18 jul 2018 @ 11:16 PM 

O CANTO DO SOFRER DE UM NORDESTE ESQUECIDO [1]

SAMARA FRANÇA GOUVEIA DA SILVA[2]

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SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………….04
  2. O FENÔMENO DA SECA…………………………………………………………………….05
  3. A INDÚSTRIA DA SECA………………………………………………………………………09
  4. O ÊXODO RURAL……………………………………………………………………………….11
  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS…………………………………………………………………..17
  6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………….18

INTRODUÇÃO

O presente artigo visa abordar a relação entre as músicas do cantor e compositor brasileiro Luiz Gonzaga com as temáticas referentes à seca do Nordeste, a cultura de migração e o sofrimento dos nordestinos frente a realidade que os mesmos estão inseridos.

Luiz Gonzaga do Nascimento, também conhecido pelo título de Rei do Baião, nasceu em 13 de dezembro de 1912 em Exu, um município pertencente ao estado de Pernambuco, situado à altura do que é conhecido como Serra do Araripe, na divisa entre os estados Pernambuco e Ceará. Filho de Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos, o mestre Januário, o sanfoneiro de 8 baixos. Cresceu vendo e vivendo as dificuldades do Sertão. Saiu de sua terra, conheceu a vida, as pessoas, os lugares.

Iniciou sua produção musical por volta da década  de 1930, onde quando tornou-se  artista conhecido, Gonzaga se utilizou de sua posição no cenário musical brasileiro, bem como do veículo de comunicação mais importante de sua época, o rádio, para cantar os problemas existentes na região do Nordeste do Brasil, transmitindo em algumas de suas canções um ar de protesto, exaltando um Nordeste que transcende o campo geográfico dando espaço ao homem que nele habita e ao sentimento do mesmo para com sua terra. Suas músicas nos levam à reflexão e ao conhecimento de um Nordeste singular, difícil de se viver, mas que possui uma beleza própria e uma gente única.

Assim, neste artigo será observada a ligação que há entre as canções de Gonzaga e o Nordeste que castiga, que expulsa o homem de sua região, que lhe traz a dor. A dor da seca, da miséria, da partida, da saudade. A dor de um Nordeste por muito tempo esquecido, silenciado, absorvido pelas dificuldades.

A convivência do homem no Sertão reside no espaço dos opostos, ou seja, entre o tormento e a esperança. Torna-se um forte pelo fato de viver cada dia enfrentando sua morte. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.80).

O fenômeno da seca

“Alguns avistam a seca, poucos enxergam a seca”.

(Ariano Suassuna)

A seca presente na região semiárida do Nordeste brasileiro é histórica, tendo seu primeiro registro datado entre 1583/1585 pelo padre Fernão Cardin, esse que teria atravessado o Sertão da Bahia para Pernambuco, onde se deparou com uma forte seca pelo caminho. Desse modo, podemos notar que tal fenômeno não é recente, mas ainda assim é presente e recorrente na atualidade.

A zona característica ao semiárido corresponde a uma extensão de cerca de 969.589,4 km² de todo seu território, sendo referente ao Nordeste 89%. O Nordeste, por sua vez, corresponde a 18,2% do território do Brasil e possui 1.561.177,8 km². A respeito da população do semiárido, ela abrange cerca de 25 milhões de habitantes que vivem em condições severas devido a inúmeros fatores.

O fenômeno da seca é um evento climático que ocorre em decorrência das chuvas irregulares e mal distribuídas geograficamente, bem como da temperatura elevada presente na região. As estiagens próprias do semiárido nordestino podem ocorrer em períodos de tempo curtos ou muito longos – a exemplo a grande seca que foi de 1979/1985 onde nesses seis anos de duração castigou toda uma gente. Vale salientar que o período correspondente a estiagem só se torna um problema quando impossibilita a subsistência da população que, por não conseguir manter as plantações e os animais, a exemplo o gado, por conta da falta de água e de alimento, debilita-se e se torna vulnerável, entregue à própria sorte, recorrendo a meios que permitam a sobrevivência de tal situação, um desses meios é a migração para centros urbanos como forma de fugir da realidade de um Nordeste difícil.

A canção Asa Branca, composição de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira, gravada em 1947 e um dos grandes sucessos de Gonzaga até a atualidade, retrata muito bem a questão da perca dos animais e da plantação por conta da seca.

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação

Por farta d’água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

É importante ressaltar que os nordestinos também relacionam o fenômeno da seca com alguns animais que lhes indicam quando haverá estiagem. Gonzaga canta algumas músicas na qual aparecem pássaros que representariam muito bem isso, sendo eles a asa branca e a acauã, ambas deram nome a canções de Gonzaga.

A asa branca é uma ave símbolo do Sertão visto que a mesma possui o papel de anunciar as mudanças climáticas por ser ela uma ave de migração que, quando pressente a seca, debanda em busca de um clima melhor. A canção Asa Branca, composta em 1947 por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga retrata muito bem essa questão.

Inté mesmo a asa branca

Bateu asas do Sertão

Depois eu disse, adeus rosinha

Guarde contigo meu coração

No mais, a asa branca também foi tema de uma segunda música que retrata o seu regresso ao Sertão e, consequentemente, o regresso das chuvas na região. Seu nome é A volta da Asa Branca, composta por Gonzaga e Zé Dantas no ano de 1950.

Já faz três noites

Que pro Norte relampeia

A asa branca

Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas

E voltou pro meu Sertão

Ai, ai eu vou me embora

Vou cuidar da plantação

A seca fez eu desertar da minha terra

Mas felizmente Deus agora se alembrou

De mandar chuva

Pra esse Sertão sofredor

Sertão das muié séria

Dos homes trabaiador

Rios correndo

As cachoeiras tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Ai, ai o povo alegre

Mais alegra a natureza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Acauã é um pássaro que, em algumas regiões do Brasil, acredita-se que o mesmo traz com seu canto o “mau agouro”, prenunciando uma morte próxima àquele que o escuta. No caso da canção que recebe seu nome, o mau agouro seria a seca e a morte anunciada seria a da terra.   A Canção é composição de Zé Dantas, gravada em 1952.

Acauã, acauã vive cantando

Durante o tempo do verão

No silêncio das tardes agourando

Chamando a seca pro Sertão

Chamando a seca pro Sertão

Acauã, Acauã

Teu canto é penoso e faz medo

Te cala acauã

Que é pra chuva voltar cedo

Que é pra chuva voltar cedo

Toda noite no Sertão

Canta o João corta-pau

A coruja, mãe da lua

A peitica e o bacurau

Na alegria do inverno

Canta sapo, gia e rã

Mas na tristeza da seca

Só se ouve acauã

Só se ouve acauã

Acauã, acauã

Paralelamente, é comum relacionar o fenômeno da seca como o motivo principal da pobreza e do sofrimento dos nordestinos, mas não é bem assim. A má distribuição de água e de terras, bem como falta de políticas públicas efetivas voltadas para solucionar, ou pelo menos amenizar, o problema da estiagem afeta diretamente o âmbito social. Vale salientar que desde o período colonial foram desenvolvidos projetos que visavam, ou se diziam visar, a solução das secas. Além disso, apesar do semiárido possuir um grande contingente populacional e uma grande extensão territorial, o subdesenvolvimento no qual a região se encontra fomenta ainda mais a pobreza que a maior parte da população lá existente enfrenta. Desse modo, pode-se entender o fenômeno da seca, bem como o sofrimento do nordestino, como decorrente de questões sociais, econômicas e políticas.

No mais, o homem que vive no semiárido quando confrontado pelas dificuldades advindas da seca, muitas vezes vende sua mão-de-obra e seus bens a preços demasiadamente baixos a um afortunado qualquer que tenha condições e esteja disposto a compra-los, visto que já não mais possui garantias econômicas, já que em tal período o desemprego cresce, e os meios de sustento se esvaem. Gonzaga em uma das canções que interpreta formidavelmente traz à tona tal problema, e descreve a situação entonando, de certa forma, a tristeza através de sua voz. A música é A triste partida, do compositor Patativa do Assaré, gravada em 1964.

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

A seca em si já inspirou diversas obras tanto no campo literário como no campo musical e cinematográfico, obras consagradas que descreveram, a partir da ótica de seus autores, o sertanejo, sua vida e sua terra. Dentre tantos artistas que descreveram o Sertão nordestino destaco aqui Luiz Gonzaga, o rei do baião, que difundiu pelo Brasil um novo Nordeste, um Nordeste real, que além das dificuldades enfrentas e do sofrimento já conhecido, também tem uma cultura rica, uma gente forte, animada e que ama sua terra.

Gonzaga conseguiu, através de suas músicas, criar um Nordeste que não era conhecido por aqueles que viviam na região Sudeste, quebrando estereótipos por muito tempo perpetuado. Conseguiu também protestar contra o descaso dos governantes e o esquecimento da região que ele nasceu, cresceu e saiu muito cedo para ganhar a vida. Suas músicas acalentavam um povo que sofria, ora por estar vivendo situação de flagelo em uma terra difícil ora por estar distante do seio de sua terra natal, e que se identificava com as letras de suas canções. Luiz, ou Lua, como também era conhecido, cantou o homem, as festas e a terra; cantou a saudade, a tristeza e o amor. Cantou também a felicidade, a partida e a fé, a fé na volta da chuva, na melhora da situação. Luiz cantou o que ele viveu, como nordestino de Exu, que passou pelas dificuldades que um sertanejo passa. Luiz, através de sua arte, deu visibilidade aos anseios de seu povo, que por muito tempo foi esquecido na invisibilidade de um país que desvaloriza o que não é da cidade grande. Luiz Gonzaga cantou o que acreditava e traduziu de forma singular o Nordeste e sua gente.

[...] a partir da arte de Luiz Gonzaga, os nordestinos passaram a ouvir então uma música que trazia no seu conteúdo a consciência de seus autores em relação aos verdadeiros valores do homem do Nordeste e os problemas de sua terra. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.141).

A indústria da seca

O que é conhecido como indústria da seca é o movimento do âmbito político e econômico das regiões atingidas pela seca. Por conta da situação vulnerável que a população se encontra frente as dificuldades que a seca lhe impõe, muitos políticos e até mesmo comerciantes se utilizam dessa fragilidade para se beneficiar, faturando com a falta de água e de alimento, ou até mesmo explorando a mão-de-obra sertaneja.

