RECIFE, CIDADE LENDÁRIA. Um Recife visto no dia a dia de forma poética.

Análise histórica da música de Capiba:

Wanderson Henrique Barros da Silva(UFPE)

Resumo:

Este trabalho procura mostrar uma análise da música Recife, cidade lendária do compositor Capiba, o contexto da cidade em sua época de criação e de onde pode o autor ter buscado inspiração para sua composição. O trabalho de Capiba é inspiração de vários outros compositores e suas músicas ultrapassam o tempo, Recife, cidade lendária é valorizada até hoje e consegue com palavras desenhar as mudanças que aconteceram no Recife até a década de 50.

Palavras chaves: Recife; Capiba; Música; Desenvolvimento urbano; Cultura.

Abstract:

This work seeks an analysis of the music Recife, legendary city of the composer Capiba, the context of the city in its time of creation and from where can the author sought inspiration for its composition. The work of Inspiration Capture of several other composers and their songs surpasses the time, Recife, city helpful and valued until today and achieves with words drawn like changes that happened not Recife until a decade of 50.

Key words: Recife; Capiba; Music; Urban Development; Culture.
Introdução

O Recife da década de 50 passava por várias modificações, urbanas, culturais, sua população crescia, o processo de redemocratização estava acontecendo depois da segunda guerra mundial e a saída de Getúlio Vargas influenciou na mudança de governo, não só em nível de país, os estados estavam em mudança, Pernambuco também passava por modificações, sua população rural se deslocava para o sul e também para a capital. Estavam aumentando a quantidade de cinemas de rua, o teatro e as manifestações de rua também cresciam. É dentro deste conjunto que foi escrita a música, Capiba que também fez parte desse grande aumento cultural, estava familiarizado com as mudanças que ocorriam na cidade do Recife.

Recife, cidade lendária é uma música escrita por Capiba e interpretada inicialmente por Paulo Molin e depois por vários outros grandes nomes da música brasileira, foi feita com primor descrevendo vários aspectos da cidade e suas transformações.

A música perpassa várias épocas e mostra como se construiu a cidade, muitas das influencias necessárias para formação do Recife moderno, desde sua população, modo de vida, as noites boemias, diversidade cultural e tudo isto mostra a grandiosidade de que com alguns versos consegue-se mostrar uma amplitude de percepção.

Capiba

O senhor Lourenço Fonseca Barbosa, mais conhecido como Capiba, nasceu em Surubim e desde sua infância sempre esteve em contato com a música, seu pai, Severino Atanásio era orquestrador e professor de música[1].

Com os 10 anos ele já compunha, seus irmãos também eram ligados à música que aprendiam diretamente com o seu pai. Nessa época sua família já estava indo morar em Taperoá na Paraíba e que apenas alguns anos depois seu pai conseguiu um trabalho de músico na banda de Campina grande deslocando mais uma vez a família de Capiba.

Conseguiu trabalho como pianista mesmo que seu esforço tenha sido para decorar 11 valsas, ainda não tinha aprendido de fato o instrumento[2], porém seu desempenho era esplendido e foi chamado para participar do Jazz Campinense como pianista.

Desde muito jovem era entusiasta do futebol e participou de times de futebol e continuou com essa paixão durante sua vida já que quando mais velho ainda jogava no time do Banco do Brasil do Recife que posteriormente seria o seu trabalho.

Em 1924, Capiba foi mandado para o Liceu Pernambucano em João Pessoa para estudar e lá teve a noticia da morte da mãe naquele mesmo ano em Recife, fez uma música junto ao seu irmão Antonio chamada “Lágrimas de mãe” em homenagem[3].

Continuou em João Pessoa durante um tempo e agora estava trabalhando como músico com a permissão do pai que o havia proibido quando o mandou estudar no Liceu. Durante esses trabalhos com música conheceu Oliver Von Sohsten, que financiava orquestras para o carnaval, pois gostava de brincar o carnaval[4].

Na década de 20 ele começou orquestrar bandas carnaval e com o financiamento de seu novo amigo várias músicas que fizeram sucesso surgiram nessa época.

Capiba ganhou alguns prêmios com essas músicas que estava fazendo e uma que tem uma história interessante foi feita por ele e seu parceiro João dos Santos Coelho, porém como usaram pseudônimos de Pé-de-pato e Joca da Beleza tiveram alguns problemas para conseguir se apresentar como os vencedores desse concurso no Rio já que outra pessoa estava tentando usurpar o feito dos dois[5].

Em 1930 começou a trabalhar no Banco do Brasil, onde ficou durante 31 anos. Foi selecionado para trabalhar no Recife e formou uma orquestra composta por estudantes.

Valsa verde, um de seus maiores sucessos foi feito um ano depois, música escrita por Ferreyra dos Santos e que fez muito sucesso no Recife da época, qualquer casa com piano tocava a música de Capiba e Ferreyra[6].

Passou na prova da faculdade de direito do Recife e agora estava começando seu nível acadêmico, já que fazia parte de uma orquestra de acadêmicos, com essa orquestra fez uma turnê pelo Nordeste para arrecadar fundos para a Casa do estudante pobre e dessa forma divulgou ainda mais seu talento por outros estados.

“É de amargar” é outra composição do Capiba que foi feita após uma tragédia em sua família, seu irmão mais velho tinha falecido.

Este frevo é considerado um dos que mais tocou na história pernambucana, teve grande aclamação popular e se tornou até título de uma revista da atriz Alda Garrido[7].

Várias outras músicas foram compostas  por Capiba, a  rádio Tupi  que em 1937 fez uma programa carnavalesco para  tocar apenas músicas pernambucanas também foi uma das formas de divulgação dele e de outros compositores,  algumas músicas novas de Capiba eram tão bem vistas, tanto pelo trabalho e esforço do compositor como pela qualidade, Maria Betânia  foi  uma dessas músicas que nascida por encomenda serviu até de inspiração para o nome para uma das cantoras da MPB, por sugestão de seu irmão Caetano Veloso.

Em 1950, Capiba fez sua música Recife, cidade lendária, interpretada por Paulo Molin fez bastante sucesso, esta música que será tratada neste trabalho é fruto de toda essa história de genialidade do compositor pernambucano, ela mostra o quanto intelectual e observador era o seu compositor.

Continuou na música e cresceu ainda mais, tendo outras experiências, angariando mais amizades com o passar dos anos, inclusive o grande Ariano Suassuna.

Em 1985 publicou seu livro autobiográfico “Livro de ocorrências” e morreu em 1997 aos 93 anos de idade.

Essa trajetória de composições e desenvolvimento exibe o crescimento de um dos maiores compositores de sua época e de Pernambuco. Algumas de suas empreitadas não foram fáceis, algumas músicas foram compostas com inspirações de acontecimentos tristes e trágicos, mas Capiba faz jus a sua fama, extraindo tudo que há de belo e musicando sua vida e a de seu povo.

A música Recife, cidade Lendária

Eu ando pelo Recife, noites sem fim

Percorro bairros distantes sempre a escutara

Luanda, Luanda, onde está?

É alma de preto a penar

Recife, cidade lendária

De pretas de engenho cheirando a banguê

Recife de velhos sobrados, compridos,

Escuros

Faz gosto se ver

Recife teus lindos jardins

Recebem a brisa que vem do alto mar

Recife teu céu tão bonito

Tem noites de lua pra gente cantar

Recife de cantadores

Vivendo da glória, em pleno terreiro

Recife dos maracatus

Dos temposs distantes de Pedro primeiro

Responde ao que eu vou perguntar:

Que é feito dos teus lampiões?

Onde outrora os boêmios cantavam

Suas lindas canções

O Recife ao ritmo de Capiba, de forma nostálgica o grande compositor mostra pontos essenciais para a formação e desenvolvimento do Recife moderno.

A música Recife, cidade lendária tem sua composição mostrando grandes traços do desenvolvimento da cidade e de sua transformação para a modernidade, desde tempos remotos do Brasil império até o tempo do lançamento da música em meados do século XX.

Cada verso da música pode ser explorado para se conhecer as características que a cidade herdou durante sua formação moderna e crescimento, mas para se chegar a ter uma visualização da beleza desses pontos abordados é necessário conhecer a cidade e parte de sua história.

O Recife tinha uma formação em tentáculos[8] que se desenvolvia a partir do centro comercial que era composto pelo bairro do Recife, Santo Antonio e São José, este cenário foi se modificando com a modernização da cidade.

As áreas que estavam entre esses tentáculos começaram a ser ocupadas no inicio do século XX e continuou em ritmo crescente fazendo várias mudanças na paisagem e cada vez mais a cidade parecia estar entrando nos moldes que o mundo moderno modelava.

Os trechos deixaram de ser tentáculos e começava a se preencher, um aumento de comercio e uma nova vida começava a se formar nesse novo Recife, mesmos que essas áreas tenham crescido ao redor de “satélites”, áreas que  seriam mais fácil de ocupação e sobrevivência como as fabricas que davam oportunidade de trabalho ou  áreas perto  de  rios que garantiam a sobrevivência pela pesca, deixando assim também em parte uma população ribeirinha que com o desenvolvimento  da cidade depois seria prejudicada com as mudanças que ocorreriam algumas décadas depois, principalmente no Governo de Agamenon.

Mas de onde vinham as pessoas que estavam aumentando a população dos centros urbanos? Devemos lembrar que isto aconteceu poucos anos após a abolição da escravidão, um movimento populacional e uma mudança na dinâmica do país eram inevitáveis, muitos dos escravos que conseguiam se aventurar para procurar novos horizontes, tentaram os centros urbanos para uma mudança no modo de vida, outros ficaram no campo devido ao medo.

A partir desta premissa devemos pensar nos primeiros versos da música de Capiba que demonstra a representatividade da população negra no Recife. Foi com deslocamento dos pobres e negros que começou o crescimento populacional e também o desenvolvimento do centro. Essas pessoas eram empregadas nas fabricas que agora estavam espalhadas pela cidade ou tentavam seu sustento a partir dos rios e comercialização de peixes.

Essas mudanças trouxeram um desequilíbrio ecológico como explica Vírginia(2001,p09):

Os lugares foram modificados: as áreas de mangues e alagados tornaram-se terra seca; os locais onde havia terras desabitadas e vazias tornaram-se terrenos ocupados e edificados; os espaços em que se localizavam edificações dispersas passaram a abrigar concentrações. Os lugares da cidade transformaram-se, multiplicaram-se, expandiram-se, e esses eram movimentos de conflitos entre o ambiente natural e o ambiente construído, provocando a “perda do equilíbrio ecológico”.

Essas mudanças que trouxeram ao Recife um aspecto mais urbano, antes uma terra de mangues e agora se tornava uma cidade urbanizada mesmo que mal organizada.

A música Recife, cidade lendária também fala sobre os antigos sobrados que agora estavam escuros, feitos nos centros para a população rica do estado, normalmente famílias dos donos de usinas e esses sobrados estavam sempre localizados na parte central da cidade, longe da periferia e dos mocambos construídos pelos pobres. Logo, esses sobrados faziam parte de uma tradição que continuava a separar os membros da elite de todo o resto da sociedade.

Durante o Estado Novo tivemos outra grande mudança na paisagem do Recife, levando em consideração o grande apoio da igreja católica na consolidação do poder de Getulio Vargas e as características conservadoras do seu interventor Agamenon Magalhães[9], houve grandes perseguições à população negra e seus cultos.

O projeto de Agamenon era o Liga Social Contra o Mocambo, este era pensado para mudar a aparência da cidade, tentando encobrir a pobreza da cidade afastando os pobres e negros de seus locais de moradia com a promessa de construção de uma nova habitação, porém as construções das novas moradias não acompanhavam as demolições muito menos eram feitas para todas as famílias desocupadas. Com isto começou a ocupação dos morros na cidade, um deslocamento forçado para “limpar” o centro urbano do Recife[10].

O maracatu também é um dos pontos principais na música de Capiba, pois fez parte também da tradição da cidade do Recife, desde os tempos do império, mostrando a força da cultura negra na formação cultural de Pernambuco e do Recife. Mesmo assim o Maracatu e o carnaval foram perseguidos na época de Agamenon, as manifestações populares e de rua precisavam ser controladas no ponto de vista do interventor para que não houvesse confusões e violência[11].

Essas descriminações percorrem toda a história brasileira que tem em seu processo de formação a grande influencia da escravidão e a disparidade social que foi causada por ela até os dias de hoje. A influência da igreja também aumentou esse preconceito com todos os cultos e festividades criadas pelos negros, mas mesmo com todas essas dificuldades essas tradições conseguiram passar durante o tempo e foram prestigiadas na música de Capiba e de muitos outros autores.

Os jardins Recifenses que estão decorando as grandes praças, também são situados na música, sendo construídos sempre que a cidade crescia, tornaram-se pontos turísticos bastante importantes e também parte da riqueza cultural da cidade.

Essa tendência de arborizar com jardins as cidades era uma característica europeia, grandes cidades brasileiras sempre estavam seguindo as tendências europeias para tentar mostrar o desenvolvimento através da aparência. O Rio de Janeiro, por exemplo, foi remodelado para se parecer com Paris. Recife também seguia essa tendência e este também foi um dos argumentos usados para as campanhas de Agamenon para tornar a cidade “mais bonita”.

A configuração visual das cidades estavam mudando, Recife e outras capitais tinham se remodelado durante todo o século XX, muitas dessas praças foram revitalizadas depois da década de 50 e ainda nos dias atuais estão embelezando as cidades de concreto com um pouco de natureza.

Por fim temos a referencia as noites do Recife, sendo lembradas em vários trechos da música de Capiba, tem força e história para angariar tal fama.

Desde sempre o Recife foi um centro comercial, por ser um porto, sempre esteve muito presente o comercio de escravos.

Com a independência, começou um processo de expansão urbana e aumento comercial[12] e este aumento também trouxe um aumento populacional da cidade já no século XIX e a diversão noturna no bairro do Recife também aumentou consideravelmente, este processo vem acompanhando o desenvolvimento da cidade e as noites do Recife começaram a ter grande destaque como atração da cidade, tanto a ponto de serem lembradas com nostalgia como fez Capiba na década de 50 do século XX.

Mas mesmo que essas noites tenham se iniciado há bastante tempo, uma urbanização mais acentuada, a dar características de cidade moderna ao Recife só aconteceu no início do século XX como dito anteriormente. A cidade já tinha caráter boêmio antes de ter um desenvolvimento moderno propriamente dito.

Durante o Brasil império as bebidas faziam parte do cotidiano do povo, com diferenças no tipo de bebida para cada camada social[13]. Na Republica essas diferenças permanecem, os grandes clubes eram apenas para a diversão dos ricos, este foi um dos motivos do crescimento do carnaval, diversão de rua para quem era pobre e que foi durante bastante tempo sobrepujado para que não acarretassem em revoltas populares.

Na segunda década do século XX, já se projetava uma cidade moderna aos moldes do que já era visto na Europa como mostra Couceiro(s.d, p.01):

Na segunda década do século XX, a cidade despontava como um dos mais importantes centros políticos e econômicos do país, em função do seu peso na balança nacional de exportações de açúcar. No auge da influência cultural europeia, com os ventos da modernidade soprando de Paris, a capital pernambucana foi beneficiada por projetos de melhoras urbanísticas à semelhança do que ocorria no Rio de Janeiro. Reformas no porto e em bairros inteiros, demolições, calçamento de ruas, implantação de um sistema de saneamento, embelezamento de praças e construção de mercados públicos mudavam as feições do antigo Recife.

Os cafés na década de 20 já traziam grande desordem, brigas e drogas eram comuns nestes ambientes, reclamações sobre estes ambientes eram constantes[14].

A diversão trazia bastante violência, havia muitos casos de crimes envolvendo disputas pelo sexo feminino, a embriaguez era um combustível para esses confrontos, prostitutas também eram mal vistas, não só por conta do seu trabalho, mas por serem consideradas portas de entrada para o mundo da devassidão[15].

Como costume na década de 20 também tinham ambientes para as diferentes classes sociais como aponta Couceiro(2007, p.03):

No Recife dos anos 1920, havia cafés para todos os gostos e bolsos. Se existiam aqueles endereçados a um público mais seleto, como o Café Continental, mais conhecido como Esquina da Lafayette, ou o Café Brasil, frequentados por políticos, intelectuais, funcionários públicos, comerciantes, estudantes e profissionais liberais, havia também os estabelecimentos que se dirigiam aos trabalhadores e grupos populares.

O café continental era um dos mais famosos, também conhecido como esquina do Lafayette, era lá onde se encontravam os intelectuais, políticos, comerciantes, estudantes, e outros tipos de influenciadores da época e discutiam sobre a literatura, política, escreviam poemas e músicas[16].

Capiba falava de botequins conhecidos pelas histórias e músicas feitos a luz dos lampiões, esse encerramento nostálgico também tem base em acontecimentos históricos, existiam cafés cantantes e cafés concertos[17], estes lugares eram normalmente frequentados pela população mais pobre, mas também igualmente a esquina do Lafayette eram discutidos os problemas do povo e criado versos e canções populares a luz de lampiões, pois até a década 20 não havia luz elétrica em quase nenhum lugar de Pernambuco.

Isto aconteceu porque havia uma disputa política entre Delmiro Gouveia e Rosa e Silva[18], Delmiro era um empresário de grande visão, tinha grandes planos para o futuro de Pernambuco, mas foi impedido e a modernidade demorou um pouco mais para se instalar no Recife, alguns lugares até já tinham luz elétrica, mas eram poucos, dando um ar de atraso para a capital Pernambucana.

A política sempre influenciou no desenvolvimento de qualquer lugar, mas até a década de 20, Pernambuco ainda se encontrava com uma política de colônia, essa dominação de grandes proprietários liderados por Rosa e Silva, impedia uma mudança ideológica na administração do estado, então todas as decisões acabam sendo a favor do estabelecimento da política conservadora.

Então a noite do Recife também foi afetada pela dominação de Rosa e Silva, mas mesmo assim não perdeu sua beleza.

Sem contar que essas características boemias do Recife começaram bastante cedo, e mesmo que tenha gerado também violência e desconforto social a noite para uma parte da população, ainda assim também foi fonte de grandes encontros.

Grandes intelectuais adoravam a noite Recifense, Gilberto Freyre é um de grande destaque, mas não só ele fez parte desta tradição de diversões à noite e isso teve em toda a dinâmica da cidade, trazendo até a lembrança de compositores sobre as noites memoráveis do Recife.

Considerações finais

Lourenço Fonseca Barbosa (Capiba) foi um músico que nasceu em Surubim 1904 e faleceu no Recife 1997, passou sua infância na Paraíba e só voltou ao Recife depois de ser nomeado no Banco do Brasil para trabalhar na capital pernambucana[19]. Durante seu tempo na Paraíba teve já contato com a música e quando chegou a Recife continuou com o trabalho em orquestras.

Sendo um intelectual, passava isso em suas músicas, belas e com base em sua observação do dia a dia, Capiba impressionou e ganhou prêmios com seu talento.

Em Recife, cidade lendária ele mostra de forma impressionante sua capacidade de observação e também seu domínio sobre o passado da cidade, mesmo que alguns argumentos sejam ditos de forma superficial. Como a música não é feita com um objetivo historiográfico, ela cumpre com o seu papel, mostrando grandes características da capital e de seu histórico.

O autor é sempre feliz em suas observações, mas como dito não sendo o objetivo da música uma fonte histórica, muitas das informações são soltas sem o aparato do momento de que foram tirados.

Esta música ainda tem grande potencial e por isso foi interpretada por vários grandes nomes da música brasileira como Chico Buarque e João Gilberto.

A trajetória imaginada por Capiba com esta música é difícil de responder, pois muitas das características que compõem a música fizeram parte de muitas fases do Recife, mas se imagina que há de tudo um pouco, pelo menos o essencial, para se ter uma visão de como é a população, seus costumes, sua diversidade, de arquitetura temos também casos antigos e novos todos sendo abordados em apenas alguns versos.

A música como fonte histórica só pode ser usada com bases de outras fontes, porém mostra como as pessoas tinham esse sentimento nostálgico na década 50, isso sempre acontece, porém a insegurança causada pós-segunda guerra mundial e todas as mudanças políticas-estruturais que estavam acontecendo no país pode ter sido um dos motivos para essa necessidade de reaproximação com a origem e também criar um sentimento de pertencimento.

Capiba conseguia fazer isso com sua música, estabelecer o que tinha de melhor e se posicionar a favor das tradições, mostrar o Recife como uma cidade lendária.

Refencias bibliográficas

CORREIA, Telma de Barros. DELMIRO GOUVEIA: A TRAJETÓRIA DE UM INDUSTRIAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX. Disponível em: https://www.usp.br/pioneiros/n/arqs/tCorreia_dGouveia.doc. Acesso em [03/11/2017].

COUCEIRO, S. C. A sedução da noite nos cafés do Recife dos anos 1920: entre prazeres e transgressões. In: XXIV Simpósio Nacional de História. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos, 2007, São Leopoldo/RS. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos, 2007.

COUCEIRO, Sylvia Costa. Recife brilha à noite. Artigos, Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

PONTUAL, Vírgina. Tempos do Recife: representações culturais e configurações urbanas. Recife:UFPE, 2001.

SANTOS, L. R. N. Das festas aos botequins: organização e controle dos divertimentos no recife (1822-1850). 2011. 144 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2011.

SANTOS, Rosana Maria dos. A federação carnavalesca de pernambuco e a perseguição aos maracatus rurais: o caso do maracatu indiano. In: Anais Eletrônicos do V Colóquio de História “Perspectivas Históricas: historiografia, pesquisa e patrimônio”. Luiz C. L. Marques (Org.). Recife, 16 a 18 de novembro de 2011. p. 579-592. ISSN: 2176-9060. Disponível em: http://www.unicap.br/coloquiodehistoria/wp-content/uploads/2013/11/5Col-p.579-592.pdf. Acesso em [03/11/2017].

Site: http://www.onordeste.com/portal/capiba/. Acesso em [16/11/2017].


[1] Disponível em http://www.onordeste.com/portal/capiba/.

[2] Ibid.

[3] Ibid.

[4] Disponível em http://www.onordeste.com/portal/capiba/.

[5] Ibid.

[6] Ibid.

[7] Ibid.

[8] PONTUAL, Vírgina. Tempos do Recife: representações culturais e configurações urbanas. Recife:UFPE, 2001.p.07

[9] SANTOS, Rosana Maria dos. A federação carnavalesca de pernambuco e a perseguição aos maracatus rurais: o caso do maracatu indiano. In: Anais Eletrônicos do V Colóquio de História “Perspectivas Históricas: historiografia, pesquisa e patrimônio”. Luiz C. L. Marques (Org.). Recife, 16 a 18 de novembro de 2011. p. 581.

[10] SANTOS, Rosana Maria dos. A federação carnavalesca de pernambuco e a perseguição aos maracatus rurais: o caso do maracatu indiano. In: Anais Eletrônicos do V Colóquio de História “Perspectivas Históricas: historiografia, pesquisa e patrimônio”. Luiz C. L. Marques (Org.). Recife, 16 a 18 de novembro de 2011. p. 581.

[11] Ibid. p.582-583.

[12] SANTOS, L. R. N. Das festas aos botequins: organização e controle dos divertimentos no recife (1822-1850). 2011. 144 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2011.p.10

[13] SANTOS, L. R. N. Das festas aos botequins: organização e controle dos divertimentos no recife (1822-1850). 2011. 144 f. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal de Pernambuco. Recife. 2011.p. 104

[14] COUCEIRO, Sylvia Costa. Recife brilha à noiteArtigos, Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. p.02

[15] Ibid. p.02

[16] COUCEIRO, S. C. A sedução da noite nos cafés do Recife dos anos 1920: entre prazeres e transgressões. In: XXIV Simpósio Nacional de História. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos, 2007, São Leopoldo/RS. História e multidisciplinaridade: territórios e deslocamentos, 2007. P.03

[17] Ibid. P.03

[18] CORREIA, Telma de Barros. DELMIRO GOUVEIA: A TRAJETÓRIA DE UM INDUSTRIAL NO INÍCIO DO SÉCULO XX. P. 01

[19] Disponível em: http://www.onordeste.com/portal/capiba/. Acesso em [16/11/2017].

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Categories: Capiba, Cultura brasileira, Pernambuco século XX
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 14 dez 2017 @ 11 55 PM

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ABREU E LIMA,

A HISTÓRIA DO NASCIMENTO DE UMA CIDADE[1]

Flávio Alves Leite de souza.[2]

Palavras-Chave: História Política, Sociedade, Pernambuco, Abreu e Lima.

Este artigo procura trazer uma narrativa da história da cidade de Abreu e Lima/PE. Embora as fontes sejam escassas, o autor através de uma ampla pesquisa de documentos e fontes históricas, procura contar a história nunca antes organizada. O autor procura resumir todas as informações históricas sobre a região que compreende atualmente o município de Abreu e Lima: Engenho Jaguaribe, Maricota e distrito de Abreu e Lima. E, embora ofereça um resumo historiográfico do lugarejo nos períodos do Brasil Colônia e Império, o recorte e a ênfase historiográfica repousa sobre o momento da emancipação do distrito de Abreu e Lima da cidade do Paulista, em 1982. Através dos arquivos, das atas de reuniões, dos periódicos da época e entrevistas com os partícipes do movimento de emancipação, o autor apresenta uma história pouco conhecida. Quem são os agentes que se moveram para promover o nascimento da cidade de Abreu e Lima, como se deu esse processo e como conseguiram, são perguntas que se procura responder neste artigo.

ABSTRACT

Keywords: Political History, Society, Pernambuco, Abreu e Lima.

This article seeks to bring a narrative of the history of the City of Abreu e Lima in the State of Pernambuco, northeast of Brazil.

Although the sources are scarce, the author through an ample search of documents and historical sources, tries to tell the history never before organized. The author seeks to summarize all the historical information about the region that currently comprises the municipality of Abreu and Lima: Engenho Jaguaribe, Maricota and district of Abreu e Lima. And, although it offers a historiographic summary of the village in the periods of Brazil Colony and Empire, the cut and the historiographic emphasis rests on the moment of the emancipation of the district of Abreu and Lima of the city of the Paulista, in 1982. Through the archives, meetings, periodicals of the time and interviews with the participants of the emancipation movement, the author presents a little known history. Who are the agents who moved to promote the birth of the city of Abreu and Lima, how did this process take place and how did they succeed, are questions that we seek to answer in this article.

INTRODUÇÃO

PERNAMBUCO foi uma das capitanias mais ricas e prósperas do Brasil Colônia. Mas, um dos culpados dessa grande empreitada foi o astuto desbravador Duarte Coelho Pereira. Quando o Rei Dom João III doou a capitania de Pernambuco à este rico navegador, em 10 de março de 1534, as terras compreendiam da foz do Rio São Franscisco até o Rio Santa Cruz medindo cerca de sessenta léguas, que se estendiam pelo interior até os limites da linha do Tratado de Tordesilhas, até uma distância de 10 léguas da costa, que na verdade ninguém sabia ao certo onde ficava. [3]O que poucos sabem é que o atual estado do Alagoas  fazia parte desta capitania, [4]e só foi desmembrado em punição à Pernambuco pela Revolução de 1817.[5]

E era exatamente o lucro que a Coroa portuguesa desejava tirar da Capitania de Pernambuco quando enviou o seu primeiro governador, Duarte Coelho Pereira. Além de proteger a colônia da invasão francesa. [6]O maior desejo do rei era que o mesmo encontrasse ouro[7], e fizesse da enorme porção de terra sob o seu poder uma boa fonte de lucros enquanto afastava os cobiçosos franceses e holandeses. Quando Duarte Coelho chegou em Itamaracá, no início do séc. XVI, tratou logo de destruir as feitorias rivais para confirmar o domínio português.

