UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 16.1

Prof. Dr. Severino  Vicente da Silva

ENTRE CÂMARA, TERREIRO E REBOLADO:

CONHECENDO PERSONALIDADES POPULARES DO RECIFE  NOS ANOS 1970.

Gustavo Luiz Manoel da Silva[1]*

(Universidade Federal de Pernambuco)

Resumo: A década de 1970, no Recife, mesmo na conjuntura política vigente – Ditadura Civil-Militar – foi composta por muitas personalidades que deram brilho, charme e alegria para aqueles que conviveram com tais figuras folclóricas. Partes de suas vidas serão retratadas nesse artigo além de como, transformaram-se em personalidades populares que permeavam o imaginário da população. Dessa forma, serão destacados três pessoas  – Lolita, vereador Braz e Maria Aparecida –  que tiveram seus momentos gloriosos na década aqui trabalhada.

Palavras-chaves: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Abstract: The 1970s, in the Recife, even in the current political situation – Civil-Militar Dictatorship – was composed by many personalities wich gave brightness, charm and joy for those who lived with such folk figures. Parts of their lives will be portrayed in this article, and how have become personalities popular that permeated the imaginary of the population. In this way, are highlighted three people – Lolita, Alderman Braz and Maria Aparecida – which has its glorious moments in said decade.

Key words: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Muitos que andavam em Recife no século passado não chegaram a conhecer Lolita ou o político camelô e, até mesmo, desconhecem o xangô do alto. Para aqueles que, como eu, não viveram a década de 1970, mas desejam conhecer microbiografias de personalidades populares do Recife, apresento-lhes três figuras irreverentes: Lolita, vereador Braz Batista e Maria Aparecida.

Diante dos toques do terreiro, protestos na Assembleia Municipal e rebolados acenados com cantorias, retratarei um Recife visto pelas camadas inferiores. Aqueles que davam sentindo as pontes mauriceias do centro do Recife ou lá do Alto de Santa Isabel, encantados pelo desfile de uma baiana caricata e, talvez, entrelaçados pelos batuques de Xangô. Até mesmo sentindo-se representados por um camelô arretado.

Dessa forma, este trabalho seguirá mergulhando num passado popular, onde resgatará certa parte da História Social da cidade do Recife.

Braz Batista, um camelô na Câmara Municipal do Recife.

Em 1972, o Brasil passava por um dos seus momentos mais difíceis, com Ditadura Civil-Militar, pois muitos estavam sendo mortos, torturados e/ou presos, simplesmente por serem suspeitos pelo o Estado. No Recife, por sua vez, a situação não foi diferente, pois, como um cavalo recebendo cabresto, a população deveria seguir e reverenciar a situação política até então.

Nesse momento, destaca-se um caso inusitado que aconteceu na cidade do Recife, durante as eleições municipais para prefeito e vereador. Naquele ano de 1972, ocorreram disputas entre ARENA e MDB[2], e um candidato sobressaiu em meio aos nomes tradicionais. Sem estudos, oriundo das camadas mais pobres, negro e acima de tudo camelô. Este é Braz Batista, ganhou uma cadeira na Câmara Municipal do Recife, disputando o pleito pela ARENA, conquistando votos puxando seu carrinho pelo centro do Recife, principalmente na Avenida Conde da Boa Vista.

Vereador Braz, como ficou conhecido, ganhou popularidade em um momento que havia necessidade de representação política. Os populares viam  nele a possibilidade de serem representados, isto é, dando-lhe um voto de protesto, e transformando-lhe nessa figura peculiar.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com neto, Darlan Batista, o mesmo falou um pouco sobre a época dos comícios:

Na época participei muito de comícios, na época tinham aqueles comícios com a caravana da marjoritária, e eu sempre iria junto, e as vezes nem sabia para onde estava indo, mas eu gostava de participar. E isso me marcou muito, esse lado político de participar junto com meu avô[3].

Relato do seu neto que, mesmo criança não entendendo muito tudo aquilo que estava vivendo, mas ao lado do seu avô, compartilhou das emoções e enfervenecia política da época.

Vereador Braz Batista panfletando no centro do Recife[4].

Quando não estava com sua carroça cheia de brinquedos pendurados passando pelo Centro do Recife, fazendo a alegria da criançada, vereador Braz realizava pedidos de doações para os mais pobres. Assim como alegorias carnavalescas, Braz fazia essas campanhas em cima de caminhões enfeitados por cartazes. Mesmo sem estudos, a política ensinou-lhe os meios de conquistar seu eleitorado – por algum tempo.

Além de realizar o arrecadamento de donativos, disponibilizava um caminhão de mudanças para a população. Em um período que não havia transporte público e gratúito para socorrer as pessoas que estão em casa. Inclusive, Braz deixava disponível uma ambulância a serviço do povo, existia até um restaurante que algumas pessoas comiam e deixavam a conta para Braz pagar. Ainda doava 20% do seu salário de vereador para o Hospital do Câncer.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com sua filha mais nova, Paula Santos, a mesma falou um pouco sobre o seu pai:

[...] Essa era a bandeira do meu pai, valorizar o ser humano [...] A ambulância é a coisa mais marcante, que tem tanto a ambulância quanto o caminhão né? Porque como percursor desse transporte gratuíto pro povo, a ambulãncia é a marca registrada[5].

Segundo relato da Paula Santos[6], muitas pessoas vão a antiga casa do seu pai pedir alguma coisa. Hoje, quem mora nessa residência é a viúva Joana Braz Batista. Entoando bordões, como por exemplo, “ruim por ruim, vote em mim”, Braz conseguiu se eleger para sua segunda e última legislatura, por um novo partido o PDS[7], em 1982.

O vereador Braz faleceu no dia 16 de Julho de 1993 em decorrência de um câncer de pulmão e, coincidência ou não, em uma data que boa parte dos recifenses estavam rezando, voltados para o sagrado. Era o dia da Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. Braz conquistou muitos seguidores, talvez muitos nunca o esqueceram. Seu nome está eternizado em uma rua do Recife no bairro do Passarinho e, certamente, na gratidão daqueles que o admiram.

Maria Aparecida, a “xangozeira baiana” do Alto Santa Isabel.

De saia rodada, geralmente de cores fortes com muitos adereços, uma verdadeira baiana caricata, toda maquiada descendo pelas ruas do bairro do Alto Santa Isabel, até o centro do Recife para pular carnaval ou dançar maracatu. Com essa descrição parece ser um folião qualquer que vai brincar os carnavais nas vielas do Recife. Contudo, esta narrativa enquadra-se no pai de santo e carnavalesco, Mário Miranda, que quando chega fevereiro só quer ser Maria Aparecida, nome que atravessa os meses e cola como confete em corpo suado depois de um frevo.

Nascido entre os batuques do ritual Congo, numa época em que para cultuar a entidade tinha-se que fugir da polícia, a repressão do governador Agamenon Magalhães estava presente no anseio de sua infância, na casa do pai de santo Apolinário Gomes da Mota, que morreu pouco tempo depois. Aos 7 anos, fazendo suas obrigações no terreiro da nação Moçambique, descobriu-se que seu Orixá de frente era Oxum, mas a mãe de santo, Dona Rosinha, quis mudar o seu Orixá para um masculino, nesse caso por Xangô. O motivo de tal mudança seria o fato de ser feio para ele ter um santo de frente feminino.

Fizeram as obrigações para tentar mudar seu Orixá de cabeça, mas, após a morta de Dona Rosinha, o jovem iniciado passou para o terreiro de Maria Julia, que pertencia à mesma nação. Com a nova mãe de santo, pôde de fato entregar-se para aquele Orixá que o teria escolhido. Santo de alma feminina que, com o passar dos anos, foi dando vida à vaidade, ritmo aos passos e beleza ao sorriso encantador de Maria Aparecida.

Maria Aparecida na frente do seu terreiro[8]

As alegrias dos carnavais somaram-se com a incorporação do maracatu de baque virado – Cambinda Estrela, era o seu nome – fundado em meados da década de 1930, na Zona da Mata Norte. Os batuques soltos desse maracatu chegaram até o Alto de Santa Isabel somando, a cada toque, um rebanho de baianas enfeitadas por Maria Aparecida. As ladeiras do Alto estavam em festa e as ruas do centro ficaram receptivas, quando Cambinda Estrela desfilava envolvendo todos nos seus ritmos. Além de ser carnavalesco, chegou a produzir toada que traduziu um pouco a si mesmo:

Passei três meses internado

Disseram que foi catimbó

Mas eu sou de Moçambique

E o meu veneno é um só

Foi comida, foi comida

que fez mal a Aparecida.

Maria Aparecida criou seu palácio de Oxum dividida em carnavais e catimbós. Mas na década de 1980, a “xangozeira baiana” nos deixou. O maracatu Cabinda Estrela calou-se até a década seguinte, a casa deixou de ter o brilho que irradiava e, foi assim, como um toque grave do terreiro que impacta e paralisa, Maria Aparecida os deixou.

Lolita, a caricata do centro do Recife.

Quem transitava pelas ruas da cidade do Recife na década de 1970, principalmente no seu centro, certamente encontrava-se com uma figura muito curiosa que, exalando um ar pomposo, acenando com seu rebolado e recitando orgulhosamente um dito em que dizia, “quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”, provavelmente chamava a atenção daqueles que circulavam no bairro do Recife, ignorando a arquitetura estreita dos casarões, mas viravam os pescoços para verem Lolita passar.

Nascido no dia 6 de janeiro de 1933, natural da cidade de Nazaré da Mata, de uma família de agricultores, Ivo Alves da Silva – depois conhecido por Lolita – passou a sua infância na roça ajudando sua família que morava em um engenho. Posteriormente sua parentela acabou indo para São Paulo tentar uma vida melhor. Por outro lado, Lolita teve outras escolhas.

Por influências dos amigos, começou uma vida desregrada aos 10 anos de idade e, os mesmos que diziam-se “amigos”, acabaram contando para o seu pai sobre um fato, de banho de açude, onde entregou para esses garotos a sua mocidade.  Foi a partir daí, com essa mesma idade, que aos passos da rejeição do seu pai, transformou-se nessa figura tão singular. Quando sua família partiu para São Paulo, nos seus 16 anos, mudou-se para a cidade de Limoeiro para trabalhar com o Pe. Nicolau Pimentel. Tendo a possibilidade de sonhar ser professor, terminando o Ginásio[9] com 22 anos. Contudo, envolvendo-se na embriaguez das bebidas, copo a copo, foi afogando o seu sonho.

Mas foi aos 39 anos de idade que decidiu sair do mundo rural, podendo fincar suas bases no asfalto do Recife. Com o intuito de trabalhar de servente e cozinheiro, passou a trabalhar na Pensão Juá, localizada no bairro do Pina – antes disso, passou 15 anos na Ilha do Maruim.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal da Cidade, em 1975, Lolita explica a origem do seu nome:

Eu já estou cheio de tanta pergunta. Quem inventou essa história foi o Detetive Dunga, aquele que tem uma revista a “Repórter Policial”, essa revista era muito famosa e eu também como gente famosa, internacional, fui convidado por ele para posar e ele fez uma foto minha assim (faz o gesto, abrindo os braços), publicou numa página e escreveu em baixo, “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Aí o pessoal leu e começou a falar isso e eu também comecei a falar aos estudantes e eles pegaram e ficou até hoje[10].

Das zonas[11] as faculdades, Lolita andava por caminhos que, às vezes, muitos não queriam comentar. Gostava de ir às faculdades do centro do Recife, porque alguns alunos o aplaudiam, elogiavam todas as papagaiadas que fazia. Nas zonas, sentia-se a vontade para beber, dançar e expressar quem verdadeiramente era. Passou um tempo como cafetão em uma zona do bairro do Pina, para ganhar um pouco mais de dinheiro. Mas sempre denunciava as condições e as repressões que as mulheres desse mundo sofriam.

Lolita

Fonte: Entrevista realizada no Jornal da Cidade[12]

Chegou a apresentar-se artisticamente no programa de calouro Varieté, do Jornal do Commércio. Entre aplausos e vaias, Lolita soltava toda irreverência que havia dentro de si. Conhecido por ser briguento, colocando para correr até carro de polícia. Depois de uma garrafa de cachaça, ousadia e valentia andavam lado a lado. Envolveu-se em bastantes brigas, mas chegava a dizer que só de recitar este folheto – comprado no centro da Cidade, de João Martins de Athayde com o nome: Lolita Era Uma Condessa – “Lolita desde criança era compadecida/Dava pequeno valor/aos objetos da vida/visitava os hospitais/inda que fosse escondida[13]”. Já a veracidade desse relato, não tem a mesma certeza que Lolita tinha de ser solta quando era presa.

