24 abr 2008 @ 10:30 PM 

Este é um trabalho apresentado por estudantes do primeiro período do curso de turismo da UFPE. Uma pesquisa simples, mas que traz interessantes subsídios. Mantive o texto integral, inclusive com a parte que não foi cuidada coom maior atenção.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE ARTES E COMUNICAÇÃO
BACHARELADO EM TURISMO
PROFESSOR: SEVERINO VICENTE DA SILVA
HITÓRIA DA CULTURA

MOVIMENTO ARMORIAL

AMANDA VERÍSSIMO
CAMILA NECIANA
CRISTIANE MARTINELLI
EDSON DA SILVA
WILLIAM PEREIRA

RECIFE, 2008.
AMANDA VERÍSSIMO
CAMILA NECIANA
CRISTIANE MARTINELLI
EDSON DA SILVA
WILLIAM PEREIRA

MOVIMENTO ARMORIAL

Trabalho apresentado à disciplina
História da Cultura, da Universidade
Federal de Pernambuco.

RECIFE, 2008.

Olhem pra cultura brasileira,
porque, se a gente não olhar
pra ela, ela vai acabar.”
Ariano Suassuna

RESUMO

Em um momento turvo tortuoso de nossa história, quando o militarismo tomava conta do país, tentando a todo custo controlar e tornar tudo a seu jeito e precedido de um projeto interrompido pela repressão política, nasce um movimento com um desejo incomum de reunir toda a arte de uma região desvalorizada pelas demais e que um dia havia sido fonte de riqueza do país. O Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna, nascido na Paraíba e criado no sertão de Pernambuco, veio para designar toda e qualquer arte que identificasse o Nordeste do Brasil. Tal movimento passeia entre as raízes ibéricas, medievais, entre outras. A Arte Armorial, que vai desde a xilogravura até as literaturas de cordel, carrega consigo o poder de dar identidade a seus criadores, assim como os brasões medievais que definiam a família a qual pertenciam. E assim, sobrevive até hoje, seguindo seu principal objetivo: o Nordeste brasileiro falando para o mundo, mostrando suas raízes, fazendo sua arte e mostrando seu povo guerreiro que tira do sertão sua sobrevivência.

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

FIGURA 1 Xilogravura……………………………………………………………18
FIGURA 2 Folhetos…………………………………………………………………19

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………5

2 MOMENTO HISTÓRICO………………………………………………………………..7
2.1 Evolução Do Movimento Armorial………………………………………………..11

3. A ARTE ARMORIAL…………………………………………………………………….14
3.1 A Música Armorial……………………………………………………………………….15
3.1.1 O primeiro quinteto e a orquestra armorial…………………………………..16
3.1.2 O quinteto armorial…………………………………………………………………….17
3.2 Xilogravura…………………………………………………………………………………..18
3.3 Literatura De Cordel…………………………………………………………………….19
3.4 Arquitetura Armorial……………………………………………………………………21
3.5 Artes Plásticas………………………………………………………………………………22
3.5.1 A cerâmica, a pintura, a gravura………………………………………………….23
3.6 O Cinema E O Balé………………………………………………………………………24

4. ARIANO SUASSUNA…………………………………………………………………….26

5. CONCLUSÃO………………………………………………………………………………..29

6. REFERÊNCIAS……………………………………………………………………………..30

7. APÊNDICE…………………………………………………………………………………….32

INTRODUÇÃO

A ética religiosa ibérica foi determinante na construção cultural do Brasil. O catolicismo ibérico, naturalmente tolerante, preocupava-se mais em converter do que civilizar o Novo Mundo, com faziam os ingleses. A maioria dos colonizadores brasileiros era formado por mestiços, ao passo que havia uma certa tolerância dos cardeais ao relacionamento entre indígenas e portugueses. Houve, portanto, além de uma miscigenação racial uma fusão de culturas de povos distintos.
É a capacidade lusitana de fusionar realidade e fantasia que alimenta a imaginário sertanejo, onde, ter religião significa partilhar um destino, ligar-se ao outro em nome de um mesmo “fado”, aceitando, enfim, a dialética complementar entre a vida e a morte. E é neste cenário imagino-religioso que nasce a Cultura Armorial. Palavra criada por Ariano Suassuna, meio que sério meio que brincando, para designar a cultura de nosso sertão.
O Movimento Armorial se desenvolveu no final dos anos 60, tornando-se um dos pólos mais importantes de criação artística do Nordeste. Teve início no âmbito universitário, mas ganhou apoio oficial da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco. Foi lançado oficialmente, no Recife, no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto e uma exposição de artes plásticas realizados no Pátio de São Pedro, no centro da cidade.
A palavra Armorial significa uma coletânea de brasões da nobreza, de uma nação ou de uma província. Assim, Suassuna fundou sua preferência sobre dois critérios diferentes, talvez opostos. O primeiro motivo é, provavelmente, estético: armorial tem uma ótima sonoridade, é uma palavra que canta, a palavra foi escolhida tanto devido a seu sentido próprio quanto a sua origem, freqüentemente popular, e sua sonoridade. O segundo motivo liga-se, explicitamente, à heráldica, não como referência à nobreza, mas considerando-a numa perspectiva plástica, pois é ligado aos esmaltes da heráldica, limpos, nítidos, pintados sobre metal ou, por outro lado, esculpidos em pedra.
A Cultura Armorial, portanto, é aquela capaz de distinguir e identificar o sertanejo, assim como os brasões e armaduras serviam para identificar famílias nobres na idade média, e tem como principal característica a relação com o espírito mágico dos folhetos dos romanceiros do Nordeste (literatura de cordel), com a xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das artes e dos espetáculos populares ligados a este romanceiro.

MOMENTO HISTÓRICO

Para se entender o Movimento Armorial, se faz necessário que se conheça também o que o antecedeu, pois bem, o movimento que o precede é o chamado Movimento de Cultura Popular (MCP) que se tratava de uma entidade privada que ajudava a promover os artista e intelectuais de Pernambuco e ainda tinha como objetivo de promover a alfabetização com base na arte e na cultura do povo. O MCP, então era um elemento que criava as condições necessárias para o processo de desenvolvimento do movimento popular.
O Movimento de Cultura Popular mantinha relações muito intimas com a política e está notadamente ligada as eleições de Miguel Arraes para a Prefeitura do Recife e posteriormente para o Governo do Estado. O Movimento contava com grandes intelectuais e artistas do cenário Pernambucano, como Ariano Suassuna, Francisco Brennand, Hermilo Borba Filho, Abelardo da Hora entre outros, atingiu também muitos estudantes universitários.
Porém, com o golpe militar de 1964, o MCP acabou se desfazendo, já que alguns de seus lideres e até mesmo o Governador Miguel Arraes foram expulsos.
Alguns remanescentes do MCP voltaram a se reunir e posteriormente criando o Movimento Armorial. A principal diferença entre o movimento de cultura popular e o movimento armorial é que o MCP envolvia uma proposta política e educacional de construção com o povo, enquanto no Armorial a cultura popular é fonte para criações artísticas.
O início dos anos 70 é marcado por um discurso governamental defensor de um governo autoritário e unificador da Nação. O nacionalismo do “Brasil: ame-o ou deixe-o” repercutia na classe média nacional, que vivia o tão conhecido “milagre nacional”. Além de citar números, os governantes elaboravam novas obras como a Transamazônica e a Ponte Rio-Niterói, que mostrava o desejo de transformar o Brasil em um país desenvolvido.
No meio de tanto otimismo, o Nordeste e seus problemas estruturais pareciam divergir da imagem de um país grandioso. Em seu governo, Médici, em visita aos Estados nordestinos, disse: “Vim ver a seca de 70 e vi o sofrimento e a miséria de sempre”; criou então o seu 1º Plano Nacional de Desenvolvimento, que além da “conquista” da Amazônia visava o desenvolvimento do Nordeste. Investindo na integração nacional, Médici aceleraria o projeto da Transamazônica para abafar os importunos nordestinos.
Tantas cifras anunciando otimismo ao país e à economia do mesmo não podiam esconder o clima de tensão que se instaurava sob a atuação inflexível da censura e da repressão. Por não compartilhar desse otimismo, músicas, peças de teatro, filmes e programas de TV sofreram grande repressão sendo censurados por arruinarem a ordem e segurança nacional. Por outro lado, procurava-se incentivar atividades culturais que transparecessem o que era considerado legítima cultura nacional. O Ministro da Educação, Jarbas Passarinho, afirmava que: “nós damos liberdade de criação total”, acrescentando, “só não queremos que ataquem as nossas crenças”. Para dar vida à bandeira nacionalista, a política oficial da cultura recorria, também, às cores nacionais. O futebol, samba e folclore foram chamados para participar dessa cultura otimista da época.
Esse ideal de nacionalidade não era aceito por todos. O pensador católico Alceu Amoroso Lima, comentou que essa formulação de política cultural só estaria colocando cada vez mais a cultura nacional sobre a base de um dirigismo político intolerável sob disfarce de segurança nacional e da censura a qualquer desvio individual ou grupal. A Divisão de Segurança e Informações do Ministério, em contrapartida, criou o documento “Como eles Agem”, denunciando os organizadores de esquerda de usar a cultura e os meios artísticos para fazer uma propaganda contrária ao governo instituído.
Além de todos os problemas, os anos 70 não permitiu as leituras fragmentadas e indignadas da temática da fome, principalmente da região Nordeste, onde a miséria e dificuldades não eram exclusividade de discursos governamentais. Por isso, artistas e intelectuais de todas as classes sociais se pronunciavam para alertar a sociedade brasileira sobre os problemas dessa região. Filmes, livros e peças de teatro centralizavam o enredo em questões como a seca e a fome.
Porém, apesar de todos os seus problemas, o Nordeste exercia uma grande atração pelos seus encantos de uma região rica em cultura popular. Os intelectuais consideravam o Nordeste como celeiro da tradição brasileira. A cultura popular aparecia no processo artesanal, em contrapartida à produção em grande escala da indústria nacional. Foi então que surgiu o Movimento Armorial, em Pernambuco, que pressuponha que a expressão mais autêntica da cultura nacional é a cultura popular e privilegiava a região Nordeste como lugar onde as características puras e definidoras da cultura brasileira se mantiveram ao longo dos tempos.
Ariano Suassuna, fundador e organizador do Movimento Armorial, definiu a arte armorial como: “aquela que tem como traço comum e principal a ligação com o espírito mágico dos ‘folhetos’ do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a Música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus ‘cantares’, e com a xilogravura, que ilustra suas capas, assim como o espírito e formas das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados”. Na visão armorial, o barroco de origem ibérica e a arte popular nordestina são os suportes da cultura nacional. O artista armorial está envolvido com a recriação de elementos ibero/medieval/popular e expressa isso em suas artes.
O filósofo e violinista Jarbas Maciel, também presente no Movimento Armorial e orientado por Ariano Suassuna, dizia que a volta às raízes populares nordestinas, o contato com a música barroca e renascentista, e as constantes medievais (músicas sacras) estão todas conservadas na música nordestina do Sertão, Agreste e da Zona da Mata.
Apesar de sua magnitude, a arte popular brasileira era alvo de descriminações. Para Ariano, os meios oficiais e acadêmicos descriminavam a arte armorial porque nela estavam presentes os elementos negros e vermelhos da cultura brasileira. O escritor sugeriu, então, um caminho de integração, permeando várias fontes culturais, reunindo popular e erudito, buscando e desenhando tradições brasileiras.
Entretanto, a descriminação sofrida pelas realizações armoriais não parecia ser absoluta, já que as mesmas foram incentivadas pelo governo municipal do Recife, na administração do prefeito Antônio Farias. Foi então que Ariano aceitou o convite para o cargo de Secretário Municipal da Educação e Cultura, onde desenvolveu vários projetos artísticos, como a formação de uma Orquestra Armorial Brasileira e um grupo de dança armorial, a restauração do Mercado de São José e isenção de impostos aos poetas populares, já que ele definia a literatura de cordel como a expressão fundamental da cultura brasileira.
Para Suassuna, era voltando-se para as origens e para o passado que a cultura expressaria sua singularidade, por isso contrapunha-se às influências estrangeiras que dizia estarem presentes nos movimentos artísticos da época. Isso gerou críticas, pois era dito que os pensadores armoriais se negavam a receber influências internacionais em sua obra, mas não se negavam a buscar nelas as influências do passado.
Nem tudo que era estrangeiro era considerado “estranho” ao Movimento Armorial. A influência ibérica era relacionada, para eles, com o que consideravam “fósseis” culturais encontrados na música armorial, como a influência moura/árabe.

EVOLUÇÃO DO MOVIMENTO ARMORIAL

A evolução do Movimento Armorial permite a divisão de três momentos ao longo de sua história: o Experimental, o Romançal e o Arraial.

1ª- Fase Experimental – 1970 a 1980
Quando o movimento foi lançado, Ariano Suassuna era diretor do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco, e reuniu em torno de suas idéias artistas que, hoje, estão consagrados e que ainda seguem em suas obras a linha do movimento.
Na pintura e na cerâmica, destacaram-se Francisco Brennand e Miguel dos Santos. A Pintura Armorial deveria ter o espírito mágico e poético do romanceiro e das xilogravuras, que têm como peculiaridade um desenho forte e grosseiro, como herança da cultura popular. Tendo semelhança com os brasões, bandeiras e estandartes dos espetáculos populares nordestinos, tendo ligação com a cerâmica e a tapeçaria.
A Gravura Armorial se inspira nas capas nas capas de folhetos, que tem sua origem nas raízes nordestinas, assim como a xilogravura faz uso da madeira, e faz um contorno preto em volta das figuras, que se destaca nos espaços brancos. O gravador do Movimento Armorial é Gilvam Samico.
O escultor Fernando Lopes da Paz traz em seu trabalho o espírito apocalíptico, vindo da tradição da literatura de cordel, da leitura de livros proféticos e do contato com escritores e poetas armoriais. Esse segmento da Cultura Armorial utiliza materiais como madeira e pedra.
Partindo dos romances, das histórias trágicas ou picarescas da literatura de cordel faz-se o Teatro Armorial. Todas as peças escritas pelo fundador do movimento são armoriais. Quanto ao cinema, a única produção do Movimento Armorial na fase em questão, foi o filme ‘A Compadecida’ em 1969. A obra, escrita por Suassuna, era um filme que tinha que ser marcado pelo meio épico, festivo e espetacular do teatro popular nordestino.
Durante a primeira fase, não havia nada de concreto no campo da dança, assim como no campo da arquitetura do movimento, que deveria se caracterizar como a descrição a seguir, por Ariano Suassuna:

Sonho com uma arquitetura civil e religiosa brasileira, a qual partindo do
bom-senso meio mouro e chão da arquitetura das casas, desse salto maior para o divino, com florestas de pedras, colunas de arenito retorcida em forma de troncos vegetais, dividindo fachadas e espaços revestidos de azulejos e cerâmicas, com linhas curvas, cariádites de pedra, algo que se lançasse tortuosa e triunfantemente para o alto, através do maciço, do pesado e do irregular, exatamente como faz a alma humana que ‘compensa a rotina com a Poesia e a exatidão com a Loucura. ’

Já a Literatura Armorial, conta com poetas como Ângelo Monteiro, Janice Japiassu e Marcus Accioly, além de escritores como Raimundo Carrero, Maximiano Campos e, claro, Ariano Suassuna. Todos esses nomes se inspiraram no espírito e na forma de romanceiro popular nordestino.
Na Música Armorial, os mensageiros do movimento foram: a Orquestra e o Quinteto Armorial. O último executava músicas de Capiba, Guerra Peixe, Antônio Nóbrega e Antônio José Madureira.

2ª- Fase Romançal – 1980 a 1995
A respeito da segunda fase, não há registros em livros como na primeira fase. Período em que Ariano Suassuna é nomeado Secretário de Cultura do Recife, e funda o Balé Armorial que tem uma curta duração, e em seguida funda o Balé Popular do Recife, que existe até hoje, dirigido por André Madureira. As tapeçarias, nessa fase, têm seus desenhos criados pelo idealizador do projeto e são bordados por tapeçarias de Taperoá. Nessa mesma época tem fim o Quinteto Armorial, e a formação da Orquestra Romançal Brasileira, que em última instância, tornou-se o Trio Romançal.