Um dos primeiros engenhos que foi construído nas terras pernambucanas foi o Engenho Jaguaribe, sendo também uma das primeiras doações feita por Duarte Coelho em 1540. E, se estendia da “feitiçaria dos Indios direito a onde se mete o rio Jaguaribe, com o rio que se chama Ayamá,” e se limitava ao sul com o rio Murueira, posteriormente chamado de Mirueira. Algum tempo depois o nome Ayamá se transformou em Inhaman. A região compreende atualmente tanto a cidade de Abreu e Lima como a de Paulista. A terra foi dada a Vasco Fernandes de Lucena e toda a sua descendência, que gozaria de isenção de impostos perpetuamente, em agradecimento por ter acompanhado Duarte Coelho ao Brasil, e “commigo vieram povoar esta minha Villa de Olinda”. Esta doação foi assinada por Bartholomeo Dias e o governador de Pernambuco, Duarte Coelho, em 24 de julho de 1540.[8] Podemos considerar este documento como o registro de nascimento do povoado que futuramente seria a manjedoura da cidade de Abreu e Lima.

  1. 1. O Início do povoamento

Desde então, o povoado que crescia tinha dois pólos principais: O Engenho Jaguaribe e nos fins do século XVIII, um comércio localizado às margens da Estrada Real, chamado de Maricota. O Engenho Jaguaribe, tão vivo em 1812, como narra o cronista Henry Koster em seu Livro: “Viagens ao Nordeste do Brasil”, sucumbiu aos poucos, sobrando apenas ruínas. Todo o aglomerado humano que se estabeleceu na região de Maricota se deve à estrada pública que liga “a Vila de Cosmos” com a de Olinda. Atualmente, faz parte da BR 101, e que corta o centro da cidade, constituindo-se a principal rodovia da cidade.

O nome “Maricota” aparece pela primeira vez em um documento de 16 de fevereiro de 1784, encontrado nos arquivos da igreja católica de Cosme e Damião em Igarassu, referindo-se ao batismo de Francisco Nunes de Oliveira, que aconteceu na capela São Miguel em Inhaman, onde diz que seus pais eram “residentes em Maricota”. Nos anos seguintes, a povoação surgida nessas terras, a meio caminho entre o Olinda e Igarassu, tornou-se um local acolhedor para os viajantes, principalmente homens de negócios que ali paravam para refeições ou pernoitar. A tradição oral diz que este nome, Maricota, é oriundo de uma comerciante chamada Maria que possuía seu comércio no trecho da “estrada dos tropeiros”, onde hoje é o cruzamento da BR 101 e a Av. Capitão José Primo no centro da cidade de Abreu e Lima. [9]

A respeito da fundação do Engenho Jaguaribe, o próprio Duarte Coelho escreveu uma carta para o Dom João III solicitando um auxílio régio em 22 de março de 1548: “por êle querer fazer um engenho em uma ribeira, e em um pedaço de terra que lhe dei, pede a V. Alteza por ajuda de o fazer, lhe faça mercê de lhe dar licença para poder mandar algum brasil de cá para isso, o que irá fazer à costa onde não faça dano nem prejuízo…” Como consta no Livro do Tombo, do mosteiro de São Bento, consultado por F. A. Pereira da Costa nos Anais Pernambucanos.

Jaguaribe é um nome de origem indígena: yaguár-y-pe que significa “rio da onça” ou “rio do jaguar”. [10]Nas lutas contra os índios caetés, iniciadas em 1553, os engenhos de Igarassu e Jaguaribe foram grandemente danificados.

As terras constituiam uma importante e rendosa propriedade, com uma capela, casas de vivenda, vastos campos de plantações, e fornos de cal de excelente qualidade, conhecida no mercado como “Cal de São Bento” que eram produzidos por mão-de-obra escrava pertencentes à tal Ordem religiosa. Até que em 15 de janeiro de 1831, por uma decisão de uma reunião capitular realizada em Olinda, os padres libertaram todos os escravos de sua propriedade, “por ser a escravidão oposta à razão, à consciência e à religião.”

Por volta de 1674 o Engenho Jaguaribe encontrava-se em ruínas, conforme consta no testamento de João Fernandes Vieira : “comprara ditas terras, mas – sem fábrica alguma, estando tudo por terra, – e só restando do engenho que ali havia alguma ferragem- os cobres miudos, duas tachas, um paiol e outras miudezas de ferramenta”. Assim declarara a verba 28 do testamento do mestre de campo João Fernandes Vieira, celebrado em 1671[11].

Contudo, a fábrica foi restaurada, e quem nos conta como era o Engenho Jaguaribe é o inglês Henry Koster, que tomou posse do Engenho em abril de 1812. Segundo ele, na época, o Engenho tinha muitos bois, maquinário, acessórios e escravos. A estrutura estava toda pronta e em funcionamento. Henry Koster não tinha o interesse de nos contar os pormenores da fauna, da vida e da cultura do povo que conhecera, apenas tomava notas exatas, o que lhe rendeu o título de The Accurate Koster, “O exato Koster”.  [12] Ele residiu no Engenho durante 1 ano e 8 meses, e veio ao país por recomendação médica para se tratar de uma doença respiratória, e segundo os médicos da época, o clima tropical e mais quente iria ajudá-lo.

Koster escrevia algumas notas enquanto embalava na rede da casa grande, pisava o barro massapê nordestino de onde florescia a cana-de-açúcar. Não era nenhum rico, mas como dizia Machado de Assis, era um “mais ou menos”. Henry Koster é um homem viajante à procura não sei de que, talvez da cura ou apenas de aproveitar o tempo que lhe restava de vida. Quando arrendou o Engenho Jaguaribe, pôde ter uma experiência tipicamente brasileira com os escravos, “canaviais, vizinhos arengueiros, superstições, vaidades velhas, bondade simples, um mundo novo que o inglês mergulha gostosamente.” Neste contexto, Koster nos descreve como era a vida no Engenho Jaguaribe e arredores.

Segundo Koster, Jaguaribe possuía uma bela vista de onde dava para se ver os manguezais, plantações de mandioca e de milho. Até hoje a vista é bela e contempla à distância tanto a praia de Conceição como de Maria Farinha, pertencentes município de Paulista, além dos rios e manguezais da região. A capela de São Bento, hoje em ruínas, funcionava com atividades religiosas regulares, apesar de inacabada e com morcegos como moradores em 1812, ouviam-se de longe o toque freqüente do sino.

As terras ao meu redor para o Norte, pertenciam aos Frades Beneditinos; E ao Oriente a uma velha senhora; Aqueles do último eram muito negligenciado, mas aqueles que possuíam o primeiro estavam em alta ordem. Para o Sul, além da madeira através da qual passei chegando a Jaguaribe, são as terras dos paulistas; E para o oeste e o Noroeste são algumas terras de cana excelentes, pertencem a uma irmandade religiosa de negros livres de Olinda.[13]

Da Igreja de São Bento, que fora construída pelos beneditinos em estilo barroco, só restam ruínas. O local está sendo escavado por um grupo de arqueólogos, onde já foram encontrados uma machadinha polida, artefato de fabricação e de uso indígena, possivelmente anterior ao século XVI, um fuso de cerâmica, ossos e dentes humanos, fragmentos de louça do séc. XVII, uma moeda portugues do séx. XIX e duas outras sem data legível, além de uma bala de mosquete (GARCIA, Letícia. PE Quero TV, Edições Bagaço, Recife, 2007).

No dia 10 de novembro de 1848 travou-se em Maricota a primeira batalha da Revolução Praieira, deflagrada três dias antes, na cidade de Olinda, entre os revoltosos  praieiros e as forças do legalistas do governo. No dia 1º de janeiro de 1849 foi lançado, no Engenho Inhamã, o “Manifesto ao Mundo”, com os postulados da Revolução Praieira.

Já na segunda metade do Séc. XIX o povoado cresce, sendo necessária a oficialização de um distrito policial em Maricota, foi criado então no dia 22 de julho de 1863 pelo presidente da província, João Silveira de Souza, que nomeou como subdelegado Antônio Borges Galvão Uchoa.

Como é comum em toda vila, em 1885 José Dias Feijó e sua esposa, Henriqueta Francisca Pereira, separaram parte da propriedade em que moravam para que se levantasse uma capela dedicada a São José e um cemitério, sendo este santo adotado como padroeiro da cidade até hoje. O pároco de Igarassu, Floriano de Queiroz Coutinho iniciou com a comunidade a construção da capela.

  1. 2. A vida em Maricota no início do século XX

Na década de 1920, Maricota era uma terra com humildes casas, mas que não dispunha sequer de uma escola pública :

“Maricota é um pequeno povoado do histórico e decadente município de ‘Iguarassu’. De vida calma, quase entorpecido pela nenhuma ‘scentelha’ do progresso ‘civilisador’, Maricota, o pequeno povoado do município acima é de uma pacividade, de parte dos seus poucos habitantes, de fazer admiração.

Todos, como uma só família, vivem calmamente em Maricota.”[14]

Assim descrevia o Jornal do Recife sobre o lugarejo em 26 de junho de 1928 antes de noticiar um crime que aconteceu na região. A vida religiosa de Maricota estava ligada à Paróquia de Igarassu, como se vê no jornal “Diário da Manhã”, onde  noticia que a tradicional festa dos santos Cosme e Damião, realizada em Igarassu, deveria ter a presença confirmada do catecismo de Maricota. [15]O andor dos santos deveria percorrer as ruas da cidade no dia 25 de novembro de 1934. Para ajudar no transporte da população para a tradicional festa em Igarassu, seria disponibilizado um ônibus que passaria de hora em hora na localidade. Ainda divulgava o jornal que a festa tradicional seria presidida pelo vigário local, Padre Joaquim Fonseca de Oliveira, e que durante o dia a noite haveria entretenimentos populares, barracas de prendas, “fandango” e bandas de músicas. A festa de Cosme e Damião em Igarassu continua atraindo as populações vizinhas na atualidade.

Neste lugar marcado pela pobreza e pelo esquecimento dos municípios de Igarassu e Paulista, aos quais pertencia, a mensagem pentecostal foi recebida por Maria do Carmo, o esposo e os filhos.[16] A igreja começou a atrair mais fiéis gradativamente. O ano de 1928 ficou como o início oficial da Assembleia de Deus em Abreu e Lima. Mas, os novos fiéis da nova seita protestante experimentaram duras perseguições por parte daqueles que “mandavam” em Paulista: A família Lundgreen[17], proprietária da Companhia de Tecidos Paulista. Assumiu o “rebanho o irmão Antônio Torres Galvão” [18]. Ele, além de pregador, também foi político e conseguiu organizar o Sindicato de Fiação e Tecelagem em Paulista – PE. Envolvido nas causas sociais tornou-se um ícone histórico de político evangélico a ganhar destaque na vida social secular, chegando inclusive a ocupar o cargo de governador. Após Torres Galvão[19], o pastor Joaquim Gomes da Silva assumiu a liderança “do rebanho” em 1938 e conseguiu adquirir um terreno em Maricota, medindo 30 x 43, pela quantia de dois contos de réis que era propriedade do Sr. Severino Albuquerque, onde hoje é o Templo Central da Assembleia de Deus Abreu e Lima. Que é atualmente a maior igreja protestante da cidade em termos de membros e número de templos.

O ano de 1969 foi um ano em que estava em auge a guerra fria, e ainda imperava e que um dos seus principais símbolos, à guerra do Vietnã; o Brasil, assim como outros países da América Latina, esperava reforços dos EUA para combater os “subversivos” nos ditos “os anos de chumbo” o período mais repressivo da ditadura militar que teve início com o AI-5 em dezembro de 1968. Enquanto também prometiam preencher o “vazio agrícola” do cerrado com pesados investimentos.

Foi neste contexto de mudanças e grandes acontecimentos que assume a liderança em Abreu e Lima o pastor Isaac Martins Rodrigues. E realiza grandes feitos, em cinco anos o pastor Isaac Martins já começou enviar missionários para outros países. A figura do Pastor Isaac Martins Rodrigues é marcante na história da cidade de Abreu e Lima, onde na entrada da cidade existe uma estátua em sua homenagem. Graças a ele, a cidade recebeu o título de cidade mais evangélica do Brasil. Hoje, a cidade possui em 2017 uma população estimada de quase 100 mil habitantes, segundo o IBGE. E ainda segundo o instituto, é também a cidade mais evangélica do Brasil, com cerca de 35% da população dessa religião. E a maioria da Assembleia de Deus.[20]

  1. 3. O distrito que sonhava virar cidade

As discussões iam além das questões sobre as terras que pertenceriam ou não a Igarassu ou Paulista, mas até acerca do nome que Maricota recebeu posteriormente. O distrito de Maricota foi criado pelo Decreto-lei Estadual n° 235, de 9 de dezembro de 1938, pertencendo ao município de Paulista, a povoação foi oficializada com o nome de Maricota. [21]Em 1948, pela Lei Estadual n° 421, de 31 de dezembro de 1948, o distrito de Maricota recebeu o topônimo de Abreu e Lima em homenagem a José Inácio de Abreu e Lima (1794-1869).

José Ignácio de Abreu e Lima era filho de José Ignácio Ribeiro de Abreu Lima, conhecido como Padre Roma, que participou da Revolução Pernambucana e foi executado na frente dos próprios filhos. José Inácio de Abreu e Lima foi político, escritor, jornalista e general, conhecido como o “Inácio pernambucano”, ou como “general das massas”, lutou quatorze anos ao lado de Simón Bolívar, um dos heróis da independência da Venezuela. Como era maçom, seu enterro foi vedado no Cemitério de Santo Amaro no Recife, e foi então sepultado no cemitério dos ingleses no mesmo bairro.[22]

Em 1939 se traçava no Estado um importante debate sobre as mudanças dos nomes dos lugares e cidades. Importantes jornais, como o Jornal do Commércio e o Diário da Manhã, traziam artigos sobre a “Toponimia Pernambucana”, onde ampliava o debate sobre o decreto 235 do governo do Estado, em que procurava reformar e organizar os limites intermunicipais e nomes das localidades. Segundo o artigo no Diário da Manhã, os pernambucanos iriam ter dificuldades para se adaptar à novas nomenclaturas das cidades e das vilas do Estado. Na época, a maior parte das nomenclaturas era de origem indígena, ou de pessoas de origem pouco dignas. Como por exemplo, Duarte Dias que era ex-presidiário, e tinha uma localidade em seu nome.

A organização dessa tarefa estava confiada à uma “Commissão de Reforma Administrativa do Estado”, que por sua vez estava sob a batuta do Dr. Mário Mello, membro do Instituto Histórico e Geográfico Pernambucano. O governo estadual já havia procurado diminuir as repetições nas denominações de 22 cidades e vilas pelo decreto estadual nº92 de 31 de março de 1939, seguindo a orientação do governo federal através do decreto 311. A crítica se dava agora, porque o governo estadual mudou o nome de 33 localidades para nomes quase que totalmente de origem indígena: Aburá, Araçoiaba, Caetés, Calumby, Carqueja, Ibaritinga, Ibitira, Ibiapina, Itaíba, Itapimirim e etc.

Pela solicitação do presidente da Comissão, foi sugerida a retirada das denominações “anônimas”, em que estava incluída Maricota. Deveriam, portanto, serem substituídas por nomes consagrados na história da “pátria”: Camarão, Bernado Vieira, João Ribeiro, Padre Roma, dentre outros. Neste momento a grafia de alguns nomes também recebem mudanças, onde “Iguarassu” perde o primeiro “u”, de Morenos, saiu o “s”, de “Tegipió” se tornou “Tejipió”. Também existe no artigo “A Toponimia do Estado” [23], uma menção de que 19 nomes de santos que designavam localidades em Pernambuco, agradavam aos católicos, desapareceram por que desgradavam aos reformadores. E lembra ainda o articulista que isso poderia trazer “pragas” sobre o Estado, como aconteceu em 1825, após o arcabuzamento de Frei Caneca houve uma seca terrível, lembrada mais de cem anos depois.

As polêmicas envolviam mais do que o nome de Abreu e Lima, mas se deveria ou não ser oficializada como uma cidade, pois a Lei Estadual n° 4.993, de 20 de dezembro de 1963, elevou o distrito de Abreu e Lima à categoria de município, e no ano seguinte foi extinto, em 27 de agosto de 1964 pelo Acórdão do Tribunal de Justiça, mandado de segurança n° 56.889. Foi extinta a Lei, mas não a vontade do distrito em se tornar uma cidade.

As notícias sobre o distrito de Maricota no século XX em sua maioria era de acidentes na estrada principal da cidade. O Brasil começava a receber os automóveis, e a estrada antes usada por viajantes à cavalo e carroças, começa a receber automóveis, ônibus e caminhões. E começam as notícias de acidentes na principal artéria do distrito.[24]A estrada de Maricota não trazia apenas alimentos, vestuários, pessoas e riquezas para o distrito. Mesmo com a duplicação da BR na década de 80, os acidentes continuam fazendo parte do cotidiano dos moradores da região.

Na década de 40 o país entrava na II Guerra Mundial. Depois que a Alemanha torpedeou dois navios brasileiros, o presidente Getúlio Vargas declara guerra contra os países do Eixo: Alemanha e Itália. O clima no mundo era de guerra, mas neste mesmo ano o distrito de Abreu e Lima começa a receber melhorias na administração do prefeito do Paulista, capitão José Primo de Oliveira.

Foi Capitão José Primo quem iniciou as obras do primeiro Mercado Público de Maricota em 5 de fevereiro de 1942, conforme anunciou no Jornal Diário da Manhã.[25] O capitão José Primo, que atualmente possui uma importante avenida no centro da cidade em sua homenagem, inaugurou então no dia 19 de abril de 1942, o primeiro mercado público do distrito de Maricota, com direito à café da manhã e almoço para autoridades e convidados, e à tarde desfie das escolas públicas. À noite houve um “soirée” para os convidados dançarem no prédio inaugurado.[26] O primeiro Mercado Público do distrito continuou funcionando por muitos anos e poucos sabem que o mesmo era herança do período varguista. O prédio foi demolido pela prefeitura recentemente. Sem dúvida, a construção do mercado público oficializava aquela que seria a principal fonte de renda que movimentava a futura cidade de Abreu e Lima, isto é, o comércio.

Além de Maricota seria realizada festas em outras inaugurações como de escolas, a Vila dos Bancários que o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários construiu na rua América, nos Aflitos, haveria festas que faziam parte das homenagens e até palestras sobre a personalidade do presidente Getúlio Vargas, em comemoração ao seu aniversário. Fazia parte do populismo do período varguista o culto à personalidade do presidente.

  1. 4. O nascimento de uma cidade

Em 1982 o Brasil chorou com a perca de uma das suas maiores estrelas artísticas, a cantora Elis Regina, que com apenas 36 anos de idade, morreu em 19 de janeiro devido à uma overdose de cocaína causando grande comoção por todo o país[27].  E para piorar, o país do futebol perde a Copa do Mundo na Espanha. O mundo assistiu a guerra entre a Argentina e a Inglaterra pelas Ilhas Malvinas no Oceano Atlântico. Notícia essa que ocupou a capa dos principais jornais da época. Mas, nem tudo é lágrimas, o país podia ser consolado com o início da redemocratização na política brasileira. Neste ano aconteceria a primeira eleição depois de 17 anos, a primeira eleição pluripartidária da história. Assim, em 22 estados brasileiros haveria eleição para governador. Estas eleições estaduais repercutiram no esquecido distrito pertencente às cidades do Paulista e Igarassu, chamado Abreu e Lima, em Pernambuco, que ansiava por se tornar um município.

Na terra da “ciranda de Baracho”, [28]onde a BR 101 cortava o centro comercial espalhando crescimento econômico, ouvia-se entre a população de maioria extremamente pobre, a voz de alguns homens ecoando por um pequeno caixa de som pelas ruas, becos e vielas. Somente o barulho dos hinos cantados pelos crentes competiam com o gritos dos irmãos Mário[29] e Manoel Salviano tentando conscientizar e mobilizar a população em prol do projeto de emancipar Abreu e Lima de Paulista.

Numa terra cuja má fama se espalhava por toda região metropolitana do Recife e até fora, se via o rebuliço de políticos e pessoas importantes em volta de um mesmo projeto: Tornar Abreu e Lima uma cidade. Nessa época, Abreu e Lima tinha uma rica cultura popular, segundo Reginaldo Silva[30] :

[...] e a filosofia dos Lundgreen era não permitir nenhuma manifestação cultural do povo lá em Paulista e mandava fazer em Abreu e Lima. Na época ainda Maricota, na época se chamava Maricota, caboclinho, mandava se fazer em Maricota, pastoril, jogava pra Maricota, qualquer manifestação cultural do povo lá em Paulista ai mandava fazer em Maricota, até o carnaval de rua era proibido em Paulista, era permitido somente nos clubes.

Mas, a má fama da cidade era devido aos seus 142 prostíbulos espalhados pela cidade.   Desde muito tempo o local era parada obrigatória para os viajantes que vinham da Paraíba e do Rio Grande do Norte, a cidade se movimentava ainda mais nos finais de semana, devido a feira muito bem servida de frutas, verduras, crustáceos, peixes. Muitos moradores vinham da zona norte do estado para fazerem suas compras. O comércio era promissor, próspero. E por isso atraía também as mulheres que trabalhavam na prostituição, viajavam nas sextas-feiras de suas cidades mais interioranas para “a cidade dos cabarés”, e voltavam na segunda-feira levando dinheiro para suas famílias.

Na cidade onde crescia a prostituição, também crescia a mensagem pentecostal através da Assembleia de Deus. Havia uma disputa por espaço entre católicos e evangélicos . Contudo, o clima de disputa veio a se amenizar posteriormente. Mas, nem só da pregação vivia a Assembleia de Deus. A banda de música da AD organizada pelo Maestro Ferrolho[31] desde a década de 30, foi também um celeiro para novos músicos famosos na cidade e no mundo, como por exemplo, o Maestro Spok[32],  cujo talento é reconhecido internacionalmente.

A efervescência não era apenas na cultura, a política no distrito era bem ativa. Na política do distrito destacava-se o senhor Mário Salviano, professor de geografia pela FUNESO, criador de aves, era um político atuante na região. Mário Salviano Marques, filho de Pedro Salviano Filho, herdara do pai a vocação política. Já que Pedro Salviano tinha sido sub-prefeito do distrito por duas vezes. Herdou a vocação, mas também as amizades. E dessa amizade surgiu a oportunidade de transformar o distrito em cidade. Segundo ele, Abreu e Lima tinha uma importante participação política na cidade do Paulista:

[...] segundo distrito do município de Paulista, como ela tinha um desenvolvimento mais… com um desenvolvimento maior em relação aos outros distritos, então a gente sentiu a necessidade por aqui ter como a  um grande grupo político de pessoas que queriam realmente e interferiam totalmente na política de Paulista pessoas lideranças muito importantes, como Pedro Salviano, que era meu pai, Isaura de França, que era diretora do Colégio Mário Domingos, Antônio Amaro, Sebastião Gomes de Melo, “O Baixinha”, Severino Henrique, quer dizer era… era Dona Alice Leite, que era uma líder parteira da área da gente… então eram umas pessoas que tinham uma influência na política em Paulista, geralmente os prefeitos de Paulista se elegiam mais com a  votação de Abreu e Lima, que decidia, Abreu e Lima decidia os votos, isso aconteceu com Zé Veiga, com Geraldo Alves e os outros prefeitos da época.

Segundo Salviano, o distrito de Abreu e Lima elegera vários vereadores e tinha uma boa representatividade na Câmara de Paulista:

Papai foi subprefeito por umas duas vezes, Antonio Amaro também, e ai ia haver disputa, depois dessas disputas políticas é… mas, sempre eram amigos, mas não eram inimigos não, eram adversários, mas não eram inimigos, então quando aconteceu, de como Abreu e Lima sempre teve representatividade na Câmara, nós tivemos vereadores de Paulista como Manoel Passos, Severino Henrique, Antônio Ferreira, papai, todos eram vereadores de Paulista eleitos pela votação de Abreu e Lima, então sempre era um distrito que tinha representatividade na parte política.

De fato, as afirmativas do Sr. Mário Salviano são corroboradas pelas atas das reuniões dos vereadores da cidade do Paulista. O vereador Antônio Ferreira da Silva, por exemplo, já na primeira reunião do ano dos vereadores em 5 de janeiro de 1982 fazia requerimentos à COMPESA para aumentar a rede de encanação à rua Castro Alves, no bairro da Matinha, em Abreu e Lima. Sendo apoiado pelo vereador Anízio Bezerra dos Santos, que declarou nunca ser atendido nos requerimentos que fez à mesma em prol do mesmo bairro. E na mesma reunião, o vereador Anízio ainda lamenta o péssimo estado das ruas deste bairro.

Daí se entende a mobilização contrária do prefeito de Paulista na época, Ademir Cunha[33] , para a não emancipação da cidade. Contudo, graças a amizade do Sr. Mário Salviano com Ivanildo Severino, um comprador de aves da sua granja, o Sr. Mário teve contato com o deputado Nivaldo Rodrigues Machado[34] que comprou a ideia de transformar o distrito de Abreu e Lima em cidade.

Em pouco tempo, estava o deputado Nivaldo Machado na Granja do Sr. Mário Salviano, onde puderam conversar sobre política e o mesmo buscava angariar apoio na região, em troca desse apoio, o Sr. Mário Salviano pede que o deputado o ajude a realizar o sonho do seu pai falecido em transformar o distrito em cidade. Assim se formam as alianças políticas em volta do projeto de emancipação política.

Rapidamente, o grupo político da futura cidade estava envolvido na mobilização pela sua emancipação. E em pouco tempo, o mesmo grupo reunira-se com o governador Marco Maciel , que segundo Salviano abraçou a ideia da emancipação pelo vínculo que tinha com Pedro Salviano, pai de Mário Salviano. Com o governador do seu lado começa a luta pela emancipação política da cidade, onde dividiu-se os grupos direitistas e esquerdistas no distrito, segundo Salviano:

Daí vamos pra luta, ai lá vem as partes da burocráticas, durante esse período ai vem aquela história de fica ou não fica, vai ou não vai, dá tempo ou não dá, e também havia a oposição aqui porque, naquela você sabia que tinha os direitistas e os esquerdistas. Então como eu era do governo Marco Maciel[35], então eu era direitista, eu estava… porque Marco Maciel tinha me garantido, e aqui tinha aquele grupo de pessoas que eram da esquerda eram MDB autêntico, e não aceitavam, não que não aceitavam a emancipação, mas que não aceitavam a minha linha de atuação com Marco Maciel. E nisso criou-se um certo distanciamento de muitas pessoas.

Assim se formavam os grupos pró e contra a emancipação do distrito.  O vereador Jerônimo Gadelha de Albuquerque Neto[36], embora pareça ter sido contrário à emancipação do distrito no início do movimento, segundo relata seu adversário político Mário Salviano, Jerônimo embarcou na ideia posteriormente prevendo as inúmeras oportunidades. Pois, no dia 8 de janeiro de 1982, subiu à tribuna da Câmara Legislativa, Casa Torres Galvão de Paulista para afirmar que  esteve com um deputado “de fora”, sem citar nomes, com o propóstio de trazer para Abreu e Lima uma maternidade, um colégio de 5ª a 8ª séries e a emancipação do distrito.