Na década de 1980, o Recife perdeu um dos seus filhos mais inusitados. Mesmo não sendo natural desta cidade, foi o Recife que deu vida a essa figura folclórica que desapareceu nas ruas do centro, restando apenas no imaginário.

Considerações finais

O resgate de personagens populares, em especial os quais aqui foram apresentados, é de primordial importância para o entendimento da História Social da cidade do Recife. Dentro de um recorte histórico, década de 1970, três indivíduos destacaram-se nos meios em que viviam, com trajetórias, costumes e posturas diversas. Perpassando por várias esferas sociais.

Dos protestos acalorados na Câmara Municipal do Recife, aos batuques do Alto de Santa Isabel, passando pelo centro com as arruaças de uma “moça”, desvendando personagens que já foram e tiveram essas características. Houve a percepção do quanto podia-se explorar esse universo não tão distante.

Este trabalho visou traduzir essas linguagens, trazer da memória quase esquecida da população e, de certa forma, dá vida a essas figuras folclóricas que embelezaram ainda mais o Recife.

Referências Bibliográficas

Babalorixá Mario Miranda, Maria Aparecida. Direção: Jomard Muniz. Disponível na Internet: <https://www.youtube.com/watch?v=sumcYXGtP-8> Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003. Disponível na Internet: <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/politica/pernambuco/noticia/2013/07/21/as-cenas-de-braz-batista–o-vereador-camelo-90700.php>  Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal da Cidade, de 6 de julho de 1975. Disponível na Internet: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305>  . Acesso em: 03 julho.2016.

NASCIMENTO, Luiz. os protocolos das modernizações urbanas na história recente da cidade do recife. Recife: CLIO, 2012.


1* Estudante do 6º Período do curso de Licenciatura em História, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

[2] Bipartidarismo (apenas dois partidos) foi o sistema que vigorou até 1979 no Brasil.

[3] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003

[4]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Braz+Batista&ltr=b&id_perso=1485

[5] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[6] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[7] Partido Social Democrático Social

[8]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=M%C3%A1rio+Miranda/Maria+Aparecida&ltr=m&id_perso=5328

[9] Equivalente ao Ensino Fundamental II, atualmente.

[10] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

[11] Puteiro, casa da luz vermelha, lugar onde existe prostituição.

[12]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305

[13] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

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Categories: História do Brasil, História do Século XX, Histório da Cultura, Pernambuco século XX
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 19 jul 2016 @ 08 47 PM

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 16 jul 2016 @ 10:19 PM 
 

 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

LICENCIATURA

DISCIPLINA: HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

PROFESSOR: SEVERINO VICENTE DA SILVA


MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR DE RECIFE: POLITIZAÇÃO POR MEIO DA EDUCAÇÃO.

Aline Gleicy Lopes de Oliveira[1]

“A educação é a arma mais poderosa que

você pode usar para mudar o mundo.”

Nelson Mandela[2]

Resumo:

O presente artigo tratará de forma sucinta uma ideia sobre a importância do Movimento de Cultura Popular do Recife para promover uma conscientização da realidade social da população pobre, bem com a ação deste mesmo movimento para provocar uma politização das massas através da educação.

Verificaremos também que o processo de alfabetização popular ocorria tendo como base a valorização da cultura popular e a utilização do vocabulário empregado no cotidiano da população regional. E por fim constataremos como o Movimento de Cultura Popular do Recife finalizou suas atividades após o golpe militar no Brasil em 1964.

Abstract:

This article will give briefly an idea about the importance of Recife Popular Culture Movement to promote an awareness of the social reality of the poor, as well as the action of this same movement to bring about a politicization of the masses through education.

We will check also the popular literacy process occurred based on the appreciation of popular culture and the use of the vocabulary used in the daily life of the regional population. Finally we note how the Popular Culture Movement of Recife finished its activities after the military coup in Brazil in 1964.

Palavras chaves: politics, cultura, education.

  1. 1. Introdução

No final da década de 1950 o Brasil se encontrava em uma grave crise econômica e social, havia um grande número de pessoas que dependiam de subempregos, vivam abaixo da linha da pobreza e eram analfabetos. Muitos governantes sugeriam que a crise econômica brasileira era causada pelo grande número de analfabetos existentes no país, porém surgiu em um grupo de intelectuais que acreditavam no contrário, de maneira coerente eles tinham a certe que o analfabetismo e a pauperização eram consequências da crise econômica.

Os intelectuais acreditavam que alfabetizando a população seria possível mudar a situação do país, pois junto com a alfabetização as pessoas ganhariam o direito a voto e também poderiam desenvolver uma conscientização da realidade social, bem como através da educação poderiam desenvolver a politização entre essa população carente. Sendo assim, políticos e intelectuais possuíam um objetivo comum, extinguir ou diminuir o analfabetismo no Brasil, ou seja, a luta contra a crise se torna a luta pela alfabetização da população pobre.

Nesse contexto surgem no Brasil, no início da década de 1960, grandes movimentos que objetivavam a alfabetização das massas. Em Recife surge o Movimento de Cultura Popular (MCP), em Natal surge a Campanha “De Pé de no Chão Também se Aprende a Ler, na Igreja Católica inicia-se o Movimento de Educação de Base (MEB) e a UNE – União Nacional dos Estudantes cria o Centro Popular de Cultura (CPC). No presente documento trataremos apenas a respeito do Movimento de Cultura Popular do Recife.

  1. 2. O Surgimento do Movimento de Cultura Popular do Recife

O Movimento de Cultura Popular do Recife (MCP)[3] teve início oficial em Recife no dia 13 de maio de 1960, com o apoio de Miguel Arraes, prefeito do Recife na época. O movimento fortaleceu a união de intelectuais pernambucanos que já estavam reunidos em prol da educação das massas e tinham suas base ideológicas influenciadas por ideias européias, em especial as ideologias do movimento francês Peuple et Culture (Povo e Cultura). O MCP tinha como foco a alfabetização e a conscientização da realidade social das massas, valorizando a cultura popular e politizando essa grande parte da sociedade brasileira.

O MCP visualizava a educação como um objeto que possibilitava a politização e a conscientização para a luta social. Ou seja, a educação estava como sinônimo de liberdade para a massa oprimida e manipulada pela elite brasileira, alfabetizando o povo teria o direito de escolher seus líderes e de opinar no cenário político brasileiro, acreditava-se que através da alfabetização das massas seria possível mudar a situação do país.

A sede do MCP ficou situada no Sítio da Trindade e teve como seu fundador e primeiro presidente Germano Coelho o qual se uniu a muitos outros intelectuais como Abelardo da Hora, Josina Godoi, Norma Coelho, Paulo Freire, entre outros inúmeros artistas e intelectuais que uniram-se ao movimento com objetivos de caráter político-educacional. Germano Coelho deixou bem claro esse ideológico político-educacional do movimento, deixando claro que o MCP teria surgido para a libertação do povo por meio da educação, ao responder para os críticos do movimento:

[...] “O Movimento de Cultura Popular nasceu da miséria do povo do Recife. De suas paisagens mutiladas. De seus mangues cobertos de mocambos. Da lama dos morros e alagados, onde crescem o analfabetismo, o desemprego, a doença e a fome. Suas raízes mergulham nas feridas da cidade degradada. Fincam-se nas terras áridas. Refletem o seu drama como “síntese dramatizada da estrutura social inteira”. Drama também de outras áreas subdesenvolvidas. Do Recife com 80.000 crianças de 7 a 14 anos de idade sem escola. Do Brasil, com 6 milhões. Do Recife, com milhares e milhares de adultos analfabetos. Do Brasil, com milhões. Do mundo em que vivemos, em pleno século XX, com mais de um bilhão de homens e mulheres e crianças incapazes sequer de ler, escrever e contar. O Movimento de Cultura Popular representa, assim, uma resposta. A resposta do prefeito Miguel Arraes, dos vereadores, dos intelectuais, dos estudantes e do povo do Recife ao desafio da miséria. Resposta que se dinamiza sob a forma de um Movimento que inicia, no Nordeste, uma experiência nova de Universidade Popular.”

(GASPAR, 2009. Pág.1)

O MCP surgiu com o intuito de melhorar o índice de alfabetização de crianças, jovens e adultos, porém ficou mais conhecido na história por sua eficiência na atuação da alfabetização de jovens e adultos. O movimento contou com projetos culturais, educacionais, profissionalizantes, artísticos, recreativos e de educação física. E tinha como principais objetivos:

  • Valorização da cultura brasileira;
  • Promover e incentivar a educação de crianças, adolescentes e adultos;
  • Desenvolver plenamente todas as virtualidades do ser humano;
  • Proporcionar a elevação do nível cultural do povo;
  • Formar quadros destinados a interpretar, sistematizar e transmitir os múltiplos aspectos da cultura popular.

Podemos observar através dos objetivos do MCP que tal movimento não desejava apenas alfabetizar a população pobre, mas seria um canal para levar a conscientização das lutas sociais, a politização e a democratização para uma população esquecida, oprimida e desvalorizada.

O MCP administrativamente foi dividido em três departamentos: o DFC, Departamento de Formação e Cultura; o DDI, Departamento de Documentação e Informação; e o DDC, Departamento de Difusão da Cultura. Desses o DDC foi o que teve um maior crescimento, dividindo-se em dez áreas distintas, mas interligadas: pesquisa (cujo diretor, era Paulo Freire), ensino de artes plásticas e artesanato, música, dança e canto, cinema – rádio -  televisão e imprensa, teatro, cultura brasileira, bem-estar coletivo, saúde, esportes.

O Departamento de Difusão da Cultura através de seus objetivos e de suas atividades desenvolvidas demonstra ainda com mais intensidade que o MCP não queria apenas promover a alfabetização, mas em seu processo alfabetizador havia um processo de conscientização e de politização dos povos menos favorecidos. Maria Betânia e Silva relata algumas atividades e objetivos do DDC:

“O projeto de núcleos de cultura popular visava fornecer às organizações populares os elementos de cultura popular capazes de incrementar suas atividades culturais; auxiliar as organizações populares a se expandirem e a se aprofundarem entre todas as camadas do povo; desenvolver a consciência do povo através da criação ou expansão de departamentos culturais nas organizações populares e ainda auxiliar as organizações e setores diversos do povo a formularem suas plataformas reivindicatórias no quadro geral da problemática econômica, social e política brasileira e nordestina (Pernambuco, 1963).” (SILVA, 2007. P.10)

Foi ainda através do DDC que surgiram o Teatro de Cultura Popular, foram elaboradas formas teatrais de expressão da problemática popular, no cinema se demonstrou em filmes os problemas fundamentais que lidava o povo. Nas artes plásticas e artesanatos objetivava-se incentivar as atividades da arte utilitária, visando a ocupação de famílias de baixa renda, por isso o DDC promoveu vários cursos como pintura, desenho, fantoche, cestaria, cerâmica, estamparia, tapeçaria e tecelagem. Foi organizado também o Centro de Artes Plásticas e Artesanato do MCP e a Galeria de Arte do Recife, onde os artesãos poderiam vender seus trabalhos. O MCP politizou também através da música, da dança e do canto, buscando reviver e preservar o folclore e as festas populares.

Como podemos observar o MCP não trabalhou somente em prol da alfabetização, mas criou realizou várias atividades que produziam na população uma consciência da realidade social da época, bem como atividades que visavam politizar a população e demonstrar a importância da atuação das massas no cenário político. O MCP atuou ainda promovendo a valorização da cultura popular, demonstrando que a produção cultural do povo não deveria ser esquecida, mas sim valorizada e repassada por gerações.

O MCP alcançou muitas conquistas relativas a alfabetização e profissionalização das massas como demonstrado por Risso e Silva, que afirmam que até setembro de 1962 o MCP já havia concretizado:

(…) 201 escolas com 626 turmas; 19.646 alunos; rede de escolas radiofônicas; um centro de artes plásticas e artesanato; 452 professores e 174 monitores, ministrando o ensino que correspondia ao 1º grau, supletivo e educação de base artística; uma escola para motoristas e mecânicos; centro de cultura D. Olegarinha; galeria de arte; conjunto teatral; cinco praças de cultura, estas praças levavam ao local: biblioteca, teatro, cinema, tele-clube; música, orientação pedagógica; jogos infantis; educação física. (CUNHA, GOES, 1999, p.17). (RISSO E SILVA, 2007. P.2-3)

As realizações educacionais, políticas e culturais do MCP não foram vistas com bons olhos pela elite brasileira e muito menos pela elite pernambucana. O movimento foi tido como uma ameaça as elites, pois valorizava a cultura popular e conscientizava as massas do seu poder social e político na sociedade. Logo o movimento foi acusado de subversivo e destruído no início do golpe militar de 1964, sua sede foi destruída e os documentos queimados, seus líderes perseguidos e exilados, dessa forma acabaria o Movimento de Cultura Popular do Recife.

