavel diz logo de inicio do capitulo sobre os mercenários: “Os principais fundamentos de um estado, sejam ele hereditários ou novos, ou mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não é possível haver boas leis onde não há boas armas, e onde existem boas armas é conveniente que existam boas leis, falarei apenas das armas.” Desse pensamento inicial, quisemos extrair uma das bases desse trabalho. Tentamos nele mostrar como os exércitos, sejam eles mercenários ou não, foram importantes para a conservação e até mesmo a criação de alguns estados nacionais. Mas nessa parte inicial, tentaremos mostrar como o pensamento de Maquiavel é totalmente contra o uso de força mercenárias.
O autor do príncipe subdivide as tropas militares em quatro grupos: Mercenários, Mistos, Particulares e Auxiliares. As mistas são formadas em parte de mercenários e em parte particulares. Mas para ele são as mercenárias e as auxiliares, que são tropas enviadas por um outro reino para ajudar na defesa, que são demasiadamente perigosas para o príncipe que as contrata. Em suas palavras: “As tropas mercenárias e auxiliares, são inúteis e perigosas. Se alguém mantiver seu estado apoiado nessas tropas. Nunca haverá de estar seguro…”. Esse trecho mostra sua total desconfiança nesses homens que luta somente por dinheiro.
Em seu pensamento Maquiavel repudia os mercenários, por vários motivos, mas ele deixa claro, o fato de que a falta de ligação desses homens com o Estado Principesco é perigosíssimo para a soberania dos regentes. Nas palavras do pensador Florentino: “O Estado é espoliado por elas (tropas mercenárias) na paz, na guerra, pelos inimigos. O motivo disso é que não nutrem nenhum amor nem força que as conserve em campo, apenas um pequeno soldo, e ele não é suficiente para que desejem dar a vida por ti.”
Isso se demonstra em vários casos em que os mercenários se vendem pra estrangeiros, mudando totalmente o rumo de um combate. O próprio Maquiavel dá o exemplo de Carlos, rei de França, que conquista a Itália com grande facilidade, apoiado por tropas que antes lutavam pelos príncipes, em dado momento do livro, ele chega até a dizer que: “a presente ruína da Itália não tem como causa outra coisa senão o fato de, durante muitos anos, estarem apoiada em forças mercenárias”.
Fica claro que Maquiavel era totalmente contra os serviços dos mercenários. Ele mesmo presenciou momentos em que esses soldados se voltaram contra o seu príncipe ou o abandonaram. Ele acreditava que uma milícia local seria muito mais eficiente. Prova disso é o estatuto que ele mesmo cria em 1505, citado no texto de Bobbit, determinando a forma de organização de uma milícia florentina. Para ele a justiça e as armas eram fundamentais para o estado, então o príncipe tinha de ter plena poder e confiança sobre seus comandados, além de um corpo de funcionários públicos, que desse a ele maior controle sobre esse estado.