3ª- Fase Arraial – 1995 até hoje
É marcada pela presença de Ariano à frente da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco. Na atual fase, se fazem presentes artistas como o escultor Arnaldo Barbosa, os pintores Dantas e Zélia Suassuna (filho e esposa de Ariano), Romero de Andrade Lima que é artista plástico e diretor da Trupe Romançal de Teatro, que, no ano de 1997, encenou uma versão de Romeu e Julieta escrita pelo criador do movimento.
E Antônio Nóbrega, que durante a primeira fase era violonista/rabequeiro e um dos compositores do Quinteto Armorial, e que agora faz sucesso como um multiartista. Já Antônio José Madureira, que era músico, compositor e coordenador do Quinteto Armorial, coordena agora o Quarteto Romançal.
Na dança, Ariano Suassuna criou o Grupo Grial de Dança, que apresentou o espetáculo ‘A Demanda do Graal Dançado’ durante um mês. Ele também fundou o Grupo Arraial Vias da Dança, que com o espetáculo ‘Pernambuco do Barroco ao Armorial’, prestou uma bela homenagem ao compositor Capiba. Dois elementos ligados ao Movimento Armorial, foram também criados neste terceiro momento: o Teatro Arraial e o Espaço Ilumiara Zumbi, para apresentações de grupos populares, localizado em Olinda, em frente à sede do Maracatu Piaba de Ouro e residência do Mestre Salustiano.

A ARTE ARMORIAL

A arte armorial está inserida em um movimento, com o objetivo de criar uma arte erudita a partir da cultura popular nordestina brasileira. Dentro da arte armorial temos elementos como: música, dança, literatura, artes plásticas, xilogravura, arquitetura, cinema, entre outros.
Mas além desses elementos, a arte armorial dá muita importância aos espetáculos populares do Nordeste, encanados ao ar livre, com personagens míticas, cantos, roupagens principescas feitas a partir de farrapos, músicas e animais misteriosos. Tudo isso está presente no ‘Romance d’Pedra do Reino’, um dos principais livros do Movimento Armorial, escrito por Suassuna.
O mamulengo ou teatro de bonecos nordestino também é fonte de inspiração para a arte armorial, que a partir desse elemento, procura além da dramaturgia, um modo brasileiro de encenação e representação.

A MÚSICA ARMORIAL

Ariano Suassuna atestou que o movimento por ele liderado tinha como base o barroco de origem ibérica e a arte popular nordestina. Segundo Suassuna o nome ‘armorial’ servia também para qualificar os cantares dos Romanceiros, os toques de viola e rabeca dos cantadores. Assim, os cantares nordestinos era uma das fontes principais da musica armorial.
A música foi uma das expressões artísticas do movimento que teve maior repercussão nacional. De início com uma Orquestra de Câmara e depois com o Quinteto Armorial, integrantes do movimento viajaram por regiões do Brasil divulgando uma “música erudita brasileira baseada nas raízes populares”.
O estilo armorial caracterizou-se pela investigação e recuperação de melodias barrocas preservadas pelo romanceiro popular, dos sons da viola, dos aboios e das rabecas dos cantadores. Com base nesses elementos, o movimento armorial realizava a sua “recriação”. Na ótica Armorial, o resgate do passado era a garantia para a realização de uma cultura autêntica cultura brasileira.
Segundo Cussy de Almeida “a música armorial busca refletir a cultura autêntica”, o que quer dizer que é formada na base popular da cultura nordestina sem nenhuma influência exterior.
Estabelecendo o vinculo com um certo passado, a pesquisa da música armorial relaciona o barroco com raízes nacionais e o define como traço forte de inconsciente musical do Brasil.
Eram realizados estudos dos sons dos instrumentos populares, procurando-se associa-los aos sons dos instrumentos eruditos. Procuravam-se no passado e na tradição medieval as raízes populares, por exemplo, descobriu-se uma ligação entre a viola sertaneja com o cravo era um instrumento da música barroca.

O PRIMEIRO QUINTETO E A ORQUESTRA ARMORIAL

Os primeiros trabalhos datam de 1959. Reunidos em torno de Suassuna, estavam os integrantes do primeiro grupo que são ele: Jarbas Maciel, Capiba, Cussy de Almeida, Clóvis Pereira e Guerra Peixe. As primeiras composições são um galope (de Guerra Peixe), uma peça para violino e viola (Capiba) intitulada “Sem lei nem Rei”, um cavalo-marinho (de Jarbas Maciel, Cussy de Almeida e Clóvis Pereira), baseado em temas populares gravados por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco.
O primeiro quinteto é fundado entre o final da década de 1960 e início dos anos 70, e surge a partir dos moldes do conjunto popular chamado ‘terno’, que inclui duas pequenas flautas, os pífanos, dois violinos rústicos e as rabecas, por adaptação para o quinteto, compreende, portanto, duas flautas, um violino, uma viola de arco, além da percussão que lembra o zabumba da música popular. Integram este quinteto: Cussy de Almeida (violino), Jarbas Maciel (viola), José Tavares de Amorim (flauta), Rogério Pessoa (flauta), José Xavier (percussão).
Em 1970, Cussy de Almeida, no Conservatório de Música de Pernambuco, funda uma orquestra de cordas, intitulada “Orquestra Armorial de Câmara” integrando os membros do quinteto. A orquestra dá seu primeiro concerto público em 18 de outubro de1970, na Igreja São Pedro dos Clérigos, no Recife, desse modo participa do lançamento oficial do Movimento Armorial.
Na primeira parte do programa, foram apresentados músicas barrocas de Luís Álvares Pinto e José Lima (compositores pernambucanos do século XVIII), na segunda parte, foram apresentadas composições desse primeiro quinteto, que utilizavam elementos musicas populares do bumba-meu-boi, maracatu e pastoril.

O QUINTETO ARMORIAL

O quinteto forma-se e transforma-se em função dos encontros com jovens músicos que conheciam instrumentos típicos, até sua formação definitiva. Antônio José Madureira iniciava-se na viola nordestina, Edílson Eulálio, no violão e com Antônio Carlos Nóbrega no violino. Madureira organiza o novo quinteto que contava com ainda dois “antigos” – Jarbas Maciel e José Tavares de Amorim – nas flautas.
Em 26 de novembro de1971, o Quinteto Armorial, provisoriamente, transforma-se em quarteto, por causa da saída de Jarbas Maciel, dá se concerto inaugural na Igreja do Rosário dos Pretos. O programa desse concerto permite compreender a orientação do quinteto, um primeiro momento dedicado à música barroca européia, na segunda parte, o barroco brasileiro se faz presente e numa terceira parte, propriamente armorial com composições de Madureira.

XILOGRAVURA

Gravura talhada em madeira, de onde se obtém ilustrações populares. Desde o século XIX, é muito utilizada nas capas de folhetos da literatura de cordel. É também usada nos rótulos de garrafas de cachaça e outros produtos.
Apesar de não se saber muito sobre a sua origem, acredita-se que a xilogravura popular nordestina tenha sido trazida por missionários portugueses que ensinaram a técnica aos índios.
As matrizes para a impressão são talhadas, quase sempre, na madeira da cajazeira, um tipo de madeira mole, sendo assim, fácil de ser trabalhada, além de ser abundante no Nordeste brasileiro. Para se talhar a gravura, o xilogravurista faz-se de uso de apenas um canivete ou de uma faca doméstica, contanto que estejam bem amolados.
Nas décadas de 60 e 70, alguns intelectuais e pesquisadores passaram a publicar uma série de álbuns com gravuras feitas por artistas populares nordestinos. Com isso, a xilogravura ganhou o status de arte, além de projeção nacional e internacional. Entre esses álbuns podem ser citados: ’20 xilogravuras do Nordeste’, de Evandro Rabello, em 1970, com apresentação de Ariano Suassuna; ‘Transporte na zona canavieira: vinte e uma xilogravuras’, de José Costa Leite, com apresentação de Mário Souto Maior; ‘Xilografia: poema de Marcus Accioly’, gravada por José Costa Leite.
Entre os xilogravuristas mais conhecidos, que deram a sua contribuição para a xilogravura nordestina, estão Manoel Serafim, Inocêncio da Costa Nick, o Mestre Noza, Zé Caboclo, Enéias Tavares Santos, entre outros. E alguns poetas populares também se dedicaram a preparar as matrizes de madeira para ilustrar seus próprios folhetos como: José Martins dos Santos, Cirilo, Damásio Paulo Valderedo, José Costa Leite. Este último usava quicé ou caxirenguengue, faca velha imprestável e/ou sem cabo para talhar suas xilogravuras.

LITERATURA DE CORDEL

A literatura de cordel é assim chamada pela forma como são vendidos os folhetos, dependurados em barbantes (cordão), nas feiras, mercados, praças e bancas de jornal, principalmente das cidades do interior e nos subúrbios das grandes cidades. Essa denominação foi dada pelos intelectuais e é como aparece em alguns dicionários. O povo se refere à literatura de cordel apenas como folheto.
A tradição dessas publicações populares, geralmente em versos, vem da Europa. No século XVIII, já era comum entre os portugueses a expressão literatura de cego, por causa da lei promulgada por Dom João V, em 1789, permitindo à Irmandade dos Homens Cegos de Lisboa negociar com esse tipo de publicação.
Esse tipo de literatura não existe apenas no Brasil, mas, também, na Sicília, na Espanha, no México e em Portugal. Na Espanha é chamada de pliego de cordel e pliegos sueltos (folhas soltas). Em todos esses locais há literatura popular em versos.
São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.
A história da literatura de cordel começa com o romanceiro luso-espanhol da Idade Média e do Renascimento. Inicialmente, eles também continham peças de teatro, como as de autoria de Gil Vicente (1465-1536).
Na segunda metade do século XIX começaram as impressões de folhetos brasileiros, com características próprias daqui. Os temas incluem desde fatos do cotidiano, episódios históricos, lendas , temas religiosos, entre muitos outros. As façanhas do cangaceiro Lampião e o suicídio do presidente Getúlio Vargas são alguns dos assuntos de cordéis que tiveram maior tiragem no passado. Não há limite para a criação de temas dos folhetos. Praticamente todo e qualquer assunto pode virar cordel nas mãos de um poeta competente.
No Brasil, a literatura de cordel é produção típica do Nordeste, sobretudo nos estados de Pernambuco, da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Costuma ser vendida em mercados e feiras pelos próprios autores. Hoje também se faz presente em outros estados, como Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. O cordel hoje é vendido em feiras culturais, casas de cultura, livrarias e nas apresentações dos cordelistas.
No entanto, este tipo de literatura apresenta vários aspectos interessantes e dignos de destaque:
As suas gravuras, chamadas xilogravuras, representam um importante espólio do imaginário popular;
Pelo fato de funcionarem como divulgadoras da arte do cotidiano, das tradições populares e dos autores locais, a literatura de cordel é de inestimável importância na manutenção das identidades locais e das tradições literárias regionais;

ARQUITETURA ARMORIAL

A arquitetura armorial se caracteriza da forma descrita a seguir, com palavras do próprio Suassuna:

Sonho com uma arquitetura civil e religiosa brasileira, a qual partindo do
bom-senso meio mouro e chão da arquitetura das casas, desse salto maior para o divino, com florestas de pedras, colunas de arenito retorcida em forma de troncos vegetais, dividindo fachadas e espaços revestidos de azulejos e cerâmicas, com linhas curvas, cariádites de pedra, algo que se lançasse tortuosa e triunfantemente para o alto, através do maciço, do pesado e do irregular, exatamente como faz a alma humana que ‘compensa a rotina com a Poesia e a exatidão com a Loucura. ’

ARTES PLÁSTICAS

Estão no centro do movimento e forma a base das primeiras experiências e pesquisas, de onde Ariano Suassuna tirou a sua definição de armorialidade. No lançamento do Movimento em 1970, além de um concerto houve também a primeira exposição de Arte Armorial, a segunda apresentação ocorreu em 1975, quando ocorreu o primeiro concerto da Orquestra Romançal Brasileira, com exposições de gravuras de Gilvan Samico.

A CERÂMICA, A PINTURA, A GRAVURA

A relação com a arte popular mostra-se de modo diferentes segundo os artistas, para Francisco Brennand está ligada à cerâmica popular. A tradição da cerâmica popular está fortemente implantada em Pernambuco. Esta escultura popular em barro expressa imagens de um universo mítico e cotidiano conta vida e os sonhos, traduz uma cultura, com suas figuras de boi, cavalo, de padres e de vaqueiros, dos violeiros, dos músicos populares.
Desde suas primeiras modelagens, Brennand desenvolve pesquisas que transforma completamente a dimensão e o sentido desta cerâmica inspirada no popular.
Em relação à pintura, Ariano definiu três elementos fundamentais:
1º- A ligação entre o espírito mágico e poético do romanceiro, da xilogravura;
2º- A semelhança com os brasões, bandeiras e estandartes do espetáculos populares, ou seja, a dimensão emblemática.
3º- A complementaridade das expressões artísticas, por exemplo, as gravuras se encontrariam e se interpretariam nos folhetos.
As gravuras de Gilvan Samico influenciaram consideravelmente Ariano Suassuna em sua posição teórica da pintura no Movimento. Samico inspira-se na gravura popular, suas gravuras estão povoadas de monstros e animais lendários, que tem origem nos folhetos ou nas tradições bíblicas, frequentemente popularizadas, ou de bichos que pertencem à vida cotidiana do homem do sertão.

O CINEMA E O BALÉ

Apesar da distância cronológica e da mudança do modo de expressão tanto a realização cinematográfica de A Compadecida (1968) quanto a formação do Balé Armorial do Nordeste (1976), trata-se, para Suassuna, de atingir o espetáculo total, integrando a cultura popular e letrada.
O cinema não podia deixar de atrair Suassuna, que o considera como uma arte “épica” por natureza. Ariano chegou a analisar o que poderia ser este “cinema nordestino”:

Falei, sobretudo, na minha convicção de que um cinema épico nordestino, de “cangaço”, tinha mais possibilidade artística do que o americano de “faroeste”. Minhas idéias vinham naturalmente de minhas reflexões sobre o teatro nordestino. Eu achava que os espetáculos populares do Nordeste poderiam ao teatro e ao cinema as roupagens imaginosas e os mitos que lhes dariam o espírito realmente brasileiro.

O sertão exerceu um grande fascínio no chamado Cinema Novo, talvez o mais fecundo da história do cinema brasileiro, um grande nome desse movimento cinematográfico Glauber Rocha dedica a quase exclusividade de sua obra ao sertão paisagem, as seus homens e mito: Deus e o diabo na terra do sol, o dragão da maldade sobre o santo guerreiro, Antônio das mortes, etc. Mais tarde curtas-metragens, documentais, ficções, retomaram essa linha, porém com perspectivas diferentes, com os de Vlademir Carvalho com o ‘O país de São Saruê’ que dá uma imagem exata, violenta, e ameaçadora do sertão e segundo, Ariano Suassuna, a épica sertaneja deve fixar como o ‘país de São Saruê’ fixou, a épica cotidiana do povo malogrado pelas dificuldades e injustiças, e épica dos senhores malogrados pelo tempo.
Suassuna contesta a expressão “pequena epopéia malograda”, para ele, se a epopéia cotidiana do sertão é pobre, com heróis que sofrem e adquirem uma dimensão épica, pela sua obstinação em sobreviver nas adversidades do sertão, ela não pode ser pequena. E por ser malograda ainda mais bela, já que o infortúnio comove mais do que os happy ends.
Suassuna participa ativamente do 1º ciclo de debates sobre o Cinema do Nordeste, organizado em 1966, pela Universidade Federal de Pernambuco.
Com uma perspectiva muito semelhante de espetáculo, condiciona as tentativas de criar um balé nordestino, síntese de dança e de musica, misturando a tradição com inovação.
Sob a marca da união popular-erudito e com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura da Cidade do Recife, surgi o Balé Armorial, a bailarina clássica Flávia Barros dirigiu e coreografou o balé, mas, é claro, sob a orientação de Ariano Suassuna.
O trabalho da dança armorial, calcado na técnica do balé clássico, tentava revelar as tradições populares do Nordeste. Suassuna justifica o surgimento do balé pela necessidade de se realizar em estudos sobre a dança e os espetáculos populares nordestino.
O projeto era utilizar as técnicas do balé clássico pra apresentar a dança popular nordestina, formando, assim, um balé que expressasse a dança nacional, sem repetir as formas européias clássicas nem enveredar pela estilização do folclore.
Apesar de a imprensa local ter aclamado o Balé Armorial, cuja estréia ocorreu no Teatro de Santa Isabel, no Recife (18 de junho de 1976) o escritor e idealizador não se sentiria contemplado com a experiência. Para ele, a fusão ente as tradições populares e as técnicas clássicas não existiram.
Por problemas de instabilidade emocional dos bailarinos, o Balé Armorial se extinguiu. Ariano passou a incentivar um grupo experimental de dança não mais armorial, que viria a ser conhecido como Balé Popular do Recife.