  1. 3. A alfabetização que liberta

Como já foi dito anteriormente o MCP foi criado para promover a alfabetização das crianças, adolescentes e adultos, e isso o movimento fez muito bem. No entanto a educação de jovens e adultos não era simplesmente voltada para a alfabetização das pessoas, mas havia técnicas de alfabetização que levavam as pessoas a consciência das lutas sociais, a politização e a democratização das massas, tais formas de alfabetizar além de politizar a população também promoviam nelas a valorização da cultura popular. Todo o processo de alfabetização estava atrelado à realidade, ao meio em que a população estava inserida, esse método de ensino ficou conhecido como método Paulo Freire, tal método foi experimentado no MCP e depois ganhou o Brasil e o mundo.

A educação de jovens e adultos no MCP se desenvolveu de duas formas: as escolas de rádio (um tipo de educação à distância) e os círculos de cultura de Paulo Freire. As escolas de rádio tiveram início em setembro de 1961 após assinar um convênio com o SIRENA (Sistema de Rádio Educativo). A fim de suprir a defasagem do material pedagógico utilizado pelo SIRENA o MCP produziu o Livro de Leitura para Adultos[4], também conhecido como Cartilha do MCP, tal livro foi elaborado por Norma Coelho e Josina Godoy.

As escolas de rádio eram transmitidas pela Rádio Clube de Pernambuco e pela Rádio Continental. Em fins de 1961 já existiam 60 escolas radiofônicas, locais aonde as pessoas iriam para ouvir os programas de educacionais nas rádios, esses aluno eram acompanhados por monitores que os ajudavam a desenvolver as atividades dispostas na Cartilha do MCP. Essa cartilha visava “elaborar uma maneira de ensinar a ler que pudesse realmente, interessar ao homem e a mulher do Nordeste, cansados da luta diária pela sua sobrevivência e a de seus filhos” (SOUZA, 2007, P.4). Ou seja, a cartilha trazia uma linguagem já conhecida pelos alunos de forma o material de estudo pudesse interagir com a realidade do aluno.

Ao observar o Livro de Leitura para Adultos percebemos que as autoras promoveram a valorização da cultura popular, a valorização da produção artística populacional e a elevação do nível cultural da população. Bem como, fica claro a utilização da cartilha como forma de promoção da conscientização das lutas sociais, a fim de demonstrar para o povo que uma classe consciente pode produzir uma transformação política e social.

Analisando a Cartilha do MCP podemos perceber que a mesma se utiliza de frases de conscientização política e social para promover a alfabetização. Como por exemplo, as frases abaixo:

  • Lição 1: POVO          VOTO – O VOTO É DO POVO.
  • Lição 2: VIDA / SAÚDE / PÃO – O PÃO DÁ SAUDE. – SAÚDE É VIDA.
  • Lição 11: CASA / MOCAMBO – O POVO SEMA CASA VIVE NO MOCAMBO.

Além disso, constatamos também que ao final de algumas lições da Cartilha do MCP, colocam frases de despertamento político. Como por exemplo:

  • Com a carestia de vida, um bom salário é a defesa da família do operário. (lição 27)
  • Em um plebiscito o povo dá sua decisão. (lição 29)
  • O sindicato defende o camponês. (lição 46)
  • O homem do Nordeste pede justiça. (lição 50)

Estas são só uma amostra do que podemos observar que foi utilizado no Livro de Leitura para Adultos nas escolas radiofônicas para promover na população uma politização, uma consciência das lutas sociais. Bem como, para promover a alfabetização por meio da realidade social do povo.

Os Círculos de Cultura foram regidos por um método de ensino desenvolvido por Paulo Freire, tal método teve início no MCP e depois se espalhou pelo Brasil, após 1964 quando Freire é exilado o método Paulo Freire ganha o mundo e transforma vidas na África, Europa e Ásia. Ao pensar em alfabetização de adultos, Paulo Freire tinha como princípios a conscientização da realidade social, a politização, a transformação social e a produção de uma consciência crítica. Freire em seu método priorizava também uma educação que tivesse um pensamento político-pedagógico dialógico e libertador, além de valorizar o intercâmbio dos saberes entre aprendiz e educador. Dessa forma, os Círculos de Cultura de Paulo Freire eram locais de trocas de conhecimentos, de reflexão, de indagação de discussões, onde alunos e educadores eram iguais.

Nos Círculo de Cultura a alfabetização era realizada a partir da observação da realidade regional do povo, através da discussão dos problemas reais do grupo passava-se a realizar uma conscientização da realidade social e assim despertava-se o desejo no grupo pelo conhecimento das palavras, assim tinha início o processo de alfabetização que valorizava a leitura de mundo dos alunos, tal leitura seria antecessora à leitura das palavras, ou seja,

A proposta de Alfabetização de Adultos de Paulo Freire era baseada na conscientização e partia do pressuposto de que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Ele propunha a Alfabetização e a Educação de Base para Adultos sempre partindo de um exame crítico da realidade existencial dos educados, devia-se buscar e identificar as origens e a possibilidade de superar as problemáticas ali levantadas. (RISSO E SILVA, 2007. P.11)

Os Círculos de Cultura não utilizavam cartilhas, elas ocorriam em reuniões informais nas quais o educador observava os vocábulos do grupo e iniciava a alfabetização a partir do conhecimento de tais vocábulos, essa etapa da aprendizagem é chamada de etapa de preparação. Concluída essa fase inicia-se a etapa do aprendizado coletivo e solidário, na qual se aprende a fazer uma leitura da realidade social que se vive, bem como aprende-se a ler a palavra escrita. Dessa forma percebemos que a aprendizagem nos Círculos de Cultura apóia-se no processo de conscientização da realidade popular e nas discussões a respeito da cultura e dos problemas vitais e sociais da região.

Sendo assim, percebe-se que diferente dos sistemas de alfabetização anteriores o MCP se preocupava em gerar uma produção cultural voltada para as massas, de forma a elevar o nível cultural da população. Pois para o movimento a educação era uma arma política que acontecia por meio do enaltecimento da cultura popular. Dessa maneira, todas as formas de ensino desenvolvidas pelo MCP possuíam, é claro, as mesmas finalidades: alfabetizar, politizar, conscientizar, democratizar e despertar a estima pela cultura popular.

  1. 4. Conclusões

O Movimento de Cultura Popular foi inovador e transformador no Brasil, pois seus idealizadores perceberam que a educação era uma arma política, um meio de transformação social e político. O MCP viu a alfabetização como algo além da leitura, como uma conseqüência de um processo transformador, o processo de conscientização da realidade social, compreendendo e levando a compreensão de que só por meio da educação se poderia buscar mudanças e avanços sociais.

O MCP através dos diferentes processos de educação politizou, conscientizou e alfabetizou a massa da população esquecida, desprestigiada, marginalizada socialmente. A educação promoveu a tal população o direito do voto, logo o direito da luta por transformações sócias. O MCP foi “um instrumento de conscientização na luta contra a miséria e a desigualdade social, que eram, e ainda são, as responsáveis pelo analfabetismo” (RISSO E SILVA, 2006 P.13).

Contudo, em um mundo bilateral em que se vivia no período da guerra fria um movimento que conscientizava as massas e promovia mudanças sociais era visto como uma ameaça socialista, como um movimento de ideias subversivas e ameaçadoras. Sendo assim, após o golpe de 1964 o MCP é exterminado e inicia-se no Brasil uma fase de alienação popular, no entanto muitos já haviam sido arrematados pela conscientização social e pela politização e foi essa massa politizada que fez a diferença na luta contra a opressão e ditadura imposta o Brasil. Ou seja, as consequências do trabalho educacional do MCP foram além de sua existência, pois nem a leitura das letras, nem a nova leitura do mundo foram exterminadas com o MCP, o conhecimento adquirido pela população permaneceu e fez a diferença na luta contra a opressão.

  1. 5. Referências bibliográficas

COELHO e GODOY, Norma Porto Carreiro e Josina Maria Lopes de. Livro de Leitura para Adultos. Movimento de Cultura Popular. Editora de Recife S.A. Pernambuco. 1962 .

GASPAR, Lúcia. Movimento de Cultura Popular. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: 24/06/2016.

RISSO e SILVA, Suzana Aparecida e Marilei Aparecida Vidal. Alfabetização de adultos nos anos 60; movimentos de educação popular e o método Paulo Freire. UNIOESTE. Paraná. 2007.

SILVA, Maria Betânia e. REFLETINDO SOBRE O MOVIMENTO DE CULTURA POPULAR: ESPAÇO PARA A ARTE? Revista Digital Art& - ISSN 1806-2962 – Ano IV – Número 06 – Outubro de 2006.

SILVA, Severino Vicente da. Anotações para uma visão de Pernambuco  no início do século XX. Recife: Editora Universitária UFPE, 2014.

SOUZA, Kelma Fabíola Beltrão de. O Povo no Movimento de Cultura Popular de Recife. XXX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, São Paulo. 2007.

Fontes Virtuais:

http://www.onordeste.com/portal/movimento-de-cultura-popular-mcp/ Acesso em: 24/06/2016 às 08hs58min.

http://mcpldltarde.blogspot.com.br/ acessado Acesso em: 24/06/2016 às 07hs31min.


[1] Graduanda do curso de Licenciatura em História na Universidade Federal de Pernambuco.

[2] Frase retirada do blog no seguinte link: http://focoeducacao.blogspot.com.br/2009/03/selecao-de-frases-sobre-educacao.html visitado em 01 de julho de 2016 às 06hs32min.

[3] A partir desse momento sempre faremos referência ao Movimento de Cultura Popular do Recife através da sigla MCP.

[4] No texto o Livro de Leitura para Adultos também será tratado por Cartilha do MCP.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

Semestre 2016.1

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

QUEM ERA A MULHER PERNAMBUCANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX?

Uma análise social sobre as invisíveis visíveis na cidade e no interior de Pernambuco

Aluno: Diogo de Barros Chagas.

Resumo:

Este artigo é uma análise histórica das mulheres pernambucanas em seu sentido de relevância á História no início do século XX. Temos por principal meta apresentar uma abordagem que trace características históricas da formação da mentalidade feminina diante de uma sociedade patriarcal e oligárquica, de costumes cristãos, de falta de liberdade e pensamento feminino e como se alterará tal conjuntura, utilizando a Nova História enquanto mecanismo de construção no material.

Temos como perspectivas os cenários das cidades, em especial Recife e seus cafés e prostíbulos, nas casas burguesas, seus comportamentos e características, suas lutas e construções sociais. Visitaremos também o interior durante o período do cangaço, como a mulher, quer seja pernambucana ou nordestina, enxergará a sua realidade, a conjuntura local, latifundiária e patriarcal e entender o imaginário destas mulheres e até a prática do banditismo e suas funções nesse movimento.

Palavras Chaves:

Mulher, Sociedade, Política, Cultura, Gênero.

QUEM ERA A MULHER PERNABUCANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX?

Uma análise social sobre as invisíveis visíveis na cidade e no interior de Pernambuco

Quem era a mulher no Brasil do início do Século XX?

A historiografia, desde meados da década de 1970 com o surgimento da Nova História volta-se para a análise do cotidiano, das figuras que compuseram a história, não apenas os que estiveram no poder e na relevância dos documentos, mas que aqueles que integram todo o conjunto.  Aqui, o estudo das mulheres em seus mais diversos pontos é matéria para muitos historiadores, que, interessados no isolamento deste personagem histórico tão importante, é  lançado em meio ao coletivo, em especial aqui no Brasil, traz em seu bojo sua intelectualidade, a construção de sua mentalidade política, a quebra de suas tradições, a reorganização familiar e a evolução de seu papel social, que no começo do século XX, será marcado pelo controle das tradições do patriarcado do final do século XIX.

Precisamos entender inicialmente o quadro em questão: estamos falando de um Brasil que gradativamente vêm a entender sua nova esfera política, a República, que nos dizeres do historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra Os Bestializados, dirá que os brasileiros só possuirão a noção de República “5 anos após sua declaração”. Homens, fazendeiros ricos, formadores uma poderosa oligarquia agrícola, buscam novas maneiras de alcançar o poder, principalmente após a queda da República da Espada (1889-1894). Se no Sul do Brasil o poder era caracterizado pela predominância das elites em suas funções políticas, no Norte não foi diferente. Uma política voltada para o controle dos votos, em suas mais funestas formas, o voto de cabresto enquanto elemento do controle, e o coronelismo, como mecanismo de opressão, não apenas partidária como também social serão elementos de coerção dos poderosos.