3. A formação do exército moderno

Na Europa moderna houve um grande processo de metamorfose onde a ascensão e a que das monarquias influenciaram na formação do Estado. Este Estado Moderno Absoluto presenciou fases, como: principesco, régio e territorial. Cada qual com suas especificidades, o período régio destacou – se pela transformação do exército e influências de novas técnicas militares, como diria Michael Roberts, especialista na formação do exército moderno. “Houve uma revolução militar”.
Estudando as organizações militares percebemos que há vários conceitos e generalidades, como afirma John Keegan em seu livro Uma História da Guerra, onde há seis tipos de organizações militares ao longo da história: o guerreiro, o mercenário, o escravo, a tropa regular, a milícia e o recruta. O que vamos estudar nessa parte são as tropas de linha, também chamada regular formada inicialmente por mercenários e logo depois por soldados das suas nações. Essas tropas regulares exerciam tarefas permanentes e dependentes em princípio de um soberano, logo depois assumido pelo Estado Burocrático.
O sistema de manutenção das tropas era por conta do erário, diferentemente dos exércitos independentes e formados totalmente por mercenários, seja em tempo de crise ou paz, essas organizações burocráticas reforçam o poder monárquico assim sendo militarizam a nobreza, e adotam um recrutamento que contribui na formação da sociedade. Muito acima da lealdade e da técnica dos cavaleiros com sua vassalagem.
“A razão decisiva para o progresso da organização burocrática foi sempre a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização”, análise feita por Max Weber. Antes de tudo essas tropas eram subordinadas ao Estado mostrando assim toda submissão possível ora no papel, ora nas atitudes. Novas construções mentais apareceram na Europa moderna, criadas acima de tudo pelos Estados Absolutistas e seus filósofos, assim a nova definição de militar sustenta-se em três pilares: ordem, disciplina e obediência, tendo na sua labuta manter a ordem no estado, refletindo assim na formação de instituições sociais, como a família.
Este estado centralizado tornou-se o senhor bélico a partir da ordem política e social criando assim a disciplina como forma de controle e de dominação, pois toda estrutura estatal estava reformulada devido o fim da vassalagem. Os estados nacionais consolidam a formação de exércitos burocráticos, afirma Weber 1. A cavalaria passa a ter valor secundário, ela que um dia representou status social e sentimento de nobreza, perde espaço para a infantaria2 .
Os soldados passam a ser pagos pelo soldo, podendo voltar para casa a cada 40 dias, apesar de mínimo e muitas vezes não são pagos, a guerra continua, como pilhagem, saques, perdão de sentença para condenados e propagandas nacionalistas como na guerra de cem anos. O exercito do séc. XVII entra em guerra com a infantaria, artilharia, a cavalaria os piqueiros, os lanceiros, os arqueiros e os besteiros. Sendo que os comandantes de tropa buscavam através de estratégia utilizar a proporção certa de todas as especialidades. A regra certa. (SILVA, 2007, pp.31)

A disciplina como forma de poder

Adestramento é a inovação tática? Bem, para a forma em que o adestramento era feito no exército da era moderna, sim. Mas treinar para lutar já era feito pelas sociedades anteriores, os homens de guerra como: Samurais, Vikings, tupinambás, etc.
As táticas são técnicas de guerra utilizadas para prever e antecipar batalhas. “O adestramento é assim o instrumento de controle que os estados modernos, já unificados, usam sobre suas tropas, já agora regulares. Ele aparece nas unidades militares criadas no século XVII. “Unidades essas que se caracterizam por suas profissionaliza ao contraio de seus predecessores medievais” (SILVA, 2007,pp.32)
O individualismo do guerreiro deixa de existir, o soldado pensa em conjunto, formando assim as tropas coesas conceituadas como unidade por Foucault, enquanto Weber denomina de massa essa consistência massificada da formação de soldados para guerra, são palavras diferentes que possuem os mesmos significados.
Vários instrumentos eram utilizados para controlar a cadência da marcha, por exemplo, o tambor no pé direito, o apito para executar ordens, os passos eram medidos para uniformidade de movimento até conseguir atitudes simultâneas com eficiência. Sendo assim o treinamento com disciplina foi essencial para formar as tropas. Enquanto para Foucault a disciplina é a arte de dispor em fila, organizando homens, enquanto para Weber foi, mas importante que a própria pólvora, pois só assim esse instrumento de controle foi eficiente, as atitudes não eram feitas apenas por obrigação.
Essa época nasceu também à necessidade dos quartéis, de acordo Kalina Vanderlei objetivo de criar espaço onde as novas tropas burocráticas possam ser tanto alojadas quando vigiadas, e mantidas sob estrito controle. Como deveria ser mantido um exército após as batalhas ou como preparar-se antes das mesmas, sem ameaçar sua sociedade e sem perder o controle, só com disciplina e violência para obter um efetivo domínio, ter medo do inimigo como também dos oficiais que comandam os quartéis, que seja obediente antes que útil, uma estrita relação de poder (FOUCAULT, 1997).

