31 mai 2008 @ 6:23 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROBLEMAS DA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO
PROFESSOR: SEVERINO VICENTE DA SILVA
ALUNO: JOSÉ ZITO JÚNIOR CASADO

SURUBIM: ONTEM E HOJE

RECIFE
2008

SURUBIM: ONTEM E HOJE

Localização

Surubim se localiza na mesorregião do Agreste Setentrional e microrregião do Alto Capibaribe, distando 124km do Recife, ligando-se à capital pela PE-90 (Surubim-Carpina) e pela BR 408 (Carpina-Recife). Limita-se ao norte com os municípios de Vertente do Lério e Casinhas; ao sul com Riacho das Almas e Cumaru; a leste com Orobó, Bom Jardim, João Alfredo e Salgadinho; e a oeste com Frei Miguelinho e Santa Maria do Cambucá. Está a 394m acima do nível do mar e situa-se numa zona de transição climática, observando-se o predomínio do clima semi-árido (Bsh), com vegetação típica de caatinga (xique-xique, mandacaru, etc), encontrando-se as cactáceas e as bromeliáceas. A temperatura média anual é aproximadamente 24,7º C e precipitação medida em torno de 692,6 mm.

Surubim está contido na bacia hidrográfica do Capibaribe, sendo abastecido, após vários anos enfrentando o problema da falta d’água dado o crescimento da população e os períodos de estiagem, pela barragem de Jucazinho, obra orçada em torno de 60 milhões de reais, beneficiando também a população rural e os pequenos e médios produtores.

O nome

O nome “surubim” é proveniente, segundo reza a tradição, do nome dado a um boi, admirado por todos por sua força e valentia, da primeira fazenda que se instalou na região. Foi assim denominado por ser pintado da mesma forma que o peixe de mesmo nome. Diz-se que certo dia, uma onça entrou no curral e devorou o boi Surubim, para lamentação geral. A notícia se espalhou e passaram a chamar Fazenda do Boi Surubim. O nome ganhou força quando da criação, em 6 de junho de 1881, da freguesia de São José do Surubim, ficando posteriormente somente freguesia de Surubim.

Ocupação

Podemos dizer que a ocupação de Surubim ocorreu da mesma maneira e pelas mesmas razões que a ocupação do Agreste. Concomitantemente ao estabelecimento da indústria açucareira, nos séculos XVI e XVII, desenvolveram-se atividades paralelas como, por exemplo, a instalação de serrarias para o acondicionamento do açúcar e do próprio fabrico; a pecuária, dada a necessidade de animais para o transporte da cana e do açúcar e para os trabalhos da moagem; e, conseqüentemente, o aparecimento da cultura de subsistência nas circunvizinhanças. A partir de então, as fazendas de gado foram surgindo nos sertões – visto que a boiada precisava de espaço – ao longo dos rios, com o estabelecimento dos “currais de gado”. Assim,
o roteiro que utilizava o rio Capibaribe buscava as terras setentrionais da capitania de Pernambuco, penetrando nas meridionais da de Itamaracá, atravessando terras da Paraíba até encontrar as nascentes do Pajeú. Ao longo desse roteiro, fundavam-se não só roteiros, mas aproveitando a vastidão da terra inculta, coberta de pastagens nativas, longe das plantações de cana-de-açúcar.[1]

De fato, como afirma Andrade, o espaço agrestino era propício ao desenvolvimento das atividades pecuárias (…) Além disso, as dificuldades estabelecidas pelo relevo fizeram dessa área, um local de auto-abastecimento de produtos alimentícios.[2] Dessa forma, ratifica-se a hipótese acima de que a ocupação do agreste se deu por duas atividades: a pecuária e a cultura de subsistência.
Portanto, não é à toa que Surubim é conhecido como “Capital da Vaquejada” e cidade referência na exposição de animais, uma vez que tem em sua origem e formação a presença do elemento pecuário.
O primeiro núcleo populacional de que se tem conhecimento na região que hoje chamamos de Surubim se estabeleceu em 1864, quando Lourenço Ramos da Costa fundou uma fazenda de gado e aí construiu uma casa de oração dedicada a São José – tendo sido elevada à Paróquia em 1881, decretado pelo bispo de Olinda D. Manoel dos Santos Pereira, atendendo às solicitações do coronel Dídimo Carneiro –, desenvolvendo-se a partir de então o povoamento efetivo da região. Construiu-se a Matriz de São José, a partir da Casa de Oração, incentivada pelo padre Augusto Cassuelti, mas foi demolida em 1963 para construção de uma nova igreja, pelo Monsenhor Ferreira Lima. Foi sagrada em 1965 com a presença do Núncio Apostólico. Atualmente, a Paróquia pertence à diocese de Nazaré da Mata.
A Lei Municipal nº 03, de 27 de abril de 1893, criou o distrito de Surubim, pertencente a Bom Jardim – este pertencia ao município de Limoeiro, tendo sido desmembrado em 1870, criando-se a Vila de Bom Jardim. Posteriormente, Surubim foi elevado à categoria de vila, em 1909, pela Lei Estadual nº 991, de 01 de julho. Sua emancipação ocorreu em 11 de setembro de 1928, desmembrando-se do município de Bom Jardim. Na década de 90, os distritos de Vertente do Lério (1992) e Casinhas (1996) que outrora pertenciam a Surubim, conseguiram sua emancipação, fazendo com que este município perdesse grande parte de sua área territorial, que se reduziu de 539 km² para 285 km².

Fragmentos da política

O primeiro prefeito eleito de Surubim foi o coronel Dídimo Carneiro da Cunha, que gozava de grande reputação por ter liderado o processo de emancipação política, além de desenvolver o distrito de Surubim quando era prefeito de Bom Jardim.[3] Não terminou o mandato, uma vez que era contrário a Vargas, e foi deposto pelos partidários deste “em nome da revolução” (de 1930).
Um dos prefeitos que mais se destacou foi Nelson Barbosa, sobretudo por ter dado grande impulso à urbanização da cidade, além de ter sido eleito deputado estadual por duas vezes. Muitas construções foram feitas durante o seu mandato: Hotel Municipal, prefeitura, mercado público, algumas escolas. Publicou, em 1979, o livro Recordações de Minha Terra e minha gente, onde é possível conhecer um pouco da história política, econômica e social do município, mesmo antes da emancipação.
Outra figura de destaque foi o Monsenhor Luís Ferreira Lima (prefeito de Surubim por dois mandatos) o qual começou com vários trabalhos assistenciais sem ainda ocupar cargos públicos, como a construção da Maternidade Nossa Senhora do Bom Despacho, Hospital São Luís, Posto de Saúde Mário Pinott. Sem falar na liderança que exercia junto à população humilde.
Citemos também o Ex-Senador Antônio Farias, que foi vereador em Surubim, deputado estadual, federal e prefeito do Recife. Fazia parte da chamada oligarquia algodoeira, que predominou no poder ao longo de toda a história de Surubim. Segundo Medeiros,
a hegemonia dessa oligarquia [algodeira] perderá a sua continuidade com a eleição de Flávio Nóbrega [atual prefeito, filiado ao PT] para prefeito nas eleições municipais de 2002. Vale ressaltar que, de pronto a mudança não será cristalina, pois com o correr do tempo adesões de momento sinalizaram para um passado não muito distante marcado pelo jogo de interesse de líderes militantes da oligarquia a qual nos referimos.[4]

Bandeira e escudo

A bandeira do município foi instituída em 1969, pelo então prefeito o Monsenhor Ferreira Lima, tendo sido idealizada por Osvaldo Leal e desenhada por Severino Apolinário de Lucena Filho. O verde representa a vegetação, a esperança; o branco, a paz; o azul seria o ponto de chegada de todos os sonhos e planos; a cruz como sinal de religiosidade e sacrifício da luta cotidiana; e a estrela como caminho a seguir, utopia.
O escudo foi sancionado em 1990, pelo então prefeito Humberto da Mota Barbosa, e desenhado por Romero Silva Melo. É constituído por uma faixa, em baixo, com a data de emancipação do município; ramos de milho e algodão, expressando a vocação agrícola; além de um boi – haja vista a importância da pecuária desde o início da povoação, até hoje – e uma paisagem característica da zona rural, com cercas, etc.

Evandro Cavalcanti e reforma agrária

Um fato histórico importante, ainda hoje comentado pela população, foi o assassinato do então vereador Evandro Cavalcanti, advogado do chamado Pólo Sindical, que reunia 16 sindicatos de trabalhadores rurais de várias cidades, e defendia a reforma agrária, a contragosto dos grandes latifundiários. No dia 21 de fevereiro de 1987, Evandro foi brutalmente assassinado, com oito tiros à queima roupa, quando se dirigia ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais – como sempre costumava fazer aos sábados, atendendo gratuitamente aos camponeses –, acompanhado da mulher e da filha de 11 anos. Poucos dias antes de morrer, como que prevendo o que aconteceria, Evandro fez o seguinte pronunciamento na Câmara Municipal:

Até quando teremos que conviver com tanta violência, tanto barbarismo, com tanta impunidade? Os latifundiários são cada dia mais ousados. Do privilégio de continuarem senhores do baraço e cutelo de grandes extensões de terras, mesmo a custo da miséria e exploração de doze milhões de brasileiros sem-terra, não querem abrir mão, mesmo que para isso afrontem a lei e as autoridades. O movimento sindical dos trabalhadores rurais e aqueles que o apóiam não podem e não suportam mais verem aumentar a cada dia a lista de mártires da terra. Reforma agrária já. Cadeia para os assassinos.[5]

Por ocasião da missa de sétimo da morte, Dom Hélder Câmara assim comentou a respeito de Evandro: “Evandro morreu porque defendia os trabalhadores. Morreu, não por ódio; morreu por amor aos trabalhadores…”[6]

Na verdade, a luta pela reforma agrária já vinha sendo intensa, inicialmente com as Ligas Camponesas organizando passeatas e protestos pelas ruas do município. A luta formalizar-se-ia com a criação do Sindicato dos Trabalhadores rurais, a partir da década de 60. De fato, esses pequenos produtores eram uma ameaça para os proprietários de terra, pela própria concorrência; por conseguinte, estes passaram a não mais ceder terras a arrendatários, agregados, etc. Sem oportunidade de trabalho, restou a essas pessoas migrar para os grandes centros, com destaque para São Paulo, como até hoje acontece!

Algodão

Quanto à agricultura, Surubim sempre se destacou pela produção algodoeira. Para se ter uma idéia, haviam instaladas cinco usinas de beneficiamento de algodão, que chegavam exportar lã até para a Europa. Isso até meados da década de 70. O município foi perdendo importância na agricultura, desde que a praga do bicudo atingiu a produção algodoeira e a invasão da tecnologia passou a instituir o império da fibra sintética.

Educação

Com relação à educação, temos mais de 13 mil alunos matriculados nos ensino Fundamental e Médio, segundo dados do IBGE 2007. Destacamos, além dos colégios Nossa Senhora do Amparo[7] e do Marista Pio XII[8], a Escola Estadual Severino Farias[9], estabelecida na década de 70, que chegou a ganhar, em 2005, o Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar, concedido pelo Conselho Nacional de Educação, concorrendo com mais de duas mil instituições de ensino em todo o Brasil.
Antes do colégio do Amparo ter sido criado
a formação educacional dos munícipes processava-se das seguintes formas: individualmente em casa, sendo o ensino ministrado pelos próprios pais; e/ou em escolas onde uma única professora era responsável por toda a formação dos indivíduos para a presteza do exame admissional.(ANDRADE, 2005, p. 32)

Atualmente, é destaque nos jornais um jovem de 17 anos, André Gentil Guerra Agostinho, natural de Surubim, que foi classificado, com mais quatro estudantes brasileiros, para a Olimpíada Mundial de Física – de 20 a 29 de julho –, em Hanói, no Vietnã. Apesar de ter estudado o Ensino Médio no Recife, esse fato demonstra que Surubim possui uma estrutura educacional com certa qualidade; sobretudo, quando comparado a outros municípios. Segundo o estudo feito por Andrade,
os serviços educacionais em Surubim têm destaque na centralização da região a qual esta cidade está inserida, representando principalmente nas unidades educacionais do Colégio Nossa Senhora do Amparo e Colégio Marista Pio XII, onde ambos os estabelecimentos recebem alunos de outros municípios para usufruírem de seus serviços. (ANDRADE, 2005, p. 101)

Casa-Grande

Um registro cultural do qual Surubim é privilegiado é de uma construção, uma Casa-Grande, do final do século XVII, datação atestada pela FIAM, tendo sido tombada pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, em 1980. Segundo estudos da FIAM, existiam nessa Casa-Grande da Fazenda Cachoeira do Taepe dependências construídas com o intuito de abrigar escravos, mostrando que estes eram utilizados também na agricultura, sobretudo da cultura do algodão predominante na região.[10] Segundo Barbosa, baseada nos escritos de um antigo proprietário,
a Casa-Grande foi construída no final do século XVII, quando os portugueses desbravando o interior de Pernambuco, subiram pelo rio Capibaribe à procura de terras para criatório de gado e para agricultura. Andando 120 quilômetros rio acima, encontraram o riacho do Taépe, afluente do Capibaribe. Seguindo uns seis quilômetros depararam-se com terras baixas, grandes matas e uma bonita cachoeira. Agradando-se do local, decidiram construir uma fazenda. De volta ao Recife, compraram escravos e tudo o que foi necessário para começar a fazenda de criação e cultivo e a construção do açude e da Casa-Grande, até hoje é conhecida como Casa-Grande da Fazenda Cachoeira do Taépe.(BARBOSA, 1995, p. 2)

Manifestações artísticas

Na literatura, destaca-se a figura do doutor José Nivaldo Barbosa de Sousa. Segundo Costa Porto,
romancista do melhor metal, José Nivaldo traz para as letras aquelas tônicas do menino nascido no campo, do fazendeiro do médico do interior – de que tão justificadamente se ufana: a marca da terra, o sentido local, o cheiro da terra virgem, fazendo da gente da roça a matéria-prima da sua bagagem literária, a ganga donde extrai os veios ricos de sua obra de intelectual e homem de letras… Um romance, em suma, que, deliciando como manifestação da arte, na palavra escrita, do mesmo modo instrui e se oferece como documentário objetivo, abrindo caminhos para uma visão global do processo político de um povo, empenhado, por vezes em vão, em encontrar-se, encontrando seus rumos e a realização de seus destinos heróicos.[11]
Na música, temos como destaque a figura de Capiba, filho de um mestre de bandas, tendo, assim, estudado música desde muito cedo. “Capiba”, apelido que na gíria local designava “jumento” e que se estendia a toda família, inaugurado pelo avô que era baixinho e teimoso. Compôs sua primeira música aos oito anos e gravou seu primeiro disco em 1925, com a valsa Meu Destino. Após ter ganho um concurso no Rio de Janeiro, em 1929, com o tango Flor das Ingratas, volta ao Recife uma vez que tinha sido aprovado num concurso para escriturário do Banco do Brasil. Aqui conclui o seu curso de Direito. Capiba fundou a Jazz Band Acadêmica – foi nesse momento que compôs seu primeiro frevo, É de amargar, em 1934, que lhe deu o prêmio campeão do concurso de músicas de carnaval do Recife – e, posteriormente, a Bando Acadêmico, reunindo alunos dos mais diversos cursos – Medicina, Direito, etc. Na década de 50, passa a estudar harmonia e composição com o maestro Guerra Peixe. Já na década de 70, dedica-se à composição de peças para o movimento armorial, ganhando destaque a música Toada em Desafio, gravada pelo Quinteto Armorial, em 1975, e Sem Lei nem Rei, gravada, em 1974, pela Orquestra Armorial de Câmara. Compôs também maracatus, mas ficou conhecido mesmo como autor de frevos. Teve composições gravadas por intérpretes como Nelson Gonçalves que, em 1943, gravou o sucesso Maria Bethânia. Em parceria com Carlos Pena Filho, compôs o samba A mesma rosa amarela, um dos seus maiores sucessos.
Merece destaque também a figura de Juarez Araújo, maestro responsável por orquestrar grande parte da produção oriunda da modernização do frevo, na década de 70.[12]
Depois d’Os meigos, grupo de jovens o qual tocava rock, influenciado pela Jovem Guarda, e que caiu nas graças da população surubinense, fazendo shows nos diversos clubes da cidade, tendo se desfeito por que cada integrante resolveu seguir destinos diferentes da música, surge, atualmente, a banda Hanagorik. Para se ter uma idéia da sua importância, em 1999, no festival Abril Pro Rock, abriu o show da consagrada Sepultura, além de ter feito algumas excursões pela Europa.
Falemos da vaquejada, o esporte folclórico praticado há muito em Surubim. Realiza-se na segunda semana de setembro no parque João Galdino e atrai vaqueiros de todo o Estado. Na verdade a sua origem está ligada à captura do boi, que era marcado e solto, já que não existiam cercas. Então, os vaqueiros apanhavam os bois através de laços de corda. A competição começou quando algum deles se destacava por prender um boi mais agressivo. A vaquejada de Surubim ficou imortalizada na letra do Quinteto Violado, que se tornou um hino à cidade, tendo uma verdadeira veneração pelos vaqueiros que ficam de pé quando de sua execução. Abaixo, a canção Vaquejada gravada pelo Quinteto Violado em 1973, no LP Berra Boi, composta por Toinho Alves, Luciano Pimentel e Marcelo Melo:

Viola camarada
Prepara o seu cantar
E conta prá essa gente
Aquela vaquejada
Que a cidade em festa
Viveu sua história
Que nem sei lembrar
Contar, falar, lembrar

Eia! Vaqueiro
Sua vez e sua hora
Na derrubada do boi
Ta escrito a sua glória

Doutor, venha ver Surubim
A rua principal Toda embandeirada
É festa em Surubim
É dia de vaquejada

Na pintura, temos como grande nome Fernando Guerra, aluno de Abelardo da Hora. Começou sua vida profissional assim que passou a freqüentar a Escola de Belas Artes do Recife, sendo incentivado por Lula Cardoso Ayres. Guerra ficou conhecido por seus “quadros-de-bolso”, tendo participado de vários salões em Recife, Olinda, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, etc, ganhando vários prêmios, como o do XVIII Salão do Museu do Estado, aqui em Pernambuco. Foi também ilustrador do Jornal do Commercio e de várias revistas de São Paulo e do Rio, além de ter fundado, junto com outros artistas, a Associação dos Artistas Plásticos de Pernambuco, no ano de 1980.

O hino de Surubim tem letra de Jessé Cabral e melodia de Juarez Assis de Araújo:

Surubim, meu Surubim
Por que te chamam assim?
Disse o poeta no verso
Terra santa, consagrada
Pelas festas, vaquejada
Outra igual quem foi que viu?
Terra de filhos ilustres
Em, prosa, em verso cantada
Surubim dos cereais,
Terra dos cajueirais,
Terra dos algodoais.
Terra de misses faceiras
Meninas belas brejeiras
Meu Surubim folclorista
Do pastoril, do “São João”,
Do mamulengo afamado
Do forró, “coco”, “torrado”,
Surubim do coração.
Terra do bumba meu boi
Quem foi que disse, quem foi?
Foi meu boi “Surubim”
Que me falou ao nascer:
“De minha infância querida”
Em Surubim vou viver
Até um dia morrer…

Por fim, destaquemos o folclore surubinense a partir do excelente livro de Mariza de Surubim, onde conta a história do município baseando-se, sobretudo, na boca do povo. Citemos duas lendas, que ainda hoje faz parte do imaginário da população. A primeira é a de Comadre Fulozinha:
- Conte aquela história de Comadre Fulorzinha!
- Cale a boa menina, não se brinca com coisa séria.
E Severina Joana, de Capoeira do Milho, cantora de novenas e indelenças, se benze e chama pela Virgem Maria, “mode espantar os maus espíritos”.

Contam os camponeses mais antigos, que Comadre Fulorzinha é uma mulher pequenina, de cabelos loiros quase arrastando pelo chão, que gosta de fumo, dá pisa em cachorro, faz trança nas crinas dos cavalos e assobia pelo meio do mato fazendo “homé macho corré e treme de medo”.(BARBOSA, 1995, 70-71)

A segunda é a estória das botijas, que eram uma espécie de vaso cilíndrico, onde as pessoas guardavam sua “herança”, dinheiro em moedas, geralmente, já que não havia uma rede bancária como se tem hoje. Muitas vezes acontecia do “tesouro” ser uma enorme quantidade… de níqueis enferrujados apenas. Diz a crendice popular que

muitas vezes a “alma” [do falecido que havia deixado a botija] aparecia em sonhos e entregava a botija sem muitas complicações: ponto tal, debaixo daquela árvore, que fica atrás daquela casa. Outras vezes indicava como referência uma pedra, mas a pessoa devia andar dez passos à frente, trinta à esquerda, até que, obedecendo a uma série de exigências, encontrasse o lugar para cavar.
(…)
Tudo se fazia no maior segredo. Quem sonhasse não podia contar pra ninguém, senão a botija desaparecia. Devia cavar sozinho e de noite. Dizem que na hora de arrancar apareciam bichos estranhos, cavalos em disparada, diabos e outras assombrações para desviar a atenção do afortunado. Muita gente “sonhou” com botija, mas não teve coragem de desenterrar. Outros desistiram no meio do caminho, com medo das aparições.
Conversa daqui, conversa de acolá, e as estórias vão surgindo, todas verdadeiras, segundo seus contadores. (BARBOSA, 1995, 81)

Palavras finais

Procuramos mostrar um pouco do município de Surubim, a partir das mais diversas dimensões, passando pela evolução política até as crendices populares. No que tange à sua importância, podemos constatar que já a partir da década de 70 se apresentava como um centro regional de atração, e com o passar do tempo cristalizou-se como sendo uma cidade de porte médio. (ANDRADE, 2005, p. 74) Atualmente, Surubim atende a cerca de 11 municípios da região, quanto ao comércio e à prestação de serviços, sobretudo o serviço bancário, o que demonstra sua relevância frente às cidades vizinhas. Constata-se hoje enorme crescimento urbano no município, com grande número construções de casas no seu entorno. Entretanto, alertamos para os problemas enfrentados pelas metrópoles e que são inerentes a esse processo: falta de saneamento para a população dos bairros mais afastados, precariedade no atendimento à saúde, uma vez que a população vem aumentando, etc.
Concluímos com uma homenagem a Surubim, um trecho da música Marcha de Surubim, tendo sido escrita por Marcos Accioly e musicada por Capiba:

Verão é pedra de luz amarala
No inverno a chuva é verde no capim
Cidades das cidades, Surubim
Colhi aboio e moça na janela
Onça-de-agreste, minha cidadela
Tens uma estrela de espora na garganta
Que o tempo ao espaço se levanta
Se um destino é de encontro ao teu destino
Pois a canção de paz é o mesmo hino
Que no peito da guerra o povo canta.[13]

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Gevson Silva. Análise da Funcionalidade Urbana de Surubim-PE: um olhar em sua função enquanto cidade média. Recife: Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco, 2005.

BARBOSA, Mariza Paula, Surubim pela boca do povo. Museu Histórico de Surubim: Surubim, 1995.

BARBOSA, Nelson. Recordações de minha vida, minha terra. Surubim, s/ ed., 1979.
GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO. FUNDAÇÃO DE INFORMAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DE PERNAMBUCO – FIDEPE. Monografias Municipais, 11. Surubim. Recife, 1982.

Jornal Luta Popular, Órgão de Divulgação do PMDB em Surubim, Fevereiro de 1988, Nº 09.

Jornal Tribuna Regional, Ano I, Número 07, Surubim, Fevereiro de 2002.

MEDEIROS, Luiz Antonio. Surubim: a história de todos os tempos. 3ª edição revisada e atualizada. Surubim-PE, 2007.

Sites:

< http://pt.wikipedia.org/wiki/Surubim>, acesso em 11/05/08.
, acesso em 11/05/08.