É difícil de compreender como Jerônimo Gadelha tinha o apoio do governador Marco Maciel para emancipar a cidade, se o mesmo fazia oposição ao seu governo na Câmara de Paulista. Como se pode observar na Ata da sessão do dia 15 de janeiro de 1982 numa discussão com o vereador Antônio Alves de Oliveira, que era da bancada do Prefeito acerca do abandono do prefeito e do governador em relação à área educacional de Abreu e Lima:

[...]Na realidade o sr. Governador veio à Paulista, depois de três anos de administação e não tive a satisfação de presenciar nenhuma obra do seu governo em nosso município, e depois de três anos de adminitração, ele vem à Paulista num ano político e ainda assim, excluiu o distrito mais carente na educação que é o distrito de Abreu e Lima. (Ata da sessão, 15 de janeiro de 1982, pág.3).

Embora a pauta principal dos vereadores do Paulista no início de 82 fosse o aumento de 100 a 200% que o prefeito Ademir Cunha Prima queria dar para seus parentes na Prefeitura, o distrito de Abreu e Lima é sempre mencionado, mais vezes inclusive do que os outros distritos como Paratibe, por exemplo. O vereador Anízio Bezerra dos Santos era um dos vereadores que mais se pronunciava em favor de Abreu e Lima.

Enquanto a Casa Torres Galvão discutia tais assuntos, a mobilização à favor da emancipação crescia, contava com Manoel Salviano (Neco) que mobilizava a população nas casas, Eufrásio Balbino que por trabalhar na SUCAN[37], procurou delinear os limites da cidade, e desejavam que os limites se estendessem até a praia de Maria Farinha. A mobilização contava desde a assinatura de abaixo-assinados, a ida de ônibus lotados de moradores para as reuniões na Assembleia Legislativa, a fim de pressionar os deputados nas votações, até o plebiscito que decidiu a vontade da população local pela emancipação.

As discussões envolvendo a emancipação de Abreu e Lima ficaram acirradas à medida que chegava o grande dia do plebiscito. No dia 30 de abril de 1982, sob a presidência dos vereadores Geraldo de Almeida Sobral, a 4ª sessão extraordinária deu uma amostra da polêmica demarcação dos limites de Abreu e Lima:

[...] o sr. Presidente declarou facultada a palavra para tratar de qualquer assunto. Veio à Tribuna da Casa, o vereador Paulino Luiz da Silva, que diz: Sr. Presidente, srs. Vereadores, na sexta-feira próxima passada, tivemos nesta Casa os mais acirrados debates em relação aos limites definados pela Assembleia Legislativa com o apoio do governador do Estado, sr. Marco Maciel, que segundo o mapa, invadia o município do Paulista, principalmente na área do distrito de Paratibe, levando quase dois terços das indústrias, numa verdadeira sangria aos nossos limites. Chegamos ao ponto de dizer que, isso nada mais era do que um assalto às nossas indústrias. (Ata da sessão, 30 de abril 1982, pág. 3).

Os embates continuavam entre os vereadores à favor do Prefeito e os à favor de Abreu e Lima, dos quais Jerônimo Gadelha era um dos mais atuantes, sempre procurando mostrar que o distrito foi desprezado pela gestão do Prefeito Ademir Cunha. Os ânimos estavam bastante alterados às vésperas da emancipação. Outra reunião acalorada na Câmara dos Vereadores em Paulista foi a do dia 23 de abril de 1982, quando os vereadores Antônio Alves de Oliveira Neto e João Guilherme de Albuquerque que acusavam o deputado Nivaldo Machado e o governador Marco Maciel de estarem tentando “tomar” as maiores indústrias de Paulista com a demarcação dos limites da cidade. Embora ambos deixassem claro que não estavam contra a emancipação da cidade, mas contra “a mutilação” de um distrito, o de Paratibe. Afirmavam que estavam dispostos a irem na justiça para impedir a demarcação. Segundo eles, os representantes de Igarassu e São Lourenço da Mata que fizeram o mesmo em protesto pelo mesmo motivo. No caso, Camaragibe e Itapissuma, estavam para se emancipar de suas cidades.

Nesta mesma sessão, o vereador Anízio Bezerra defendeu Abreu e Lima, e afirmou que o governador estava certo. Foi então rebatido pelo vereador Antônio de Oliveira Neto, que diz:

V.Exa., é muito inteligente e tem obrigação de defender, mas defenda de verdade, sem querer arrancar de Paulista, o que Abreu e Lima nunca fez para conseguir. Seja valente, como o vereador Jerônimo Gadelha, o sr. Mário Salviano e o sr. Teófilo Ferreira, que com garra defendem os seus interesses. V.Exa., quer defender, defenda com inteligência, mas sem tomar nada do povo. Que o que Paulista tem hoje, conseguiu com muito suor. (Ata da Sessão, 23 de abril de 1982. Pág.3).

Este raciocínio também obteve o apoio do vereador Paulino Luiz da Silva, que complementou que “Abreu e Lima poderá se emancipar, mas jamais crescer com assalto quase à mão armada à soberania dos outros”. Mais uma vez o vereador Jerônimo Gadelha sobe à tribuna para defender Abreu e Lima, elogiando o governador por estar cumprindo sua palavra e ressaltando que ele estava encabeçando o movimento emancipatório. E por último, afirmou que Abreu e Lima cooperou com seus sessenta mil habitantes para o crescimento e progresso da cidade do Paulista. O vereador Paulino rebate Jerônimo afirmando que não via “razão para um filho que não tem condições de ser independente, sair da casa do pai, continuo dizendo que Abreu e Lima viva, mas com os próprios recursos”.

O debate continuou tendo como centro a questão de Abreu e Lima ficar com algumas indústrias que pertenciam ao distrito de Paratibe. Abreu e Lima arrercadava cerca de cento e trinta milhões de cruzeiros e seus sessenta mil habitantes contribuíram para o crescimento econômico de Paulista, argumentava Jerônimo Gadelha, acrescentando que não tinha ganância em ser prefeito de Abreu e Lima ou de qualquer lugar. Mas, Gadelha se candidatou depois, e recebeu apoio do vereador Anízio Bezerra dos Santos segundo consta na Ata do dia 7 de julho de 1982, pág. 3.

Na Ata de Sessão Solene, em 5 de junho de 1982, convocada para entrega do título de cidadão ao sr. Manoel Gonçalves da Silva, Ademir Cunha, agora candidato a deputado declarou, provavelmente de olho nos votos dos abreuelimenses:

[...]quero aproveitar esta oportunidade para dizer aos amigos de Abreu e Lima, que nunca fui contra a sua emancipação, longe de mim tal pensamento, pois como prefeito na época poderia ter impetrado um mandato de segurança e isso eu não fiz, pois todos nós queremos bem à Abreu e Lima, é como se fosse uma filha, e qual o pai que não quer bem a uma filha? (Ata da sessão solene, 5 de junho de 1982. Pág. 3)

Mas, a oposição não era apenas local, liderada pelo prefeito Ademir Cunha Primo com suas páreas na Câmara de Vereadores de Paulista, na ALEPE se travava um debate semelhante em relação se Abreu e Lima, Camaragibe e Itapissuma atendia ao requisito de renda pública previsto na Lei Complementar Nº1, que dispõe de condições para serem transformados em municípios. Segundo a Lei o distrito deveria participar com percentual igual ou superior a 0,5% da arrecadação estadual de impostos. Segundo o deputado Nivaldo Machado, Abreu e Lima contribuiu com 278 milhões de Cruzeiros, representando 0,75% do total estadual. Contudo, o secretário Everaldo Maciel continuava a criticar a Lei e a emancipação dos distritos.

A oposição era grande dentro da ALEPE como se vê na notícia seguinte:

Revoltado com a atitude dos peemdebistas, o deputado Severino Otávio do PDS, ocupou a tribuna para criticar tal medida afirmando que ‘é triste o que a oposição faz nesta casa, [...]. Eles querem prejudicar os distritos de Abreu e Lima, Camaragibe, Ponte dos Carvalhos e Itapissuma que esperam serem transformados em Municípios, evitando que isto ocorrer antes de 15 de maio’[38].

Os jornais começavam a noticiar como certa a emancipação de Abreu e Lima. Segundo o Jornal Diário da Manhã, a Comissão de Constituição, Legislação e Justiça solicitou dois documentos para instruir o processo de emancipação. Um dirigido ao Desembargador Augusto Duque, Presidente do Tribunal Regional Eleitoral e o outro ao Dr. Eliezer Menezes, Diretor Geral da Receita. Na mesma notícia o ex-vereador de Paulista, Oscar Matias, “O Raça”, era o mais cotado para ser o interventor que governaria a cidade com apoio do grupo político local até as eleições de 1982. “O Raça” contava ainda com apoio do Deputado Nivaldo Machado.[39]

A presença dos moradores de Abreu e Lima na Assembleia Legislativa surtiu efeito nas mídias locais como se vê na notícia a seguir:

Dirigidos pelo secretário do deputado Nivaldo Machado, Joaquim França, moradores do Distrito de Abreu e Lima, que compareceram ontem, à sessão ordinária da Assembleia Legislativa do Estado, vaiaram e gritaram slogans contra os parlamentares peemedebistas, que tentavam, através de discurso esclarecer ao povo os motivos que levaram a obstruir a pauta daquela Casa, que entre outras coisas, entrava em discussão os Projetos de Emancipação dos Distritos de Abreu e Lima[...]. [40]

Com o apoio do deputado Nivaldo Machado, tornado presidente da Assembleia Legislativa por uma emenda pelo governador Marco Maciel, e do próprio governador, o grupo segue adiante na sua luta e angaria o apoio do líder religioso de Abreu e Lima, pastor Isaac Martins Rodrigues. Nivaldo já tinha sido vereador e prefeito de Olinda, conhecia o pastor Isaac Martins, líder da Assembleia de Deus em Abreu e Lima que já contava com um bom número de fiéis. O pastor Isaac Martins já possuía uma visão independente e progressista, abraçou a idéia e mobilizou os fiéis da Assembleia de Deus para apoiar a emancipação, segundo Salviano:

[...] tinha pessoas ligadas ao pastor Isaac que participavam ativamente como capitão Alfaite, o pai do prefeito atual Marcos José, era assíduo lá em casa fervoroso, agente andava e ia no Palácio para cima e pra baixo, era o porta-voz do pastor Isaac, tinha Zequinha, que era antigo também aqui que era o corneteiro de Abreu e Lima né, da banda da escola, tinha também a família Flor, Zé Flor, participou muito com a gente, tinha também, Salatiel Carvalho deu uma força, deu todo apoio, porque ele era genro do pastor Isaac, aquela menina, Vilma, esposa do Pastor Marcos José, participava muito.

Ainda segundo Salviano, o pastor Isaac foi pessoalmente diversas vezes no Palácio Campo das Princesas falar com o governador em prol do projeto. Mas, não era apenas Mário Salviano que estava já de olho na prefeitura da futura cidade de Abreu e Lima, o vereador Jerônimo Gadelha, que fazia oposição ao prefeito de Paulista há mais de seis anos, também visava a futura prefeitura:

[...]Quero adiantar que tenho considerações por todos os meus colegas, reconheço a fora eleitoral que eles tem, e fui ao governador lutar pela emancipação de Abreu e Lima; mas, antes disso, os meus amigos de Abreu e Lima se anteciparam e lançaram minha candidatura à prefeitura de Abreu e Lima e eu aceitei. (Ata da sessão, 30 de abril de 1982, pág. 5).

As reuniões pela emancipação aconteciam no Clube do Vera Cruz, cedido pela Dona Luluzinha, que segundo Salviano o local se transformou no quartel general da emancipação da cidade. Os diretórios políticos dos distritos já se mobilizavam para lançar os nomes para a futura prefeitura de Abreu e Lima, segundo o Jornal do Comércio, o nome do ex-vereador Willibaldi França, conhecido como Babá, era o mais cotado como candidato. Simultaneamente, o governador Marco Maciel já se preocupava em nomear os interventores para assumir os distritos pelo prazo de seis meses até o pleito do dia 15 de novembro, onde seriam eleitos os futuros prefeitos das novas cidades.

As discussões sobre quem seria o interventor em Abreu e Lima ficaram acirradas, pois o prefeito de Paulista foi contra o nome do ex-prefeito Ubyratan de Castro, que foi sondado para possivelmente ocupar este cargo. Assim, Ubyratan fez um desabafo público no jornal Diário da Manhã desafiando o Sr. Cunha Primo:

“Quando nasci, Paulista era distrito de Olinda, tornando-se cidade a partir de 1929. Portanto, sou olindense e paulistense ao mesmo tempo. Agora, o Sr. Cunha, esse sim é que um ‘estranho no ninho’, pois vai numa leva de matutos, num caminhão “pau de arara” em uma das muitas vezes que os Lundgreens, aproveitando a fome motivada pelas secas quando assolavam a Paraíba, mandava buscar esses necessitados para povoarem suas fábricas.” Foi mais além: “Qual autoridade possui o Sr. Cunha Primo para fazer restrições a esse ou aquele nome, indicado à interventor no futuro município, quando ele próprio foi contrário à emancipação do município de Abreu e Lima.”[41]

Os interesses estavam em jogo. As eleições para governador, senador e deputados estavam próximas. As articulações políticas se angajavam em torno dos nomes mais favoráveis para a vitória. Em Abreu e Lima era necessário oficializar a vontade popular pelo projeto de emancipação. Por isso, foi realizado um plebiscito realizado pelo Tribunal Regional Eleitoral. Segundo o Jornal Diário da Manhã, o plebiscito para definir oficialmente a opinião da população foi realizado pelo Superior Tribunal Eleitoral simultaneamente em Ponte dos Carvalhos, Abreu e Lima, Araçoiba e Camaragibe no dia 09 de maio de 1982.   Lembra Salviano que fora um domingo chuvoso, e mesmo assim num distrito com seis mil eleitores, quase quatro mil compareceram e disseram “sim” à emancipação do distrito.

O distrito de Abreu e Lima estava em euforia com a possibilidade de se tornar um município, era como se fosse a “salvação da Pátria”. Os moradores estavam animados: “Vamos deixar de ser interior e passar a ser cidade. A água já chegou, o transporte já melhorou, só falta agora ter prefeito.” Dizia Dona Iracema Guimarães Lopes, moradora de Caetés Velho ao Jornal do Comércio em entrevista publicada no dia 25 de abril de 1982. Na mesma reportagem o sr. Elias Sales, dono da Farmácia União foi taxativo: “vou votar pelo ‘sim’ e farei campanha para que todos sejam a favor da emancipação. Haverá muitas vantagens, inclusive melhor aproveitamento dos recursos.” Politicamente não quis indicar o seu candidato a prefeito, salientando que é do PDS e que “tanto Mário Salviano como Francisco Barros e Jerônimo Gadelha são ótimos nomes à prefeitura da cidade”. Assim o assunto principal em Abreu e Lima era o plebiscito, que trouxe esperança de melhorias numa época de muitas dificuldades nas áreas de saúde, educação e segurança.

O movimento contava com o apoio da Assembleia de Deus, na figura do pastor Isaac Martins Rodrigues, dos comerciantes, de membros da elite local e dos maiorais do governo e agora da própria população, a luta pela emancipação foi bastante acirrada e com pouquíssimo tempo. A oposição na ALEPE obstruía a pasta de votações porque não aceitava a imposição do governador Marco Maciel em colocar Nivaldo Machado como presidente da Câmara, impedindo assim a votação do projeto de emancipação.

Houve, todavia uma possibilidade às vésperas do plebiscito de que ele fosse suspenso, segundo a imprensa, “os prognósticos de observadores políticos nos vizinhos municípios” estavam duvidosos de que ela realmente aconteceria. Para a imprensa, Abreu e Lima que possuía 14.200 eleitores registrados não teve uma devida mobilização para que os eleitores votassem “Sim” no plebiscito, além de não ter indústrias suficientes para sobreviver. Pois, as indústrias locais ainda gozavam da isenção de impostos. Eram oito candidatos a prefeito em Abreu e Lima. E, os políticos de Paulista estavam certos de que os dois terços do eleitorado, em média 8 mil não iriam votar voluntariamente. Para piorar a situação, o dia 9 de abril era um domingo, dia das mães e o Prefeito de Paulista iria realizar a maior festa do ano, a inauguração do Estádio de Futebol Ademir Cunha, para a qual o povo já estava sendo convidado há dois meses.

Embora tudo concorresse contra o plebiscito, o TRE realizou o plebiscito no dia 9 de abril, apurou os votos no dia 10 e entregou o resultado à Assembleia Legislativa no dia 11 de maio. A população de Abreu e Lima compareceu e votou pelo “Sim”, afirmando oficialmente que estavam de acordo com a transformação do distrito em cidade.

Cerca de um mês depois, representantes de Abreu e Lima foram para ALEPE para pressionar os deputados na aprovação dos projetos. Os deputados peemdebistas que estavam contra a emancipação experimentaram uma derrota determinada por quase duas mil pessoas que lotavam as galerias da ALEPE nos dias 12 e 13 de maio de 1982. Os moradores de Abreu e Lima, Camaragibe e Itapissuma compareceram e vaiaram o deputado Hugo Martins e ostentavam cartazes com legendas: “Queremos a aprovação dos projetos” e gritavam “Fora os comunistas” ou “abaixo os radicais”. O tumulto foi grande, o PMDB afirmou que votaria à favor, mas o povo não se calava. Para os deputados era impossível resistir à vontade do povo. A população de Abreu e Lima se fez presente pressionando pessoalmente os deputados da oposição, que finalmente votam e aprovam por unanimidade a pauta das emancipações.

Toda essa movimentação final, do plebiscito em 9 de maio até a assinatura em 14 de maio, foi definido os limites de Abreu e Lima, aprovando o projeto e o governador exercendo seu último ato como governador, assinou a Lei em 14 de maio de 1982.

Segundo Salviano, a emancipação de Abreu e Lima só foi possível com acordos políticos de deputados da oposição que tinham interesse políticos em emancipar Itapissuma e Camaragibe.

Para o deputado Sérgio Longman, líder da bancada:

É uma conquista do povo, que sem dúvida nenhuma contou com o apoio da oposição. Tanto assim que, dois dos Projetos são de autoria de parlamentares peemedebistas. Embora entendamos que, nesse momento, é muito mais uma jogada política do Governo, tentando beneficiar o Partido do Governo, mesmo assim votamos favoravelmente, porque acreditamos que é um passo para a efetiva libertação do povo.[42]

Porque foi tão apertada e rápida a assinatura dessa Lei de emancipação? Explica Salviano:

E isso em cima da hora, porque estava tudo em cima da hora, e Marco Maciel ia ter que se afastar do governo por que ele ia ser candidato a senador, Nivaldo Machado ia ser o suplente dele, Roberto Magalhães que era o vice ia ser candidato a governador, Gustavo Krausen ia ser o vice-governador quem ia assumir o governo ia ser Zé Ramos, que era o presidente atual da Assembleia, entendeu? Aí, com esse corre-corre danado, Sérgio Ramos que era um dos defensores da esquerda, eu lembro muito bem, deu um discurso falando contra a emancipação falando que era uma coisa absurda que o governo queria fazer, porque queria fazer redutos eleitoreiros, essa história toda [..].

Apesar da oposição do então prefeito de Paulista, Ademir Cunha, de um grupo de vereadores e políticos do distrito, do PMDB e de outros na ALEPE[43], Abreu e Lima se torna cidade em 15 de maio de 1982, que é quando a Lei é publicada no Diário Oficial, mas, devido à festança promovida pelos novos munícipes em comemoração à emancipação, o dia 14 ficou oficializado na mente e no coração dos abreuelimenses, de forma que na bandeira oficial consta 14 de maio de 1982.

No mesmo ano, no dia 15 de novembro de 1982, ocorre as eleições municipais, onde Jerônimo Gadelha de Albuquerque Neto, vereador em Paulista, ganha as eleições municipais. Todavoa, há na cidade a história popular de que houve fraude nas eleições, versão corroborada pelo seu principal concorrente na época, Mário Salviano.

Com o município formado, e em 1983 com prefeito e vereadores eleitos, a cidade passa por mudanças drásticas, como o fechamento dos cabarés que levavam a má fama da cidade afora. Nesses cabarés havia manifestações culturais com apresentações de tocadores de violas, sanfoneiros, e músicos de qualidade. Mas, alguns acolhiam mesmo maus elementos que encontravam abrigo. Os cabarés de Abreu e Lima eram lugares perigosos, é o que registra os históricos de homicídios dentro dos cabarés. Como no caso do jovem Valmir Gomes dos Santos, que tinha 18 anos quando foi assassinado com três tiros de revólver no Cabaré do Pacheco, no bairro de Caetés, em Abreu e Lima no dia 11 de março de 1981. Segundo o jornal, o comentário era que o próprio dono do bordel havia praticado o crime. Mas, a polícia, por algum motivo não havia resolvido o caso.  E este já era o terceiro caso no mesmo bordel sem que a polícia resolvesse o caso ou sequer prendesse o proprietário.[44]

As notícias de violência na localidade vão evoluindo de “facadas” a tiros de “revólver” que se torna cada vez mais comum nas páginas policiais dos jornais. Reginaldo Silva afirma que os cabarés tinham vários nomes, alguns levavam nomes de novelas da época, como “Bem Amado”, e outros mais conhecidos eram:

Biu Nova, Biu Reboque, Mocinha, Dolores, Índia, Barbosa, Maria Gomes, e o Alto do Alberto Brito, Alto do Alberto Brito de um lado e de outro era, era o dono do terreno lá, e tinha o nome de novela: Bem Amado, tinha o Espigão, o Bem Amado tinha muita prostituição, tinha tráfico de drogas, bandido, assaltantes, ladrão, …

Ainda segundo o vereador da época, Reginaldo Silva, a iniciativa da Câmara Municipal de fechar os cabarés de Abreu e Lima foi de autoria do vereador Severino Farias, que juntamente com outros vereadores enviou o requerimento ao prefeito. O mesmo enviou ofícios para os 142 prostíbulos que haviam na cidade e propôs ajuda da prefeitura para que os interessados em mudar de ramo pudessem começar um novo negócio, como farmácias e armazéns de construção.  Cerca de vinte prostitutas que eram residentes em Abreu e Lima foram empregadas na prefeitura como merendeiras, garis, zeladoras. Embora 90% delas fossem de outras cidades, conforme explicamos outrora.

O fechamento dos prostíbulos não foi algo tão simples e nem pacífico. Houve resistências, como foi o caso de um localizado no bairro da Matinha. O caráter autoritário digno dos coronéis da Velha República dado à Jerônimo Gadelha deve-se ao fato da sua aproximação com o deputado Osvaldo Rabelo, que controlava a Polícia Civil no estado de Pernambuco, no início da década de 80[45].  Essa aproximação com o controlador da Polícia Civil deu à Jerônimo ousadia para agir com autoridade policial e sem mandado judicial para fechar os cabarés que ainda resistiam, como aconteceu no sr. José Rodrigues da Silva, na Matinha, que foi fechado à força pelo próprio prefeito.

Assim se fecharam os prostíbulos de Abreu e Lima, e cresceram e se multiplicaram as igrejas. O prefeito adotou políticas de contato direto com a população, e nessas reuniões comunitárias, as igrejas e pastores que solicitavam ajudas em materiais de construção recebiam de bom grado do prefeito. Assim, muitas igrejas de diversas denominações receberam ajuda para serem construídas. A década de 1980 foi uma época de grandes mudanças para o distrito de Abreu e Lima, desde a sua transformação em cidade, até uma revolução moral com os fechamentos dos cabarés e abertura de muitas igrejas. Como afirma Max Weber, em seu livro, “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, que a religião pode ser tomada como um sistema de valores que pode justificar e exprimir determinadas práticas sociais e econômicas e até mesmo possibilitar mudanças estruturais na sociedade. [46] Abreu e Lima é um exemplo prático dessa tese de Weber de como a religião pode influenciar uma sociedade. Em 2017 a cidade tem um pastor da Assembleia de Deus, Marcos José, como prefeito eleito democraticamente.

CONCLUSÃO

A cidade atualmente ocupa uma área territorial de 126,193 km², com uma população estimada de 99.364 pessoas em 2017, e é a 13º cidade mais populosa do Estado de Pernambuco, segundo dados do IBGE. Em 2014, tinha um PIB per capita de R$ 13565.09. Na comparação com os demais municípios do Estado, sua posição era de 20 de 185.[47] Segundo o FIDEM, em 2016, a cidade tinha 79.789 eleitores e 11 vereadores.[48] O setor de serviços, do qual o comércio está incluído, contribui com 74,86% [49]da renda do PIB na economia do município confirmando que desde a barraca de Dona Maria, “a Maricota” até os dias atuais o lugarejo se destaca pelo comércio à beira de uma das mais importantes rodovias do Brasil.

Escrever pela primeira vez a história da emancipação de uma cidade é uma tarefa que exige um trabalho e esforço surpreendente, sobretudo na busca das fontes disponíveis para a construção de uma narrativa histórica. Para este artigo foi preciso muitos cortes, devido à quantidade de informações colhidas. Contudo, é possível identificar os papéis preponderantes dos nomes políticos que contribuíram para o nascimento da cidade de Abreu e Lima. Bem como seu processo político e interesses envolvidos. Apresenta-se, portanto, um trabalho inédito da narrativa histórica do surgimento de uma das cidades mais importantes do Estado de Pernambuco.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU E LIMA, Assembleia de Deus em. Síntese Histórica – 90 Anos. Flamar, Recife, 2008.

ALENCAR, Gedeon, Assembléia de Deus: Origem, Implantação e Militância (1911-1946), 1ª edição, Arte Editorial, São Paulo, 2010.

ANDRADE, Manuel Correia de. Economia pernambucana do século XVI. Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2003.

ARAÚJO, Isael, Dicionário do Movimento Pentecostal, CPAD, 1ª edição, Rio de Janeiro, 2007.

GAMA, Luiz. MAZIN, Angelo Diogo. Expressão Popular, 1ª Ed. São Paulo. 2006.

KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Tradução de Luís Câmara Cascudo. 2ª Ed. Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado de Pernambuco. Recife, 1978.

PEREIRA DA COSTA, Francisco Augusto. Anais Pernambucanos. 2ª edição. Recife: Fundarpe, 1983.

WEBER, Max (2004). A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (São Paulo: Companhia das Letras (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo).


[1] Um resumo historiográfico sobre os primórdios da ocupação da localidade que hoje se compreende a cidade de Abreu e Lima/PE até sua emancipação política.

[2] Bacharel e Licenciatura em Teologia pela FETEV/PR. Licenciatura em História pela UFPE. Graduando em Bacharelado em História pela UFPE.

[3] http://blogs.diariodepernambuco.com.br/historiape/index.php/2016/03/14/duarte-coelho/. Acessado dia 23 de novembro de 2017.

[4] ANDRADE, Manuel Correia de. Economia pernambucana do século XVI. Recife, Ed. Universitária da UFPE, 2003. Pág. 29.

[5] O historiador Francisco Augusto Pereira da Costa defende a tese de que a emancipação foi concedida em recompensa por Alagoas não ter aderido ao movimento republicano, a Insurreição pernambucana de 1817, mantendo-se fiel à Portugal.

[6] ANDRADE, Obra citada. Pág.34.

[7] ANDRADE, Obra citada. Pág.39 e 47.

[8] PEREIRA DA COSTA, Francisco Augusto. Anais Pernambucanos. 2ª edição. Recife: Fundarpe, 1983. Vol. 1. Pág. 208. A monumental obra de Pereira da Costa reúne informação histórica sobre Pernambuco ao longo de quatro séculos e foi dividida em vários volumes. A obra consultada está disponível no Arquivo Público da cidade de Olinda.