ARIANO SUASSUNA

Dramaturgo, romancista, poeta, ensaísta, defensor incansável da cultura popular, das raízes brasileiras e, especialmente nordestina, Ariano Vilar Suassuna nasceu em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa (PB), em 16 de junho de 1927, filho de Rita de Cássia Dantas Villar e João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna. No ano seguinte, seu pai deixa o governo da Paraíba e a família passa a morar no sertão, na Fazenda Acauhan. Com a Revolução de 30, seu pai foi assassinado por motivos políticos no Rio de Janeiro e a família mudou-se para Taperoá, onde morou de 1933 a 1937. Nessa cidade, Ariano fez seus primeiros estudos e assistiu pela primeira vez a uma peça de mamulengos e a um desafio de viola, cujo caráter de “improvisação” seria uma das marcas registradas também da sua produção teatral. A partir de 1942, passou a viver no Recife, onde terminou, em 1945, os estudos secundários no Ginásio Pernambucano e no Colégio Osvaldo Cruz. No ano seguinte iniciou a Faculdade de Direito, onde conheceu Hermilo Borba Filho, que o apresentou a Garcia Lorca, poeta e teatrólogo espanhol que influenciou muito a formação de escritor de Ariano e morreu na época da ditadura de Franco em 1936 por seu ideal socialista e tendência homossexual. Junto com Hermilo, fundou o Teatro do Estudante de Pernambuco. Em 1947, escreveu sua primeira peça, ‘Uma Mulher Vestida de Sol’, baseada no romanceiro popular do Nordeste brasileiro e com ela ganhou o prêmio Nicolau Carlos Magno, no ano seguinte. Em 1948, sua peça ‘Cantam as Harpas de Sião’ (ou O Desertor de Princesa) foi montada pelo Teatro do Estudante de Pernambuco. ‘Os Homens de Barro’ foi montada no ano seguinte Em 1950, formou-se na Faculdade de Direito e recebeu o prêmio Martins Pena pelo ‘Auto de João da Cruz’. Para curar-se de doença pulmonar, viu-se obrigado a mudar-se de novo para Taperoá. Lá escreveu e montou a peça ‘Torturas de um Coração’, em 1951. Em 1952, volta a residir em Recife. Deste ano a 1956, dedicou-se à advocacia, sem abandonar, porém, a atividade teatral. São desta época ‘O Castigo da Soberba’ (1953), ‘O Rico Avarento’ (1954) e o ‘Auto da Compadecida’ (1955), peça que o projetou em todo o país e que seria considerada, em 1962, por Sábato Magaldi “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Em 1956, abandonou a advocacia para tornar-se professor de Estética na Universidade Federal de Pernambuco. No ano seguinte foi encenada a sua peça ‘O Casamento Suspeitoso’, em São Paulo, pela Companhia Sérgio Cardoso, e ‘O Santo e a Porca’; em 1958, foi encenada a sua peça ‘O Homem da Vaca’ e o ‘Poder da Fortuna’; em 1959, a obra ‘A Pena e a Lei’, premiada dez anos depois no Festival Latino-Americano de Teatro. Em 1959, em companhia de Hermilo Borba Filho, fundou o Teatro Popular do Nordeste, que montou em seguida a ‘Farsa da Boa Preguiça’ (1960) e ‘A Caseira e a Catarina’ (1962). De 1975 a 1978 foi Secretário de Educação e Cultura do Recife. Em 1976, defende a tese de livre-docência ‘A Onça Castanha e a Ilha Brasil: Uma Reflexão sobre a Cultura Brasileira’ e doutora-se em História pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1976. Foi professor da UFPE por 32 anos, onde ensinou Estética e Teoria do Teatro, Literatura Brasileira e História da Cultura Brasileira até se aposentar em 1994. Membro fundador do Conselho Federal de Cultura (1967); nomeado, pelo Reitor Murilo Guimarães, diretor do Departamento de Extensão Cultural da UFPE (1969). Ligado diretamente à cultura, iniciou em 1970, em Recife, o “Movimento Armorial”, interessado no desenvolvimento e no conhecimento das formas de expressão populares tradicionais. Convocou nomes expressivos da música para procurarem uma música erudita nordestina que viesse juntar-se ao movimento, lançado em Recife, em 18 de outubro de 1970, com o concerto “Três Séculos de Música Nordestina – do Barroco ao Armorial” e com uma exposição de gravura, pintura e escultura na Igreja de São Pedro dos Clérigos. O Movimento Armorial é um processo pelo qual Suassuna propõe um movimento cultural, a partir das características da arte sertaneja. Com efeito a idéia de um movimento cultural não passa de uma tentativa de organizar com métodos as variadas expressões artísticas do sertão brasileiro, assim como de pesquisar suas origens no imaginário ibérico. Compreender a cultura sertaneja para Suassuna significa identificar a herança medieval portuguesa e espanhola, observando se sincretismo com as culturas negra e indígena.

Além de explorar a cultura sertaneja, o Movimento Armorial tem como objetivo lutar contra a o processo de descaracterização e de vulgarização da cultura brasileira, que segundo Ariano ainda está em curso, infelizmente, e é por isso que o Armorial não pode enrolar a bandeira. Entre 1958-79, dedicou-se também à prosa de ficção, publicando o ‘Romance da Pedra do Reino’ e o ‘Príncipe do Sangue do Vai e Volta’ (1971) e ‘História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão / Ao Sol da Onça Caetana’ (1976), classificados por ele de “romance armorial-popular brasileiro”. Ariano Suassuna construiu em São José do Belmonte (PE), onde ocorre a cavalgada inspirada no Romance da Pedra do Reino, um santuário ao ar livre, constituído de 16 esculturas de pedra, com 3,50 m de altura cada, dispostas em círculo, representando o sagrado e o profano. As três primeiras são imagens de Jesus Cristo, Nossa Senhora e São José, o padroeiro do município Sexto ocupante da Cadeira número 32, foi eleito por aclamação para a Academia Brasileira de Letras em 3 de agosto de 1989, na sucessão de Genolino Amado e recebido em 9 de agosto de 1990 pelo Acadêmico Marcos Vinicios Vilaça. Secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, no Governo Miguel Arraes (1994-1998) e atualmente no Governo de Eduardo Campos (2006-). Membro da Academia Paraibana de Letras e Doutor Honoris Causa da Faculdade Federal do Rio Grande do Norte (2000). Em 2004, com o apoio da ABL, a Trinca Filmes produziu um documentário intitulado O Sertão: Mundo de Ariano Suassuna, dirigido por Douglas Machado e que foi exibido na Sala José de Alencar.

CONCLUSÃO

Em poucas palavras, o Movimento Armorial significou um grande passo para a cultura brasileira, pois visava reunir todo e qualquer fator cultural ligado às nossas raízes, à nossa terra.
Precedido do Movimento de Cultura Popular, entidade provada sem fins lucrativos que viabilizava a ação de artistas e intelectuais de Pernambuco, e contava também com a participação de Hermilo Borba Filho, Abelardo da Hora, Francisco Brennand e Ariano Suassuna – principais intelectuais da época.
O Movimento Armorial ganhou forças após o golpe militar de 64, que deu fim ao MCP, sendo lançado oficialmente no dia 18 de outubro de 1970, com a realização de um concerto da Orquestra Armorial e de uma exposição de artes plásticas no Pátio de São Pedro.
Com o objetivo de valorizar a cultura popular do Nordeste, pretendendo realizar uma arte erudita a partir das raízes populares da cultura nacional. O movimento contou com o apoio da Universidade Federal de Pernambuco, da Prefeitura do Recife e da Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, e ainda contava com importantes nomes da cultura pernambucana.
É nesse contexto contraditório, entre crises e prosperidade, que nasce o Movimento Armorial. Uma tentativa de reunir e homogeneizar toda a arte de uma região, que um dia fora a capital econômica do país e é hoje vista com desprezo e descaso por parte das autoridades governamentais, o Nordeste.

REFERÊNCIAS

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AMARAL, M.; SOUZA, S.; BARROS, J.; VITA, O.C.; SEVERIANO, M.; PESSOA, N.; VESPUCCI, R.; MARTINELLI JR, A.; TORRES, R.; BERTOLUCI, A.; AMARAL, S.; DIP, A.; VIANA, N.; GUERREIRO, L. Brincadeira muito séria: entrevista com Antônio Nóbrega. Caros Amigos. Disponível em: Acesso em abr. de 2008.
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Literatura de Cordel. Disponível em: Acesso em abr. de 2008.
O AUTO da Compadecida. Direção: Guel Arraes. Produção: Globo Filmes. Distribuição: Columbia Tristar. Intérpretes: Matheus Nachtergaele; Selton Mello; Marco Nanini; Luís Melo; Maurício Gonçalves; Fernanda Montenegro e outros. Roteiro: Guel Arraes, Adriana Falcão e João Falcão, baseado em peça de Ariano Suassuna Rio de Janeiro, 2000. 1 vídeo-disco (104 min): NTSC: son., color.

APÊNDICE

ANEXO A – ENTREVISTA COM ARIANO SUASSUNA

“Eu não faço concessão nenhuma” A entrevista começou com um não. “Com a revista Caras eu não falo, não. Que me respeitem!” Essa foi a resposta de Ariano Suassuna ao não entender bem o recado deixado pela Caros Amigos em sua secretária eletrônica. Desfeito o engano, o polêmico escritor recebeu os jornalistas em seu casarão, um verdadeiro monumento à cultura brasileira, no bairro de Casa Forte, às margens do rio Capibaribe. Assim como seu engraçado personagem Chicó, de O Auto da Compadecida, Ariano é um grande contador de histórias, entremeando suas opiniões com causos e contos populares. Apesar de toda a poesia nas entrelinhas, ele diz tudo na bucha. Até porque, como ele mesmo gosta de lembrar, não é “homem de ficar em cima do muro”.

Entrevistadores: Mariana Camarotti, Diana Moura, Marco Bahé, Inácio França, Miguel Falcão, Samarone Lima. Fotos de Beto Figueirôa/Canal 03

Trecho 1Mariana Camarotti – A gente sempre pede que o entrevistado comece falando da sua infância, que faça assim um mergulho… Você quer ir perguntando? Eu agradeço. Pra eu disparar assim…Marco Bahé
- Qual é a recordação mais antiga da sua infância?

A recordação mais antiga é eu muito menino, dentro de uma rede e chorando, porque minha mãe, que estava me balançando, tinha saído e sido substituída por uma prima nossa, chamada Amélia. Eu era muito menino mesmo. A segunda coisa de que me lembro é eu quebrando o braço. E sei exatamente o dia, 19 de março de 1929, quer dizer, sou de 16 de junho de 1927, tinha 1 ano e poucos meses. Sei que era o dia de São José porque minha mãe me disse um dia. Então, ela ficou espantada e falou: “Só acredito que você se lembra se disser onde foi que consertaram seu braço”. Aí eu disse: “Foi em cima de uma mesa amarela”. Aí caiu o queixo dela mesmo. “E o que foi que você comeu?” “Uma banana.” Porque, quando terminou, o médico mandou me dar uma banana pra ver se eu segurava e descascava a banana. E eu segurei e descasquei a banana. Então, as duas lembranças mais longínquas que tenho da infância são essas. Mariana Camarotti – E isso já foi em Taperoá?Não, foi na Paraíba, porque nasci na Paraíba (antigo nome da capital paraibana). Aliás…

Inácio França – Você nasceu no palácio, não foi?

Foi, nasci no palácio por um acaso, porque meu pai governava o Estado nesse ano. Estive lá recentemente. Uma irmã mais velha me levou no quarto. Mas foi uma desmoralização! Estava lá o quarto com uma mesa e um computador, no quarto onde eu nasci! Isso é uma falta de respeito…

Inácio França – Soube que o senhor foi convidado pelo governo da Paraíba para receber uma homenagem lá em João Pessoa e…
Já sei a história que você quer contar. É a história de que fui barrado…

Inácio França – Isso.

Não foi, não. Estava tendo um congresso de crítica literária. Fui, como convidado, e apresentei um comentário sobre José Lins do Rego, que era o tema central do congresso, uma homenagem a Zé Lins, na terra dele, não é? Bom, aí o governador da Paraíba, o doutor Pedro Gondim, convidou os participantes do congresso para um almoço no palácio. E eu fui. Aí quando fui entrando, o guarda me proibiu. Disse: “O senhor não pode entrar, não”. Aí eu disse: “Por quê?” “Porque está sem gravata.” Aí digo: “Veja como são as coisas. Esta é a segunda vez que estou entrando neste palácio. A primeira vez entrei nu e ninguém reclamou. E agora, só por causa de uma simples gravata…”. Aí, o guarda ficou espantado, olhando pra mim. Então, o doutor Pedro Gondim disse: “Não, ele nasceu aqui, por isso está dizendo que entrou nu”. E realmente entrei nu, porque todos nascemos nus, não é?

Marco Bahé – A relação com a família como era? Você tem muitos irmãos, não é?
Tenho. Sou o penúltimo de uma família de nove. Mas na família de meu pai não éramos considerados uma família grande, não, porque um irmão dele deixou dezesseis filhos e um outro deixou 25. A contagem nossa foi até modesta. E consegui para meus netos uma coisa que acho que eles vão me ser muito gratos. A mim e aos pais deles. Porque a minha casa, essa casa aqui, tinha um terreno muito grande, ia até a outra rua. Então, no quintal, três filhas construíram casas. De maneira que a minha casa ficou cheia de netos, aqui estão convivendo atualmente onze netos.

Diana Moura – Isso não lhe atrapalha, não, para escrever o romance?
Não atrapalha nada. Em primeiro lugar, quem atrapalha são os jornalistas. Não, não, estou brincando! Mas, viu, eles não atrapalham, não. Já se habituaram e respeitam a hora que trabalho. Eu mesmo já me habituei. Me incomodo com barulho. Se você ligar um rádio ou uma televisão não escrevo mais nada, mas barulho de menino não me incomodo, não. A não ser que seja briga, ou choro causado por queda, aí me incomodo, mas aí está no normal. Além de escritor, sou antes de tudo avô e pai.

Diana Moura – Você costuma trabalhar ouvindo alguma música, que seja de sua escolha?
Não gosto, não. Gosto muito de música, e a música me solicita. Não sei botar uma música pra ficar fazendo pano de fundo. Ou presto atenção à música ou presto atenção ao que estou escrevendo.

Mariana Camarotti – E, pra escrever, você tem algum escritório?
Tenho, sim. É esse quarto aí.

Mariana Camarotti – Se isola?É.

Trecho 2

Marco Bahé – O senhor falou da figura mítica que seria seu pai. Essa relação com ele como foi, o que ficou no final?Diana Moura – Complementando, o que tem dessa história na sua literatura?

Pensei por várias vezes fazer uma biografia do meu pai, mas não tive condições emocionais, me machucava tanto que deixei pra lá. Aí tentei fazer um longo poema sobre ele. Porque a poesia dá um distanciamento maior. Um longo poema sobre ele chamado “O Cantar do Potro Castanho”. Mas também não consegui. Mexeu muito comigo. De novo abandonei. Aí deixei isso pra lá e em 1958 comecei a tomar as notas para o livro que depois foi o Romance da Pedra do Reino. Escrevi várias versões, como sempre faço. Tenho uma irmã, Germana, cujo gosto eu confio muito. Uma das versões que eu terminei levei pra ela. Eu não sei se alguém aqui já leu Pedra do Reino.Inácio França – Já procurei muito, mas não encontrei.É um pouco culpa minha. Lá existe uma cena, é o seguinte: Quaderna tem uma admiração muito grande pelo padrinho dele que se chama dom Pedro Sebastião Garcia Barreto. Quaderna é o narrador da Pedra do Reino. Aí, esse padrinho dele um dia se descobre que morreu dentro de um quarto. Assassinado. Dentro de um quarto onde ele entrou e trancou por dentro.

Miguel Falcão – Olha o romance policial aí…
Pronto, exatamente. Vocês sabem quem é um jovem, quer dizer, pra mim é jovem, não sei pra vocês, um jovem escritor paraibano chamado Bráulio Tavares? Gosto demais de Bráulio. É um entusiasta do romance policial. E escreveu um trabalho sobre a presença do romance policial na Pedra do Reino. E ele diz lá que a situação é uma situação emblemática do romance policial, que é a morte e crimes em quartos fechados. Tem uma parte do livro em que o juiz corregedor diz: “Mas não ficou nenhuma pista dos possíveis assassinos?” Aí Quaderna diz: “Ah, com pista é brincadeira!” Com pista só se parecia com romancezinhos estrangeiros bestas. Com o meu, as histórias não têm pistas. Aí, ele disse: “Não tem pista nenhuma. Nem vela dobrada, nem alfinete novo…”. São dois livros de Edgar Wallace e eu prestei homenagem: a pista do alfinete novo e a pista da vela dobrada. A história foi a seguinte: o assassino entrou, depois fechou a porta por fora e deixou a trava de ferro com uma vela queimando, aí a vela foi queimando e a trava fechou. Então, a única pista era essa vela. Agora repare. O tio e padrinho de Quaderna, que é o narrador da Pedra do Reino, é encontrado nesse quarto fechado por dentro. Aí o camarada diz: “Mas não foi suicídio?” O juiz diz: “A natureza dos ferimentos afasta essa hipótese”.