[1] GOVERNO DO ESTADO DE PERNAMBUCO. FUNDAÇÃO DE INFORMAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DE PERNAMBUCO – FIDEPE. Monografias Municipais, 11. Surubim. Recife, 1982, p. 20.
[2] ANDRADE, Gevson Silva. Análise da Funcionalidade Urbana de Surubim-PE: um olhar em sua função enquanto cidade média. Recife: Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal de Pernambuco, 2005, p. 21.
[3] Na verdade, por causa do destaque que a vila de Surubim vinha tendo e sendo Cel. Dídimo de lá, seu nome foi indicado para prefeitura de Bom Jardim, conseguindo ser eleito anos antes da emancipação da vila.
[4] MEDEIROS, Luiz Antonio. Surubim: a história de todos os tempos. 3ª edição revisada e atualizada. Surubim-PE, 2007, p. 51.
[5] Jornal Tribuna Regional, Ano I, Número 07, Surubim, Fevereiro de 2002, p. 4.
[6] Jornal Luta Popular, Órgão de Divulgação do PMDB em Surubim, Fevereiro de 1988, Nº 9, Capa.
[7] Fundado pelas irmãs franciscanas, que chegaram em Surubim dois dias depois de sua emancipação, vindas do Rio de Janeiro. A Casa das irmãs foi inaugurada em julho de 1929, sendo que em setembro já começava a receber as primeiras alunas. Em 1932, as irmãs receberam do então prefeito Dídimo Carneiro um terreno para a construção de um novo prédio. Posteriormente, a escola passou a receber alunos de ambos os sexos. Hoje é uma escola de referência, com um prédio central, uma capela, uma quadra de esportes, etc.
[8] Fundado em 1960, tendo como principais fundadores o Monsenhor Ferreira Lima e o Irmão Bernardo Aguiar (primeiro diretor da escola).
[9] A ESF originou-se do desmembramento do Colégio Estadual Pio XII que era mantido por um convênio entre a Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco e os Irmãos Maristas. Em 1975, com o fim deste convênio, passou a existir duas escolas distintas: uma da rede privada e outra de rede pública.
[10] Segundo a Fundação de Desenvolvimento Municipal/FIAM, a Casa-Grande apresenta algumas peculiaridades bem interessantes, além do fato de tratar-se de uma edificação totalmente inédita e desconhecida, até a elaboração do Plano de Preservação dos Sítios Históricos do Interior/PPSHI. Uma dessas peculiaridades é a já referida semelhança entre as duas habitações conjugadas que formam, da parte externa, uma única moradia. Uma outra diz respeito à presença, ainda visível no soalho das duas salas, de alçapões destinados à remessa de alimentos aos escravos que cumpriam castigos nos cômodos do pavimento inferior, hoje funcionando como depósito. (…) Uma terceira peculiaridade é a existência, tambem bastante visível, de trincheiras para a passagem de armas (por ocasião dos ataques externos) em várias alturas de todas as janelas e portas que se comunicam com o exterior. Essas duas últimas ocorrências atestam a real antiguidade da casa, provando ter sido a sua construção efetuada, ao que tudo indica, início do século XVII. (BARBOSA, Mariza Paula, Surubim pela boca do povo. Museu Histórico de Surubim: Surubim, 1995, p.22)
[11] FUNDAÇÃO DE INFORMAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DE PERNAMBUCO – FIDEPE. Monografias Municipais, 11. Surubim. Recife, 1982, p. 53-56.
[12] Para saber mais sobre a modernização do frevo, cf. ROSENBERG, Carlos (org.) Pernambuco: 5 décadas de arte. Quadro Publicidade e Design Ltda: Recife, 2003.
[13] BARBOSA, 1995, p. 37.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História

Brincadeiras e Festas Juninas

Aluna: Suzana Rebeca da Silva Lima
Professor: Severino Vicente

Recife, 28 de maio de 2008

Apresentação

No dizer de Câmara Cascudo (2001), as festas juninas são ‘(…) ocasião de reencontro de amigos e parentes (…) são bastante concorridas. Fogueiras e casamentos caipiras, as quadrilhas, as leituras de sorte, sempre acompanhadas das comidas e bebidas típicas’. Este trabalho pretende abordar um pouco da história e de alguns destes elementos abordados por Cascudo, presentes nas festas do chamado Ciclo Junino.

Índice
Introdução

Parte I: Festas Juninas

I.I. Os três santos de junho——————————————————————-
I.I.I Santo Antônio——————————————————————————
I.I.II. São João———————————————————————————-
I.I.III. São Pedro——————————————————————————-
I.II. Comidas Típicas—————————————————————————-
I.III. Músicas———————————————————————————–
I.IV. Danças————————————————————————————
I.IV.I. Coco————————————————————————————-
I.IV.II Quadrilha——————————————————————————

Parte II: Brincadeiras Juninas

II. I. Balões————————————————————————————-
II.II. Fogos de artifício————————————————————————–
II.III. Adivinhações e Simpatias—————————————————————-

Introdução

No mês de junho, são comemoradas algumas das festas mais populares e tradicionais do catolicismo e da tradição brasileira, especialmente na região do Nordeste. As chamadas festas do Ciclo Junino prestam homenagens aos três santos de junho: Santo Antônio, celebrado no dia 13º do mês; São João Batista, no dia 24 e São Pedro, no dia 29. Estas três festas são de natureza agrária e remontam à tradição do Velho Mundo.
Nas regiões da África, Ásia e Europa os povos pagãos praticavam ritos para festejar as divindades que protegiam a colheita e afastavam ‘(…) os demônios da esterilidade, da estiagem e da miséria’ (MONTEIRO, 2001). O fogo era o ‘elemento afugentador’ desses ‘demônios’. Nos ritos de fertilidade, também estava presente a idéia da fertilidade humana. Tais rituais ocorriam por ocasião do solstício de verão, entre os dias 22 e 23 de junho e marcavam também o início da colheita dos cereais.
Esses ritos ‘(…) estão incorporados nos vários sistemas religiosos da atualidade’ (TRIGUEIRO, 1995), assim como tantas outras festas consideradas como profanas que acabaram por ser congregadas à tradição cristã. Na região Centro-sul do Brasil, as festas juninas não estão ligadas ao cerimonial agrícola propriamente dito. Constituem-se apenas de festejos em comemoração ao devocionário dos santos de junho. Na região Nordeste, entretanto, estas festas estão diretamente ligadas ao início da colheita do milho e é exatamente sobre ele que se concentra toda a culinária junina.
As festas de junho são bastante populares no Nordeste. Suas tradições, suas histórias, sua culinária e suas brincadeiras são, por muitos, esperadas com muita ansiedade.

FESTAS JUNINAS

I.I. Os três santos de junho

A devoção aos três santos celebrados no mês de junho remonta à tradição portuguesa. Com a colonização no Brasil, o costume de festejar os santos de junho, em Portugal, integrou-se a costumes e práticas ‘(…) de tradições indígenas e estranhas, de outra origem, que não portuguesa. Esse jeito que tomou, manifesta nitidamente o esteio principal da (…) formação (…) do folclore brasileiro desses santos e dessas festas (Chaves apud BETTENCOURT, 1947). Esta característica religiosa presente nos festejos juninos confere-lhes o sabor de misticismo e eternidade.

I.I.I. Santo Antônio

Para a cultura popular, pouco importa que o frade português, cujo nome de registro é Fernando de Bulhões, tenha sido um grande pregador e professor de teologia de diversas universidades situadas na Europa. Para Bettencourt (op. Cit.), o povo o quer ‘seu camarada’, a quem as moças pedem, ansiosamente, por um bom casamento:

Santo Antonio me case já,
Enquanto sou moça e linda,
Porque o milho colhido tarde
Não dá palha nem espiga!

Santo Antonio que eu tenho
É trançado de cipó
Muitas vezes a gente gosta
Mas amá é uma vez só.

Este segundo verso dedicado a Santo Antônio refere-se ao costume que muitas mulheres têm, de amarrar uma fita no corpo do santo, rezando quadrinhas, com muita fé e esperança. Por ser conhecido como ‘o santo casamenteiro’, Santo Antônio é comumente sujeitado aos mais variados sacrifícios, a fim de atender à petição das mulheres desesperadas por um marido. Dentre estes sacrifícios, podemos citar:
Tirar o menino Jesus de seus braços;
Colocar o santo de cabeça para baixo;
Atar nele uma corda e jogá-lo no poço;
Colocar uma moeda pregada com cera sobre a tonsura.
Santo Antônio não é apenas buscado pelas moças sequiosas por um bom casamento. Na tradição brasileira, o santo aparece ligado às causas do amor em geral:

O Santo Antônio que eu tenho
É feito de nó de pinho;
Da mulher eu gosto muito.
Da sogra …nem um pouquinho.

Santo Antônio pequenino
Mansador de burro brabo,
Vem amansar minha sogra, que é levada do diabo.

E ainda:

Me apeguei com Santo Antônio,
P’ra casa c’uma crioula:
As alma ganha uma saia
Santo Antônio uma ciroula.

Meu Santo Antônio adorado
Acabô de me conta
Quem em amô não há pecado
Que pecado é não amá.

Santo Antônio é também conhecido como ‘o santo milagreiro’, o que faz achar as coisas perdidas:
Quem milagres quer achar
Contra os males e o demônio,
Busca logo Santo Antônio
Que aí os há de encontrar

Ainda com relação à figura de Santo Antônio como milagreiro, temos a seguinte trezena:
Se queres milagres
Implora confiante
De Antônio o favor:
Seu braço é tão forte
Que do erro e da morte
Destrói o furor…

O dia dedicado ao santo é o dia 13 de junho, que é a data de seu falecimento, em 1231. Nos treze primeiros dias do mês, realizam-se as trezenas e outras rezas para implorar milagres ou agradecer pelos pedidos atendidos.
I.I.II. São João
Das noites dedicadas aos festejos juninos, a noite de São João é, para muitos, a mais festejada e esperada. Tal é seu vislumbre que teve ‘(…) o poder de dar ao mês seu nome (mês de São João) e qualificar de ‘joaninas’ as festas realizadas no decurso de seus trinta dias’ (Wanderley apud BETTENCOURT, 1947).
A tradição pagã das fogueiras que espantam a estiagem e a seca mantém-se, porém sob a égide cristã. As fogueiras são acesas à porta das casas na noite da véspera do dia consagrado a São João, o que relembra a fogueira acesa por Isabel – mãe de João Batista – para avisar a sua prima, Maria, do nascimento de seu filho.
A noite de São João é a mais misteriosa e cheia de lendas do Ciclo Junino: acredita-se que a fogueira de São João ‘(…) pode ser atravessada com os pés descalços, sem perigo de serem queimados, tendo o caminhante muita fé no santo’ (BETTENCOURT, op. Cit.); também na véspera do dia joanino era costume rasgar-se a casca da mangueira para que o seu caule engrossasse; na mesma ocasião, acredita-se que plantando-se alho, no dia seguinte já amanhecem brotados; as pessoas também podem colher água no rio, ao raiar do dia do santo. Esta água, diz a tradição popular, serve para espantar baratas e percevejos; também as moças – a fim de deixar seus cabelos mais belos e de rápido crescimento – cortam as suas pontas na madrugada do referido dia.
Outra tradição relatada por Bettencourt em meados do século XX é a cerimônia que simboliza o batismo dos gentios pelo filho da Santa Isabel. O ritual é conhecido como ‘banho de cheiro’ e é mais comum em Belém e Manaus. O banho é preparado com ervas aromáticas e, acredita-se, pode trazer sorte, restituir a felicidade aqueles que a perderam e ‘lavar o mal’ de todo aquele que tomar o banho.
Há, nas comemorações joaninas, uma série de hábitos e crenças que não se sabe precisar de quando datam, mas que são repetidos, ano após ano. A fogueira, por exemplo, é pulada no afã de se tornar primo, madrinha, padrinho, irmão ou qualquer outro grau de parentesco com alguma pessoa (BETTENCOURT, op. Cit.). Existe também outro costume, o da troca de presentes, ou, como se costuma falar nas regiões interioranas, o de ‘pedir as festas’.
A noite de São João é lembrada pelas suas danças, fogueiras, comidas e pela quantidade de pessoas a brincar, sorrir, cantar e pular, como mostra a música que Bento Mossurunga compôs para celebrar o dia do santo:
É noite de São João
Em torno de uma fogueira
A caipirada faceira
Dança o fandango e o baião

Sapeca, estala o pinhão.
Ao lado, numa braseira
Ferve a água na chaleira
Para o mate chimarrão

No meio de tanta gente
Que pula e ri de contente
Somente a Rita, somente,
Não se diverte, a pensar

No pobre do namorado
Seu caboclo bem amado
Que lhe roubara o malvado
Sorteio militar.[1]

I.I. II. São Pedro

A noite de São Pedro também é festejada em junho, no vigésimo nono dia. Porém, em virtude dos festejos anteriores, diz-se que as pessoas já não têm resistência para muita folia. Assim, o dia 29 é conhecido muito mais pela sua solenidade do que pelas festividades.
Encontramos poucos versos, quadrinhas, músicas ou danças dedicadas a São Pedro, por ocasião das festas juninas. Este santo é reverenciado como um personagem humilde e abstêmio e é festejado principalmente pelos marítimos e pescadores – uma vez que o próprio Pedro tenha sido um – e pelas viúvas, por também ter sido viúvo. No Nordeste, costuma-se amarrar o santo com uma fita no braço no dia 29 e assim, fica o santo obrigado a dar um presente à pessoa que o amarrou.
Ao santo é atribuído o dia 29 porque foi num dia de junho, provavelmente no ano de 67 d.C., que ele e o apóstolo Paulo foram levados ao tribunal militar para serem condenados. O dia também é dedicado a São Paulo, entretanto, ele é pouco lembrado durante as festividades juninas.

I.II Comidas Típicas

As festas juninas também estão relacionadas à colheita do milho, que é largamente utilizado em diversos pratos típicos do São João, tais quais: broa de milho, mungunzá, canjica, pamonha, cuscuz, pipoca, dentre tantas outras.
Foi o índio quem ensinou aos ibéricos o cultivo e consumo do milho, que foi levado para a Europa, onde recebeu processos de tratamento diferenciado dos demais cereais como o trigo e o arroz. Embora tenha sua origem indígena, as comidas típicas do Ciclo Junino receberam influência dos portugueses e do negro.
Outro ingrediente bastante utilizado na culinária nordestina nesta época é o coco, comum em vários pratos típicos da região, independentemente do período do ano. Em seu livro Açúcar, Gilberto Freyre recolheu 91 receitas de bolos e doces nordestinos, dentre os quais, 57 utilizavam o coco como um dos ingredientes principais. ‘Nos festejos juninos, de mãos dadas com o milho, o coco também ajuda no preparo de pratos que, sem o gosto que ele dá, não seriam tão gostosos, eternizando, assim, uma tradição regional (SOUTO MAIOR, 1995). Dentre as receitas da culinária junina em que o coco aparece temos o bolo de São João, a canjica, o mungunzá, o bolo cabano, a pamonha, o pé-de-moleque e tantos outros.
Transcreveremos agora a receita do Bolo de São João, menos ‘ortodoxo’ que o pé-de-moleque, mais igualmente afamado, segundo nos diz Bettencourt.

Bolo de São João
Ingredientes:
- 250g de massa de mandioca;
- 14 gemas de ovos;
- 120g de manteiga;
- 150ml de leite de coco;
-500g de açúcar.

Modo de fazer:
Bater as gemas e juntá-las à manteiga e ao leite de coco. Posteriormente, colocar o açúcar e a massa até formar uma massa homogênea. Levar ao forno médio numa forma untada com manteiga.

I. III. Músicas

As festas de junho são algumas das mais musicais do folclore nordestino. Com as ‘trezenas de Santo Antônio’, que começam no primeiro dia do mês, durante treze noites, nos espaços urbanos ou rurais, entoam-se coros em louvor ao santo milagreiro:

Milagroso Antônio
Nosso Padroeiro
Enche de alegria
Pernambuco inteiro

Para além dos coros religiosos, as festas juninas também trazem rituais que se utilizam de vários estilos e instrumentos musicais típicos da cultura nordestina, como por exemplo, o ritual do chamado ‘Acorda Povo’, que sai às vésperas do dia de São João, acordando os habitantes das localidades próximas ao cortejo, com zabumbas, sanfonas, ganzás e outros instrumentos, tudo regado a muita cachaça.
Nas zonas rurais é possível encontrar manifestações musicais de origens diversas e, por vezes, desconhecidas, como por exemplo, o xote, de origem polaca e o coco, advindo das ‘batucadas’ africanas. Ambos os estilos musicais são acompanhados por suas danças específicas.
Existem também outros conhecidos estilos musicais joaninos, que têm muita procura durante todo o ano, nos centros urbanos: o baião, e, principalmente, o forró, que também se tornou bastante popular nas regiões centro-sul do país.
As letras das músicas procuram ao máximo reter o sotaque nordestino, acentuando-se as últimas sílabas de determinadas palavras ou grafando-as da maneira como o ‘matuto’ costuma falar. Um compositor que procurava sempre retratar bem essa ‘fala’ do nordestino foi Luiz Gonzaga: ‘(…) mas o dotô nem inzamina (…) ela só qué, só pensa em namorá.’[2]; Eu nesse coco num vadeio mai/ apagaro o candihero derramando o gai’.[3]
Ademais, ‘(…) nas composições ligadas ao ciclo junino está toda a moral do sertanejo: Sertão das muié séria e dos home trabaiadô (Volta da Asa Branca); Cabra assim desse geitinho (sic) / no sertão do meu Padrinho / Cabra assim num tem vez não… (xote dos cabeludos)’ (BETTENCOURT, op. Cit.).

I. IV. Danças

As danças são elementos de extrema importância dentro do folclore junino. Existem muitos estilos, que são dançados ao som das músicas próprias. Neste trabalho, nos deteremos em abordar apenas o Coco, e a Quadrilha.

I. IV. I. Coco
Rodrigues de Carvalho, em seu ‘Cancioneiro do Norte’ (1928), afirmou que o Coco era a dança preferida dos negros e caboclos que trabalhavam nos engenhos, Posteriormente, ultrapassou esses espaços e penetrou nos litorais, nos salões de dança dos grandes centros urbanos.
O Coco é uma dança típica de Alagoas, mas é amplamente conhecido em várias regiões do Norte e Nordeste do Brasil. Como falado anteriormente, é marcado pela influência africana, entretanto, coreograficamente tem fortes influências indígenas.
Embora exista grande variedade de cocos, a coreografia e formação têm, em geral, a mesma base: uma grande roda de casais, cantando e dançando ao som das palmas, sapateados e das percussões. Um casal se coloca no centro da roda, executando passos típicos. Posteriormente, esse mesmo casal se coloca em frente a outro casal que compõe a roda e trocam de posição.
Segundo Astermann (1995):
Do trabalho de quebrar cocos com pedras, de forma rítmica e cadenciada (…) do canto de quebrar o coco ou ‘vamos quebrar o coco’, inicialmente dirigido ao trabalho, e do grito excitante de ‘quebra’, posteriormente dirigido ao baile, forma-se o convite para uma noitada alegre de coco dança.

I.IV.II. Quadrilha

Na definição de Câmara Cascudo (2001), a Quadrilha é ‘(…) uma dança palaciana do século XIX, protocolar, que abria os bailes da corte em qualquer país europeu ou americano, preferida por toda a sociedade’. Era bastante popular na França, no final do século XVIII. O nome ‘quadrilha’, vem do francês ‘quadrille’, que por sua vez vem do italiano ‘squadra’, que era um termo utilizado para designar a formação dos soldados dispostos em quadrado.
No Brasil, a dança era formada nos salões dos palácios da elite imperial, porém, com o passar do tempo, a dança foi tomando lugar entre os trabalhadores industriais urbanos e alcançou o interior do país, onde se tornou parte dos festejos do Ciclo Junino.
De volta aos grandes centros urbanos, a quadrilha passou a ser considerada como uma dança de origem caipira, por ser o ponto culminante dos festejos de um casamento interiorano.
Assim, atualmente, os noivos e o padre aparecem como figuras de destaque na coreografia, e por anos foram representados em tom jocoso, com matutos desdentados e roupas remendadas, o que não corresponde à realidade, uma vez que à época de grandes festas, os assim chamados ‘matutos’ vestem as melhores roupas de seus armários.
Nos dias de hoje, entretanto, as quadrilhas têm deixado tais elementos de lado para dar lugar à ‘(…) novos passos, até mesmo de aeróbica (…) e enredo atualizado da parte dramática’ (TRIGUEIRO,1995). Sobre esse processo de ‘modernização’ pelo qual tem passado a quadrilha, Alberto da Cunha Melo (2001) escreve o seguinte:
Os folcloristas que, com razão criticavam a caricatura do camponês nas quadrilhas antigas, com calças e saias de remendos, hoje se batem contra a excessiva estilização daquela dança, pois (…) havia quadrilhas dançando funk.

Por todas essas inovações, Ovaldo Trigueiro (1995), escreveu que a quadrilha estava passando por um processo de transição, deixando de ser uma dança para se estruturar como um folguedo. Treze anos depois desta constatação, é possível dizer que a quadrilha, como todo elemento histórico, cultural e social, continua em processo de transição, entretanto, já é possível classificá-la como um folguedo popular, uma vez que, recorrendo mais uma vez a Cascudo, o folguedo reúne as seguintes características ‘(…) 1) Letra (quadras, sextilhas, oitavas ou outros tipos de versos); 2) música; 3) coreografia; 4) temática (enredo de representação teatral).’ Atualmente, a quadrilha apresenta todas estas características.
A seguir, descreveremos alguns passos da coreografia:
Anavantur (En avant, tout): cavalheiros tomam as damas e andam até o centro do salão;
Anarriê (En arriére): os pares voltam, de mãos dadas até o ponto da fila em que estavam;
Balancê com seus pares: o cavalheiro e a dama fazem o balanço em seus lugares;
Caracol: os pares se colocam em fila indiana e a dama do cavalheiro guia começa a marchar em direção ao centro do salão. Quando o caracol estiver formado, todos esperam a ordem do marcador. Quase sempre, as quadrilhas terminam com o caracol.
A quadrilha é, para muitos, um dos momentos mais esperados do São João. Como as Escolas de Samba da Sapucaí, aqui no Nordeste várias quadrilhas passam o ano inteiro ensaiando o enredo, decidindo e preparando as roupas, para participar das mais variadas competições:
O furor da contradança,
Por toda parte s’estende,
A todo gênero humano
A quadrilha compreende

Nas baiúcas mais nojentas,
Onde a gente mal se vê,
Já se escuta a rabequinha
Já se ouve o balancê.

BRINCADEIRAS JUNINAS

II. I Balões

‘Na noite escura, profundamente estrelada – a surpreendente beleza desse céu do sertão brasileiro! – balões sobem, aos boléus no vento, de formas impagáveis (…) chameiam estrelinhas, esfuziam as rodinhas, lampejam os pistolões ardem, piramidais, alumbradoramente’ (BETTERCOUT, op. Cit). Esta é a descrição de um céu de beleza ímpar, iluminado pelos balões juninos, em meados do século XX.
Embora recobrissem o céu de fantasia e beleza, já em 1970 os balões eram conhecidos por sua periculosidade: incêndios, florestas e casas em chamas, mortes e um sem número de acidentes, citados em ‘Bruno, o Balão Azul’, de autoria de Rubem da Rocha Filho.
A tradição junina, entretanto, não deixa esquecer esse elemento que torna as noites de junho ainda mais lúdicas, fantasiosas e belas, quando se contentam em apenas subir, tornando-se ‘anjinhos do céu’:[4] ‘cai, cai balão/você não deve subir/ quem sobe muito/ cai depressa sem sentir/ a ventania/ da tua queda vai zombar/ cai, cai balão/ não deixa o vento te levar’ (cai, cai balão – Assis Valente); ‘olha pro céu meu amor/ vê como ele está lindo/ olha aquele balão multicolor/ meu amor vê como no céu vai sumindo’ (olha pro céu, meu amor – José Fernandes); ‘Meu balão azul/ foi subindo devagar/ o vento soprou/ meu sonho carregou/ nem vais mais voltar’ ( Sonho de papel – Carlos Braga Alberto Ribeiro).