[9] ABREU E LIMA, Assembleia de Deus em. Síntese Histórica – 90 Anos. Flamar, Recife, 2008. Pag. 31.

[10] PERNAMBUCO. Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condempe Fidem). Município Abreu e Lima. Recife, 2015. Disponível em: http://www.condepefidem.pe.gov.br/c/document_library/get_file?p_l_id=18393234&folderId=18394117&name=DLFE-89503.pdf. Acesso em: mar. 2015.

[11] PEREIRA, Francisco Augusto. Op. Cit. Pág. 404.

[12] KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Tradução de Luís Câmara Cascudo. 2ª Ed. Secretaria de Educação e Cultura do Governo do Estado de Pernambuco. Recife, 1978.

[13] KOSTER. Obra citada. Pág. 211.

[14] RECIFE, Jornal do. Recife, 28 jun.1928. Matou com uma facada ao amigo de outros tempos. p. 7.

[15] Diário da Manhã, 26 de setembro de 1934, Pág. 4.

[16] ABREU E LIMA, op. Cit. Pag. 32.

[17] Herman Theodor Lundgren chegou ao Brasil em 1855, com 20 anos de idade. Em 1904, já naturalizado brasileiro, casado com Ana Elizabeth, pai de cinco filhos, comprou a propriedade dos Rodrigues Lima, que por sua vez havia sido dos Padilha e Cia Ltda. Após sua morte, em 1907, os seus filhos e sucessores, Alberto, Frederico e Arthur Lundgren assumiram a indústria que se transformaram em fonte de progresso e riquezas. ALCÂNTARA, Laurita Maria de. História de Paulista. Pág. 16. Centro de Educação-UFPE, junho de 2002.

[18] O próprio missionário relatou este acontecimento no periódico da Assembleia de Deus em Recife – Voz Pentecostal, em fevereiro de 1933.

[19] Segundo Araújo (2007), Torres Galvão era um político considerado progressista, com fortes preocupações sociais e, como líder que era, organizou o Sindicato de Fiação e Tecelagem em Paulista – PE. Enfrentou a poderosa família Lundgren proprietária das Casas Pernambucanas, defendendo interesses dos funcionários pertencentes a essas empresas. Ele se tornou deputado estadual em 1946, presidiu a Câmara e assumiu o governo de Pernambuco por 110 dias após a morte do governador Agamenon Magalhães.

[20] http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/cidades/noticia/2012/06/30/pernambuco-e-o-estado-com-a-maior-concentracao-de-evangelicos-do-nordeste-47456.php (Acessado dia 15.07.16).

[21] Arquivo do IBGE. Conf. https://archive.is/Gg8QA.

[22] GAMA, Luiz. MAZIN, Angelo Diogo. Expressão Popular, 1ª Ed. São Paulo. 2006.

[23] Diário da Manhã, “A toponímia do Estado”, 28 de maio de 1939. Pág. 14.

[24] Diário da Manhã, “Fatos do Dia”, 29 de março de 1942. Pág. 5.

[25] Diário da Manhã, “Vida Administrativa”, 5 de fevereiro de 1942. Pág. 4.

[26] Diário da Manhã, “O Aniversário do Presidente Vargas Festividades que se realizarão neste Estado em homenagem à Data”, 17 de abril de 1942. Capa.

[27] https://seuhistory.com/hoje-na-historia/morre-cantora-elis-regina. Acessado dia 19/06/2017.

[28] Antonio Baracho da Silva, O Mestre Baracho da Ciranda, cujo nome era Antônio Baracho da Silva, nasceu em Nazaré da Mata, em Pernambuco. Ainda muito pequeno, mudou-se para Abreu e Lima, onde passou a maior parte da vida. Foi um grande compositor de cirandas, e foi também Mestre de Maracatu. Como nunca se preocupou com os registros legais da autoria, várias de suas composições foram gravadas por outros artistas, sem menção à sua autoria. Ele faleceu em 1988, aos 81 anos, de câncer na garganta, em decorrência de anos fumando. Esse é um dos poucos registros de sua ciranda. Ele tem a famosa Lia de Itamaracá, mas tem outras belas canções, como Minha Melodia.

[29] SALVIANO, Mário Marques. Professor de Geografia pela FUNESO. Político militante pela emancipação da cidade de Abreu e Lima. Entrevista concedida em 05 de junho de 2017.

[30] PEREIRA, Reginaldo da Silva. Contabilista, ex-vereador de Abreu e Lima, e atual assessor de cultura da Prefeitura da Cidade de Abreu e Lima. Entrevista concedida em 05 de junho de 2017.

[31] Sargento da Polícia Militar, vindo da Paraíba e principal organizador da Banda de música da Assembleia de Deus.

[32] Inaldo Cavalcante de Albuquerque. Saxofonista, nascido em Igarassu, cresceu e teve sua juventude em Abreu Lima e indo para Recife aos 16 anos, ele é apontado por especialistas como o mais novo embaixador do frevo.

[33] Ademir Cunha. Deputado federal por PE 1997-1998, 1999. Ademir Barbosa da Cunha nasceu em Paulista (PE) no dia 23 de julho de 1942, filho de Severino Cunha Prim o e de Maria Barbosa da Cunha. Foi prefeito de Paulista, deputado estadual e federal. http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/ademir-barbosa-da-cunha. Acesso dia 19/06/2017.

[34] Nivaldo Rodrigues Machado nasceu em Olinda (PE) no dia 21 de janeiro de 1921, filho de Antônio Rodrigues Machado e de Jesuína Rodrigues Machado. Foi vereador duas vezes em Olinda, prefeito na mesma cidade, deputado estadual e Senador por Pernambuco. Faleceu em Olinda, 27 de janeiro de 2006.

[35] Marco Maciel (1940) é um advogado, professor e político brasileiro. Exerceu diversos cargos políticos, entre eles, o de Governador de Pernambuco e o de Vice-Presidente da República, na gestão de Fernando Henrique Cardoso. É titular da cadeira nº 22 da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Brasileira de Letras.

[36] Jerônimo Gadelha De Albuquerque Neto. Nasceu no dia 03/07/1946, foi prefeito da cidade de Abreu e Lima por vários mandatos, e recentemente teve sua candidatura barrada no TSE pela Lei da Ficha Limpa.

[37] Da Sucam, órgão que resultou da fusão do Departamento Nacional de Endemias Rurais (DENERu), da Campanha de Erradicação da Malária (CEM) e da Campanha de Erradicação da Varíola (CEV), a Fundação herdou experiência e conhecimento acumulados, ao longo de várias décadas, de atividades de combate às endemias de transmissão vetorial, que transformaram a Sucam no órgão de maior penetração rural no país. Sua estrutura operacional estava presente em todos os Estados brasileiros. Fonte: http://www.funasa.gov.br/site/museu-da-funasa/sucam/ (Acessado dia 14 de junho 2017).

[38] DIÁRIO DA MANHÃ. Pinga Fogo. Recife, sexta-feira, dia 07 de maio de 1982, pág. 4.

[39] Diário da Manhã, “Pingos”, 14 e 15 de junho de 1981. Pág. 6.

[40] DIARIO DA MANHÃ. Pinga Fogo. Recife, quinta-feira, dia 13 de maio de 1982, pág. 4.

[41] Diário da Manhã, “Pingos”, 21 e 22 de junho de 1981. Pág. 6.

[42] DIÁRIO DA MANHÃ. Pinga Fogo. Recife, sexta-feira, dia 14 de maio de 1982, pág. 4.

[43] Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco.

[44] Diário da Manhã, “Notícias Policiais”, 12 de março de 1981. Pág. 11.

[45] Segundo Zaverucha, Osvaldo Rabelo (PFL) foi inspetor da área de conflitos no Estado de Pernambuco em 1982, ex-deputado, controlava politicamente a Polícia Civil do Estado, conseguiu sete mandatos e suplência de cargos na Assembleia Legislativa de Pernambuco no período estudado.  ZAVERUCHA, Jorge. Policia Civil de Pernambuco: O Desafio da Reforma. Editora da UFPE, Recife, 2003. Pág. 62.

[46] WEBER, Max (2004). A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (São Paulo: Companhia das Letras (Tradução de José Marcos Mariani de Macedo).

[47] https://cidades.ibge.gov.br/brasil/pe/abreu-e-lima. Acessado dia 27 de novembro de 2017.

[48] http://www.bde.pe.gov.br/ArquivosPerfilMunicipal/Abreu%20e%20Lima.pdf.pdf. Acessado dia 27 de novembro de 2017.

[49] Ibidem.

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Last Edit: 08 dez 2017 @ 09 44 PM

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

Curso de Licenciatura em História

História de Pernambuco

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva


Recife, 2017.

LIGAS CAMPONESAS:

PROTAGONISMO DOS CAMPONESES ATÉ A CONJUNTURA DO GOLPE DE 1964

Merielen Caroliny de Araujo Mota[1]

RESUMO

As massas populares reproduzem suas insatisfações em formas de protestos e movimentos sociais, nesta pesquisa requisitada como trabalho de conclusão da disciplina de História de Pernambuco, ministrada pelo professor Severino Vicente, nos ateremos as ligas camponesas criadas em 1954, como movimento de mobilização dos trabalhadores rurais em busca da modernização das relações de trabalho do meio rural. Esta é uma pesquisa exploratória baseada em um levantamento bibliográfico sobre o tema.

Palavras-chaves: Camponês, Liga Camponesa, Movimentos sociais.

RESUMEN

Las masas populares reproducen sus insatisfacciones en formas de protestas y movimientos sociales, en esta investigación solicitada como trabajo de conclusión de la disciplina de Historia de Pernambuco, impartida por el profesor Severino Vicente, nos la tendremos las ligas campesinas de 1955, como movimiento de movilización de los trabajadores rurales en buscando la modernización de las relaciones de trabajo del medio rural. Es una investigación exploratoria basada en un levantamiento bibliográfico sobre el tema.

Palabras claves: Campesino, Liga Campesina, Movimientos Sociales.

ABSTRACT

The masses popular reproduce your dissatisfactions in forms of protest and social movements, in this research requested as work completion of the discipline of History of Pernambuco, given by teatcher Severino Vicente, us we will have the alloys peasant 1955, as movement mobilization of rural workers in search of modernization of labor relations of rural areas. This is an exploratory research based on literature on the topic.

Key words: Boor, League Peasant, Social Movements.

INTRODUÇÃO

As primeiras ligas camponesas surgem entre 1947 e 1949 ligadas ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), após o mesmo ter sido colocado na ilegalidade, pelo então presidente da República Eurico Gaspar Dutra, as ligas desaparecem. Ressurgindo em 1954, sem o aparato partidário, de caráter beneficente, assistencialista e por iniciativa dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do Engenho Galiléia, posteriormente, se expandem por Pernambuco e outros estados, com o intuito de mobilizar e organizar camponeses, na luta pela distribuição de terras para o homem do campo e a transformação das relações de trabalho, até serem interrompidas pelo golpe civil-militar de 1964.

AS LIGAS CAMPONESAS DO PCB

O historiador Souza Bastos (1993) registra que em 1914 volta do Rio de Janeiro, o pernambucano José Elias da Silva, com o objetivo de divulgar as resoluções do II Congresso Operário e inicializar a sindicalização dos operários do Recife. No período entre 1945 e 1947, o PCB buscando “ampliar o raio da sua ação e da sua presença até o campo, onde, espera arregimentar uma clientela eleitoral que neutralize, em parte, o poder dos currais eleitorais sob o domínio das oligarquias coronelistas”[2], implantam as ligas rurais tendo como pauta debates partidários e ideológicos, assistência judicial e farmacêutica. Há registros de ligas em cidades como Escada, Goiana, Pau D`Alho e Iputinga, em Pernambuco e em estados, até 1947 quando o PCB é colocado na ilegalidade, no governo Dutra, e a repressão aos projetos ligados ao partido, encerram as atividades das ligas. Será José dos Prazeres, antigo líder da Liga de Iputinga, relacionada ao PCB, que aconselhará em 1954 os camponeses de Galiléia a criem uma associação.

A MULHER CAMPONESA

O Movimento de Mulheres Camponesas emergido nas últimas décadas do século XX, institui a mulher camponesa como “aquela que, de uma ou de outra maneira, produz o alimento e garante a subsistência da família. É a pequena agricultora, a pescadora artesanal, a quebradeira de coco, as extravistas, as arrendatárias, meeiras, ribeirinhas, posseiras, boias-frias, diaristas, parceiras, sem-terra, acampadas e assentadas, assalariadas, rurais e indígenas”.[3]

A partir da década de 80 a figura da mulher camponesa passa a ser pauta de movimentos e análises, como o período de estudo é anterior, promovendo certa dificuldade para encontrar fontes bibliográficas, optamos como fonte o documentário Cabra Marcado para Morrer, dirigido por Eduardo Coutinho[4], extraindo para análise Elizabeth Teixeira, esposa de João Pedro Teixeira, ambos líderes da liga camponesa de Sapé, na Paraíba, a qual chegou a contar com dez mil associados.

Tomando como base o registro oral no documentário citado, Elizabeth Teixeira, assim como outras camponesas, auxiliava na divulgação e mobilização de camponeses para as reuniões das ligas, participava e discursava em passeatas, sendo associada diretamente ativa nas ligas. Apesar da estrutura familiar patriarcal, ainda mais forte no campo, a figura de Elizabeth comprova a ação das mulheres camponesas engajadas nas mobilizações e ligas, protagonistas na história de luta dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

AS LIGAS CAMPONESAS

O cenário político nacional era de instabilidade, após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, havia certa pressão dos grupos conservadores para que o candidato eleito Juscelino Kubitschek não assumisse a presidência, o que não aconteceu. A nova administração presidencial era pautada na construção de Brasília, na modernização e industrialização nacional e trazia a bandeira da ampliação das liberdades democráticas, as quais segundo Morais (1965) permitiram a propagação de temas como reforma agrária e a fome que atingia principalmente o Nordeste brasileiro, resultando diretamente na posterior expansão das ligas.

Em Pernambuco, o movimento contrário a Lei Orçamentária do Estado, lançou e elegeu pela União Democrática Nacional (UDN), o usineiro Cid Feijó Sampaio, através da Frente Popular formada pelo Partido Social Democrata (PSD), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Partido Democrata Cristão (PDC), Partido Socialista Brasileiro (PSB) e a UDN. Segundo a historiográfica e didática de Silva (2014), a administração de Cid Sampaio tinha o intuito de realizar “uma política voltada para a industrialização do Estado e o encaminhamento de soluções para os problemas vividos na área rural”.

A década de 50 e o início da década de 60 foram fortemente influenciadas pela esperança no futuro, pela criação do projeto de uma nação desenvolvida com a participação política e social dos trabalhadores. Considerando a ampliação dos direitos sociais como fator necessário para o bem-estar da sociedade e assim para o desenvolvimento do país. Seja por influência dos operários estrangeiros, presente nesse período de modernização, seja em troca da submissão política e estatal ou por trabalhadores e Estado estarem numa relação de interesses em comum, ocorre que os trabalhadores conquistaram benefícios sociais, deixando de ser objeto passivo das regulamentações do Estado em acordo com as elites, seja burguesa ou latifundiária. Esse protagonismo emerge na cidade e estende-se para o campo.

Na cidade de Vitória de Santo Antão, assim como em muitas outras do Nordeste brasileiro, os proprietários de grandes hectares de terra, arrendavam suas propriedades e o pagamento da taxa, o foro, se dava por duas maneiras: anualmente, em dinheiro, na festa de Conceição de Maria; ou; em dias de serviço (geralmente dois ou três por semana) para o arrendatário. Os foreiros do engenho Galiléia, da citada cidade, criaram em 1954, segundo Julião (1962) e Morais, a Sociedade Agrícola e Pecuária de Plantadores de Pernambuco (SAPPP), dirigida por Zezé da Galileia, Manuel Severino, Amaro de Capim e José dos Prazeres, dirigente da antiga Liga de Iputinga ligada ao PCB. A SAPPP tinha como objetivo prestar assistencialismo, desde a criação de uma escola à questões funerárias, pois os trabalhadores não dispondo de recursos para comprar um caixão, solicitavam emprestado Lolô, como era chamado pelos camponeses, o caixão emprestado pela prefeitura. Como presidente de honra, escolheram o proprietário do engenho, Oscar Beltrão, a respeito do porquê convidar o dono como presidente as teorias discorrem entre a condição de subordinação dos trabalhadores versus tática dos trabalhadores temendo uma possível repressão, fato é que inicialmente o proprietário aceitou o convite.

Cabe salientar que apesar da sindicalização rural ser prevista pela Consolidação de Leis Trabalhistas (CLT) e permitida pela Constituição de 1946, era dificultada pela Confederação Rural Brasileira, constituída por proprietários que pressionavam o Ministério do Trabalho a não aprovar as cartas de solicitação de sindicalização rural. Uma alternativa mais tangível para os camponeses eram as ligas, pois requeriam apenas um estatuto, um registro em cartório e uma sede.

O proprietário desejando expulsar os foreiros de Galiléia, para transformar as terras em espaço de criação de gado, aumentou o foro, esperando assim que os rurícolas fossem embora sem resistência, já que era habitual aos latifundiários a expulsão dos foreiros, sem nenhuma indenização e com o apoio da violência estatal, representada pela polícia. A sociedade inicialmente apenas de cunho beneficente, tornou-se sob essas circunstâncias, ponto de mobilização dos trabalhadores insatisfeitos com o aumento da taxa, que organizados reclamaram da impossibilidade de pagamento do foro. Oscar Beltrão, aconselhado por seu filho e outros proprietários, abdicou do cargo de presidente de honra e ordenou o encerramento da sociedade, a qual, posteriormente, passou a ser chamada de liga, pelos setores conservadores da imprensa e da Assembleia, numa tentativa de estigmatiza-las, ligando às ligas de 1947.

Os camponeses foram em busca de ajuda jurídica fora de Vitória de Santo Antão, inicialmente procuraram o governador, depois a Assembleia e por fim o advogado e deputado estadual Francisco Julião. Essa busca por auxílio jurídico, esse protagonismo dos trabalhadores rurais, geralmente analfabetos e sem acesso a informação, representa a transformação, na segunda parte do século XX, nas formas de dominação no meio rural, reproduz a rebentação do clientelismo e paternalismo no meio rural, trazendo a autonomia do trabalhador rural, o movimento de busca pela ruptura das intervenções latifundiárias, buscando modificar as relações sociais e de trabalho do homem do campo.

O socialista Julião, que em 1945, havia escrito “A Carta aos Foreiros de Pernambuco”, documento público onde se prontificava a defender os foreiros, aceita a defesa dos camponeses, transformando o movimento assistencialista, o caso entre foreiros e proprietários, em bandeira política, acendendo o debate acerca do desenvolvimentismo, da redistribuição de terras e da configuração das relações dos trabalhadores rurais. Apresentando e enfatizando a situação e luta dos trabalhadores de Galiléia para a sociedade.

Outro personagem que promoveu destaque nacional acerca do caso, foi o jornalista Antônio Callado, que estava no Nordeste a serviço do jornal Diário da Manhã do Rio de Janeiro, para uma série de reportagens sobre a indústria da seca e a necessidade da criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), uma intervenção federal no desenvolvimento do Nordeste, mas que ao se deparar com o caso das ligas camponesas, as incluiu nas reportagens, apoiando os camponeses e sua luta. Na contramão da imprensa nacional que criticava a mobilização dos trabalhadores ligando-os as ideologias comunistas.

O jornal Terra Livre, primeiro jornal camponês brasileiro, que circulou entre 1949 e 1964, idealizado e organizado pelo PCB, opondo-se à campanha pejorativa da imprensa contra as ligas, comemorava e parabenizava os rurícolas pela mobilização e organização na luta pela desapropriação. Além do apoio do jornal Terra Livre e de Callado, o movimento também foi amparado por âmbitos da imprensa pernambucana que publicavam folhetins e cartas enviadas pelas ligas e por Julião, contribuindo para a divulgação e expansão das ligas camponesas.

Pela proximidade temporal dos acontecimentos no engenho Galileia e a Guerra Fria – conflito político entre os Estados Unidos da América e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – e a Revolução Castrista em Cuba, Pernambuco atraiu atenção não só nacional, como também internacional, pela preocupação com a possibilidade de uma revolução socialista, pela esquerda, no Nordeste.  Robert Kennedy (1925-1968), irmão de John Kennedy presidente dos Estados Unidos da América, chegou a visitar em 1961 o engenho Galileia, investigando se os camponeses estavam ligados aos cubanos, que ao constatar que era uma mobilização isolada de trabalhadores rurais, os presenteou com um gerador que se encontra até os dias atuais na Biblioteca José Ayres dos Prazeres no engenho Galiléia.[5]

Julião defendeu a causa dos foreiros, na Assembleia Legislativa, embasado na lei do inquilinato, pressionando o governador Cid Sampaio através da mobilização de trabalhadores rurais em passeatas e atos diante do Palácio do Campo das Princesas, em Recife. Em 1959 foi outorgada a indenização ao proprietário e desapropriação das terras em favor dos trabalhadores rurais, deferindo assim o primeiro caso de desapropriação agrária, em favor dos moradores, no Brasil após a Segunda Guerra Mundial. A mobilização e a vitória dos camponeses de Galiléia, tornou-se principal motivo de influência na mobilização de mais camponeses e consequentemente de novas ligas em Pernambuco e outros estados.

Acontece que Cid Sampaio, estabeleceu que as terras fossem divididas em glebas de 10 hectares, mas o engenho não possuía terras para todos os foreiros, então esses recusaram a proposta do governador e permaneceram na posse das terras. O governador então propôs dividir os foreiros mandando-os para outras terras, gerando conflitos de opiniões entre Julião e José dos Prazeres, este apoiava a ideia do governador e foi tido como traidor por alguns foreiros, o primeiro defendia que os camponeses deveriam permanecer nas terras, e foi o que aconteceu.

O governador Cid Sampaio não só realizou uma administração que buscava soluções imediatas para os problemas dos camponeses, como a desapropriação do engenho Galiléia, como de acordo com Silva (2014), empenhava-se em resultados a longo prazo, com esse objetivo criou a Companhia de Revenda e Colonização (CRC), que buscava agenciar a posse de terra para camponeses, assumindo assim a bandeira da redistribuição de terras.

Os jornais de todo o país criticavam o “atentado” a propriedade privada e a interferência do Estado, em prol dos trabalhadores. A vitória dos trabalhadores rurais não se deu apenas pela desapropriação do engenho, mas por sua articulação e mobilização enquanto classe trabalhadora, abrindo espaços para delação das formas de dominação e opressão dos latifundiários, como por exemplo o cambão, o pulo da vara, o barracão etc. Esse protagonismo é responsável pela articulação do Congresso de Salvação do Nordeste, presidido por Julião, em 1955 e pela mobilização de três mil trabalhadores para o I Congresso de Camponeses de Pernambuco. Segundo o professor Antônio Montenegro (2008), entre 1954 e 1959, os trabalhadores rurais se organizaram, concentrando-se em 25 ligas em Pernambuco, sendo a Sede Regional das Ligas em Recife e as delegacias pelas zonas rurais de Olinda, São Lourenço da Mata, Pesqueira e outras cidades.

A situação das Ligas Camponesas onde trabalhadores rurais, isolados, sem informação e analfabetos, mobilizam-se enquanto grupo e modificam sua situação (de foreiros a proprietários/posseiros) é tema bastante presente em diversos trabalhos e análises historiográficos por dialogar com a teoria marxista a qual indica que a ordem social é mutável e sua reprodução permite a sua transformação, a qual acontece através da consciência de classe.

ENFRAQUECIMENTO DAS LIGAS CAMPONESAS

Em 1962 o assassinato de Pedro Teixeira, liderança das Ligas Camponesas de Sapé, a mando de latifundiários, cumprida por policiais, pressagia a repressão e o enfraquecimentos das ligas. Julião, advogado e voz das ligas, no ano anterior havia conhecido Luis Carlos Prestes e declinado da proposta de unir as ligas camponesas à União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB) ligada ao PCB, pois a ULTAB buscava concessões e ampliação dos benefícios sociais dialogando com as esferas governamentais, e Julião via as ligas camponesas como um caminho onde o objetivo era a revolução socialista.  Em 1963, o advogado das ligas recomendou a abstenção no plesbicito que definia o regime de governo, o qual havia sido convocado por Jango, que tinha sido eleito como vice-presidente de Jânio Quadro que havia renunciado em 1961, afastando assim as ligas camponesas de possíveis apoios na esquerda. Entre 1962 e 1963, Julião se opôs as ocupações de terras em Pernambuco, dividindo assim o movimento dos trabalhadores rurais liderados pelas ligas.

Enquanto as ligas se fragmentavam, perdendo força, a Igreja Católica – preocupada com sua atuação e concorrência no meio rural- e o PCB buscavam liderar o movimento camponês. Tomemos como exemplo, de acordo com Aragão (1983), que foi a Igreja o órgão responsável por em 12 de dezembro de 1961, ser estabelecido o Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Vitória de Santo Antão, incluindo os trabalhadores no Instituto Nacional da Previdência Social. Em 1962 o então ministro do trabalho André Franco Montoro, pressionado pela Igreja, assume uma política de aprovação das cartas sindicais (Lessa, 1985). Buscando barrar o genuíno protagonismo e mobilização dos trabalhadores das ligas camponesas, cooptando-os ao sindicato seja ligado à Igreja ou ao partido, o qual desde a política getulista, era estruturado subordinado ao Estado.

AS LIGAS CAMPONESAS NA FORMAÇÃO DO GOLPE DE 64

O governo de Arraes, promovido pelo Partido Social Trabalhista (PST) e apoiado pelo PCB, iniciado em 1963, inovava pelo favorecimento ao trabalhador, estabelecendo e cobrando dos usineiros o salário real do trabalhador rural e concedendo o 13º salário nas zonas canavieiras, transformando a estrutura das relações de trabalho e comércio. Modificando também a organização da polícia, que antes funcionava como representante e defesa dos latifundiários, e que sob o comando de Arraes assume uma postura neutra, como representante apenas do Estado.

Na esfera federal, João Goulart, que era visto pelos conservadores como continuador da política de Vargas, tinha conquistado através do plesbicito com o apoio do governador Leonel Brizola e do general Lott, o governo presidencialista. Adotando, simultaneamente a Arraes, o discurso da reforma de bases. O fim da década de 50 e início da década de 60 foi marcado pela ebulição social, pela ascensão dos movimentos sociais e das bandeiras das reformas, nesse contexto as ligas camponesas movimento social que incorporou a reforma agrária tinha com um dos jargões, “reforma agrária, na lei ou na marra” que representava a pressão pela redistribuição de terras pela lei ou pela via da luta armada.

As mobilizações sociais, o protagonismo do trabalhador, a bandeira da reforma agrária e das transformações nas relações de trabalho foram interrompidas pelo golpe civil-militar de 1964, que se intitulava revolucionário e com o objetivo de frear o avanço da esquerda, desferido pelas Forças Armadas apoiada pelos setores conservadores da sociedade brasileira, incluindo latifundiários temerosos do avanço das conquistas dos trabalhadores e das reinvindicações dos movimentos sociais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa assinala que entre 1954 e 1964 os trabalhadores rurais levantaram um projeto revolucionário, legítimo porque histórico, inicialmente sob o cunho de protesto e posteriormente, através de mobilizações e debates, de transformação da ordem social, adotando a bandeira da redistribuição de terras e dos direitos sociais já conquistados pelos trabalhadores urbanos.

