O IDEÁRIO PEDAGÓGICO DO BISPO AZEREDO COUTINHO NO MUNDO LUSO-BRASILEIRO NO INÍCIO DO SÉCULO XIX

Luis Felipe de Lima Durval[1]

Resumo: Este trabalho se propõe a analisar o ideário educacional do bispo brasileiro Azeredo Coutinho (1742-1821), atenuado para o seu trabalho educacional na Diocese de Olinda através da fundação do Seminário Episcopal Nossa Senhora da Graça em 1800. Organizamos a redação do texto em três partes, a primeira, trataremos sobre a biografia do sujeito que ora estudamos e algumas de suas ideias principais, a segunda parte, discutiremos o mundo em que viveu Azeredo Coutinho, trataremos sobre o iluminismo luso-brasileiro e as reformas pombalinas no Brasil, por fim, na terceira parte, iremos expor as motivações para a criação do Seminário de Olinda e a aspiração pedagógica do bispo ilustrado. Algumas considerações que extraímos deste estudo é que a proposta educacional do bispo Coutinho, embora renovadora para o Brasil, foi mantedora de um status quo na relação Portugal-Brasil.

Palavras chave: Azeredo Coutinho. Seminário de Olinda. História da Educação

Azeredo Coutinho: senhor de engenho, economista e bispo

José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (1742-1821) foi um brasileiro de família abastada do Rio de Janeiro, advindo de uma classe senhorial canavieira de São Salvador dos Goitacás. Na cidade do Rio de Janeiro, fez seus estudos fundamentais de Gramática e Retórica e seus primeiros estudos de Filosofia e Teologia no Convento dos Carmelitas Calçados. Com a morte do pai em 1789, aos 25 anos de idade, Azeredo assumiu a administração das posses da família conforme o costume da primogenitura. Após seis anos à frente dos negócios da família, ele abdicou do seu direito e foi para Universidade de Coimbra, a convite do seu tio, o reitor D. Francisco de Lemos. Em Coimbra, Coutinho estudou Letras e Filosofia, e licenciou-se em Direito Canônico, onde tornou-se sacerdote e, mais tarde, foi sagrado bispo.

O bispo Coutinho foi um personagem controvertido pela historiografia[2], embora sendo adepto do liberalismo econômico, foi um ferrenho defensor da escravização negra, do absolutismo despótico e contrário a independência do Brasil, o que o distanciava dos liberais brasileiros do século XIX. As principais obras do fundador do Seminário de Olinda não foram escritas no campo da religião, tampouco em educação, mas área da economia[3], o que demostram que embora Azeredo tenha deixado o mundo aristocrático, a visão de sua primeira formação, “senhor de engenho”, ainda permanecia com ele. O historiador Sérgio Buarque de Holanda biografando Azeredo Coutinho assinala: “Deus acha-se estranhamente ausente da obra dêsse eclesiástico, salvo talvez onde pareça ajudar a justificar os apetites de alguns poderosos da terra.”[4]

Compreendendo o mundo a partir da casa grande, o bispo Coutinho defendeu ferrenhamente a escravidão, embora considerasse necessária a existência do trabalho livre nas condições típicas europeias. Em sua percepção, o trabalho livre no Brasil seria impensável, a liberdade estaria ligada ao controle do Estado sobre a propriedade, para ele, uma nação com muitas terras devolutas habilitaria o negro escravizado adentrar no interior das terras desconhecidas e recriar uma nova estrutura social, assim ele admite a necessidade da escravização no Brasil, na África e na Ásia, para garantir uma “melhor condição” para o escravizado junto ao senhor e garantir a ordem na sociedade.

“(…) entre as nações em que há muitas terras devolutas e poucos habitantes relativamente, onde cada um pode ser proprietário de terras, se acha estabelecida, como justa, a escravidão. Tais são as nações da África, da Ásia e da América: e entre as nações em que há poucas ou nenhumas terras devolutas e sem proprietários particulares, se acha estabelecida a liberdade, assim como na maior parte das nações da Europa; mas esta chamada liberdade não é devida às luzes ou ao maior grau de civilização das nações: é, sim, devida ao maior ou menor número de habitantes relativamente a o terreno que ocupa esta nação.” (COUTINHO, J. J.: 1798, p. 225, in: ALVES: 2001, pág. 84)

As convicções políticas de Azeredo Coutinho, são compreensíveis à medida em que identificamos que o prelado de Pernambuco era um funcionário da Cora e príncipe da Igreja. Sua preocupação em seus escritos e empreendimentos centra-se no pleno desenvolvimento da metrópole portuguesa, a partir da exploração de suas colônias. Vassalo real e fiel ao papa, as convicções políticas do bispo Coutinho não agradaram aos liberais brasileiros de seu tempo, além de defensor da escravização negra, era contrário a independência do Brasil em relação a Portugal, o que lhe conferiu a categoria de pensador colonialista pela historiografia do século XX.