O que muitas vezes deixamos de analisar enquanto historiadores são os papéis femininos neste período, principalmente no Nordeste brasileiro, em especial aqui em Pernambuco. Como personagens invisíveis, as mulheres pernambucanas, e isso, em um sentido um tanto freyriano de dizer, pode ser particular ou um sentido tradicional do período em questão, ou seja, um pensamento coletivo de como a mulher seria em todo o Brasil. Seriam essas mulheres tão invisíveis assim? Tão “belas, recatadas e do lar?”.

Devemos inicialmente entender a mulher em sua tradição inicial, para, logo após, tentarmos isolar dentro do contexto de Pernambuco.

A mulher em transição ( Séculos XIX-XX)

No século XIX, o papel da mulher era basicamente confinado à casa, principalmente nas famílias de cunho burguês. A esposa, vista enquanto protetora do lar, mãe dedicada, esposa fiel e obediente, ganha destaque entre os burgueses. Sair de casa só? Jamais, pois tal ação poderia manchar a reputação do marido, dos irmãos e do pai, no segundo e terceiro casos, se esta ainda estivesse solteira.

Segundo Maria Ângela D’incao, em seu texto Mulher e família burguesa:

“ A mulher, submetia-se à avaliação e opinião dos “outros”. A mulher de elite passou a marcar presença em cafés, bailes, teatros e certos acontecimentos da vida social. Se agora era mais livre- “a convivência social dá maior liberdade às emoções”-, não só o marido ou o pai vigiavam seus passos, sua conduta era também submetida aos olhares atentos da sociedade. Essas mulheres tiveram de aprender a comportar-se em público, a conviver de maneira educada”.

Essa mulher isolada começa um processo de evolução cultural interessante. Tem acesso à leituras, estas que alimentam o imaginário das solteiras, em relação ao amor romântico e a expectativa em relação ao seu futuro marido ou o ideal de marido. Às casadas, a literatura torna-se fonte de distração dos afazeres. Infelizmente, grande parte dos escritos do final do século XIX aqui em Pernambuco são masculinos, voltados para a análise econômica de suas fazendas ou empresas, e a menção de suas esposas, muitas vezes não passam de algumas páginas.

Graças a esse sentimento, o “amor burguês”, a mulher torna-se responsável pela ascensão do marido na sociedade, na educação dos filhos, da castidade das filhas, dos afazeres domésticos, e estas mudanças ocorrerão simultaneamente durante o processo de modernização do Rio de Janeiro e do Recife, e, mais tarde, São Paulo.

Essa modernização ocorrerá com o fim do Império Brasileiro; em decorrência da Proclamação de 1889, durante a República das oligarquias, a partir de 1894, e, em Recife, que vem desde o governo do Conde da Boa Vista, que, segundo Severino Vicente:

A modernização do Recife vinha ocorrendo desde a atuação do Conde da Boa Vista, na segunda metade do século XIX, como se percebe pelo estabelecimento do fornecimento de água para a cidade, novas construções de prédios e passeios públicos, pontes, estabelecimentos de fábricas, trouxeram para Pernambuco engenheiros, padres, freiras e pastores que deram nova vida à cidade que se tornava internacional”.

Consideramos, que o sucesso de muitos investidores burgueses pernambucanos, e brasileiros, em contexto geral, socialmente falando deve-se do comportamento de suas esposas. Não se concebia, como mencionado anteriormente, que a mulher fosse vista andando sozinha na rua, ou conversando com um homem, ela, desacompanhada. O recato auxiliava na ascensão social. Diga-se de passagem, que cabia a mulher, até mesmo, a responsabilidade sobre as virtudes de suas filhas.

Com a passagem para o Século XX, a situação da mulher é alterada em relação ao quadro do século anterior. Os governos oligárquicos, os grupos de homens intelectualizados, estimulam debates progressistas a respeito dessas novas mulheres. É criada, em 1914, a Revista Feminina, que contava com a colaboração de jornalistas e escritores de renome em todo Brasil, como também leitores e leitoras, e publicava matérias traduzidas da imprensa estrangeira. Destinava-se, sobretudo, ao público feminino, com seções sobe comportamento feminino, relacionamento conjugal, etiqueta, culinária, moda, trabalhos manuais. Publicava contos, artigos de assuntos gerais e muita publicidade. O trecho que  abaixo é de uma matéria escrita em Março de 1928, falando justamente das alterações do quadro feminino:

“Sozinha pela rua, com as mãos na direção de seu auto; sozinha no passeio e na dancing da moda. É a moça de hoje que já não precisa da mamãe vigilante, nem da senhorade companhia[...] Como os cabelos, como os vestidos, como o rosto, a moça de hoje já fixou o espírito, fê-lo mais livre[...] fê-lo apto e forte[...] Nas repartições públicas, no balcão, na fábrica ou nas grandes casas, ela sabe estar sozinha pela vida[...]Sozinha: para as mãos, que são igualmente adestradas para empunhar a direção de um auto ou para mover-se sobre o teclado de uma máquina de escrever.”

Analisando Recife a partir desse  trecho da Revista, podemos entender que a mulher inicia um longo processo de independência, mesmo que ainda arraigada aos moldes de suas mães e avós, que utilizam mecanismo de um passado que não era desejado. A vida da mulher, no início do Século XX, encontra os entraves sócias como a falta de emprego, o sufrágio, que alimentará as lutas com a figura do feminismo, exemplificado em Edwiges de Sá Pereira, líder em Pernambuco da Federação Pernambucana para o Progresso Feminino, atuante entre 1924-1933, que comemorará mais a frente a conquista do sufrágio, mesmo este limitado às mulheres alfabetizadas.

A mulher do Século XX e os cafés

De certo ponto, a vivências das mulheres nos cafés de Recife não eram bem vistas, pois durante do dia, eram considerados até respeitáveis, entretanto, a noite era um local, de bebedeira, fumo, uso de cocaína e prostituição, principalmente o Café do Lafayette, entre as ruas do Imperador e 1° de Marcço e o Café Chile, que, era um dos mais modernos do início do século XX, utilizando a propaganda e a vantagem de ser o primeiro café a utilizar energia elétrica. Em artigo escrito por Sylvia Costa Couceiro para a Revista de História, em 16 de Setembro de 2009, ela relata sobre estes cafés:

“Da diversão para a criminalidade era um pulo. Palco de ocorrências diversas, causadas por embriaguez e por disputas envolvendo o sexo feminino, os cafés estavam sempre nos livros de queixas das delegacias e nas páginas policiais da imprensa. Em julho de 1922, o Café Chile, na Praça da Independência, foi alvo de uma batida policial que flagrou a venda de cocaína em sua tabacaria. O caso virou escândalo nas páginas do Jornal do Recife, em furo de reportagem: “A polícia apreendeu grande quantidade de frascos de cocaína em poder do estrangeiro Abílio, proprietário da tabacaria do Café Chile, o qual os vendia por bom preço ao meretrício”.

Esse episódio do café Chile, trará uma visão social negativa em relação aos seus frequentadores, entretanto, temos exemplos de mulheres que frequentavam a noite recifense, e as prostitutas, antigas circulantes do Bairro do Recife e do Porto, eram figuras de destaque e críticas sociais das camadas conservadoras. Elas eram acusadas de perverter os cafés, viciar jovens de boas famílias em cocaína. Os registros policiais estavam abarrotados de queixas contra os cafés, e, sua maioria, as prostitutas estavam presentes.

A prostituição, que aqui entra em comparação a vida burguesa, fugia aos parâmetros sócias do período- assim como todos os tempos históricos, a prostituição sempre foi vista com repúdio pelas classes dominantes,- entretanto, muitas prostitutas “afrancesadas” eram sustentadas na capital por coronéis de influência. A urbanização da cidade será acompanhada das mudanças e deslocamentos dessas mulheres para o Bairro do Recife, este revitalizado, tirando-as de Santo Antônio.

A mulher e as artes em Pernambuco

,No quadro artístico, as mulheres tiveram destaque. Tendo em vista que parte da educação feminina consistia em aprender um instrumento ou cantar, dotes que eram na verdade acréscimos ao currículo da esposa, embora, as escolas de arte limitassem ou até mesmo negassem o acesso ao ensino das artes a elas.  A exemplo de artista, temos Fédora do Rêgo Monteiro(1889-1975), artista que irá fazer parte de uma realidade em que, segundo Madalena Zaccara:

“Antecedendo as dificuldades enfrentadas para uma formação artística dentro dos cânones acadêmicos, o próprio processo educacional feminino no Brasil (e no Nordeste de forma mais enfática) passava, no fim do século XIX e início do XX, pelo conceito estabelecido de uma visão da mulher como um ser desprovido de capacidade intelectual. Dessa forma, a educação se processava de forma diferenciada para os dois sexos: enquanto os meninos eram encaminhados para colégios mais conceituados ou guiados por preceptores, as meninas tinham sua formação voltada para prendas domésticas (entre as quais destacava-se a prática da pintura concebida como trabalho manual e parte do dote intelectual necessário às moças de famílias abastadas). Afinal, o projeto de lei sobre instrução pública aprovado em 1827 (apud NASCIMENTO, 2010) “deliberava sobre a inclusão e obrigatoriedade, por parte das meninas, de aprendizagem de costura e bordado, sendo que nos Liceus os alunos aprenderiam o desenho necessário às artes e ofícios”

A escola de artes do Rio de Janeiros iniciou um processo de inclusão da mulher em seu quadro a partir de 1879, com restrições, a exemplo disso as aulas onde o nu era utilizado, e, em 1932 o ensino de Artes Visuais foi sistematizado através da Escola de Belas Artes em Recife, sob as mesmas restrições em disciplinas que o corpo era analisado. Vale lembrar que o ensino em Pernambuco fora inserido com qualidade a partir da década de 20, com a criação pelo Governo do Estado das Escolas Profissionais. Aos homens, com ensino voltado ao desenho, ao trabalho plástico em si, e para as mulheres, teremos a Escola Profissional Feminina, em 1929, que tinha como principal característica, ministrar aulas de “artes domésticas em geral”.

Fédora passará por uma educação francesa aos seus moldes artísticos, ficará um tempo na capital (Rio de Janeiro) e retornará a Recife em 1917, realizando uma exposição junto a outros artistas, homens, na Associação dos Empregados do Comércio. Sobre esta apresentação, o jornalista Carlos Rubens(1941), escreverá que :

Quando expôs na Associação dos Empregados do Comércio, no Recife, onde fixou residência, mereceu encônomios, dela se inscrevendo: ‘Dentre estas (eram trinta as telas expostas) se sobressaem: ‘La Sorcière’, ‘Danseuse em Rouge’, trabalhos de admirável concepção artística e que dispensam elogios, pois já foram consagrados por eminentes mestres franceses quando figuraram respectivamente no Salon de Versailles e no Salon des Artistes Indépendents’. As paisagens de Fédora são alegres, sorridentes e a combinação das tintas para efeito de luz é feita com uma felicidade tal que o observador se sente encantado com a magia que se lhe depara.

O que podemos analisar, é que a mulher quebra gradativamente os estereótipos criados pelo patriarcado, em especial aqui em Pernambuco, caminhando pela cidade desacompanhada, freqüentando os cafés e se inserindo nos quadros intelectuais, principalmente no que se refere às artes, e a figura de Fédora, enquanto exemplo dessa mudança da mulher pernambucana.

Uma viagem ao interior: a mulher da casa- grande e a mulher sertaneja no século xx

Se na cidade, no meio burguês, o cenário era de submissão da mulher, que dirá no interior? Analisando o histórico pré Proclamação, podemos iniciar esta análise com as palavras da historiadora Mirian Knox Falci, sobre essa realidade para podermos aferir as consequências sociais para o século XX na perspectiva feminina:

“As mulheres do tempo (séc .XIX), no espaço ( o sertão) aparecem cantadas na literatura de cordel, em testamentos, inventários ou livros de memórias. As muito ricas, ou da elite intelectual estão nas páginas dos inventários, nos livros, com suas jóias e posses de terras; as escravas, também estão ali, embora pertencendo às ricas. As pobres livres, as lavadeiras, as doceiras, as costureiras e rendeiras- tão conhecidas nas cantigas do nordeste-, as apanhadeiras de água nos riachos, as quebradeiras de coco e parteiras, todas essas temos mais dificuldade em conhecer: nenhum bem deixaram após a morte, e seus filhos não abriram inventário, nada escreveram ou falaram de seus anseios, medos angústias, pois eram analfabetas e tiveram, no seu dia a dia de trabalho, de lutar pela sobrevivência. Se sonharam, para poder sobreviver, não podemos saber.”