Apesar da voz e interferência de Julião, político e advogado, o surgimento das ligas, a mobilização e organização dos trabalhadores são de responsabilidade e iniciativa dos próprios camponeses, que ao estabelecerem a SAPPP constituíram também um divisor de água nas relações de trabalho rural, pelo auto reconhecimento enquanto categoria e pela força política desta consciente categoria.

Essa consciência e mobilização dos trabalhadores rurais apavorou os latifundiários, que pela força e poder político articularam o golpe de 1964 que veio a impedir essas transformações da ordem social, através da interferência do golpe.

O protagonismo do trabalhador, o processo de modernização nas relações de trabalho do campo e os debates e projetos acerca das reformas estruturais são pausados por 21 anos, pelo golpe civil-militar de 1964, que não por acaso reprimiu as ligas camponesas, perseguindo e prendendo as principais lideranças camponesas, embasados na “culpa” dos trabalhadores em acreditar e se mobilizar em busca de uma prática política e social fundamentada na justiça e distributivismo social.

REFERÊNCIAS

ARAGÃO. José. História da Vitória de Santo Antão (1843-1982). Recife, FIAM/Centro de

AZEVEDO. Fernando As ligas camponesas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

COUTINHO. Eduardo. Cabra Marcado Para Morrer. Produção de Eduardo Coutinho. RJ: Globo Vídeo, 1985. DVD/VHS 120 min.

JULIÃO, Francisco. Que são as Ligas Camponesas?. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1962.

MONTENEGRO. Antônio. Ligas Camponesas e sindicatos rurais em tempo de revolução. In Ferreira. Jorge. O tempo da experiência democrática: da democratização de 1945 ao golpe civil-militar de 1964. 2º. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

MORAIS, Clodomir Santos de. Historia das ligas Camponesas do Brasil. 1965. Disponível em: http://r1.ufrrj.br/cpda/als/corpo/html/teses/tese_cmorais.htm . Acesso em: 06/11/2017.

SANTOS. Leonardo Soares dos. As ligas camponesas do PCB: a transformação da questão agrária em ação política (1928-1947). Disponível em: https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwiNkcuCxc3XAhXBhZAKHSvJCTsQFggmMAA&url=http%3A%2F%2Frevistas.uca.es%2Findex.php%2Ftrocadero%2Farticle%2Fdownload%2F681%2F556&usg=AOvVaw0qRLaSp4xV6b7-C26mPdse. Acesso em 05/11/2017.

SILVA. Severino Vicente. Pernambuco 1889 a 1964: uma iniciação. Recife, 2014. Disponível em:https://mail.google.com/mail/u/0/#search/severino+meu+livro/15efe000d8846097?projector=1. Acesso em 08/10/2017.

WELCH. Clifford Andrew. Movimentos sociais no campo até o golpe militar de 1964: a literatura sobre as lutas e resistências dos trabalhadores rurais do século XX. Disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/revista1aedicao/lr60-75.pdf. Acesso em: 10/11/2017.

ANEXO

Arquivo do Jornal A verdade

Elizabeth Teixeira e outras camponesas em passeata promovida pelas ligas camponesas de Sapé, Paraiba. Reafirmando a participação das mulheres nas ligas, engajadas na luta pela reforma agrária e pela justiça no caso das lideranças camponesas assassinadas.

Arquivo do Jornal Terra Livre

Manchete do Jornal Terra Livre comemorando a vitória da liga e dos arrendatários, divulgando para todo o Brasil a notícia do triunfo da mobilização dos camponeses, divulgação essa que contribuiu para a expansão das ligas para outras cidades e estados.


* Graduanda em História pela Universidade Federal de Pernambuco.

[2] AZEVEDO. Fernando. As ligas camponesas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.

[3] Site do Movimento de Mulheres Camponesa. Acesso disponível em <http://www.mmcbrasil.com.br/site/node/43>

[4] COUTINHO. Eduardo. Cabra Marcado para Morrer. Globo Vídeo, Brasil, 1984. 120 min.

[5] Jornal Diário de Pernambuco. Pernambuco, Segunda, Janeiro 12, 2015.

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Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Departamento de História – História de Pernambuco

Prof. Severino Vicente da Silva

Aluna: NATHANI R. DE OLIVEIRA NEVES

20/06/2017

Olinda: dos territórios obtidos pela Carta de Doação de 1537 às novas configurações urbanas no século XX

RESUMO

As cartas forais distribuídas aos capitães donatários, que tiveram a incumbência de povoar e, com isso, proteger as possessões portuguesas dos prováveis ataques de piratas e corsários, eram documentos que iam além da simples concessão de terras para as finalidades supracitadas: funcionavam como diplomas reguladores da administração, onde se fazia possível entender as relações sociais e os direitos e encargos dos moradores daquela região. No século XX, Olinda vivenciou um processo de urbanização sem precedentes em sua história. Iniciado em nos fins da década de 20, o crescimento populacional da cidade foi acentuado entre 50-60. Em vista da multiplicação do número dessas habitações improvisadas, os mocambos passaram a ser vistos como casas populares primitivas, num contraste agora indesejável à modernização por que passava o Recife e por acentuar imagem de antiga e de atrasada que Olinda carregava, sendo necessária a intervenção estatal a partir do Estado Novo. Na década de 50, com o Nordeste ainda enfrentando secas periódicas e preso a uma economia que já não acompanhava há tempos o desenvolvimento que o eixo sul havia alcançado, foi idealizada e posta em prática a política de industrialização da região. Os anos 60 registraram a criação da Companhia de Habitação Popular. Só em Olinda, nesse período, foram construídas cerca de 20 mil habitações. Esses subsídios ajudaram a originar em Olinda os bairros da Vila popular, Jardim Atlântico, Ouro Preto, Jatobá, Jardim Brasil, Tabajara. Visando modificar essa realidade, o poder público resolveu investir em obras de pavimentação das vias, criação de linhas de ônibus intermunicipais e, em 1959, iniciou em Olinda a construção dos enrocamentos para conter o avanço do mar que afetavam as casas de veraneio. A urbanização vivenciada por Olinda no século XX não foi capaz de lhe dar vida própria em termos de infraestrutura .

Palavras-chaves: Mudanças urbanas; crescimento populacional; processo de urbanização; século XX; habitações populares.

INTRODUÇÃO

O presente artigo foi elaborado em função da proposta avaliativa da cadeira de História de Pernambuco, ministrada pelo professor Severino Vicente, o qual nos requisitou tal trabalho ainda no início do período. A escolha das temáticas foi livre, e a opção de pesquisar e escrever sobre Olinda, sua formação e organização territorial se deu pela oportunidade de adentrar na história da cidade, conhecendo a história local de maneira mais incisiva – o que acontece em raros momentos em toda graduação de História -, mas também, a partir disso, refletir e buscar entender o atual contexto que a população olindense se vê inserida.

A metodologia utilizada na pesquisa foi baseada no uso de fontes escritas, desde documentos históricos a monografias e artigos mais recentes. Outra maneira também empregada na exploração do tema se deu a partir do exame de relatos orais. Ainda que estes não estejam expressos em citações no artigo, serviram como contraponto a experiências pessoais sobre a cidade e ponderações acerca dos efeitos do processo de urbanização no século XX

O texto, além da parte introdutória, está dividido em 4 seções. A primeira contém a história da Carta de Doação de Olinda, de 1537, que traz em pauta a análise desse documento que servia como diploma regulador dos direitos e encargos, assim como revelavam aspectos daquela sociedade em particular. Trata também dos limites territoriais de Olinda, e como estes foram gradativamente perdidos pela cidade.

Em seguida, é relatado o processo de urbanização pelo qual a cidade passou no século XX. O que implicou o aumento populacional, os projetos governamentais para lidar com a nova demanda, a nova configuração urbana com o surgimento de novos bairros e as medidas para melhorar os serviços de assistência básica a esse crescente contingente populacional.

A penúltima seção ficou reservada aos efeitos do progresso desordenado na atualidade, sob três particularidades: o comércio, a mobilidade urbana e a poluição das praias. O texto é concluído a partir de considerações das problemáticas levantadas ao longo de todo o artigo.

Olinda: dos territórios obtidos pela Carta de Doação de 1537 às consequências da elevação da importância da Vila de Recife com e após a presença holandesa em Pernambuco

“No ano de 1537, deu e doou o Senhor Governador a esta sua Vila de Olinda, para o seu serviço e de todo o seu povo, moradores[1] e povoadores[2] as causas seguintes (…) Os ‘Assentos Deste Monte e Fraldas Dele’ para casarias e vivendas dos ditos moradores e povoadores, as quais dá livres, forras e isentos de todo o direito para sempre, e às várzeas das vacas e a de Beberibe e as que vão pelo caminho que vai para o passo do Governador e isto para os que não têm onde pastem os seus gados e isto será nas campinas para passigo, e as reboleiras de matos para roças a que o conselho as arrendar, que estão das campinas para o alagadiço e para os mangues, com que confinam as terras dadas a Rodrigo Álvares e outras pessoas”. (O texto da Carta de Doação de 1537, parágrafos primeiro e segundo; IN OLIVEIRA, 2011, p. 38)[3].

As cartas forais distribuídas aos capitães donatários, que tiveram a incumbência de povoar e, com isso, proteger as possessões portuguesas dos prováveis ataques de piratas e corsários, eram documentos que iam além da simples concessão de terras para as finalidades supracitadas: funcionavam como diplomas reguladores da administração, onde se fazia possível entender as relações sociais e os direitos e encargos dos moradores daquela região. De acordo com Oliveira (2011), as Cartas de Foro “Fixava também os limites do território, garantia o direito de propriedade e determinava os tributos e as prestações que os vizinhos deviam pagar ao outorgante”.

O início da povoação de Olinda aconteceu no ponto mais alto e plano do sítio urbano, de vista para o mar. Lá foram construídas as habitações mais importantes da povoação, como o castelo – ou fortaleza – do capitão donatário Duarte Coelho, as casas dos moradores e povoadores, a ermida de São Salvador do Mundo, etc.

Aos povoadores, que vieram como investidores junto ao Donatário, foram dados privilégios de concessões de terrenos sem qualquer custo para ali construírem suas moradias, “em uma área do núcleo urbano destinada para o uso habitacional conjunta à edificação do castelo onde morava Duarte Coelho, chamada de Assento deste Monte e Fraldas dele”. (Idem, 2011, p. 40). Já os moradores precisavam pagar para utilizar esse mesmo espaço, sem jamais deixar de reconhecer o direito de senhorio da Câmara de Olinda sobre o terreno alugado. A divisão social fica evidente. Os povoadores, por serem os que mais contribuíam para o progresso da colônia, tinham posição quase que semelhante à de Duarte Coelho, ainda que os moradores, para conseguir fundos que custeassem o arrendamento do terreno pertencente à Câmara de Olinda, tivessem que desenvolver algum tipo de atividade econômica na região, o que não deixa de ser um empreendimento, mesmo que a longo prazo.

Portanto, no Sítio Histórico de Olinda, onde iniciou-se a edificação do núcleo urbano mais antigo, a área foreira não é contínua. Havendo, na mesma rua, imóveis foreiros e não-foreiros (Idem, 2011, p.40).     

Contudo, é importante trazer em pauta que a terminação “Vila de Olinda” vai muito além dos limites territoriais do atual Sítio Histórico, uma vez que o município era, e continua a ser, a extensão territorial em que a Câmara ou o Senado exerce sua influência administrativa. Neste sentido, como definido pela Carta Foral de 1537, a Vila de Olinda estava delimitada, da seguinte forma:

Norte: Até o Rio Doce, que se chama Paratibe[4];

Oeste: O parágrafo 9ª do Foral menciona, de forma imprecisa, este limite = “até onde tiver terra de arvoredo e roças ou fazendas pelo Senhor Governador”;

Sul: A carta nada fala quanto ao limite sul; no entanto, como trazido por Oliveira (2011, p. 60), o Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos holandeses (1639), a Jurisdição de Olinda é a maior de todas, limitando-se ao Norte com a jurisdição de Igarassu pelo Rio Jaguaribe, correndo pelo litoral cerca de 13 milhas de Norte a Sul, até o Rio Sirinhaém, onde se inicia a jurisdição da Vila Formosa de Sirinhaém.

Com isso, à época do início do povoamento, a Vila de Olinda correspondia a uma área de 9.812 km²:

Figura 1 (Termo da Vila de Olinda até 1709. Idem, 2011, p. 64)

Olinda perdeu sua vasta extensão territorial ao longo dos séculos. Isto começa a se desenhar a partir da presença holandesa em Pernambuco. A Vila de Recife ganha importância e, mesmo após a Restauração, obriga que a Vila de Olinda seja delimitada a uma área que não fosse superior àquela que compreendia a freguesia do Recife, Sto. Antônio, Boa Vista e Afogados. Devido a isso, a Vila de Olinda sofre sua primeira redução territorial, através do Alvará de 1709[5]:

Figura 2 Olinda perde parte de seu território para a Vila de Recife (Alvará de 1709. Idem, 2011, p. 64)

Em 1811, Olinda sofre outra grande perda territorial, quando o alvará de 27 de julho cria, em Vilas, as povoações de Cabo de Santo Agostinho, de Santo Antão, do Pau de Alho e Limoeiro[6]. O fato de Olinda perder o termo de Vitória de Santo Antão nesse alvará, significou o desmembramento dos atuais territórios de: Vitória de Santo Antão, Chã de Alegria, Lagoa de Itaenga, Glória de Goitá, Passira, Pombos, Amaragi, Cortês, Barra de Guabiraba, Bonito, São Joaquim do Monte, Agrestina, Altinho, Bezerros, Gravatá, Caruaru, Cumaru, Chã Grande, São Caetano, Riacho das Almas, Bom Jardim, João Alfredo, Salgadinho, Limoeiro, Carpina e Paudalho. Neste mesmo alvará, Recife também perde área para o Cabo de Santo Agostinho.

A última e mais recente perda territorial de Olinda ocorreu em 1928, quando da criação do Município de Paulista, que deixou de ser integrado a Olinda. Deste modo, Olinda, que já teve seu território político-administrativo abrangendo uma área de 9.812 km², hoje, repartido em cerca de 40 municípios, conta somente com 0,4% do seu antigo termo.

Figura 3 Mapa da Região Metropolitana do Recife[7]

Olinda: aumento populacional e novas configurações urbanas no século XX

No século XX, Olinda vivenciou um processo de urbanização sem precedentes em sua história. Iniciado em nos fins da década de 20, o crescimento populacional da cidade foi acentuado entre 50-60: “Olinda, dos anos 20 em diante cresceu demais para uma área de 29 km². A população pulou de 36.712 – antes da Segunda Guerra – para 196.152 na década de 70, segundo dados do IBGE” (NOVAES, 1990, p. 63)[8]. Contudo, essa expansão populacional vivida pela cidade não foi acompanhada pelo fornecimento dos serviços públicos adequados à nova demanda. As implicações desse progresso desordenado são sentidas pela população até os dias atuais.

Até a década de 20, tanto Recife quanto Olinda eram tomados pelas habitações conhecidas como mocambos. Estas construções erguidas sobre terrenos baldios e pântanos, conviviam “perfeitamente” em contraste com os sobrados das classes mais abastadas. Entretanto, após a seca de 1919-1921[9], que assolou todo o Nordeste, mas teve no sertão pernambucano as maiores proporções, essas populações migraram para o Recife e Região Metropolitana, sobretudo Olinda:

“Com o êxodo rural, os mais pobres vindos do interior iam construindo seus mocambos onde se achavam terrenos disponíveis nos mangues, mediante pequenos aterros, ou então iam procurar terras devolutas nos morros mais distantes, na direção do Beberibe.” (NOVAES, 1990, p. 36).

Em vista da multiplicação do número dessas habitações improvisadas, os mocambos passaram a ser vistos como casas populares primitivas, num contraste agora indesejável à modernização por que passava o Recife e por acentuar imagem de antiga e de atrasada que Olinda carregava, sendo necessária a intervenção estatal a partir do Estado Novo:

“Com o interventor Agamenon Magalhães, o combate aos mocambos tornou-se uma das principais linhas de ação do Estado Novo em Pernambuco. Num primeiro momento, a atuação do governo de Agamenon caracterizou-se apenas pela destruição dos mocambos; porém, após as articulações com as carteiras prediais dos Institutos de Aposentadorias e Pensões, assistiu-se a um surto construtivo de vilas habitacionais destinadas às entidades profissionais e corporativas e aos segmentos profissionais não-organizados” (PONTUAL, 2001)[10].

Na década de 50, com o Nordeste ainda enfrentando secas periódicas e preso a uma economia que já não acompanhava há tempos o desenvolvimento que o eixo sul havia alcançado, foi idealizada e posta em prática a política de industrialização da região, para fazer frente aos entraves econômicos, a miséria do povo e ao crescimento populacional (Idem, 2001). Em Olinda, sobre as jazidas de fosfato, foi criada a indústria Fosforita[11]. Apesar do boicote sofrido por essa grande empresa, o município de Olinda conseguiu se beneficiar na sua curta existência, sendo até construído um loteamento entre essa fábrica e Peixinhos, criando um novo bairro (NOVAES, 1990, p. 52). Após sua desativação, foi levantado no local o conjunto habitacional Jardim Brasil, então o maior empreendimento particular no país e depois a Cidade Tabajara (Idem, p. 52).

Os anos 60 registraram a criação da Companhia de Habitação Popular. Só em Olinda, nesse período, foram construídas cerca de 20 mil habitações:

“A COHAB-PE teve em Olinda sua principal área de atuação. Além dos núcleos de Jatobá e Rio Doce, executou em Peixinhos uma experiência habitacional pioneira, a transformação dos mocambos e casinhas de taipa em casa de alvenaria, de dois pavimentos, para aproveitamento das reduzidas áreas que ocupavam  (Idem, p. 67). O projeto ‘Casa embrião’, em Jatobá, Rio Doce e Peixinhos, bairros extremamente pobres, visava a erradicação dos mocambos e sua substituição por moradias construídas em alvenaria e financiadas pelo governo (NASCIMENTO, 2008, p. 253)[12].

O grande problema para o êxito do projeto da COHAB foi que os investidores privados, financiados pelo BNH[13], começaram a construir grandes conjuntos habitacionais sem que qualquer obra de infraestrutura estivesse pronta. Tentanto resolver esse problema, o BNH instituiu, em 1972, que essas empresas privadas deveriam, primeiramente, cuidar em garantir uma infraestrutura básica, antes de implementar seus projetos habitacionais. No caso de Olinda, como a administração municipal não conseguiria dar conta de garantir os serviços públicos apropriados ao imenso contingente populacional que estava ocupando esses conjuntos habitacionais, o governo federal criou linhas de financiamento para que os mínimos serviços de infraestrutura fossem atendidos pelo município.

Esses subsídios ajudaram a originar em Olinda os bairros da Vila popular, Jardim Atlântico, Ouro Preto, Jatobá, Jardim Brasil, Tabajara, etc. Esses bairros foram se estabelecendo (…) principalmente em áreas desocupadas ou ocupadas por antigas chácaras na zona rural de Olinda ou ao longo de sua orla marítima (NASCIMENTO, 2008, pp. 253-254).

A cidade também se expandiu na direção norte, nas praias de Bairro Novo, Casa Caiada e Rio Doce, com a aprovação de vários loteamentos nesses locais:

“Os novos conhecimentos sobre medicina, indicando a salubridade dos banhos de mar, provocaram a procura das praias, onde haviam apenas esparsos casebres de pescadores. As praias passaram a ser os locais prediletos para moradia. A cidade passou então a se estender ao longo do mar” (NOVAES, 1990, p. 36).

Figura 4 Olinda e as novas Regiões Político-Administrativas (RPA)[14]

Entretanto, devido à condição ruim das vias de acesso a esses locais, a maioria dessas casas de veraneio só era habitada no verão. Nos demais períodos do ano seus moradores retornavam a Recife. Visando modificar essa realidade, o poder público resolveu investir em obras de pavimentação das vias, criação de linhas de ônibus intermunicipais e, em 1959, iniciou em Olinda a construção dos enrocamentos para conter o avanço do mar que afetavam as casas de veraneio, algo que os moradores pediam há muito tempo.

Figura 5 Requalificação da Orla de Olinda[15]

Entre as obras municipais houve a pavimentação de avenidas em Casa Caiada, trazendo mais transportes e moradias na direção de Rio Doce. No ano de 1956, Barreto Guimarães amplia o sistema viário da cidade ao mandar construir uma avenida que partiria da Fábrica Tacaruna, dando acesso aos centros industriais de Paulista e Goiana; em 1974 é criado o “Complexo Salgadinho”, que interliga Olinda às avenidas Agamenon Magalhães e Cruz Cabugá, no Recife, e à Avenida Kennedy, rota para Paulista; paralelo à orla da cidade, foi feita Avenida Getúlio Vargas, que liga o bairro do Carmo ao Bairro Novo, uma vez que a Rua do Sol, a essa altura, já não dava mais conta do intenso escoamento do tráfego da região; com a construção do eixo de Integração viário estadual, a estrada que sai de Beberibe, facilitou o acesso ao litoral de Olinda. (NASCIMENTO, 2008, pp. 272-273).

Outra obra viária importante que atendeu a uma antiga reivindicação dos moradores de Olinda foi a criação do acesso às praias do litoral norte, com a Avenida Beira Mar, que tem início na Praça do Cargo e chega hoje, após ser estendida na gestão de Renildo Calheiros (2009-2016), até o limite com o município de Paulista, na Ponte do Janga.

Olinda: os efeitos da urbanização vivenciados na atualidade

A urbanização vivenciada por Olinda no século XX não foi capaz de lhe dar vida própria em termos de infraestrutura. Como já tratado neste artigo, Olinda teve sua grande chance de industrialização boicotada, o que traria um aumento significativo na receita do município e prováveis melhoras nesse aspecto. O seu comércio ficou reduzido praticamente ao abastecimento alimentar, e bem precário antes da chegada dos supermercados. O termo de “cidade dormitório” é encontrado nas fontes desde a década de 40, sendo possível ouvi-lo ainda hoje em qualquer conversa sobre a cidade.

A criação e a pavimentação de vias não trouxeram a melhora esperada na mobilidade urbana; a maioria da população de Olinda trabalha em Recife e, adicionados aqueles que residem em Paulista e precisam passar por Olinda para ir ao trabalho, a saída da cidade se torna caótica. Há pontos que o trânsito trava completamente, principalmente no bairro de Casa Caiada e quando ele se afunila na Av. Getúlio Vargas, já que só há a Rua do Sol como retirada. A volta para casa é a mesma coisa.

Os enrocamentos colocados no final da década de 50 acabaram trazendo resultados mais negativos que positivos. Certamente o avanço do mar foi impedido. No entanto, o preço a se pagar foi a poluição do mesmo. Os diques de contenção postos no mar, somados às práticas incorretas dos moradores que, entre outras coisas, banham seus animais naquelas águas, mantêm as impurezas presas à praia. A confirmação está presente na lista das praias impróprias para banho, semanalmente divulgadas pela CPRH, onde Olinda aparece em primeiro lugar nesse quesito[16].

CONCLUSÂO

De acordo com o que foi relatado ao longo do artigo, ficou claro que Olinda não estava preparada para receber e assistir uma população que aumentou de maneira tão rápida, e isso não se deveu somente pelo seu território reduzido.

Economicamente, o município não tinha (e continua não tendo) renda suficiente para atender a tal demanda, nem mesmo os incentivos do governo foram de grande ajuda. Olinda não conseguiu diversificar suas atividades econômicas, o que impediu um maior lucro para a cidade investir nos serviços básicos de assistência à população, como também empregos atrativos no município.

Consequentemente, a realidade de “cidade dormitório” tornou-se evidente desde cedo, permanecendo até os dias atuais. A interpretação que se alcança desse fenômeno, é que aqueles que habitam Olinda, só o fazem pelos baixos custos das moradias, sempre em comparação com Recife, uma vez que esta cidade é a que oferece todos os serviços para atender quaisquer necessidades.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • NASCIMENTO, E. M. V. Olinda: uma leitura histórica e psicanalítica da memória sobre a cidade. Programa de Pós-Graduação em História da UFBA. Salvador, 2008. Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/11230/5/Tese%20Eliane%20Nascimento5.pdf>. Acesso em: 02 de maio de 2017.
  • NOVAES, F. Olinda, evolução urbana. Ed. Fundarpe, Recife, 1990.

  • OLIVEIRA, V.M.A. O Foral de Olinda de 1537 e o livro de tombo dos bens e aforamentos da Câmara Municipal de Olinda 1782-1906. Coleção de documentos históricos municipais, nº 4, CEHM. Recife, 2011.
  • PONTUAL, V. Tempos do Recife – Configurações urbanas e culturais. Revista Brasileira de História. Vol. 21, nº 42. São Paulo, 2001. Disponível em: <<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882001000300008#nota>>. Acesso em: 17/06/2017.

  • Diário de Pernambuco. Obras de Requalificação da Orla de Olinda, 1961. Disponível em: <<http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2014/11/13/a-foto-do-dia-o-avanco-do-mar-em-olinda/>>. Acesso em: 17/06/2017.
  • CPRH – Lista de praias impróprias. Disponível em: <<http://www.cprh.pe.gov.br/Controle_Ambiental/monitoramento/qualidade_da_agua/balneabilidade/lista_das_praias_improprias/41786%3B58100%3B4803010101%3B0%3B0.asp>>. Acesso em: 18/06/2017.
  • <<http://blogs.diariodonordeste.com.br/robertomoreira/seca/historia-das-secas-no-nordeste/>>. Acesso em: 18/06/2017.

[1] Vizinhos; homem bom. Cidadãos que tinham direito de participar da vida pública do município.

[2] Aqueles que vieram junto com o Donatário Duarte Coelho. Eram empreendedores que exploravam o potencial econômico da região.

[3] OLIVEIRA, V.M.A. O Foral de Olinda de 1537 e o livro de tombo dos bens e aforamentos da Câmara Municipal de Olinda 1782-1906. Coleção de documentos históricos municipais, nº 4, CEHM. Recife, 2011.

[4] Presente no atual município de Paulista, que deixou de ser parte integrante de Olinda somente em 1928.

[5] Olinda, em 1710, ainda teve anexadas as áreas dos Termos de Vitória, Limoeiro e Paudalho ao seu território.

[6] Idem, 2011, p.61

[7] Disponível em: <<http://1.bp.blogspot.com/_GXJ8CDd2apU/TJlWdYnwpoI/AAAAAAAAB6U/36y2jd3CIv8/s400/Mapa+da+Regi%C3%A3o+Metropolitana+do+Recife.jpg>>. Acesso em: 18/06/2017.

[8] NOVAES, F. Olinda, evolução urbana. Ed. Fundarpe, Recife, 1990, p. 63.

[9] Em consequências dos efeitos dessa seca (que teve grandes proporções, sobretudo no sertão pernambucano), cresce o êxodo rural no Nordeste. A imprensa, a opinião pública e o Congresso Nacional exigem atuação do governo. É criada, em 1920, a Caixa Especial de Obras de Irrigação de Terras Cultiváveis do Nordeste Brasileiro, mantida com 2% da receita tributária anual da União, além de outros recursos. Mas, praticamente nada é feito para amenizar o drama das secas. Disponível em: << http://blogs.diariodonordeste.com.br/robertomoreira/seca/historia-das-secas-no-nordeste/>>. Acesso em: 18/06/2017.

[10] PONTUAL, V. Tempos do Recife – Configurações urbanas e culturais. Revista Brasileira de História. Vol. 21, nº 42. São Paulo, 2001. Disponível em: <<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882001000300008#nota>>. Acesso em: 17/06/2017.