II.II. Fogos de artifício

Ultrapassando a ‘roda em torno da fogueira’ dos solstícios de verão europeus, aqui no Nordeste o ‘culto ao fogo’ também é composto pelos fogos de artifício. A presença destes fogos já é relatada no São João de 1603, descrito por Frei Vicente Salvador.
Assim como os balões, os fogos também representam um perigo desde os tempos mais remotos. Benjamin e Araújo (1995) relatam que desde os primeiros tempos do Diário de Pernambuco, as notícias e histórias que eram contadas a respeito dos fogueteiros envolviam sempre acidentes. Assim, em sete de agosto de 1715 foi proibido o lançamento de fogos de artifício no Recife e em Olinda. Em 1716, por não ter sido respeitada a proibição, ficou estabelecida uma pena de dois meses de cadeia e multa de 50 mil réis.
A tradição dos fogos ou foguetes, entretanto, continuou a freqüentar as páginas de nossa história, nas festas, coroações, vitórias militares na vinda da família real, etc. Nas cidades, entretanto, a produção de fogos entrou em considerável declínio.
Alguns fogueteiros, porém, mantém essa tradição, não mais fabricando os fogos nas suas próprias casas, como se costumava fazer, mas sim, por determinação das autoridades, em oficinas estabelecidas em prédios isolados, a pelo menos 500m de distância das casas, o que praticamente confinou a atividade dos fogueteiros às zonas rurais.
A profissão de fogueteiro é principalmente reservada aos homens, mas algumas mulheres auxiliam os maridos no fabrico.
É possível classificar os fogos de artifícios em três grandes grupos, a saber: os fogos-de-chão: são aqueles destinados principalmente às crianças, como por exemplo, a bombinha, o chuveirinho, a estrelinha e a bomba; fogos-de-subida: são os fogos atirados para o céu e que podem produzir um estouro ou podem ser luminosos, como os rojões, as salvas, meia-salvas, etc. Por fim, existem também os fogos-de-vista, que são preparados para eventos especiais e devem ser queimados apenas pelo mestre fogueteiro que os fabricou.
Segundo escrevem Benjamin e Araújo ‘(…) a alegria, o sonho e esperança de todo fogueteiro é poder preparar para a próxima festa um espetáculo de beleza e vida, luz e som, onde (…) queimam-se fogos em luxúria de cores, espoucam bombas de sete estouros. Os pistolões atiram para o céu estrelas artificiais que furam a bruma da noite e se perdem dentro dela.

II.III Adivinhações e simpatias
Como mencionado anteriormente, o São João é uma das festas populares que mais envolve misticismo e mistério, a começar pelas lendas que cercam o dia. O tom místico completa-se com as adivinhações, que são crendices populares que sobrevivem na tradição oral e terminaram por passar de uma geração para outra.
As adivinhações e as simpatias estão ligadas, em sua maioria, aos assuntos referentes ao romance, uma vez que as noites de São João, pelos elementos que possuem (o céu estrelado os fogos de artifícios, as danças aos pares, as fogueiras, etc.) tornam a atmosfera propícia ao romantismo.
Assim, nas festas juninas existe a tradição das adivinhações, que mostrarão às moças o seu futuro pretendente, ou, muitas vezes, a idade deste e as simpatias, que devem garantir o casamento que se quer, resolver problemas conjugais ou permitir que se sonhe com a pessoa amada.
Segue abaixo algumas simpatias e adivinhações comuns nas festas do ciclo junino[5]:
Simpatia para sonhar com a pessoa amada:
Escreva em um papel o seguinte:
Anjo da Guarda
Me deixe sonhar com (fulano)
A quem hei de amar.

Em seguida pegue uma pétala de rosa, que deve ir, junto com o papel escrito, para dentro de um envelope. Na hora de dormir coloque este envelope por baixo do travesseiro. Ao fechar os olhos para adormecer, repita trinta vezes o dito:

Anjo da Guarda
Me deixe sonhar com (fulano)
A quem hei de amar.
Depois, repita trinta vezes o nome da pessoa

Simpatia da volta
Esta simpatia é muito rezada em casos de abandono de lar, por parte da esposa ou do marido, assim como em casos de noivos e namorados que sumiram sem paradeiro. Consiste em pegar um pombo vivo, com as asas boas para voar, amarrando no seu pé um bilhete com os seguintes dizeres:
Vai meu pombo
Encontrar quem se foi
Voando e sendo
Sobre a terra onde ele/ela se escondeu
Vai meu pombo levar minha lembrança,
Pois só assim (fulano)
Voltara para casa (ou para mim)

Algumas adivinhações:

*Em noite de São João, passa-se um ramo de manjericão na fogueira e atira-se ao telhado; se na manhã seguinte o manjericão ainda estiver verde, o casamento é com moço, se murcha, é com velho;

*Em noite de São João, dão-se nós nas quatro pontas do lençol, tendo-se previamente escrito nelas os nomes de quatro pessoas queridas, mas os nós sendo bem frouxos; ao amanhecer, o nó que estiver desmanchado indicará o nome do esposo ou da esposa;

*Em noite de São João, introduz-se numa bananeira uma faca, que ainda não tenha servido; no dia seguinte, aparecerá na faca a inicial da noiva ou do noivo.

*Em noite de São João, escrevem-se em papelitos os nomes de várias pessoas, enrolam-se os papelitos, e se põe numa vasilha com água; o pedaço que amanhecer desenrolado indicará o nome da noiva ou do noivo.

*Em noite de São João, põe-se um pouco de clara de ovo num copo contendo água; no dia seguinte aparece uma igreja (casamento) ou um navio (viagem próxima), etc., etc.

Bibliografia

BETTENCOURT, Gastão de: Os três santos de junho no folclore brasílico, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro, 1947;
CASCUDO, Câmara: Dicionário do folclore brasileiro, Global Editora, São Paulo, 2001;
MELO, Alberto da Cunha: São João (fogo, folk e mores nordestinos) in Continente Multicultural, Ano 1. Nº 6, Junho/2001;
MONTEIRO, Maria Letícia: Milho na fogueira in Continente Multicultural, Ano 1. Nº 6, Junho/2001;
SILVA, Leny de Amorim (org.): Ciclo Junino, Recife, Prefeitura da Cidade do Recife, 1992;
TRIGUEIRO, Osvaldo Meira: Festejos juninos e os ritos de origem agrária in INTERCOM Revista brasileira de comunicação, São Paulo, Vol. XVIII, nº 2, julho/dezembro de 1995;

[1] Canção retirada do livro Os três Santos de Junho, de Gaspar de Bettencourt.
[2] Xote das meninas, Zé Dantas e Luiz Gonzaga
[3] Derramando o gai, Zé dantas e Luiz Gonzaga
[4] Expressão utilizada por Rubem da Rocha Filho no livro citado.
[5] As simpatias e adivinhações foram retiradas do livro Ciclo Junino, que está presente na bibliografia.

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 28 mai 2008 @ 11 50 AM

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Este é mais uma versão escrita de um estudo apresentado em sala de aulas por alunos e alunas do V Período do curso de História da UFPE, neste primeiro semestre de 2008

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Professor Severino Vicente da Silva
Disciplina: História Moderna II

CARTAS DE REMISSÃO NA FRANÇA NOS SÉCULOS XVI E XVII

Grupo:

Djair Calumbi Junior
Renata Guedes alcoforado
Roberta Duarte da Silva
Uziel Pereira

Recife, 2008.

Sumário

Introdução _____________________________________
Breve esboço acerca da Economia, Sociedade e Política da França
As Cartas de Remissão: Definição e Importância ___________
A burocracia nas Cartas de Remissão ___________________
As diferentes abordagens nas Cartas masculinas e femininas___
As mulheres das Cartas de Remissão ___________________
Conclusão ______________________________________
Referências bibliográficas____________________________

Introdução

A produção historiográfica sobre as mulheres vem crescendo paulatinamente, e adquirindo uma característica pluralista, abrangendo distintas formas de abordagens e conteúdos variados. Temas esses que versam desde o papel feminino na família, no casamento e na maternidade, até suas lutas e estratégias cotidianas na educação, com os padrões de comportamento e códigos de sexualidade. Esta expansão nos estudos assistida atualmente está estreitamente ligada a alguns fatores, como: transformações ocorridas no fazer histórico (Pós-Annales, surgimento da Nova História, e logo da história cultural); a maior presença feminina no mercado de trabalho; expansão da luta das mulheres pela igualdade de direitos e pela liberdade, sobretudo com o ressurgimento dos movimentos feministas na década de 70; sem falar, da própria redefinição do político frente ao deslocamento do campo do poder das instituições públicas e do Estado, para a esfera do privado e cotidiano.
Estudar as mulheres é entendê-las dentro da noção de Gênero, como uma categoria de análise histórica, estudos esses que não se sintetizam apenas no ser feminino, mas também se atrelam ao masculino, destacando que ambos não se resumem aos fatos naturais ou biológicos, todavia representam construções sócio-culturais situadas historicamente no tempo.
Assim, a análise das mulheres nas cartas de remissão na França nos séculos XVI e XVII, é um estudo que possibilita a descoberta de temporalidades heterogêneas e das múltiplas relações sociais, que vão descortinar os estereótipos de uma época marcada pelo domínio masculino, e quebrar com alguns conceitos culturalmente disponíveis no período. Compreender a mulher como participante ativa dessa conjuntura, é uma nova possibilidade que se abre nesse estudo, propiciando uma visão mais ampla de seu cotidiano e representações.
A estrutura temática do trabalho foi desenvolvida para proporcionar um melhor entendimento da presença feminina nas citadas cartas de remissões, delineando a conjuntura política, econômica e social do período, aliada a conceituação das cartas de remissão e das mulheres representadas, realizando analogias interessantes com as cartas de remissões masculinas, visto sua relevância para a construção dessa pesquisa, bem como para a melhor compreensão do contexto e do período estudados.
É também de suma importância a explanação acerca das fontes utilizadas para a confecção deste estudo. O eixo principal citado anteriormente está centrado num estudo da historiadora Natalie Zemon Davis. A partir desse corpo vão sendo feitos questionamentos sobre essa pesquisa e de como a autora busca escrever a história do período.
A pesquisadora em questão tece uma série de comentários sobre as histórias de perdão do século XVI na França e dentro dessas explicações é de elementar importância que seja identificada o posicionamento com que ela busca construir o conhecimento. Natalie tem por principais influências intelectuais dois grandes filósofos franceses: o primeiro é Paul Ricoeur[1], o segundo é Roland Barthes[2]. Essa influência fez com que seus textos tenham antes de tudo uma preocupação com a relação das estruturas estudas e disso resulta um discurso abalizado por diferentes aspectos da conjuntura estudada.

Breve esboço acerca da Economia, Sociedade e Política da França

O clima de instabilidade social e política, bem como a deterioração dos quadros de referência refletem o período que abrange os séculos XVI e XVII, onde a Reforma e a Contra-Reforma abalaram conceitos religiosos arcaicos, sem falarmos da paulatina transformação que abarca a mudança de costumes feudais que ainda encontravam-se no meio social abrindo espaço para o mercantilismo; sem esquecermos da incipiente burguesia que começava a mostrar a suas feições.
Em relação ao meio social Pierre Chaunu[3] fala em três pólos na sociedade da Europa Ocidental e Meridional, onde a França seria um pólo de pequena propriedade campesina, porém com direitos senhoriais muito pesados. No século XVI a sociedade estaria dividida basicamente em três Estados, onde no primeiro se encontrariam representados os nobres, o segundo do estado médio, e o terceiro contendo o restante da sociedade, é válido salientar que os camponeses significam a grande massa do século XVI.
Já em relação à economia essa é uma época de crescimento para toda a Europa, já que as minas da América proporcionavam uma boa entrada de metal, e como sabemos devido à defasagem do Estado hispânico esse metal acabava indo mais para outros estados europeus do que na própria metrópole espanhola. Nesse mesmo período na regência do Reino da França temos várias personagens, dentre elas algumas figuras cuja importância sugere uma breve análise, já que foram citadas no livro de Histórias de Perdão.
No século XVI temos Francisco I e Henrique II, sendo uma característica comum aos dois o fato de que os mesmos consultavam a nobreza ao tomar suas decisões, devido como já comentado anteriormente, da manutenção de antigas características feudais, aonde a centralização política na figura do Rei vai se dar através da construção corrente, o qual terá seu apogeu com Luís XIV, no século XVIII.
Outra característica importante se refere ao fato que toda taxação recaia sobre a sociedade campesina, já que a nobreza era isenta de tais medidas, e as conseqüências de tais ações são revoltas em alguns momentos, como a da Fronda[4] no século seguinte. Essa revolta se deu devido às altas taxas as quais incidiam sobre os pobres, a qual fora agravada pela sucessão de três más colheitas, essa crise aconteceu no governo de Mazarino, que foi o sucessor de Richelieu, figura caracterizada pela utilização de várias medidas objetivando a centralização do poder.
Retornando ao enfoque da economia tivemos o aumento do arrecadamento pelo Estado através das vendas de cargos, sem falarmos no patrocínio às manufaturas régias e companhias oficiais de comércio, buscando proteger o comércio da concorrência exterior. Mas esse projeto foi iniciado com Henrique IV, se antecessor, onde outra pessoa de destaque é a Colbert com suas medidas buscando proteger o mercado interno elevando as tarifas aduaneiras.
Como já foi comentado no inicio desse texto percebemos agora mais explicitamente os motivos de ser esse período que abrange os séculos XVI e XVII tão conturbado, afinal mudanças econômicas e políticas normalmente afetam e alteram as formas de vidas.

As Cartas de Remissão: Definição e Importância

Após a contextualização anteriormente executada, e tendo a sociedade francesa dos séculos XVI e XVII como parte constitutiva do foco de discussão dessa explanação, bem como a análise dos acontecimentos[5] ocorridos no seio dessa sociedade, faz-se necessário os devidos esclarecimentos.
No caso específico do trabalho desenvolvido um ponto chave para o mesmo é a ação das cartas de remissão dentro da sociedade da França nos anos que abrangem os séculos já citados, e é de necessidade ímpar o detalhamento da acepção desses termos e de suas aplicações. Isso tudo certamente em conjunção com as mulheres desse período e sua ação na sociedade. É importante assegurar, ainda, para que a compreensão da estrutura global dessa pesquisa seja alcançada, que a relação do contexto social da França, a situação da mulher nesse quadro social e a participação feminina nas cartas de remissão estejam sempre associadas e nunca dissociadas em qualquer apreciação que seja feita acerca do tema em questão. Portanto, na seqüência imediata do escrito os pormenores com referência ao significado das expressões chaves desse trabalho serão evidenciados.
Remissão, segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira[6], no “Miniaurélio”[7], é a ação ou ato de remitir (-se); Clemência, perdão; Perdão de ônus ou dívida; Ação ou efeito de remeter. Sob a perspectiva jurídica na França dos séculos XVI e XVII, a remissão trata-se, por exemplo, no ato no qual o Rei concede o perdão legal para um determinado crime. Parece óbvio que nem todos os crimes eram considerados passíveis de uma análise Real, mas isso será alvo de explanação a posteriori.
Os pedidos de remissão eram feitos através de cartas destinadas ao Rei da França[8], o qual apreendia o poder de conceder ou não o perdão pelo crime cometido. Geralmente a carta de remissão era a derradeira tentativa a qual o sentenciado optava, estavam ligadas ao requerente por causa de uma possibilidade de morte, ou seja, normalmente a princípio, os pedidos de perdão eram reservados a casos em que o transgressor havia ou seriam condenadas à pena de morte por causa do crime cometido, embora na prática nem sempre as duas coisas estivessem relacionadas.
Eis justamente o objeto com o qual a historiadora Natalie Zemon Davis buscou analisar a sociedade francesa do século XVI, seja através da resultante desses pedidos, seja a partir das narrativas consideradas nessas petições. Esse estudo foi publicado em forma de livro cujo título é: Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI[9]. Nessa obra estão representadas diversas questões e reflexões acerca da situação das mulheres na França, a partir das representações inseridas nas cartas de remissões as quais a historiadora obteve êxito no acesso. È importante ressaltar, ainda, a maneira que a autora trata seu próprio estudo, bem como o objeto principal de sua investigação. Para ela, a carta de perdão, é, antes de tudo, uma ligação entre história, literatura e direito[10]. Nessa perspectiva ficam mais claras as observações que foram feitas anteriormente sobre o sentido da remissão.
As cartas de remissões são de suma importância para o estudo da história desse período, acertadamente assinalado por Natalie, já que ela é uma fonte valiosa para a história dessa sociedade. Para Zemon Davis as cartas são de gênero misto, no qual estaria inserido concomitantemente tanto o caráter jurídico, quanto o histórico e o literário, e assim ela escreve o seguinte:

(…) De acordo com as categorias dos retóricos e teóricos literários renascentistas, as cartas de remissão eram um gênero misto: uma petição judicial destinada a persuadir o rei e a corte, um relato histórico dos atos de um indivíduo no passado e uma história[11].

Portanto, o aspecto jurídico dessas petições é incontestável já que a partir delas é que eram observadas as possibilidades de perdão. No contexto da observação histórica os requerimentos são por demais relevantes, pois os mesmos são fontes de preciosas informações. Natalie analisa a importância desses subsídios assim:

(…) Elas constituem fontes preciosas para o estudo das festas, da violência e da vingança em diferentes meios sociais e grupos etários, das atitudes relativas ao rei e das imagens que dele se faziam, e de outras normas sociais e culturais[12].

No contexto jurídico a importância de uma carta de remissão é sentida na seguinte passagem:
(…) Por meio de uma carta de remissão (uma vez ratificada por uma corte legal), o perdão real impedia que a pessoa fosse executada e também impedia ou limitava o confisco real de bens que acompanhava essa pena, ou – para citar a fórmula – “perdoava o ato [...] e cancelava toda penalidade, multa, e prejuízo corporal, criminal ou civil que pudesse dela resultar [...] e restaurava ao requerente sua boa reputação e bens” [13].

É relevante ressaltar, que as mulheres presentes no contexto das citadas cartas, encontravam-se certamente inseridas sob perspectivas diferentes no que tange ao aspecto cultural, social, econômico que vivenciavam.

A burocracia nas Cartas de Remissão

A carta de remissão geralmente podia ser realizada através de duas situações: o requerente podia ser preso imediatamente depois da morte da vítima, e logo seria aconselhado por um parente, um advogado ou um juiz, ou decidia por conta própria realizar o pedido de remissão; ou o pedido de remissão poderia ser solicitado depois da condenação à execução ou a pesadas multas.
Trevor – Roper[14], em seu estudo[15] sobre a crise geral do século XVII, afirma que a Europa nos tempos modernos, é caracterizada por uma grande burocracia em expansão, um imenso sistema de centralização administrativa, cujo membros constituem uma multidão sempre crescente de “cortesão” ou “funcionários”, a qual com o passar do tempo, foi se transformado em uma burocracia funcional parasitária, oriunda de grandes gastos para a coroa. O processo pelo quais os pedidos de cartas de remissão passavam para conseguir a ratificação, e um bom exemplo da existência dessa burocracia funcional acima citada. Todos que buscavam perdão tinham de conseguir uma autorização de um funcionário da chancelaria real; após obter a autorização, a história do crime era narrada a um notário real e aos seus funcionários, pelo próprio requerente, ou pelos seus familiares ou por um advogado contratado. Uma vez escrita à carta formal, ela deveria ser lida na presença de um chanceler ou de seus representantes, como o mantenedor dos selos, e talvez discutida com um chefe de petições. O pedido era examinado para que os funcionários da Chancelaria pudessem se certificar de que o crime narrado era passível de perdão, e de que a desculpa formulada era aceitável. Isso feito, a carta era assinada, selada com cera verde com fios de seda e, depois do pagamento, entregue na mão do requerente. Zemon Davis salienta que o preço de uma carta de remissão era mais de duas vezes superior aos ganhos de um trabalhador não qualificado, maior que o salário mensal de um gráfico profissional, e quase equivalente ao dote de uma arrumadeira, o que seria em torno de 10 a 12 libras.
A posse carta não significava o fim da burocracia, pois era necessária ainda a ratificação de uma corte real, fosse à corte superior da jurisdição regional do local onde o crime ocorrera ou o Parlamento, que era a suprema corte para aquela jurisdição. O solicitante apresentava-se aos juizes, acompanhado de seus parentes, onde lia a carta em voz alta, jurando que o seu conteúdo era verdadeiro e implorava o benefício da graça real. Posteriormente, os juizes faziam perguntas e estimulavam um prolongado recital de respostas, que deviam se ajustar ao relato feito ao rei e também à informação recolhida durante o julgamento ou no período em que o solicitante esteve foragido. Assim, o solicitante, geralmente na condição de prisioneiro, esperava semanas ou até meses, que o advogado do rei formulasse sua opinião.
Se a história do crime parecesse aceitável depois da investigação, a carta era então ratificada, com a condição de que o requerente custeasse orações pela alma da vítima, pagasse uma soma a sua família, ou fizesse doações aos pobres. Em um pequeno número de casos, ordenava-se que o requerente se mantivesse afastado por um ou dois anos da cidade ou da aldeia onde ocorrera o crime, todavia no final, o solicitante podia retornar a sua antiga vida, perdoado e com sua reputação restaurada. Se a carta de remissão era rejeitada em vez de ser ratificada, ele teria de enfrentar os rigores de um processo criminal, a menos que isso já tivesse ocorrido, ou ser executado, ou expulso por longo período, ou condenado à prisão perpétua e a trabalhos forçados, além de pesadas multas.
Vale ressaltar, que o caminho da remissão apresentava algumas vantagens no contexto da lei francesa para homicídios e diante dos procedimentos criminais franceses. A legislação francesa do século XVI não traçava distinção conceitual entre “assassinato” e “assassinato não premeditado”, nem estabelecia penas diferentes para ambos, como logo aconteceria na Inglaterra, que só iria se consolidar na França com o código penal de Napoleão. O homicídio era tratado sob uma única visão, podendo ser baseado provavelmente na antiga crença, baseada no Deuteronômio 21, e citada em textos legais, onde qualquer derramamento de sangue despertaria a ira de Deus e tinha de ser compensado de alguma forma. Dentro desse quadro geral, existiam os casos em que o juiz podia ser mais moderado na sentença e em que o rei podia oferecer seu perdão.
Existiam alguns casos em que mesmo o homicídio não sendo permitido, poderia ser absolvido e perdoado pelo rei, que por sua vez, possuía o poder da Remissão, seriam: homicídio por acidente; homicídio por imprudência, sem maus pensamentos ou más intenções; homicídio de um ladrão ou agressor que invadiu a casa do requerente; homicídio praticado em um torneio sem más intenções; homicídio cometido por uma pessoa sem discernimento, e supostamente sem malicia, maldade ou fraude; homicídio resultante de uma briga repentina, sendo perdoado por causa da raiva; homicídio relacionado a pessoas que resistem à prisão; homicídio durante jogos; homicídio cometido por uma pessoa “rara e excelente”; homicídio cometido por um velho cuja vida pregressa foi isenta de brigas e contendas; e homicídios que após vinte anos não teve acusação nem processo; entre outros.