Miguel Falcão – E o crime fica sem solução?
Fica. Eu digo que vou decifrar, mas nunca terminei a Pedra do Reino. Bom, quando eu dei a essa irmã para ler, ela olhou pra mim e disse: “Ô, Ariano, você notou que isso é a morte de João Dantas?” João Dantas foi o assassino de João Pessoa, e morreu aqui na Detenção, onde hoje é a Casa da Cultura. E vi que foi pelo fato de João Dantas, primo legítimo da minha mãe, ter matado João Pessoa que assassinaram meu pai. Então veja, sem eu querer, foi uma coisa subconsciente, eu tinha colocado a morte de João Dantas na Pedra do Reino. Quer dizer, a Pedra do Reino era uma maneira ficcional de eu contar os acontecimentos de 1930.

Trecho 3

Mariana Camarotti – Quando e como você começou a escrever?
Comecei a escrever com 12 anos. Escrevi um conto. Um conto horroroso. Meus irmãos até brincavam comigo – e era verdade porque comecei mesmo no teatro a escrever tragédia, só passei a escrever comédia a partir de 1951 -, meus irmãos então diziam que no meu teatro morriam todas as personagens. Eu tinha escrito uma peça e só escapava um. E ele dizia: “Suicido-me por solidão!” Aí fui prestar atenção e até nas minhas comédias, na mais conhecida, o Auto da Compadecida, morre todo mundo.

Mariana Camarotti – Metade da peça se passa no céu.
Eles diziam que era quando eu não sabia o que fazer…
Marco Bahé – Quando você se sentiu escritor?
Escrevi esse primeiro conto, depois escrevi poemas. Aos 17 anos tentei escrever uma peça. Havia um médico de Taperoá, muito culto, chamado Abdias Campos, e ele tinha as peças de Ibsen. Me emprestou e me impressionei profundamente com as peças de Ibsen. Tentei escrever aos 17 anos uma peça sob influência de Ibsen. Mas, como você bem pode imaginar, havia uma diferença muito grande do menino sertanejo… porque o sertão tem muito pouca coisa em comum com a Noruega, não é? Então, não sei se por causa disso, não consegui terminar a peça.

Diana Moura – Não matou ninguém…
Não matei ninguém. Aí, continuei a escrever poemas e, aos 18 anos, no colégio, tive um professor de geografia que era interessado em literatura. Quando foi um dia, ele passou uma prova lá e eu não estava preparado… aí taquei literatura. Era uma prova sobre aspectos do relevo brasileiro. Eu falei sobre Drummond, Aleijadinho, falei o diabo, só não falei do relevo. Me lembro que tinha alguns nomes como o rio São Francisco, o rio Amazonas, Planalto Central e as coxilhas do Rio Grande do Sul… Então ele foi entregando as provas e disse: “Essa aqui eu deixei pro fim porque quero conhecer o autor, que pode não ser bom em geografia, mas gosta de literatura”. Eu disse: “Fui eu”. Aí ele pergunta se eu gosto de literatura e se escrevo. Aí eu digo: “Escrevo”. “Escreve o quê?” “Escrevo poesia.” Ele disse: “Me traga um poema”. Aí, na aula seguinte eu levei. Ele pegou e disse: “Você pode me emprestar?” Eu digo: “Posso”. Rapaz, ele me fez uma surpresa… que alegria! Quando foi no domingo, abri o Jornal do Commercio, estava publicado. Foi em 7 de outubro de 1945. A partir daí, passei a publicar lá. Aos 19 anos entrei para a Faculdade de Direito e conheci Hermilo Borba Filho, que exerceu uma influência muito grande em mim na parte de teatro. Ele leu meus poemas, que já eram ligados ao romanceiro popular do Nordeste, e disse: “Você precisa conhecer o teatro de García Lorca”. E me colocou nas mãos o teatro de García Lorca. E esse, sim, desempenhou um papel muito importante na minha formação de escritor, porque a região que ele descrevia parecia com a minha, não é? Tinha cavalo, tinha boi, tinha cigano do mesmo jeito que Taperoá. Muito diferente da Noruega…

Diana Moura – Qual o seu conceito de identidade cultural brasileira?
Uma vez, eu discutindo com um professor aqui da universidade, eu era professor de história da cultura brasileira e ele queria mudar o nome da matéria que eu ensinava, porque dizia que não existia cultura brasileira. Ele dizia: “A cultura brasileira é apenas um episódio da cultura ocidental, deveria ser história da cultura no Brasil”. Aí eu disse: “Olhe, que a cultura brasileira é um episódio da cultura ocidental eu sei, estou de acordo. Mas isso não quer dizer que não exista a cultura brasileira. E vou lhe provar. Do mesmo jeito, a cultura espanhola é um episódio da cultura ocidental, mas existe cultura espanhola. Você ouve uma música espanhola e sabe imediatamente que é espanhola. Quanto mais García Lorca ou Cervantes, não é?” Quer dizer, o romanceiro cigano, de García Lorca, só poderia ser escrito na Espanha. Toda obra, para ser internacional, é local. Mais do que nacional, ela é local, queira a pessoa ou não queira, porque ela vai ter a marca da sua terra, o seu lugar de origem. Então, quando García Lorca diz “Mi soledad sin descanso! Ojos chicos de mi cuerpo / y grandes de mi caballo / No se cierran por la noche/ Ni miran al otro lado/ donde se aleja tranquilo/ Un sueño de trece barcos…”, isso só podia ser escrito na Espanha, em lugar mais nenhum. Então, quando você vê um poema meu, brasileiro que se criou no sertão e mora no Recife…

Trecho 4

Mariana Camarotti – Não dá pra lhe entrevistar sem falar do Movimento Armorial, de onde surgiu essa linguagem escrita, pintada, cantada, dançada…
Como esse universo é ligado muito ao universo do romanceiro, então fiz uma ligação com o universo do folheto tanto da parte literária quanto da parte pintada. É por isso que tem alguma coisa da gravura popular. Outro dado da minha paixão pelo Brasil literário e pelo Nordeste em particular é que comecei imediatamente a me rebelar porque li num cartaz numa exposição realizada em São Paulo que tinha assim: “Arte do Brasil”. Eles são adeptos da mesma idéia daquele professor universitário, não existe arte brasileira, existe arte do Brasil. Então dizia: “Arte do Brasil, uma história de cinco séculos”. Quer dizer, só começou a arte quando os portugueses chegaram. Aí eu digo, peraí, e a arte indígena, o teatro, a dança, a cultura indígena? E comecei a me interessar pela cultura rupestre. Se você olhar a Pedra do Reino, tem desenho baseado na pintura rupestre. E muitos desses desenhos que você vê aí são baseados na pintura rupestre. Quer dizer que comecei a integrar no universo brasileiro essa pintura de muitos anos antes de Cristo. As pessoas pensam que só me interesso pela cultura ibérica, hoje mesmo recebi um recorte do jornal Le Monde dizendo que só me interesso pela cultura ibérica. Falo da importância da cultura ibérica, mas falo também da japonesa. Gosto muito do cinema japonês, acho que tem muito a ver com a gente. Agora, então, o Movimento Armorial tinha duas preocupações. Em primeiro lugar, lutar contra o processo de descaracterização e vulgarização da cultura brasileira. Em segundo lugar, procurar uma arte erudita brasileira baseada nas raízes populares da nossa cultura. Era esse o programa do Movimento Armorial.

Mariana Camarotti – E o Movimento cumpriu esse papel ou ainda falta muito?
Oxente! E eu é que vou dizer, é? Eu sou suspeito. É melhor vocês dizerem. Acho que ajudei muito, que ajudou muito. Veja bem, não tenho mania de grandeza, não, mas isso que chamam a cena musical pernambucana moderna nasceu com o Quinteto Armorial, não foi? Então, não é à toa que Antônio Nóbrega tocava rabeca e Siba toca também. Siba é do Mestre Ambrósio, não é? Isso foi uma vitória do Movimento Armorial, chamar a atenção para esse tipo de música. A MPB brasileira era uma música feita não pelo povo, mas pela classe média, não é? Os grandes nomes da MPB são todos da classe média como nós. Agora, chamar a atenção para os tocadores de rabeca e de viola, quem chamou foi o Movimento Armorial.

Diana Moura – É possível viver nas grandes cidades brasileiras e não se deixar influenciar por esse bombardeio de referências da cultura de massa, e esse esforço de não se influenciar pode gerar a cristalização de uma cultura que se chama assim, folclórica, tipo maracatu cristalizado, aquele caboclinho cristalizado, etc?
Eu não quero cristalizar coisa nenhuma e nem que eu quisesse não se cristaliza não, porque a arte popular é profundamente dinâmica. Juro que não faço esforço nenhum para não ser influenciado, só deixo me influenciar o que eu quero. Tem uma frase de Thomas Mann que me tocou profundamente. Ele disse: ninguém pode sofrer influência daquilo que lhe é estranho, que lhe é alheio. Você só vai se influenciar por uma coisa que você já tem dentro de si e que talvez você não soubesse que ia se revelar. A arte popular é profundamente dinâmica, é formidável nela a capacidade de absorver elementos estranhos. Dou sempre esse exemplo: quando o homem chegou à Lua pela primeira vez eu não vi nada que se aproveitasse. Quando menino vi um seriado chamado Flash Gordon no Planeta Mongo, que me deu muito mais sensação de conquista do espaço do que aquela porcaria. É um negócio feio, rapaz, horrível, a roupa dos astronautas era horrorosa, uns sapatos de chumbo, e eles andando tudo assim, com medo da falta de gravidade… um negócio feio, desgraçado. Flash Gordon era 10 mil vezes melhor. E a literatura que saiu? Nunca vi coisa pior não, no mundo todo. Chegavam os jornais, aquela idiotice… Pois bem, a única coisa boa que eu vi foi de um folhetista chamado José Soares, que se assinava poeta-repórter. Ele fez uma descrição – taí, isso é que é a lição que os nossos artistas de classe média deviam pegar, porque não há coisa mais feia do que uma roupa de astronauta. E a descrição dele da roupa era boa porque ele descreveu nos termos da cultura dele. Era como se estivesse descrevendo uma roupa de vaqueiro e de cangaceiro. Veja que coisa bonita, ele disse assim: “Os astronautas trajavam calça, culote e colete/ No guarda-peito de aço…” – guarda-peito é uma peça do vaqueiro, não é verdade? Então “Os astronautas trajavam calça, culote e colete/ No guarda-peito de aço/ desenhado um ramalhete/ E cada um com uma estrela de prata no capacete.” A gente vê logo o chapéu do cangaceiro. Foi a única coisa boa que eu vi. Outro dia perguntaram a mim: “Mas você quer manter os cantadores numa redoma?” “Eu não disse isso não.” “Mas você não acha que é bom pra eles ver televisão?” Eu digo: “É. Televisão eu vejo também. Agora, é preciso olhar com um olhar crítico. Filtrar, saber o que pega dali e o que não pega, porque se eles forem pegar eles se lascam, vão terminar é fazendo Robocop, não é?”

Inácio França – Eu queria voltar à universidade. Como surgiu a idéia da aula-espetáculo?
Quando fui seu aluno, era uma ampliação do seu universo de sala de aula e o senhor ganhou o Brasil todo com um público universitário como se fossem seus alunos.
Quando completei 70 anos, o Jornal do Commercio fez um caderno e uma professora universitária chamada Nely Carvalho disse que eu, na universidade, já dava aula-espetáculo. Mas comecei a dar as aulas-espetáculo como programa quando me tornei secretário.

Inácio França – E a aula-espetáculo virou uma marca sua, não é?Pela importância para a cultura brasileira.

Inácio França – Em meio a um bombardeio de informações, o que leva os estudantes a lotarem as suas aulas-espetáculo?
É porque eu falo a verdade. E eles sabem que não estou mentindo. Eles podem até discordar, mas sabem que aquilo é aquilo. Acho que a primeira coisa que faz os estudantes não terem raiva de mim é isso. Eles já estão cansados de ver velho mentindo.

Miguel Falcão – Qual o palpite para o jogo de hoje, Sport e Atlético?
Ah, eu vou lhe contar uma história de Capiba. Capiba era torcedor do Santa Cruz e era meu amigo demais. E o único dia que a gente se estremeceu foi por causa de futebol. Foi uma coisa até engraçada porque o Santa Cruz tinha ganho o título chamado “supercampeonato” e de repente ele fez uma provocação. Os desenhos de Suassuna são inspirados no cancioneiro popular, na cultura do sertão. Eles ilustram um poema para sua mulher, Zélia. Porque era assim, ele me respeitava, eu respeitava a ele, nós éramos adversários, mas aí perdi a paciência e disse a ele que supercampeonato era um campeonato ganho apenas com mais dificuldade. E era mesmo. Aí não prestou, não. Ele zangou-se, saiu daqui de casa e foi pra casa dele. Aí eu disse, mas é danado, eu arengar com Capiba por causa de besteira de futebol… Aí peguei um táxi e fui parar na casa dele pra pedir desculpa. Quando cheguei lá, ele tinha vindo pra cá pra pedir desculpa. Mas ele tem uma história ótima. Ia ter um grande jogo do Santa Cruz no domingo e, na sexta-feira, um repórter esportivo do jornal telefonou pra ele, entrevistou ele como torcedor, perguntou sobre o jogo, sobre isso e aquilo… aí perguntou: “Capiba, e qual vai ser o placar?” Aí ele disse: “Me telefone segunda-feira que eu lhe digo…”

Samarone Lima – Uma vez, li no Diario de Pernambuco que surgiu uma grande obra de Brennand ali no Centro, sobre a Batalha dos Guararapes, e ele disse que a obra que ele queria que ficasse para a lembrança dele era aquela. Qual você gostaria que ficasse, qual seria a sua grande obra?
A próxima… Estou brincando. Olhe, se eu tivesse que escolher, escolheria a Pedra do Reino, porque foi onde percebi uma definição mais aproximada do meu universo. Mas, se Deus quiser, vou acabar esse. E aí, se eu terminar, vai ser esse. Quero dar o máximo de mim e, pra isso, preciso de tempo.

ANEXO B – HISTÓRIA DA LITERATURA DE CORDEL CONTADA POR UM FOLHETO

Autor: Abdias Campos
A história da LITERATURA de CORDEL …cuidado cantor pra não dizer palavra errada…

Não quero ser condutor
De uma luta inglória
Mas alerto ao leitor
Que o cordel tem memória
Fundamentada em valores
Pontificados na história

A cultura adulatória
Falsifica a popular
Com palavrões e conchavos
De narrativa vulgar
Agredindo ao cordel
Que tem muito mais a dar

Para lhes deixar a par
Sobre esta literatura
Que é a mais popular
E ainda hoje perdura
Vamos direto ao começo
Donde vem esta cultura

Sua primeira feitura
Na Europa aconteceu
Tipógrafos do anonimato
Botaram o folheto seu
Pra ser vendido na feira
E assim se sucedeu

Foi Portugal que lhe deu
Este nome de cordel
Por ser vendido na feira
Em cordões a pleno céu
Histórias comuns, romances
Produzidos a granel

Com esse mesmo papel
Era na Espanha vendido
Como “pliegos suetos”
Assim era oferecido
Em tabuleiro ambulante
Ao pescoço prendido

Tinha lugar garantido
Nas feiras livres da França
Na Alemanha também
Muito sucesso ele alcança
Essas pequenas brochuras
Que tanta história romança

Portugal ainda lança
Um monopólio cedido
Por ordem de D. João V
Podendo ser só vendido
Pelos cegos de Lisboa
Por direito adquirido

O cordel introduzido
No Brasil foi gradual
Maior parte dos folhetos
Como patrimônio oral
Ingressou principalmente
Como histórias de sarau

Foi o Nordeste o local
Que lhe brasileirizou
Nos serões familiares
Dos sertões onde chegou levando alegria ao povo
Pela voz do cantador

Conduzia o rumor
De histórias da redondeza
Noticiadas em versos
Dadas com toda clareza
A uma população
Que se tomava freguesa

Desde as casas de riqueza
Nas varandas das fazendas
Até os dias de feira
Entre os escombros de vendas
Histórias eram cantadas
De verdadeiras a lendas

De inúmeras contendas
Entre grandes fazendeiros
Sobre as pegas de bois
Vitoriosos vaqueiros
Que se tomavam famosos
Em cima dos tabuleiros

Dos peregrinos romeiros
Da mocinha apaixonada
Dos ciganos que viviam
A procura de estrada
Dos sinais vindos do céu
Anunciando a invernada

Sempre em versão cantada
Assim o cordel viveu
Antes de 1900
Primeira edição se deu
De lá pra cá permanece
Mantendo o legado seu

Entretanto lhe ocorreu
Alguma deturpação
Por folheteiros que cegam
A sua própria visão
Ao invés de versos trazem
Listagem de palavrão

Na alfabetização
Da zona canavieira
O cordel era a cartilha
Que se comprava na feira
Educando o homem rude
Para a leitura primeira

Vivia na dianteira
Como canal de cultura
De produção popular
Da nossa literatura Era a comunicação
De Informação segura

O cangaço ainda dura
Depois de longa edição
De histórias relatadas
De verdade a ficção
Como tema de cordel
É de grande aceitação

Cordel de religião
Até hoje é editado
Embora teve seu auge
Em algum tempo passado
Mas mantém-se até hoje
Para o povo devotado

Ultimamente tem estado
A venda para turista
Hoje os comerciantes
São quem o coloca à vista
O sentido é só vender
Mercadoria na pista

Sem discurso moralista
Mas lanço aqui o clamor
Dê valor a poesia
O dote do cantador
E não se deixe levar
Por blá-blá-blá rimador

Com degradação pornô
Aninhando um outro ovo
Chocando a fria ilusão
De ganhar dinheiro novo
Sem saber que a podridão
Só dá de comida a corvo

Não vou dá veneno ao povo
Mesmo o povo gostando
Pois não vou matar ninguém
Que tá se suicidando
Cuidado cantor, cuidado
Cuidado, o que está cantando!