[11] Foi a principal indústria do Município, que prometia elevar o Brasil à posição de independência nesse setor. Surgida da junção dos empresários da CIRO (Companhia indústrias Reunidas Olinda), da Novolinda, dos irmãos Sampaio e Rui Carneiro da Cunha (NOVAES, p. 51).

[12] NASCIMENTO, E. M. V. Olinda: uma leitura histórica e psicanalítica da memória sobre a cidade. Programa de Pós-Graduação em História da UFBA. Salvador, 2008. Disponível em: <https://repositorio.ufba.br/ri/bitstream/ri/11230/5/Tese%20Eliane%20Nascimento5.pdf>. Acesso em: 02 de maio de 2017.

[13] “Pela Lei nº 4.380, de 21 de agosto de 1964, foi instituído o Plano Nacional da Habitação e criado o Banco Nacional da Habitação, com sede no Rio de Janeiro. O banco deveria ser o gestor e financiador de uma política destinada a “promover a construção e aquisição da casa própria, especialmente pelas classes de menor renda”, bem como a ampliar as oportunidades de emprego e dinamizar o setor da construção civil. A pedra angular do BNH era o Sistema Financeiro da Habilitação (SFH), que tinha por finalidade principal prover recursos que garantissem a execução do Plano Nacional da Habitação.” Disponível em: << http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/banco-nacional-da-habitacao-bnh>>. Acesso em: 18/06/2017.

[14] Reorganização segundo a espacialização político-administrativa adotada a partir da administração da prefeita Luciana Santos. IN NASCIMENTO, 2008, p. 285.

[15] Diário de Pernambuco. Obras de Requalificação da Orla de Olinda, 1961. Disponível em: <<http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2014/11/13/a-foto-do-dia-o-avanco-do-mar-em-olinda/>>. Acesso em: 17/06/2017.

[16] CPRH – Lista de praias impróprias. Disponível em: <<http://www.cprh.pe.gov.br/Controle_Ambiental/monitoramento/qualidade_da_agua/balneabilidade/lista_das_praias_improprias/41786%3B58100%3B4803010101%3B0%3B0.asp>>. Acesso em: 18/06/2017.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CURSO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 2017.1

PERÍODO NOTURNO

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Aluno: Luiz Felipe de Lima Durval

Processo Usineiro em Pernambuco no século XX

Luis Felipe de Lima Durval[1]

Resumo: Este artigo discute como se deu o processo usineiro em Pernambuco no século XX, a partir da obra de Manuel Correia de Andrade, trabalha a modernização da produção de açúcar, dos antigos banguês até a introdução das usinas, além de destacar problemas neste processo de modernização que atenuam o monopólio da produção, acompanhado da intervenção estatal, produzindo impactos pela expansão da monocultura canavieira na sociedade.

Palavras chave: Usinas. Monocultura do açúcar. Pernambuco

Introdução

A partir da obra História das Usinas de Açúcar de Pernambuco do geógrafo pernambucano Manuel Correia de Andrade, identificamos um panorama de como se deu as transformações na agroindústria açucareira em Pernambuco, além de perceber seus desdobramentos quanto a geografia da cana no Estado e seus atores políticos envolvidos neste processo.

Em sua obra, o autor divide o processo usineiro de Pernambuco em cinco períodos distintos, sendo o primeiro, datado entre os anos de 1875 a 1890, quando foram implantados os primeiros engenhos centrais e as primeiras usinas, o segundo, se estende de 1890 a 1910, quando há um desaparecimento dos engenhos centrais e a ascensão das usinas modernas, o terceiro refere-se ao processo consolidação do processo usineiro, o quarto período, é compreendido desde a criação do IAA (Instituto de Açúcar e Álcool) até o golpe civil-militar em 1964, por fim, o autor discute como a ditadura orientou a produção do açúcar e reprimiu os movimentos dos trabalhadores rurais.

Não pretendendo nos atentar a destrinchar cada período estudado por Andrade, nos propomos a neste trabalho discutir, a partir deste estudo, a fase inicial do processo usineiro em Pernambuco até o período de consolidação e estabilização da indústria canavieira do século XX, dialogado com a obra de Manuel Correia de Andrade e outros autores que serão trazidos no decorrer do texto.

Para este feito, iremos estudar o processo usineiro especificamente na mata sul de Pernambuco, onde a devastação da mata atlântica se deu de maneira mais extensa possuindo ecos no tempo presente, exemplificaremos nosso estudo através da Usina Pedrosa situada na cidade de Cortês no interior do estado, percebendo como a açucarocracia pernambucana se adaptou aos momentos históricos, tendo sempre o auxilio estatal para o desenvolvimento produtivo de suas indústrias.

Modernização dos engenhos de açúcar

Desde o período colonial a cultura da cana-de-açúcar ocupa um lugar de destaque na economia brasileira, o modelo da plantation açucareira combinou fatores físicos e humanos para seu desenvolvimento no litoral, seja pela disposição estratégica com o mercado europeu, ou pelas condições de solo e de clima. (ANDRADE: 2001, pág. 269) Iniciada na capitania de Pernambuco em 1533 por Duarte Coelho Pereira, esta cultura ativou o violento processo devastação da vegetação natural, deixando apenas 3% da mata nativa[2] ameaçada em nosso tempo. Até o final do século XVI a capitania já possuía 66 engenhos, com o domínio holandês no século seguinte, Pernambuco contou com 144 engenhos, que fabricavam açúcar bruto, rapadura e aguardente, havendo engenhos localizados na zona da mata e às margens do rio São Francisco, os primeiros atendiam ao mercado externo, os engenhos instalados às margens do São Francisco supriam as demandas internas da colônia.

Até o início do século XIX a produção nos engenhos não obteve avanços quanto a técnicas e métodos de produção, a utilização da mão-de-obra ainda era manual, produzia-se o açúcar bruto, cultivando-se a cana crioula, trazida das ilhas do Atlântico pelos portugueses, que fora utilizada durante os três primeiros séculos nos solos pernambucanos. O processo de substituição dos engenhos de água para os engenhos movidos à vapor – banguês – foi um processo lento e como assinala o engenheiro francês Henri Diamanti em 1898, não havia um preparo técnico para produção: “a cultura da cana é rudimentar no Brasil; não se pratica a adubação, nem se prepara a terra na maioria das plantações, abandonando-se o terreno esgotado para se ir mais adiante.” (DIAMANTI, Henri: 1898/ in: PERRUCI: 1978, pág. 112)

Como percebemos não havia uma racionalização da produção nos canaviais, a virada do século obrigou a indústria açucareira a fazer uma profunda mudança nas técnicas de produção. Com a Revolução Industrial, a Europa passou a utilizar a beterraba para produção de açúcar[3], a concorrência no mercado deu margem para um programa imperial de implantação de engenhos com técnicas mais modernas para o aumento e aperfeiçoamento produtivo.

Foi neste contexto que surgiram os primeiros engenhos centrais e as primeiras usinas de açúcar, dado o alargamento aos investimentos estrangeiros no Brasil, sobretudo o capital inglês, a partir da década de 1880 iniciaram as concessões para a construção dos engenhos centrais, sendo estes implementados pela The Central Sugar Factories of Brazil a partir de 1884, nos municípios de Escada, Cabo, Água Preta, Palmares, Jaboatão e Goiana. A duração destes engenhos foi curta, em sua maioria, ficavam a cargo de industriais estrangeiros, que somente dispunham da fábrica comprando cana aos fornecedores, além de não disporem da mão-de-obra escrava para produção, diferentemente das usinas, os engenhos centrais fracassaram.

“[...] os ingleses utilizaram em alguns, maquinaria velha e em outros, máquinas produzidas para indústrias a serem implantadas no Egito; não fizeram construir, com os cuidados e as normas necessárias, as estradas de ferro que deveriam conduzir a matéria-prima para a fábrica, prejudicando a moagem, os altos funcionários, de nacionalidade inglesa, não conheciam bem as condições dominantes em um país tropical e não puderam manter um bom entendimento com os fornecedores. Além disto, ganhavam salários muito altos, incompatíveis com o rendimento das empresas; os reparos a serem feitos na fábrica e a substituição de centrífugas também contribuíram para o fracasso do empreendimento [...]”

(ANDRADE: 1989, pág. 28)

Subsidiadas por créditos do governo surgiram as primeiras usinas de açúcar cristal em Pernambuco na década de 1890[4], como forma de readaptação das oligarquias locais para o momento histórico vigente. O processo usineiro foi vital para uma manutenção modernizada da exploração agroaçucareira, “a introdução das usinas na transição dos séculos XIX e XX serviu para um novo tipo de acomodação das elites, sem trazer maiores benefícios para a totalidade dos pernambucanos.” (SILVA: 2014, pág. 15) surgindo inúmeras indústrias neste momento ligada às famílias tradicionais do cenário político pernambucano[5], este crescimento foi estimulado pela política planejada pelo governador provincial Henrique Pereira de Lucena (Barão de Lucena), que concedeu empréstimos para implantação de fábricas, aquisição de terras, construção de estradas de ferro, que nem sempre eram cumpridos pelos grupos beneficiados.

Impactos do processo usineiro na estrutura social

Pela grande concentração de usinas na região sul do estado, e no que atualmente corresponde a Região Metropolitana do Recife, percebemos que a geografia das usinas situadas em grande parte na mata úmida, trouxe chagas na paisagística na mata sul do estado, que não devem nos levam a crer que antes, com os engenhos não haviam problemas, o que há com as indústrias é o agravamento deles. Com os antigos banguês, as fábricas eram de pequenas dimensões, com chaminés baixas e quadradas, instaladas as usinas, as fábricas localizavam-se em galpões amplos e com chaminés redondas e altas, perceptíveis a grande distância[6], além da substituição de suas fábricas. Com o processo usineiro assistimos há uma extensão e concentração dos canaviais, acentuando as diferenças sociais e contribuindo para fim do lavrador enquanto categorial social.

“(…) se o sistema usineiro provoca mudanças importantes, ele deixa intacta a estrutura de dominação agrária regional, acentuando o caráter monocultor e monoexportador da economia e contribuindo, assim, para o agravamento dos desequilíbrios regionais no Brasil, de que o Nordeste parece representar um dos polos negativos.” (PERRUCI: 1978, pág. 127)

Implementado o sistema usineiro, notamos uma perda de importância do campo em detrimento da cidade, este fenômeno também acompanha o protagonismo da açucarocracia, assumido antes pelo senhor de engenho, homem ligado a terra, com o surgimento das usinas, este assume a figura de fornecedor de cana, sendo, pois o usineiro a figura colocada em destaque no mundo das usinas. Diferentemente dos senhores de engenhos, os chefes das usinas são homens industriais, com um vínculo maior com a cidade do que com o campo, em Pernambuco eles são intimamente ligados ao poder político local, contudo, haviam estruturas que preservavam laços coloniais, sejam suas luxuosas residências no parque industrial, seguida das hospedarias para seus sócios e profissionais técnicos, além da tradicional capela[7].

A usina também provocou a formação de vilas operárias rurais para moradia de trabalhadores industriais, devido a seu crescimento, posteriormente desencadeou no surgimento de cidades, como é o caso de Catende, ou ainda, estimulou o crescimento de cidades circunvizinhas como é o caso de Barreiros. Quanto a questão econômica, aumentaram a produção de açúcar e de álcool, proporcionalmente a um aumento na qualidade e nas técnicas de produção dos mesmos, em contrapartida, houve diminuição na produção de aguardente. Esta expansão da produção trouxe sérios problemas ecológicos, além da deterioração do solo pela monocultura, o lançamento de vinhoto nos rios, acarretou num desequilíbrio biológico com a mortandade dos peixes, favorecendo o desenvolvimento de vetores proliferando doenças através da contaminação da água, como o caso esquistossomose, tornando-se endêmicas na região canavieira, além de retirar da alimentação e renda população ribeirinha, os peixes e crustáceos, com a devastação das matas provoca alterações no regime dos rios, dando origem a grandes cheias nos períodos chuvosos. (FREYRE, Gilberto. Nordeste: 1937/ in: ANDRADE: 1989, pág. 34)

Outra mudança significativa deu-se no meio de transporte do açúcar, a instalação das estradas de ferro não só transportavam a matéria-prima, mas davam uma nova dinâmica à produção ligando as terras dos antigos engenhos às novas fábricas. Os trilhos instalados pelas companhias inglesas: Recife and São Francisco Railway Co. Ltda. e Great Western of Brazil Railway, apresentaram-nos os caminhos do açúcar, a partir deles, percebemos que os antigos engenhos e as estações ferroviárias eram espaços indissociáveis na vida das usinas, estas estações eram galpões largos que serviam para o armazenamento de mercadorias, as estradas de ferro instaladas nos campos eram particulares e se comunicavam com trilhos oficiais[8] para o escoamento do açúcar, tais instalações estimularam o desenvolvimento do comércio e de cidades.

Fundação da Usina Pedrosa

Situada a 7 km da cidade de Cortês, na mata sul pernambucana, a criação da Usina Pedrosa deu-se no ano de 1892, tendo sua produção açucareira escoada através da Estrada de Ferro Ribeirão – Bonito construída no final do século XIX, que partia do Recife ao São Francisco, com estação terminal em Cortês. A estrada de ferro passava a 3 km da usina, para que houvesse trilhos no interior de suas terras, foi necessária a construção de um desvio particular conectado a estrada de ferro principal, que nunca chegou ao destino projetado, Bonito[9]. Para sua construção foi utilizado capital nacional, sendo concedidos 250 contos de réis em 1890 ao primeiro grupo de proprietários da empresa, sendo eles: Cel. João Siqueira Barbosa Arcoverde (proprietário do Engenho Souza em Água Preta), Suitberto de Siqueira Barbosa Arcoverde, Cel. José Belarmino Pereira de Melo (proprietário do Engenho Tigre) e o Cel. Antônio Parízio Cunha Pedroza (proprietário do Engenho Ilha de Flores), propriedade esta utilizada como garantia do empréstimo feito pelo Estado para construção da usina.

“Engenho Ilha de Flores, Comarca de Gameleira, 1º de outubro de 1881.

Ilmo. e Exmo. Sr.

Tenho a honra de comunicar V. Excia., para os fins convenientes, que tendo os concessionários da Usina Pedroza que tem de ser fundada no engenho Ilha das Flores desta Comarca, para a fabricação de açúcar e álcool, auxiliada por Decreto de 31 de julho do corrente ano com a garantia de duzentos e cinqüenta contos de réis em apólices ao juro de sete por cento ao ano, constituído, entre si uma sociedade em nome collectivo para o fim de fundar e explorar aquella Empreza, cujo contrato se acha devidamente registrado na Junta Commercial dessa cidade, fui pela maioria dos sócios respectivos, designado para servir de Gerente da aludida Empreza, e usar da firma social Arcoverde, Pereira & Parízio, no mesmo contracto estabelecido em todas as suas relações jurídicas administrativas ou commerciaes.

Apresento a V. Ex. o meu profundo respeito.

Ilmo. e Exmo. Sr. Desor. José Antônio Correia da Silva – D. Governador do Estado de Pernambuco.

Suitberto de Siqueira Barboza Arcoverde.”

(Apresentação da firma “Arcoverde, Pereira & Parízio” ao governador in: MOURA: 1998, pág. 270)

O empreendimento surge através da união de oligarquias senhoriais da região, sobre forte influência do Cel. Manoel Gomes da Cunha Pedroza (Barão de Bonito), com seu falecimento em 1901, o grupo se dispersa e há desligamentos de associados da firma, passando a gerência da empresa para terceiros. Quando em 1910 sob forte crise no setor açucareiro, D. Luzia Marcelina Pedroza (filha do barão), desfez da usina pondo fim a presença dos Pedroza na administração da indústria, guardados somente no imaginário da empresa que carrega o nome da família em homenagem ao Barão de Bonito.

Neste primeiro momento do processo usineiro, em meio ao surgimento das usinas de cristal, ao mesmo tempo se caracteriza por um período de grande crise acarretando no fechamento de muitas usinas, na incorporação de outras usinas, como da Pinto em Maraial anexada à Florestal ou na transferência de donos como no caso da própria Pedrosa, que teve seus débitos assumidos e comprada por 200 mil réis em dinheiro pela nova administração composta pelo Cel. Artur Siqueira Cavalcanti e pelo Dr. Antônio Minervino de Moura Soares.

Intervenção estatal no processo usineiro

A grande crise deste processo (1907-1911) aponta problemas na modernização da produção agroaçucareira no Estado de Pernambuco, sendo objeto de grande preocupação dos grupos usineiros, que tinham uma superprodução em suas indústrias para além do consumo interno[10].  É neste período que há uma organização destes grupos em sindicatos e cooperativas, tal integração dos homens do açúcar foi necessária para superação da crise do setor, das reuniões os empresários haviam discussões sobre a necessidade de modernizar as técnicas utilizadas tanto nos canaviais quanto nas fábricas, para tornarem o setor mais eficiente. O problema se deu devido o baixo nível tecnológico, a ausência de corpo técnico formado por profissionais habilitados na área agroaçucareira, além da ausência de créditos para estes investimentos.

Este problema da concessão de créditos esbarrava num problema de hegemonia regional, de um mercado fortemente disputado pelos estados, embora Pernambuco tendo sendo o maior produtor nacional, vinha perdendo importância no cenário nacional[11] e os estados que competiam com Pernambuco – Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo – ameaçavam seu protagonismo na produção açucareira, pois possuíam maquinarias mais eficientes que aumentavam a qualidade em suas safras. Pela questão política, sobretudo os estados do sudeste, conseguiam os melhores “favores”, esta luta entre os “nortistas” e “sulistas” se acirrou na terceira década (1920-1929), desembocando na Revolução de 30, onde participaram muitos usineiros.

Estes momentos de crise sempre foram ocasiões para os usineiros, como políticos ou ligados às elites políticas, recorreram ao Estado para auxiliá-los na manutenção de suas usinas, em contraposição este é o período de surgimento de novas usinas, e sua expansão para mata norte de Pernambuco. Entre 1910 e 1930, surgiram 17 empresas na mata seca[12], totalizando no final da década de 1930, 54 usinas no estado,[13] sendo a Usina Catende a maior produtora de açúcar de Pernambuco, com produção anual de 130.000 toneladas de açúcar e uma rede de 125 km de estradas de ferro.

Neste contexto contraditório, entre crise e crescimento, grande parte dos usineiros estavam endividados, que acabavam transferindo seus prejuízos para seus fornecedores, que pagavam um preço baixo pela tonelada do produto e uma multa de 10% sobre seu valor, caso houvesse baixos índices de sacarose em suas canas, estes fornecedores, por sua vez, pressionavam os trabalhadores do campo.

Após a crise de 1911, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) criou um espaço favorável para a elevação do preço do açúcar no mercado internacional, os preços subiram até a safra de 1923/1924, com a elevação destes preços, os usineiros desenvolveram suas indústrias, aumentaram suas estradas de ferro, adquiriram novos engenhos, aumentando a produtividade.[14]

Ao final da guerra e deste momento de crescimento, o setor açucareiro seguiu com baixa nos preços do açúcar, gerando disputas entre usineiros e fornecedores, que tiveram que vender suas terras devido ao endividamento pelo não pagamento das usinas, que os substituíam por fornecedores rendeiros ou por administradores, que por sua vez transferiam estas pressões para seus trabalhadores, reduzindo em até 60% seus salários. Segundo os fornecedores, o trabalho no campo não era fundamental para os camponeses, pois estes possuíam seus “roçados”, este período de tensão serviu para expansão da monocultura das usinas sobre as terras ainda não utilizadas para o cultivo da cana.

“(…) as usinas que não cultivavam a terra, limitando-se a esmagar as canas de fornecedores, passaram a fazer ou a ampliar a cultura da cana em suas terras, para eliminar ou reduzir os fornecedores; os fornecedores proprietários procuravam reduzir a participação dos lavradores em suas safras e, em seguida, ampliavam também as suas culturas em detrimento das áreas dos lavradores, que caminharam, como grupo social, para a extinção; os trabalhadores que eram moradores com direito ao ‘sítio’ ou ‘roçado’ tiveram suas áreas de cultura própria restringidas, a fim de que os canaviais se expandissem.”

(ANDRADE: 1989, pág. 66)

Esta expansão da monocultura canavieira, acompanhada da proletarização dos homens do campo fora empreendida na tentativa de concorrer com outras empresas açucareiras, sobretudo as do sudeste do Brasil. Para salvar o parque açucareiro de Pernambuco, mais uma vez, fora solicitada à intervenção estatal para que mais medidas fossem efetivadas. Em 1928, o então governador de Pernambuco, Estácio de Albuquerque Coimbra, proprietário da Usina Carassu em Barreiros, reuniu de 23 a 29 de abril uma Conferência para tratar dos assuntos de interesses da açucarocracia pernambucana, neste evento discutiu-se o controle da produção, a fim de evitar a superprodução de açúcar.

O final da década de 1929, profundamente marcado pela crise econômica internacional, apresenta também um cenário político problemático quanto a sucessão presidencial.[15] Em Pernambuco Carlos de Lima Cavalcanti, jornalista, deputado estadual e proprietário da Usina Pedrosa em Cortês, foi levado a condição de Interventor Federal.

Consolidação do processo usineiro

A Revolução de 1930, segundo Manuel Correia de Andrade, não representou mudanças essenciais no processo usineiro em Pernambuco, ao invés de democratizar o sistema econômico canavieiro, consolidou suas estruturas, aumentando o auxilio estatal às empresas do açúcar[16]. É neste período que são criadas a Comissão de Defesa da Produção (1932), órgão que colocava o Estado como financiador e gerente da produção açucareira e o Instituto do Açúcar e do Álcool (1933) que financiou estudos sobre o setor agroaçucareiro, proporcionando assistência técnicas para empresas, que acabou contribuiu para o fim das pequenas usinas e meio-aparelhos, pela ausência de condições necessárias de competição no mercado.

Com o IAA (Instituto do Açúcar e do Álcool) foram desenvolvidas pesquisas para racionalização do setor açucareiro do país, viu-se a necessidade de integrar a atividade agrícola à industrial, neste intuito o governo federal proibiu a moagem de usinas e banguês sem a devida consulta ao instituto, implementando o sistema de cotas de produção para os estados e empresas. Tal fator contribui para o acirramento da luta entre os grupos sociais – usineiros e fornecedores – pela hegemonia política e econômica, este período marca o declínio da classe média rural, com a perda de importância destes fornecedores, em status social e poder político.

Na busca por conciliar ambos os setores e de manter a classe média rural, o governo federal intervém novamente no processo usineiro, através do IAA, sobre a presidência do jornalista e historiador Barbosa Lima Sobrinho. Voltado para o setor social e projetado por Sobrinho é criado o Estatuto da Lavoura Canavieira (1941), neste documento, exigia-se das usinas uma distribuição de suas terras com agricultores que se transformavam em fornecedores de cana, além de estabelecer 50% de sua moagem ser dos canaviais destes fornecedores, ficando assegurado para os trabalhadores o direito a um salário mínimo. Antes mesmo de sua promulgação, o estatuto foi objeto de grande discussão por parte dos usineiros, gerando reação uma reação negativa, pois viam ameaçadas suas propriedades.

Com o Estado Novo, a ditadura de Vargas, combateu a autonomia dos estados, depôs Carlos de Lima Cavalcanti e colocou Agamenon Magalhães na Interventoria de Pernambuco. Neste governo, não houve nenhuma assistência aos trabalhadores rurais, nem tampouco facilitou a organização trabalhadora, em contrapartida, nas usinais estimulou a organização sindical de operários industriais, dentro da proposta do trabalhismo varguista.

“o trabalho na usina era feito em condições insalubres, os operários isolados dos centros urbanos – não havia facilidade de transportes devido à precariedade das rodovias – se colocavam sob grande dependência e o arbítrio do patrão, temendo se organizar em face da repressão que eram submetidos.” (ANDRADE: 1989, pág. 80)

O impacto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) atingiu positivamente a indústria açucareira, devido a queda do açúcar de beterraba na Europa, criou mais mercado para o açúcar do Brasil, sendo realizada uma nova distribuição de cotas entre os estados. Nos anos que se seguem percebemos um fortalecimento dos sindicatos rurais, a industrialização na década de 1950 é acompanhada de um crescimento na economia e na produção das usinas, a expansão da monocultura canavieira provocou uma série de contestações por partes dos trabalhadores rurais desapropriados nas chamadas Ligas Camponesas, organizadas em seus sindicatos, ligados a partidos ou pela Igreja Católica.

No curto governo de Migue Arraes de Alencar (1963-1964), iniciaram-se as discussões sobre a Reforma Agrária, mas foram interrompidas pelo golpe civil-militar, que acabou fechando os sindicatos e as ligas, fazendo com da produção uma política de Estado, estimulando o desenvolvimento das usinas, sem maiores preocupações com os problemas sociais e ecológicos provocados pela monocultura industrial.

Parte superior do formulárioConsiderações finais

Com a introdução das usinas na agroindústria da cana-de-açúcar, assistimos a uma modernização nos métodos e técnicas de produção de açúcar, em detrimento dos banguês e dos engenhos centrais, percebemos que estas indústrias, embora sendo modernas mantiveram os traços dos engenhos coloniais. Não representaram uma modernização nas relações de trabalho, ao contrário, atenuaram a concentração de renda e a desigualdade social, através da expansão da monocultura canavieira. Com isto, não queremos dizer que os antigos engenhos coloniais foram isentos deste processo, mas com a república este processo ganha forças. A partir das relações com o poder político, identificamos uma acomodação das elites as exigências do momento histórico vigente, percebemos que tais empresas sempre foram subsidiadas pelo Estado, prestando auxílios sempre que necessário, fato que exemplifica este aparelhamento, consiste sobretudo no tocante aos processos eleitorais, onde há presença massiva de políticos ligados setor açucareiro, em troca de votos e isenção de impostos empresarias.

Anexos

Figura 1 – Parque Industrial da Usina Pedrosa

Disponível em: http://www.iau.usp.br/sspa/arquivos/pdfs/papers/01539.pdf. Acesso: 31 de maio de 17 às 23h47.

Figura 2 – Mapa Ferroviário de Pernambuco

Disponível em: http://www.iau.usp.br/sspa/arquivos/pdfs/papers/01539.pdf. Acesso: 31 de maio de 17 às 23h47.

Referenciais teóricos

ANDRADE, Manuel Correia de. História das usinas de açúcar em Pernambuco. Recife: Massangana, 1989.

ANDRADE, Manuel Correia de. Espaço e tempo na agroindústria canavieira de Pernambuco. Revista Estudos Avançados. Instituto de Estudos Avançados da USP, São Paulo, v. 15, n. 43, p. 267-280, set./dez. 2001.

LEVINE, Robert. Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937, in: História Geral da Civilização Brasileira, Tomo III, vol. I org. Boris Fausto, São Paulo, Difel, 1975.

MOURA, Severino Rodrigues de. Senhores de engenho e usineiros, a nobreza de Pernambuco. Recife: FIAM, CEHM, Sindaçúcar, 1998. (Tempo Municipal, 17).

PERRUCCI, Gadiel. A república das usinas: um estudo de história social e econômica do Nordeste, 1889-1930. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

SILVA, Severino Vicente da. Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX. Recife: Editora UFPE, 2014.

Os caminhos do açúcar em Pernambuco: Reflexões sobre a relação espacial e operacional da ferrovia com a usina de açúcar. Disponível em: http://www.iau.usp.br/sspa/arquivos/pdfs/papers/01539.pdf. Acesso: 31 de maio de 17 às 23h47.