Dito isso, os políticos aproveitam da debilidade de tal momento para se candidatarem, comprando votos através de envios de carros-pipas, de alimentos ou até mesmo através de promessas de melhorias. Usam do assistencialismo para imprimir em tal sociedade uma política de paternalismo, de clientelismo que se perpetua ao longo dos tempos. Assim, esses governantes podem até implementar projetos que visam ajudar os sertanejos, mas são apenas projetos de curto prazo, medidas adotadas para socorrer a população em um momento de seca, amenizando temporariamente o problema. Não se pensa em resolvê-lo por completo visto que é muito mais viável para eles, e todos aqueles que possuem certa posição de poder, manterem uma situação que lhes renderão lucros, do que solucioná-la. Desse modo, no período de grande estiagem é disponibilizado para o sertanejo um auxílio dado pelo governo, com o propósito de dar certa condição de sobrevivência para aqueles que estão sofrendo a perda de suas plantações e de seus animais.

Luiz Gonzaga canta uma música que aborda essa temática, a esmola, por assim dizer, cedida pelo governo, para um povo que perdeu tudo por conta da negligência dos donos do poder que fecham os olhos para a realidade cruel do semiárido do Nordeste brasileiro. A música de composição do próprio Gonzaga em parceria com o compositor Zé Dantas, gravada em 1953, é um apelo escancarado por melhorias e uma crítica aos governantes que acham que o pagamento de tal esmola em tempos difíceis é o suficiente para suprir as necessidades de um povo.

Seu dotô os nordestino

Têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista

Nesta seca do Sertão

Mas dotô, uma esmola

A um home que é são

Ou lhe mata de vergonha

Ou vicia o cidadão

É por isso que pedimo

Proteção a vosmicê

Home por nós escuído

Para as rédias do pudê

Pois dotô dos vinte Estado

Temos oito sem chuvê

Veja bem, quase a metade

Do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo

Encha os rios de barrage

Dê comida a preço bão

Não esqueça a açudage

Livre assim nós da esmola

Que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juro

Sem gastar nossa corage

Se o dotô fizer assim

Salva o povo do Sertão

Se um dia a chuva vim

Que riqueza pra nação

Nunca mais nós pensa em seca

Vai dá tudo nesse chão

Como vê, nossos destino

Mecê tem em vossa mão.

Na primeira e segunda estrofe Luiz canta o descontentamento da situação de dependência em governantes que parecem esquecer que eles foram escolhidos pelo povo no qual eles mesmo fazem pouco, bem como lembra que em um país de 26 estados, quase a metade se encontra em situação de miséria.

Na terceira e quarta estrofe fica claro que ele não quer receber auxílio do governo, mas quer meios de viver através de seu trabalho, pois quando a chuva vier tudo irá se ajeitar, sendo não mais necessária a ajuda dos políticos, pois com a chuva é possível plantar e assim também se torna possível viver de forma independente. Ao final, ele lembra que o destino de toda uma gente se encontra nas mãos daqueles que foram escolhidos para governar.

Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político.

(Dominique Dreyfus, 1997).

Outra canção interpretada por Gonzaga e que pode ser lembrada neste artigo ao que diz respeito das músicas que falam acerca dos que se utilizam da situação da seca para benefício próprio, fazendo uso das promessas de melhorias ao povo e da troca de favores em prol de candidaturas, é Procissão, composição de Gilberto Gil, gravada em 1971.

Muita gente se arvora a ser Deus

E promete tanta coisa pro Sertão

Que vai dar um vestido pra Maria

E promete um roçado pra João

Entra ano, sai ano, e nada vem

Meu Sertão continua ao deus-dará

O êxodo rural

O êxodo rural proveniente da seca do semiárido nordestino surge por conta da falta de condições de sobrevivência em um cenário precário no qual a negligência política e a falta de projetos governamentais efetivos não tornam possível manter o sertanejo em sua terra. A falta de trabalhos, dinheiro e chuva, contribuem para o distanciamento do homem de suas raízes.

Os espasmos que interrompem o ritmo habitual do clima semi-árido regional constituíram sempre um diabólico fator de interferência no cotidiano dos homens dos sertões. Mesmo perfeitamente adaptados à convivência com a rusticidade permanente do clima, os trabalhadores das caatingas não podem conviver com a miséria, o desemprego aviltante, a ronda da fome e o drama familiar profundo criado pelas secas prolongadas. (Ab’Sáber, 2003, p. 85).

O sertanejo, quando encurralado pela seca e todos os problemas que ela traz, como a fome e a miséria, encontra na fuga do sertão uma forma de melhorar de vida, e como consequência, ocorrem as migrações para áreas urbanas, vistas como meio de desenvolvimento, que carregam em si a utopia da prosperidade do retirante que largou tudo em busca de uma realidade diferente da do sofrimento que vivia no Sertão. Homens e mulheres corajosas juntavam o que podia e se arriscavam em viagens perigosas, muitas vezes feitas através do pau de arara, meio de transporte muito utilizado pelos sertanejos em meados do século XX. O pau de arara correspondia a um transporte irregular, muitas vezes um caminhão, que transportava um grande número de pessoas, era de certa forma um substituto imperfeito do ônibus. Desse modo, para compreendermos a forma que Luiz Gonzaga aborda tal temática, nos utilizaremos mais uma vez da canção A triste Partida, composição de Patativa do Assaré que fora gravada por Gonzaga.

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheias

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

[...]

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Outras duas canções interpretadas por Gonzaga que retratam a migração sertaneja são O andarilho, composição de Dalton Vogeler em parceria de Orlando Silveira, gravada em 1968 e A vida do viajante, composição de Luiz Gonzaga em parceria de Hervê Cordovil, gravada em 1953.

O andarilho, demonstra a solidão de quem largou a família e foi embora ganhar a vida em terras que possuem chuva, onde Deus olha pelos seus, bem como demonstra que para chegar na cidade grande o sertanejo teve que desafiar as dificuldades que a seca lhe impõe.

Caí do céu por descuido

Se tenho pai, num si não

Venho de longe, seu moço

Lugar chamado Sertão

Vivo sozinho no mundo

Zombei da sede, zombei

Cortei com minha peixeira

Todo mal que encontrei

Fui caminhando, enfrentando

As terras que o sol secou

Até chegar a cidade

Dos homens que Deus olhou

A vida do viajante, por sua vez, retrata a saga daquele que, ao sair de sua terra em busca de descanso e felicidade, guarda em sua memória o afeto pelos lugares em que passou e pelas pessoas que deixou pelo caminho.

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia descano feliz

Guardando as recordações

Das terras onde passei

Andando pelos Sertões

E dos amigos que lá deixei

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E a alegria no coração

O repertório de Gonzaga aborda o processo migratório por diversas vezes em várias canções por ele interpretadas, visto que o mesmo entendia tal situação de partir em busca de melhores condições de vida, bem como de melhores oportunidades, pois ele mesmo havia passado por isso. Suas narrativas cantadas contribuíram para o conhecimento da cultura existente no Nordeste. O êxodo é, por assim dizer, uma cultura forte do Sertão: a cultura do abandono, da tristeza de largar a terra e tudo aquilo que ela representa.

Eu ia contando as coisas tristes do meu povo, que debandava do Nordeste para o Sul em busca de melhores dias, de trabalho. Porque lá chove no período exato, lá se sabe o que são as estações. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando… Então, minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício do meu povo. (Luiz Gonzaga).

O apego do sertanejo com sua terra, a saudade e a tristeza frequentemente presente na vida daqueles que foram forçados por fatores políticos, econômicos, sociais e climáticos a debandar para regiões distantes, se jogando na incerteza de um futuro, bem como o saudosismo do homem e sua vontade de retornar para seu lugar de origem são questões denotadas com maestria através da música A triste partida.

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos plano

De um dia voltar

[...]

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as agua nos óio

Começa a cair

[...]

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o pau

Outra característica presente nas canções de Gonzaga e também presente em A triste partida é o apego religioso do povo sertanejo que se agarra na fé em Deus, rogando por chuvas e, consequentemente, melhor condição de vida. Na música aparecem, como exemplo, a citação de São José que representa a fé do nordestino no seu santo padroeiro, bem como a recorrente frase “Meu Deus, meu Deus”, que implica um ar de súplica. A fé no socorro que vem do céu é muito bem demonstrada na música Súplica cearense, composição de Gordurinha em parceria com Nelinho, gravada em 1979, e interpretada por Gonzaga.

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou

E só por isso o sol se arretirou

Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

Pedi pra chover, mas chover de mansinho

Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito

O Senhor me perdoe

Eu acho que a culpa foi

Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher meus olhos de água

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa

Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir toda hora pra chegar o inverno

Desculpe eu pedir pra acabar com o inferno

Que sempre queimou o meu Ceará

Nessa canção, é nítido o tom de clemência por parte de alguém que apenas quer que o seu Deus envie aquilo que vai lhe livrar da dor de viver no “inferno” no qual a seca é comparada. O personagem dessa canção, um nordestino cearense, chega a pedir perdão por não saber rezar direito, como se a culpa da chuva não ter vindo ser sua. Como o próprio nome da música diz, ela é uma súplica. Súplica de quem já não sabe o que fazer e recorre a sua fé para conseguir viver dias melhores.

Outra canção interpretada por Luiz Gonzaga que também atenta para a religiosidade do povo nordestino é São Francisco de Canindé, composição de Julinho com parceria de Luiz Bandeira, gravada em 1977.

Eu vi a terra fumaçá

Vi graveto estalando o sol

Eu vi o rio virar

Um deserto de pedra e pó

A noite se avermelhou

De tão quente o céu e o chão

Meu povo se encomendou

Esperando o fim do Sertão

Dê um jeito meu São Francisco

Foi assim que pedi com fé

De repente choveu bonito

O rio encheu de fazer maré

Só pode mesmo julgar

Que não é exagerado meu

Pessoa de boa fé

Ou então quem por lá viveu

É triste acompanhar

O Sertão secar e morrer

Compensa a graça de Deus

O milagre do renascer

Obrigado meu São Francisco

Louvo a Deus sua sagração

Tenha sempre ao seu cuidado

O povo humilde do meu Sertão

Não precisa prometer

Ele ajuda a quem tem fé

Fazer bem é seu poder

São Francisco em Canindé

A música retrata muito bem a fé, de forma a apontar o “milagre do renascer” da terra, que com a chegada da chuva tornou-se a vida, onde o rio encheu ao ponto de virar maré. Essa canção dispõe da presença de Deus e do padroeiro, São Francisco, ambos seres de fé e devoção, que possuem em si o poder de trazer vida ao Sertão.