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

As Universidades e o Saber nos Tempos Modernos (séc. XIV-XVIII)

Grupo: Mário Gouveia Júnior
Mozart Silveira de Aráujo Neto
Noel Teixeira Lopes Neto
Poatylon de Souza Machado
Thiago Pereira Francisco

Trabalho realizado como
avaliação na disciplina de
História Moderna II, ministrada pelo
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva.
.

RECIFE
2008
ÍNDICE

APRESENTAÇÃO 3

PARTE I: TREVAS E LUZ? QUEBRANDO PARADIGMAS 4

OS HOMENS DE SABER

ADVENTO DAS UNIVERSIDADES

A ADMINISTRAÇÃO

O ENSINO E OS GRAUS

AS FACULDADES SUPERIORES:
DIREITO, MEDICINA E TEOLOGIA

O HUMANISMO E A CRISE DA ESCOLASTICA

PARTE II: A INFLUÊNCIA DAS REFORMAS INTELECTUAIS E 18
RELIGIOSAS NAS UNIVERSIDADES

A REVOLUÇÂO CIENTÍFICA E AS UNIVERSIDADES

AS IDAS E VINDAS DO PRESTÍGIO UNIVERSITÁRIO
NA EUROPA MODERNA

CONCLUSÃO 32

ANEXO A 33

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 36
APRESENTAÇÃO

Há um espaço físico específico para a produção do conhecimento, sobretudo o conhecimento científico? A universidade medieval buscou ser esse lugar por excelência. Contudo, nenhuma produção intelectual sobrevive íntegra por muito tempo quando seu modelo de ensino é estagnado. Foi isso que aconteceu na passagem da universidade medieval para a moderna, a produção científica de outrora se deparou com novos raciocínios, os quais muitas vezes eram alheios à academia. A universidade, além disso, sofreu forte pressão das novas condições sociais que, por vezes, desarticularam sua antiga autonomia. Esses são alguns dos fatores que fizeram tal instituição mudar para não desaparecer. Percebeu-se que a mudança trazia frutos novos, cujo conservadorismo não podia oferecer.
Este trabalho almeja discutir alguns pontos importantes sobre o fenômeno universitário, delineando aspectos relevantes de sua origem medieval para entender o que há de distinto nos tempos modernos; não só o que se refere à produção científica, mas também o âmbito sócio-político que a envolve. Por fim, em anexo, há um texto retirado de um artigo de jornal, em que um professor da UFPE destaca o modelo da Universidade de Cambridge fazendo um comparativo com a própria realidade de sua universidade.

TREVAS E LUZ? QUEBRANDO PARADIGMAS

Fruto de uma visão limitada e preconcebida de alguns homens do Renascimento[1], a Idade Média é, por vezes, associada a um tempo de estagnação cultural, na qual o saber se encontrava limitado às bibliotecas dos mosteiros e onde havia uma ínfima produção de conhecimento. Um termo pior, que ainda hoje pode ser encontrado em livros de Ensino Médio, é usado para se referir ao período que geralmente tem como marcos o ano de 476, queda do Império Romano Ocidental, e 1453, quando da tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, é Idade das Trevas. A esse tempo mórbido, contrapor-se-ia o Século das Luzes, no qual o instrumento moderno da razão vai de encontro ao pensamento teológico, nutrido pela fé, do medievo retrógrado.
As luzes da razão iluminista, todavia, ofuscaram a complexidade de um período bastante amplo o qual tem as suas particularidades e que é essencial para compreender os tempos modernos. Felizmente a historiografia medieval atual vem superando certos preconceitos e quebrando paradigmas, podendo perceber, além das rupturas, importantes continuidades entre os períodos históricos. Assim, a despeito do termo consagrado pela História, que o período carrega, hoje não se pode vê-lo como simplesmente um tempo intermediário entre o esplendor da Antigüidade Clássica e o Renascimento desse modelo. Historiadores contemporâneos, como Jacques Le Goff e Jacques Verger, continuam produzindo trabalhos que enriquecem os estudos medievalistas, sob a perspectiva da Nova História Cultural.
Que as bibliotecas dos mosteiros eram as grandes depositárias dos livros e que a circulação dos mesmos era ínfima, até pode ser admitido. Mas, de forma alguma, o período histórico medieval pode ser visto como um tempo de estagnação cultural em toda a sua extensão. É tempo, isto sim, de adaptações aos novos desafios que foram sendo apresentados pelas circunstâncias histórico-sociais. É preciso, portanto, observar que desafios foram esses e como foram sendo superados, antes do historiador cogitar a formulação de qualquer juízo tomando como base os valores do seu tempo, sob pena de cair em grave anacronismo, tendo assim uma hipermetropia histórica.

OS HOMENS DE SABER

A expressão gens de savoir foi utilizada pelo medievalista francês Jacques Verger[2], mas não pertence à linguagem medieval. Vir litteratus, clericus, magister, philosofus são alguns dos termos encontrados nos documentos medievais, estando contidos na expressão usada por Verger e adotada neste trabalho. Jacques Le Goff[3], por seu turno, opta por um termo igualmente anacrônico: intellectuels. A palavra intellectuel só se tornaria substantivo ao final do século XIX, mas, com a licença de Le Goff, também pode ser usada aqui. Graduados seria um termo mais fiel à época, já que encontra sua origem em graduati, o qual logo seria corrente com o advento das Universidades. Porém essa palavra restringiria muito o objeto de estudo em questão, porquanto excluiria muitos estudantes que não obtiveram nenhum grau e outros indivíduos que haviam se dedicado aos estudos, mas que não freqüentaram instituições habilitadas a emitir diplomas.
Ao empregar gens de savoir, Verger considera a existência de indivíduos com certo nível de conhecimento teórico, ao qual a sociedade demandava para adquirir competências práticas. Sobretudo no fim da Idade Média, esse perfil individual vai crescer em quantidade e em qualidade, de modo que já se pode enxergar um grupo específico, o qual não somente ficaria restrito na esfera intelectual, mas se faria presente e ativo na sociedade, na política e no âmbito religioso. Quanto a isso, Verger ainda afirma:

Os universitários medievais estavam convencidos de que os estudos não constituíam um fim em si, mas deviam propiciar aos que alcançavam o saber beneficiarem-se pessoalmente dele e colocarem a sua competência à serviço de fins socialmente legítimos[4].

Alain de Libera tem um outro ponto de vista:

A Universidade medieval ocidental não é simplesmente um lugar onde se dispensa um ensino superior, não é lugar de reprodução de saber: é um lugar de produção do saber, um espaço de pesquisa e de confrontação. (…) A Universidade de Paris, a primeira grande universidade do Ocidente para a filosofia e a teologia, não tem como função principal formar altos funcionários [5].

Para ele, portanto, os estudos também constituíam um fim em si mesmo, conquanto a competição existente entre os professores, as formalidades, as comunidades de estudantes, o desenvolvimento da lógica e das técnicas de argumentação fazem das Universidades formidáveis laboratórios de inovação teórica. Afinal de contas, chegava-se a estudar durante 30 anos para conseguir o doutorado em teologia, constituindo o ápice da formação intelectual[6].
De qualquer maneira, o que teria permitido a esses intelectuais se multiplicarem e ocuparem uma posição social prestigiosa? De acordo com Le Goff:

O nascimento do intelectual como tipo sociológico novo pressupõe a divisão do trabalho urbano, da mesma forma que a origem das instituições universitárias pressupõe um espaço cultural comum, onde essas novas catedrais possam surgir, prosperar e confrontar-se livremente[7].

Haveria, portanto, uma relação intrínseca do intelectual com o desenvolvimento do espaço urbano. Com esse desenvolvimento das cidades, logo surgiriam escolas urbanas, as quais se distinguem das escolas monásticas, por terem estudantes que seriam laicos. As Ordens Mendicantes, notadamente os franciscanos e dominicanos, tiveram também uma presença significativa no desenvolvimento das escolas urbanas e, logo em seguida, das Universidades. Já no século XIII, as cidades universitárias contariam com colégios para noviços, fortalecendo o caráter conservador do Ensino Universitário.
A despeito da força conservadora que esteve presente na Universidade, esta também vai ter espaço para o desenvolvimento da criticidade. Abelardo, Tomás de Aquino, Siger de Brabante e Wyclif o comprovam, conquanto seus pensamentos muitas vezes foram vistos como heréticos. Contudo, ignorando as repressões, celeremente as suas idéias se difundiam. Dessa forma, por vezes a Universidade vai abrigar um espírito anticlericalista com tendência à contestação, sendo um espaço de disputa ideológica e florescimento intelectual.

O ADVENTO DAS UNIVERSIDADES

Inicialmente, o que se chamaria de universidade se denominava Studium Generale, não havendo distinção ainda de nacionalidade. Mais tarde, Studium Generale indicaria o conjunto de ciências, sendo que o termo latino Universitas se aplicava à toda comunidade organizada com qualquer fim. Somente no século XIV é que Universitas suplantaria Studium Generale para definir as corporações que aspiram ao universalismo. [8] Mas já no século XIII Universitas era empregado para designar as corporações de mestres e estudantes que se dedicavam aos estudos das artes liberais, do direito, da medicina, e da teologia.
Quanto ao surgimento das Universidades, Le Goff diz que:

As origens das corporações universitárias são freqüentemente tão obscuras como as de outras corporações de ofício. Organizam-se lentamente, mediante conquistas sucessivas, ao acaso dos incidentes que são outras tantas circunstâncias. (…) Nas cidades onde se formam, as universidades, devido ao número e qualidade de seus membros, manifestam um poder que inquieta os outros poderes. É lutando, às vezes contra os poderes eclesiásticos, outras vezes contra os poderes laicos, que elas adquirem sua autonomia[9].

O poder da corporação universitária se baseia nestes privilégios essenciais que foram a ela concedidos: autonomia jurisdicional (poder de apelação ao Papa), direito de greve e secessão e o monopólio na colação de graus universitários, isenção dos estudantes ao serviço militar. Tais privilégios, obviamente, foram sendo conquistados ao longo da consolidação dessa corporação do saber, mediante, inclusive, algumas mortes de estudantes que lutaram pelos seus direitos e pela sua instituição[10].
Verger, ao debater sobre uma possível crise escolar no fim do século XII, mostra que há justamente uma caminhada oposta e que algumas circunstâncias são importantes a ressaltar. Professores e alunos, por vezes, encontravam dificuldades em seguir carreira em suas aspirações em regiões distintas das de sua formação. As principais escolas, cujas oportunidades eram mais evidentes, situavam-se nas maiores cidades. Nesse ritmo, a ascensão das mais importantes escolas significava o declínio das menores. Muitas vezes, essa relação, quantitativamente, é verificável pelo aumento da demanda pelos saberes, o que também resultou na multiplicação de escolas cuja qualidade de ensino era discutível. “Cada um ensinava à sua maneira, misturando ao mesmo tempo as artes liberais e a teologia, o direito civil e o direito canônico”[11].

Muitos autores,[...] haviam dado o alarme, ao estigmatizar o sucesso das ciências ‘lucrativas’ e ‘profanas’, denunciando os perigos que as almas corriam com o estudo dos autores pagãos e a confusão das disciplinas: simples mestres em artes improvisavam-se como teólogos, ao passo que as sutilezas da filosofia desviavam da Sagrada Escritura os espíritos curiosos pelas novidades[12].

Ademais, o papado, querendo a renovação de suas prerrogativas universais ao passo do recuo dos poderes locais, atinge na figura de Inocêncio III sua plenitudo potestatis entre os poderes leigos e eclesiásticos. Nessa mesma corrida, estão também os interesses de uma reafirmação dos poderes dos príncipes, os quais necessitam de uma legitimação ideológica e de competentes burocratas. Enfim, tanto o centro da Igreja como os governantes laicos necessitavam do produto das escolas, o versado nos saberes clássicos.
São com base nesses antecedentes do século XII que vão se estruturar as possíveis causas da fundação das universidades. Uma das principais vertentes de análise a respeito dessa temática defende que as demandas sociais implicavam numa concorrência aos diplomas, cuja necessidade de uma formação erudita era imprescindível àquele que almejava cargos e, sobretudo, melhorar suas condições de vida e participação social. Essa defesa tem seu representante maior Jacques Le Goff, que relaciona de forma veemente a formação do intelectual medieval com o crescimento citadino; o papa, o príncipe, o grande mercador, todos demandavam os serviços do erudito. Perry Anderson destaca como o direito foi um instrumento para a formação do estado absoluto nos séculos posteriores: “o reflorescimento do direito romano, um dos grandes movimentos culturais da época, correspondeu ambigüamente às necessidades de ambas as classes sociais [...]“[13].
A outra linha segundo Verger, tem enfocado as inovações do conhecimento redescoberto. Não é de se espantar o deslocamento de estudantes de regiões as mais diversas para as principais escolas do século XII e para as mais importantes universidades do século seguinte. O que fica evidente na organização das universidades em nações; em Bolonha, por exemplo, havia os citramontanos (italianos) e os ultramontanos, os quais poderiam ser alunos da Gália, Hispânia, Aragão etc. As aulas de Abelardo deslocavam alunos de pontos igualmente distantes. Enfim, a busca pelo saber ultrapassava os obstáculos da distância.
Entretanto, somente a busca pelo saber e o interesse da formação a fim de vagas no poder são suficientes argumentos para caracterizar os motivos do advento das universidades? Aquela característica de corporação da nomenclatura para os primeiros grupos de lentes e discentes não é por acaso. Afirma Le Goff:

O século XIII é o século das universidades porque é o século das corporações. Em cada cidade em que existe um ofício agrupando um número importante de membros, esses membros se organizam para a defesa de seus interesses, a instauração de um monopólio de que se beneficiem[14].

A reestruturação escolar do fim do século XII implicou numa forma das grandes escolas remanescentes se aglutinarem numa tentativa de evitarem, novamente, a multiplicação das escolas. Com isso, não só asseguravam seu fortalecimento institucional, como também impediam a possibilidade do aparecimento de escolas que viessem a tirar seus alunos. Esse método também podia garantir a concentração de grandes professores em um nome institucional, conseqüentemente, uma procura maior por parte dos estudantes. É esse o espírito corporativo da universidade de Paris.
No caso de Bolonha, a qual tinha seu funcionamento interno regido por alunos, a fundação da universidade garantiu uma maior centralidade de suas necessidades, principalmente por essa despontar nos estudos do direito romano, que como já foi afirmado, atraía contratadores de vários setores, mas também favoreceu na redução da dita confusão de conhecimentos acerca dos vários assuntos. E nessas duas situações, por concentrarem um numeroso corpo discente, importantes docentes e um ensino respeitável. Os diplomas dessas e de outras universidades que surgirão nos mesmos moldes (e que atingirão o mesmo grau de excelência) terão validade por toda a Europa, o que eleva ainda mais o prestígio delas.
Outro fator de igual ou maior relevância, que implicou a constituição universitária, foi a necessidade de obterem privilégios sociais. Como corporação, sua coesão e determinação em busca da autonomia dos poderes leigos e eclesiásticos possibilitou importantes vitórias. A liberdade de determinadas formas de pensamento só teria a oportunidade de discussão dentro da universidade; fora dela, raciocínios complexos sobre a natureza e ação divinas (no caso, as teorias teológicas diversas) talvez não tivessem a mesma aceitação se fossem trabalhadas primeiro na academia; o mesmo para as outras faculdades. Sobretudo, conquistas, como a de Paris, a de retirar e passar a conferir a licentia docendi – meio através do qual as dioceses mantinham sua supervisão do ensino desde 1179 (ano do Concílio de Latrão) – em 1213.
Dessa maneira, disputar forças com os clérigos locais era um meio de se sobrepor a eles e conseguir o apoio papal. As liberdades em Oxford ao longo do século XIII, foram a custo de embates contra reis, a exemplo da travada com Henrique III. As comunas se mostraram fortes obstáculos na autonomia universitária, pois viam os alunos como causadores de desordens e como força paralela, ao quererem negociar as taxas dos aluguéis e gêneros alimentícios. Um recurso muito usado pelas universidades contra esses poderes locais foi o papado, o qual percebeu nas universidades um importante e emergente meio de ressaltar seu espírito universal de controle, além de instrumento de oposição às forças locais que enfraqueciam sua ação.