Engenhos e Usinas. Disponível em: http://www.sebraerj.com.br/custom/pdf/cam/acucar/05_EngenhosEUsinas.pdf. Acesso: 931 de maio de 17 às 21h30.

Pernambuco tem apenas 3% de sua mata atlântica original. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2013/07/23/interna_vidaurbana,452176/pernambuco-tem-apenas-3-de-sua-mata-atlantica-original.shtml. Acesso: 26 de maio de 17. Às 20h33.

ILHA DE FLORES
Município de Cortês, PE
. Disponível em: http://www.estacoesferroviarias.com.br/pernambuco/ilhaflores.htm. Acesso: 31 de maio de 17 às 23h50.


[1] Licenciando em Historia pela UFPE

[2] Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2013/07/23/interna_vidaurbana,452176/pernambuco-tem-apenas-3-de-sua-mata-atlantica-original.shtml. Acesso: 26 de maio de 17. Às 20h33.

[3] Esta produção foi estimulada por países que não possuíam colônias tropicais, como o caso da Alemanha, além também da concorrência do açúcar de cana das Antilhas.  (ANDRADE: 1989, pág. 17)

[4] Bom Jesus 1895 (Cabo), Cachoeira Lisa em 1892 (Gameleira), Central Barreiros em 1890 (Barreiros), Catende em 1890 (Catende), Caxangá em 1894 (Ribeirão), Cucaú em 1895 (Rio Formoso), Curay em 1891 (Paudalho), Espírito Santo em 1895 (Paudalho), Estreliana em 1891 (Gameleira), Florestal em 1892 (Maraial), Frexeiras em 1896 (Escada), Jaboatão em 1896 (Jaboatão), Javunda entre 1890 e 1895 (Jaboatão), Lustosa em 1891 (Garanhus), Maria das Mercês em 1891 (Cabo), Mussu em 1900 (Escada), Mussupe em 1906 (Igarassu), N.S. do Desterro em 1907 (Paudalho), N.S da Vitória em 1905 (Sirinhaém), Pedrosa em 1891 (Cortez), Pinto em 1898 (Maraial), Pirangi-assu em 1891 (Palmares), Ribeirão em 1897 (Ribeirão), Roçadinho em 1891 (Catende), Salgado em 1892 (Ipojuca), Santa Philonila em 1891 (Escada), São João em 1894 (Recife), São José em 1906 (Igarassu), Timbó-Assu em 1897 (Escada), Trincheiras por volta de 1890 (?) e Ubaquinha em 1905 (Sirinhaém). (MANUEL CORREIA DE ANDRADE)

[5] Tais como: os Pontual, os Lins, os Holanda Cavalcanti, os Bezerra Cavalcanti, os Rego Barros, os Wandereli e os Cunha Pedrosa.

[6] Figura 1 – Parque Industrial da Usina Pedrosa

[7] Lugar de encontro dos protagonistas do engenho e dos trabalhadores, graças a sua arquitetura permitia um “contato sem contágio”. Disponível em: http://www.sebraerj.com.br/custom/pdf/cam/acucar/05_EngenhosEUsinas.pdf. Acesso: 31 de maio de 17 às 21h30.

[8] Em 1899, o Superintendente da Great Western sugeriu ao Governo Federal o estabelecimento de um só rede ferroviária no Nordeste, em junho de 1901, por pelo decreto nº. 4.111, foi aprovado o contrato com a empresa para iniciar o processo de unificação das ferrovias existes.

[9] Figura 2 – Mapa Ferroviário de Pernambuco

[10] “4 milhões e meios de sacos de açúcar produzidos, onde somente três milhões eram consumidos pelo país, fazendo-se necessário a venda deste excedente para o mercado exterior a qualquer preço para não perderem a produção.” (ANDRADE: 1989, pág. 53)

[11] Robert Levine em seu ensaio intitulado: “Pernambuco e a Federação Brasileira, 1889-1937”, elenca fatores que segundo ele levaram Pernambuco a declinar no cenário nacional, pois até o século XVIII a história de Pernambuco era a história do Brasil, a presença da família real no século XIX e as rebeliões pernambucanas neste mesmo século que reivindicavam a autonomia do Estado diante da corte brasileira, favoreceram o isolamento do Estado no protagonismo político e econômico nacional nos tempos seguintes.

[12] Tais como as usinas na mata norte: Petribu em Paud’Alho (1910), Santa Teresa e Mussumbu em Goiana (1910) e Mussurepe em Paudalho (1911). Citar mais…

[13] “(…) a fundação de tantas unidades industriais indica que a crise tão debatida não tinha as proporções que se anunciava, estando os proprietários dispostos a continuar investindo em um negócio que, à primeira vista, parecia mau.” (ANDRADE: 1989, pág. 55)

[14] A Usina Pedrosa em Cortês ilustra este momento, quando obteve um aumento na moagem de 300 t/dia para 500 t/dia, comprando os engenhos Riachão, Flora da Ilha e Recurso, adquiriu a locomotiva Ilha e as estradas de fero de Flor da Ilha e do engenho Tigre, passou a oferecer melhores condições educacionais com mais professores e mais vagas para alunos. (MOURA, Severino. Senhores de Engenho e Usineiros a Nobreza de Pernambuco, 1998)

[15] A eleição de 1930 pôs fim ao último processo eleitoral da República Velha, sendo Júlio Prestes o candidato eleito a presidência da república, que acabou não assumindo, devido a Revolução de 1930 que visava o controle político do país, levando a presidência do país, através de um golpe Getúlio Vargas.

[16] “No governo republicano, os usineiros conseguiram leis que lhes facilitaram empréstimos a juros baixo perdão de dívidas. O governo federal foi também generoso com os grupos nordestinos – fato que ocorreu também em outros estados -, fornecendo créditos e avalizando empréstimos em dólares, no exterior.” (ANDRADE: 2001, pág. 274)

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 14 jul 2017 @ 09 58 PM

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Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História de Pernambuco
Docente: Severino Vicente da Silva
Discente: Lucas Melo da Silva
Semestre Letivo: 2017.1

Mamãe Eu Quero Votar[1]: uma análise da campanha Diretas Já em Pernambuco

Lucas Melo da Silva[2]

Resumo: O presente artigo visa investigar a movimentação política e social, principalmente esta última, em torno da campanha “Diretas Já” em Pernambuco. O estudo está pautado numa investigação sucinta do movimento em âmbito nacional, refletindo sobre as suas motivações e em seguida focando especificamente nas suas atividades em Pernambuco com ênfase nas movimentações realizadas nos primeiros meses de 1984.
Palavras-chave: Diretas Já, Pernambuco, Ditadura Civil-Militar

A Ditadura Civil-Militar Brasileira foi um período da história nacional marcado por diversas perdas de direitos por parte dos cidadãos comuns e um destes direitos perdidos foi o de eleger o presidente da república, porém em março de 1983 um deputado federal mato-grossense recém-eleito apresentou uma proposta de emenda constitucional que propunha o reestabelecimento das eleições para presidente da república já no pleito de 1985, e foi com base nesse projeto de lei que emergiu um dos movimentos de massa mais marcantes da história brasileira, trata-se da campanha “Diretas Já”.

Antes de tratar especificamente do movimento em si é preciso que nos debrucemos sobre o contexto histórico no qual este movimento esteve inserido para que seja possível compreender os motivos que estimularam e possibilitaram a existência de tal fenômeno no período em questão.

É sabido que durante a década de 70 a ditadura militar sob o governo linha dura do general Emílio Garrastazu Médici vivenciou o conhecido “milagre econômico”, período em que o PIB brasileiro obteve aumentos significativos e o poder de compra de alguns brasileiros elevou, o que acabou por legitimar o regime, porém esse “milagre” não durou muito tempo, pois em 1973, período de auge do “milagre brasileiro”, alguns países exportadores de petróleo resolveram quadruplicar os preço do barril, e o Brasil, que era um grande importador desse produto, não tomou medidas de segurança frente a este problema que surgira e como consequência, somado à outros fatores, se sucedeu um período de crise econômica nos anos 80.

Em 1974 assumiu a presidência Ernesto Geisel que não conseguiu controlar os problemas econômicos que estavam surgindo e em 1979 João Figueiredo o sucedeu, mas este também não resolveu a questão, pois existiam conflitos entre os membros de equipe econômica, havendo os que defendiam as medidas de austeridade e os que acreditavam no desenvolvimento a qualquer modo.

Em 1979 ocorreu um novo problema para a economia brasileira, tratava-se da interrupção da produção de petróleo iraniana e isso causou uma nova elevação do preço deste produto. Após este evento seguiu-se na década de 80 uma época de agravamento da crise, fazendo com que muitos analistas intitulassem este período de “década perdida”.

Em 1982 o PIB apresentava quedas e a inflação continuava a subir, em 1983 o governo recorreu ao FMI, porém, devido à Moratória Mexicana de 1982, o mesmo passou a cobrar maior ajuste das contas públicas, logo o governo brasileiro teve que tomar medidas mais austeras o que resultou no descontentamento da população em geral.

A crise econômica foi fundamental para que o regime perdesse sua “legitimidade” adquirida sob o período do “milagre” e tornou possíveis as greves do final da década de 70 e também estimulou o engajamento da sociedade na campanha “Diretas Já” devido ao descontentamento com a situação do país.

Segundo Alberto Tosi Rodrigues dois fatores contribuíram para a surgimento da “Diretas Já”, estes foram a Crise do modelo de desenvolvimento econômico e o Ressurgimento da sociedade civil. Ambos os fenômenos estão intimamente ligados, pois foi justamente no momento em que o sistema econômico capitalista passou por crise[3] que surgiram as movimentações da sociedade para contestar a situação, como foi o caso dos movimentos grevistas que emergiram ao passo em que o país era atingido por uma crise financeira.

O regime militar já sentia sinais de desgaste político desde as eleições parlamentares de 1974 em que o MDB ganhou um número significativo de cadeiras na câmara de deputados, apesar do PDS ter continuado com a maioria. Em 1979, numa tentativa de desarticular a oposição, foi instituída a reforma partidária permitindo assim a criação e o reestabelecimento de partidos políticos, com exceção do Partido Comunista. A estratégia visava enfraquecer a oposição, porém a manobra não se deu da maneira tal qual foi pensada e nas eleições de 1982 as oposições conquistaram ainda mais cadeiras na câmara como aponta Daniel Aarão Reis:

Entretanto houve uma novidade de peso: o partido do governo, o PDS, embora com maior bancada na Câmara dos Deputados, tinha menos cadeiras que as oposições reunidas, com 244 deputados. É verdade que o PTB, com treze deputados, era mais governista do que oposicionista, o que contrabalançava o número das oposições. No computo geral, porém, confirmava-se o inegável deslocamento dos votos em favor das oposições, pelo menos nos centros mais importantes do país. (REIS, 2014, pg. 141)

Portanto, foi diante de um contexto de crise econômica e fortalecimento das oposições que a campanha “Diretas Já” pôde emergir como um movimento que visava dar força ao projeto de emenda constitucional enviado ao parlamento pelo deputado Dante do Oliveira que propunha o reestabelecimento das eleições diretas para presidente no pleito de 1985. A emenda Dante de Oliveira, como ficou conhecida, foi apresentada à câmara de deputados em 2 de Março de 1983 e nos meses, ou dias[4], seguintes surgiram algumas manifestações no país em favor do voto direto para presidente, essas manifestações acabaram por dar origem ao “Diretas Já”

Em síntese, à nível geral, a campanha “Diretas Já” teve seus primórdios ainda no ano de 1983 com manifestações populares, articulações políticas entre os partidos de oposição e alguns grandes comícios[5], porém em 1984 o movimento ganhou maior força principalmente entre janeiro e abril de 1984, período que antecedeu a votação da emenda na câmara de deputados, votação esta que se deu ao dia 25 de abril do referido ano. Com relação à campanha em nível nacional pode-se destacar os comícios do dia 25 de janeiro de 1984 ocorrido em São Paulo na Praça da Sé contando com um número aproximado de 300.000 pessoas, também se destaca o comício ocorrido na Candelária no Rio de Janeiro, o qual se deu ao dia 10 de abril de 1984 e chegou à cifra de 1.000.000 de participantes, e por último é de grande importância o comício também ocorrido na Praça da Sé, mas ao dia 16 de abril de 1984, que atingiu a marca de cerca de 1.500.000 pessoas.

Em uma análise geral da campanha percebe-se que esta contou com dois fatores de grande importância: Articulação política entre os partidos de oposição, fenômeno que se percebe quando atenta-se para a rede de comitês suprapartidários pró-diretas instalados em todo o país, e ampla participação popular, fator perceptível à medida que se analisa a quantidade de pessoas que participam dos comícios e que se envolveram na organização dos mesmos.

Após analisar as motivações que possibilitaram a emersão da campanha[6] e suas características gerais é que se faz possível buscar compreender como este movimento se desenvolveu em Pernambuco.

O estudo acerca da campanha “Diretas Já” em Pernambuco já nos coloca de início frente a uma questão interessante, pois algumas narrativas[7] apontam que este movimento teria se iniciado em Pernambuco com um comício realizado em Abreu e Lima no dia 31 de Março de 1983 pelo vereador Severino Farias e mais outros 3 vereadores, caso este evento for verídico é possível afirmar que Pernambuco teria sido pioneiro na campanha fazendo a primeira manifestação pró eleições diretas do país, porém nesta pesquisa não se obteve registro documental escrito da ocorrência de tal evento na dita cidade. Embora a ocorrência, ou não, deste evento não tenha sido comprovada por este estudo, é nítido que existe uma disputa pelo pioneirismo desta campanha, que, apesar de não ter sido vitoriosa em sua meta principal foi vencedora ao ponto que envolveu à população de um maneira particular e acabou por fazer com que o governo federal recorresse à negociação junto à oposição para articular a sucessão do presidente João Figueiredo.

Apesar das narrativas sobre o comício de 31 de março de 83, o fato é que a campanha das diretas oficialmente foi lançada em Pernambuco no dia 08 de agosto de 1983[8] com um ato público realizado pelo PMDB na pracinha do Diário contanto com a presença de várias lideranças políticas de oposição, como Teotônio Vilela, Beth Mendes, Fernando Coelho entre outros. O evento em questão contou com um pronunciamento de Teotônio Vilela, apesar da muita idade e dos problemas de saúde do mesmo.

Tanto em nível nacional como em Pernambuco a campanha “Diretas Já” passou a estar mais evidente e ativa em 1984, desta forma, esta pesquisa buscou focar especificamente neste período, mais exatamente entre os meses de fevereiro, março e abril do dito ano tendo em vista que poderia ter ocorrido uma maior movimentação neste momento em que a votação da emenda na câmara dos deputados se aproximava cada vez mais.

Analisando os eventos ocorridos no mês de fevereiro de 1984 com relação à campanha “Diretas Já”, pode-se destacar alguns bem significativos como a Caminhada Democrática[9] que arrastou cerca de 40 mil pessoas nas ruas do Recife. A caminhada ocorreu em 18/02/1984 concentrando-se na Praça da Independência onde foi lido um documento pró-diretas e depois saiu em caminhada passando por pontos estratégicos da cidade, como a Avenida Boa Vista, em horário de rush, buscando maior visibilidade. A caminhada contou com a participação de orquestra de frevo além dos vários políticos que se fizeram presentes como Beth Mendes e Marcos Freire.

Ao dia 19/02/1984 ocorreu comício pró-diretas em Caruaru, contando com a presença de aproximadamente 30 mil pessoas na praça da Matriz, no centro da cidade. O comício foi organizado pelo prefeito da cidade José Queiroz do PMDB e entre os políticos presentes esteve Tancredo Neves, governador de Minas Gerais no período.

Cabe destacar que no último final de semana de fevereiro a deputada federal pelo PMDB Cristina Tavares realizou e participou de uma série de comícios[10] nas cidades de Arcoverde, Salgueiro e Garanhus, sendo este último um evento com particularidades interessantes tendo em vista que o prefeito da cidade, integrante do PDS, realizou um evento carnavalesco ao mesmo tempo em que o comício, o que pode ser visto como uma forma de enfraquecer o movimento, porém outro fenômeno observado na preparação do comício em questão cabe ser destacado, é o fato de que antes da realização do comício os organizadores do mesmo, juntos com algumas professoras, levaram crianças do Grupo de Trabalho Educacional Charles Chaplin às ruas munidas de pinceis para pintarem murais com temas relacionados às eleições diretas, o que nos mostra uma movimentação prévia antes das realizações dos comícios e uma tentativa de envolver a população local.

Em fevereiro também foram realizados comícios em Oiterio[11] e outro em Arcoverde[12], cada um desses contando com particularidades interessantes, pois o primeiro foi organizado pelo movimento Terras Sem Ninguém[13], ou seja, não esteve diretamente ligado aos comitês de organização da campanha, e quanto ao segundo cabe enfatizar o apoio dado pelo prefeito Rui de Barros do PDS, este cedeu palanque e iluminação, o que mostra que políticos da situação, por diversos motivos, também estavam dando apoio às eleições diretas em contraposição à orientação do partido.

Ainda em fevereiro um grupo de estudantes representados pelo Projeto Guararapes[14], entidade que representava estudantes secundaristas e universitários em Pernambuco, manifestaram-se, através do Jornal do Comércio[15], que iriam fazer um movimento em prol das eleições diretas para presidente, promovendo seminários que buscariam conscientizar o jovem do seu papel no processo eleitoral. Esse episódio demonstra que os estudantes pernambucanos também estavam inseridos no processo de luta para reconquista do direto de voto para presidente. A atuação de estudantes em Pernambuco em prol das eleições diretas também foi apontada no trabalho de Thiago Nunes Soares o qual indica que houveram atos de pichações organizados por estudantes universitários, no qual eram pichadas mensagens que atentassem para a urgência do voto direto, o autor traz um depoimento de uma ex-militante do movimento estudantil da UFPE chamada Izabel Cristina de Araújo, a qual relatou o seguinte:

E eu me lembro que a gente fez algumas pichações aqui nos viadutos [próximos da UFPE] e em alguns lugares [...]e a maioria das pichações estavam ligada exatamente a isso: “Diretas Já”! era esse sentimento … “Democracia para o Brasil” era muito ligado a esse sentimento de redemocratização do país [...]. Sempre as pichações eram em vermelho, a cor então era algo significativo. (SOARES, 2012, Pg. 111)

A movimentação político-social em torno das “Diretas Já” também se fez muito ativa durante março de 1984, e a particularidade deste mês é que neste aconteceu o Carnaval, no qual a campanha popular não cessou suas atividades, mas fez com que as festividades ganhassem as cores e os temas do movimento.

Algumas cidades de Pernambuco nomearam seus carnavais com e temática da campanha das diretas, foi o caso de Olinda no qual o prefeito José Arnaldo Amaral nomeou os festejos carnavalescos como “Carnaval das Diretas”[16], também o carnaval de Goiana entrou no movimento e este foi intitulado de “Carnaval das Diretas – 85”[17]. Não só prefeituras assumiram esses lemas em seus carnavais, mas também na Sudene a ASS (Associação de Servidores da Sudene) nomeou seus festejos de “Carnaval das Diretas”[18], contando com o baile “Direto no Frevo”, a matinê “Mamãe eu quero votar” além de ornamentar os espaços de festejos com o amarelo, cor tema da campanha.

A campanha das diretas não esteve presente no Carnaval pernambucano de 1984 apenas nos títulos que algumas prefeituras deram para seus festejos, mas também muitos blocos implementaram o conteúdo da campanha em seus desfiles. Em Olinda no bloco Eu Acho é Pouco o povo desfilou nas ruas com camisas amarelas com inscrições pró-diretas, também o bloco Os Patuscos, da mesma cidade, desfilou com dois dos seus bonecos com os seguintes dizeres: “Não me venha com indiretas” e “Diretas Já”, ainda em Olinda o bloco A Burra Namoradeira trouxe um hino chamado “A Burra Presidenciável”[19] com o objetivo de tecer uma crítica às eleições indiretas.

Também no Recife o Carnaval incorporou a temática das diretas em seus festejos ao passo que blocos saiam às ruas expondo críticas ao sistema em vigência, como os casos dos blocos Boi de Piranha, organizado pelo Sindicato dos Médicos do Recife, o Nois Sofre Mais Nois Goza preparado pelos artistas, intelectuais e jornalistas do Recife, e o Bloco do T, este último encabeçado pelos publicitários da capital pernambucana. Ainda cabe destacar o Bloco Teimozinho que, montado pela Associação de Moradores de Brasilia Teimosa, saiu às ruas da cidade ao dia 04/03/1984 exibindo bonecos com críticas à situação vigente e promovendo as eleições diretas. Também a união de alguns sindicatos montou um bloco chamado Bloco dos Sindicatos Pelas Diretas[20], que em seu desfile contou com a presença de várias organizações como, por exemplo, membros do sindicato dos metalúrgicos e da Ação Católica Operária.

Após o fim dos festejos carnavalescos a campanha continuou ativa e contando com a participação de várias associações de bairros que arquitetavam e executavam várias manifestações na capital pernambucana. Um exemplo dessas manifestações organizadas por essas associações populares foi uma série de comícios e concentrações, realizadas nos entornos de Casa Amarela pelos movimentos Terras De Ninguém e Causa Comum, iniciando com um comício no Morro da Conceição no dia 08/03/1984, seguido de outro comício, dessa vez, no Alto Novo Mundo em 09/03/1984, prosseguindo no dia 10/03/1984 com uma concentração na Linha do Tiro, que deu vez a um comício no Vasco da Gama em 12/031984, sucedido por uma concentração no Alto José do Pinho ocorrida no dia 15/03/1984, que continuou, por sua vez, com uma concentração no Poço da Panela ao dia 16/03/1984[21]. A realização de uma série de manifestações como esta descrita acima não é tarefa fácil devido à necessidade de recursos econômicos que possibilitem tal feito, e a falta destes recursos era um problema relatado pelos organizadores desta sequência de comícios, deste modo é possível pensar que outras entidades de pequeno porte envolvidas na campanha também vivenciavam tais adversidades.

Março de 1984 pode ter sido um período de maior organização para a campanha “Diretas Já” em Pernambuco, e isto devido ao lançamento do Comitê Unitário Pró-Diretas no Cabo de Santo Agostinho[22] e também por conta do Lançamento da Frente Municipalista Pelas Eleições Diretas[23] em Pernambuco, este último se deu no dia 14/03/1984 na Câmara Municipal do Recife contando com a presença do vice-governador de São Paulo e presidente na Associação Paulista de Municípios, Orestes Quércia. Os lançamentos destes espaços de organização podem ter conferido maior organização ao movimento além de se tratarem de espaços suprapartidários, o que pode ter facilitado para o engajamento de mais pessoas, mesmo com divergências políticas, à campanha.

Março também foi marcante para a campanha das diretas em Pernambuco, tendo em vista que foi neste mês que um conjunto de intelectuais, artistas, escritores, músicos e cientistas lançaram um manifesto pedindo a realização de eleições diretas para presidente. À frente do manifesto estavam Gilberto Freyre, Mauro Motta e Leda Alves, mas o documento também contou com as assinaturas de Gilvan Samico, Manuel Correia de Andrade, Frederico Pernambucano, Ariano Suassuna e outros mais. O manifesto, que foi distribuído à impressa, pedia o reestabelecimento de eleições diretas para presidente imediatamente como se percebe no trecho à seguir:

Escritores e artistas pernambucanos antes de tudo cidadãos brasileiros preocupados com o bem estar do País e desejosos de participar na realização dos destinos nacionais, dirijimo-nos a toda Nação para manifestar nossa vontade de que nós e toda a população do Brasil recebamos de volta, já o poder de escolha direta de Presidente da República.[24]

O manifesto dos escritores ganhou repercussão na política pernambucana, e isto é nítido ao ponto que o deputado Osvaldo Lima Filho chegou a fazer uma leitura de um trecho do texto na Câmara Federal ainda solicitando que o manifesto fosse inscrito nos anais da câmara[25], pedido este que foi aceito.

As manifestações de artistas em favor das eleições diretas também ocorreram em Pernambuco, estas se materializaram de diversas formas, até em algumas apresentações, como é o caso das Certinhas do Lalau, que no dia 30/03/1984 fizeram o “Show pelas Diretas”[26] no Teatro de Santa Isabel unindo temas eróticos com a crítica política.

Alguns artistas pernambucanos também se fizeram presentes na campanha “Diretas Já” por meio da arte mural, mais exatamente com a reativação da Brigada Portinari que foi pioneira no movimento muralista em Pernambuco. A Brigada Portinari foi criada em 1982 junto aos candidatos Roberto Freire, Hugo Martins e Carlos Eduardo Pereira, todos do PMDB, para fazer campanha política por meio de pinturas em muros da cidade do Recife, pinturas estas executadas por artistas profissionais engajados na luta contra os candidatos que apoiam a ditadura. Em 1984, a Brigada Portinari reativou sua atividades como afirma Tiago Soares Nunes no seguinte trecho:

Outra questão importante é que a Brigada Portinari reativou as suas atividades iniciadas nas Eleições de 1982 durante a campanha das Diretas Já. Em 03/01/1984 e 26/02/1984, alguns artistas pintaram murais no Cemitério de Santo Amaro, Recife, ao som de conjuntos musicais. (SOARES, 2012, pg. 212)

Além de artistas demais segmentos da sociedade se fizeram ativos na campanha pelas diretas, e merece destaque a participação feminina na campanha pró-diretas, sendo esta de tal forma notável que partidos políticos chegaram a pensar e criar espaços para atuação das mulheres[27]. Alguns eventos demonstram a participação das mulheres na campanha, foi o caso de uma passeata[28] realizada por entidades que representavam as mulheres, como a SOS Corpo e a Federação das Mulheres Pernambucanas, ocorrida no dia 21/03/1984 saindo da Assembleia Legislativa em direção à Praça do Diário. Outro evento interessante encabeçado por mulheres ocorreu na Sudene[29] já em abril no dia 03/04/1984, onde mulheres ocuparam o local reservado para a imprensa no plenário da instituição e distribuíram rosas amarelas para os presentes no local, afim de divulgar um grande comício pró-diretas marcado para o início de abril.

Abril de 1984 foi um mês impar para a campanha das diretas tendo em vista que a votação da emenda Dante de Oliveira se daria neste mês, daí houve a necessidade de articular e estruturar manifestações ainda maiores do que as que haviam ocorrido antes para que o objetivo final da campanha pudesse ser atingido, pois como afirma Alberto Tosi Rodrigues: “Um movimento como o das Diretas só se mantem com eficácia enquanto é capaz de ampliar a si próprio, coisa que, é óbvio, não se pode fazer indefinidamente.” (RODRIGUES, 2003, pg. 60)

Percebe-se, portanto, que na reta final da campanha era preciso montar eventos cada vez melhor organizados e em Pernambuco um exemplo de grande e complexa articulação foi o comício ocorrido no Largo de Santo Amaro[30] em 05/04/1984. As estimativas apontaram que o comício de Santo Amaro reuniu entre 50 e 80 mil pessoas, o que representou um sucesso para os organizadores, porém é preciso acentuar que o comício em questão começou a ser estruturado em meados de março do mesmo ano contando com a colaboração de brigadas de estudantes secundaristas e publicitários para a confecção do material de divulgação[31] e com a participação efetiva de mulheres, como aponta o fato de que no dia 01/04/1984 houve em Olinda o I Encontro da Mulher do PMDB[32] para discutir, justamente, a participação feminina no comício em questão.