Considerações finais

A partir da análise feita do cenário nordestino levando em consideração as músicas produzidas pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga podemos notar como foi interpretado e difundido um Nordeste que a muito tempo fora esquecido e estereotipado por grande parte do país, mas que na voz de Gonzaga ganhou certa visibilidade e representação, de modo a ser transmitido para várias regiões um Sertão desconhecido e difícil de se viver.

Ele mostrou nas letras de seu repertório a poesia singular que está presente na figura icônica do Rei do baião, Luiz Gonzaga do Nascimento, nordestino que ganhou o país cantando e encantando o povo, falando de sua gente, sua luta e sua terra. Mostrando que o Nordeste é real e único, e que os nordestinos sofrem, mas possuem demasiada força para saberem lidar com a dor da seca, da fome, da miséria, do abandono e da saudade, visto que, como disse Euclides da Cunha em seu livro intitulado Os Sertões, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Referências bibliográficas

AB’SÁBER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

AUSTREGÉSILO, José Mário. Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta. Recife: FASE Faculdade, 2012.

DREYFUS, Dominique. Vida de viajante: a saga de Luiz Gonzaga. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

DUARTE, Renato. Seca, pobreza e políticas públicas no nordeste do Brasil. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101030020924/16duarte.pdf

Acessado em 02/06/018

MADEIRO, Carlos. Alimentada pela escassez, “indústria da seca” fatura com a estiagem no Nordeste. Disponível em:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/05/19/alimentada-pela-escassez-industria-da-seca-fatura-com-a-estiagem-no-nordeste.htm

Acessado em 02/06/2018.

VILAR FILHO, Manoel Dantas. Xorocentelha Nº 5 – do profeta paraibano da Seca, Manelito: a busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/images/stories/observafundaj/a-busca-de-elementos-biologicos-e-conhecimentos-apropriados.pdf

Acessado em 02/06/2018.


[1] Trabalho apresentado com o intuito de concluir a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro da graduação do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, ministrado pelo Prof. Dr. Severino Vicente da silva

[2] Graduanda nno curso de História da Universidade Federal de Pernambucco – UFPE

Tags Categories: História do Brasil, Histório da Cultura, Luiz Gonzaga; José Austragésilo, Nordeste Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 18 jul 2018 @ 11 16 PM

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 16.1

Prof. Dr. Severino  Vicente da Silva

ENTRE CÂMARA, TERREIRO E REBOLADO:

CONHECENDO PERSONALIDADES POPULARES DO RECIFE  NOS ANOS 1970.

Gustavo Luiz Manoel da Silva[1]*

(Universidade Federal de Pernambuco)

Resumo: A década de 1970, no Recife, mesmo na conjuntura política vigente – Ditadura Civil-Militar – foi composta por muitas personalidades que deram brilho, charme e alegria para aqueles que conviveram com tais figuras folclóricas. Partes de suas vidas serão retratadas nesse artigo além de como, transformaram-se em personalidades populares que permeavam o imaginário da população. Dessa forma, serão destacados três pessoas  – Lolita, vereador Braz e Maria Aparecida –  que tiveram seus momentos gloriosos na década aqui trabalhada.

Palavras-chaves: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Abstract: The 1970s, in the Recife, even in the current political situation – Civil-Militar Dictatorship – was composed by many personalities wich gave brightness, charm and joy for those who lived with such folk figures. Parts of their lives will be portrayed in this article, and how have become personalities popular that permeated the imaginary of the population. In this way, are highlighted three people – Lolita, Alderman Braz and Maria Aparecida – which has its glorious moments in said decade.

Key words: Braz, Maria Aparecida, Lolita.

Muitos que andavam em Recife no século passado não chegaram a conhecer Lolita ou o político camelô e, até mesmo, desconhecem o xangô do alto. Para aqueles que, como eu, não viveram a década de 1970, mas desejam conhecer microbiografias de personalidades populares do Recife, apresento-lhes três figuras irreverentes: Lolita, vereador Braz Batista e Maria Aparecida.

Diante dos toques do terreiro, protestos na Assembleia Municipal e rebolados acenados com cantorias, retratarei um Recife visto pelas camadas inferiores. Aqueles que davam sentindo as pontes mauriceias do centro do Recife ou lá do Alto de Santa Isabel, encantados pelo desfile de uma baiana caricata e, talvez, entrelaçados pelos batuques de Xangô. Até mesmo sentindo-se representados por um camelô arretado.

Dessa forma, este trabalho seguirá mergulhando num passado popular, onde resgatará certa parte da História Social da cidade do Recife.

Braz Batista, um camelô na Câmara Municipal do Recife.

Em 1972, o Brasil passava por um dos seus momentos mais difíceis, com Ditadura Civil-Militar, pois muitos estavam sendo mortos, torturados e/ou presos, simplesmente por serem suspeitos pelo o Estado. No Recife, por sua vez, a situação não foi diferente, pois, como um cavalo recebendo cabresto, a população deveria seguir e reverenciar a situação política até então.

Nesse momento, destaca-se um caso inusitado que aconteceu na cidade do Recife, durante as eleições municipais para prefeito e vereador. Naquele ano de 1972, ocorreram disputas entre ARENA e MDB[2], e um candidato sobressaiu em meio aos nomes tradicionais. Sem estudos, oriundo das camadas mais pobres, negro e acima de tudo camelô. Este é Braz Batista, ganhou uma cadeira na Câmara Municipal do Recife, disputando o pleito pela ARENA, conquistando votos puxando seu carrinho pelo centro do Recife, principalmente na Avenida Conde da Boa Vista.

Vereador Braz, como ficou conhecido, ganhou popularidade em um momento que havia necessidade de representação política. Os populares viam  nele a possibilidade de serem representados, isto é, dando-lhe um voto de protesto, e transformando-lhe nessa figura peculiar.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com neto, Darlan Batista, o mesmo falou um pouco sobre a época dos comícios:

Na época participei muito de comícios, na época tinham aqueles comícios com a caravana da marjoritária, e eu sempre iria junto, e as vezes nem sabia para onde estava indo, mas eu gostava de participar. E isso me marcou muito, esse lado político de participar junto com meu avô[3].

Relato do seu neto que, mesmo criança não entendendo muito tudo aquilo que estava vivendo, mas ao lado do seu avô, compartilhou das emoções e enfervenecia política da época.

Vereador Braz Batista panfletando no centro do Recife[4].

Quando não estava com sua carroça cheia de brinquedos pendurados passando pelo Centro do Recife, fazendo a alegria da criançada, vereador Braz realizava pedidos de doações para os mais pobres. Assim como alegorias carnavalescas, Braz fazia essas campanhas em cima de caminhões enfeitados por cartazes. Mesmo sem estudos, a política ensinou-lhe os meios de conquistar seu eleitorado – por algum tempo.

Além de realizar o arrecadamento de donativos, disponibilizava um caminhão de mudanças para a população. Em um período que não havia transporte público e gratúito para socorrer as pessoas que estão em casa. Inclusive, Braz deixava disponível uma ambulância a serviço do povo, existia até um restaurante que algumas pessoas comiam e deixavam a conta para Braz pagar. Ainda doava 20% do seu salário de vereador para o Hospital do Câncer.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal do Commércio em 2013 com sua filha mais nova, Paula Santos, a mesma falou um pouco sobre o seu pai:

[...] Essa era a bandeira do meu pai, valorizar o ser humano [...] A ambulância é a coisa mais marcante, que tem tanto a ambulância quanto o caminhão né? Porque como percursor desse transporte gratuíto pro povo, a ambulãncia é a marca registrada[5].

Segundo relato da Paula Santos[6], muitas pessoas vão a antiga casa do seu pai pedir alguma coisa. Hoje, quem mora nessa residência é a viúva Joana Braz Batista. Entoando bordões, como por exemplo, “ruim por ruim, vote em mim”, Braz conseguiu se eleger para sua segunda e última legislatura, por um novo partido o PDS[7], em 1982.

O vereador Braz faleceu no dia 16 de Julho de 1993 em decorrência de um câncer de pulmão e, coincidência ou não, em uma data que boa parte dos recifenses estavam rezando, voltados para o sagrado. Era o dia da Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife. Braz conquistou muitos seguidores, talvez muitos nunca o esqueceram. Seu nome está eternizado em uma rua do Recife no bairro do Passarinho e, certamente, na gratidão daqueles que o admiram.

Maria Aparecida, a “xangozeira baiana” do Alto Santa Isabel.

De saia rodada, geralmente de cores fortes com muitos adereços, uma verdadeira baiana caricata, toda maquiada descendo pelas ruas do bairro do Alto Santa Isabel, até o centro do Recife para pular carnaval ou dançar maracatu. Com essa descrição parece ser um folião qualquer que vai brincar os carnavais nas vielas do Recife. Contudo, esta narrativa enquadra-se no pai de santo e carnavalesco, Mário Miranda, que quando chega fevereiro só quer ser Maria Aparecida, nome que atravessa os meses e cola como confete em corpo suado depois de um frevo.

Nascido entre os batuques do ritual Congo, numa época em que para cultuar a entidade tinha-se que fugir da polícia, a repressão do governador Agamenon Magalhães estava presente no anseio de sua infância, na casa do pai de santo Apolinário Gomes da Mota, que morreu pouco tempo depois. Aos 7 anos, fazendo suas obrigações no terreiro da nação Moçambique, descobriu-se que seu Orixá de frente era Oxum, mas a mãe de santo, Dona Rosinha, quis mudar o seu Orixá para um masculino, nesse caso por Xangô. O motivo de tal mudança seria o fato de ser feio para ele ter um santo de frente feminino.

Fizeram as obrigações para tentar mudar seu Orixá de cabeça, mas, após a morta de Dona Rosinha, o jovem iniciado passou para o terreiro de Maria Julia, que pertencia à mesma nação. Com a nova mãe de santo, pôde de fato entregar-se para aquele Orixá que o teria escolhido. Santo de alma feminina que, com o passar dos anos, foi dando vida à vaidade, ritmo aos passos e beleza ao sorriso encantador de Maria Aparecida.