A ADMINISTRAÇÃO

A estrutura administrativa dessas corporações universitárias adquiriu certa complexidade ao longo da sua consolidação e tem as suas características próprias em cada centro. Verger cita o exemplo de Oxford, em que havia a figura do reitor (chanceler da Universidade de Oxford), o qual era a principal. Com um mandato breve (alguns meses), ele era o guardião dos estatutos e sua atribuição era convocar e presidir as assembléias, bem como gerenciar as finanças, sendo o representante oficial da universidade. Seu trabalho era assistido por um conselho formado de delegados das nações e de funcionários adjuntos. As assembléias de alunos e mestres ainda desempenhavam um papel relevante, no qual por vezes as suas decisões eram executadas pelo reitor. Cabia a esse corpo administrativo defender os privilégios universitários e organizar o ensino, que representava a tarefa primordial da universidade. Le Goff destaca que, diferentemente de Paris, na qual a Universidade era uma corporação de mestres, em Bolonha será uma corporação de estudantes, os quais estão ligados à parte administrativa.

O ENSINO E OS GRAUS

A metodologia de ensino adotada, segundo Verger, pela faculdade de Teologia de Paris pode servir como modelo das demais faculdades. Dessa forma, lá havia dois tipos fundamentais de exercícios: a aula (lectio) e o debate (disputatio). A lectio era o momento dos estudantes conhecerem as autoridades e ganharem certo embasamento para a disputatio [15], na qual o professor gerava um debate para aprofundar com mais liberdade algumas questões, exercitando os princípios da dialética. Havia ainda uma divisão entre aulas ordinárias, em que eram ministradas no início da manhã e envolviam os conteúdos mais importantes do programa, e as aulas extraordinárias, dadas ao final da manhã ou à tarde por bacharéis, a fim de complementação. Em ambas, aplicavam-se os mesmos métodos supracitados.
Um problema enfrentado pelos estudantes, principalmente, aqueles que não eram dotados de grandes recursos, era o acesso aos livros, os quais tinham uma circulação pequena. Por vezes, os estudantes pobres, os quais eram isentos dos pagamentos das taxas, prestavam serviços aos mais abastados, garantindo uma modesta moradia e alimentação, bem como a compra de seu material de estudos. De qualquer maneira, o livro era caro e por isso, muitos estudantes ficavam sem ele, dispondo apenas de resumos ou de fragmentos de obras[16]. pós essa provação, no entanto, o sistema universitário permitia a ascensão social de alguns filhos de camponeses. Embora não conferisse grande riqueza, o diploma universitário atribuía certo prestígio social e, portanto, um novo status.
Não era, porém, tão simples ganhar o título acadêmico. Os exames e graus eram regulados pela própria universidade[17], variando conforme a época e o nível acadêmico pretendido. No geral, tais exames eram muito rigorosos e envolviam dois momentos: o exame propriamente dito e o exame público. A licença (licentia docendi)[18] era o grau mais antigo, no qual o candidato ministrava uma lição e respondia questões perante uma banca de mestres. Se aprovado, logo seria apresentado ao chanceler, que lhe concedia simbolicamente as insígnias de sua atribuição numa cerimônia solene, procedida pela aula inaugural. No século XIII, porém, para ter a licentia docendi, o candidato devia antes ter o grau de bacharel, o qual era obtido dentro da própria escola. Já com a licenciatura conquistada, o universitário podia se candidatar ao mestrado ou doutorado, que, de acordo com Verger:

Não se tratava mais de um exame, mas de atos inaugurais (aula solene, presidência de uma disputa) por meio das quais o recém-promovido, tendo recebido as insígnias de sua função, era admitido no seio do colégio dos mestres e habilitado, se o quisesse, para ensinar[19].

AS FACULDADES SUPERIORES: DIREITO, MEDICINA e TEOLOGIA

Inicialmente, o ensino do Direito dizia respeito ao Direito Civil, isto é, ao Corpus juris civilis, o qual já no século XII era usado em Bolonha. Sua autoridade estava alicerçada nas suas origens romanas e nos grandes princípios jurídicos que eram apreendidos para uma reflexão sobre a ética, contrapondo-se aos antigos costumes bárbaros e feudais. Ao longo do século XII, ainda se desenvolveu o Direito Canônico (com o Corpus juris canonici), o qual ganhou o trabalho de compilação de Graciano (Decreto, por volta de 1140), bem como diversas coleções de decisões pontificais (Decretais) promulgadas até o início do século XIV. Com o Direito Canônico, portanto, a instituição eclesiástica se viu reforçada, firmando ainda mais o primado pontifical.
Durante o período em que o direito romano teve seus estudos concentrados em Bizâncio, no ocidente, os costumes foram a forma principal de se resolver as questões sociais. “Um bom acordo vale mais que a lei, e os laços de amizade valem mais que a justiça: no tempo do costume, é possível limitar o papel da lei e da justiça, promovendo valores que não pertencem, a priori, à esfera jurídica”[20]. O império do costume dos séculos XI e XII, já não é tão claro no século XIII, pois sua força parece subordinada ou contestada. É com a Igreja que a lei será gradativamente introspectada na sociedade. Durante os séculos XI e XII, os reflexos da reforma gregoriana em tornar a Igreja uma instituição à parte fomentaram os estudos do direito romano e do direito canônico, a fim de dar mais legitimidade à instituição católica e de dar maior autonomia às ações papais em relação aos poderes laicos, além de ser sua principal arma intelectual para seu programa de integração territorial e administrativo. O reencontro com o corpus juris civilis de Justiniano deu impulso a esses estudos em elevação.
Os formados em direito vêm crescendo em número desde os últimos decênios do século XII. Começam a ficar mais ativos nas práticas políticas, econômicas e sociais. Tornam-se um grupo organizado capazes de pressiona forças locais para decidirem medidas de seu interesse. Chiffoleau destaca ainda a influência do direito canônico sobre as algumas novas formas de legislação, as quais o direito romano não se encaixa mais às regras da época. Outro elemento condiz ao fato de apesar dos príncipes usarem as formulações legislativas ao seu favor seu poder é limitado pelas próprias leis que promulga. Contudo, a expansão do uso do direito ainda não era efetiva em todos os lugares; em muitas regiões o direito consuetudinário ainda desempenhava forte papel nas relações sociais. É interessante a semelhança que as audiências têm com o método da disputatio, cuja troca de argumentos de acusação e defesa são mediadas por um juiz, aproximadamente como se fazia nas escolas e universidades.
A Medicina, por seu turno, para se firmar como disciplina superior e ser reconhecida socialmente, pois teve que superar o empirismo simples que caracterizava o ofício do cirurgião ou do curandeiro. Para tanto, recorria à autoridade de Aristóteles, com sua filosofia natural, complementando com outros tantos tratados médicos gregos inspirados no referido filósofo, com os aforismos de Hipócrates, com as teorias de Galeno (notadamente a dos quatro humores) e ainda com alguns trabalhos árabes de autoridades como Rhazès, Avicenas e Averróis. Com isso, pretendia-se apresentar a Medicina como uma disciplina racional, distinta das artes mecânicas. Não obstante, segundo Verger:

As faculdades de Medicina verdadeiramente ativas foram pouco numerosas (Montpellier, Bolonha, Pádua, Paris) e a maioria da população só travava contato com simples práticos (cirurgiões, barbeiros) formados fora das faculdades, embora controlados por elas no exercício da profissão.[21]

A medicina medieval esteve por muito tempo estereotipada como simplesmente livresca e que pouco evoluíra desde a Antigüidade. Contudo, como já foi dito, havia uma idéia da formação teórica e prática. Le Goff cita uma fala de Adelardo de Bath (século XII) em que ele critica a falta de aceitação dos modernos de práticas médicas que não fossem baseadas nas autoridades, e que quando se queria lançar algo inovador alegava-se que foi retirado dos estudos árabes ou de Galeno.
A cirurgia, após o Concílio de Tours (1163) desvincula-se da medicina, passando a ser relacionada como um ofício manual. Contudo, os maiores cirurgiões da época eram requisitados por reis e papas, como Guy de Chauliac (c.1298-1368), médico dos papas de Avignon, formado pela universidade de Montpellier, cujo tratamento cirúrgico foi um referencial por mais de dois séculos. Muitos das operações cirúrgicas envolviam a trepanação e a redução das fraturas, ambas inovações técnicas medievais. A medicina do corpo era antes a da alma, pois o corpo é só um receptáculo dela, a alma que é passível de tratamento. Essa distância do corpo retardou muito o estudo com dissecações, as quais só se iniciaram em Bolonha, já em 1340, em Montpellier, em 1407, e em Paris, somente no ano de 1477. Depois, a dissecação do corpo virou uma prática pública e didática.
No mais alto grau da hierarquia das disciplinas superiores estava a Teologia.[22] Ensinava-se, por um lado, a partir de comentários da própria Bíblia e era feito também um estudo dos dogmas Católicos, fundamentados nos ensinamentos da Patrística e nos recursos da filosofia. Os quatro Livros de Sentenças de Pedro Lombardo, feitos em meados do século XII, permaneceriam como manual de base dos estudos teológicos até o século XV. Sobre o prestígio do teólogo, Verger diz o que ”eles tinham a imagem de especialistas intelectuais altamente qualificados, cujo papel era cultivar e enriquecer uma disciplina cujo valor não era contestado por ninguém”.[23]
O curso de Teologia envolvia os estudos da sacra pagina e da sacra doctrina, ou seja, uma exegese dos textos bíblicos e uma análise sistemática dos dogmas católicos, fundamentados nos Pais da Igreja. Estudar teologia não significava de fato ocupar uma posição na alta hierarquia católica, pois o que se evidencia é que os juristas tiveram essa função, principalmente, no que tange à formulação do direito canônico. Esse seleto grupo de teólogos, devidamente capacitados em todos os graus, adquiria uma imagem de profundos e irrefutáveis conhecedores dos textos sagrados. Aos dominicanos, que com a instalação da inquisição se tornaram os cães do Senhor, aqueles que defenderiam a fé cristã acima de tudo, os conhecimentos teológicos foram um importante instrumento na sua irrefutabilidade da acusação.

O HUMANISMO E A CRISE DA ESCOLÁSTICA

Fome, pestes, guerras. Tais calamidades foram as grandes protagonistas do século XIV, ocasionando um grave declínio demográfico nos novos centros urbanos. Nesse contexto, a insatisfação popular era latente e se expressaria através dos inúmeros levantes dos camponeses. Isso tudo, é claro, não poderia deixar de fazer parte dos temas presentes na arte renascentista que se esboçava. Na literatura, por exemplo, Boccaccio, em sua relevante obra Decameron, situa a sua narrativa na Florença de 1348, ano da incidência de uma devastadora epidemia de peste. No prólogo de sua obra, Boccaccio faz uma descrição aterradora da doença que se espalhava rapidamente, impondo o medo às pessoas da iminência da morte horrenda que a peste trazia.
O ensino universitário dos grandes centros de saber que se desenvolveram ao longo do século XIII vai também estar em consonância com o clima de crise. Numerosas faculdades vão ser paralisadas, vítima de censura, pelo controle eclesiástico. Como já foi apresentado, a universidade era um lugar propício para a fomentação de idéias que seriam consideradas heréticas e que, portanto, tinham que ser reprimidas. A escolástica clássica e notadamente a Teologia caem, dessa maneira, em estagnação. A oposição muito difundida entre a escolástica e o humanismo, no entanto, está sendo revista[24].
A despeito da crise que ocorreu nos antigos centros de saber, o mundo universitário se expande pela Europa Central e Oriental. Assim, em regiões germânicas, as principais cidades ganham centros de excelência universitária, muitos dos quais ainda hoje têm uma proeminência acadêmica: Viena (1383), Erfurt (1379/1392), Heidelberg (1385), Colônia (1388). Na Boêmia, logo se notabilizaria a Universidade de Praga (1347); na Polônia, Cracóvia (1364/1400) não tarde teria a sua Universidade. Tão logo ainda houve um novo florescimento universitário, englobando a Escócia, a Espanha, Portugal, França, Itália etc, baseando-se no modelo das Universidades de Paris e Bolonha. Ao final do século XIV, surge a idéia que toda universidade deveria ter as quatro faculdades tradicionais (Artes, Medicina, Direito e Teologia), embora eram freqüentes aquelas que existiam apenas no papel, funcionando na prática.

A INFLUÊNCIA DAS REFORMAS INTELECTUAIS E RELIGIOSAS NAS UNIVERSIDADES

Parte integrante das mudanças ocorridas no ambiente universitário europeu do século XVI foi a irrupção de reformas intelectuais e religiosas no plano social e que repercutiram no campo do saber e da produção de conhecimento. Sabendo que tais acontecimentos não podem ser analisados isoladamente, faz-se importante destacar a ação política no direcionamento pelos quais as universidades passaram. É comum que o príncipe ou a autoridade local tenham tanta influência quanto o papa para escolher os funcionários de determinada instituição de ensino, assim como para estabelecer uma pedagogia aplicada aos interesses sócio-políticos, isto é, de finalidade prática.
Com relação à Reforma intelectual, incorporada pelo Renascimento italiano originado no século XIV, difundido em tempos posteriores ao resto da Europa Ocidental. O humanismo, surgido neste contexto, exercerá grande influência na mentalidade moderna nascente, ao promover a busca pelo retorno à Antiguidade, em contraposição à Idade Média – época das trevas e do imobilismo. Porém, percebe-se que as concepções clássicas defendidas pelo humanismo são vivenciadas ainda no período cronológico denominado como Idade Média. Sendo assim, o saber produzido e valorizado neste momento é caracterizado como pertencente a uma época de transição, para que o Renascimento seja entendido enquanto, nas palavras de Jean Delumeau, “promoção do Ocidente numa época em que a civilização da Europa ultrapassou, de modo decisivo, as civilizações que lhe eram paralelas”[25].
Segundo Rossato[26], o humanismo é impulsionado pela transferência, para a Itália, de inúmeros textos de origem grega, árabe e oriental, que estavam armazenados na Constantinopla dos acontecimentos de 1453. Assim, os homens puderam se apropriar de alta quantidade de autores que narravam a supremacia da Roma antiga num contexto contemporâneo, ao mesmo tempo em que exaltam valores como o individualismo, a glória pessoal e a autonomia do homem enquanto ser do Universo. Tal revolução cultural expandiu-se sem demora para outras partes da Europa, ajudado também pelos líderes das incipientes monarquias nacionais, que incorporam à vida cotidiana o estudo de línguas como grego e latim, além de outras ciências. No entanto, as universidades deste período, possuidores de caráter extremamente rígido e receoso da perda de controle sobre si mesmo, como a universidade de Paris, por exemplo, resistem às novas tendências. No entanto, é importante salientar, de acordo com o Delumeau, que não houve ruptura entre o ensino medieval e o clássico: paulatinamente ocorre a inclusão de disciplinas que, de certa forma, estão inseridas no contexto de transição entre a Idade Média e o período clássico.
Porém, ao contrário do que se imagina, as faculdades de artes liberais não se opuseram à penetração do espírito humanista. Em fins do século XV, tais faculdades tinham como intuito a preparação de estudantes para posterior inclusão nas faculdades de Teologia, Direito ou Medicina, constituindo como uma espécie de ensino secundário; ocorre a perda de prestígio de algumas disciplinas das Artes Liberais (como a dialética, por exemplo, em contraposição com a Lógica aristotélica), que acabam por promover a evasão de alunos dos seus cursos e a posterior decadência desta instituição. Paulatinamente, “os colégios da época clássica saíram gradualmente, durante os séculos XV e XVI, das antigas faculdades de artes”[27]. Estes colégios eram patrocinados por pessoas ricas com o fim de permitir o estudo de pessoas pobres nas universidades, sendo comum a concessão de bolsas para alguns membros (mormente aqueles que cursavam Teologia). Aos poucos, os estudantes que compõem estes colégios se constituem como um corpo autônomo, pois não dependem mais da faculdade de artes para obter os conhecimentos preparatórios, ao mesmo tempo em que os próprios colégios já dispõem de disciplinas como grego, hebraico, latim antigo, entre outros. Outro fator que compete para o sucesso dos colégios, a partir do século XV, é a busca do conhecimento sem a obrigatoriedade da posse do diploma, o que acarreta, positivamente, num aumento do contingente de estudantes. Assim, involuntariamente, o humanismo promove a decadência das faculdades de Artes Liberais; para Verger e Charle, “muitas dessas faculdades ficaram vazias de seus estudantes, mantendo apenas um papel formal para a colação do mestrado em Artes” [28], ao mesmo tempo em que promoviam uma formação excessivamente especializada, característica não desejada pelos estudantes deste período.
É comum que as lideranças políticas deste período promovam a difusão de centros de ensino no qual é ensinada a cultura humanista, em parte devido à reação negativa de implantação destes saberes nas universidades tradicionais. Como exemplo, temos a Faculdade de Alcalá, originada em 1498; a Universidade de Louvain (Colégio das Três Línguas), fundado em 1517; Sapiência, em Roma, fundado em 1515 por Leão X e o Colégio Real (futuro Colégio da França), financiado por Francisco I e auxiliado por Guilhaume Bude, em 1530. Assim, estes estabelecimentos de ensino representam pontos localizados num contexto de decadência do modelo universitário vigente.
As universidades também sofreram grande influência das Reformas Religiosas ocorridas no século XVI, pois ocasionaram a criação de modelos pedagógicos distintos e adaptados às necessidades de cada ramo da cristandade. A reformulação imposta por Lutero e Melanchton, a partir de 1524, teve como objetivo um ensino baseado nas concepções religiosas do protestantismo, ou seja, baseado no estudo do latim, grego, hebraico, alemão, escritores antigos, Bíblia, entre outros, na tentativa de evitar, segundo Lutero, a paganização das universidades existentes naquele momento; são criadas novas universidades, como Wittenberg, Tübigen, Leipzig, Rostock, entre outras. O estudo das línguas antigas, segundo Durant[29], tinha como finalidade a leitura das Sagradas Escrituras. Assim, nas universidades alemãs temos faculdades de Direito, Medicina, Filosofia, além da Exegese Bíblica (excomungando a Teologia Escolástica, em voga nas universidades católicas). Adotando a ortodoxia da doutrina evangélica, tal programa de ensino tem como intuito a formação de pastores; sendo assim, de acordo com o próprio Frederick Eby, o “abandono da lei canônica e dos tribunais eclesiásticos deu um novo ímpeto à busca da jurisprudência civil”[30], criando uma imagem negativa do papel da universidade para a sociedade em geral, como veremos adiante. Esta postura inicialmente reformadora foi acompanhada de pedagogia conservadora, ato que acarretou em constantes conflitos entre grupos ligados ao calvinismo e ao luteranismo, além da expulsão de professores que não aderiram à Reforma. Conseqüentemente, percebemos, a partir de meados do século XVI, a criação de universidades anglicanas, calvinistas e luteranas, que constituem como centros de propagação dos costumes religiosos. Na Inglaterra, durante o reinado de Henrique VIII, foram criados vários colégios, como o Corpus Christi College, Christi Church College, Trinity College, em Oxford, entre outros. Nestes centros de ensino, diferentemente dos colégios acima citados, não houve a substituição das universidades pelos colégios, como responsáveis pelo ensino secundário: a separação entre estas instituições persistiu. Nos centros católicos, impulsionados pela Contra-Reforma, houve, de acordo com Verger[31], a implantação de universidades nas zonas de fronteira da cristandade, além da atuação dos jesuítas: criando colégios na Alemanha e na Áustria e incorporando as Faculdades de Artes e Filosofia.
No debate anteriormente proposto, o pensamento humanista não teve dificuldades para se incorporar no contexto das Faculdades de Artes Liberais. Porém, a Faculdade de Teologia, imbuída de caráter conservador, impõe barreiras à expansão desta nova etapa da existência do homem moderno. Analisada sob o prisma das Reformas Religiosas, percebe-se que o acirramento ideológico e político ocasionado pelas disputas teológicas, segundo Delumeau, foi fator de perda de prestigio das universidades, pois “o ensino superior tendeu a restringir-se à Teologia”[32]: portanto, o choque da cultura humanista na cultura laica fez com que um número menor de estudantes despertasse o interesse pela Teologia. Somam-se a isso algumas medidas políticas adotadas no contexto internacional, como a Paz de Augsburgo (1555) e o princípio do cuius rex, eius religio – a religião do rei é a religião do povo – que imprimiu a redução das peregrinatio acadêmica e a evasão de estudantes e professores dos centros universitários, já que as pessoas estavam agora confinadas a participar da vida acadêmica apenas nas universidades ligadas à sua própria concepção religiosa; outro ato deste período são as perseguições religiosas, principalmente de figuras importantes no cenário intelectual.