Podemos entender a partir deste fragmento a diversidade de funções dentre as mulheres do interior, cada uma com um afazer, mas acima de todas as coisas, a função de mãe, de responsável pelo lar, de alimentar os filhos, na questão das mais pobres, até educá-los, em relação as mais ricas, filhas herdeiras de fazendeiros, antigos senhores de engenho, ainda firmes com a mentalidade do século XIX, com seus filhos ou filhas bastardos das relações com suas escravas; os caboclos e as caboclas que se apinhavam no interior com suas crias; e a mulher, principal elemento dessa construção social e étnica. Infelizmente, as fontes históricas referentes às mulheres pobres são até mesmo inexistentes, e, então, parte-se para a História Oral, o que dificulta a prova da veracidade do conteúdo. Ademais, para as filhas das antigas sinhás, ainda estão imersas nas tradições patriarcais: os casamentos arranjados, a permanência e administração do lar, dos empregados e dos filhos.

Durante o período em que o coronelismo imperou sobre os grupos sociais do interior pernambucano, e em sua totalidade, nordestino, vale salientar que o poder da figura masculina tendeu ao crescimento. E não apenas a figura de poder, mas o sertanejo também terá uma autoridade na vida privada alicerçada nesses valores. Manter a honra de suas filhas, casando-as com o homem que a “desvirtuou” ou até mesmo lavar a honra com sangue, eram tradições masculinas de empoderamento. Eram várias as consequências para a mulher em caso de fuga do pretendente: ser expulsa de casa, e frequentar os prostíbulos locais, no caso das famílias mais pobres, ou o internamento nas igrejas para as filhas dos mais abastados. Em outras palavras, para a mulher, as consequências de sua fornicação eram ou ser freira ou ser “quenga”.

Em relação a este ambiente, teremos o banditismo, movimento paramilitar organizado por antigos jagunços ou bandidos em si, que aterrorizavam as classes abastadas do interior nordestino, e até mesmo no cangaço, a mulher estará presente. A entrada das mulheres no cangaço, segundo Daniel Lins em seu livro Lampião: o homem que amava as flores, foi a introdução de Maria Bonita, que é originária do sertão baiano. Considere que a realidade histórica daquele período para a mulher, uma vida baseada em uma “prisão social” atrelada ao imaginário romântico do cangaceiro, que eram vistos enquanto heróis por uma parte humilde da população, sombreia muitas atitudes de mulheres, como por exemplo, a ex-cangaceira Dorinha ( Laura),  segundo Lins(1997), ela

“Aderiu ao cangaço atirada pela vertigem, pelo risco eas canganceiras modificaram o movimento, inaugurando, nesse universo, uma ordem moldada pela cultura feminina numa  reciprocidade de gêneros.

Vale perceber também o caráter romântico e lúdico da união ao cangaço. Devemos perceber que a realidade de muitas sertanejas, cruel, de fome e opressão por parte de seus maridos, auxiliavam na construção da imagem do cangaceiro. Sobre isso, Lins ainda acrescenta:

Muitas mulheres sonhavam com Lampião, almejavam um dia ser juntar ao cangaço. Tocadas pela poesia, pelo imaginário, pelo desejo de aventura, de paixão e combate representados pelo cangaço, muitas viam na vida do bando uma promessa redentora. Outras à maneira de jovens, imaginavem o cangaço enquanto espaço de liberdade, de rebeldia. As mais românticas buscavam as emoções da natureza selvagem acopladas aos calafrios de uma epiderme buliçosa em simbiose com os sonhos ecológicos. Em um universo onde o perigo e o prazer davam ao presente um caráter de peste e de fim de mundo, a partilha simples de uma alegria efêmera, ‘entre pessoas que se respeitavam’, como diz a ex cangaceira Sila, tinha também a força do milagre.”

Podemos notar que as características da realidade feminina local se inserem sem seu imaginário com sua realidade: a fé, o sonho e o romantismo, mesmo entre as mais humildes, apresentam-se na construção do cangaço aos olhos femininos.

Aqui em Pernambuco, tentamos buscar fontes que trouxessem exemplos de mulheres que se uniram ao cangaço. Infelizmente, não encontramos as fontes, dado ao pequeno tempo para esse exercício escolar. Entretanto, o que podemos dizer a esse respeito é que como as mentalidades femininas do interior nordestino passavam pela mesma realidade, podemos presumir que havia também entre as pernambucanas uma visão romântica da vida bandida no cangaço, uma fuga da opressão de seus maridos, da vida no campo, da vida nas fazendas, dos casamentos arranjados e do patriarcalismo em um contexto romântico.

Conclusão:

Esperamos, através deste escrito, alcançarmos nosso objetivo: a análise e evolução histórica da mulher sob diferentes perspectivas, utilizando não apenas Pernambuco isoladamente, mas o Brasil enquanto tal, e como a mulher brasileira criará suas raízes de formação social, intelectual, artísticas; de resistência ante a realidade, quer seja o patriarcado, quer seja no interior enquanto sertaneja; burguesas, prostitutas, ex escravas, donas de casa de baixa renda, lavadeiras, poetisas, escritoras que irão realçar a beleza da cidade do Recife, levantar debates entre as elites dominantes.

A evolução destas mulheres acarretará com a inserção das mesmas na luta pelo sufrágio, no ensino e na vida boêmia. Agradecemos por apreciar esta singela tentativa de interpretação de nossas mulheres e como a História social e a Nova História as analisam.

Biliografia:

  • D’INCAO, Maria Ângela. Mulher e família burguesa. In: História das mulheres no Brasil. Mary Del Priori, org. 5.ed- São Paulo: Contexto, 2001.págs.223-240.
  • FALCI, Miridan Knox. Mulheres do Sertão Nordestino. In: História das mulheres no Brasil. Mary Del Priori, org. 5.ed- São Paulo: Contexto, 2001.págs.241-277.
  • LINS, Daniel. Lampião: o homem que amava as mulheres. São Paulo: Annablume,1997.
  • MALUF, MOTT, Marina e Maria Lúcia. Recônditos do mundo feminino. In: História da Vida Privada no Brasil volume 3. Organizador Nicolau Sevcenko. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Págs 368-420.
  • SILVA, Severino Vicente da. Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX. Recife: Editora UFPE,2014.
  • http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/recife-brilha-a-noite, artigo escrito por Sylvia Costa Couceiro em 16/09/2009
  • http://epitaciosemluvas.blogspot.com.br/2010/07/historias-do-recife-capitulo-ii.html, Blog escrito por Epitacio Nunes de Souza Neto em 20/07/2010
  • http://www.dezenovevinte.net/artistas/frm_mz.htm, sobe Fédora do Rêgo Monteiro, em artigo escrito por Madalena Zaccara publicado entre Janeiro e Março de 2011.
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 04 dez 2010 @ 7:08 AM 

  

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

 

 

 

                                                                     Disciplina: Problemas da História do Nordeste

Professor: Severino Vicente

    Alunos: Cícero Filgueira

                      João Sacerdote

                    Rafael Arruda

 

  

 

Recife

2010

 

REPENTE NO SERTÃO DO PAJEÚ PERNAMBUCANO

 

Trabalho apresentado ao professor da disciplina Problemas da História do Nordeste, do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco.

 

  

ÍNDICE

 

1)      Introdução.

2)      Uma História do Repente no Pajeú pernambucano
Cícero Filgueira

3)       Difusão Do Repente Pelo Mundo
João Sacerdote

4)      Alguns dos principais nomes do Repente
João Sacerdote

5)      Generos Poéticos do Repente
Rafael Arruda

6)      A Missa do Poeta (Tabira-PE)
Rafael Arruda

7)      Conclusão

8)      Bibliografia

 

 

INTRODUÇÃO

 

            Neste trabalho, vamos nos deter a falar sobre o Repente, e mais especificamente o que é feito no sertão do Pajeú pernambucano. Tendo estudado a disciplina eletiva “Problemas da História do Nordeste” com o professor Severino Vicente, tentaremos encaixar as implicações históricas, sociais, políticas, econômicas, geográficas e culturais que influenciaram na formação dessa forma de arte e como ela se tornou tão importante na vida de vários nordestinos.

            Trataremos desde a origem do Repente, surgida da Literatura de cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (vinham do Norte da Península, sul da França) e também de influências Árabes até como é feito hoje no sertão do Pajeú. Abordaremos os diversos gêneros poéticos de se fazer o Repente e seus principais cantadores, como Pinto do Moneteiro e João Furiba.

            E para mostrar a concretude dos repentistas na região do Pajeú, falaremos da Missa do Poeta, que é realizada hoje em Tabira-PE, mas teve sua primeira edição em Serra Talhada-PE.

 

Uma História do Repente no Pajeú Pernambucano

O Repente surge como uma arte de improvisar, de divertir e aguçar o imaginário do povo do Sertão. Forma um dos gêneros poético-musicais mais importantes da cultura nordestina, o Repente (no caso desse trabalho focalizamos o Repente de Viola do sertão do Pajeú pernambucano). O Repente de Viola se torna um elemento que fará de seu praticante, o repentista, uma espécie de pessoa dotada de um dom especial de improvisar que, como alguns dos repentistas citam, a inspiração vem do som da sua viola. Sua origem está juntamente com a Literatura de Cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (principalmente do Norte da Península, sul da França). Também sofreu influência dos árabes que migraram do norte da África e viveram na parte sul da Península do século VIII ao XV quando houve a Reconquista Espanhola. A influência da África também está presente na poesia de improviso (Repente) no caso, por exemplo, o Coco de Embolada e Maracatu, sem contar do próprio Repente que tem em sua raiz a cultura africana negra que, além dos trovadores, também eram exímios improvisadores[1].

O verso como forma de contar histórias está arraigada na cultura Ocidental desde os tempos dos gregos antigos, como as famosas obras de Homero, que com os versos mostrou a história da grande batalha dos gregos contra os troianos nas obras Ilíada e Odisséia. Os contadores de histórias utilizavam do verso para mostrar os eventos porque era de mais fácil fixação por parte da população, pois a história fixava no imaginário quase como uma música. E esse papel coube também aos menestréis, trovadores e jograis que faziam o imaginário da população nas feiras da Idade média e início da Moderna. É nesse meio que surge o cordel, com o advento da imprensa (inventada por Gutenberg no século XV) uma forma de publicar as histórias, mitos, contos populares em geral de um povo através de versos, que eram vendidos em folhetins pendurados por cordões nas feiras populares e, auxiliando o cordel, aparece a xilogravura como uma forma de chamar atenção do indivíduo para a história através de imagens, que muitas vezes vinham gravadas seres mitológicos, anjos e demônios, etc. Câmara Cascudo assegura ser o cantador um “descendente do Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos, do Gleeman anglo-saxão, dos Moganis e Metris árabes, do velálica da índia, dos Runóias da Finlândia, dos bardos armoricanos, dos escaldos da Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres cantadores da Idade Média. Canta ele, como há séculos, a história da região e a gesta rude do homem”[2]. Sobre a origem do Repente, o poeta Sebastião Dias declama:

Foi na Grécia inspiração

Nos tempos anteriores

Na Europa fez história

Dos antigos trovadores

E no nordeste é a vida

Dos poetas cantadores

 

Os menestréis eram errantes contadores de histórias que usavam o instrumento de corda, o alaúde, para melhor sonorizar seus versos e deixar a história mais agradável aos ouvidos do publico, que desproviam da escrita e tinham a oralidade e a memória como fonte da cultura. O alaúde também era um instrumento bastante utilizado pelos árabes que, como já vimos, conviveu com os ibéricos e ajudaram a difundir o alaúde. E no contato com esse povo este instrumento sofreu várias modificações fazendo com que mais tarde recebesse o nome de “Vihuela”, que teve no século XVI sua grande fase. Posteriormente uma variante da “Vihuela” de quatro cordas ganha mais duas cordas e passa a ser chamada de Guitarra. Esses instrumentos tinham em sua maioria dez trastes o que se assemelha em muito com a “Viola Meia-Regra” encontrada no Sertão. Portanto temos um elo em comum com a tradição dos errantes europeus com os violeiros sertanejos.

 

A viola como conhecemos hoje com cinco pares de cordas foi desenvolvida ainda na Península Ibérica durante a segunda metade do século XVI, já no século XVII surge outra variante que acrescenta nessas dez cordas mais duas formando assim um instrumento de doze cordas. Tal instrumento ficou conhecido em Portugal como viola, na Espanha ainda continuou a ser chamada de guitarra. A importância da viola é tanta que podemos sintetizar nessa citação do poeta João Paraibano:

“A viola é minha companheira, é uma arma, é minha fonte de inspiração, é por onde tudo começa…”.

Os poetas do Repente chegam ao Brasil durante a colonização portuguesa e se fixaram principalmente na Bahia, Capital do Governo-Geral. Eram os poetas da literatura de oral. No entanto, somente depois de 1763 começam a surgir os poetas com as características tipicamente brasileiras. Fato esse que tem como principal causa a falta de difusão da poesia escrita, que somente cria força no século XX, no caso do Cordel, quando os índices de analfabetismo começam a cair no Nordeste e, também, pelo maior fortalecimento da imprensa.