Maria Aparecida na frente do seu terreiro[8]

As alegrias dos carnavais somaram-se com a incorporação do maracatu de baque virado – Cambinda Estrela, era o seu nome – fundado em meados da década de 1930, na Zona da Mata Norte. Os batuques soltos desse maracatu chegaram até o Alto de Santa Isabel somando, a cada toque, um rebanho de baianas enfeitadas por Maria Aparecida. As ladeiras do Alto estavam em festa e as ruas do centro ficaram receptivas, quando Cambinda Estrela desfilava envolvendo todos nos seus ritmos. Além de ser carnavalesco, chegou a produzir toada que traduziu um pouco a si mesmo:

Passei três meses internado

Disseram que foi catimbó

Mas eu sou de Moçambique

E o meu veneno é um só

Foi comida, foi comida

que fez mal a Aparecida.

Maria Aparecida criou seu palácio de Oxum dividida em carnavais e catimbós. Mas na década de 1980, a “xangozeira baiana” nos deixou. O maracatu Cabinda Estrela calou-se até a década seguinte, a casa deixou de ter o brilho que irradiava e, foi assim, como um toque grave do terreiro que impacta e paralisa, Maria Aparecida os deixou.

Lolita, a caricata do centro do Recife.

Quem transitava pelas ruas da cidade do Recife na década de 1970, principalmente no seu centro, certamente encontrava-se com uma figura muito curiosa que, exalando um ar pomposo, acenando com seu rebolado e recitando orgulhosamente um dito em que dizia, “quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”, provavelmente chamava a atenção daqueles que circulavam no bairro do Recife, ignorando a arquitetura estreita dos casarões, mas viravam os pescoços para verem Lolita passar.

Nascido no dia 6 de janeiro de 1933, natural da cidade de Nazaré da Mata, de uma família de agricultores, Ivo Alves da Silva – depois conhecido por Lolita – passou a sua infância na roça ajudando sua família que morava em um engenho. Posteriormente sua parentela acabou indo para São Paulo tentar uma vida melhor. Por outro lado, Lolita teve outras escolhas.

Por influências dos amigos, começou uma vida desregrada aos 10 anos de idade e, os mesmos que diziam-se “amigos”, acabaram contando para o seu pai sobre um fato, de banho de açude, onde entregou para esses garotos a sua mocidade.  Foi a partir daí, com essa mesma idade, que aos passos da rejeição do seu pai, transformou-se nessa figura tão singular. Quando sua família partiu para São Paulo, nos seus 16 anos, mudou-se para a cidade de Limoeiro para trabalhar com o Pe. Nicolau Pimentel. Tendo a possibilidade de sonhar ser professor, terminando o Ginásio[9] com 22 anos. Contudo, envolvendo-se na embriaguez das bebidas, copo a copo, foi afogando o seu sonho.

Mas foi aos 39 anos de idade que decidiu sair do mundo rural, podendo fincar suas bases no asfalto do Recife. Com o intuito de trabalhar de servente e cozinheiro, passou a trabalhar na Pensão Juá, localizada no bairro do Pina – antes disso, passou 15 anos na Ilha do Maruim.

Em uma entrevista realizada pelo Jornal da Cidade, em 1975, Lolita explica a origem do seu nome:

Eu já estou cheio de tanta pergunta. Quem inventou essa história foi o Detetive Dunga, aquele que tem uma revista a “Repórter Policial”, essa revista era muito famosa e eu também como gente famosa, internacional, fui convidado por ele para posar e ele fez uma foto minha assim (faz o gesto, abrindo os braços), publicou numa página e escreveu em baixo, “Quem não conhece Lolita, não conhece o Recife”. Aí o pessoal leu e começou a falar isso e eu também comecei a falar aos estudantes e eles pegaram e ficou até hoje[10].

Das zonas[11] as faculdades, Lolita andava por caminhos que, às vezes, muitos não queriam comentar. Gostava de ir às faculdades do centro do Recife, porque alguns alunos o aplaudiam, elogiavam todas as papagaiadas que fazia. Nas zonas, sentia-se a vontade para beber, dançar e expressar quem verdadeiramente era. Passou um tempo como cafetão em uma zona do bairro do Pina, para ganhar um pouco mais de dinheiro. Mas sempre denunciava as condições e as repressões que as mulheres desse mundo sofriam.

Lolita

Fonte: Entrevista realizada no Jornal da Cidade[12]

Chegou a apresentar-se artisticamente no programa de calouro Varieté, do Jornal do Commércio. Entre aplausos e vaias, Lolita soltava toda irreverência que havia dentro de si. Conhecido por ser briguento, colocando para correr até carro de polícia. Depois de uma garrafa de cachaça, ousadia e valentia andavam lado a lado. Envolveu-se em bastantes brigas, mas chegava a dizer que só de recitar este folheto – comprado no centro da Cidade, de João Martins de Athayde com o nome: Lolita Era Uma Condessa – “Lolita desde criança era compadecida/Dava pequeno valor/aos objetos da vida/visitava os hospitais/inda que fosse escondida[13]”. Já a veracidade desse relato, não tem a mesma certeza que Lolita tinha de ser solta quando era presa.

Na década de 1980, o Recife perdeu um dos seus filhos mais inusitados. Mesmo não sendo natural desta cidade, foi o Recife que deu vida a essa figura folclórica que desapareceu nas ruas do centro, restando apenas no imaginário.

Considerações finais

O resgate de personagens populares, em especial os quais aqui foram apresentados, é de primordial importância para o entendimento da História Social da cidade do Recife. Dentro de um recorte histórico, década de 1970, três indivíduos destacaram-se nos meios em que viviam, com trajetórias, costumes e posturas diversas. Perpassando por várias esferas sociais.

Dos protestos acalorados na Câmara Municipal do Recife, aos batuques do Alto de Santa Isabel, passando pelo centro com as arruaças de uma “moça”, desvendando personagens que já foram e tiveram essas características. Houve a percepção do quanto podia-se explorar esse universo não tão distante.

Este trabalho visou traduzir essas linguagens, trazer da memória quase esquecida da população e, de certa forma, dá vida a essas figuras folclóricas que embelezaram ainda mais o Recife.

Referências Bibliográficas

Babalorixá Mario Miranda, Maria Aparecida. Direção: Jomard Muniz. Disponível na Internet: <https://www.youtube.com/watch?v=sumcYXGtP-8> Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003. Disponível na Internet: <http://jconline.ne10.uol.com.br/canal/politica/pernambuco/noticia/2013/07/21/as-cenas-de-braz-batista–o-vereador-camelo-90700.php>  Acesso em: 03 julho.2016.

Jornal da Cidade, de 6 de julho de 1975. Disponível na Internet: <http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305>  . Acesso em: 03 julho.2016.

NASCIMENTO, Luiz. os protocolos das modernizações urbanas na história recente da cidade do recife. Recife: CLIO, 2012.


1* Estudante do 6º Período do curso de Licenciatura em História, pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

[2] Bipartidarismo (apenas dois partidos) foi o sistema que vigorou até 1979 no Brasil.

[3] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003

[4]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Braz+Batista&ltr=b&id_perso=1485

[5] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[6] Jornal do Commércio, ed. Online. 21 de julho de 2003.

[7] Partido Social Democrático Social

[8]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=M%C3%A1rio+Miranda/Maria+Aparecida&ltr=m&id_perso=5328

[9] Equivalente ao Ensino Fundamental II, atualmente.

[10] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

[11] Puteiro, casa da luz vermelha, lugar onde existe prostituição.

[12]Fonte:http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Lolita&ltr=l&id_perso=1305

[13] Jornal da Cidade, 6 de julho de 1975.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

TÓPICOS ESPECIAIS DE HISTÓRIA DO NORDESTEIGREJAS E RELIGIÕES

Prof.  Dr. Severino Vicente da Silva

DARLIANE ALICE DOS SANTOS TOMAZ (Graduanda)

RECIFE

2016

MULHER E RELIGIÃO

INTRODUÇÃO

O presente artigo pretende abordar como a mulher é vista/representada nas religiões mais influentes do Brasil. O estudo sobre religião é fundamental, pois mesmo com o processo de secularização pelo qual estamos passando, ela continua sendo uma das bases importantes para a (re) construção sociocultural da identidade do povo brasileiro. Em nosso país, o aspecto religioso sempre foi muito influenciador, e continua sendo. Quando há o cruzamento de religião e gênero, muito pode ser discutido. Quando aí se inserem questões étnicas e de classe, mais questões surgem e, no universo das religiões todos esses pontos estão entrelaçados.

“A religião é, antes de tudo, uma construção sociocultural. Portanto, discutir religião é discutir transformações sociais, relações de poder, de classe, de gênero, de raça/etnia; é adentrar num complexo sistema de trocas simbólicas, de jogos de interesse, na dinâmica da oferta e da procura; é deparar-se com um sistema sociocultural permanentemente redesenhado que permanentemente redesenha as sociedades.” (SOUZA, 2004, p. 122-123).

Costumamos ter a visão de que, no mundo medieval, a mulher era submissa à figura masculina, quer no lar, quer fora dele, isto é, nos trabalhos realizados nas cidades ou no campo, ou ainda nas esferas eclesiásticas. Essa ideia nasceu de um preconceito muito comum: o de se achar que, por ter sido uma sociedade orientada pela religião cristã católica, a figura da mulher estaria diretamente associada ao pecado, seja pela narrativa do Gênesis, em que se tem Eva como aquela que induz Adão a pecar, seja pelo corpo feminino, que poderia levar a prazeres sensuais e à luxúria.·.