As diferentes abordagens nas Cartas masculinas e femininas

Na tentativa de assegurar uma compreensão satisfatória do tema estudado e também para uma melhor visualização das diferenças das cartas de perdão, no tocante a autoria das mesmas, é necessária uma breve explanação acerca deste tema.
Como já vimos, as cartas de remissão eram documentos que visavam a obtenção de perdão real para crimes cometidos, crimes esses que poderiam ou não ser considerados pelos representantes da Coroa como remissíveis. Vimos também que a sociedade do período estudado estava muito centrada na relação de poder que o homem exercia sobre a mulher e esse ponto é crucial para o bom entendimento dessas divergências de abordagens, pois o homem, àquela época, tinha direitos que contrariam a lógica da sociedade contemporânea, pelo menos em sua normalidade. Por exemplo: um homem tinha o direito de aplicar castigos corporais em suas esposas sob a alegação de terem se sentido ofendidos por algum ato executado por sua mulher. Esse fato revela a submissão a qual essas mulheres estavam submetidas dentro dos quadros sociais. Quanto a esse tema foi observado que, na sociedade atual, essas atitudes são ilógicas, não significa dizer que os tais atos não ocorram, pelo contrário, há vários casos de violência contra a mulher ainda, as estatísticas corroboram a ressalva. Porém, o importante de se destacar é que hoje é crime a violência contra mulheres e nos séculos XVI e XVII eram direitos inerentes à condição de homem, entenda-se indivíduo do sexo masculino.
É nesse contexto o qual se desenvolvem os principais crimes desses dois séculos abordados, e também sob essa perspectiva que a maioria dos delitos transformam-se em pedidos de remissão.
Os pedidos de remissão de autoria de homens constituíam a maioria dos pedidos da base de dados estudada, isso se deve, provavelmente, ao fato de que a quantidade de crimes cometidos por homens que poderiam ser remissíveis era muito maior do que os perdoáveis no caso das mulheres como executoras.
Nos seus pedidos de perdão, os homens buscam demonstrar a humilhação a qual eles foram submetidos, bem como procuram apresentar sua vida pregressa como sendo a vida de indivíduo ilibado. Esses estratagemas são bem característicos do contexto das cartas masculinas, já que segundo a ordem natural, novamente retornando a esse ponto, as mulheres deviam obedecer a seus maridos com paciência, deviam a esse sua fidelidade em seus diversos contextos, assim como a reputação do marido não poderia ser atingida pela atitude de suas esposas. Como de fato isso normalmente tomava projeções que estavam fora da realidade desejada, os homens sentiam-se no direito de lançar mão dos castigos corporais e por vezes extrapolando esse direito.
Numa passagem do livro de Zemon Davis encontra-se transcrita a petição de um Thomas Manny[16], o qual pedia perdão o homicídio cometido contra sua esposa sob a alegação que a mesma estava periodicamente cometendo adultérios e que isso em dado momento, constantemente humilhado diante dessa situação o requerente pega a sua mulher na casa de vizinhos e a leva para casa onde deveria ficar sem que pudesse sair, nesse instante os referidos vizinhos se dirigem até a porta da frente da casa do requerente e começam a ameaçá-lo com pedras que eram atiradas em direção a casa, além disso, ele é achincalhado pelos vizinhos que o chamam de “corno”, “chifrudo”, dentre outras palavras de baixo calão. Com tudo isso em foco o requerente num momento de fúria, segundo ele, questiona se tem de morrer por uma “puta”, e assassina a mulher. Toda a construção da narrativa é feita para que se possa evitar que o réu seja inserido num contexto que criminoso cruel, e através de uma linguagem apelativa tenta redimi-lo da culpa.
Na descrição do pedido de perdão de uma mulher, a requerente do pedido é Marguerite Vallée[17], que se utiliza também de uma linguagem apelativa para construir sua narrativa; porém nesse caso específico, a requerente envolve também no seu pedido o fato de ser violentada continuadamente por seu marido e que certas vezes preferia ter sua vida finalizada a ter que continuar a sofrer os maus tratos do marido. Um ponto bem caracterizado na maioria das cartas de remissão de mulheres é o fato de que elas rejeitavam, normalmente, o argumento de que seus crimes teriam sido cometidos a partir de um momento de raiva, elas preferiam se mostrarem arrependidas a procurar uma desculpa para seu ato. Nesse caso Marguerite descreveu em sua carta uma série de tentativas de suicídio após a execução do ato criminoso e isso é uma característica de autopunição.
Nesses casos onde o crime era cometido pela esposa, o gênero era muito mais importante do que a classe social em questão.
Um outro aspecto a ser observado é que tanto nas cartas de homens ou mulheres o fato do requerente ter sido perdoado pela vítima constituía-se de um álibi precioso.
Por fim uma característica diferenciada entre pedidos de homens e mulheres é a quantidade de remissões seladas. Nesse caso das cerca de quatro mil remissões apenas 1% (um por cento) eram mulheres e de cada cem pessoas que estavam à espera na Conciergerie de Paris para ratificar suas cartas três eram mulheres[18]. Além dos homicídios conferidos às mulheres, os crimes capitais que com freqüência eram atribuídos a elas eram os de bruxaria e de infanticídio, ambos imperdoáveis, ou seja, estes nem entram nas estatísticas das petições.
Por fim é importante ressaltar que quando os pedidos não eram considerados pelo Rei, este poderia fazer com que uma sentença anteriormente julgada fosse cumprida, ou poderia haver uma moderação da pena.

As mulheres das Cartas de Remissão

As mulheres do século XVII e XVIII eram, sobretudo, de responsabilidade dos homens das suas famílias, a priori de seus pais, e quando se casavam passavam a ser responsabilidade de seus maridos, os quais seriam responsáveis em prover as necessidades de suas esposas.
Entretanto para as classes menos favorecidas esse costume não era praticado, ou melhor, rentavelmente possível, em virtude do poder econômico dessas classes, onde assistimos que tanto as mulheres solteiras como as casadas acabavam exercendo atividades empregatícias. Essas mulheres comuns acabam sendo excluídas de costumes sociais e podemos observar que a forma como são abordadas suas histórias são sempre na generalização, ao contrário de figuras que fazem parte da corte.
Contudo a análise da história dessas mulheres nos permite conhecer um pouco da história de seu país e como estava estruturada a sociedade naquela época.
Geralmente, saíam de suas casas aos 12 anos em busca de emprego, tanto nas áreas rurais como em áreas urbanas, impulsionadas na maioria das vezes por alguns motivos: primeiramente quando elas saiam deixavam de ser responsabilidade e um estorvo de seus pais, já que cuidados com a alimentação e abrigo passam a ser de responsabilidade de seu patrão; o segundo está diretamente relacionada a seu dote para o casamento, que teria que conseguir através de seu trabalho; e o por fim adquirir aptidões para atrair um marido. Bem, como sabemos os dotes eram costumes da época, todavia por sua família ser desprovida financeiramente, essa mulher acaba sendo responsável em juntar para poder assim casar. Daí ser geralmente costume o patrão pagar todo o salário apenas quando a mulher saia do emprego para outro, quando voltava para a casa de seus pais, ou quando iam se casar, tornando-se responsável por sua alimentação, vestimentas, ou seja, suas necessidades.
No entanto, os salários pagos a essas mulheres eram mais baixos, em virtude da justificativa que as mesmas já tinham seus pais e maridos para lhe sustentarem, ideologia essa diretamente atrelada à contra-reforma. Essas mulheres acabavam exercendo trabalhos domésticos, como limpar as latrinas, cozinhar, limpar a casa, lavadeiras, as quais eram consideradas a escala mais baixa, sendo que com um pouco de sorte elas acabavam promovidas para damas de sala ou de acompanhamento das nobres.
Porém, isso dependeria de seu comportamento, e até mesmo em alguns períodos, de seu grau de instrução, ensino esse ligado a sua moral e comportamento na sociedade; até o fato de sua higiene podem ser observadas, onde suas vestimentas eram analisadas pelos patrões. Havia também as que trabalhavam em indústrias de manufaturas, ou como rendeiras, valendo salientar que as criadas constituíam o maior grupo trabalhador na sociedade urbana.
Já o trabalho no campo era mais difícil de conseguir, até porque paulatinamente foi ficando mais escasso e mais disputado, fato esse que variava de região para região. Contudo quando não eram conquistadas essas vagas às mulheres acabavam migrando para as áreas urbanas, as mais próximas possíveis de preferência, mas quando isso não era possível elas acabavam seguindo rotas já existentes. O emprego no setor agrícola mais almejado era nas quinta agrícolas, sendo mais freqüentemente nas quintas leiteiras, onde a ordenha e o processo de fabricação de manteiga e queijo eram funções femininas.
Sua função no matrimônio e na família era sem dúvida mais complexa. Sabemos que a mulher tinha como função essencial para a procriação, ideologia essa advinda das questões religiosas, por isso como mãe elas eram mais cobradas diante dos acontecimentos para com seus filhos, dai se uma criança estivesse mal vestida, suja, arranhada a mãe seria mal vista pela sociedade; ressaltando que os filhos eram vistos como os perpetuadores da propriedade e a futura garantia para uma velhice tranqüila. Em relação a seu marido ou pai ela deveria obediência total aos mesmos, por isso, percebemos a partir da leitura das cartas de remissão o quanto era visto com ojeriza pelo meio social, como nos casos em que vizinhos se negam a ajudar, quando uma mulher acabava cometendo algum atentado causando a morte de seu esposo, apesar de ser em legitima defesa. Isso tudo esta relacionada à forma como era vista, como a filha de Eva, aquela a qual levava o homem a cometer o pecado da carne, ou como diz a seguinte frase “… mas o que há de mais ameaçador do que o corpo feminino e a sua sexualidade?”; sem falarmos que uma mulher pobre e feia no máximo conseguiria um marido, já uma provida com beleza, mas pobre padeceria diante dos pecados da carne, o que já não é válido para uma com melhores condições sociais e beleza. Isso tudo são algumas das justificativas referentes às divergências em relação às formas como as cartas de remissão são escritas, onde homens que matam suas mulheres por adultério teriam feito mais que em legitima defesa mais também em luta pela sua honra livrando assim a sociedade de uma transgressora de seus costumes; todavia uma mulher que escreve uma carta solicitando perdão ao rei, devido a maus tratos, por exemplo, ela se sente culpada por ter transgredido, mas que só fez tal transgressão porque a situação encontrava-se insustentável.
Constatamos assim que o papel dessas mulheres comuns, muitas vezes esquecidas por nossa história, era difícil de ser exercido, em virtude das exigências da sociedade, a qual lhe botava uma conduta restritiva e impecável. A falta de um casamento era mal visto pela sociedade, sem falarmos que era pouco comum, até porque os papéis sociais das mulheres estavam bem estabelecidos e a falta com tais eram inaceitáveis.
Não são muitas as mulheres francesas que tinham a oportunidade de fazer petições de perdão, e estudos quantitativos de indiciamentos ou recursos em casos de homicídios na França do século XIII até o século XVIII, comprovam este fato, pois as ocorrências que envolvem as mulheres variam entre 7,3% e 11,7% do total. No geral são mulheres que saíram ou foram expulsas da família; metade ou dois terços são solteiras; um quinto eram mulheres casadas, mas que foram abandonadas por seus maridos, e uma percentagem variável de viúvas. Um dos fatos para explicar esses números, é que os dois principais crimes capitais associados a mulheres – bruxaria e infanticídio – eram pouco perdoados, pois buscar misericórdia significava admitir o crime, e ambos eram considerados bárbaros.
O infanticídio, aqui definido como o assassinato de recém-nascidos é considerado um crime atroz, e visto como um ato de aflição cometido por mulheres em pânico, onde a gravidez é tida como uma catástrofe, pois as coloca perante o dilema de escolher entre o emprego e o filho. Geralmente as mulheres alegavam que os filhos haviam nascido mortos, e não mudavam a história nem quando torturadas. Porém esse crime era tratado com bastante rigor pela lei, e em fevereiro de 1557, Henrique II assinou um decreto sobre infanticídio que vigoraria durante todo o Antigo Regime: qualquer morte de bebê posterior a uma gravidez escondida ou a um parto clandestino, e sem batismo ou enterro formal, seria considerada homicida e punida com a morte.
O sentimento contra a bruxaria também era bastante incisivo, pois não era possível desculpar um pacto com o diabo e envenenar alguém por meio de magia negra: matar uma bruxa era um crime passível de perdão, ser uma bruxa não. As temidas bruxas seriam, na verdade, simples mulheres camponesas, que por viverem em intenso contato com a natureza, eram conhecedoras das ervas medicinais, que podiam tanto curar como também matar. Conheciam as ervas abortivas e contraceptivas, o que as permitia exercerem livremente sua sexualidade, fato que por si só já era considerado crime e pecado. Possuíam uma cultura pré-cristã, e a crença em deusas e deuses pagãos, sendo por isso, identificadas como hereges pelas autoridades eclesiásticas, os quais eram convencidos de que esses conhecimentos só lhes poderiam ter sido transmitidos pelo Diabo. Geralmente as mulheres mais velhas, mais feias, mais pobres, as mais agressivas e pertencentes às comunidades aldeãs sofriam com essa repressão.
Contudo, nem todas as pessoas acusadas de feitiçaria eram mulheres: os homens representam em média 20% dos acusados e nem todos devem o seu triste destino apenas a pouca sorte de se terem casado com reconhecidas feiticeiras. Por outro lado, nem todas as feiticeiras eram velhas, viúvas ou pobres. Mesmo se as feiticeiras viúvas são proporcionalmente mais numerosas do que o número das viúvas na população, a maior parte das feiticeiras eram mulheres casadas ou núbeis e a elevada condição social de algumas delas não lhes poupou a acusação ou a condenação.

Conclusão

O levantamento feito para a execução dessa pesquisa, a qual teve como objetivo apresentar as mulheres nas cartas de remissão na França dos séculos XVI e XVII, foi de extrema relevância não só para a compreensão da situação feminina nesse período, como também para o entendimento da conjuntura francesa, através de abordagens plurais, ou seja, contextualizando aspectos econômicos, políticos, e sociais e, sobretudo, culturais.
Na análise dos escritos de remissão, importantes questões foram verificadas, desde uma linguagem apelativa e aspectos de ficcionais, assinalados por Zemon Davi, como toda a burocracia por qual passava o pedido de remissão, aspecto esse intrinsecamente relacionado com a situação política e econômica da França nesse período. O momento de discussão sobre as estratégias diferentes utilizadas nas cartas escritas por homens e mulheres, também revelam a preocupação para com a pluralidade da análise histórica presente no contexto dessa pesquisa, visto ser da relação de ambos, que os perfis de gêneros são definidos.
Todas essas discussões apontam para o fazer histórico produzido atualmente, onde a história cultural fez com que a dimensão simbólica e suas interpretações passassem a constituir o terreno comum, multiplicando assim os métodos e os objetos investigados. Como observa o historiador Marc Bloch[19], o pesquisador necessita de um prévio conhecimento de várias outras ciências ou disciplinas as quais forneceriam os subsídios para a análise de cunho histórico[20]. Nesse contexto, ciências como a antropologia, vão possibilitar a consolidação de um conceito de cultura mais amplo, e a invisibilidade feminina nas fontes passam a ser questionadas, provocando assim descortinamentos de preconceitos culturalmente impostos, enfatizando a contribuição e participação feminina no processo histórico.
Essas ponderações ratificam o objetivo traçado nessa pesquisa, alicerçada em diversas diretrizes de estudo, como já foi discutido anteriormente, compreendendo o ser feminino nos tempos modernos, inserido no contexto da sociedade da época, onde as rupturas de comportamentos eram normalmente esperadas, visto a condição de exclusão que lhes eram atribuídas.

NOTAS:
[1] Filósofo francês, formado na Sorbonne, cujo principal eixo de pensamento está ligado ao estruturalismo. Também tem estudos que o relacionam com a lingüística, a psicanálise, a hermenêutica.
[2] Filósofo nascido na França, formado na Universidade de Paris, influenciado por Ferdinand de Saussure, fez parte da escola estruturalista. Também foi escritor, semiótico, crítico literário e sociólogo.
[3] Historiador francês especialista em história social e religiosa da França nos séculos XVI, XVII e XVIII.
[4] Guerra civil ocorrida na França entre 1648 e 1653, ocorrida no contexto de uma depressão econômica, tinha por objetivos principais a limitação do poder real e consolidar a discussão dos abusos.
[5] Palavras-chave: crimes; mulheres; dívidas…
[6] Crítico, ensaísta, tradutor, filólogo e lexicógrafo, membro da Academia Brasileira de Letras, da Academia Brasileira de Filologia, da Academia de Ciências de Lisboa e da Hispanic Society of América.
[7] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 596.
[8] A Instituição das cartas de remissões não era exclusividade da França, existia também em outros locais, na Inglaterra, como um exemplo. Porém, a base de dados dessa pesquisa está dirigida para a França e devido ao objeto e ao objetivo da mesma as passagens estudadas serão relacionadas apenas aos casos franceses.
[9] DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
[10] Obra citada, p. 11.
[11] Obra citada: p. 17.
[12] Obra citada: p. 17.
[13] Obra citada: p. 21.
[14] Historiador inglês, nascido em 15 de janeiro de 1914. Graduado pela Universidade de Oxford, foi professor cátedra de História Moderna na mesma universidade.
[15] TREVOR-ROPER, H. R. “A crise geral do século XVII” IN: Do feudalismo ao capitalismo: uma discussão histórica. Theo Santiago (org.). São Paulo: Contexto, 1988.
[16] Ver apêndice um.
[17] Ver apêndice dois.
[18] DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p.127.
[19] Historiador francês da tradição de Annales, o qual iniciou o processo de ampliação dos horizontes a serem estudados pela história. Um homem extremamente ligado às questões de seu tempo, tanto que foi morto pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, tendo participado também da primeira.
[20] BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 81.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. São Paulo: Brasiliense, 1995.
BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter. Variedades de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
CHAUNU, Pierre. A civilização da Europa Clássica. Lisboa: Estampa, 1987.
DAVIS, Natalie Zemon. Histórias de perdão e seus narradores na França do século XVI. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
DUBY, Georges; Perrot, Michelle. História das mulheres – Do Renascimento à Idade Moderna. Volume III. Sob a Direção de Arlette Farge e Natalie Zemon Davis. Porto: Edições Afrontamentos, 1991.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio Século XXI: o minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
GIORDANI, Mario Curtis. História dos séculos XVI e XVII na Europa. São Paulo: Vozes, 2001.
GUIMARÃES, Maria de Fátima (coordenadora). Gênero e história. Caderno de história do Departamento de história da UFPE. Recife: Universitária, 2002.
MATOS, Maria Izilda. Por uma história da mulher. São Paulo: Edusc, 2000.
TREVOR-ROPER, H. R. “A crise geral do século XVII” IN: Do feudalismo ao capitalismo: uma discussão histórica. Theo Santiago (org.). São Paulo: Contexto, 1988.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
DISCIPLINA: HISTÓRIA DA CULTURA
PROFESSOR: SEVERINO VICENTE
TURISMO / 1º PERÍODO (TARDE)

ALIMENTAÇÃO: A História da alimentação no Brasil.

ANDRÉ SPINELLI, CÁSSIA MACHADO, LUÍZA GALVÃO, MONICK DE FRANÇA

ALIMENTAÇÃO:
A História da Alimentação no Brasil.

Trabalho apresentado a Disciplina de História da Cultura, do curso de Turismo, da Universidade Federal de Pernambuco

RESUMO

Os costumes alimentares do Brasil são frutos de uma mistura de ingredientes europeus, indígenas e africanos, ocasionados pela já existênte culinária indígena e pela colonização do nosso país, com posterior introdução dos costumes alimentares europeus e africanos na nossa alimentação. Sendo assim, muito da nossa cozinha, técnicas de preparo e ingredientes são de origem indígena, tendo sofrido adaptações por parte dos escravos que chegaram aqui, trazidos pelos portugueses. Os africanos e seus descendentes fizeram adaptações dos seus pratos típicos substituindo os ingredientes que faltavam por correspondentes locais. Os escravos trazidos ao Brasil desde fins do século XVI, somaram à alimentação nacional novos elementos. As levas de imigrantes recebidas pelo país entre os séculos XIX e XX, vindos em grande número da Europa, trouxeram grandes novidades ao cardápio nacional e concomitantemente foi fortalecido o consumo de diversos ingredientes.Dentro de um pais tão rico em termos de alimentação chegando ao século XX surge ainda a invasão do fast food e a “Mcdonaldização” da alimentação influenciando tanto de forma negativa como de positiva os hábitos alimentares da população brasileira.

SUMÁRIO
Página
INTRODUÇÃO_____________________________________________________5
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA______________________________________6
Influências Indígenas_______________________________________6
Influências Africanas_______________________________________8
Influências Européias_______________________________________9
Influências Norte-Americanas (Fast-food e Mcdonaldização)______10
A influência nos dia atuais___________________________________14
METODOLOGIA___________________________________________________16
OBJETIVOS E RESULTADOS_______________________________________17
CONCLUSÃO______________________________________________________18
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS__________________________________19

INTRODUÇÃO

Desde a chegada dos colonizadores até os tempos atuais, o Brasil sofreu processos de mudança nos hábitos alimentares, traçando um ciclo evolutivo na alimentação da sociedade que hoje apresenta “níveis culinários”, que vão desde a pré-histórica atividade de caça e pesca até os mais sofisticados buffets da sociedade contemporânea.
Com a chegada dos portugueses, e com eles os africanos, ocorreu um processo de aculturação do indígena que aqui estava, gerando um fenômeno de mistura de raças, costumes e tradições. Com isso a cozinha brasileira sofreu influências de várias partes do mundo, principalmente da Europa, já que Portugal era a metrópole e as tendências que se formavam por lá eram trazidas e desenvolvidas na colônia. Mas, não se pode omitir o legado que os africanos e indígenas proporcionaram para a cozinha nacional, mesmo que não seja dada a devida importância. Com a independência veio a imigração, européia, que trouxe para o país um ganho significante no âmbito alimentar com a incorporação de costumes alimentares de vários países do mundo. No mundo globalizado vivemos a invasão do fast- food, de criação norte-americana, que tem seu público dominante principalmente entre os jovens.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Todo ser vivo precisa se alimentar para sobreviver e se reproduzir. Mas, na espécie humana, a imensa capacidade de se adaptar a vários tipos de alimentos fez do homem a espécie de hábitos alimentares mais diversificados do planeta fato que foi fundamental para a sua evolução.
A chegada dos portugueses no início do século XVI, iniciou a exploração das terras brasileiras. Da miscigenação dos povos indígenas, portugueses e africanos nasciam os costumes alimetares brasileiros. Muitas das técnicas de preparo e ingredientes são de origem indígena, tendo sofrido adaptações por parte dos escravos e dos portugueses. Esses faziam adaptações dos seus pratos típicos substituindo os ingredientes que faltassem por correspondentes locais. A feijoada, prato típico do país, é um exemplo disso. Os escravos trazidos ao Brasil desde fins do século XVI, somaram à culinária nacional elementos como o azeite-de-dendê e o cuscuz. As levas de imigrantes recebidas pelo país entre os séculos XIX e XX, vindos em grande número da Europa, trouxeram algumas novidades ao cardápio nacional e concomitantemente fortaleceu o consumo de diversos ingredientes.
1. Presença Indígena
A alimentação indígena tinha como alicerce a mandioca, na forma de farinha e de beijus, mas também de frutas, pescado, caça, milho, batata e pirões e, com a chegada dos portugueses, do inhame trazido da África.
Todos os povos indígenas conheciam o fogo e o utilizavam tanto para o aquecimento e a realização de rituais quanto para preparar os alimentos. As principais formas de preparo da carne eram assá-la em uma panela de barro sobre três pedras (trempe), em um forno subterrâneo (biaribi), espetá-la em gravetos pontudos e colocá-la para assar ao fogo — de onde teria vindo o churrasco do Rio Grande do Sul — colocá-la sobre uma armação de madeira até ficar seca para que assim pudesse ser conservada (moquém) ou algumas vezes cozê-la. No biaribiri colocavam uma camada de folhas grandes em um buraco e sobre elas a carne a ser assada e sobre essa carne ainda, uma camada de folhas e outra de terra, acendendo sobre tudo um fogueira de onde teria surgido o modo de preparar o barreado do Paraná. Por vezes a carne cozida servia para o preparo de pirões, mistura de farinha de mandioca, água e caldo de carnes. Havia duas formas de prepará-lo, cozido ou escaldado. Na primeira, o caldo é misturado com a farinha aos poucos e mexido até ganhar consistência adequada, na segunda, simplesmente misturam-se os dois, resultando em um pirão mais mole.Ao lado da farinha e do beiju, a caça era outra das principais fontes de alimento. As principais carnes eram as de mamíferos como o porco-do-mato, o queixada, o caititu, a paca, o veado, macacos e a anta, que servia a comparações com o boi, a anta estrangeira. Eram preparadas com pele e vísceras, o pêlo queimado pelo fogo e os miúdos, órgãos internos, depois retirados e repartidos.
A pesca, de peixes, moluscos e crustáceos, era realizada com arco a pequenas distâncias, sem haver uma espécie mais apreciada que outras. Os maiores eram assados ou moqueados e os menores cozidos sendo o caldo utilizado para fazer pirão. Por vezes, secavam os peixes e socavam-nos até fazer uma farinha que podia ser transportada durante viagens e caçadas. A paçoca era produzida da mesma maneira, pilando-se a carne com a farinha de mandioca, alimento posteriormente adaptado com castanhas de caju, amendoins e açúcar no lugar da carne e transformado em um doce.
Para temperar o alimento usavam a pimenta ou uma mistura de pimenta e sal pilada chamada ionquet, inquitaia, juquitaia, ijuqui. Sempre era colocado após o preparo e mesmo comido junto com o alimento, colocando-se um naco de comida na boca e em seguida o tempero. O sal era obtido a partir de difíceis processos de secagem da água do mar, em salinas naturais , sal mineral ,ou a partir da cinza de vegetais.