“As bases econômicas em que alicerçam as organizações não é o único agente que determinou o desenvolvimento da disciplina, embora sua importância tenha sido considerável. A disciplina dos exércitos bem treinados e o papel, maior ou menor, que tiveram na guerra dependiam, ainda mais e com efeitos duradouros, da ordem política e social. Essa influência, porém, era ambígua.” (WEBER, 1959)

Os baluartes do exército moderno

“Pode-se defender que a guerra era possivelmente o mais racional e rápido modo de expansão de extração de excedentes ao alcance de qualquer classe dominante sob o feudalismo”, é o que pensa Perry Anderson nas linhagens do Estado Absolutistas.
Basta pensar em disputar sem que haja sangue violência que assim mesmo é considerado Guerra. Thomas Hobbes, na obra Leviatã, assim disse:”Guerra não é apenas luta,…, basta o desejo de rivalizar através de batalhas é suficiente…”

a) Nesse mundo disputado nasce o holandês Maurício de Orange-Nassau em 1567, filho de Guilherme, o Taciturno. Sucedeu o irmão Felipe Guilherme em 1618. Estudioso em técnicas de guerra, ele formou o primeiro exército profissional, ainda boa parte de mercenários, com recursos da expansão marítima, mas adotou a disciplina tática para rivalizar com vitórias em cima dos tercios espanhóis, os quais detinham o maior poder de luta, com seus prototanques, inspirados nos gregos, formação massificada retangular de piques, porém lentos e formação de blocos. Nassau buscou nos romanos, utilizou fileiras e rapidez em municiamento, deixando que os piquetes protejam os mosquetes. Saraivadas sucessivas e ininterruptas sufocava o inimigo, coreografia ágil, ocupando grandes espaços devido à extensão das tropas lateralmente e pouca profundidade. (BOBBIT, 2005, pp.92).

b) O dinâmico e impetuoso Gustavo Adolfo, o Leão do Norte, Rei da Suécia, filho de Carlos IX, nasceu em 1594-1632. Subiu ao trono com 16 anos, lutou ao lado dos protestantes. Aprimorou a técnica de Nassau, admirado pelo seu pai, as saraivadas tornou-se cerradas em fileira simultâneas, concentrou o fogo em três tiros por vez. Novo alinhamento e contramarcha com revezamento na Guerra Linear.
Só pode ter um Estado régio centralizado devido ao seu diplomata Axel Oxestierna, dando um novo formato constitucional, reformou o tesouro, fisco, educação e justiça. Tendo apoio da Dieta, do Conselho, da Administração Provinciana e a Igreja. Ela própria participava na elaboração dos Decretos como os Artigos de Guerra em 1621. Um das mais importantes revoluções sociais no exército foi o sistema de recrutamento, todo cidadão sueco estaria preparado para a guerra, superando o número de mercenários, assim nascendo um sentimento de nação com seu Estatuto do Pessoal Militar em 1620.

c) Wallenstein foi um grande general imperial, príncipe de Sagan, lutou pela Liga Católica, financiava, suprimia grandes forças chegando a 100 mil homens, se tornou credor do imperador, começou agir independentemente gerando insegurança no Estado Régio e na Liga, sendo destituído e assassinado por oficiais de confiança do Imperador.
“A tática de Gustavo atendia a uma estratégia de aniquilação; representava, pois, uma profunda mudança de pensamento em relação à estratégia de desgaste de Wallenstein ou a tática de cerco de Maurício” (BOBBIT, 2005, pp.106).

Chegamos à conclusão no fim desse período que a disciplina foi mais importante que a pólvora, pois soube utilizar de maneira eficiente e determinante. E que as mudanças táticas introduzidas pelos baluartes, não só mudou as estratégias da guerra como também o modo de vida da sociedade, uma verdadeira transformação social, finalizando com o pensamento de Michael Roberts assim como abrimos nossa parte.

Guerra dos 30 anos

Foi por um lado uma guerra civil alemã entre regiões que queriam autonomia diante do poder imperial e outras que queriam manter o império. Por outro lado foi internacional, pois os defensores católicos do Sacro Império Romano Germânico em aliança com os espanhóis, lutaram contra os protestantes de diversas regiões da Europa que tinham o apoio da franca católica.