Mas o fato é que as categorias de compressão da Igreja Católica, desde suas raízes no cristianismo primitivo, nunca atribuíram à mulher nenhuma condição de inferioridade ou de detenção do pecado em relação ao homem. O cristianismo compreende que o ser humano, tanto a mulher quanto o homem, está exposto ao mal, porque é livre – tem liberdade para aceitar ou negar o bem, a graça. Desse modo, nas esferas social e eclesiástica da Idade Média, como os homens, as mulheres possuíam um grande trânsito. A sociedade não lhes negava espaço a partir de determinações político-religiosas, como bem nota a historiadora Regine Pernoud, no livro “O Mito da Idade Média”:

[…] certas mulheres desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era espeitado de um modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias. [1]

Além da grande influência na esfera eclesiástica, as mulheres também tinha lugar de destaque fora das abadias e conventos. Prossegue Pernoud:

Nos atos notariais é muito frequente ver uma mulher casada agir por si própria, abrindo, por exemplo, uma loja ou um negócio, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Finalmente, os registros das derramas (nós diríamos os registros dos recebedores), quando nos foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram uma multidão de mulheres que exerciam profissões: professora, médica, boticária, educadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.” [2]

No que se refere à questão das práticas mágicas, feitiçaria, bruxaria, etc., a figura da mulher estava, sim, diretamente relacionada. Isso acontecia em virtude das misturas culturais entre ritos pagãos, de origem romana e germânica, e concepções do cristianismo popular sobre os demônios, ou entidades inferiores. O culto pagão da fertilidade, por exemplo, tinha grande lastro na Idade Média. Contudo, os surtos persecutórios às mulheres identificadas como “bruxas” partiam mais da população que procurava “bodes expiatórios” para explicar algum desastre natural, como secas, enchentes, peste, etc., e menos da Igreja e da Inquisição. A Inquisição, aliás, nasceu como forma de contenção dos linchamentos públicos que eram levados a cabo contra alguém acusado de heresia.

[1]

A MULHER NA RELIGIÃO CATÓLICA

Na religião católica há uma forte representação da mulher de modo positivo, que é Maria, a nova Eva, que é a pessoa humana mais perfeita. Ela não é uma deusa nem uma semideusa, e sim a Mãe de Deus. Maria, virgem e Mãe, está evidentemente ao contrario da cultura atual, que exalta sexualidade separada da maternidade. No entanto, para todos os cristãos – e não somente para os católicos –, Maria tem um lugar absolutamente eminente. Ela é a mulher por meio de quem Deus veio ao mundo. Ela ofereceu sua fé a Deus, ao contrário de Eva, que preferiu confiar no que o “tentador” lhe prometeu. Maria é a nova Eva. Uma curiosidade é que a saudação do anjo, “Ave”, em latim, retoma, em sentido inverso, as letras do nome de Eva.

A Igreja católica viveu/vive em uma sociedade que se caracteriza fortemente pelos preconceitos da época. Mas, na história da Igreja, um considerável número de mulheres ocupou lugares decisivos. Especialmente as religiosas, como demonstra a história, houve mulheres que tiveram um papel decisivo e desempenharam tarefas de valor considerável. Basta pensar nas fundadoras das grandes Famílias religiosas, como por exemplo, Santa Clara[2] e Santa Teresa de Ávila[3].

No século XIX, as mulheres que tiveram a máxima autoridade foram às fundadoras e as superioras das comunidades religiosas, que mais do que à oração, se dedicavam à prestação de cuidados de saúde, à educação e à caridade.

Na vida concreta da Igreja atualmente, muita cargos de responsabilidade são ocupados por mulheres. Mais do que na sociedade civil. Quando a pessoa contempla a vida de uma paróquia, ou inclusive de uma diocese, descobre que muitas responsabilidades importantes são ocupadas pelas mulheres. Inclusive nas especialidades consideradas masculinas, como nas finanças. Nos conselhos paroquiais ou diocesanos, é maioria. Por isso, não surpreende que, em média, as mulheres representem dois terços dos fiéis, contra um terço de homens. Várias mulheres também estão presentes nos serviços da Santa Sé. Se for minoria, isso se deve a que a maior parte dos funcionários é constituída por sacerdotes.

A MULHER NA IGREJA EVANGÉLICA

A presença da mulher nas Igrejas evangélicas é muito diversificada. Na Igreja luterana, a mulher do pastor geralmente assume uma função de liderança na comunidade. Auxilia seu marido na pastoral. Hoje em dia, inclusive, há pastoras, diaconisas na Igreja Luterana.

Nas Igrejas presbiterianas (fiéis a Calvino), a mulher não participa da administração suprema da igreja. Isto está reservado ao conselho de presbíteros, que todos devem ser homens.

No anglicanismo, existe hoje um conflito, quase de cisma, em que alguns grupos admitem a ordenação da mulher para todos os cargos hierárquicos. Outros grupos não admitem isto. Num sentido originário, continuaram, mais ou menos com a tradição da Igreja católica. Embora, pastores e bispos não precisassem ser celibatários. O que já é muito, pois isto supõe admitir que a mulher não necessariamente representasse um perigo para a pureza da fé e do culto do pastor. Nas igrejas evangélicas mais recentes, cada uma vai se institucionalizando de acordo com certas circunstâncias locais. Se existem líderes femininas nas comunidades, elas, geralmente, conquistam mais poder e participação na igreja. Mas, de fato, se vê na mídia que também nestas igrejas recentes, os pregadores (pastores) geralmente são do sexo masculino.·.

A MULHER NA RELIGIÃO AFRO-BRASILEIRA

A religião na África é comandada por homens, no Brasil se deu o inverso, porque aqui as mulheres foram as primeiras a conseguir as alforrias. Quando elas conseguiam as alforrias, elas já se tornavam comerciantes, vendiam um pouco de tudo, eram chamadas de negras vendeiras. Então, com essas vendas, elas começaram a comprar os seus pares e também a comprar seus companheiros tanto maritalmente como companheiros da escravidão. A partir daí, elas conseguiam a alforria e a independência econômico primeiro do que os homens. Então no Brasil as mulheres vão e formam os primeiros candomblés, porque a maioria era sacerdotisa ou iniciada na religião dos antepassados dos orixás divinizados.

Percebe-se que na religião Afro-brasileira a mulher ocupar uma posição de maior destaque em comparação às outras religiões. Podemos perceber que na religião católica, não é permitido às mulheres dirigir a cerimônia de maior destaque, que é a missa. Nos templos evangélicos e pentecostais a situação se repete, pois a grande maioria de bispos é do sexo masculino. Há pouco tempo, começaram a surgir timidamente, algumas mulheres nessa posição. Na maioria dos terreiros o número de mulheres predomina sobre o de homens nos terreiros. O candomblé resiste principalmente nas periferias brasileiras, onde a maioria da população é negra e mestiça. São as mulheres, que lideram os Ilês.

CONCLUSÃO

Este trabalho teve como objetivo descrever como a mulher é representada nas religiões mais influentes do Brasil. Assim, adentramos o universo das religiões, focando no papel que a mulher desempenha nessas religiões. Percebemos que esse papel se diferencia do que predomina na sociedade global, onde existe uma afirmação sociocultural da masculinidade. Dessa forma, alguns padrões não se estabelecem como “verdadeiros” e próprios. Assim estas representações se dão a determinados grupos o poder de estabelecer, através dos discursos ditados por relações de poder, aquilo que tem estatuto de realidade.

ANEXOS

ORIXÁS FEMININOS

Nanã – As filhas de Nanã são conservadoras e presas aos padrões convencionais estabelecidos pela sociedade. Passam aos outros a aparência de serem calmas, mudando rapidamente de comportamento, tornando-se guerreiras e agressivas; quando então, pode ser perigoso, o que assusta as pessoas.

Obá – As filhas de Obá normalmente não tem muito jeito para se comunicar com as pessoas, chegam a ser duras e inflexíveis. Têm dificuldade em ser gentis e estabelecer um canal de comunicação afetiva com os outros; às vezes são brutas e rudes afastando as pessoas ao seu redor.

Ewá – As filhas de Ewá são vivas e atentas, mas sua atenção está canalizada para determinadas pessoas ou ocasiões, o que as leva a desligar-se do resto do mundo. Isso aponta certa distração e dificuldades de concentração em determinados momentos.

Oxum– As filhas de Oxum são aquelas que agem com estratégia, que jamais esquecem as suas finalidades; atrás da sua imagem doce esconde-se uma forte determinação e um grande desejo de ascensão social.

Iansã – As filhas de Iansã são conhecidas por seu temperamento explosivo. Estão sempre chamando a atenção por serem inquietas e extrovertidas.

Iemanjá – A força e a determinação fazem parte das características das filhas de Iemanjá, assim como o sentido de amizade, mas que está sempre cercada de algum formalismo. Apesar do gosto pelo luxo, não são pessoas ambiciosas nem obcecadas pela própria carreira, detendo-se mais no dia a dia, sem grandes planos para atividades a longo prazo.

SANTAS CATÓLICAS

História de Santa Teresa de Ávila

Gostava de ler histórias de santos, chegando a fugir de casa com seu irmão para dar a vida por Cristo tentando evangelizar os mouros. Sua mãe faleceu quando Tereza tinha 14 anos. Então, seu pai a levou para estudar no Convento das Agostinianas de Ávila. Quando leu as “Cartas” de São Jerônimo, disse  a seu pai que iria se tornar religiosa. Seu pai não queria, mas com 20 anos ela “fugiu” para o Convento Carmelita de Encarnacíon, em Ávila.

Viveu no Convento da Encarnação, ficando muito doente por três anos, seu pai a tirou do convento para ser tratada. Praticando a oração mental seguida pelo livro, “O terceiro alfabeto espiritual”, do padre Francisco de Osuna, recuperou sua saúde e retornou ao Carmelo. Com muita amabilidade e caridade, conquistava a todos conversando no locutório do Carmelo. Após 25 anos no Carmelo pede permissão ao provincial, padre Gregório Fernandez para fundar novas casas, com uma vida mais austera e com menos irmãs, visto que onde ela morava haviam mais de 200 freiras. Apesar de a maioria ter ido contra, Santa Tereza continuou com sua missão fundando várias casas, com o apoio de dois frades carmelitas, o superior Antonio de Jesus de Heredia, e Juan de Yepes, (São João da Cruz). Conseguiu depois de muita luta,  a autorização de Roma para separar a ordem das carmelitas descalças, (por usarem roupas rasgadas e sandálias ao invés de sapatos e hábitos), das carmelitas calçadas, ordem a que pertenciam. Deixou para São João da Cruz a missão de continuar fundando novos conventos, escrevendo também a pedido de Santa Tereza, as regras para os mosteiros masculinos.