Entre os alimentos líquidos indígenas encontra-se a origem do tacacá, do tucupi, da canjica e da pamonha. O primeiro surge a partir do sumo da mandioca cozida, chamado manipueira, misturado com caldo de peixe ou carne, alho, pimenta e sal e o segundo a partir da fervura mais demorada do mesmo sumo. A canjica era uma pasta de milho puro até receber o leite, o açúcar e a canela dos portugueses ganhando adaptações de acordo com o preparo, como o mungunzá, nome africano para o milho cozido com leite, e o curau, feito com milho mais grosso. A pamonha era um bolo mais grosso de milho ou arroz envolvido em folhas de bananeira. Fabricavam também bebidas alucinógenas para reuniões sociais ou religiosas como a jurema no Nordeste. Com seus ingredientes e técnicas a culinária indígena formaria a base da culinária brasileira e daria sua autenticidade, com a mandioca sendo o ingrediente nacional, pois incluído na maioria dos pratos.
2. Presença Africana
A alimentação cotidiana na África, por volta do século XVI, incluía arroz, feijão, milhetos, sorgo e cuscuz. A carne tinha, em sua maior parte, origem na caça abundante de antílopes, gazelas, búfalos, aves, hipopótamos e elefantes. Pescavam pouco. Criavam gado ovino, bovino e caprino, mas a carne desses animais era em geral destinada aos sacrifícios e as trocas. Preparavam os alimentos, assados, tostados ou cozidos. Para temperar a comida tinham preferência pelas pimentas e também utilizavam óleos vegetais, como o azeite-de-dendê, que acompanhava a maioria dos alimentos.
O escravo era apresentado ao paladar brasileiro antes mesmo de deixar a África, recebendo uma saca com provisões de feijão, milho, aipim, farinha de mandioca, peixe e tomavam cachaça, para a travessia do Atlântico.
A base da alimentação dos escravos não variava de acordo com a função do escravo, mas com a função ser rural ou urbana e com o seu ser amo rico ou pobre. A base era a farinha de mandioca. Nas propriedades ricas, a alimentação do escravo incluía canjica, feijão-preto, toucinho, carne-seca, laranjas, bananas, farinha de mandioca e o que ele conseguisse pescar e caçar; nas pobres era de farinha, laranjas e bananas. Os temperos usados eram o açafrão e o leite de coco. Este último sendo trazido para o Brasil pelos escravos, sendo foi utilizado para regar peixes, mariscos, o arroz-de-coco, o cuscuz, o mungunzá e ainda diversas outras iguarias.
Comiam o milho sempre cozido, em forma de papa, angu ou fervido com leite de vaca, em preparo parecido ao atual mungunzá. O escravo dos engenhos de açúcar se alimentava de mel com farinha e bebia caldo de cana, cachaça, mel com água, sucos e café.
A banana foi herança escravista. Nenhuma fruta teve popularidade tão grande Foi a maior contribuição africana para a alimentação do Brasil, em quantidade, distribuição e consumo. Em troca, levaram mandioca, caju, abacaxis, mamão, abacate, batatas, cajá, goiaba e araçá.
Prato apreciado no país atualmente, o cuscuz era conhecido em Portugal e na África antes da colonização do Brasil. Surgiu no norte da África, entre os berberes. Podia ser feito
de arroz, sorgo, milhetos ou farinha de trigo e com a chegada do milho da América passou a ser feito principalmente deste. Comumente, é consumido doce, feito com leite ou leite de coco, a não ser o cuscuz paulista, consumido com ovos cozidos, cebola, alho, cheiro-verde e outros legumes.
Os africanos trouxeram ao Brasil o gosto por novos temperos e a habilidade de improvisar receitas, misturando ingredientes europeus e indígenas. A cozinha africana privilegia os cozidos e não as frituras. O caldo é um item importante, proveniente do alimento cozido ou simplesmente preparado com água e sal. No Brasil, esta pratica popularizou o pirão.
A África doou ao Brasil à manga, a jaca, a melancia, a erva-doce, o gengibre, o feijão preto, o quiabo, a galinha d’Angola, a pimenta malagueta (lugar de origem da mesma), ensinou a fazer vatapá, mungunzá, acarajé, angu e pamonha. Contribuiu com a difusão do inhame, da cana – de – açúcar, do amendoim, do fumo, do cacau, do café e do azeite-de-dendê. E também introduziu a feijoada, que surgiu nas senzalas, feitas pelos escravos que cozinhavam o feijão e aproveitavam os restos de porco jogados fora pelos seus senhores.
As extensas plantações de açúcar, o ciclo do ouro e dos diamantes e o surto cafeeiro fizeram com que grande parte da população negra se deslocasse em direção a Pernambuco, Minas Gerais e São Paulo, respectivamente. Mas nessas regiões, a culinária africana não conseguiu se impor com a mesma força que na Bahia, onde se conservou sua cor e sabor até hoje.
A cozinha africana, pequena, mas forte, fez valer os seus temperos, os verdes, a sua maneira de cozinhar. Modificou os pratos portugueses, substituindo ingredientes. Fez a mesma coisa com os pratos da terra. E finalmente, ajudou a criar a cozinha brasileira e a usar as panelas de barro e a colher de pau.

Presença Européia
Como o Brasil foi colônia de um país europeu por mais de trezentos anos, não podiam faltar traços culturais marcantes do colonizador, nesse caso o português, inclusive no que diz respeito à alimentação e hábitos alimentares. No geral, os países da Europa que mais acrescentaram na culinária brasileira foram os da península ibérica, além de Alemanha, França e Itália. As cozinhas espanhola e portuguesa assemelham-se até certo ponto, ambas tendo o árabe como referencial trouxeram consigo a devoção pelos condimentos, frutas cítricas, cereais e uma paixão especial pela carne de porco. No se´culo XIX os imigrantes alemães foram os primeiros a chegarem em grandes quantidades ocupando a região sul do país e assim como os ibéricos tinham um apreço fora do comum pela carne suína. A cozinha alemã não trouxe pratos puramente típicos, mas sim adaptou sua cozinha aos sabores locais na época da emigração. Os italianos foram os que menos mesclaram sua culinária com a brasileira, aceitando apenas a incorporação de algumas iguarias como pimentas e o tomate. Acrescentaram à nossa alimentação o maior apreço pelas massas de farinha de trigo, molhos espessos e condimentadores, além de alguns tipos de queijo que em território brasileiro rapidamente se associou aos doces ou algum outro tipo de complemento, diferentemente dos europeus que o consomem apenas com vinho.
A influência francesa no Brasil aconteceu por intermédio português, já que havia um grau de parentesco entre as nobrezas dos dois países, sendo Portugal grande admirador da cultura francesa de quem sofreu muitas influências. Com a exceção do champagne e dos vinhos, os franceses não trouxeram grandes contribuições na culinária, mas sim nos hábitos alimentares. A sofisticação e a sistematização dos jantares, que se convencionaram banquetes, foram de autoria francesa, assim como a adição do cardápio “menu” antes das refeições, e os brindes que eram feitos em celebração a algum fato ocorrido. Naquela época era uma questão de status promover banquetes a moda francesa, além de modificar os nomes dos pratos substituindo-os por nomes franceses, mesmo que muitos não soubessem nem o que estavam pedindo.
De maneira geral os europeus não trouxeram apenas novidades culinárias para o Brasil, mas souberam com o passar do tempo adaptar seus costumes e tradições no âmbito alimentar aos sabores locais, levando também costumes tipicamente brasileiros ao dia-a-dia da população européia.

Presença Norte-Americana (Fast-food e Mcdonaldização)

Desde o início do século XX, o fordismo, como modelo econômico em vias de transformar-se de modo-de-fazer em modo-de-pensar, pregava a intensificação da produção e do consumo de massa, associando as idéias de progresso e velocidade. Estabelecendo indicadores de eficiência, relaciona as idéias de modernidade, conforto e sucesso, constituindo o panorama no qual o estilo de alimentação fast food surgiu e se desenvolveu.
Tomando como base uma das maiores empresas de fast-food temos a Mc Donald’s corporation, fundada em 1937 na Califórnia, Estados Unidos (EUA), o Mc Donald´s adotou em 1948 o sistema de produção e comercialização de alimentos que viria a se tornar o que hoje conhecemos como fast food: preparo em linha de montagem, cardápio simplificado, eliminação de talheres e pratos e lanches comprados diretamente no balcão. Isso tornou o Mc Donald´s reconhecido por sua limpeza, métodos de preparo uniformes, serviço rápido, barato e sem gorjetas, passando a ser freqüentado por pessoas de menor renda. Em 1965 foi adotado o personagem Ronald Mc Donald como marca e os comerciais mostravam a ida à lanchonete como uma experiência feliz. A partir daí a propaganda passou a mostrar a fórmula “comida, família e diversão”.
No Brasil, o primeiro Mc Donald’s foi inaugurado em 1979, no Rio de Janeiro e dois anos depois uma segunda loja foi aberta em São Paulo. Ao contrário do que acontecia nos EUA, no Brasil a marca Mc Donald’s configurou-se em ícone do consumo elitista no setor de alimentos. Isso porque oriunda dos EUA, seus produtos adquirem o status de objetos de desejo para a população dos países periféricos.
Com a abertura da primeira loja do McDonald’s no Brasil. Para se entender a proporção do crescimento do mercado, a rede americana sozinha (em dados de 2005) emprega cerca de 34.000 funcionários e possui em operação 1.146 pontos de venda sendo 544 restaurantes, 602 quiosques e 49 unidades de McCafé. No mundo inteiro, o Brasil atualmente é o 8o maior mercado da empresa.
Desde então, o mercado que ainda nos dias atuais se mantém fragmentado, viu uma quantidade de redes se instalar e buscar espaço regionalmente, mas algumas poucas marcas se estabeleceram nacionalmente: Pizza Hut (americana), Subway (americana), McDonald’s (americana), Habib’s (brasileira, origem SP), Giraffas (brasileira, origem DF), Bob’s (americana e brasileira, origem RJ) e Spoletto (brasileira, origem RJ). Como concorrentes diretos, o Habib’s e o Giraffa’s se juntam ao Bob’s e McDonald’s para comporem os quatro maiores grupos atuantes no mercado nacional, em número de pontos de venda e faturamento. As mudanças tecnológicas no setor alimentos contribuíram para que o modelo alimentar estadunidense se implantasse no país em velocidade vertiginosa, transformando a cultura alimentar tradicional. O Brasil, que era marcado por hábitos culturais dos povos negros, indígenas e europeus, se rende à cultura da rapidez, da higiene, da divisão e da racionalização do trabalho, bem como da produção em série. Já na década de 1990 a refeição se identifica cada vez menos com a esfera doméstica e a classe média passa a se alimentar em restaurantes self-service e fast food.
Constituído na grande maioria por alimentos de alto valor calórico, o fast food
tem sido associado ao aumento da prevalência de algumas doenças como obesidade,
hipertensão arterial e diabetes melitus, principalmente na população infantil. Dados da
Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que o índice de obesidade em crianças e
jovens de 6 a 18 anos aumentou de 4% na década de 1970 para 13% no ano de 1997 . O
relatório final da reunião sobre a obesidade da Organização Pan-americana de Saúde
(OPAS) caracteriza a obesidade como doença e destaca seu rápido crescimento em crianças e adolescentes, apontando também à possível sobrecarga que os agravos dela decorrentes poderão trazer aos sistemas de saúde, resultando em enorme ônus financeiro ao governo e ao contribuinte. Apesar do impacto dessas informações, as lanchonetes de fast food continuam com as vendas aquecidas. Desconhecendo ou desconsiderando os riscos, os consumidores aumentam dia a dia, tornando a rede Mc Donald’s Corporation uma das maiores empresas do mundo: em 1997, obteve o primeiro lugar em reconhecimento pela consultoria inglesa Interbrand. Essa imensa estrutura, capaz de financiar as mais eficazes estratégias de propaganda e marketing, concentra seu olhar no público infantil, buscando captar sua atenção e participar da formação de seus hábitos, promovendo assim uma constante e perpétua relação com os consumidores de amanhã.
Um exemplo de um movimento de resistência à transformação dos padrões locais de alimentação e comercialização é o movimento Slow Food, surgido na Itália, no final da década de 1980. Buscando resgatar hábitos alimentares saudáveis e opondo-se à tendência de padronização do paladar, chamada de “mcdonaldização”, o Slow Food defende a biodiversidade e a identidade cultural. No Brasil, atua em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, sendo ainda uma iniciativa de pouca repercussão.
Queremos lutar contra a invasão das grandes redes de distribuição e de franquias, principalmente no setor de alimentação. Não podemos impedir as grandes cadeias de alimentação de se estabelecerem na cidade, mas esperamos que as pessoas que vêm à cidade não queiram comer aqui o mesmo hambúrguer que elas podem comer em Londres, Paris ou Melbourne. (WASSERMAN, 2000).

Hoje o termo McDonaldização é conhecido mundialmente.
McDonaldização é conceito que engloba muito mais do que o alto grau de racionalização desenvolvido pela empresa McDonald´s. Tomando-a como paradigma do processo de maximização da produtividade, George Ritzer identifica suas manifestações nos mais variados setores da atividade humana: sistema bancário, educação, atendimento médico-hospitalar, turismo, recreação, comunicações. (FRANCO, 2004, p.240).
Em seu livro “De caçador a gourmet”, o autor Ariovaldo Franco cita que no terreno específico dos hábitos alimentares e dos estabelecimentos de fast-food, podem-se identificar os seguintes traços de McDonaldinização:
Desritualização da refeição
Simplificação e homogeneização dos processos culinários e dos alimentos servidos.
Referência enfática ao tamanho e à quantidade dos produtos vendidos, quase nunca à qualidade. Donde o uso freqüente de adjetivos como big e super na nomenclatura dos produtos.
Atendimento da clientela com um mínimo de comunicação verbal, com fórmulas despersonalizadas e estereotipadas.
Emprego de mão-de-obra jovem, cujo treinamento se resume em aprender gestos simplificados, repetitivos e automáticos. Os restaurantes de fast-food não empregam chefs.
Alta rotatividade da mão-de-obra, em decorrência da insuportável monotonia do trabalho tão altamente racionalizado.
Desumanização das relações entre os membros do staff e destes com a clientela. Nas empresas McDonaldinizadas, há pouca oportunidade para expressão de emoções.
Esvaziamento da refeição de seus elementos de ritual de comunicação e intercâmbio humano, transformando-se esta em mera operação de reabastecimento.
Generalização paulatina de refeições domésticas calcadas no modelo fast-food, até mesmo em ocasiões festivas.
Substituição dos tradicionais utensílios de mesa por equivalentes descartáveis ou simplesmente pela criação de maneiras que os dispensem. Sugestivamente, alguns estabelecimentos chamam de finger food o tipo de alimento que servem.
Preferência pela previsibilidade de uma refeição, em vez da surpresa que ela possa oferecer.
O fast-food é uma das expressões (existem outras) do movimento de aceleração da vida. Nesse sentido, quando McDonald´s migra para outros países, não devemos compreendê-lo como um traço cultural que se impõe à revelia dos valores autóctones. Ele exprime a face interna da modernidade do mundo. (ORTIZ, 2000, p.86).

Contudo o fast food não pode ser considerado mero indicio de regressão gastronômica como querem alguns, pois apresenta um aspecto funcional inegável: satisfaz a necessidade atual de rapidez e responde à demanda de relações impessoais decorrentes da cultura urbana e de seu ritmo. Tendo que se considerar que as cadeias de restaurantes fast-food hoje são realidade principalmente nos grandes centros onde as pessoas possuem pouco tempo para se alimentar, o que significa dizer que a rotina diária muito agitada faz com que essas pessoas busquem esse tipo de serviço. A vida moderna exige maior praticidade e isso não favorece a escolha dos alimentos melhor preparados ou dos restaurantes mais sofisticados, por isso o fast-food tornou-se uma potência em diversos países e, como o nome sugere, não só o tempo de preparo, bem como o atendimento do cliente é feito muito rápido.
5. A influência nos dia atuais
Apesar de muitas influências, a culinária brasileira ainda é baseada nas origens surgidas com os índios, escravos e portugueses. A base da nossa alimentação esta ancorada em ingredientes como abóbora, batata, aipim, inhame, feijões de diferentes espécies, arroz, carne de peixe, farinha de mandioca, leite e ovos. Esses ingredientes com a capacidade de misturar sabores do brasileiro fez da nossa alimentação rica e variada.
A globalização trouxe a facilidade de importação de produtos e nas grandes cidades existe a fusão de ingredientes e sabores de todos os lugares do mundo,que podem trazer uma falsa impressão de uma suposta “onda estrangeira” na nossa cozinha atual. Porém, no Brasil do interior, imenso e com traços regionais firmes os ingredientes e misturas surgidos no começo da nossa história continuam com a mesma identidade.
Da mesma forma que o brasileiro recebe bem o imigrante, recebe os seus pratos e sabores e em qualquer lugar do Brasil podem ser encontradas cozinhas e ingredientes do mundo todo espalhados por bares, restaurantes e supermercados. Com a fama de “casar as coisas”, o brasileiro vai misturando sabores sem prender-se a regras e vai tornando a nossa gastronomia cada vez mais rica.

METODOLOGIA

O presente estudo foi elaborado a partir das seguintes etapas de trabalho:

PESQUISA BIBLIOGRÁFICA: consistiu na leitura e discussão de textos, artigos e livros sobre os costumes alimentares no Brasil, seus aspectos e influências. Em relação às bases e pressupostos de avaliação dos séculos XVΙ ao XX, tomou-se como referência a obra de Luís da Câmara Cascudo, mais especificamente História da Alimentação no Brasil. Já para o final do século XX e início do XXΙ tomamos como base principal a obra De caçador a Gourmet: uma história da gastronomia, do sociólogo Ariovaldo Franco.

PESQUISA DE CAMPO: realizada através de uma visita ao Mercado de São José, no centro do Recife, a fim de buscar um reconhecimento prático e cotidiano dos costumes brasileiros. O critério de escolha foi o fato de que trata-se esse lugar de uma fonte valiosíssima dos traços, influências e elementos que marcam a cultura brasileira, incluindo a sua culinária.

Foi de interesse do grupo, conversar com as pessoas e com os vendedores locais. Saber o que mais é vendido, com que freqüência e para quem se vende, o que nos proporcionaria um melhor entendimento do assunto.

ENTREVISTA: realizou-se uma entrevista, em vídeo, com o colecionador de artigos e autor de livros como Cozinha de Pobre e A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido, Liêdo Maranhão.

SISTEMATIZAÇÂO DE DADOS: a partir das informações, dados e material coletado ao longo das diferentes etapas da pesquisa, estruturou-se o trabalho de acordo com os seguintes pontos: as influências indígenas, européias, africanas e a McDonalização na culinária e nos costumes alimentares do Brasil.

OBJETIVOS E RESULTADOS

A pesquisa pretende fazer uma introdução ao estudo histórico da alimentação no Brasil, com um enfoque principal voltado para formação da culinária através das várias influências sofridas e por conseqüência assimiladas, tendo por resultado a formação da identidade alimentar brasileira. Mais do que estudar os aspectos nutricionais, foi conferida especial atenção à introdução de novo gêneros alimentícios, novas formas de preparos e novos pratos típicos à cozinha nacional. Resultando no conhecimento das pequenas partes que juntas, formaram a culinária do Brasil.

CONCLUSÃO

Hoje os estudos sobre a alimentação invadem as ciências humanas, a partir da premissa que a formação do gosto alimentar não se dá, exclusivamente, pelo seu aspecto nutricional. O alimento passou a constituir uma categoria histórica, pois os padrões de permanência e mudanças dos hábitos e práticas alimentares têm referências na própria dinâmica social.
As cozinhas locais, regionais, nacionais e internacionais são produtos da miscigenação cultural, fazendo com que as culinárias revelem vestígios das trocas culturais. No Brasil não foi diferente. Brancos, negros, índios, imigrantes e americanos, foram os ingredientes que influenciaram a alimentação no Brasil, trazendo com eles vinho, feijoada, mandioca, macarrão e hamburger, respectivamente. Dando cor e sabor a alimentação brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 3 ed. São Paulo: Global,2004.
FRANCO, Ariovaldo. De caçador a gourmet: uma história da gastronomia. 3 ed. rev. e ampl. São Paulo: SENAC, 2004.
LIMA, Claudia. Tachos e Panelas: etnografia da cozinha brasileira. Recife: Ed.da autora, 1999.
MELLO, A da Silva. A alimentação no Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Olympio, 1961.p.336.
SOUTO MAIOR, Mário. Comes e bebes do Nordeste. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1984.