A REVOLUÇÂO CIENTÍFICA E AS UNIVERSIDADES

O grande desenvolvimento da ciência nos séculos XVI e XVII deveu-se ao Renascimento, ao surgimento das universidades e, sobretudo, à iniciativa particular de homens do saber que fundaram academias de ensino desligadas do controle estatal e eclesiástico direto, se bem que não estivessem imunes às intervenções tanto por parte da Igreja Católica, no caso dos países católicos, como por parte do Estado e dos eclesiásticos protestantes, no caso das nações protestantes. Homens de renome, que deixaram marcas indeléveis no desenrolar da trama científica, embora que, para isso, tenham sofrido com as vicissitudes inerentes do seu tempo, sendo forjados dentro desses laboratórios do conhecimento. A ciência deu importantes passos, regida por Copérnico, Galileu, Torricelli, Tycho Brahe, Johann Kepler e outros estudiosos e entusiastas da razão.
A sociedade, porém, na qual se deu esse prodigioso espetáculo estava envolta em antigos paradigmas medievais. As superstições e a caça às bruxas dominavam o íntimo das aldeias e cidades então em pleno florescimento. O arraigado interesse pela astrologia, até mesmo por parte de clérigos e, para ser ainda mais emblemático, do papa Paulo III, o qual não realizava nenhuma reunião com os bispos sem antes consultar a posição dos astros, era uma característica marcante da população da Europa ocidental no período em questão. Um mundo dividido, uma cristandade dividida há bem pouco tempo, desde a publicação das 95 teses de Lutero, sem mencionar, claro, o cisma de 1054, que não foi contemporâneo das gerações desse momento. Um mundo marcado pela ferrenha atuação da Inquisição, que agora começava a se voltar, com olhares altivos e ciumentos, contra o progresso científico que tinha lugar nas faculdades, bibliotecas, observatórios astronômicos, laboratórios de pesquisa, jardins botânicos e criações particulares de animais, não apenas, como outrora, contras as heresias religiosas que poderiam macular a sã doutrina do catolicismo oficial.
A transmissão do saber oriundo em grande parte do interesse individual de homens sedentos de conhecimento, que estudavam por conta própria ou custeados por nobres que se dispunham a suprir a necessidade de que careciam para desenvolver suas pesquisas, deveu-se, em primeiro lugar, aos grandes impressores e editores que, nas palavras de Will Durant, “alimentaram a corrente de tinta na qual ele [o saber] fluiu de espírito a espírito e de geração a geração”[33]. Tais editores foram os responsáveis e patrocinadores das grandes obras publicadas por Copérnico, Brahe, Galileu, Newton, dentre outros. As bibliotecas se constituíam nos novos centros de conservação do conhecimento antigo e de acumulação da ciência nova que fervilhava e se multiplicava com vigor sob o impulso apaixonado de seus amigos e amantes. O desenvolvimento dos jornais também foi notável, porém as publicações de notícias e fatos inadequados e tendenciosos favoreceram a disseminação de dados irrelevantes que impediam que o público, em geral, participasse da política e acompanhasse os acontecimentos relativos ao desenvolvimento da ciência.
A grande parte da população européia nos séculos XVI e XVII era, na verdade, analfabeta. A censura nas publicações, principalmente de livros, era quase universal na cristandade, tanto católica como protestante. Mais ferrenha e implacável, sem dúvida, por parte da Igreja Romana, que criou a Congregação do Index em 1571 com esse objetivo específico, mas de igual modo persistente como a protestante. A variedade de dogmas, entretanto, acabou por frustrar as expectativas das censuras inquisitoriais, pois obras proibidas num determinado país eram publicadas no estrangeiro e depois importadas clandestinamente.
Sobre o alto índice de analfabetismo (oitenta por cento, segundo estimativa de Will Durant), tentativas de reformar o ensino e a educação e estimulá-los, promovê-los e oferecê-los de modo igualitário e eficaz para todos foram feitas por homens como o bispo da Confraria da Morávia, João Comenius, o qual expressou seu projeto pedagógico em sua obra Didactica Magna (1632). Segundo Comenius, a educação deveria passar por um primeiro nível elementar e universal, no qual toda aldeia deveria possuir uma escola, toda cidade um colégio e toda província uma universidade, não sendo proibido o acesso às mulheres. Caberia ao Estado separar os que se mostrassem capazes de ingressar no ensino superior e investir neles com dedicação. Em segundo lugar a educação deveria ser realista, sempre mantendo as idéias em contato com a realidade, os objetos, a natureza, sendo as palavras aprendidas por meio dos sentidos (tato, visão, olfato, audição e paladar), passando depois para o estudo da gramática. Terceiro, a educação também deveria ser física, mantendo as crianças na prática de exercícios regulares que visassem à saúde e ao vigor do corpo. Em quarto lugar a educação, segundo o referido bispo, necessitava ser prática, acompanhada de ações que externassem o aprendizado a fim de que este não permanecesse enclausurado no conhecimento adquirido. Em quinto lugar as instituições de ensino teriam que ensinar cada vez mais matérias a medida que o estudante fosse atingindo idade maior; escolas de pesquisas científicas deveriam ser criadas em toda cidade ou província. Por fim, toda a educação deveria ter como finalidade última aperfeiçoar o caráter e a religiosidade do indivíduo, o que contribuiria para a ordem e a felicidade no Estado.
Esforços foram realizados, nesse sentido, na Alemanha a fim de criar escolas elementares em todas as aldeias. As escolas secundárias eram ainda vedadas às mulheres, mas multiplicaram-se e melhoraram. Abriram-se, nessa época, vinte e duas novas universidades[34]. É interessante destacar o prestígio de que gozavam os professores universitários e a confortável posição social que ocupavam em Oxford, na Inglaterra, em detrimento da lastimável situação dos da Alemanha, que tinham que vender cerveja e vinho para sobreviver.
As universidades espanholas, por sua vez, sofreram declínio depois de Felipe II, o que se acentuou com a Inquisição. Já os holandeses prosperaram e organizaram seis universidades nesse período. Em quase todas essas instituições de ensino exigia-se que os estudantes e professores seguissem a religião oficial do Estado e a Igreja limitava bastante a liberdade das academias, pelo que o gênio inventivo tendia a desaparecer das universidades e, como já foi dito, migrar para academias particulares e iniciativas próprias de estudo fora das instituições oficiais. Exemplo disso foi a fundação em Roma, no ano de 1603, da Academia dos Olhos de Lince e outras sociedades similares na Inglaterra, França e Alemanha. O grande desenvolvimento científico dos séculos XVI e XVII deu-se, pois, no interior dessas academias e faculdades.
Diversos estudiosos foram responsáveis pela criação de novos instrumentos cada vez mais sofisticados que favoreceram outras pesquisas e observações, tanto macroscópicas como microscópicas. Telescópios, microscópios, termômetros, barômetros, hidrômetros, melhores relógios, balanças mais delicadas, cada um desses equipamentos foi aparecendo paulatinamente. A invenção do microscópio, em particular, revolucionou a Biologia, pois permitiu o estudo mais minucioso das células e bactérias e o efeito destas últimas no ser humano e em plantas e animais. O telescópio ampliou a visão dos céus e seu constante aperfeiçoamento foi a causa de observações e cálculos detalhados que culminaram com a elaboração de novas teorias as quais foram de encontro com a doutrina oficial da Igreja Católica Romana, a de que a Terra seria o centro do universo e para onde tudo convergia. Por causa disso, foi Nicolau Copérnico estigmatizado e suas obras condenadas pelo Santo Ofício e censuradas pelo Index. Galileu também não escapou dos tentáculos da Inquisição, tendo enfrentado duros processos até sua velhice.
A matemática era, agora, o objetivo e o instrumento necessários a todas as demais ciências. Sobre ela, assim se referiu Galileu:

A filosofia acha-se escrita neste grande livro do universo, que permanece continuamente aberto para nossa contemplação. O livro, porém, não poderá ser compreendido a menos que aprendamos, em primeiro lugar, a língua e leiamos as letras nas quais está composto. Está escrito na linguagem da matemática[35].

A ciência começou a se libertar de sua placenta, a filosofia aristotélica. Virou o rosto à metafísica e voltou-se para a natureza, criando métodos próprios e tratando de melhorar a qualidade da vida do homem na terra. Matemática, Física, Biologia, Medicina, Química, Geografia, Botânica, Zoologia e outros ramos do conhecimento foram se aperfeiçoando notavelmente. Multiplicavam-se as invenções à medida que a indústria crescia, pois eram elas, freqüentemente, menos devidas às pesquisas dos cientistas que à habilidade de artífices ansiosos em economizar tempo. A Geografia progrediu à medida que missionários, exploradores e mercadores se esforçavam por estender sua fé, seus conhecimentos ou suas vendas. Os cartógrafos esforçaram-se para não ficar muito atrás dos exploradores. Gerardus Mercator estudou em Louvain e lá criou uma oficina para fazer mapas, instrumentos científicos e globos celestes.
Os herbários particulares dos médicos iam-se, então, transformando em jardins botânicos públicos, mantidos pelas Universidades ou pelos governos. A Zoologia recebeu menos atenção que a Botânica, pois oferecia poucas curas. Na luta contra a enfermidade e a dor, opunham-se muitos inimigos do homem moderno, tais como a falta de higiene pessoal e saneamento básico, os místicos “científicos”, dissolventes de pedras da bexiga, “especialistas” em tratamento de cataratas, arrancadores de dentes, etc. Novas doenças apostavam corrida com novos processos de cura. O ensino médico começava a assumir uma forma mais rigorosa, embora ainda se pudesse exercer a medicina sem diploma. Bolonha, Pádua, Basiléia, Leiden, Montpellier e Paris possuíam escolas famosas que atraíam estudantes de toda a Europa Ocidental. Certas especialidades de remédios eram bastante caras e o povo, no século XVII, queixava-se mais dos preços cobrados pelos farmacêuticos que das contas dos médicos.
O desenvolvimento crescente da astronomia provocou, como já foi dito, uma manifestação de indignação por parte da Igreja Católica. A principal de todas as questões residia na teoria heliocêntrica formulada por Copérnico e defendida e ainda mais fundamentada por Galileu. Tal teoria ia de encontro direto com a teoria geocêntrica defendida por Roma. Nas palavras de Will Durant:

Que aconteceria com a crença fundamental dos cristãos em que Deus havia escolhido a terra para Sua morada humana – esta terra ficando agora destituída de sua primazia e dignidade, deixada livre entre planetas muitas vezes maiores que ela e entre uma infinidade de estrelas? [36].

As universidades e academias foram os palcos nos quais essas tramas científicas aconteceram. O desenvolvimento dessas instituições de ensino superior causou rupturas ainda maiores que aquelas iniciadas com o humanismo dos séculos XIV e XV.