Realizou uma grande reforma na Ordem das Carmelitas Descalças. Fundou vários conventos, (32 mosteiros, 17 femininos e 15 masculinos), com uma rígida forma de vida, trabalho e silêncio. Santa Tereza foi considerada muito inteligente, e deixou várias obras escritas, como o Livro da Vida, o Caminho da Perfeição, Moradas e Fundações entre outros. Com uma forte doutrina que dirige a alma até uma espiritualidade com Deus, no centro do Castelo Interior, com base na espiritualidade carmelita, que são os quatro degraus da  oração: o recolhimento, a quietação, a união e o arrebatamento. Um anjo transpassou seu coração com uma seta de fogo, fato este que é comemorado pelo Carmelo com a festa da Transverberação do coração de Santa Tereza, no dia 27 de agosto. Tinha o dom de predizer o futuro e de ler as consciências das pessoas.

Oito anos antes de morrer, foi lhe revelado a hora de sua morte, aumentando mais ainda o seu amor a Deus e as orações. Santa Tereza morreu no dia 4 de outubro de 1582, com 67 anos. Depois de uma viagem para encontrar com a Duqueza  Maria Henriques, ficou por 3 dias de cama pois estava bem debilitada, e disse a Beata Ana de São Bartolomeu : “Finalmente, minha filha, chegou a hora da minha morte.” E na hora de sua morte ela disse: “Oh, senhor, por fim chegou a hora de nos vermos face a face.” Foi sepultada em Alba de Tormes, onde estão suas relíquias. Depois de sua morte e até os dias de hoje, seu corpo exala um perfume de rosas, e se conserva intacto,(incorruptível). Seu coração conservado em um relicário, em Alba, na igreja das Carmelitas, tem uma profunda ferida, de quando foi marcado pelo anjo. Santa Tereza foi canonizada  no dia 27 de setembro de 1970, pelo Papa Paulo Vl, que lhe conferiu o título de Doutora da Igreja, e sua festa é comemorados no dia 15 de outubro.

História de Santa Clara

Clara desde jovem já tinha a fama de muito religiosa e recolhida. Aos 18 anos ela fugiu com uma amiga, Felipa de Guelfuccio, para encontrar São Francisco de Assis, na Porciúncula, (capelinha de Santa Maria dos Anjos, onde nasceu a ordem dos Franciscanos e a ordem de Santa Clara). Lá ela era esperada para fazer os primeiros votos e entrar no convento dos franciscanos.

O próprio São Francisco cortou os cabelos de Clara, sinal do voto de pobreza e exigência para que ela pudesse ser uma religiosa. Depois da cerimônia ela foi levada para o Mosteiro das Beneditinas. Santa Clara de Assis vendeu tudo, inclusive seu dote para o casamento e distribui aos pobres. Era uma exigência de São Francisco para poder entrar para a vida religiosa.

A família de Santa Clara de Assis tentou buscá-la, mas ela se recusou a voltar, mostrando para o seu tio Monaldo os cabelos cortados. Ele, então, desistiu de levá-la. Nisso, sua irmã Catarina, também foge para o convento aos 15 anos de idade. A família envia novamente o Tio Monaldo para busca-la à força. Monaldo amarra a moça e prepara-se para arrastá-la de volta para casa.

Clara não suporta ver o sofrimento da irmã e pede ao Pai Celeste que intervenha. Então a menina amarrada ficou tão pesada que ninguém conseguia movê-la. Monaldo, então, desistiu. Catarina entrou para o convento e recebeu o nome de Inês. Depois de ter passado pelo convento de Santo Ângelo de Panço, São Francisco leva Clara e suas seguidoras para o Santuário de São Damião, onde foram morar em definitivo.

Por causa da invasão muçulmana, a região de Assis passou necessidades. Tanto que, certa vez, as irmãs, que já eram mais de 50, não tinham o que comer. Então a irmã cozinheira chega desesperada e diz a Santa Clara de Assis que havia somente um pão na cozinha. Santa Clara diz a ela: confie em Deus e divida o pão em 50 pedaços. A irmã cozinheira, mesmo sem entender, obedece. Então, de repente, dezenas de pães aparecem na cozinha e as irmãs conseguem se sustentar por vários dias.

Santa Clara de Assis é a fundadora das Clarissas, (antes chamadas de senhoras pobres), com conventos espalhados por vários lugares da Europa e uma espiritualidade voltada para a pobreza, à oração e a ajuda aos mais necessitados. Ela escreveu a Regra para as mulheres religiosas, (forma de vida), a regra de viver o mistério de Jesus Cristo de acordo com as propostas de São Francisco de Assis. Regra depois aprovada pela Papa. Ela foi o lado feminino dos franciscanos e as irmãs Clarissas permanecem até hoje.

Santa Clara de Assis morreu em Assis no dia 11 de agosto de 1253, aos 60 anos de idade. Um dia antes de sua morte ela recebeu a visita do Papa Inocencio lV, que lhe entregou a Regra escrita por ela aprovada e aplicada a todas as monjas. Na hora de sua morte ela disse: Vá segura, minha alma, porque você tem uma boa escolha para o caminho. Vá, porque Aquele que a criou também a santificou. E, guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com eterno amor. E Bendito sejais Vós, Senhor que me criastes.

O Papa mandou enterrá-la na Igreja de São Jorge, onde São Francisco estava enterrado. Em 1260 depois de construída a Basílica de Santa Clara, ao lado da Igreja de São Jorge seu corpo foi transladado com todas as honras para lá. Sua canonização foi oficializada pelo Papa Alexandre lV, no ano de 1255, dois anos após sua morte. Santa Clara de Assis é representada com uma roupa marrom e touca branca, com uma custódia com o Santíssimo sacramento.

REFERÊNCIA

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AUGRAS, Monique. De Iyá Mi a Pomba-gira: transformações da libido. In: MOURA, CarlosEugênio Marcondes (Org.). Candomblé: Religião do corpo e da alma: tipos psicológicosnas religiões afro-brasileiras. Rio de Janeiro: Pallas, 2000.

BASTOS, Ivana S. O perfil dos terreiros de João Pessoa. Relatório 2008. João Pessoa:

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FIORENZA, E. S. As origens cristãs a partir da mulher: uma nova hermenêutica. Trad João Rezende Costa. São Paulo: Edições Paulinas, 1992.

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http://www.cruzterrasanta.com.br/historia-de-santa-teresa-de-avila/110/102/#c

MATA, Sérgio Da. História e Religião. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

SOUZA, Sandra Duarte de. Revista Mandrágora: gênero e religião nos estudos feministas. Revista Estududos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. spe, 2004. Disponível em: . Acesso em: 24 Ago 2008.

STANLEY, J. Grenz. Mulheres na Igreja. Ed. Candeia, 1998.

UFPB, 2008. 22p. Mimeo.


[1] PERNOUD, Regine. O Mito da Idade Média. Lisboa: Publicações Europa-América, 1978. p. 95.

[2] Idem. p. 101.

[2] Vida é legado no final do artigo (anexos)

[3] Idem

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Posted By: Biu Vicente
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Que História é essa

Hoje na História

 

16 de junho de 1950:

Inaugurado no Rio de Janeiro o estádio do Maracanã

Aline De Biase

Aluna do 5º período de História

Bolsista da Pró-Ext

 

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

  Na década de 1940, em virtude da Segunda Grande Guerra, não houve a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Com o fim da guerra em 1945, a Europa estava abalada e em reconstrução, e por isso, a Federação Internacional de Futebol Associado – FIFA – interessada em fazer ressurgir o campeonato, estava em dificuldades em encontrar um país para sediar o evento. No Congresso da FIFA de 1946, o Brasil apresentou o seu projeto de sediar uma Copa em 1950, mudando o ano do evento que estava previsto para 1949, salvou o torneio que talvez nem fosse mais ocorrer, pelo desinteresse da comunidade internacional.

  Proposta aceita, com a decisão do presidente Eurico Gaspar Dutra iniciou-se a 2 de agosto de 1948, a  construção de um estádio de futebol gigante para ser a sede da 4ª Copa Mundial de Futebol, na capital federal. Inúmeras críticas foram feitas aos gastos dirigidos para a construção desse estádio, por desviar os investimentos que poderiam ser aplicados na melhoria das estruturas sociais brasileiras. Na contra mão dessas opiniões, estava no jornalista esportivo Mário Rodrigues Filho, que pelo seu incentivo à construção, foi homenageado, dando seu nome ao estádio.

 Assim, em 16 de junho de 1950, o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã foi inaugurado como o maior estádio de futebol do mundo. O nome Maracanã, de origem tupi-guarani, significa “semelhante a um chocalho”, uma menção ao fato de que no local onde o estádio foi construído existia uma grande quantidade de aves, chamadas Maracanã-guaçu, que emitiam sons semelhantes ao de um chocalho.

 A partida de futebol que inaugurou o estádio ocorreu no dia 17 de junho de 1950 entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo, partida vencida pelos paulistas por 3 a 1. O autor do primeiro gol no estádio foi o meio-campista Didi, da equipe carioca, e depois bi-campeão mundial de 1958 e 1962, pela seleção brasileira.

Didi, o Mestre da Folha Seca

Didi, o Mestre da Folha Seca

  A aguardada Copa do Mundo de 1950 foi iniciada em 24 de junho, com a partida entre Brasil e México, em que a seleção brasileira venceu por 4 a 0. Entretanto, ao contrário da preferência e dos rumores de vitória esperados, a seleção brasileira não ganhou a Copa. Na partida final, o Uruguai venceu o Brasil, por 2 a 0, no que é considerado um dos maiores reveses da história do futebol e esta partida ficou conhecida pelo termo espanhol “Maracanazo”.

 No Maracanã, os grandes jogadores da história do futebol brasileiro iniciaram ou consagraram suas carreiras:  a primeira vez que Pelé jogou pela seleção brasileira foi nesse estádio, em 1957 e Zico é artilheiro do estádio com 333 gols em 435 partidas.

  Em 2000, no aniversário de 50 anos do Maracanã, foi inaugurada a Calçada da Fama, nela os maiores craques da história do estádio deixaram a marca dos pés. Em 2007, o estádio – que é utilizado para diversos eventos, como espetáculos musicais com artistas consagrados -  foi palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro.

  Por muito tempo, o Maracanã, que atualmente tem a capacidade de abrigar 94 751 pessoas, foi o maior estádio do mundo. Entretanto, perdeu o título para o estádio Rungrado May Day, inaugurado em 1º de maio de 1989, na Coréia do Norte e que tem capacidade para 150 mil pessoas.