Com o passar do tempo o Cordel e Repente de origem portuguesa foi adquirindo particularidades e características tipicamente nordestinas, apesar de também ter se irradiado para outras regiões do país. A Literatura Popular em Folhetos (outra denominação dada posteriormente pelos estudiosos e considerada até hoje a mais correta) passou a retratar em suas histórias a realidade, a cultura e as crendices do povo sertanejo.

No entanto, foi no Sertão do Pajeú pernambucano que o Repente de Viola criou sua forma convencional por volta de meados do século XIX. Contudo, os primeiros grandes cantadores vieram da Paraíba, na região da cidade de Texeira-PB (divisa com Pernambuco na cidade de Brejinho de São José-PE), tendo seus principais representantes Germano da Lagoa, Hugolino Nunes da Costa, Silvino Pirauá, Romano do Texeira, entre outros; considerados esses pelo estudioso Bráulio Tavares como os pais do Repente brasileiro. A primeira cantoria realizada com dois cantadores com registro na história da arte popular aconteceu em 1870, na vila de Patos, no estado da Paraíba, com os repentistas Inácio da Catingueira e Romano do Teixeira, no local denominado Casa do Mercado. Essa cantoria foi toda em desafio e durou uma semana inteira. Os cantadores repousavam durante o dia, arrumando idéias, sem contato entre si, para a noite se debaterem. No final da semana, numa avaliação pelo povo que compareceu à disputa, não houve vencedor, apenas o cantador Romano do Teixeira se deu por rendido em função do cansaço. A partir daí, apesar das dificuldades de acesso e de comunicação, começou a cantoria a dois, cuja finalidade era o embate para um cantador vencer o outro. Por isto, o violeiro, a convite de admiradores, enfrentava viagens longas, preparando idéias, para descarregar no companheiro, com o fim de vencê-lo na arte. As cantorias duravam noite inteira, e o cantador vencido emborcava a viola, como gesto de demonstrar à platéia que se considerava derrotado. Os assuntos eram os mais variados possíveis, porém giravam, principalmente, sobre ciência, história sagrada, contos religiosos, etc. O cantador vencido não tinha direito ao dinheiro apurado na cantoria, ficando toda a quantia com o vencedor.

As vitórias é que davam nome aos cantadores, que passavam a serem chamados pelos fazendeiros para encontros marcados, com muita antecedência, com o fim de ser feito o confronto. Cada um dos dois cantadores convidados para a cantoria não sabia quem seria o seu parceiro, passando a conhecê-lo somente no momento da apresentação. Mesmos chegando um dia ou dois antes da cantoria, os repentistas permaneciam incomunicáveis, em áreas isoladas. O repentista vencedor da batalha colocava nas cravelhas da viola uma fita colorida como forma de ir colecionando as vitórias da arte.

Os primeiros cantadores do século XX foram de suma importância para a cantoria dos dias de hoje, pois esses marcaram e são considerados os melhora/maiores cantadores de todos os tempos, como uma espécie de grandes heróis do Repente. Porém as informações sobre esses cantadores são muito escassas, só temos maior conhecimento desses poetas já no fim da carreira. Os principais representantes desse período são os irmãos Batistas de São José do Egito (Otacílio, Dimas e Lourival), o mais famoso e considerado o melhor improvisador, Pinto do Monteiro, entre outros. Esses poetas tiveram seu auge por volta dos anos 40 e 50, mas até os anos 70 ainda estavam em atividade.

 Hoje, com a modernização dos tempos, com o rádio e com o fácil acesso à escola por parte dos cantadores, a cantoria ganhou nova roupagem e, por conseqüência, novo conceito. São várias as definições de cantoria hoje, entre eles um dos conceitos mais simples, pode-se dizer que a cantoria é a apresentação, sem disputa, sem luta, sem duelo, de dois repentistas ou poetas populares, a convite de um interessado para uma platéia por este escolhida. Portanto, cantoria é o momento em que se encontram presentes cantadores, viola e público, com o ânimo de apresentação. Existem dois tipos basicamente de cantoria, que são: o “Pé-de-parede” que é quando ocorre um festival onde todos os participantes improvisam na hora; e o “Balaio” que é quando os cantadores ficam sabendo dos motes antes do festival e já chegam pelo menos com uma ideia formada na cabeça.

 Apesar de se dizer, sem duelo, existe o momento da cantoria em que a platéia geralmente pede o famoso “Desafio”, que é um gênero no qual os repentistas se debatem em forma de gracejo, engrandecendo-se e apontando defeitos entre si, sob os acalorados aplausos do povo presente, tudo terminando sem deixar mágoa ou qualquer rancor.

Os cantadores de hoje são homens de estudo, bem informados e atualizados com os acontecimentos do mundo, isto porque a platéia de cantoria também está bem instruída e solicita, nos eventos, os mais variados temas, principalmente da atualidade, como: política, futebol, etc., além de fatos sociais e outros que envolvem a lei da natureza.

A cantoria, por ter brotado inicialmente no meio rural do nordeste, com difícil desenvolvimento, ainda não é reconhecida por grande parcela da população brasileira, sofrendo ainda acentuada discriminação no mundo artístico.

No entanto, merece destaque o avanço que teve a cantoria no Nordeste, quando o cantador já tem abundante acesso ao rádio e até a televisão, com apresentações em clubes e teatros, inclusive, sendo tema de discussão em algumas escolas.

 

 

  

Difusão Do Repente Pelo Mundo

 

O canto de viola como conhecemos hoje teve um período no início e meados do século XX o que poderíamos chamar de “Urbanização” do Repente. Normalmente quando o repentista vai para a cidade é para contar os costumes rurais, de suas vivências para o meio urbano, ou seja, o repentista não perde suas origens no sentido artístico e tradicional. É comumente falado que mais antigamente a cantoria era 10% ( dez por cento) urbana e 90% (noventa por cento) rural, mas agora esse quadro está invertido.

A inversão brusca desse percentual se deve pela migração do homem do campo para a cidade. Com os avanços das tecnologias, indústria e setor terciário no Brasil em meados do século XX, o trabalhador rural deixa sua vida no interior e segue para os grandes centros urbanos. Os cantadores não fogem essa regra e também vão para as cidades, ganhar a sua vida. Hoje existe quatro grandes capitais do Nordeste onde se valoriza muito o Repente, são elas: Recife, Fortaleza, Natal e João Pessoa.

A cantoria também se difundiu para o sudeste, mas especificamente em São Paulo e Rio de Janeiro, que basicamente era onde a economia estava crescendo no país na época. A difusão do Repente pelo mundo está muito ligada ao êxodo rural. Por volta da década de 50, o Repente se torna mais evidente no sudeste, e se instala a partir das periferias, pois os imigrantes nordestinos não viam morar no centro e sim nas áreas mais afastadas e pobres.

Porém engana-se quem pensa que o repentista não sente falta do interior e se adaptou completamente ao meio urbano, a necessidade fez com que eles migrassem para o sudeste, mas a vida e história deles se dá no interior. O que acontece, é que a arte é comprada, o artista tem que ir onde existe o dinheiro, para poder continuar fazendo a sua arte, e isso não é ser mercenário, mas a arte não sobrevive só por arte.

Então começamos a pensar. O que mudou na vida dos repentistas nessa urbanização de sua cantoria? Em 1974, os cantadores começam a encarar sua arte como profissão, passa a criar horários para cantoria, normas, cobram ingressos, isso tudo graças a Ivanildo Vila Nova, que faz o cantador perder um pouco de sua imagem folclórica e o torna mais real, mais humano. O apologista e pesquisador Ésio Rafael nos diz que antes de Ivanildo, o cantador chegava na casa de alguém e se hospedava na casa desse tal alguém, então cantava a noite toda, na madrugada, sem horário e sem regra, sem receber nada por isso, somente em troca da casa e comida. Após Ivanilldo, o cantador de viola é mais valorizado, e começa a sua profissionalização, sua moralização e dignificação da cantoria. A urbanização só intensifica isso, e faz do cantador um profissional, onde seu tempo de carreira é extenso, dura entre 25 a 30 anos, e se for um bom cantador, pode ter estabilidade e viver de sua cantoria por toda uma vida. Através da divulgação pela televisão e rádio o cantador pode participar de vários festivais, nacionais e internacionais. 

Alguns Dos Principais Nomes Do Repente

Existem diversos repentistas no Brasil, porém vamos nos deter a falar de alguns, para o referido trabalho não ficar demasiado extenso colocaremos alguns dos principais nomes, que são:

  • Pinto do Monteiro: Severino Lourenço da Silva Pinto nasceu em 21 de novembro de 1895, uma da madrugada, morava em Carnabuinha em Monteiro–PB. A sua data de nascimento é duvidosa, pois em suas conversas ele sempre dizia ter nascido em datas diferentes, alguns dizem que ele morreu depois dos cem anos. Ele é considerado o rei do improviso e cantava tão rápido que engolia várias sílabas de sua rima. Foi da polícia e lutou contra cangaceiros, depois foi morar no Acre, época da expansão da borracha, ficou com saudade e voltou para Paraíba. No final de sua vida não usava mais viola e sim um pandeiro, por dizer que o “pacote é mais maneiro”. Morreu cego e paralítico, porém lúcido.

 

  • Lourival Batista: Conhecido também como Louro do Pajeú, nasceu em São José do Egito-PE em 6 de Janeiro de 1915, morreu em 5 de dezembro de 1992. É considerado o rei do trocadilho, quando terminou o ginásio em 1933 em Recife, saiu pelo mundo fazendo suas cantorias. Sua família era de repentistas também, era irmão de Dimas e Otacílio Batista. Lourival foi um grande parceiro do paraibano Pinto do Monteiro.

 

  • João Paraibano: Nasceu em Princesa Isabel, Paraíba, mas vive em Afogados da Ingazeira, Pernambuco, fez discos, dentre eles: “Encontro co a poesia” e “A arte da cantoria” com Ivanildo Vila Nova. È um poeta especialista em falar sobre as coisas da natureza, dizem que se o mote for sobre coisa da natureza, ele não perde para ninguém.

 

  • João Furiba: João Batista Bernardo, nasceu em 4 de julho de 1931 em Taquaritinga do Norte, Pernambuco. Começou a carreira na adolescência e seu apelido Furiba foi dado por Pinto do Monteiro, que significa “coisa sem importância”. Ele contava uma história sobre o seu nascimento e seus primeiros meses de vida que era um tanto quanto absurda, mas tinha que ser Furiba pra contar isso, pois diziam que ele era o poeta mais mentiroso da região. Ele dizia que sua mãe, jovem e inexperiente, quando o pariu em uma bomba d’água, ela pensou que tivesse abortado e saiu gritando pra dentro de casa: “Mãe, acho que abortei na beira da água”. O avô correu e encontrou, dizia ele que era do tamanho de um preá. Pegou-o ainda envolto na placenta e levou para casa, pensando que estivesse morto. Na casa ele fez alguns movimentos e viram que estava vivo, então o agasalharam e o embrulharam, e o colocaram em uma caixa de sapatos. Espalhava-se o boato que ele teria nascido de três meses, mas o mais provável era que tinha sido de sete. Muitos iam ver o menino da caixa, para ver se morria ou se sobrevivia. Em seus dois primeiros meses de vida, muito difíceis, uma coruja teria tentado lhe comer, mas a mãe lhe salvou matando a coruja com um cabo de vassoura. Após 10 meses já caminhava e a partir daí “vingou”. Depois cresceu e se tornou grande cantador de viola, bonito e saudável. João Furiba tinha dessas histórias. 

 

  •  Ivanildo Vila Nova: Nasceu em Caruaru-PE, em 13 de outubro de 1945 e quando fala da história dos cantadores de viola. Podemos dividir em antes e depois de Ivanildo. Antes a cantoria era amadora, feita para simples divertimento, era da boêmia, depois de Ivanildo, o cantador se profissionaliza e se torna um artista verdadeiramente reconhecido. As características da poesia de Ivanildo são a sutileza dos seus versos e a grande variedade temática que ele consegue falar. Reconhecido como profissionalizador da cantoria, em 2000 é eleito o cantador do século XX, eleição feita pelos líderes das Associações de Cantadores do Nordeste. Tem orgulho de dizer que é tradicional, e que sua viola não é eletrificada, mas reconhece que tem que acompanhar os novos tempos, se não vai ficar para trás. Ivanildo é um homem muito inteligente, e sabendo que o Repente muda, assim como tudo muda com o tempo, expande seus conhecimentos gerais e consegue continuar fazendo suas cantorias até hoje. 