O bloco dos Habsburgos

· Áustria e Hungria – do rei Fernando II
· Alemanha (especialmente a Bavária) do rei Maximiliano I
· Espanha – Felipe III, com apoio do papa e da polônia
· Durante algum tempo recebeu apoio dos luteranos (saxônia) e dos calvinistas (Brandemburgo)

Bloco protestante
· Protestantes da boemia, Palatinato (Frederico V), Holanda, Suécia, Dinamarca e Inglaterra
· Franca católica na fase inicial de forma indireta e na segunda metade se junta à Suécia e define o destino da guerra

A Alemanha da época

No século XVII a Alemanha era uma complexa região formada por mais de mil unidades políticas e não possuía fronteiras definidas. Matinha uma estrutura política feudal. Entre essas regiões erguiam-se diversas barreiras para cobrança de pedágio e postos de aduana. Antes do inicio da Guerra dos 30 anos existiam dois lados em briga constante pelo poder, de um lado a liga católica representada por Maximiliano da Bavária e de outro os protestantes liderados por Frederico V, do Palatinado, que defendia os cultos reformados.

Espanha

Era a Herdeira do maior império do mundo, abrangendo áreas em todos continentes do México a filipinas. A península empírica havia sido praticamente imune as transformações impostas pelo renascimento e pelos avanços da ilustração, e careceu de uma revolução burguesa democrática. Com a renuncia de Carlos V em 1555 o império foi dividido em dois ramos dos Habsburgos
1. O império filipino que abrangia Espanha, Portugal, parte da Itália, flandres e as diversas colônias ultramarinas
2. E o rei da Áustria que dominava o sacro império

Holanda

Já estava na luta pela sua independência, contra a Espanha desde 1568. Na guerra dos 30 anos interferiu fornecendo tropas bem treinadas, formalizadas pela academia militar, de Mauricio de Nassau e dando apoio financeiro, aos países protestantes. Com o fim da guerra estava com a maior frota naval militar e comercial, com o controle de parte das colônias asiáticas e americanas e com um imenso desenvolvimento urbano e cultural

França

Entrou na guerra na época de Luis XIII e seu chanceler Richelieu, que tinha habilidade estratégica suficiente para impedir que espanhóis e austríacos, em seus avanços sobre a Europa central. Richelieu internamente manteve uma política de relativa tolerância com os protestantes e uma orientação externa baseada nos interesses nacionais franceses, o que fica evidenciado com sua participação na Guerra dos trinta anos. Em 1635 após concluir seu tratado de alianças com a Suécia e com as províncias unidas declarou oficialmente guerra contra a Espanha e ao arquiduque governador dos países baixos

Suécia

Entrou em conflito contra a Dinamarca e polônia e buscava, sobretudo o controle sobre a região do mar báltico, recebendo apoio da Rússia que tinha o interesse de neutralizar a polônia. Gustavo Adolfo junto com o ministro Axel Oxenstierna revoluciona o cenário militar europeu, como foi visto anteriormente.

Outros Países

Os países da península itálica, principalmente Milão, Nápoles, Sicilia, Sardenha e os territórios papais apoiavam o lado Habsburgo. Enquanto o ducado de Sabóia, a toscana, Veneza e outros ducados menores oscilaram em suas alianças maior parte destes se juntaram aos franceses contra o domínio espanhol e austríaco sobre a Itália. Já Inglaterra estava em guerra civil que culminou com a execução do rei Carlos I em 1649 e colocou no poder o parlamento representado por Oliver Cromwell. Apoiou a primeira fase da guerra discretamente o lado protestante, porem não desempenhou um papel importante na guerra continental.

Fases da guerra

De inicio uma serie de conflitos iniciados na Alemanha culmina com a invasão espanhola ao palatinado, onde expulsou Frederico V, a região passou a ser controlada pelo imperador Maximiliano da Bavária. A partir de 1621 foi rompida a trégua de 12 anos entre Espanha e os países baixos. A luta entre os principados alemães protestantes e o império Habsburgo não era apenas uma disputa religiosa, mas também estava em jogo o controle do centro da Europa e também as rotas comerciais marítimas e terrestres.

A guerra foi motivada ao mesmo tempo pelas rivalidades, franco-espanhola, Holanda-espanha, reforma-contra. reforma, fora as divergências entre diversas regiões da Europa central. Em todas as fases essas regiões protestantes lutaram contra a coligação formada pela Espanha, estados germânicos católicos e a Bavária.