 

Texto produzido para o programa QUE HISTÓRIA É ESSA, e lido no dia 16 de junho de 2010.

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Last Edit: 16 jun 2010 @ 11 52 AM

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Universidade Federal de Pernambuco

Curso de Bacharelado em Turismo 2010.1

História da Cultura, prof. Biu Vicente

Aluna Isabela Silvestre Fonsêca Ferreira

 

Resumo comparativo entre o livro de Peter Burke e o documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro

 

Somos uma sociedade multicultural, praticamos cultura em todos os aspectos de nossas vidas. Seja no modo de sentar, de comer, de falar ou andar, qualquer costume nosso adquirido pode ser classificado como cultura.

Peter Burke, no livro “Cultura popular na idade moderna” define a cultura como a história das ações da vida cotidiana, onde a cultura é tratada como um sistema com limites muito indefinidos. Burke fala da necessidade de pensar nas classes ‘menos favorecidas’ a partir de um mundo totalmente diferente do atual, onde as classes elitizadas participavam de festividades comuns as classes não elitizadas, como o carnaval por exemplo.  Fazendo ligação com o documentário de Darcy Ribeiro, é possível observar que a cultura desses pode ser comparada com os índios que criaram a sua própria cultura, passando para todos da tribo, disseminado-a pelo Brasil, formando a nossa identidade atual.

Ciranda em um palco

Ciranda em um palco

Identidade tal que só começou a ser modificada com o início da colonização, quando os europeus aqui chegaram, catequizando os índios e fazendo com que eles usassem vestimentas, adicionando parte da sua cultura para eles. . É notável que cada sociedade, seja ela qual for, tem sua crença, seus valores, comportamentos, e suas regras morais que a identificam.

A diversidade de culturas é o que torna cada povo fascinante, nenhuma cultura é igual a outra, mas se a idéia de que cada país, raça ou credo tem a sua cultura fosse amplamente aceita, e que respeitar essas diferenças é mais do que saudável, o mundo seria um lugar muito melhor, com certeza!

Bibliografia:

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2. Edição. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

DOCUMENTÁRIO. O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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 05 jun 2010 @ 11:37 AM 

Universidade Federal de Pernambuco

Curso: Turismo 2010.1

Alunos: Renato Santiago e Rebeca Santos

Profº Biu Vicente

História da Cultura

 

            A definição de Cultura Popular é, de fato, bastante complicada. É arriscado criarmos um conceito de cultura, pois ele se modifica de tempos em tempos. Segundo Burke, cultura popular seria um conjunto de práticas culturais influenciadas pelas camadas mais pobres da sociedade. O livro aborda que a cultura tendia a referir-se à arte, literatura e música. Hoje, contudo seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros cientistas sociais usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser apreendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. Peter Burke apresenta toda a complexidade do termo “cultura popular”. Primeiramente, é apresentado como sendo a cultura das classes marginalizadas, subalternas, valorizando os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna, partindo de um mundo diferente do de hoje, retirando os costumes contemporâneos.

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

No início dos tempos modernos, segundo o texto, existia uma cultura popular comum tanto na maioria da população quanto na pequena parcela privilegiada. Até a primeira metade do século XVII, havia participação das elites nas festas de rua, juntamente com as pessoas menos favorecidas, isso significou que, ao longo dos anos,  a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica fez com que os costumes se transformassem e fosse criada uma imensa distância entre as classes.

No século XIX, os intelectuais por meio do conhecimento e estudo do folclore, redescobrem a cultura popular. Segundo Burke, como a causa das transformações ocorridas na cultura popular foi o fato de as reformas religiosas empreenderem um esforço de reformulação da religiosidade popular na Europa com o objetivo de adaptar seus caprichos e aparências, ainda no século XVI. O real significado do conceito de cultura está relacionado entre a classe da elite e não-elite.

Apesar de o autor deixar vago que as duas culturas não permaneceriam estanques, mas em interação, o texto é desenvolvido baseado na análise da sociedade, decomposta em classes, podendo assim se chegar a um entendimento sobre quem é o povo detentor da cultura popular. Tal compreensão nos confunde, o autor compreende a cultura como um produto que é refletido através da hierarquia social, mas em outra ocasião fala que as culturas são únicas e não estão sujeitas a comparações.

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

A “descoberta do povo” foi quando os setores cultos da sociedade passaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos e músicas. Havia uma série de razões estéticas e intelectuais para isso ocorrer.  Há algumas coleções de canções populares que produziram sentimentos nacionalistas, como uma intitulada de Wunderhorn, publicada simultaneamente com a invasão napoleônica na Alemanha. Tal publicação teve o real objetivo de estimular a consciência nacional alemã, e segundo um líder prussiano, foi um auxílio na luta contra os invasores. Sendo assim podemos concluir que a cultura popular pode ser um elemento para unir a nação, no sentido de oferecer a esta uma memória a ser compartilhada.

Entender o sentido do que hoje somos é muito mais do que um desafio, constituí num longo e detalhado processo de trabalho. A reflexão sobre a nossa formação nos leva às nossas origens, à história que como brasileiros, fomos construindo. A realidade na qual nos encontramos traz reflexões e pontos de vista provenientes de outros contextos.

No que tange esse desafio de nos tornar “explicáveis”, Darcy Ribeiro indica um conjunto teórico a partir do nosso contexto histórico, ele reúne um conjunto de pesquisas que culminam em uma Teoria do Brasil até então inédita. Implicitamente à descrição desta teoria, está sua preocupação em entender por quais caminhos passamos e que nos levaram a diferenças sociais tão profundas no processo de formação nacional.

Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia, será? Essa unidade não significa, porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes, tolerância, convivência, civilidade, etc. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, um mesmo idioma só diferenciado por sotaques e gírias regionais. Mais do que uma junção de etnias formando uma etnia única, a brasileira, o Brasil é um povo nação, ajustado em um território próprio para nele viver seu destino.

Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Ao longo da costa brasileira se encontraram duas visões de mundo completamente opostas: a “selvageria” e a “civilização”. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram.

Ciranda

Ciranda

No primeiro capítulo, ele, Darcy Ribeiro, apresenta as diferenças entre as matrizes étnicas tupi e lusa; as suas opostas visões do mundo, da vida, da morte, do amor; o processo civilizatório, de colonização distinta da América anglo-saxônica, que estabelece aqui um império mercantil salvacionista; a “atualização histórica”, que forçou os índios a incorporarem-se a uma sociedade mais avançada.

 

Referências Bibliográficas

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro

BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. Ed. Ver. e atual. São Paulo: FTD, 2000.

http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/537837

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Aluna: Chamillys Teixeira dos Santos

 

 

ACERCA DO LIVRO CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA E DO FILME POVO BRASILEIRO

 

 

Acerca do livro Cultura Popular na idade moderna e do filme Povo Brasileiro foi possível fazer uma análise mais aprofundada do quem vem a ser a cultura, principalmente no Brasil.

Hoje se usa o termo cultura para referir-se basicamente a tudo que se aprende vivendo em sociedade, coisa simples como: comer, andar, falar entre outras. Cultura tornou-se algo que temos por cotidiano. Desde os povos mais antigos a cultura esteve presente e hoje em dia não seria diferente, a cultura indígena possui peculiaridade que a maioria dos povos desconhece, a cultura sertaneja é muito mais do que a seca que ouvimos falar constantemente, é incrível como nós que habitamos o mesmo país tenhamos tantas peculiaridades em cada pedaço geográfico que habitamos, cabe a nós respeitar e conservar cada uma delas.

Sobre a cultura popular seria interessante destacar o termo em si: Cultura Popular, que muitos interpretam a sua maneira que pode não a mais sensata, uns acreditam ser a cultura das classes populares, ou seja, as classes menos favorecidas o que não necessariamente seria uma verdade porque mesmo em classes populares se tem culturas diferentes, modos de pensar distintos, não se pode generalizar uma cultura única pelo meio em comum que as pessoas têm de viver. Uma outra parte pode interpretar esse termo com uma homogeneidade de cultura que não há em lugar algum do mundo, não seria diferente no Brasil.

Algumas faces do Brasil

Algumas faces do Brasil

Afirmar que um país como o nosso tem uma cultura singular é incorreto pelo fato  de termos até mesmo num mesmo bairro pessoas que vivem de formas distintas, num pais imenso geograficamente como o Brasil não seria humanamente possível se ter mesmas culturas em cada região; por isso que o nosso país possui singularidades que nenhum outro lugar tem, temos aqui culturas únicas,belas e impressionantes que devem ser valorizadas em todos os tempos.

Desde as mais antigas análises de culturas o Brasil sempre esteve como um pais multicultural, de culturas impares e belas o que sempre atraiu e muito olhares para o nosso precioso pais. Brasileiro tem que respeitar a cultura de outro brasileiro para que possamos fortalecê-las e não acabar com elas, como foi o caso de algumas tribos indígenas, que foram extintas e assim também sua cultura passou a ser apenas algo a ser lembrado e não observado de perto. Valorizar o que temos é a forma mais sensata que temos de mostrar o amor as nossas raízes.

 

 

Referências Bibliográficas:

BURQUE, Peter. Cultura popular na idade moderna. SP: Companhia das letras, 1995.

Documentário O povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 11 22 AM

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Universidade federal de Pernambuco

Centro de artes e comunicação

Curso de bacharelado em turismo

Prof. Severino Vicente da Silva

Historia da cultura

Aluno. Manoel Welington da Silva 

Data: 19/05/2010

 

Cultura popular na idade moderna Europa, 1500-1800

 

 

   A conhecida  e famosa cultura popular que conhecemos hoje, já foi algo de muita discussão entre  historiadores na idade moderna, principalmente entre os anos de 1500, o ano que o Brasil foi encontrado pelos portugueses, pois já havia habitantes no país – os índios -, a 1800, período em que estava ocorrendo o inicio da revolução industrial.

   A cultura popular começou a ser estudada entre o final do século XV e final do século XVIII, pois os historiadores da época perceberam que ela estava desaparecendo, pois as elites que comandavam naquele tempo tentavam “ reformar ” a cultura popular. No século XVI, Christian falou que o tipo de prática religiosa que está tanto na família real quanto na dos camponeses analfabetos tinham significados apenas para os habitantes locais e com isso não poderia ser considerada “popular”e sim “local”.