“José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho tem, a sujeita-lo, dois laços de subordinação: é um vassalo fiel – esta é a subordinação civil; é um príncipe da Igreja – e esta é a subordinação religiosa. Condicionam e molduram esses laços de subordinação todos os vínculos derivados de sua condição de classe: é o morgado de Mirapicu, grande senhor de terras e escravos, que abandou tudo para servir a Deus. [...] Está vinculado à metrópole, mas não esquece de sua terra, dentro dos moldes que lhe permitem seus sentimentos de saudade, afeição e apego, que também o condicionam.”

(SODRÉ: 1984, pág. 20-21)

Diferentemente do ponto vista político, Azeredo Coutinho, influenciado pelas ideias de Adam Smith, assumiu uma postura liberal na economia. Para Nelson Werneck Sodré (1984), seu pensamento econômico esteve integrado à Revolução Industrial e nas suas exigências mais prementes da época, o devassamento e a abertura das áreas enclausuradas. Ele combateu políticas monopolistas no Brasil[5] e alertou ao Reino Português sobre o comércio do açúcar que pudera crescer no mercado internacional com a desorganização da produção açucareira nas Antilhas.

Em seus trabalhos, apontou caminhos para “salvação” de Portugal, que naquele momento encontrava-se atrasado em comparação aos demais estados europeus, sobretudo a Inglaterra e França. Sobre o ponto de vista econômico, os lusos ainda se recuperavam dos desastres do Terremoto de Lisboa de 1755[6]. É pois, com este tom salvacionista que chega o iluminismo em Portugal, aliado ao absolutismo despótico, os intelectuais adeptos as ideias ilustradas detiveram-se a reparar o atraso do mundo luso em relação a outras nações europeias.

O iluminismo no mundo luso-brasileiro

O século XVIII em Portugal foi marcado pela penetração de novas ideias que circulavam na Europa através do movimento iluminista, tais ideias chegaram ao mundo luso através de intelectuais portugueses que fizeram escola nos principais centros da efervescência das Luzes da época, sobretudo na Inglaterra, Itália e França. Estes intelectuais burgueses, os “estrangeirados” como eram chamados, defendiam o desenvolvimento cultural do Império Português, através da difusão das ideias de base empirista e utilitarista, combateram principalmente o monopólio dos jesuítas na educação, considerado atrasado no modo de fazer ciência. Dom Luís da Cunha, Luís Antônio Verney, Alexandre de Gusmão e Sebastião José de Carvalho e Melo, foram alguns destes estrangeirados decisivos para uma nova prática política, educacional e administrativa em Português e suas colônias através do despotismo esclarecido[7].

“O pensamento do século XVIII foi marcado em Portugal pelo olhar estrangeiro. Muitos intelectuais lusitanos escreveram sobre a renovação da cultura portuguesa enquanto viviam no exterior. Eram homens ilustrados, com plena consciência do descompasso do país em relação à Europa. [...] O movimento e a circulação dessas novas ideias produziram maneiras diferentes de se olhar o tema da nação direcionadas para aquilo necessitava ser modernizado, para que se pudesse corrigir os malefícios que a cultura escolástica havia causado à pátria, fechando-se para o progresso da técnica.”

(FÉRRER: 1999, pág. 79-80)

Esta nova prática baseada na renovação ganhou força com a chegada de Dom José I (1718–1777) ao trono, seguida da nomeação de um destes intelectuais estrangeirados, Sebastião José de Oliveira de Carvalho e Melo, que fora para Corte da Inglaterra como diplomata português e, logo em seguida, enviado para uma missão diplomática no reduto da imperatriz Maria Teresa, na Áustria, de onde Carvalho pode compreender o movimento de afastamento da Igreja perante o Estado. Em 1756, assumiu o cargo de secretário de Estado dos Negócios do Reino, o posto mais alto do governo, tornando-se ministro plenipotenciário, em 1759 recebe o título de Conde de Oeiras e em 1769 torna-se o Marquês de Pombal, título que deu nome as suas reformas empreendidas no Reino Português, as reformas pombalinas.