O contexto militar

Durante a guerra a existência de milhares de soldados criou uma situação caótica durante décadas na Europa, chegando entre 1625 a 1635 a reunir cerca de um milhão de soldados em combate. O aparato de logística para o abastecimento dos soldados era quase nulo, seus pagamentos atrasavam, com isso ocorria constantemente os motins, o que dificultava mais ainda a organização das tropas.
Embora em algumas regiões a maioria dos soldados fosse voluntária, havia também o recrutamento forcado de civis e de ex-prisioneiros, e o pagamento era muitas vezes a própria pilhagem. As tropas mercenárias foram amplamente usadas, e os estragos provocados por elas foram muitas vezes mais destrutivos para os que as contratavam do que para os inimigos.
Uma grande falha desses exércitos especialmente o dos franceses seria a venda dos cargos militares que muitas vezes eram concedidos a nobres inexperientes em guerras longas e sistemáticas. Um fato interessante é que durante o conflito houve uma grande difusão do uso de bebidas alcoólicas pelo soldado, com destaque para os destilados de cereais, como o gim, que era usado principalmente pelos holandeses. O número estimado de vitimas é de quatro milhões de mortos, numero que só foi superado nas guerras mundiais do século XX.


A paz de Vestfalia

As conferencias de paz começam em 1644, com duas sedes, em locais distintos, os católicos, reunem-se em Munster e os protestantes em Osnabruck. O acordo só será concluído em janeiro de 1648, quando efetiva-se a paz do conflito nas províncias unidas, onde a Espanha reconhece após 80 anos a independência holandesa. A Espanha após Vestfalia prosseguiu em guerra contra a franca ate 1659, quando foi firmada a paz dos Pirineus.

Quadro geral depois de Vestfalia
· A franca ganha a Alsacia, Metz, Toul e Verdun;
· Suécia o controle do porto de Wismar no Báltico e dos estuários dos rios Oder, Elba e Weser;
· As províncias unidas e a Suíça são reconhecidas como republicas independentes;
· Brandenburgo ganha a Pomerania oriental e uns pequenos territórios, o que irá alicerçar as bases para a formação do Estado Germânico, com a fusão com o ducado da Prússia;
· A Bavária ganha o alto Palatinado;
· Cerca de 300 estados são reconhecidos do sacro império tem sua soberania reconhecida;
· O rio Reno deveria permanecer aberta a todas as nações;
· A paz de Augsburgo e confirmada e estendida aos calvinistas;
· A Espanha sofreu com as rebeliões na Catalunha, Portugal e em Nápoles.

O final da guerra determinou principalmente o fim do poderio Habsburgo e da Espanha, sobre a Europa, a emergência holandesa, e em seguida dos britânicos, o advento do máximo esplendor do absolutismo Frances. Além disso, no mundo europeu é estabelecido um sistema internacional de estados, surge um direito internacional, tendo como grande contribuinte Hugo Grotius, cada estado teria suas normas não mais se sujeitando a normas externas e as relações internacionais passam a ser estabelecidas em função do reconhecimento da soberania do estado, independentemente da sua religião.

Ocorre também após o conflito o triunfo do estado régio, e começa-se a prepara o terreno para o desenvolvimento do estado territorial. Após o fim da guerra em 1648 a paz de Vestfalia cria uma nova ordem na Europa moderna, na qual, a razão do estado, sobrepõe aos princípios religiosos medievais e na Europa não houve mais guerras motivadas por divergências religiosas.

Estados Territoriais

Os Estados Territoriais, como toda forma de organização política e administrativa, possuem bases de sustentação. A primeira e fundamental é o exército profissional e permanente. Não mais aos moldes do Estado Régio, que também possuía um exército permanente, mas estava impregnado pelos mercenários. A burocracia estava cada vez mais centralizada. Não na figura do rei, e sim, no serviço ao Estado. Estes cargos não eram mais vendidos para angariarem somas para os monarcas fazerem suas guerras. Havia se estabelecido outro nível de sistematização.