Ciranda, dança local e Roda universal

Ciranda, dança local e Roda universal

   O problema básico é  que uma “cultura” é um sistema muito indefinido, segundo Roger Charter; sobre “hábitos culturais populares”, ele argumenta que “não faz sentido tentar identificar cultura popular por alguma distribuição supostamente especifica de objetos culturais”, tais como ex-votos ou a literatura de cordel; esses objetos eram práticos, usados ou “apropriados” para suas próprias finalidades por diferentes grupos sociais, nobres e clérigos assim como artesãos e camponeses. Tudo isso que foi abordado até agora, vale relacionar a cultura popular que ocorreu, ou começou a ser estudado na Europa daquele período, com a cultura popular indígena que os portugueses encontraram. Aqui no Brasil existia também uma cultura que era comum a todos, como a construção de armar de caça e pesca, a produção de ocas se encaixaria muito bem na arquitetura. Darcy Ribeiro, no vídeo “o povo brasileiro”, e no livro que carrega o mesmo nome, nos mostra como os indígenas viviam antes da chegada dos portugueses. Esses queriam, além de explorar as terras indígenas, desejavam inserir uma nova cultura na terra que encontraram.

Deusa das águas, na religião Tupi - Iara

Deusa das águas, na religião Tupi - Iara

   Quando os europeus chegaram no Brasil eles começaram a implantar um novo jeito de pensar e viver, e transformam o modo de vida dos índios. Assim começa a ser injetada uma nova cultura no Brasil, a cultura da idade moderna, uma cultura que não dava valor ao que os antigos habitantes, que no caso eram os índios, tinham construído.

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 11 10 AM

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Universidade Federal de Pernambuco

Departamento de Hotelaria e Turismo

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

Aluna: Maria Raíza Vicente

 

            Resumo: Cultura Popular na Idade Média / Aulas / O Povo Brasileiro – Matriz Indígena

           

            A definição de cultura é ainda muito imprecisa, mas de um modo geral, pode ser entendida como as ações e noções da vida cotidiana, é tudo aquilo que o ser humano faz, aprende, inventa e transmite socialmente. Segundo Peter Burke, é “um sistema de significados, atitudes e valores compartilhados, e as formas simbólicas nas quais eles se apresentam ou se incorporam”. A cultura não é estática, é uma construção social que muda de sociedade pra sociedade e de tempos em tempos.

            O homem e a mulher são seres incompletos que produzem cultura a partir das necessidades e possuem funções biológicas, como o aparelho fonador, o polegar oponível, uma visão estereoscópica, um cérebro desenvolvido e uma capacidade de abstração, que possibilitam e facilitam essa produção cultural.

O corpo visto Leonardo Da Vinci

O corpo visto Leonardo Da Vinci

            É importante saber distinguir o que é cultural do que é natural. Atividades como comer, dormir e urinar são naturais, mas a partir do momento em que eu e um conjunto as realizamos de modo particular, como comer com talheres ou seguindo regras de etiquetas, dormir de lado ou de bruços, urinar em pé ou sentado, então passamos a ter cultura.

            Numa época em que a “cultura” consumida era a francesa e o belo era o que vinha da França, começou na Alemanha um resgate da cultura tradicional local, que estava intimamente ligado a um sentimento nacionalista de valorização do regional. As poesias, contos e canções populares, outrora assimilados com a grosseria e a vulgaridade, passaram a ser admirados pelas classes medias e nobres pela simplicidade natural que possuíam, longe do rebuscamento existente na grande cultura da época.

            Estudiosos como os irmãos Grimm, passaram a pesquisar e registrar por escrito as tradições orais, evitando que se perdessem ao logo do tempo. A partir daí, podemos fazer um paralelo sobre os trabalhos dos irmãos Grimm e o de Darcy Ribeiro, todos procuram registrar as produções culturais de um povo, valorizando-os e evitando que se percam ao decorrer do tempo.

            O Brasil já existia antes da chegada dos portugueses, havia uma população indígena com hábitos e costumes próprios e diferentes dos europeus. Assim como na Alemanha o Belo era o que vinha da França, após a chegada dos portugueses no Brasil o Belo era o que vinha da Europa, sobretudo de Portugal. O trabalho de Darcy Ribeiro resgata essa produção cultural dos índios.

            Apesar de provirmos de diferentes matrizes somos um povo único. Herdamos hábitos e costumes das matrizes indígenas, africanas, européias e asiáticas. Essas tradições foram transmitidas socialmente, e transformadas com o passar dos tempos.

Índios brasileiros

Índios brasileiros

            Os índios são auto-suficientes, aprendem a fazer tudo o que vão precisar ao longo da sua vida como construir suas Malocas (casas) e a fabricar seus instrumentos. A história de seu povo e o que deveriam aprender para serem independentes era passada oralmente dos mais velhos para os mais jovens.

            A atividade mais honrada para os Tupinambás era a guerra e praticavam o canibalismo com seus prisioneiros. Havia um forte sentimento do bem comum. Eles possuíam sua casa, mas a terra não era de ninguém, era de todos e compartilhada por todos. O chefe não dá ordens a ninguém, cada um sabe sua função na tribo e não é obrigado a realizá-la. Conviviam pacificamente com a natureza e festejavam nascimentos, colheitas, chuvas, etc. Não havia diferença clara entre o que era trabalho e o que era arte.

            Embora não possuamos todos os hábitos dos índios, alguns costumes como o de tomar banho todos os dias, passou de geração em geração e persiste até hoje. A diferença está em como esse “tomar banho” adequou-se a nossa realidade urbana. Os índios banhavam-se em rios, nós tomamos banho em banheiros com chuveiros ou banheiras. Eis uma das adaptações e transformações que uma cultura pode obter ao longo dos anos.

 

            Bibliografia

            BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Média. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

            DOCUMENTÁRIO O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 11 02 AM

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 05 jun 2010 @ 10:48 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE HOTELARIA E  TURISMO

BACHARELADO EM TURISMO

PRIMEIRO PERÍODO

 

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

 

 

 

 

Alunas:

Rafaella Fonseca de Albuquerque

                                                        Maria Cecília Novaes Ferraz

 

 

 

 

 

No livro “Cultura Popular na Idade Moderna” de Peter Burke, é mostrada toda a concepção do que chamamos de  “cultura popular”, o que ele define a partir de Gramsci, primeiramente como sendo aquela não oficial, a da “não-elite”, a das classes menos favorecidas. Burke fala da necessidade de ver os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna a partir de um mundo totalmente livre de conceitos e valores contemporâneos. Ele expõe sua idéia de que a cultura popular no início dos tempos modernos não era diferente à minoria culta da Europa Ocidental. A maioria da população e sua pequena parcela erudita compartilhavam de uma cultura popular comum. Essa visão de compartilhamento da cultura também é vista do filme “O Povo Brasileiro” baseado na obra de Darcy Ribeiro, que mostra que os índios não fazem monopólio de bens e de conhecimento, ao contrário do que se percebe na elite européia. Percebe-se que até a metade do século XVII as elites iam às festas de rua junto com os grupos menos favorecidos. Isto mostra que ao longo dos tempos modernos a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica e a ilustração fizeram com que a cultura erudita fosse se modificando, ao ponto que entre pequenas e grandes tradições foi estabelecida uma grande distancia.

P. Burke.

P. Burke.

A tradicional cultura popular foi vista pela minoria letrada como algo muito diferente, a ponto de ser extraordinário, sendo assim tornou-se interessante. A partir do século XIX essa cultura tradicional começa a ser chamada de folclore.  Como  conseqüência destas transformações, Burke fala que a reforma Tridentina, assim como as reformas protestantes no geral exerceram um esforço de reorganização da religiosidade popular na Europa a partir do século XVI, tendo como objetivo diminuir suas extravagâncias carnavalescas e exterioridades.

Quanto a isso Burke explica que o significado deste conceito está em função da hierarquização da sociedade em classes, entre a classe da elite e a classe da não-elite. Assim, a cultura popular se mostrava como uma cultura não oficial, como a cultura da não-elite, das classes subordinadas; do outro lado, a cultura oficial pertenceria à elite. Logo, para o autor esta definição traria a necessidade de analisar melhor a sociedade, dividindo-a em classes para entender quem é o “povo comum” possuidor da cultura popular. Apesar de demonstrar que é indeterminada a fronteira entre o que se chama de cultura de elite e de cultura popular, e que as duas culturas permaneceriam em interação, Burke deixa subentendido que enxerga a cultura fundamentalmente separada em blocos: o bloco da cultura da elite e o bloco da cultura do povo. Dessa maneira, o autor entende a cultura como produto de uma situação de classe, de forma que a divisão da cultura entre elite e povo seria um espelho da hierarquia social. Indo de encontro com o que ele mesmo denominou de “concepção aristocrática de cultura”.

Curupira

Curupira

Essa visão sobre a cultura popular, segundo Burke, foi aceita rapidamente  e os setores cultos da sociedade começaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos populares e música popular. Esse movimento foi denominado pelo historiador inglês como “a descoberta do povo” e ele via uma série de fatores para que isso estivesse acontecendo naquele momento. Eram eles: razões estéticas, que mostravam uma insubordinação contra o artificial na arte culta e assim a valorização das formas simples; razões intelectuais, que se relacionavam com uma postura hostil para com o iluminismo, enquanto pensamento valorizador da razão em detrimento do sentimento e das emoções. Existia também com relação ao aspecto intelectual um certo desprezo com as regras clássicas da dramaturgia, herdadas do pensamento aristotélico.

O povo brasileiro

O povo brasileiro

No filme “O Povo Brasileiro” é mostrada a idéia de que “somos símbolos da utopia”, ou seja, de algo idealizado, que no imaginário dos europeus seria o paraíso, sem doenças, cobranças e guerras. A cultura popular pôde servir de elemento básico para a formação de uma unidade nacional, dando a esta uma memória a ser compartilhada e símbolos capazes de produzir um eficiente nível de coerência social. Por outro ela também pôde ser um impedimento, no sentido de que a constituição do estado – o povo se formou sem dar importância às unidades culturais já existentes tentando impor sua cultura, homogeneizando-as, modificando-as em parte dessa nova estrutura nacional. Nesse sentido podemos perceber que a cultura popular serviu, contraditoriamente, como resistência cultural ao processo de unificação nacional.

 

Bibliografia

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

 Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro.

             

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02 de dezembro de 1870



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