O comício de Santo Amaro também contou com a participação de lideranças políticas de prestígio da época, como Tancredo Neves, Lula e Ulisses Guimarães, além de estarem presentes artistas engajados na campanha das diretas como Cristiane Torloni, Alceu Valença e Beth Carvalho. Ocorreram apresentações artísticas neste comício, o que era uma marca dos comícios da campanha, e entre os grupos que se apresentaram estavam o Quinteto Violado, o Mamulengo Só Riso e o Teatro Popular de Teimosinho, além de outros artistas. Merece destaque que o comício de Santo Amaro contou com o apoio da prefeitura do Recife, do governo de Pernambuco, que cederam o palanque e montaram o esquema de iluminação elétrica, e ainda das empresas de transporte do Recife, que disponibilizaram 232 ônibus gratuitos para o comício.

Em abril ainda foi realizado um comício em Petrolina[33] no dia 07/04/1984 contando com a presença de Ulisses Guimarães e uma concentração em Moreno[34] organizada pelo comitê suprapartidário local. Também houveram debates sobre o tema na Fundaj[35], que além de reunir intelectuais para discutir o tema também realizou uma exposição de cartuns sobre os presidenciáveis.

As igrejas de Pernambuco também se manifestaram acerca das eleições diretas, de modo que a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese da Olinda e Recife, que atualmente se denomina de Comissão Arquidiocesana de Pastoral para a Caridade, Justiça e Paz, distribuiu panfletos defendendo a realização de eleições diretas para presidente[36]. Similarmente, a Igreja Batista Regular do Jordão decidiu em Assembleia Ordinária manifestar-se favorável às eleições para presidente e a apoiar o movimento pró-diretas[37].

O dia 25 de abril com certeza foi o dia mais marcante de toda a campanha pró-diretas, pois foi neste dia que ocorreu a votação da emenda Dante de Oliveira na câmara dos deputados. Sabe-se que o governo federal organizou uma enorme manobra por meio da decretação das Medidas de Emergência para que não houvesse, e não houve, transmissão da votação da emenda, mas a população não se abateu por conta dessa medida e realizou passeatas e comícios em várias regiões do país.

Pernambuco contou com a realização de uma passeata organizada pelas entidades estudantis[38] que saíram em caminhada da Rua Sete de Setembro rumo à Praça da Independência, onde estava sendo realizada uma concentração com batucadas e comícios em favor das eleições diretas. Também em frente à Câmara Municipal do Recife se realizou uma vigília para acompanhar os resultados da votação da emenda como nos narra o trecho da reportagem a seguir:

Hoje é dia da votação da badalada emenda pelas “Diretas Já”. E o recifense vai estar nas ruas logo cedo, a partir das 10h com batucadas, comícios passeatas e vigília cívica, numa mobilização que promete entrar pela noite, com concentrações na Praça da Independência e Câmara Municipal do Recife. Esta Casa vai estar aberta a partir das 9h com seis telefones diretos para comunicação com Brasília a fim de acompanhar a votação no Congresso e repassar as informações ao público.[39]

O desfecho da campanha “Diretas Já” não foi o esperado por nenhum de seus participantes, visto que a emenda não recebeu o número suficiente de votos para ser aprovada, faltando 22 votos para atingir a maioria qualificada de dois terços da câmara. Apesar de toda a movimentação em torno da luta pela retomada imediata das eleições diretas para presidente o resultado esperado não foi atingido, porém é preciso observar que, mesmo assim, a “Diretas Já” se constituiu como um marco na política brasileira ao ponto que esta campanha pode ser considerada como o fenômeno que fez com que o povo pudesse retomar sua capacidade de mobilização coletiva e de intervenção na política institucional e isto é notório quando nos atentamos para o fato de que já em 1992 a sociedade novamente se mobilizou, dessa vez, objetivando o impeachment de Fernando Collor de Mello. Uma mobilização como a dos “Caras Pintadas” talvez não pudessem ter existido como tal se não fosse precedida pela “Diretas Já”.

Portanto, muito embora a “Diretas Já” não tenha atingido seu objetivo principal, ela conseguiu inaugurar um novo período de mobilização coletiva, pois o povo não mais agia apenas como massa de manobra, mas se tornou também agente mobilizador e participativo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FICO, Carlos. História do Brasil Contemporâneo. São Paulo. Contexto, 2015

REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2014. 1ª ed.

RODRIGUES, Alberto Tosi. Diretas Já: o grito preso na garganta. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. 1ª ed.

FONTES

Diário de Pernambuco. 1983 – 1984. Hemeroteca Digital Brasileira

Jornal do Comércio. 1983 – 1984. Hemeroteca do Arquivo Público Pernambucano Jordão Emereciano

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

ALBUQUERQUE, Juliene Tenório de. A luta dos movimentos sociais urbanos no Recife: criação e manutenção do PREZEIS. Disponível em: http://www.uel.br/grupo-pesquisa/gepal/segundosimposio/julienetenoriodealbuquerque.pdf Acesso em: 06/06/2017 às 15:42

BAZAGA, Rochelle Gutierrez. AS “DIRETAS JÁ”: UMA ANÁLISE SOBRE O IMPACTO DA CAMPANHA NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA. http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364952315_ARQUIVO_ARTIGOANPUH_1_.pdf Acesso em: 06/06/2017 às 15:50

BERTONCELO, Edison Ricardo Emiliano. “Eu quero votar para presidente”: uma análise sobre a campanha das diretas. Lua Nova, São Paulo, 76: 169-196, 2009. Disponível em: http://www.producao.usp.br/handle/BDPI/6947 Acesso em: 06/06/2017 às 15:51

SOARES, Thiago Nunes. CAMPANHAS POLÍTICAS E REPRESSÃO POLICIAL: as pichações na cidade do Recife (1979-1985). Dissertação de Mestrado em História. UFPE. Recife. 2012. Disponível em: http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/11086 Acesso em: 06/06/2017 às 15:53

_____ Arena política: a campanha das diretas já sob a lógica da vigilância do DOPS-PE. REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ REDEMOCRATIZAÇÕE E TRANSIÇÕES POLÍTICAS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO. Ano5,          n° 7|2015, vol.1. Disponível em: http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/10_arena_politica-_a_campanha_das_diretas_ja_sob_a_logica_da_vigilancia_do_dops-pe.pdf Acesso em 06/06/2017 às 15:48

SOUZA, Elizabet Soares de. BRIGADAS MURALISTAS. “Ou como pichar com arte os muros de uma cidade”. Revista Tempo Histórico. Vol. 4 – Nº 1 (2012) ISSN: 2178-1850. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistatempohistorico/index.php/revista/article/viewFile/33/30 Acesso em: 06/06/2017 às 15:51

_____ PINCELADAS POLÍTICAS: BRIGADAS MURALISTAS NO CONTEXTO ELEITORAL EM RECIFE E OLINDA. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo, julho 2011. Disponível em: http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1300923476_ARQUIVO_ArtigoAnpuhNacional.pdf Acesso em: 06/06/2017 às 15:57

Memórias da Ditadura. Diário de Pernambuco. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/especiais/politica/memorias-da-ditadura/capa_memoria_da_ditadura/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:01

Reynaldo-BH: O movimento das Diretas Já começou com os 200 de Abreu e Lima. Veja.com. Augusto Nunes. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/reynaldo-bh-o-movimento-das-diretas-ja-comecou-com-os-200-de-abreu-e-lima/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:03

Votação da emenda da Diretas Já completa 30 anos. Jornal Hoje. Disponível em:  http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/04/votacao-da-emenda-da-diretas-ja-completa-30-anos.html Acesso em: 06/06/2017 às 16:04


[1] O título do artigo é retirado de uma matiné infantil realizada pela Associação de Servidores da Sudene durante suas comemorações carnavalescas em 1984. O mesmo título também foi parte do refrão de uma paródia da música de Vicente de Paiva e Jararaca Mamãe eu quero utilizada no Carnaval de Olinda em 1984 como forma de crítica política.

[2] Estudante de Licenciatura em História pela UFPE

[3] É importante destacar que a crise não só atinge ao Brasil, mas também outros países, fato que nota-se ao momento em que atentamos para que alguns dos motivos da crise são externos.

[4] Existe variação quanto aos locais e datas das primeiras manifestações.

[5] Os comícios foram a marca principal da campanha.

[6] Este estudo compreende a campanha das diretas como mais abrangente do que as movimentações “oficiais” dirigidas pelos por partidos ou entidades políticas ligadas à campanha, mas entende que as movimentações de reivindicação do direito de voto para eleger o presidente, orquestradas pela população em geral, podem ser entendidas como eventos inclusos na campanha num momento histórico em que a mesma perpassava a vida social das pessoas e abrangia muito mais elementos do que apenas eventos organizados pelos órgãos que coordenavam a campanha.

[7] Memórias da Ditadura. Diário de Pernambuco. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/especiais/politica/memorias-da-ditadura/capa_memoria_da_ditadura/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:01

Reynaldo-BH: O movimento das Diretas Já começou com os 200 de Abreu e Lima. Veja.com. Augusto Nunes. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/reynaldo-bh-o-movimento-das-diretas-ja-comecou-com-os-200-de-abreu-e-lima/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:03

Votação da emenda da Diretas Já completa 30 anos. Jornal Hoje. Disponível em:  http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/04/votacao-da-emenda-da-diretas-ja-completa-30-anos.html Acesso em: 06/06/2017 às 16:04

[8] Oposição deflagra a campanha pelas eleições diretas. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 9 ago 1983. Capa. Hemeroteca Digital

[9] Caminhada Democrática reúne 40 mil pessoas. Jornal do Comércio, Pernambuco, 18 fev 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[10] Cristina acerta com Ulisses Guimarães comício em Petrolina. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 28 fev 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[11] Diretas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 1 mar 1984. Opinião, pg. 7. Hemeroteca Digital

[12] Prefeito de Arcoverde quer mobilização pelas diretas. Diário de Pernambuco. 29 fev 1984. Política, pag. 3. Hemeroteca Digital

[13] Movimento popular e comunitário do bairro de Casa Amarela criado em 1975 para lutar frente à especulação imobiliária.

[14] Os representantes identificam o Projeto Guararapes como uma entidade cultural e cívica que visa representar os estudantes secundaristas e universitários de Pernambuco.

[15] Estudantes em favor das eleições diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 26 fev 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[16] Direta: Tema dominante do Carnaval. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 8 mar 1984. Carnaval, pg. 22. Hemeroteca Digital

[17] Bloco das professoras nas ruas de Goiana. Jornal do Comércio. Pernambuco, 2 mar 1984. Local, pg. 2. APEJE

[18] Eleição direta é tema dos servidores da Sudene. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 3 mar 1984. Carnaval, pg. 13. Hemeroteca Digital

[19] Pró-diretas aproveita o carnaval e faz campanha. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 3 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[20] Op. Cit.

[21] Mobilização pró-diretas é retomada com povo nas ruas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 11 mar 1984. Política, pg. 7. Hemeroteca Digital

[22] Oposicionista destaca instalação de comitê pró-diretas no Cabo. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 24 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[23] Lideranças lançam Frente Municipalista. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 15 mar 1984. Capa. Hemeroteca Digital

[24] Escritores e artistas pelas diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 11 mar 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[25] Osvaldo Lima lê na câmara manifesto pedindo diretas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 15 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[26] Hoje, no Santa Isabel, “As Certinhas do Lalau” – o show pelas diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 30 mar 1984. Caderno C, pg. 4. APEJE

[27] Comissões organizam departamentos Jovem e Feminino do PMDB. Diário de Pernambuco. Pernambuco. 24 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[28] Entidades femininas promovem passeata até a Pracinha do DIARIO. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 25 mar 1984. Política, pg. 6. Hemeroteca Digital

[29] Mobilização pelas “Diretas”, já. Jornal do Comércio. Pernambuco, 4 abr 1984. Local, pg. 8. APEJE

[30] Comício pelas eleições diretas reúne mais de 50 mil pessoas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 6 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE.

[31] PMDB já aprontou material para o comício do dia 5. Jornal do Comércio. Pernambuco, 29 mar 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[32] Comício. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 30 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[33] Pró-diretas tem comício em Petrolina. Jornal do Comércio. Pernambuco, 7 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[34] Concentração em Moreno, amanhã. Jornal do Comércio. Pernambuco, 7 abr 1984. Política Local, pg 5. APEJE

[35] DIRETAS. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 18 mar 1984. Opinião, pg 11. Hemeroteca Digital

[36] Comissão de Justiça divulga panfleto e defende mobilização. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 31 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[37] Batistas já apoiam eleições diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[38] Votação da emenda reúne a juventude. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[39] Votação das Diretas levará recifense às ruas logo cedo. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

Tags Categories: Diretas já, História do Brasil, Pernambuco século XX Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 13 jul 2017 @ 11 25 PM

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 16.1

Prof. Dr. Severino  Vicente da Silva

ENTRE CÂMARA, TERREIRO E REBOLADO:

CONHECENDO PERSONALIDADES POPULARES DO RECIFE  NOS ANOS 1970.

Gustavo Luiz Manoel da Silva[1]*

(Universidade Federal de Pernambuco)

Resumo: A década de 1970, no Recife, mesmo na conjuntura política vigente – Ditadura Civil-Militar – foi composta por muitas personalidades que deram brilho, charme e alegria para aqueles que conviveram com tais figuras folclóricas. Partes de suas vidas serão retratadas nesse artigo além de como, transformaram-se em personalidades populares que permeavam o imaginário da população. Dessa forma, serão destacados três pessoas  – Lolita, vereador Braz e Maria Aparecida –  que tiveram seus momentos gloriosos na década aqui trabalhada.

Palavras-chaves: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Abstract: The 1970s, in the Recife, even in the current political situation – Civil-Militar Dictatorship – was composed by many personalities wich gave brightness, charm and joy for those who lived with such folk figures. Parts of their lives will be portrayed in this article, and how have become personalities popular that permeated the imaginary of the population. In this way, are highlighted three people – Lolita, Alderman Braz and Maria Aparecida – which has its glorious moments in said decade.

Key words: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Muitos que andavam em Recife no século passado não chegaram a conhecer Lolita ou o político camelô e, até mesmo, desconhecem o xangô do alto. Para aqueles que, como eu, não viveram a década de 1970, mas desejam conhecer microbiografias de personalidades populares do Recife, apresento-lhes três figuras irreverentes: Lolita, vereador Braz Batista e Maria Aparecida.

Diante dos toques do terreiro, protestos na Assembleia Municipal e rebolados acenados com cantorias, retratarei um Recife visto pelas camadas inferiores. Aqueles que davam sentindo as pontes mauriceias do centro do Recife ou lá do Alto de Santa Isabel, encantados pelo desfile de uma baiana caricata e, talvez, entrelaçados pelos batuques de Xangô. Até mesmo sentindo-se representados por um camelô arretado.

Dessa forma, este trabalho seguirá mergulhando num passado popular, onde resgatará certa parte da História Social da cidade do Recife.

Braz Batista, um camelô na Câmara Municipal do Recife.

Em 1972, o Brasil passava por um dos seus momentos mais difíceis, com Ditadura Civil-Militar, pois muitos estavam sendo mortos, torturados e/ou presos, simplesmente por serem suspeitos pelo o Estado. No Recife, por sua vez, a situação não foi diferente, pois, como um cavalo recebendo cabresto, a população deveria seguir e reverenciar a situação política até então.

Nesse momento, destaca-se um caso inusitado que aconteceu na cidade do Recife, durante as eleições municipais para prefeito e vereador. Naquele ano de 1972, ocorreram disputas entre ARENA e MDB[2], e um candidato sobressaiu em meio aos nomes tradicionais. Sem estudos, oriundo das camadas mais pobres, negro e acima de tudo camelô. Este é Braz Batista, ganhou uma cadeira na Câmara Municipal do Recife, disputando o pleito pela ARENA, conquistando votos puxando seu carrinho pelo centro do Recife, principalmente na Avenida Conde da Boa Vista.

Vereador Braz, como ficou conhecido, ganhou popularidade em um momento que havia necessidade de representação política. Os populares viam  nele a possibilidade de serem representados, isto é, dando-lhe um voto de protesto, e transformando-lhe nessa figura peculiar.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com neto, Darlan Batista, o mesmo falou um pouco sobre a época dos comícios:

Na época participei muito de comícios, na época tinham aqueles comícios com a caravana da marjoritária, e eu sempre iria junto, e as vezes nem sabia para onde estava indo, mas eu gostava de participar. E isso me marcou muito, esse lado político de participar junto com meu avô[3].

Relato do seu neto que, mesmo criança não entendendo muito tudo aquilo que estava vivendo, mas ao lado do seu avô, compartilhou das emoções e enfervenecia política da época.

Vereador Braz Batista panfletando no centro do Recife[4].

Quando não estava com sua carroça cheia de brinquedos pendurados passando pelo Centro do Recife, fazendo a alegria da criançada, vereador Braz realizava pedidos de doações para os mais pobres. Assim como alegorias carnavalescas, Braz fazia essas campanhas em cima de caminhões enfeitados por cartazes. Mesmo sem estudos, a política ensinou-lhe os meios de conquistar seu eleitorado – por algum tempo.

Além de realizar o arrecadamento de donativos, disponibilizava um caminhão de mudanças para a população. Em um período que não havia transporte público e gratúito para socorrer as pessoas que estão em casa. Inclusive, Braz deixava disponível uma ambulância a serviço do povo, existia até um restaurante que algumas pessoas comiam e deixavam a conta para Braz pagar. Ainda doava 20% do seu salário de vereador para o Hospital do Câncer.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com sua filha mais nova, Paula Santos, a mesma falou um pouco sobre o seu pai:

[...] Essa era a bandeira do meu pai, valorizar o ser humano [...] A ambulância é a coisa mais marcante, que tem tanto a ambulância quanto o caminhão né? Porque como percursor desse transporte gratuíto pro povo, a ambulãncia é a marca registrada[5].

Segundo relato da Paula Santos[6], muitas pessoas vão a antiga casa do seu pai pedir alguma coisa. Hoje, quem mora nessa residência é a viúva Joana Braz Batista. Entoando bordões, como por exemplo, “ruim por ruim, vote em mim”, Braz conseguiu se eleger para sua segunda e última legislatura, por um novo partido o PDS[7], em 1982.

O vereador Braz faleceu no dia 16 de Julho de 1993 em decorrência de um câncer de pulmão e, coincidência ou não, em uma data que boa parte dos recifenses estavam rezando, voltados para o sagrado. Era o dia da Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. Braz conquistou muitos seguidores, talvez muitos nunca o esqueceram. Seu nome está eternizado em uma rua do Recife no bairro do Passarinho e, certamente, na gratidão daqueles que o admiram.

Maria Aparecida, a “xangozeira baiana” do Alto Santa Isabel.

De saia rodada, geralmente de cores fortes com muitos adereços, uma verdadeira baiana caricata, toda maquiada descendo pelas ruas do bairro do Alto Santa Isabel, até o centro do Recife para pular carnaval ou dançar maracatu. Com essa descrição parece ser um folião qualquer que vai brincar os carnavais nas vielas do Recife. Contudo, esta narrativa enquadra-se no pai de santo e carnavalesco, Mário Miranda, que quando chega fevereiro só quer ser Maria Aparecida, nome que atravessa os meses e cola como confete em corpo suado depois de um frevo.

Nascido entre os batuques do ritual Congo, numa época em que para cultuar a entidade tinha-se que fugir da polícia, a repressão do governador Agamenon Magalhães estava presente no anseio de sua infância, na casa do pai de santo Apolinário Gomes da Mota, que morreu pouco tempo depois. Aos 7 anos, fazendo suas obrigações no terreiro da nação Moçambique, descobriu-se que seu Orixá de frente era Oxum, mas a mãe de santo, Dona Rosinha, quis mudar o seu Orixá para um masculino, nesse caso por Xangô. O motivo de tal mudança seria o fato de ser feio para ele ter um santo de frente feminino.

Fizeram as obrigações para tentar mudar seu Orixá de cabeça, mas, após a morta de Dona Rosinha, o jovem iniciado passou para o terreiro de Maria Julia, que pertencia à mesma nação. Com a nova mãe de santo, pôde de fato entregar-se para aquele Orixá que o teria escolhido. Santo de alma feminina que, com o passar dos anos, foi dando vida à vaidade, ritmo aos passos e beleza ao sorriso encantador de Maria Aparecida.

Maria Aparecida na frente do seu terreiro[8]

As alegrias dos carnavais somaram-se com a incorporação do maracatu de baque virado – Cambinda Estrela, era o seu nome – fundado em meados da década de 1930, na Zona da Mata Norte. Os batuques soltos desse maracatu chegaram até o Alto de Santa Isabel somando, a cada toque, um rebanho de baianas enfeitadas por Maria Aparecida. As ladeiras do Alto estavam em festa e as ruas do centro ficaram receptivas, quando Cambinda Estrela desfilava envolvendo todos nos seus ritmos. Além de ser carnavalesco, chegou a produzir toada que traduziu um pouco a si mesmo:

Passei três meses internado

Disseram que foi catimbó

Mas eu sou de Moçambique

E o meu veneno é um só

Foi comida, foi comida

que fez mal a Aparecida.

Maria Aparecida criou seu palácio de Oxum dividida em carnavais e catimbós. Mas na década de 1980, a “xangozeira baiana” nos deixou. O maracatu Cabinda Estrela calou-se até a década seguinte, a casa deixou de ter o brilho que irradiava e, foi assim, como um toque grave do terreiro que impacta e paralisa, Maria Aparecida os deixou.

Lolita, a caricata do centro do Recife.

Quem transitava pelas ruas da cidade do Recife na década de 1970, principalmente no seu centro, certamente encontrava-se com uma figura muito curiosa que, exalando um ar pomposo, acenando com seu rebolado e recitando orgulhosamente um dito em que dizia, “quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”, provavelmente chamava a atenção daqueles que circulavam no bairro do Recife, ignorando a arquitetura estreita dos casarões, mas viravam os pescoços para verem Lolita passar.

Nascido no dia 6 de janeiro de 1933, natural da cidade de Nazaré da Mata, de uma família de agricultores, Ivo Alves da Silva – depois conhecido por Lolita – passou a sua infância na roça ajudando sua família que morava em um engenho. Posteriormente sua parentela acabou indo para São Paulo tentar uma vida melhor. Por outro lado, Lolita teve outras escolhas.

Por influências dos amigos, começou uma vida desregrada aos 10 anos de idade e, os mesmos que diziam-se “amigos”, acabaram contando para o seu pai sobre um fato, de banho de açude, onde entregou para esses garotos a sua mocidade.  Foi a partir daí, com essa mesma idade, que aos passos da rejeição do seu pai, transformou-se nessa figura tão singular. Quando sua família partiu para São Paulo, nos seus 16 anos, mudou-se para a cidade de Limoeiro para trabalhar com o Pe. Nicolau Pimentel. Tendo a possibilidade de sonhar ser professor, terminando o Ginásio[9] com 22 anos. Contudo, envolvendo-se na embriaguez das bebidas, copo a copo, foi afogando o seu sonho.

Mas foi aos 39 anos de idade que decidiu sair do mundo rural, podendo fincar suas bases no asfalto do Recife. Com o intuito de trabalhar de servente e cozinheiro, passou a trabalhar na Pensão Juá, localizada no bairro do Pina – antes disso, passou 15 anos na Ilha do Maruim.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal da Cidade, em 1975, Lolita explica a origem do seu nome:

Eu já estou cheio de tanta pergunta. Quem inventou essa história foi o Detetive Dunga, aquele que tem uma revista a “Repórter Policial”, essa revista era muito famosa e eu também como gente famosa, internacional, fui convidado por ele para posar e ele fez uma foto minha assim (faz o gesto, abrindo os braços), publicou numa página e escreveu em baixo, “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Aí o pessoal leu e começou a falar isso e eu também comecei a falar aos estudantes e eles pegaram e ficou até hoje[10].

Das zonas[11] as faculdades, Lolita andava por caminhos que, às vezes, muitos não queriam comentar. Gostava de ir às faculdades do centro do Recife, porque alguns alunos o aplaudiam, elogiavam todas as papagaiadas que fazia. Nas zonas, sentia-se a vontade para beber, dançar e expressar quem verdadeiramente era. Passou um tempo como cafetão em uma zona do bairro do Pina, para ganhar um pouco mais de dinheiro. Mas sempre denunciava as condições e as repressões que as mulheres desse mundo sofriam.

Lolita

Fonte: Entrevista realizada no Jornal da Cidade[12]

Chegou a apresentar-se artisticamente no programa de calouro Varieté, do Jornal do Commércio. Entre aplausos e vaias, Lolita soltava toda irreverência que havia dentro de si. Conhecido por ser briguento, colocando para correr até carro de polícia. Depois de uma garrafa de cachaça, ousadia e valentia andavam lado a lado. Envolveu-se em bastantes brigas, mas chegava a dizer que só de recitar este folheto – comprado no centro da Cidade, de João Martins de Athayde com o nome: Lolita Era Uma Condessa – “Lolita desde criança era compadecida/Dava pequeno valor/aos objetos da vida/visitava os hospitais/inda que fosse escondida[13]”. Já a veracidade desse relato, não tem a mesma certeza que Lolita tinha de ser solta quando era presa.

Na década de 1980, o Recife perdeu um dos seus filhos mais inusitados. Mesmo não sendo natural desta cidade, foi o Recife que deu vida a essa figura folclórica que desapareceu nas ruas do centro, restando apenas no imaginário.

Considerações finais

O resgate de personagens populares, em especial os quais aqui foram apresentados, é de primordial importância para o entendimento da História Social da cidade do Recife. Dentro de um recorte histórico, década de 1970, três indivíduos destacaram-se nos meios em que viviam, com trajetórias, costumes e posturas diversas. Perpassando por várias esferas sociais.

Dos protestos acalorados na Câmara Municipal do Recife, aos batuques do Alto de Santa Isabel, passando pelo centro com as arruaças de uma “moça”, desvendando personagens que já foram e tiveram essas características. Houve a percepção do quanto podia-se explorar esse universo não tão distante.

Este trabalho visou traduzir essas linguagens, trazer da memória quase esquecida da população e, de certa forma, dá vida a essas figuras folclóricas que embelezaram ainda mais o Recife.

Referências Bibliográficas

Babalorixá Mario Miranda, Maria Aparecida. Direção: Jomard Muniz. Disponível na Internet: <https://www.youtube.com/watch?v=sumcYXGtP-8> Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003. Disponível na Internet: <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/politica/pernambuco/noticia/2013/07/21/as-cenas-de-braz-batista–o-vereador-camelo-90700.php>  Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal da Cidade, de 6 de julho de 1975. Disponível na Internet: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305>  . Acesso em: 03 julho.2016.

NASCIMENTO, Luiz. os protocolos das modernizações urbanas na história recente da cidade do recife. Recife: CLIO, 2012.


1* Estudante do 6º Período do curso de Licenciatura em História, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

[2] Bipartidarismo (apenas dois partidos) foi o sistema que vigorou até 1979 no Brasil.

[3] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003

[4]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Braz+Batista&ltr=b&id_perso=1485

[5] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[6] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[7] Partido Social Democrático Social

[8]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=M%C3%A1rio+Miranda/Maria+Aparecida&ltr=m&id_perso=5328

[9] Equivalente ao Ensino Fundamental II, atualmente.

[10] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

[11] Puteiro, casa da luz vermelha, lugar onde existe prostituição.

[12]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305

[13] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

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Categories: História do Brasil, História do Século XX, Histório da Cultura, Pernambuco século XX
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 19 jul 2016 @ 08 47 PM

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02 de dezembro de 1870



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