AS IDAS E VINDAS DO PRESTÍGIO UNIVERSITÁRIO NA EUROPA MODERNA

Durante um considerável espaço de tempo, as universidades da época moderna, aparentemente, perderam o status de centros de criação e produção de conhecimento e cultura. Aliás, de acordo com Ricardo Rossato[37], as universidades não constituíam a única forma de ensino. Contudo tal desvalorização, em hipótese alguma, significou a impossibilidade de fundação de novas instituições de ensino superior universitário, sobretudo na Espanha, na Itália e na França. É bem verdade que esses novos espaços eram, em estrutura e excelência, bem inferiores aos templos do saber medievais.
Quanto a um certo movimento de multiplicação das universidades, devemos destacar que a desconfiança – muito provavelmente gerada pelo medo do novo, que, em certas instâncias, transgride e assusta – dos governos e também das elites burguesas de grandes capitais, tanto políticas quanto econômicas, como Londres, Amsterdã, Bruxelas, Lyon, Madri, Milão, São Petersburgo, atuou no sentido de repelir, ou mesmo demover, as idéias de instalações universitárias nas mencionadas cidades. A referida multiplicação das universidades é explicada tanto pelo cisma religioso, fomentado pelas Reformas do século XVI, quanto pelo advento e ereção dos Estados Nacionais, ou dos principados territoriais, no caso da Alemanha e da Itália.
Nesse sentido, é válido enfatizar que a evolução institucional das universidades, em contrapartida, conferiu-lhes a perda de sua autonomia, visto que estas, na modernidade, passaram a sofrer, paulatinamente, um controle mais estrito por parte dos poderes políticos. Apesar disso, as instituições mais antigas e importantes mantiveram relativa autonomia. Indicam Christophe Charle e Jacques Verger que, “a interferência do Estado nas universidades foi facilitada pelo fato de este tomar cada vez mais para si os salários dos regentes e a construção dos prédios, algumas vezes suntuosos”[38].
Há de se notar que o supramencionado crescimento dos centros de ensino superior se dá, fundamentalmente, nas faculdades de Direito e Medicina, uma vez que as de Teologia, em virtude da forte laicização posta em voga pela Ilustração, parecem ter recuado nessa época.
Um outro ponto interessante para debates é a existência, em dado momento, mais especificamente ao longo do século XVII, de universidades cujas cobranças de proficiência de seus alunos mostram-se muito abaixo do mínimo tolerável por uma academia de qualidade. A procura por um doutorado fácil – aliás, como ainda hoje, lamentavelmente, ocorre, inclusive no Brasil – de fato existiu; no entanto, felizmente, tais atitudes, dignas de reprovação, não predominaram, tendo em vista que relativamente poucas faculdades se prestavam à tamanha falta de compromisso, e mesmo de recusa à improbidade epistemológica.
Esse crescimento não apenas em qualidade, mas também em quantidade – e neste caso, entenda-se inchaço – dos centros de formação superior denotou o ressurgimento ou a recuperação do prestígio dessas instituições. Esse novo fôlego das universidades, alcançado ainda na modernidade, pode muito bem ser corroborado quando analisamos os seguintes apontamentos acerca da gradual mudança da origem social dos estudantes a partir do século XVI: “[…] a chegada à universidade de uma proporção considerável de jovens nobres, da pequena, média ou mesmo alta nobreza”[39].
E tal citação só parece pertinente quando ressaltamos que desde as universidades medievais até o século XVI uma significativa parcela dos estudantes universitários era composta pelos chamados filhos dos “plebeus”, ou seja, filhos de camponeses ricos, artesãos, comerciantes e barbeiros, entre outros. Em Oxford, por exemplo, mais da metade do corpo discente era composta por estudantes de origens humildes.
Entretanto desde o século XVI até o século XVIII notamos um substancial aumento da população universitária, proveniente das elites, que progride de modo inversamente proporcional à diminuição do contingente dos “plebeus”. Por sinal, é conveniente sublinharmos que também vão se dilatar as funções e encargos totalmente vetados aos não-graduados e monopolizados pelas classes altas da sociedade, cujos membros mais parecem criar verdadeiras dinastias em torno de seus postos, já que as sucessões a determinados postos são semi-hereditárias.
Nesse sentido, a partir do século XVII, há denúncias quanto a um “excesso” de diplomados na Europa. O interessante é que quadro semelhante a este se configurou no Brasil do século XIX, chegando tal prática a ser denunciada pelo que Sérgio Buarque de Holanda [40] cognominou de “praga do bacharelismo”. Todavia devemos lembrar certas práticas censuráveis como a parca assiduidade tanto por parte dos mestres quanto da parte dos alunos. Numa escala de comportamento ainda mais execrável, universidades como, por exemplo, as de Avignon, Orange, Orléans, Nantes e Reims chegavam a comercializar graduações.

A fraude revestia-se de múltiplas formas […] [chegando ao ponto de] determinados abusos [serem] algumas vezes sancionados […]. As dispensas de todo tipo eram facilmente concedidas. O próprio Estado resignava-se a isso, e tanto que, em 1682, autorizou os alunos de Direito com mais de 24 anos, ‘em virtude da idade, a conseguir licença em seis meses, ao invés dos cinco anos exigidos[41].

Tais práticas evidenciam o quase nenhum compromisso com a formação profissional dos estudantes universitários por parte de algumas instituições, o que nos leva a acreditar que a verdadeira aprendizagem fosse conquistada fora da universidade, com a prática do ofício no limiar da carreira.
Voltando à análise da Europa moderna, entendemos que os certificados de conclusão de curso passavam a assegurar e representar para o graduado, ou graduando, nada mais do que seu acesso a um status socialmente apreciado e reconhecido. Isso vai gerar, no fim do chamado Antigo Regime, a “crise da universidade”.
No entanto talvez a crise mais forte e mais evidente nas universidades tenha se formado, a partir do século XVI, em torno dos seus conteúdos e ensinamentos, que foram apontados por muitos como ultrapassados. Baseando-se nas sumidades medievais da Filosofia, do Direito, da Medicina, por exemplo, a maioria dos centros de ensino superior da Europa, por algum tempo, marginalizavam os avanços de Descartes e Newton, entre outros.
Porém devemos considerar as faustas exceções como a grande parte das universidades italianas, que, desde meados do século XVI, passaram a acatar as contribuições do Humanismo. Da mesma forma, identificamos nos centros de Artes ingleses e franceses a assimilação – entre o fim do século XVII e o limiar do século XVIII – das idéias de Locke, Newton ou Descartes. Contudo é fato que nas faculdades de Direito e Teologia, muitas vezes administradas pelos governos e pelas igrejas, prezou-se pelo conservadorismo, que, por conseguinte, acarretou sérias restrições aos arrojos da modernidade.
Com relação ao Humanismo, que, assim como as universidades, originou-se na Itália, devemos lembrar que este

[…] se expandiu por toda a Europa ocidental, servindo para acalmar em parte o mal-estar dos intelectuais; porém, as universidades mais antigas, presas a quadros extremamente rígidos, foram as que mais resistiram a esse espírito novo […] Seria preciso tempo […] para que o Humanismo acabasse por forçar as portas das grandes universidades [42].

Mas nessa trajetória houve fortes resistências que geraram muitas conseqüências negativas para a universidade, já que, em uma primeira etapa, a referida instituição ficaria muito empobrecida, e os centros de ensino superior formados entre os séculos XVI e XVIII não desfrutariam de grandes conceitos e prestígios, conforme teria indicado Rossato. E tal situação caminhou a ponto de, em dado momento, filósofos do porte de Leibniz, colocarem em dúvida a própria existência da universidade; na Espanha de Carlos IV esses centros de ensino foram dissolvidos e na França pós-revolucionária, em 1793, a Convenção “aboliu as universidades sob o pretexto de que representavam a aristocracia”[43].
Apenas no século XIX a universidade reencontraria seu espaço, evidentemente, mediante a aceitação de mudanças e reformas mais que necessárias, as quais ocorreriam na universidade na Europa.

CONCLUSÃO

O fenômeno universitário, assim, tem as suas raízes no que se chamou de Idade Média, mas continua a produzir os seus frutos na Modernidade e vem se perpetuando como um espaço não só de ensino, mas também de produção de conhecimento. Muitas das Universidades surgidas ao longo do final da Idade Média atualmente são centros de excelência, possuindo um rigor científico extraordinário e preservando muitas das suas tradições e valorizando a sua história.
Paralelamente, ao se estudar o papel das Universidades, as necessidades político-culturais exigidas pela sociedade não podem ser negligenciadas, pois o saber construído reflete as percepções que alguns homens possuem do meio em que vivem, adquirindo tal conhecimento para utilizá-lo de acordo com suas conveniências. Como conseqüência, o estudo das Universidades nos Tempos Modernos é de grande importância para se entender exatamente os motivos que promoveram certo obscurantismo destas instituições, para que em períodos posteriores a mesma adquira o status que conseguiu atingir nos dias atuais; ao mesmo tempo, analisa-se de que forma o conhecimento produzido é recebido pela sociedade em geral: a partir da Idade Moderna, a Universidade é privilegio para poucos, perdendo, de certa forma, o caráter ao qual se propôs a fazer (sob influência da pedagogia cristã da Idade Média): universalização do conhecimento com a finalidade de crescimento espiritual (e no nosso caso, também social e individual). É a partir de tal análise que podemos entender o processo histórico que culminou no papel que a Universidade detém nos dias atuais: ascensão social, aquisição de conhecimentos científicos e novas perspectivas para o futuro; processo aquele que pode ser útil para posterior reformulação do que realmente significa o termo Universidade num contexto social mais apropriado.

ANEXO A

DESENVOLVIMENTO E SUBDESENVOLVIMENTO**

Clóvis Cavalcanti

Qual a diferença entre desenvolvimento e subdesenvolvimento? Os economistas falam em renda per capita. Mas essa é uma visão discutível. Melhor parece ser comparar estilos de vida, níveis de civilização. Mestre Nelson Saldanha, sempre arguto, em lúcido artigo aqui no Diário no dia 5.3.08 trata da questão: “Nenhuma nação se desenvolveu sem uma base cultural sólida, e isto inclui o saber universitário, o nível de aprendizado (nos vários escalões) e o conteúdo ‘cultural’ geral [...]. Subdesenvolvimento é sinônimo de baixo nível de exigências; e a cultura, que é um processo cumulativo, progride por conta de exigências crescentes”. Pude perceber mais uma vez a verdade desse raciocínio passando a Semana Santa em visita a meu filho Tiago, em Cambridge, Inglaterra, onde ele, como professor efetivo, ensina economia (sua mulher, Juliana é professora visitante). Uma das cinco melhores universidades do planeta, Cambridge tem mais nomes premiados com o Nobel do que toda a Alemanha ou França. É claro que toda essa gente vai para lá atraída pelo ambiente ímpar que a instituição oferece. Ambiente de “exigências crescentes”, como a do silêncio para o bom desenrolar da atividade acadêmica. Enquanto isso, na UFPE, o professor tem que ser rigoroso para que, na sala de aula, os alunos mantenham algum silêncio, sem contar barulhos de corredor, de carros de som nas proximidades, de obras em andamento…
Entristece perceber esses contrastes, sobretudo porque a cultura “é um processo cumulativo”. São muitas coisas que convergem para qualificar o ambiente. Na Quinta-Feira Santa, almocei no vetusto e belo St. John`s College, o que pertenceu o pai da economia moderna, Alfred Marshall, convidado por um fellow de lá – e um dos principais nomes da economia do meio ambiente da atualidade, o professor Sir Parthas Dasgupta. Na maioria dos colleges, aliás, era impressionante a programação da Semana Santa deste ano: concertos, música sacra, oratórios, recitais, além, claro, dos serviços religiosos. Andas pela Universidade de Cambridge, em si mesmo, é uma experiência enriquecedora. Aliás, nela se anda muito, pois os espaços para carros são limitados. E isso é muito bom. Por todo lado, impressionam os gramados verdes bem cuidados, os prédios de linda arquitetura, a conservação dos espaços (que diferença de Olinda). Não existem letreiros bregas nem de mau-gosto em lugar nenhum. Na cidade de Cambridge e arredores, na verdade, não há qualquer outdoor, o que enriquece sobremodo a paisagem e mostra a inutilidade desse instrumento da publicidade que tanto enfeia o Brasil, o Recife, Olinda.
Bem diferente do que acontece na UFPE, os alunos em Cambridge não faltam às aulas – nem tampouco os professores. Estes, com antecedência, enviam por e-mail o roteiro das aulas aos estudantes. A prática é obrigatória.
Aliás, faço isso também, espontaneamente, desde que voltei a dar aulas, em 2004, como bem o sabem meus alunos na UFPE. Os professores de Cambridge são obrigados a escrever exercícios (provas) com muita antecedência e a entregá-los, com a resolução das questões, à chefia do departamento. Uma prova não tem que ser corrigida pelo mesmo professor que a confeccionou. Outra característica de Cambridge é que, quando o professor chega à aula (o que deve fazer pontualmente), os alunos já estão lá sentados a sua espera (ah! O brail!). Cada aula dura 50 minutos e os alunos não a interrompem. Nos colleges, os professores orientam os estudantes de sua área, mesmo nas disciplinas que não lecionam. E passam exercícios, que não valem nota, mas que os alunos fazem com a maior seriedade, procurando o melhor desempenho possível. O trabalho torna-se grande, mas o ano letivo termina ficando leve porque é dividido em três trimestres e não dois semestres. O trimestre de outubro a dezembro tem 8 semanas de aulas; o de janeiro a março, também; o de abril a junho, apenas 4 semanas. Ou seja, 20 semanas de aula, com férias de junho a setembro (há um trimestre de verão, de junho a agosto, não obrigatório.
Que esse sistema funciona de modo perfeito se percebe do respeito de que Cambridge desfruta no mundo inteiro. Quem não gostaria de estudar ali? Quem não teria todos os motivos para se sentir honrado ao ser selecionado para integrar o corpo docente de Cambridge? Aliás, em 1973, estive pela primeira vez nessa universidade para fazer uma visita a Celso Furtado, que nela era então professor visitante. Voltei agora lá para encontrar meu filho Tiago e minha nora Juliana na condição de docentes da mesma instituição.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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_______________. Homens e Saber na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 1997.

[1] Atribui-se a origem do termo Idade Média (Medio Evo) a Flávio Biondo (1392-1463), historiador italiano da época renascentista, sendo usado depois por Cellarius.
[2] VERGER, Jacques. Les Gens de Savoir dans l`Europe de la fin du Moyen Age. Paris: PUF, 1997.
[3] LE GOFF, Jacques. Os Intelectuais na Idade Média. 4ª ed. São Paulo: brasiliense, 1995.
[4] VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. P. 30.
[5] DE LIBERA, Alain. A Filosofia Medieval. 2ª.ed. São Paulo: Edições Loyola, 2004. P. 368.
[6] Considerando que para tanto era preciso ter a idade mínima de 35 anos e que os estudos das artes liberais começavam aos seis anos.
[7] LE GOFF, Jacques. Op Cit. p. 8.
[8] Esse universalismo se refere tanto às diversas origens dos estudantes e professores universitários quanto ao conhecimento que era almejado, de caráter universal.
[9] LE GOFF, Jacques. Op. Cit. P. 60.
[10] Le Goff, dentre outros casos, cita o do enforcamento de dois estudantes em Oxford, por burgueses exasperados. Pág. 62.
[11] VERGER In LE GOFF;SCHMITT, 2006, p.576.
[12] VERGER, 2001, pp.183-184.
[13] ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado Absolutista. 3.ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.

[14] LE GOFF, J. Intelectuais na Idade Média. 2006, p.93.
[15] Segundo Le Goff, a disputatio teria sido uma mudança da quaestio, a qual no século XIII se sobrepõe mesmo inteiramente ao texto. Antes a quaestio estava intrinsecamente vinculada ao texto (obra de um clássico ou o seu respectivo comentário). Havia ainda a quodlibet, uma disputatio que poderia se desenvolver a partir de uma quaestio feita por qualquer universitário. Tratava-se de um evento especial que reunia muitos estudantes e mestres e poderiam durar semanas.
[16] Procurando facilitar o acesso ao livro, as universidades estimulavam o sistema do exemplar e da pecia que permitia verificar a qualidade dos textos postos em circulação e facilitar o uso por vários copistas de um mesmo exemplar dividido em cadernos (pecia) separados.
[17] Privilégio conquistado já no começo do século XIII.
[18] Já havia no século XII, conforme assevera Verger.
[19] VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. p. 36.
[20] CHIFFOLEAU In LE GOFF;SCHMITT, 2006, p.340.
[21] VERGER, J. Op. Cit. p. 34.
[22] Somente a partir do Século XIII é que a sacra pagina ou a sacra doctrina passou a ser conhecida como Teologia.
[23] VERGER, Jacques. Homens e Saber na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 1997. p. 48.
[24] Nesse aspecto, os trabalhos de Verger são bem elucidativos.
[25] DELUMEAU, Jean. A Civilização do Renascimento. 2 vols. Lisboa: Estampa, 1994. p. 298.
[26] ROSSATO, Ricardo. Universidade: nove séculos de história. Passo Fundo: Ediupf, 1998.

[27] DELUMEAU, J. Op. Cit. Pág. 68.
[28] CHARLE, C.; VERGER, J. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. Pág. 44.
[29] DURANT, Will. História da Civilização: A Reforma. 6° Parte, Tomo III. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1959.

[30] EBY, Frederick. História da Educação Moderna: Teoria, Organização e Práticas Educacionais. Porto Alegre: Globo, 1976. p. 75.
[31] CHARLE, C.; VERGER, J. Op. Cit. p. 44.
[32] DELUMEAU, J. Op. Cit. p. 72.
[33] DURANT, Will. História da Civilização. 7ª p., t. III. Companhia Editora Nacional: São Paulo, 1964. p. 199.

[34] Jena (1558), Genebra (1559), Lille (1562), Estrasbrugo (1567), Leiden (1575), Helmstedet (1575), Wilno (1578), Würzburg (1582), Edinburg (1583), Franeker (1585), Graz (1596), Dublin (1591), Lublin (1596), Harderwijk (1600), Giessen (1607), Groninga (1614), Amsterdã (1632), Dorpat (1632), Budapest (1635), Utrecht (1636), Turku (1640), Bambert (1648).
[35] GALILEU apud DURANT, Op. Cit. p. 210.
[36] DURANT, W. Op Cit., p. 237.
[37] ROSSATO, Ricardo. Universidade: nove séculos de história. Passo Fundo: Ediupf, 1998.
[38] CHARLE, Christophe, VERGER, Jacques. História das Universidades. São Paulo: UNESP, 1996. p. 45.

[39] CHARLE, C.; VERGER, J. Op Cit. p. 52.
[40] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1939.
[41] CHARLE, C. VERGER, J. Op Cit., pp. 60-61.
[42] ROSSATO, R. Op. Cit, p. 44.
[43] ROSSATO, R. Op.Cit., p. 55.
* Economista e pesquisador social.

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 11 abr 2008 @ 08 35 AM

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