 

  • Dedé Monteiro: José Rufino da Costa Neto, não perdeu suas origens e é muito regionalista. Em suas rimas a cidade de Tabira, onde nasceu, está muito presente. Ele serve, respira, decanta, vive, pensa, louva, recita e ama Tabira. Em 1984, escreveu o livro “Retalhos do Pajeú”, dizem que ele fica “tabirando” demais em seus versos, e que isso pode ser negativo, que talvez o seu bairrismo dificulte ser mais reconhecido. Em 1994 escreveu “Mais um baú de retalhos”, continuação de sua “Tabiragem”. Uma vez, Santana, O cantador, disse em uma entrevista ao TV Jornal Meio-Dia ao ser perguntado se o seu regionalismo não o atrapalhava de ser um sucesso mundial. Ele respondeu dessa maneira: “Nada mais universal que a arte regional”. De fato, o rock, o punk, a bossa nova, o baião e a cantoria de viola são artes regionais, que o mundo tomou para si, pois a arte quando é boa deixa de ser pessoal e exclusiva e se torna de todos. Dedé Monteiro é tabirense e fala de Tabira, mas sua arte é bela e sincera, e por isso o seu bairrismo pode se tornar universal com toda certeza. 

 

  • Rogaciano Leite: Nasceu em 7 de outubro de 1929 em São José do Egito, Pernambuco. Filho de agricultor iniciou sua carreira aos 15 anos quando desafiou o cantador Amaro Bernadito na cidade de Patos- Paraíba. Depois foi morar no Rio Grande do Norte, onde fez amizade com Manoel bandeira, grande escritor. Aos 29 anos foi para Caruaru, Pernambuco, onde aparentava um programa de rádio, pouco depois foi para Fortaleza, Ceará e se tornou bancário. Teve 6 filhos e em 1968 foi morar na França e depois Rússia. Neste último país, deixou gravado um monumento na Praça de Moscou o poema “Os trabalhadores”. Foi jornalista e era formado em direito e letras. Faleceu com um infarto. Rogaciano era um repentista menos regional e mais formal, mais intelectualizado. Morou em diversos lugares conheceu diversas culturas, fez da cantoria uma forma de expressão das injustiças que via pelo mundo. 

 

  • Mané Filó : Manoel Filomeno de Menezes, nasceu no dia 13 de outubro de 1930, em Afogados da Ingazeira. Tinha onze irmãos. Dizem ser um poeta por vocação e um cigano por instinto, pois passou a vida mudando de uma cidade para outra. Morou em Recife, Paulo Afonso, Monteiro, Arcoverde, São José do Egito, onde lá construiu uma empresa de auto-peças e que ganhava um bom dinheiro. Era conhecido como um homem muito generoso, e distribuía sua riqueza, tanto com os que precisavam com os que não precisavam e por isso sua vida foi de altos e baixos. Talvez não tenha sido um dos melhores cantadores e mais famosos propositalmente, por generosidade, para não ofuscar o brilho dos seus companheiros. 

 

  • Job Patriota: Job Patriota de Lima nasceu no sítio Cacimbas em Itapetim, Pajeú, sertão pernambucano. Chegou ao mundo no dia 1 de janeiro de 1929 e faleceu em 11 de outubro de 1992, foram 63 anos de poesia como gostam de falar seus amigos. Quando Job morreu, foi embora com ele uma antiga tradição, a dos “Líricos”, que eras os poetas que tocavam acompanhados da lira, instrumento de cordas da Grécia Antiga. Conhecido como a “criança” dos cantadores, por rir e chorar a qualquer momento, não ligava para o dinheiro e dizia sempre “Se pudesse, pagava para cantar”. Escreveu o livro “Na senda do lirismo”, mostrando ai o diferencial na cantoria com a lira.

 

  • Mocinha de Passira: Antes mesmo de Leila Diniz se deixar fotografar grávida de biquíni em Ipanema e escandalizar a sociedade brasileira da época, Maria Alexandrina da Silva, Mocinha de Passira, enfrentava nos anos 50 as duras normas nordestinas para mulheres. Uma das poucas presenças femininas no meio dos repentistas, hoje aos 65 anos se considera boêmia, bebe uísque e fala palavrão. Casou uma vez com Duda Passira, onde ela relata como foi a história do seu casamento: 

 

“Casei no dia 3 de dezembro, no dia 5 de maio eu já tinha quebrado tudo. O negócio dele era me levar pros forrós a pulso, pra ficar me tocaiando. Ninguém tocaia ninguém. Não deu certo. Um dia amanheci virada, apanhei um cacete que havia lá. A primeira coisa que quebrei foi a sanfona dele. Está manifestada, gritou ele, e foi buscar uns catimbozeiros. Eu avisei que o primeiro que entrasse quebrava no cacete, e expliquei: O problema é que eu vou embora e ele não quer deixar. Quando arrumo minhas coisas, olho para trás e está ele se enforcando. Corri, cortei a corda, e ele caiu em cima do fogão. Fui embora.”

 

 Mocinha sempre lutou contra o machismo da sua profissão, mulher de fibra e coragem venceu barreiras e hoje é um dos principais nomes do Repente.

 

Algumas Poesias

  • Pinto do Monteiro e João Furiba:

Há tempo em que eu não vinha

nesta santa moradia

visitar o velho Pinto
Me traz tanta alegria

Que é mesmo que ter tirado
O bolão da loteria”

Pinto com muito bom humor, disse:

“Eu não imaginaria

que você chegasse agora

Com essa sua presença

Obtive uma melhora

Quer ver eu ficar bom mesm

É quando você for embora”

 

  • Lourival Batista

Numa cantoria em São José do Egito, um rapaz que atendia pelo nome de DECA, ouvia os belos improvisos de Lourival, sem manifestar qualquer desejo de colaborar com os cantadores. A certa altura da cantoria, Lourival dirigiu-se ao rapaz, tomando por base as quatro letras que formavam seu apelido:

Boto o “d” e boto o “e”
Boto o “c” e boto o “a”
Depois um acento agudo
Em vez de DECA, é decá!
Tiro o “d” e tiro o “e”
Seu Deca, venha até cá.

 Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou

  • Ivanildo Vilanova

Eu já fui igualmente um samurai,
porém vi se quebrar minha coluna,
que a volta no jogo da fortuna,
pois a gente não sabe aonde cai,
eu fui filho, fui noivo, hoje sou pai,
já fui neto, e já hoje sou avô,
e o relógio do tempo não quebrou,
porém deu um defeito no seu pino.
Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou.

  • Mané Filóquando o sertão vira poesia

    “O sopro da ventania
    Torce a calda do novilho
    O pelo de um gato preto
    Começa a perder o brilho
    Depois de ter se coçado
    Num caco de torrar milho.

    Quando falta a companheira
    Na vida d um passarinho
    Ele busca um pau bem alto
    Para construir seu ninho
    Devido ser menos triste
    Para quem vive sozinho.

    Da meia noite em diante
    Ninguém mais sabe meu giro
    Eu começo gaguejando
    Porém depois que me inspiro
    Tenho a grandeza do tato
    De um cego jogando firo.”

Gêneros Poéticos no Repente

           

            O Repente como cantoria improvisada é bastante diverso em gêneros e estilos poéticos. A forma da construção de seus versos e estrofes é variável, tendo em comum o caráter de improviso, por outro lado a estrutura das poesias se altera conforme as ocasiões em que se pedem determinados tipos, como numa mesa de glosa onde o estilo homônimo é pedido ou de acordo com a criatividade do repentista que é livre para escolher determinado gênero e até modificá-lo criando outro. A imaginação e capacidade de improvisação nunca é desmerecida.

            Existem vários gêneros poéticos referentes ao Repente entre eles os principais são: a sextilha, galope a beira-mar, décima, toada alagoana, moirão, septilha, oitava . Cada um desses estilos tem suas peculiaridades em relação a suas estruturas e a forma de composição e a construção de suas rimas. Além desses estilos principais existem ramificações de suas formas muitas vezes por conta da criatividade e das diferenças regionais dos repentistas.

            O estilo mais recorrente é a sextilha, mais difundida e apreciada talvez devido a sua simplicidade e facilidade de improvisação. A sextilha é constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação, sendo rimados os versos pares entre si, ou seja, a segunda, quarta e sexta rimam entre si e os demais versos ficam brancos. A septilha é outro estilo também apreciado e bastante parecido a sextilha. Também chamado de Sete Pés rima os versos pares até o quarto, como na Sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto criado pelo Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador no início do século XX. O esquema das rimas desses dois estilos é exemplificado nos versos de Leandro Gomes de Barros na sextilha e do criador da septilha:

 

Meus versos inda são do tempo�
Que as coisas eram de graça:�
 Pano medido por vara,�
 Terra medida por braça,�
 E um cabelo da barba�
Era uma letra na praça.

 

Amigo José Gonçalves,�
Amanhã cedinho, vá�
A Coatis, onde reside�
Compadre João Pirauá;�
Diga a ele dessa vez,�
Que amanhã das seis a seis,�
Deus querendo, eu chego lá!

 

Existem ainda a Oitava e Décima que apresentam a quantidade de linhas indicada  em seus nomes. Como o nome já sugere a Oitava, também conhecida como quadrão, é composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta rima a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. A Décima é outro estilo muito difundido. Embora de origem clássica, a Décima é um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a receber a denominação de glosa. Como o próprio nome diz Décima é uma estrofe ou estância de dez versos de sete sílabas, assim distribuídos: o primeiro rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. Segue-se exemplos desses dois estilos respectivos o primeiro um quadrão de Lourival Batista e depois uma glosa (décima) de Zé Limeira:

 

O Cantador repentista,�
Em todo ponto de viste,�
Precisa ser um artista�
De fina imaginação,�
Para dar capricho à arte,�
E ter nome em toda parte,�
Honrando o grande estandarte�
Dos oito pés de Quadrão!

 

 

 

Mais de trinta da sua qualistria

Não me faz eu correr nem ter sobrosso

Eu agarro a tacaca no pescoço

E carrego pra minha freguesia

Viva João, viva Zé, viva Maria

Viva a lua que o rato não lambeu

Viva o rato que a lua não roeu

Zé Limeira só canta desse jeito

Você hoje me paga o que tem feito

Com os poetas mais fracos do que eu.

 

 

            A Toada Alagoana é um gênero mais raro, mas de rica construção e de rimas encadeadas. Nessa estrofe de Otacílio Batista pode-se ver a toada que norteia esta poesia:

Vai Otacílio Batista,�
Repentista,�
Neste momento tão forte,�
Num estilo diferente,�
No Repente,�
Correndo em busca da sorte…�
Em noite de lua cheia,�
Sou a sereia�
Dos oceanos do norte!

 

            O galope a beira-mar é outro gênero bastante peculiar. Sua construção é pautada por dez versos de onze sílabas, com o estribilho cuja palavra final é mar. Normalmente é utilizado em poesias com temáticas praieiras. Suas estrofes são de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica, e que finda com o verso “cantando galope na beira do mar” ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra “mar”. Às vezes, porém, o primeiro, o segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é “meu galope à beira-mar”. É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeiras sílabas como é observado nesses versos de Zé Limeira:

Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato

Capando carneiro no cerco do bode

Não gosto de feme que vai no pagode

O gato fareja no rastro do rato

Carcaça de besta, suvaco de pato

Jumento, raposa, cancão e preá

Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará

Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão

Dom Pedro Segundo de sela e gibão

Cantando galope na beira do mar.

 

O Moirão é mais um dos estilos altamente difundidos e em paralelo um dos que mais sofreu alterações em suas estruturas. Tradicionalmente é uma modalidade na qual dois cantadores se revezam na feição da estrofe. Esta constituída por seis versos é feita de modo intercalado pelos poetas: as duas primeiras frases são de autoria de um cantador as duas próximas de outro e as duas últimas daquele que iniciou a estrofe. Exemplo de Moirão é este verso de Romano e Inácio:

 

Seu Romano, estão dizendo�
Que nós não cantamos bem!�
Pra cantar igual a nós,�
Aqui, não vejo ninguém!�
E o diabo que disse isto�
É o pior que aqui tem!

 

Com o passar do tempo o Moirão foi sendo modificado e ganhando novos contornos. Exemplos é o Moirão de Sete Pés composto por uma estrofe de sete linhas cabendo, ao iniciante, a formação de cinco versos, isto é, os dois primeiros e os três finais; enquanto a cargo do segundo cantador ficam os versos de ordem três e quatro e o Moirão Trocado que difere do anterior pelo aparecimento de palavras que se alternam nas quatro primeiras linhas da estância assim como nos mostra Lourival Batista e Severino Pinto:

L: Eu, da graça, faço o riso,�
     E, do riso, faço a graça!�
P: E da massa, faço o pão,�
    E, do pão, eu faço a massa!�
L:Você desgraçou a peça:�
    Que u’a misturada dessa�
    Não há padeiro que faça! 