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Last Edit: 12 mai 2008 @ 02 07 PM

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Este é um trabalho que foi realizado e apresentado por alunos da disciplina Problemas da História de Pernambuco, disciplina eletiva do curso de História do Departamento de História da UFPE

Universidade Federal de Pernambuco – UFPE
Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH
Departamento de História

Agreste Meridional – colonização e questões indígenas

Maria Eduarda Alves P. Silva
Maria Falcão S. da Cunha
Mariana Andrade Lima
Problemas da História de Pernambuco
Prof. Severino Vicente
Período 2008.1

Sumário

1.Região de Desenvolvimento Agreste Meridional…………………………..
03
2. A Colonização da Região do Agreste Meridional…………………………
04
3. Índios Fulniô………………………………………………………………………….
07
4. Vale do Catimbau e Parque da Pedra Furada……………………………..
09
5. Referências Bibliográficas………………………………………………………..
10

1. Região de Desenvolvimento Agreste Meridional

Localizada na mesorregião do agreste pernambucano, a Região de Desenvolvimento do Agreste Meridional é formada por vinte e seis municípios, e tem uma população de 561.940 habitantes distribuídos nas áreas urbana e rural. Conhecida como bacia leiteira do Estado, o Agreste Meridional têm como base econômica a pecuária leiteira com produção de leite e derivados de forma artesanal e industrial, com a perspectiva de crescimento através da chegada de novos investimentos privados na região. Além da pecuária, a agricultura, a floricultura e o turismo são atividades econômicas dinâmicas e empregadoras de mão-de-obra local, cuja População Economicamente Ativa (PEA) é de 251.224 habitantes, sendo 227.316 ocupados.
A RD do Agreste Meridional se diferencia das demais RDs do Estado pelo clima e pelo relevo, o que propicia a diversidade do cultivo agrícola e da floricultura. O escoamento da produção local e o abastecimento da região são feitos pela rodovia BR-232, principal via de acesso ao Agreste pernambucano. As demais rodovias que formam a malha viária são deficitárias e sem manutenção. Dos 26 municípios que formam a RD do Agreste Meridional, Garanhuns concentra o maior número de habitantes (117.749 hab), seguido de Buíque com 49.169 habitantes.
Diante da posição de destaque, Garanhuns representa o pólo econômico ativo da região porque concentra as atividades industriais, do comércio e do turismo, entre elas, o Festival de Inverno que acontece no mês de julho e leva milhares de turistas à cidade. Este evento do calendário turístico aquece a economia local, gera empregos temporários e incrementa às vendas no comércio. Com boa infra-estrutura de hotelaria, restaurantes, bares e cafés, Garanhuns é conhecida como a Suíça pernambucana pelo clima frio no período do inverno, cuja temperatura chega aos 15º C. Garanhuns é também centro cultural da região, abrigando cursos da Universidade Federal rural de Pernambuco, Universidade de Pernambuco, bem como faculdades particulares e centros experimentais de ensino.
Embora tenha grande potencial econômico entre as RDs do Estado como pólo comercial, de turismo, e de beneficiamento de leite, o Agreste Meridional participa com apenas 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) de Pernambuco. O PIB é a soma das riquezas produzidas pelo Estado. Além disso, a região tem infra-estrutura básica deficitária no que se refere ao abastecimento de água e saneamento básico. A taxa de abastecimento de água adequado é de apenas 33,9% das residências, considerada a terceira pior das RDs do Estado.
A falta de infra-estrutura básica se reflete nos índices sociais da região. A taxa de mortalidade infantil é de 39,0 em 1.000 nascidos vivos, considerada a segunda pior das regiões pernambucanas. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é de 0,598, inferior ao de Pernambuco que é de 0,705. Caetés, município do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem o segundo pior IDH do Estado. No quesito educação, a RD do Agreste Meridional tem taxa de analfabetismo de 40,7%, apontada como a mais elevada entre as regiões do Estado.
A maioria dos municípios que formam a RD Agreste Meridional é de base rural e se originaram como distritos de Garanhuns, sendo dependentes economicamente dos repasses do governo federal, através do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) e dos recursos da Previdência Social pagos aos aposentados e pensionistas. A maioria da mão-de-obra desses municípios é absorvida no serviço público, em especial, nas prefeituras e Secretarias Municipais.

2. A Colonização da Região do Agreste Meridional

A povoação efetiva da Região do Agreste Meridional teve início no século XVII, mas já existem registros de organização de expedições à região do Rio São Francisco desde a fundação da Capitania de Pernambuco, em 1534. Duarte Coelho, além de promover a expulsão dos índios Caetés da Aldeia de Marin (futura Olinda), tratou de enviar vaqueiros e soldados de milícia para desbravar a região do São Francisco, de forma que se começa a criar fazendas de gado e vilas.
O próprio rei de Portugal, D. João III, também estava preocupado em garantir a posse da região em questão, quando em 1548 ordenou que Tomé de Souza, Governador Geral, enviasse soldados de milícia para que tomasse posse das terras desbravadas. Também o filho de Duarte Coelho, Duarte de Albuquerque promoveu expedições para a restauração de alguns povoados e para a conquista de índios, campanha esta que durou cinco anos.
Outro fator importante que contribuiu para a interiorização via Rio São Francisco foi a fundação da Capitania de Sergipe Del Rei, por Garcia D’Ávila, da Casa da Torre, em 1573. De acordo com o professor Joaquim Silva, os empreendimentos exploradores desta Casa são responsáveis por boa parte do povoamento da região Nordeste do Brasil, através da expansão da criação de gado e da contração de paulistas para desbravar as terras a serem transformadas em currais de gado e capturar índios – entre eles, o sertanista Domingos Jorge Velho.
De acordo com o professor Osório de Souza Reis, a criação de gado foi o principal fator de interiorização da colônia, cujo movimento foi iniciado em locais próximos a Salvador – uma vez que as primeiras reses foram trazidas por Tomé de Souza – e se expandiu para Sergipe e Pernambuco.
Sobre o modo de vida dos criadores de gado nestas regiões, ainda pouco ou quase nada conhecida. Capistrano de Abreu afirma que não eram os donos das sesmarias que se deslocavam para o interior, mais os escravos e prepostos. A alimentação, rica em carne e leite, carecia de farinha, inicialmente; a coleta de frutas silvestres complementava a dieta dos vaqueiros. Uma das características mais marcantes deste segmento é a chamada “Sociedade do Couro”, na qual todos os utensílios – das cabanas e leitos aos recipientes de comida e água – eram feitos em couro.
Nas proximidades do fim do século XVI, entre 1590 e 1600, a região já estava tão povoada que alguns anos depois, em 1627, já constitui um abastecedor de bovinos para os engenhos de Pernambuco e da Bahia, segundo Frei Vicente do Salvador.
A partir do século XVII, na sua primeira metade, há o estabelecimento da tribo dos índios Cariris na região que hoje é a cidade de Garanhuns e nas cidades em torno – São João, Paranatama, Brejão, Saloá, entre outras. A tribo que ali se estabeleceu, os “Unhanhu”, de corruptela “Garanhu”, fez com que o lugar ficasse conhecido como “Campo dos Garanhu”. Paralelamente a este fato, a Casa da Torre, em 1627, retoma as expedições ao longo do Rio São Francisco, devido aos rumores da existência de minas de prata na região, contribuindo ainda mais para o povoamento da região.
A expansão da criação de gado e a navegabilidade do Rio São Francisco não foram os únicos fatores que explicam e justificam o surgimento de núcleos de povoamento na Região do Agreste Meridional. Na primeira metade do século XVII, um fato contribuiu para o deslocamento de pessoas – escravos e livres – para a região em destaque: o período da dominação holandesa em Pernambuco, que vai de 1630 a 1654. Neste período, muitos proprietários tentaram escapar ao domínio flamengo migrando para o interior; também seus escravos aproveitaram a divergência da atenção dos portugueses para fugir e integrar o já significativo Quilombo dos Palmares. Aliás, a denominação correta seria os Quilombos dos Palmares, uma vez que havia várias comunidades quilombolas, espalhadas desde União dos Palmares (cidade do atual Estado de Alagoas) até o Cabo de Santo Agostinho e as proximidades de Garanhuns. O fluxo constante de escravos africanos para esta região e sua interação com as populações locais constituem um fator importantíssimo para o desenvolvimento e crescimento da região.
Ainda sobre os Quilombos dos Palmares, a maior parte da historiografia brasileira ainda coloca este evento de forma diminuída nos conteúdos ensinados em História do Brasil, de forma que a visão que a maioria das pessoas – e até mesmo historiadores – tem do movimento é bastante distorcido. O senso comum a respeito deste assunto pinta um quadro de um grupo pequeno de escravos fugidos e assustados, vivendo de forma precária em alguma mata obscura na Serra da Barriga. Ao contrário, os integrantes dos quilombos constituíram várias comunidades, algumas delas com mais de mil habitantes – a maior delas, a do Macaco, possuía algo em torno de oito mil membros – sendo a estimativa total de habitantes quilombolas entre dez e trinta mil habitantes. Tinham um comércio baseado em trocas bastante ativo, em que trocavam produtos como milho, fumo, açúcar, batatas por armas, munições e sal em cidades “grandes” para os padrões da época, como Porto Calvo, Serinhaém e Ipojuca. Com a chegada dos holandeses, os portugueses se viram divididos, lutando em duas frentes: no litoral, contra os flamengos, e no interior, contra os palmarinos.
Um outro conceito errôneo sobre os quilombolas reside no fato de que apenas negros habitavam estas comunidades. Na verdade, havia índios, brancos pobres e/ou criminosos, mestiços aproveitando a cobertura das matas para escapar à escravidão, perseguição ou à péssimas condições de vida. Um outro fato interessante são as relações entre quilombolas e vaqueiros que iam desde trocas comerciais a acobertamento de fugas; tal fato também serviu para povoar a região, já que, uma vez findos os principais núcleos de resistência quilombola, muitas comunidades ainda persistiram nos arredores das fazendas de gado, mesclando-se à população local.
As inúmeras expedições que foram empreendidas para a destruição dos quilombos contribuíram para um maior espalhamento das comunidades – já que quando se conseguia destruir uma comunidade, os remanescentes se dirigiam para outros lugares. Além disso, após quase um século de luta portuguesa contra os palmarinos, quando em 1694 as forças lideradas por Domingos Jorge Velho destruíram o principal núcleo dos Palmares, as terras onde se localizavam os quilombos foram doadas em sesmarias, o que sacramentou a ocupação portuguesa na região.
Portanto, por tudo o que foi explanado, pode-se dizer que a Região do Agreste Meridional foi povoada devido a três fatores principais: à proximidade com o Rio São Francisco, a expansão da criação de gado e a existência do Quilombo dos Palmares à pouca distância.

3. Índios Fulni-ô

O município de Águas Belas, desmembrado do município de Buíque, foi criado em 1871. É lá onde se encontra a aldeia do grupo indígena Fulni-ô, palavra esta que significa “povo da beira do rio”. Os Fulni-ô são os únicos índios do Nordeste Brasileiro que mantêm viva até hoje a sua língua nativa, o Ia-tê (Yaathe).
Após a expulsão dos holandeses de Pernambuco os portugueses reorganizaram administrativamente os indígenas da região. É provável que tenha se dado nessa época o aldeamento dos Fulni-ô.
Os Fulni-ô estão organizados em duas aldeias, uma junto à cidade e a outra é a aldeia sagrada onde é realizado o ritual do Ouricuri. Todos são bilíngües e o Iatê é falado principalmente pelos adultos e idosos.
O ritual do Ouricuri é um ritual religioso secreto no qual os Fulni-ô são proibidos de falar sobre o que acontece durante o período do ritual. Porém, algumas informações são de conhecimento público. Os preparativos para o ritual iniciam-se nas últimas semanas do mês de agosto. Os índios mudam-se para a aldeia do Ouricuri e o ritual tem a duração de três meses (setembro, outubro e novembro). Todos os índios do município participam do ritual. Homens e mulheres dormem separadamente. Manter relações sexuais, ingerir bebidas alcoólicas e ouvir música são proibidos. No ritual a língua nativa dos Fulni-ô, o Ia-tê, tem um papel fundamental. É a língua que se fala preferencialmente durante o período do ritual e é, também, onde acontece a socialização dos índios mais jovens com o ensino da língua, mantendo-a viva por gerações.
É indispensável ser filho de pai e/ou mãe Fulni-ô para ter o direito de participar do ritual sagrado. Para eles, a participação no ritual é fundamental para ser considerado um índio Fulni-ô. Por esse motivo, as crianças desde pequenas já participam do ritual.
Os descendentes Fulni-ô são classificados em duas categorias sociais, porém não são considerados parte do grupo. São os remanescentes e os descendentes. Os primeiros são considerados índios pela FUNAI e vivem nas áreas de reserva, os segundos são os filhos de índios e brancos que não participam do ritual.

4. Vale do Catimbau e Parque da Pedra Furada

O Vale do Catimbau é o segundo maior parque arqueológico do Brasil, perdendo apenas para a Serra da Capivara no Piauí, e o terceiro sítio arqueológico indígena do país. Localizado no município de Buíque, tem mais de 150 milhões de anos e 23 sítios arqueológicos, sendo o sítio de Alcobaça o mais importante. A região que abriga diversas cavernas e canyons foi transformada pelo Governo Federal em Unidade de Conservação de Proteção Integral para que seja garantida a conservação da biodiversidade da região.
A presença humana na região é datada de seis mil anos e, de acordo com estudiosos, os grafismos encontrados no Vale foram feitos por diferentes grupos étnicos em diferentes épocas.
Entre os principais atrativos do município de Venturosa estão os sítios arqueológicos Pedra do Tubarão (ou Buquinha), Peri-Peri (ou Morro dos Ossos) e o Parque Municipal da Pedra Furada. O Parque da Pedra Furada abriga vários vales e tem a forma de um “viaduto”. Constitui-se em um bloco de formação granítica de aproximadamente 50 metros de altura, com diversas inscrições rupestres e é utilizado para a prática de rapel.

Referências Bibliográficas:

DIAS, João de Deus O. A Colonização. In: CAVALCANTI, Alfredo Leite. História de Garanhuns. Volume I. Garanhuns: Ipanema, 1968. p. 9-21

DÍAZ, Jorge H. Povos Indígenas de Pernambuco. [S.I.], 1998. Disponível em: <>. Acesso em abril, 2008.

FREITAS, Décio. Palmares – A Guerra dos Escravos. [S.I.]: Graal, 1982. Disponível em . Acesso em 23 abr. 2008.

PERNAMBUCO (Estado). Agência Estadual de Planejamentos e Pesquisas de Pernambuco. Região de Desenvolvimento Agreste Meridional. Recife, 2004. Disponível em: http://www.condepefidem.pe.gov/regiao_desenvolvimento/agreste_meridional/perfil.asp. Acesso em abril, 2008.

______. Vale do Catimbau. Disponível em: . Acesso em abril, 2008.

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Este é mais um trbalho produizdo por aluno. Desta feita, estudante em curso de especialização na Fundação de Ensino Superior de Olinda – FUNESO.

ABERTURA DOS PORTOS: A INFLUÊNCIA DAS DECISÔES POLÍTICAS DO IMPÉRIO NO COTIDIANO E NOS DISCURSOS DE DOMINAÇÃO EM PERNAMBUCO NO SÉC. XIX.

Almir do Carmo Bezerra[1]

1. RESUMO

Nesta pesquisa são analisadas as bibliografias referentes a sociedade do Recife no século XIX. A partir da chegada da família real portuguesa em 1808, procuro fazer uma analogia entre as políticas estabelecidas lá e as conseqüências por aqui. O alcance dos discursos de dominação e sua influencia na vida doméstica, na arquitetura e no comportamento de consumo.

Palavras-chave: Recife no séc XIX; comportamento de consumo e cotidiano.

2. RÉSUMÉ
Dans cet recherche sont fait l’analyse des bibliographies sur la societé des Recife du dix-neufiéme siécle. À partir de l’arrivée de la famille real portuguese en 1808, je cherche fair une analogie entre la politique établie lá et les conséquense ici. L’étendue des discours de domination et son influence dans la vie doméstique, l’architecture et le comportement de consommation.

Mots-clés: Recife dans le 19th siécle; comportement de consommation e quotidien.

3. INTRODUÇÃO

A historiografia oficial aborda a chegada da corte portuguesa ao Brasil e logo a abertura dos portos como acontecimentos isolados, restringindo-os ao Rio de Janeiro. Cidades em pleno crescimento no nordeste, como é o caso do Recife, sofreram grandes conseqüências com as ações políticas de âmbito nacional. Isso insta fazer uma reflexão quanto ao cotidiano, o comportamento de consumo e os discursos de dominação elaborados pela elite recifense.
Na tarde de 7 de Março de 1808, a esquadra do príncipe regente D. João e a família real portuguesa atracava na Baia da Guanabara, no Rio de Janeiro, fugindo das tropas do imperador francês Napoleão Bonaparte. A disparada foi garantida pela marinha mercante inglesa. Com a chegada dessas pessoas ao país ficou evidente a falta de estrutura do Brasil, neste caso o Rio de Janeiro, para um encontro entre mundos tão distintos, a partir disso fica claro nos relatos dos viajantes europeus o despreparo e o anacrônico modo de vida dos brasileiros.
Acredito ter a bibliografia, baseada na documentação histórica, e a cultura material, a partir das escavações arqueológicas, um papel proeminente na justificação de relações de poder. Portanto, o propósito deste artigo é discutir as formas como a documentação e essa tralha doméstica foi utilizada para sustentar discursos de dominação no nível internacional do capitalismo industrial e no nível interno da sociedade brasileira oitocentista.
Esta investigação do papel social da cultura material e de toda dinâmica que envolveu sua utilização pela sociedade pernambucana no século XIX, foi dirigida a fim de se tentar compreender a emergência de um modo de vida burguês antecedendo a instalação da burguesia propriamente dita no país.
Dado o papel determinante desses discursos na estruturação e reprodução das relações sociais, os historiadores encontram-se em uma posição privilegiada para investigar as formas como esse modo de vida instalou-se e disseminou-se por aqui. Considerando que a adoção de um modo de vida por um determinado grupo somente ocorrerá em decorrência de uma conjunção de fatores de ordem econômica, social e política, principalmente, e que deverá ser sustentado por um discurso ideológico que tenha propósitos bem definidos, por isso, cabe questionar aqui qual foi o alcance desse discurso, e de que forma esse modo de vida foi assimilado, rejeitado ou ignorado por diferentes grupos que viviam na emergente Recife do séc. XIX.

4. RECIFE DO SÉC. XIX E O CONTEXTO HISTÓRICO.

Com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, percebeu-se o desmantelamento das estruturas sociais, pois, não só chegaram pessoas, mas valores e uma grande necessidade de utensílios que acompanhavam essas pessoas. Segundo Marins (2001:148) uma multidão chegou ao Brasil, estima-se que mais 15.000 pessoas dentre eles: cortesãos, funcionários, profissionais liberais, negociantes e militares disputavam espaço nas naus superlotadas que partiam de Lisboa.
A fuga da corte foi garantida pelos ingleses a partir de acordos firmados com Portugal, em contrapartida, no dia 1º de Abril de 1808, o príncipe regente declarou a abertura dos portos às nações amigas, ou seja, à Inglaterra, o que valia essencialmente dizer a eles que teriam imensos privilégios no comércio brasileiro; com o estabelecimento da família real, a nova política econômica e a entrada de bens de consumo industrializados da elite européia, há um discurso de dominação e o surgimento de um gênero de vida urbana e burguesa, como atesta Fernandes (1975) apud Symanski (2002:32) que:

“relaciona o surgimento de uma camada aburguesada no Brasil com a organização do Estado Nacional, quando condições econômicas, sociais e políticas propiciaram a uma parcela cada vez maior de senhores rurais sair do isolamento de seus engenhos e fazendas e projetar-se no cenário econômico das cidades e no ambiente político da corte e dos governos provinciais”.

Em Recife, como em outras regiões do Brasil, esses ideais foram inicialmente adotados pela classe dos proprietários rurais, já que a vida social estava permeada predominantemente nos engenhos que ficavam na área rural, em conseqüência das mudanças políticas, econômicas e sociais ocasionadas pelo regime imperial. Esses começaram a sair do isolamento de suas fazendas e a projetarem-se no ambiente cosmopolita burguês, acentuando as diferenças entre a vida rural e urbana em todos os níveis sociais.
Mas a urbanização estava crescendo, não era diferente no Recife, a cidade mais importante da província. Na primeira metade do séc. XIX já existia sistema de transporte de água potável, já que os poços cavados forneciam apenas água salobra. Segundo o viajante inglês Henry Koster[2], que esteve no Brasil no inicio do séc XIX,

“os três bairros da cidade contam, juntos, cerca de 25.000 habitantes ou mais, e crescem rapidamente. Novas casas são erguidas e por toda a parte vêem-se novos alicerces. A população consiste em brancos, mulatos e negros livres, escravos e muitos matizes. (…) O Recife é um lugar próspero, aumentando dia-a-dia em importância e opulência. A prosperidade gozada, em certa medida, pode ser atribuída ao caráter do Governador e capitão-general, Caetano Pinto de Miranda Montenegro.”

Ainda segundo o viajante inglês, Pernambuco, quanto à importância política para o governo português, gozava o terceiro lugar dentre as províncias brasileiras. O Recife crescia não só economicamente como também em expansão, a Vila do Recife, após a saída dos holandeses em 1654, apresentava exigüidade espacial e alto índice demográfico. O processo de desenvolvimento se deu a partir de sucessivos aterros até o ano de 1910, quando se estabeleceu o maior crescimento da ilha do Recife na Reforma Urbana. Várias ruas foram alargadas, casas foram demolidas, sobrados apareciam, morros foram destruídos para preencher os aterros. A evolução gradual das edificações recifenses em função dos aterros sucessivos deveu-se à oferta dos materiais oriundos do próprio solo e áreas próximas, além da chegada de engenheiros e arquitetos vindos do velho mundo, a fim de conceber um toque europeu, ou melhor, parisiense à Veneza pernambucana.

5. DISCURSOS DE DOMINAÇÃO
Através dessas reflexões, questiono quais influencias teriam essas políticas, esse modo de vida burguês e os discursos de dominação em lugares tão distantes, como Pernambuco, do centro irradiador dos modelos e padrões de comportamento das elites brasileira e européia?
A abertura dos portos permitiu a essa sociedade um amplo contato com os paises europeus ocidentais os quais estavam sedentos por novos mercados para despejar seus itens industrializados. Entretanto, para a cultura material do capitalismo industrial ser consumida pela sociedade brasileira era necessário que uma razoável parcela da população estivesse predisposta a adotar uma nova cultura de consumo[3].
O grupo dominante tendeu a obter estilos de vida urbanos e padrões de comportamento cosmopolita; para justificar e se afirmar como tal, essas elites elaboraram discursos para assegurar sua distinção em uma sociedade em rápido ritmo de mudança e para alcançar coexistência com as altas classes dos paises dominantes europeus, conseqüentemente, distanciando-os das classes menos favorecidas.
As emulações do comportamento de consumo[4] e do modo de vida da elite européia eram justificados pelos discursos alocrônicos[5], ridicularizando aqueles que não tinham educação e bons modos suficientes para manusear elementos modernos. Isso demonstra que,

“para os europeus, não era suficiente que as altas classes brasileiras tivessem adotado a cultura material do capitalismo industrial e as praticas com ela associada se tais classes eram inaptas para conduzir essas práticas de acordo com o habito estritamente burguês europeu. Para a visão européia, o que estava em jogo, mais do que as condições econômicas necessárias para possuir esses itens, era a maneira correta (européia) de usá-los”.

De fato, posso mencionar que a aquisição de itens materiais nas sociedades pré-industriais e industriais ocorre, na grande maioria das vezes, através do comércio, como é o caso do Recife neste período, o ato de consumir não é somente comportamento econômico, mas também social, portanto, além dos discursos, “os itens materiais podem atuar como indicadores da filiação social de seus usuários” Symanski (1997:83) e as escolhas de consumo do individuo refletirão os gostos dessa coletividade e servirão para reafirmar sua filiação neste grupo.

6. AS MUDANÇAS NO COTIDIANO E NO ESPAÇO DOMÉSTICO NO RECIFE OITOCENTISTA

Com toda essa reviravolta, no século XIX começa a se perceber algumas mudanças no ambiente doméstico pernambucano, que passou a ser mobiliado com uma infinidade de novos itens. A partir dos estudos de Luis Cláudio Symanski e Tânia Andrade Lima, percebe-se que tais mudanças foram mais intensas em dois recintos na sala de visitas e na sala de jantar. Apesar do apego aos padrões arquitetônicos coloniais, o século XIX trouxe inovações para o exterior e o interior dos lares brasileiros decorrentes da revolução industrial e da abertura dos portos.
A arquitetura residencial urbana brasileira seguia o modelo português, casas espremidas, geminadas, com frente estreita e de grande profundidade. Segundo Gilberto Freyre[6], os principais tipos de habitação urbana no Recife, era o sobrado e a casa térrea. “A peculiar fisionomia dos sobrados recifenses, de quatro ou cinco andares estreitos, formava renques de edifícios altos e apertados, nos quais se dependuravam os balcões[7] de treliças[8], assentados sobre fileiras de grossos cachorros[9] de pedra lavrada” Marins (2001:202). Os sobrados diferiam fundamentalmente das casas térreas por apresentarem o piso assoalhado, enquanto aqueles eram de chão batido. Ficava assim bem definida a diferenciação entre ricos, habitantes dos sobrados, e pobres, que ocupavam as casas térreas. As famílias ocupantes dos sobrados, com dois ou mais andares, habitavam o pavimento superior, prestando o térreo como espaço para o comércio, sendo utilizado como loja, armazém, escritório, depósito ou acomodações de escravos e animais. As antigas casas com suas caracterizadoras eiras e beiras, foram substituídas pelas platibandas por imposição inglesa, fruto da política imperial.
Esse tipo de iluminação foi comum tanto às casas térreas quanto aos sobrados, o que levou o engenheiro francês Vauthier[10], que esteve no Recife na década de 1840, a comentar que “… quem viu uma casa brasileira, viu quase todas” Vauthier (1975:37) apud Symanski (1997:86). As indicações do engenheiro francês corroboram com os relatos de Koster, constatando-se uma alteração da arquitetura, principalmente civil, em direção aos padrões ambicionados pelos membros da corte.