A Idade Moderna foi a era dos acordos e tratados de guerra e paz. Neste nível se fazia necessário uma constante representação de diplomatas de um Estado em outro com o fim de selar acordos que permitissem uma maior mobilidade política. Um serviço que não apenas estivesse para acordar alianças dinásticas e matrimoniais. O território também passou ater um nível de preocupação maior por parte dos agentes do rei e do próprio rei. Queria-se uma unidade territorial contínua, e não fragmentária descontínua como no caso Habsburgo. O monarca deveria garantir suas fronteiras, pois eram nelas que passavam o comércio – importante fonte de recursos através dos impostos – a guerra travava-se muito mais neles, além de serem a passagem do comércio era o começo de sua soberania. A defesa do território começava com a defesa das fronteiras, muitas fortificações foram construídas nas fronteiras dos estados e lá as batalhas eram mais comumente travadas.

A guerra ajudou a forjar as bases deste Estado, não que ela tenha sido a única. Contudo, a forma de batalha não era mais aquela da Guerra dos Trinta Anos, cataclísmica de grandes embates e megalomaníacas. Tinham seus objetivos mais delimitados, travada com meios delimitados visando objetivos restritos. Com isso, as batalhas eram mais estratégicas colocando os exércitos em pé de uma relativa igualdade. O exército era profissional, vestido, armado e treinado durante todo o tempo pelo Estado. A disciplina era rigorosa, chegando ao patamar do exército prussiano onde se objetivava que o soldado possuísse mais medo do seu oficial do que do seu inimigo. O abastecimento das tropas em campanha despertou mais cuidado por meio dos homens de guerra. A comida para estes soldados em batalha era algo primordial para mantê-los dispostos a lutar, armas suficientes munição e transporte também completavam a lista de tarefas. E já se começou a imprimir na cabeça dos soldados a noção de lutarem pela pátria, se bem que isso não foi muito difundido por se tratar ainda de tema delicado e escorregadio.
Por fim, a paz de Vestefália e o Tratado de Utrecht foram primordiais para a consolidação dos estados territoriais. O primeiro por garantir uma expansão das fontes de legitimação, quando previa que os outros estados reconhecessem a soberania deles como estados independentes. E o segundo por sacramentar o sistema político dos estados territoriais. Onde os estados que melhor representaram este papel foram a Holanda, a Inglaterra, a Suécia e a Prússia.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:

BOBBITT, Philip. “A guerra e a paz na história moderna: o impacto dos grandes conflitos e da política na formação das nações”. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 11ª edição. Petrópolis: Vozes, 1987.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural, 1974

KEEGAN, John. Uma história da Guerra. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, 1987.

MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
MILLER, Douglas. The Landsknechts: The Osprey Men-at-Arms Series; 1976.

MOCKLER, Anthony. The New Mercenaries. London: Paragon House, 1987.

SILVA, Kalina Vanderlei Paiva da. O miserável soldo & a boa ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na Capitania de Pernambuco dos séculos XVII e XVIII. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002.
1 Esse tipo de formação é explicado justamente na obra Ensaios de Sociologia, pp.258, onde toda burocratização do exército corroborou na formação do Estado, basta ver nas transferências de serviços, privilegiando alguns qualificando outros. Semelhança a empresa capitalista privada, tanto no recrutamento quanto logo depois na indústria bélica, pois os chefes de companhias eram donos de materiais e suprimentos bélicos, toda pesquisa e instrução científica, tudo passou a ser regido pelos recursos do Estado burocrático, regulando assim a economia administrativa para canalizar e favorecer a nova elite.
2 A afirmação encontra-se no livro O Soldo Miserável de Kalina Vanderlei pp.29, que essa substituição foi gradativa que apesar dos valores da cavalaria medieval ela passou a ter outra função num exército, além de aprimorar a técnica, utilizando mosquete com Gustavo Adolfo, chegando a ter armaduras pesadas. No decorrer da história no exército prussiano já não encontrava isso, pois utilizaram armas portáteis, punhais, coletes e uniformes leves dando proteção e agilidade.

observação final do professor. Como uma parte do trabalho foi o simples control c – control v, retiramos essa parte, especilamente por não ter sido mencionado a fonte.

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 22 set 2008 @ 08 15 AM

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02 de dezembro de 1870



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