 

            Dessa forma pode-se ver a pluralidade de gêneros que o Repente conseguiu produzir. Afora estes modelos já citados existem muitos outros que vão se ramificando e desenvolvendo como o Martelo Agalopado, Parcela, Gemedeira, Gabinete entre muitos outros. A única coisa que parece restringi-los é a criatividade e a capacidade de improvisação dos poetas repentistas que vivem para cantar tais gêneros ao lado de suas violas espalhando a tradição que tanto prezam.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Missa do Poeta (Tabira-PE)

 

      A missa do poeta é realizada na cidade de Tabira localizada no sertão do Pajeú pernambucano. Grande evento que mescla várias práticas da cultura popular nordestina tais como festivais de sanfoneiros e apresentações de repentistas, a missa, entretanto nasceu com o intuito de homenagear Zé Marcolino, compositor e poeta de Sumé na Paraíba mas que viveu e ganhou reconhecimento em Serra Talhada. Contudo ano a ano a Missa do Poeta foi ganhando cada vez mais uma conotação de celebração e promoção da poesia popular especialmente o Repente que na região é difundido e apreciado visto a grande quantidade de poetas e violeiros que são originários não só de Tabira mas da região do Pajeú em geral. Este evento é citado neste trabalho para que se possa perceber a força e a forma como este traço da cultura popular que é o Repente é vivido na tradição nordestina e divulgado continuamente.

      A celebração da missa nasceu por iniciativa do padre Assis Rocha com a intenção de homenagear Zé Marcolino. Este foi grande compositor e teve suas músicas e poesias gravadas por vários intérpretes o mais proeminente Luiz Gonzaga que com músicas como “Cacimba Nova”, “Maribondo”, “Numa Sala de Reboco” e “Cantiga de Vem-vem” só para citar algumas das mais de cinqüenta gravadas por ele espalhou a arte de Marcolino por onde passou. Marcolino apesar de ser paraibano de Sumé viveu parte de sua vida em Serra Talhada onde ficou até sua morte em 20 de setembro de 1987 num acidente de carro. Reconhecido por sua obra em Pernambuco muito mais do que m sua terra de origem, no ano seguinte a seu falecimento a primeira Missa do Poeta foi celebrado em Serra Talhada local que era saudoso desta figura e que adotou três dias de luto por sua morte. A missa ficaria até 1990 em Serra Talhada onde o padre Assis Rocha era vigário, a partir de 1991 foi mudada seu local por conta da falta de patrocínio da prefeitura e passou a ser realizada em Tabira onde Assis era pároco. Desde então fixada em Tabira a missa ganhou cada vez mais importância e reconhecimento. Hoje em dia ela é organizada pela APPTA (Associação de Poetas e Prosadores de Tabira) tendo em 2009 alcançado a vigésima segunda edição.

      Nas festividades da Missa do Poeta, que ocorre sempre no terceiro sábado de setembro por conta da data da morte de Zé Marcolino, estão inseridos uma celebração litúrgica e um show cultural. Outros eventos acabaram por serem assimilados e incorporados a missa ainda que não ocorram em conjunto com esta mas estejam relacionadas diretamente.  Entre esses esta o Festival de Sanfoneiros o Festival Zé Liberal, a Noite de Autógrafos e a Mesa de Glosas.

      A missa em homenagem e memória a Zé Marcolino também faz homenagem a outras pessoas, poetas ou não, mas que de alguma forma contribuíram para a difusão da cultura popular. Alguns desses homenageados foram; Zé Catota, Manoel Filó, padre Assis Rocha,Albino Pereira, Zé Feitosa, Cazuza Nunes, Jaci Paulino, entre outros. A missa tem as atribuições idênticas a uma missa comum a diferença é que em conjunto com o padre os poetas também participam ativamente na mensagem e pregação passada. A abertura da missa, assim como os comentários dos textos lidos são feitos através de versos como este de Dedé Monteiro na edição de 2009 que serviu como mensagem inicial e abertura da missa:

Oh! bem vindos, vocês, irmãos queridos!

O poeta Jesus, que à terra veio,

Garantiu que estaria em nosso meio

Toda vez que nos visse reunidos.

Esta festa feliz tem dois sentidos,

Sacrossantos e doces como um hino:

Celebrar o amor do pai divino,

Que nos ama e nos livra dos pecados,

E assistir os poetas inspirados

Relembrando o poeta Marcolino!

 

Essa participação direta dos poetas na liturgia acaba por incomodar as alas mais ortodoxas da igreja. Porém os poetas justificam sua participação ao não profanar as liturgias adicionando a elas a poesia e a viola em seu papel de cristãos atuantes na celebração que reúne a fé católica a cultura e memória popular. Logo após a missa dá-se o início de shows para festejar o evento.

      Em conjunto a Missa do Poeta acontecem outros eventos, um deles é o Festival de Sanfoneiros que acontece desde 2006. Há ainda o Festival Zé Liberal feito para homenagear este poeta que foi o primeiro presidente da APPTA, realizado pela PAVAM ( Patrulha de Violeiros Amadores de Tabira) e incluída nas festividades da missa sendo realizada na quarta-feira anterior a missa. Esse festival conta com a participação de poetas amadores e profissionais que atuam em duplas improvisando sobre um tema dado na forma de sextilhas e mote em decassílabos. Existe o espaço para a divulgação da literatura na Noite de Autógrafos que reúne escritores, cordelistas, poetas que divulgam suas obras neste espaço que ocorre na quinta-feira precedente ao sábado da missa. Entretanto talvez a maior festividade que acontece junto a missa seja a Mesa de Glosas que acontece na sexta-feira véspera da Missa do Poeta. Sendo realizada desde 1997 em conjunto com a missa a Mesa de Glosas trata de uma apresentação de Repente sem viola onde vários repentistas advindos principalmente da região do Pajeú improvisam glosas com os motes dados na hora sem conhecimento prévio.

      A participação dos cidadãos e suas influências nessa festa e na conservação e divulgação da poesia popular é sentida diretamente em pelo menos dois espaços. O primeiro o Concurso de Trovas de Tabira que faz uma espécie de competição para escolher o melhor verso sobre cada tema dado pela organização. Esta acontece na ocasião da Mesa de Autógrafos e tem a participação das pessoas da cidade. O outro espaço é o Recital de Poesia da Escola Pedro Pires Pereira que tem o intuito de homenagear um poeta através dos versos feitos por seus alunos. Em 2009 o homenageado foi Dedé Monteiro e acontece no meso dia da Mesa de Glosas para que possa ter a presença de alguns de seus poetas. Aqui cito o primeiro lugar do concurso de trovas com a temática Deus, o aluno João Vitor da sexta série da escola Pedro Pires:

 

Deus mora dentro de mim,

É minha maior paixão.

Por isso que vivo assim

Com amor no coração.

 

 E esta poesia Brasil de Maria Aparecida Rodrigues aluna do segundo ano da mesma escola que participou do recital:

 

Brasil, cadê tua glória?

Onde esta tua igualdade?

Por que os teus próprios filhos

Não agem com lealdade?

Teu progresso eu não conheço,

O que eu vejo é só maldade

.

Pátria amada, idolatrada,

És terra de grande porte,

Embora ainda não tenhas

No decorrer tanta sorte,

Por causa da injustiça,

Levando o teu povo à morte.

 

Por que tanta violência?

Pra que tanto preconceito?

O Brasil só vai pra frente

Se tratarem com respeito

A paz, o amor a esperança,

E o orgulho for desfeito.

 

A política tão corrupta

Ganha espaço todo dia.

Nosso país não merece

Desemprego e covardia.

Nosso futuro inda espera

Mais amor, mais harmonia.

 

Espero de ti, Brasil,

Que haja força e mudança,

Mas que mude pra melhor,

Acabando com a vingança,

Ódio, desordem e miséria,

Seja um país de esperança!

 

Queria ver meu Brasil

Sem ter nada a desejar,

Ter emprego e moradia

E o povo saber amar,

Pois é um lugar bendito

Este país tão bonito,

Minha pátria, meu lugar!!!

 

      Dessa forma o Repente é difundido e perpetuado na região assim como uma prática cultural extremamente afeiçoada aos habitantes. Marca do nordeste que é salvaguardada na Missa do Poeta o Repente continua sua tradição.

 

 

 

 

 

 

 

 

Conclusão

O Repente, arte nordestina cantada e recitada com viola em forma de verso carrega em sua estética e origem tradições européias e africanas e em seu conteúdo a mais pura tradição nordestina que conta e canta suas práticas e vivências. Ao longo do tempo passou do amadorismo ligado estritamente a paixão pelo improviso e tradição até o nível em que o cantador se profissionalizou e passou a viver de sua arte, migrou do interior para cidade, adicionou novas temáticas e desenvolveu novas modalidades e gêneros para sua poesia. Entretanto suas raízes continuam conservadas e principalmente do sertão do Pajeú é que frutificam as sementes do Repente que não param de florescer como um puro testemunho de cultura popular. A Missa do Poeta nesse contexto surge como perpetuadora e divulgadora do Repente além de homenagear e lembrar os cantadores como foi mostrado.

            Como disse um intelectual finlandês anônimo do século XIX:

Nenhuma pátria pode existir sem poesia popular. A poesia não é senão o cristal em que uma nacionalidade pode se espelhar; é a fonte que traz á superfície o que há de verdadeiramente original na alma do povo.[3]

 

Ainda que se tenha que levar em conta a aura de romantismo presente nesta época as palavras deste finlandês são felizes ao tratar da poesia popular com tanto apreço e relacioná-la a identidade cultural de uma região. No nosso caso o Repente é sem dúvida espelho da tradição popular e suas falas são puro discurso de identidade para com suas regiões, ainda que cada vez mais o Repente se torne universalista aglutinando temáticas menos regionalistas e mais abrangentes. Repente arte da cantoria improvisada do Nordeste.

 

 

 

 

 

 

Bibliografia

Livros:

  • LEITE, Roberta C. A voz do Sertão: Um desafio no Repente. Recife: Bagaço, 2008.
  • VERAS, Ivo Mascena. Lourival Batista Patriota. Recife: Ed. do autor, 2004.
  • PASSOS, Marcos. Antologia Poética: Retratos do Sertão. Recife: FacForm, 2009
  • A História da 22º Missa do Poeta: homenagem ao poeta Zé Marcolino, à música e à poesia do Nordeste. Organização: Associação dos Poetas e Prosadores de Tabira. – Tabira,PE: APPTA, 2010.
  • MONTEIRO, Dedé. Mais um Baú de Retalhos. Tabira: Ed Universitária UFPE, 1994.
  • BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

Artigos:

  • “Cantoria de Viola: Expressão de alegria e esperança do povo nordestino”, José Maria Tenório Rocha.
  • “Cultura Greco-Romana Nos Cantares do Povo Nordestino”, José Maria Tenório Rocha.
  • “Da Cantoria Convencional Ao Festival De Viola”, Pedro Ernesto Filho.
  • Jornal do Comércio 08/04/2010

 

Documentário:

  • “Poetas do Repente” – Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2008.
  • “Reminiscência em prosa e versos” Documentário de Taciana Lopes.

 

Sites:

 

 

 


[1] Segundo Bráulio Tavares no documentário “Poetas do Repente” produzido pela Fundação Joaquim Nabuco.

[2] Extraído do artigo “Cantoria de Viola: Expressão de alegria e esperança do povo nordestino” (Prof. José Maria Tenório Rocha)

[3] BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

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Categories: Cantores populares, Cultura brasileira, História do Brasil, História do Século XX
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 04 dez 2010 @ 07 14 AM

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DEFESA DE DISSERTAÇÃO

VIVANE ANTUNES GUIMARÃES ALMEIDA

 

CHOREM OS SINOS: OS DISCURSOS E AS PRÁTICAS ANTICOMUNISTAS DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE (1952-1960)

DATA: 05/08/2010

HORA: 09h30Min.

LOCAL: Auditório da Pós-graduação em História (10º andar)

 

BANCA DE EXAMINADORES:

 

 

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (Deptº de História – UFPE / Orientador)

Prof. Dr. Carlos Alberto Cunha Miranda (Deptº de História – UFPE / Examinador Interno)

Prof. Dr. Emanuela Sousa Ribeiro (Deptº de Museologia – UFPE / Examinador Externo)

Prof. Dr. Antonio Paulo de Morais Rezende (Deptº de História – UFPE / Suplente Interno)

Prof. Dr. Newton Darwin de Andrade Cabral (Deptº de Hostória – UNICAP / Suplente Externo

Tags Categories: Brasil, História do Brasil, História do Século XX, Hisória do Cristianismo Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 02 ago 2010 @ 02 36 PM

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