“Notei uma modificação considerável no aspecto do recife e de seus habitantes, embora minha ausência fosse de curta duração. Várias casas tinham sido reparadas e as rótulas, sombrias e pesadas, foram substituídas pelas janelas, com vidros e balcões de ferro. Algumas famílias haviam chegado de Lisboa a três outras da Inglaterra. As senhoras das primeiras davam o exemplo, indo à missa a pé, em plena luz solar, e as damas inglesas tomaram por hábito passear, todas as tardes, por distração” Koster (2003:258).

A iluminação diurna penetrava pelas aberturas dos cômodos frontais e traseiros, enquanto que as alcovas[11] ficavam quase que totalmente às escuras. “Algumas janelas das casas têm vidraças e balcões de ferro, mas a maioria não os possui e os balcões são cobertos de gelosias[12]” Koster (2003:40). A introdução de novos aparelhos de iluminação artificial, tais como lampiões de mecha circular, permitiu uma iluminação muito mais intensa durante a noite do que fornecida pelas tradicionais velas e candeeiros. Esse novo aparato de iluminação noturna alterou significativamente os hábitos caseiros, permitindo à família não apenas modificar o horário das suas refeições, que agora poderiam ser realizados até mais tarde, incentivando, inclusive, as atividades de socialização com convidados externos ao lar.
Mudanças mais importantes ainda surgiram nas mesas burguesas. Como já dito anteriormente, a sala de jantar e a de visitas foram as que sofreram maior mudança. Ocorreu um maior investimento na mobília e em acessórios para o lar, incluindo itens associados à alimentação, tais como facas e garfos, cristais, porcelanas, aparelhos de chá e de café, indicando uma grande elaboração das refeições. Os objetos começaram a ganhar mais sentidos em si mesmos que a sua funcionalidade.

“Na sala de visitas passou a receber um tratamento especial por meio de pinturas nos forros, papeis de paredes e de uns mobiliários mais complexos, compostos por sofás, cadeiras de braços, consolos, aparadores, mesas de mármore, espelhos de moldura dourada, cortinas, tapetes, quadros, vasos e escarradeiras de porcelana, em contraposição aos baús e catres comuns no período colonial”. Symanski (2002:35).

Sobre a sala de jantar o mesmo autor afirma que “esse recinto recebeu um vedo que o transformou na sala de jantar, um espaço de sociabilidade e exibição, cuja mobília passou a simbolizar fortemente o grupo familiar e os valores que deveriam cimentar seus membros: ordem, união, harmonia, coesão”. Henry Koster (2003:60) descreve bem uma situação clara de emulação ridícula em uma de suas experiência nas terras tupiniquins ao ser convidado a passar um Domingo na casa de uma família brasileira residente no Recife.

“Encontramos a família preste a servir-se do seu almoço, café e bolos. Depois jogou-se o gamão e cartas até horas do jantar, às duas da tarde. Esse consistia em grande numero de pratos, postos à mesa sem a menor simetria e cuidado quanto à regularidade do serviço. Surpreenderam-me, como era de esperar, as expansões afetuosas dos convivas, pondo no meu prato pedaços de carne que retiravam dos seus. (…) Somente duas ou três facas estavam na mesa, obrigando cada pessoa a cortar o alimento em pedacinhos e passar a faca ao vizinho. Havia, entretanto, abundancia de garfos de prata e grande quantidade de pratos”.

Portanto, não só os discursos, mas a cultura material mostra claramente a diversidade de elementos consumidos nesse período no Recife. Algumas escavações arqueológicas realizadas na área portuária do bairro do Recife recuperaram parte desse passado que contrasta opulência e dominação, pois, a ritualização das refeições feitas pelos segmentos mais abastados buscavam emular a burguesia européia, mesclando, porém, tais práticas com suas próprias tradições, criando, nas palavras de Lima (1999:215), “… expressões híbridas, marcadas por acentuados contrastes”.

7. CONCLUSÃO

Sei que em um simples artigo não posso estender o quanto o necessário, pois, esse tema merece um rigoroso aprofundamento pela importância quanto a vida cotidiana no Recife durante o século XIX que experimentou grandes modificações perante os jargões do período colonial.
O grupo social que parece ter sido mais intensamente influenciado por esse discurso ideológico foi o das elites urbanas. Elas em sua necessidade de diferenciar-se dos segmentos médios, cada vez mais numerosos, adotou como emblema de distinção a ritualização das refeições, pautada em uma série de regras de etiqueta e normas de comportamento que tinha como suporte os mais variados itens de louça.
Portanto, este artigo abordou as formas nas quais discursos europeus ocidentais foram usados para justificar a exploração econômica do Brasil durante o período imperial logo após a chegada da família real portuguesa. A emergência de uma classe burguesa alterando os costumes das principais cidades, utilizando um discurso poderoso de dominação e emulações do cotidiano europeu.

8. BIBLIOGRAFIA

ETCHEVARNE, Carlos: A reciclagem da faiança em Salvador.Contextos arqueológicos e tipos de reutilização. Revista Clio no. 16. 2006. UFPE. Recife.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. Rio de Janeiro, Zahar, 1975
FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mocambos. Editora Livros do Brasil, 2º edição, 1963.
_______________. Um engenheiro francês no Brasil. V. 2, Rio de Janeiro, José Olympio, 1960.
KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Tradução, Prefácio e Comentários de Luís da Câmara Cascudo. V. 1, 12º ed. Rio – São Paulo – Fortaleza: ABC Editora, 2003.
LIMA, Tânia Andrade. Pratos e mais pratos: louças domésticas, divisões culturais e limites sociais no Rio de Janeiro, século XIX. Anais do Museu Paulista: História e cultura material, São Paulo, 1996.
MARINS, Paulo César Garcez. Através da rótula: sociedade e Arquitetura no Brasil séculos XVII a XX. São Paulo, Humanitas, 1999.
SHACKEL, Paul A. Classical and liberal republicanisms and the new consumer culture. International journal of Historical Archaeology, 1998.
SYMANSKI, Luis Cláudio. Grupos domésticos, comportamento de consumo e louças: o caso do Solar Lopo Gonçalves. Revista de História Regional, 1997.
______________________. (no prelo) Alocronismo e cultura material: discursos de dominação e o uso dos bens materiais na sociedade brasileira oitocentista.
______________________. Louças e auto-expressão em regiões centrais, adjacentes e periféricas do Brasil. Arqueologia da sociedade moderna na América do sul: Cultura material, discursos e práticas. Ed.by Andrés Zarankin e Maria Ximena Senatore. Buenos Aires, ediciones Del Tridente, 2002.

[1] Graduado em História, FUNESO. Aluno do curso de Pós-graduação em História do Nordeste, FUNESO. Aluno matriculado no curso de Mestrado em Arqueologia e Conservação do Patrimônio pela UFPE, bolsista do CNPq.
[2] KOSTER, Henry. Vagens ao Nordeste do Brasil, ABC editora, 12º edição, volume 1, Rio – São Paulo – Fortaleza, 2003, p. 42.
[3] De acordo com Shackel (1998) quando fala sobre cultura de consumo refere-se à criação, durante esse período, de uma ideologia de consumo que tinha como meta gerar uma crescente necessidade por itens industrializados.
[4] Entendo o comportamento de consumo como um sistema de categorias de bens, que pode ser ligado a um determinado grupo social.
[5] Alocronismo tem um significado similar a anacronismo, algo que está fora de seu tempo específico é o oposto de coevo; alocronismo é imbuir um determinado objeto com uma temporalidade passada, negando ao mesmo coevalidade com a nossa sociedade.
[6] Freyre Gilberto. Sobrados e Mocambos. Editora Livros do Brasil, 2º edição, 1963.
[7] Varanda ou sacada com grade e peitoril.
[8] Armação de ripas de madeira cruzadas.
[9] Peça saliente de madeira ou pedra que sustenta a cornija, cimalha ou sacada.
[10] Louis Léger Vauthier, trabalhou no recife entre 1840 e 1846.
[11] Quarto de dormir sem janela para o exterior.
[12] Grade de tabuinhas de madeira cruzadas à intervalos, que ocupa o vão duma janela; também conhecida como rótula.

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Trabalho realizado como avaliação na disciplina de História Moderna II, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

O SABER UNIVERSITÁRIO E AS GUERRAS DE RELIGIÃO NOS TEMPOS MODERNOS (SÉCULO XVI-XVIII)

Grupo: João Dias
José Gustavo
Márcio César
Viviane

RECIFE2008

RECIFE2008
ÍNDICE

1. APRESENTAÇÃO – 1
2. DESMISTIFICAÇÃO DAS GRANDES CONSEQÜÊNCIAS DA REFORMA – 2
3. O DESPERTAR DA CIÊNCIA E DA RACIONALIDADE – 5
4. CIÊNCIA E RELIGIÃO – 7
5. RELIGIOSIDADE E AS UNIVERSIDADES – 9
6. CONFLITO RELIGIOSO – 12
7. PARTICULARIDADES EUROPÉIAS – 13
8. CONCLUSÃO – 16
9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS – 17

1. APRESENTAÇÃO

O saber universitário desenvolvido nos séculos XVI e XVII, impostos geralmente de cima para baixo, tanto nos países ligados às pastorais protestantes quanto católicas, logrou êxito à medida que foi disseminado rapidamente. O povo nesse período, obrigado a adequar-se às novas doutrinas e políticas defendidas pelos reis e príncipes, adotou posições muitas vezes contraditórias e avessas ao interesse real. Interessados na riqueza e bens materiais, os soberanos escolheram para si e para seu povo as doutrinas dos novos evangelistas, transformando-as segundo a realidade do Estado Moderno instituído.

Caracterizado por uma formação conflituosa e contraditória, percebe-se nesses Estados, interesses não-religiosos nos conflitos, como por exemplo, a Guerra dos Três Henriques ou a Guerra dos 30 Anos, na qual o cardeal Richelieu apoiou os luteranos do Sacro Império contra a Espanha católica. Além disso, a produção de conhecimento, sobretudo científico, fica marcada pela emergência de novos raciocínios alheios aos interesses da academia, que passa a sentir diretamente as conseqüências desses conflitos.
Impossibilitados de deslocarem-se em períodos de guerra, os letrados criam novos centros de estudo para atender as novas condições sociais e religiosas impostas, desarticulando assim, os poderes das universidades e dos centros renomados católicos e protestantes. Interessados em uma educação mais laica, esses centros perpetuam-se à medida que o conflito religioso se acentua. Este trabalho procura assim, discutir alguns pontos importantes sobre o fenômeno pós-universitário, delineando aspectos relevantes que permitiram a eclosão das guerras.

2. DESMISTIFICAÇÃO DAS GRANDES CONSEQÜÊNCIAS DA REFORMA

Um dos grandes acontecimentos da era moderna, com certeza foi a Reforma. Mas apesar disso, ela não teve responsabilidade por todas as grandes conseqüências que lhe foram atribuídas. Ela não foi a única construtora do mundo moderno.

As principais conseqüências que lhe são atribuídas são: a ascensão do capitalismo, a revolução científica, o racionalismo, o declínio da magia, a secularização e as origens das liberdades civis.

O Historiador Armesto Fernandez em seu livro Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000, procura mostrar e desconstruir essas conseqüências da Reforma para a construção do mundo moderno.

Inicialmente trata da relação que se atribui ao protestantismo e o capitalismo. Essa associação do protestantismo ao desenvolvimento do capitalismo tem a sua origem precisamente na obra de Max Weber A ética protestante e o espírito do capitalismo, livro este publicado em 1904. Weber acreditava que o espírito do capitalismo era essencialmente religioso; e, ao analisar a Europa durante os séculos XVI e XVII, percebeu que as nações católicas que prevaleceram durante o século XVI (como Portugal e Espanha) passaram a entrar em decadência durante o século XVII enquanto as nações protestantes (como Holanda e Inglaterra) estavam ascendendo e transformando-se nas novas potências mundiais.

Ampliando essa visão podemos ver que a partir do século XVII as principais potências mundiais são essencialmente protestantes e, com o advento da industrialização, chega-se a relacionar a religião puritana com o pioneirismo inglês na Revolução Industrial, como o faz Thompson em seu livro Costumes em comum. Mas deve-se tomar cuidado e verificar se o protestantismo tem essa imensa relação com o capitalismo tal como o afirmou Max Weber e se toda nação protestante (não católica) tende a prosperar. Armesto mostra, por exemplo, que mesmo a Turquia não sendo católica entrou em decadência e um dos seus melhores exemplos refere-se à França que ascendeu mesmo sendo católica.

A idéia advém de que algumas comunidades (como os puritanos) tinham uma relação de desprezo pelo luxo e pela ostentação e assim não gastando seu dinheiro com coisas supérfluas tinham mais fundos para investir e mesmo poupar. Esse ponto de vista não demonstra com veracidade o fato dos acontecimentos. A diferença ocorre porque a acumulação da riqueza por parte dos puritanos se fazia por meio de bens, confinados em suas casas.

Outra questão é a interpretação que se faz do discurso de João Calvino, o qual pregava que Deus abençoava o lucro, sendo uma recompensa do trabalho. Assim, convencionou-se que muitos banqueiros no início da era moderna eram calvinistas cujo exemplo mais forte é a Holanda. Porém, o desprezo pelo luxo e ostentação era típico, primeiramente dos judeus, assim como a questão do lucro, pois eles consideravam a riqueza como uma preferência divina. A cidade de Amsterdã, tipicamente calvinista, era conhecida por possuir edifícios suntuosos e, mesmo os edifícios simples por fora eram bastante luxuosos em seu interior. Afora que um capitalismo comercial já fora praticado (não em proporções globais como a partir do século XVI) por muitos outros povos no passado, e mesmo a Idade Média (por volta do século XII). Conhecida como a Idade das Trevas, ela é responsável pelo surgimento da burguesia, a qual sempre esteve atrelada ao mundo moderno.

Assim a ética protestante não teria como conseqüência a ascensão do capitalismo, mas pode-se afirmar que os protestantes (não pela sua teologia) contribuíram bastante para a consolidação do capitalismo através de sua participação na economia mundial segundo interesses específicos de cada pessoa. Até por que o protestantismo através de um discurso de igualdade e compartilhamento (como foi praticado por alguns grupos como os Quinta-Monarquistas) tenderia naturalmente ao socialismo, bem longe da ética capitalista.

Outra grande conseqüência atribuída à Reforma é que dela originou-se as liberdades civis, assim como o racionalismo, a revolução científica e o declínio da magia. O rompimento feito por Martinho Lutero é muitas vezes levado como uma libertação contra a opressão da Igreja Católica, sendo esta última responsável pela falta de liberdade na produção das descobertas científicas e pela falta de liberdades civis. Então, com este raciocínio alimentado ainda mais com a retratação feita por Galileu Galilei (este reiterava as afirmações de Copérnico a respeito do heliocentrismo) por pressão da Inquisição Católica fez a fama de que o catolicismo recusava realizações científicas. Todavia deve-se destacar primeiramente que a intenção de Lutero não fora de romper com a Igreja Católica, mas reformá-la, modificar alguns pontos seja da fé ou dos dogmas católicos. O rompimento aconteceu assim, não como advento de uma força libertadora, mas como falta de concordância entre o Papa e Lutero. Contudo, Lutero também condenava o heliocentrismo de Copérnico.

Além disso, deve-se ressaltar que os protestantes também foram hostis a muitas descobertas científicas e intolerantes a extensão de direitos civis a católicos (ocorrência recíproca), assim como perseguiram e queimaram muitas bruxas, cientistas etc. E ainda, muitas investigações e descobertas foram feitas em países católicos e, inclusive a universidade de Salamanca na Espanha, foi a única a pôr as teorias de Copérnico nos programas dos cursos no século XVI.
A autoridade da Igreja atenuada pela Reforma, provavelmente criou a ilusão de que a partir dela, a Reforma, há uma pré-condição para uma revolução científica, mas a autoridade religiosa reformada se fazia bastante presente quando se questionava um texto bíblico considerado inquestionável. Então a inovação intelectual aconteceu tanto nos países de fé católica quanto nos de fé protestante. “Se as inclinações religiosas e o método científico estão interligados, só pode ser de uma forma muito geral, através do respeito pela verdade, que é comum aos valores da religião e da ciência.” (FERNANDEZ, 1997, p.381)

O declínio da magia tão atribuído à Reforma fora causado principalmente pelo próprio avanço da ciência que excluiu os objetos ditos mágicos (pata de coelho, por exemplo) que faziam uma fórmula funcionar, e verificou-se, pela observação crítica que nada alterava no efeito. Os rituais foram sendo excluídos, assim como esses objetos mágicos. Isso aconteceu de tal forma que vemos uma evolução da alquimia para a química e da astrologia para a astronomia. A tradição católica – com suas relíquias de santos que intermedeiam a cura entre o fiel e Deus – atribuía um caráter mágico para a ciência e, por a Reforma se posicionar contra esta fé em relíquias disseminou-se a crença de que os protestantes eram contra magia. Que os protestantes eram contra a magia, isto é fato, mas os católicos também o eram (apesar de sua crença em relíquias de santos que iam de cabelos e ossos a objetos usados pelos apóstolos e mesmo por Jesus); e, portanto perseguiram, também, a bruxaria e feitiçaria em geral, isto bem antes da Reforma.

Outra afirmação com relação à Reforma é a de que ela teria promovido as liberdades políticas. “A lógica por trás dessa afirmação é simples: o despotismo e o papismo são aliados naturais; a servidão política é conseqüência da fé escravizada.” (FERNANDEZ, 1997, p.383) A este respeito podemos também tratar da secularização que também é atribuída à Reforma. A primeira coisa é que o protestantismo pregava a submissão da Igreja à autoridade do Estado estando mais perto do Absolutismo político do que de algum tipo de liberdade política. Se isso se deve a alguma passagem bíblica (como o lema do “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, como também a recomendação de Pedro de se sujeitar a toda instituição humana por causa de Deus) cabe a um estudo religioso, mas a questão é que desde os primórdios da Reforma Lutero esteve sob a proteção de Frederico da Saxônia, um cristão que tinha a maior coleção de relíquias do mundo.

Além disso, ao longo dos séculos os protestantes sempre buscaram proteção de alguma autoridade secular para poderem se estabelecer. Mas a própria Igreja Católica ao longo de sua história sempre procurou apoio de Reis para neste caso ampliar seus domínios e seu poder como também aumentar a evangelização. Também esteve abaixo das autoridades seculares de forma espontânea como no caso do Padroado característico dos países ibéricos. Mas claro que houve um aumento considerável da secularização após a Reforma, e este não é de todo um mito, a não ser quando se atribui a sua origem à Reforma. Vale lembrar que esta secularização, iniciada ainda no Renascimento anterior à Reforma, teve suas abordagens ampliadas e é atualmente conhecida nas Igrejas (tanto protestante como católica) como mundanização ou mundanidade. Este conceito leva em consideração a decadência moral, assim como o ateísmo que foram aumentando com o tempo.

Todas essas conseqüências atribuídas à Reforma seriam, no mínimo atenuadas, se se levasse em consideração que a Reforma fora feita no âmbito religioso e não no político ou econômico, apesar de haver tido algumas relações com a política e a economia, mas isso jamais por causa da ética protestante ou mesmo católica, e sim devido à utilização dos ideais defendidos como embasadores desses movimentos. A mentalidade desse período ligava-se diretamente à religiosidade.

3. O DESPERTAR DA CIÊNCIA E DA RACIONALIDADE

O mito de que, o surgimento da racionalidade na Idade Moderna, provocada pelo despertar da ciência, causou uma rivalidade entre religião e ciência não pode mais ser defendido. Na realidade, os cientistas não foram perseguidos como hereges, como se imagina. Hoje, não se pode mais pensar em ciência e religião como abordagens absolutamente opostas e incompatíveis à compreensão das verdades fundamentais acerca do mundo. As religiões só combatiam os estudos que iam de encontro à fé e aos dogmas de cada uma. Às vezes, essas contendas tinham uma conotação mais política, já que os estados absolutistas eram religiosos.

Outro mito, o de que o Catolicismo era a única religião a persegui-los, também se desconstrói, pois os protestantes também perseguiram cientistas. Mas, devido o papel desempenhado pela Inquisição Católica, convencionou-se utilizá-la como foco das perseguições. Roma não rejeitava os aspectos práticos das contribuições científicas, seus membros também se dedicavam ao desenvolvimento científico. Os jesuítas, por exemplo, eram conhecidos pelo seu saber científico e, até mesmo o papa Gregório XIII desenvolveu um calendário que foi adotado por todo o mundo católico, pela Alemanha protestante e a Inglaterra, tal era sua eficiência.

Os cientistas modernos, em sua grande maioria, eram homens religiosos, e não queriam acabar com a fé, demonstrando que as religiões estavam enganadas. Eles só queriam provar que havia outra maneira de explicar os fenômenos naturais, mesmo assim, em uma concepção que não ferisse os princípios de sua crença.

Desta forma, podemos notar a importância que as questões religiosas tinham para os pensadores mais destacados, fornecendo uma motivação geral paras suas pesquisas. Seus estudos foram todos cuidadosamente desenvolvidos de modo a fornecer sustentação às concepções teológicas individuais dos respectivos cientistas. Essa influência teológica exercida sobre os cientistas, fazia com que, entre eles, surgissem algumas divergências, pela razão de basearem suas pesquisas de acordo com pressupostos opostos sobre a providência de Deus.

Nessa época havia duas correntes teológicas que discutiam a providência divina: a corrente voluntarista e a intelectualista. Enquanto a voluntarista defendia que Deus rege o mundo de acordo com a sua vontade, a intelectualista enfatizava a razão de Deus. O voluntarista dizia que nada era capaz de restringir a onipotência de Deus, ao passo que o intelectualista, apesar de acreditar na onipotência de Deus, acreditava que havia algumas verdades eternas ou preexistentes que conduziam Deus a agir de certas maneiras por meio de sua razão. Os voluntaristas supunham que o que Deus decide é bom, já os intelectualistas acreditavam que Deus decide o que é bom. O voluntarista defendia que só era possível descobrir o sistema do mundo empiricamente. O intelectualista, em contraposição, acredita ser possível, pelo menos em certa medida, entender os pensamentos de Deus à maneira dele e assim chegar a uma compreensão racional do mundo.

Essas duas correntes influenciaram de maneira fundamental os estudos desenvolvidos na época, não só de maneira individual, como também grupos de pesquisadores. Um exemplo desses grupos são os cientistas ingleses que, diferentemente dos pesquisadores do continente, davam maior ênfase ao experimento, se ajustando ao voluntarismo.

Os filósofos naturais não se preocupavam apenas com as questões práticas da natureza, eles também almejavam desvendar, na medida do possível, os segredos que envolviam o sobrenatural. Foi por esse motivo que os membros da primeira geração de construtores de sistemas mecânicos se interessaram pela alma humana. Eles afirmaram que sua filosofia mecânica fornecia uma certeza muito maior da imortalidade da alma do que o aristotelismo.

Como os corpos são formados de partículas materiais que ocasionam mudanças ao se redistribuírem ou dispersarem, eles concluíram que a alma racional por ser imaterial era incapaz de mudança sendo, portanto, imortal. Entenda-se por alma racional somente a alma humana.
Isso não significa que havia uma unanimidade entre eles, havia algumas diferenças de detalhes, mas isso estava relacionado com a diferença de perspectiva religiosa.

Voltando à questão dos mitos, existe uma afirmação de que o avanço científico na Inglaterra, no século XVII, foi estimulado pelo puritanismo. Esta afirmação se baseia nas características atribuídas ao puritanismo, entra as quais estava a preocupação com o trabalho socialmente útil como um meio de glorificar Deus e indicar o próprio estado de graça, por exemplo. Mas essa e outras características podiam ser consideradas como relevantes para grupos não-puritanos e, em alguns casos, até para católicos.

Mas também havia um fator que poderia ameaçar os cientistas devotos. Na mesma época que se desenvolveu a ciência moderna, originou-se o ateísmo, e houve um grande temor que ele se disseminasse. Por isso, muitos dos estudos desses cientistas foram associados ao ateísmo. Eles passaram, então, a defender seus estudos, demonstrando que não eram ateus; e através deles tentaram derrotá-lo. Para reforçar essa luta era dito às pessoas que a Natureza era o outro livro de Deus e que o estudioso dedicado dela era semelhante a um sacerdote.

Outra corrente, também devota, foi uma que tentou conciliar a nova filosofia à crença na feitiçaria e nos demônios. Negar Satanás e suas obras eram também negar Deus. Essa corrente foi pouco difundida. Os poucos filósofos naturais discutiam fenômenos sobrenaturais para fugir do ateísmo. Ao se mostrar à realidade do mundo espiritual, evidenciava-se convenientemente o benefício da filosofia mecânica para a religião. A filosofia mecânica mostrou-se útil na guerra contra a irreligião.

Observando todos esses indícios nós podemos perceber que além de não serem inimigas ente si, ciência e religião se ajudaram mutuamente. E, principalmente, que a religião e a teologia desempenharam um grande papel no desenvolvimento científico.

4. CIÊNCIA E RELIGIÃO

A questão dos cientistas no que se diz respeito à religião é visível, por exemplo, no caso de Nicolau Copérnico, que criou uma teoria heliocêntrica do universo, colocando a Terra e todos os outros planetas desse sistema girando em torno do Sol. Essa teoria foi considerada um abuso contra a visão da Igreja Romana de que Deus criou a Terra como o centro do Universo, pois considerava o ser humano como “coroa da criação divina”. Copérnico, ciente de que seria confrontado em vida por sua teoria, somente permitiu que fosse publicada após sua morte.

A teoria copernicana foi melhorada com o passar dos anos por Tycho Brahe, Johannes Kepler e principalmente por Galileu Galilei. Esse último iria enfrentar como ninguém problemas com a Inquisição Romana. Suas observações das fases da lua, em especial sua teoria, hoje comprovada, até mesmo pelos que já foram a Lua, das crateras lunares, e também das manchas e explosões solares foram consideradas espúrias, tendo em vista que a teoria Aristotélica de perfeição dos astros era mesmo confortável para a Igreja comprovar que Deus faz todas as coisas perfeitas.

O fato de também apoiar a teoria copernicana complicou ainda mais Galileu. Suas teorias tiveram que ser abdicadas após a publicação do Dialogo di Galileo Galilei sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano, ou por vezes abreviado para Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo (Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo) completado em 1630 e publicado em 1632, onde voltou a defender o sistema heliocêntrico e a utilizar como prova a sua teoria incorreta das marés. O livro expõe um diálogo entre três personagens, Salviati (que defende o heliocentrismo), Simplício (que defende o geocentrismo e é um pouco tonto) e Sagredo (um personagem neutro, mas que termina por concordar com Salviati). O Papa Urbano VIII acreditou que Salviati era uma paródia de si mesmo e chamou Galileu para o tribunal. Assim, Galileu teve que abdicar suas idéias.

Outro pensador bastante afetado pelas perseguições da Igreja foi Giordano Bruno. Mesmo tendo sido um dos maiores teólogos da Igreja, foi condenado após criar uma teoria da infinitude do Universo, em que incluía também a crença em vidas extraterrenas. Tal teoria foi completamente repudiada pela Igreja Católica, que condenou Bruno à fogueira em 1600.
Outro caso, esse ainda pior, foi o de Miguel Servet. Esse cientista foi perseguido pela Igreja Católica Romana por suas idéias opostas à Trindade Divina, considerando a mesma como uma impostora. Ele foi condenado pelos Romanos, e fugiu pra Genebra, lar dos Calvinistas e de Jean Calvino, que aconselhou Servet a não vir, no que não foi ouvido; e o Conselho de Genebra atribuiu a mesma pena que lhe havia sido daa pela Igreja Romana contra ele, sendo queimado na Praça de Champel a 27 de Outubro de 1553.

No século seguinte a Galileu, as coisas teoricamente ficaram menos complicadas, apesar disso, a oposição da Igrejas continuava forte. Quando Isaac Newton publicou sua Teoria da Gravitação Universal, foi duramente criticado, ainda que ele tenha sido bastante sutil ao afirmar que Deus é quem regia tais leis, inclusive pelo fato de o mesmo Newton ter sido bastante religioso. Aliás, essa era uma tendência muito comum na época, todos os aqui citados eram bastante religiosos, mesmo que não respeitassem as visões da Igreja oficial. René Descartes é um dos maiores exemplos disso. Seu Discurso do Método diz provar a existência divina graças ao fato de existir o pensamento, crendo ele que o pensamento só existe por uma presciência divina (logicamente isso é completamente vago).

Sendo, ao mesmo tempo, religiosos e contra algumas idéias da religião, esses homens foram os precursores do desenvolvimento científico que chegou até os dias de hoje. Apesar disso, como foi dito, eles não queriam destruir a religião, mas sim tentar explicar o mundo com uma dose de ciência, ainda que para isso tivessem que desrespeitar alguns dogmas pré-estabelecidos.

5. RELIGIOSIDADE E AS UNIVERSIDADES

O processo de internacionalismo das ciências no século XVI e XVII, iniciado com a construção de novas universidades e novos centros de saber, voltou-se para atender as necessidades de homens interessados em desligar-se do controle estatal e eclesiástico. Essa iniciativa particular procurava fundar um ensino desligado do controle estatal e eclesiástico direto, fugindo do “supernaturalismo para o secularismo, da teologia para ciência, da esperança do céu e temor do inferno”[1]. Assim, em busca da ampliação de seus conhecimentos além do proposto pelas universidades católicas e protestantes, esses homens interessaram-se em conhecimentos que atendessem a fins práticos e que permitissem a melhoria da vida humana.

A transmissão do saber, oriundo em grande parte do interesse individual de homens que estudavam por conta própria ou custeado por nobres, passa a ser fundamentada e regida por interesses laicos. As bibliotecas se constituíam nos novos centros de conservação do conhecimento e de acumulação da ciência nova que expandia e multiplicava-se tanto nas pastorais católicas e protestantes, como nos centros laicos. A fundação de jornais, bibliotecas, instituições de caridade, escolas acadêmicas e universidades amplamente acessíveis como a de Oxford, Berlim, Londres e França (fundação da Biblioteca Real de Paris) permitiu que houvesse uma disseminação maior de práticas científicas e de ensino laico, cada vez mais procurando fugir dos conflitos religiosos em busca de uma liberdade sem limites.

Will Durant evidencia isso ao relatar que: “Onde a liberdade civil é completa (…), o homem, segundo os ditames da própria consciência, poderá fazer pleno uso de sua religião, sem impedimento para a sua promoção ou emprego do Estado”. Evidencia-se assim, uma das conseqüências tomadas pela secularização do conhecimento, o de permitir uma difusão maior e mais intensa de livros, bibliotecas, jornais, universidades laicas.

Na Alemanha, segundo Durant esse movimento permite a fundação da primeira universidade moderna, caracterizada pelo abandono do escolasticismo, impulso ao ensino da língua vernácula, pela inclusão de cursos científicos e não só de religião no currículo escolar, além de desenvolver uma luta em defesa da liberdade de pensamento de professores e estudantes.

Na França o ensino era dirigido pela paróquia, de forma controladora, onde apesar da permissão para que um professor leigo pudesse lecionar na universidade católica, esse era escolhido e controlado pelo bispo, de modo que houvesse o reforço ao código religioso de moral, censura, austeridade e reclusão em escolas e conventos. Um exemplo conservador desse tipo de instituição é Port-Royal, onde segundo o padre La Salle, a “religião é a essência da educação”.

Apesar do intenso controle exercido pelo Estado e Igreja, algumas instituições conseguem manter reuniões secretas entre cientistas, corroborando assim para a fundação da Académie des Sciences, que segundo Will Durant,tinha a finalidade de “trabalhar para o desenvolvimento das ciências e das artes e procurar, em geral, tudo o que possa ser de utilidade e consciência para a raça humana”.

Na Inglaterra, essas fundações particulares, favorecidas e financiadas pelo governo, buscavam o aperfeiçoamento do conhecimento natural, de forma que ele estivesse acessível a todas as classes – duques, plebeus, burgueses e pobres, estes recebiam isenção de taxas – minando desse modo, o respeito pela universidade e pela igreja oficial.
Vê-se assim, que a principal finalidade desses centros concentrava-se não só no desenvolvimento de conhecimento científico, mas em conhecimento útil à sociedade embasados no interesse de forma uma educação experimental, sem interferência religiosa, na qual prioriza-se a experiência e investigação, evitando assim, discussões de religião e política. Além disso, enquanto na França a Igreja conduzia a educação e a instituição se sujeitava às ordens reais, fortalecendo os laços religiosos e eclesiásticos, na Inglaterra, o processo desenvolveu-se de forma contrária, minimizando a participação dos clérigos e aumentando o poder do Estado recém formado, permitindo que ocorressem melhorias agrícolas, científicas, botânicas e geológicas superiores.

Esse processo de amadurecimento científico vivido pela Inglaterra permitiu que ela se dedicasse a áreas de estudos mais aprofundadas e específicas. Muitos de seus avanços como, por exemplo, nas áreas médicas, foram obtidos pela dissecação de corpos de criminosos e executados, tornando-os repositórios de relatórios clínicos e aperfeiçoamentos técnicos cada vez mais acentuados. Outro, desencadeado pelo secularismo concentra-se na contestação de formas sociais de dominação, onde Defoe não poderia conceber “que o Deus Todo-Poderoso tenha feito as mulheres tão delicadas e tão gloriosas criaturas, dotando-as de tais encantos (…) para serem apenas despenseiras de nossas casas, cozinheiras e escravas”.

O ensino no processo de emancipação, segundo Durant, procura a formação do caráter, da disciplina e da virtude do indivíduo, de forma que dominassem seus desejos. Abandonando-se os ideais defendidos pelo filósofo Locke – a educação era regada por castigos físicos por motivo de má conduta com o interesse de lançar princípios de coragem para suas vidas – a educação firmou-se em um rigor de raciocínio, de modo que estimulasse o raciocínio e criasse criaturas mais razoáveis.

Analisando o ensino no período, Durant afirma que “o problema da educação não é tornar o jovem perfeito em qualquer ciência, mas abrir-lhe e dispor-lhes o espírito, da melhor maneira, para torná-lo apto a qualquer das ciências a que se possa se dedicar”. Assim, ocorre uma maior rejeição às práticas religiosas e teológicas e dedicação em preparar jovens para o futuro.
Essa rejeição é atenuada pela ampliação do conhecimento, em benefício da melhoria da vida humana. Segundo Will Durant, a superstição nesse contexto de guerras religiosas alcança patamares diferentes nas diversas configurações sociais, políticas, ideológicas e religiosas dos Estados Modernos envolvidos no processo de secularização. Na Inglaterra, por exemplo, ocorre um descrédito e abandono de práticas de superstição e feitiçaria, de modo que, “não há necessidade de recorrer a formas inexplicáveis e qualidades ocultas”2. Esse movimento desencadeado pelo advento da ciência moderna, na Alemanha alcança patamar diverso e tardio, onde pode-se verificar na Época moderna a presença de varas mágicas sendo utilizadas para deter hemorragias, curar feridas e recompor fraturas de ossos.

Percebe-se nesse período que as superstições, o ideal de caça às bruxas, o interesse pela astrologia dominavam o íntimo da sociedade nesse período e que em ambas as religiões , em pleno florescimento procuram atuar de maneira inquisitorial, voltando-se agora com olhares altivos e ciumentos, contra o progresso científico que tinha lugar nas faculdades, bibliotecas, observatórios astronômicos, laboratórios de pesquisa, jardins botânicos e criações particulares de animais. Um dos mecanismos de atuação utilizados pela cristandade, tanto católica quanto protestante era a censura das publicações, principalmente de livros.

Isso demonstra como o processo de internalização e internacionalização da ciência e das práticas reformadas eram difíceis e provocavam choques entre os poderes instituídos e o povo. Barradas ou estimuladas segundo as necessidades dos Estados Modernos e a força exercida pela Igreja, na transformação da ciência como instrumento prático para afirmação do poder. Assim, vê-se, que durante os conflitos religiosos existentes, as Igrejas (Católica e protestante), possuíam práticas religiosas e de dominação iguais, no interesse de manter um grupo de pessoas ligadas aos seus dogmas e preceitos.

6. CONFLITO RELIGIOSO

Durante os séculos XVI e XVII, perseguições e guerras forma estimuladas por grupos religiosos que em nome de Deus promoveram a destruição e mortalidade. Percebe-se nesse período que os ideais de guerra, de perseguição e de pecado são acirrados e se apresentam de modo tão radical que devastam novamente o mundo, desta vez em proporções maiores. De um lado configura-se a grande civilização cristã, construída pela Igreja sobre as grandes bases das virtudes de Fé, Castidade, Disciplina e, de outro lado, o mundo que nasceu com os ensinamentos de Lutero e os reformadores. O início do conflito religioso na Europa promoveu assim, o acirramento dos ideais religiosos. Com armas, ambas as “pastorais” dedicam-se à construção na sociedade da “superculpabilização” e do “medo” excessivo.

Além disso, destaca-se que a justificativa para o início do conflito era a repressão das heresias, como se vê nas pastorais católicas e a oposição aos desvios religiosos, característica da protestante. Em vez de se dedicarem à pregação da palavra, a pratica da tolerância religiosa e o ensino, vê-se que dedicam-se a perpetuação de valores políticos e econômicos que se entrelaçam com os interesses das camadas sociais do poder. Uma das formas utilizadas para incutir certos hábitos e praticas, atenuados pelas pastorais eram respaldar-se em ideais bíblicos, permitindo assim que se estruturasse e se consolidasse no século XVIII o Estado Moderno. “As traduções não hesitavam em corrigir as passagens demasiado católicas”, fixando-se em atenuar as hostilidades ao corpo.

Nesse período se percebe que todas as pastorais se esforçavam em “despertar e converter as multidões, compartilhando e afirmando a convicção de que o corpo é de certo modo a prova de nossa corrupção”, evitando imagens demasiado chocantes referentes à morte e decomposição, como por exemplo, as imagens da morte e julgamento. Ao mesmo tempo em que o discurso pretende ser inquietante, também se torna tranqüilizante, expondo a abnegação e o sofrimento como caminho mais seguro para a salvação.

Na França, os conflitos ocorridos são tradicionalmente pela existência de dois grupos rivais, os católicos e os calvinistas. O primeiro, “partido papista”, era formado por membros da família real e por setores da nobreza e do alto clero, que encastelados no poder defendiam o absolutismo a partir do modelo europeu, em que a nobreza e o clero controlavam as estruturas políticas e militares. O grupo calvinista ou “huguenote”, reunia setores da burguesia francesas, alguns nobres, com uma política oposta à da corte, já que estavam fora das estruturas do poder.

Vale ressaltar que o mito de que os calvinistas são contra o absolutismo é errôneo. Eles estavam naquele momento contra o absolutismo exercido pelos católicos, opondo-se a um governo a qual estavam segregados do poder. Os huguenotes reuniam setores importantes da burguesia, em um país onde o desenvolvimento capitalista foi bastante retardado, devido à Guerra dos Cem Anos e a peste, necessitando eliminar as influencias política dos setores tradicionais. Assim, percebemos que apresar de setores da burguesia terem aderido ao calvinismo, a grande maioria permaneceu católica em toda a Europa.

Esses discursos religiosos, entretanto, não expunham com exatidão os reais interesses dos conflitos e das guerras travadas nos períodos. Ao longo do século XVI e XVII, importantes contradições nos permitem perceber os interesses não-religiosos nos conflitos europeus, como por exemplo, a Guerra dos Três Henriques e as Guerras dos 30 anos. A Europa, imersa nessas agitações, se encaminhava para a era das guerras religiosas, movidas geralmente por motivos políticos e econômicas, mais que religiosos.

7. PARTICULARIDADES EUROPÉIAS

INGLATERRA: a Igreja foi formada pelo desejo do rei Henrique VIII que queria se divorciar de Catarina de Aragão para casar-se com Ana Bolena, alegando querer um herdeiro para o trono. Como a Igreja não consentiu, ele fundou a “sua” igreja obrigando o parlamento a aprovar o “ato de supremacia do rei sobre os assuntos religiosos” em 1534. Após excomunhão pelo papa, o rei decreta que padres e bispos sejam presos e decapitados, igrejas e mosteiros arrasados, católicos aos milhares foram mortos. Tribunais religiosos (inquisições) foram montados em todo o país.
Irritados, os camponeses da Irlanda pegaram em armas para defender o catolicismo. Foram trucidados impiedosamente pelos exércitos de Cromwell. Ao fim da guerra, as melhores terras irlandesas foram entregues aos ingleses protestantes e os católicos forçados a migrar para o sul do continente. Cerca de aproximadamente 1.000.000 de pessoas morreram de fome no primeiro ano do forçado exílio. Esta guerra criou uma rivalidade entre ingleses protestantes e irlandeses católicos que dura até hoje, e volta e meia aparecem nos noticiários.

ESCÓCIA: o poder civil aboliu por lei o catolicismo e obrigou que todos aderissem à Igreja “calvinista presbiteriana”. Os padres que escolhessem permanecer na Escócia deveriam escolher outra profissão. Quem fosse encontrado celebrando missa era condenado à morte. Católicos foram perseguidos e mortos, igrejas e mosteiros arrasados, livros católicos queimados. Tribunais religiosos (inquisições) foram criados para condenar os católicos clandestinos.

DINAMARCA: O protestantismo foi introduzido por obra e graça de Cristiano II, que ficou conhecido pelas suas crueldades sob o apelido de “o Nero do Norte”. Encarcerou bispos, confiscou bens, expulsou religiosos e proclamou-se chefe absoluto da Igreja Evangélica Dinamarquesa. Em 1569 publicou os 25 artigos que todos os cidadãos e estrangeiros eram obrigados a assinar aderindo à doutrina luterana. Ainda em 1789 se decretava pena de morte ao sacerdote católico que ousasse por os pés em solo dinamarquês.

SUÉCIA: Gustavo Wasa suprimiu por lei o Catolicismo. Jacopson e Knut, os dois mais heróicos bispos católicos foram decapitados. Os outros obrigados a fugir junto com padres, diáconos e religiosos. Os seminários foram fechados, igrejas e mosteiros reduzidos a pó. O povo indignado com tamanha prepotência pegou em armas para defender a religião de seus antepassados. Os Exércitos do “evangélico” rei afogaram em sangue estas reivindicações.

SUIÇA: O Senado coagido pelo rei aprovou a proibição do catolicismo e proclamou o protestantismo religião oficial. A mesma maldade e vileza ocorreram. Os mártires foram inumeráveis.

HOLANDA: Aqui foram as câmaras dos Estados Gerais que proibiram o catolicismo. Com afã miserável tomaram posse dos bens da Igreja. Martirizaram inúmeros sacerdotes, religiosos e leigos. Fecharam igrejas e mosteiros. A fama e a marca destes fanáticos chegou até ao Brasil. Em 1645 nos municípios de Canguaretama e São Gonçalo do Amarante ambos no atual Rio Grande do Norte cerca de 100 católicos foram mortos entre dois padres, mulheres, velhos e crianças simplesmente porque não queriam se “batizar” na religião dos invasores holandeses. Foram beatificados como mártires em 2001. Em 1570 foram enviados para o Brasil para evangelizar os índios o Pe Inácio de Azevedo e mais 40 jesuítas. Vinham a bordo da nau “S. Tiago” quando, em alto mar, os interceptou o “piedoso” calvinista Jacques Sourie. Como prova de seu “evangélico” zêlo mandou degolar friamente todos os padres e irmãos e jogar os corpos aos tubarões.

ALEMANHA: Na época era dividida em Principados. Como havia muito conflito entre eles, chegaram no acordo que cada Príncipe escolhesse para os seus súditos a religião que mais lhe conviesse. Princípio administrativo do “cujus regio illius religio”. Os príncipes não se fizeram rogar. Além da administração mundana, passaram também a formular e inventar doutrinas. A opressão sangrenta ao catolicismo pela força armada foi a consequência de semelhante princípio. Cada vez que se trocava um soberano o povo era avisado que também se trocavam as “doutrinas evangélicas” (Confessio Helvetica posterior (1562) artigo XXX). Relata o famoso historiador Pfanneri: “uma cidade do Palatinado desde a Reforma, já tinha mudado 10 vezes de religião, conforme seus governantes eram calvinistas ou luteranos”.

8. CONCLUSÃO

No século XVI percebe-se que as tradições nacionais, devido a um quadro geográfico mais dilatado revelam-se bastante diversificadas, pouco ou quase nada havendo de comum entre as histórias produzidas na França, na Inglaterra, na Alemanha etc. A não ser principalmente pelo fato de esse período na Europa ser caracterizada por uma transição das formas feudais e organizacionais de organização par forma primitiva de uma acumulação de capitais.
Os saberes universitários, importantes tanto nos países ligados às pastorais protestantes quanto católicas, lograram êxito à medida que foi disseminado rapidamente, ligado a setores afastados do centro de poder. O povo, excluído do processo de organização do poder, teve que se se adequar às novas doutrinas e políticas defendidas pelos reis e príncipes, muitas vezes através da imposição e por meio de conflitos, na tentativa de incutir na sociedade um novo pensamento e imposição da disciplina, competência e dignidade. Interessados na riqueza e bens materiais, os soberanos escolheram para si e para seu povo as doutrinas dos novos evangelistas, transformando-as segundo a realidade do Estado Moderno instituído.
Caracterizado por uma formação conflituosa e contraditória, percebe-se nesses Estados, como é o caso particular da França e da Inglaterra, que interesses não-religiosos motivaram os conflitos, como, por exemplo, provocando choques entre os católicos e protestantes. A produção de conhecimento, sobretudo científico, fica assim, a serviço dos novos intelectuais interessados em expandir novos raciocínios além dos muros da academia.
A guerra permite assim, a criação de novos centros de poder, de estudos, atendendo as novas condições sociais e religiosas impostas, desarticulando assim, poderes tradicionalistas das universidades e dos centros educacionais católicos e protestantes. Interessados em uma educação mais laica, os novos centros perpetuam-se à medida que o conflito religioso se acentua, procurando assim, discutir alguns pontos importantes sobre o fenômeno pós-universitário, delineando aspectos relevantes que permitiram a eclosão das guerras e da caracterização do Estado Moderno.

9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CORVISIER, André. História Moderna. Difel, 1998.
DURANT, Will. A Era de Luís XIV, tradução de Souza Freitas, 2º ed, Rio de Janeiro: Record, 1994.
HENRY, John. A Revolução Científica e as origens da ciência moderna. Jorge Zahar Editora, 1998.
THOMPSON, E. P. Costumes em comum São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
WILSON, Derek; FERNANDEZ-ARMESTO, Felipe. Reforma: o Cristianismo e o Mundo 1500-2000. Rio de Janeiro: Record, 1997.

[1] DURANT, 1994, p.444

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 01 mai 2008 @ 06 28 AM

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02 de dezembro de 1870



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