A começar pela Universidade de Coimbra o processo de reforma educacional dos estudos maiores (chamado superior atualmente), deu-se com a criação da “Junta da Providência Literária” em 1770, a primeira providência deste organismo foi a redação de novos estatutos para Universidade. A base desta reforma foram as propostas dos pensadores estrangeirados Luís António Verney no Verdadeiro método de estudar (1746) e de Antonio Nunes Ribeiro Sanches nas Cartas sobre a educação da mocidade (1759) e no Método para aprender a estudar medicina (1763). O cerne do novo paradigma de ensino instituído com as ideias iluministas foi a superação do método jesuítico baseado no Ratio Studiorum[8]. Os estatutos foram criados como forma norteadora para o mundo intelectual em Coimbra, servindo também de molde para estatutos de outras instituições educacionais, tais como o próprio Seminário de Olinda.

“Partindo de uma crítica incisiva ao espírito escolástico predominante no período em que a universidade esteve sob controle jesuítico; desenvolvendo uma longa, minuciosa e contundente análise crítica da ética de Aristóteles, os reformadores decidiram-se a transformar radicalmente a tradicional universidade portuguesa.” (SAVIANI: 2013, pág. 93)

Todo este esforço esteve a serviço das proposições políticas do governo de Dom José I, a reforma educacional da época pombalina visou a formação de um novo corpo de funcionários ilustrados para burocracia estatal e à hierarquia da Igreja. A este respeito, as reformas não punham em questão o fim da formação religiosa, mas a preocupação central foi o reajustamento educacional às novas condições políticas e sociais. A visão regalista imprimia a subordinação dos assuntos da religião ao poder real e não a negação da religião, como pensou alguns iluministas franceses à época. O catolicismo regalista na dinâmica do despotismo esclarecido, serviu como aparelho para assegurar ao monarca as condições de realização da modernização econômica do reino, para isto foi criada a Real Mesa Censória, órgão de censura literária, e foi secularizada a Inquisição, para punir os subversivos, inimigos do Estado.

Diferentemente de Portugal onde as reformas educacionais foram empreendidas nas universidades, estas reformas empreendidas pelo Marquês de Pombal no Brasil iniciaram um período na História da Educação Brasileira denominado por José Antônio Tobias (1986) de “aristocratização do ensino”, segundo o autor, as reformas consistiram na expulsão dos jesuítas sem estabelecer um novo planejamento para substituí-los. Neste período, o ensino tornou-se inferior e mal remunerado, institucionalizou-se a instrução pública, obrigando o ensino em língua portuguesa nos colégios. Em contrapartida, a aprovação do Alvará Régio de 1759, além de ter extinta a presença dos jesuítas no ensino, viabilizou ao mesmo tempo a realização de concursos na Bahia para as cadeiras de latim e retórica, nomeou também os primeiros professores régios em Pernambuco, inauguração assim a fase da educação iluminista no Brasil. Consideramos como principal centro difusor destas ideias o Seminário de Olinda, uma instituição típica do período pombalino.

O Seminário de Olinda e a proposta educacional do bispo Coutinho

O Padroado Régio, aliança entre a Sé Romana e os Reinos Ibéricos, conferiu aos monarcas o poder de arrecadação do dízimo em suas colônias, bem como a responsabilidade pela construção de igrejas e sua manutenção, a nomeação de padres por meio de concursos e de bispos, tendo vigorado no Brasil na Colônia até o período Imperial. Os bispos neste acordo não possuíam autonomia para fundação de Paróquia, em resumo, o corpo eclesiástico da Igreja Católica não agia sem a permissão da Coroa, esta dependência afetou diretamente o processo de formação de sacerdotes na América. O recrutamento e a formação de clérigos esteve de maneira desorganizada, o que em muitos casos tornou a figura do padre muito mais ligada a um homem público, atuante na vida social e na administração de suas posses, do que propriamente ligado a compromissos de fé, tais como a disciplina celibatária por exemplo.

Em contrapartida, desde o século XVI, a Igreja no Concílio de Trento[9] (1545-1563) tratou de deliberar, dentre outras coisas, a disciplina do clero, a fixação dos bispos em suas dioceses e a criação de centros de formação para padres, os seminários. Na História da Igreja no Brasil percebemos que as determinações tridentinas começaram a serem implementadas tardiamente. Cumprindo parte da cartilha de Trento, no Alvará datado em 22 de março de 1796, D. Maria I (1734–1816) doou o Colégio dos Jesuítas e a Igreja Nossa Senhora da Graça com todos os seus pertences a Diocese de Olinda, para criação de um estabelecimento de ensino para formar jovens, visando à educação moral e religiosa, modificando assim a mentalidade sobre o sacerdócio na colônia.

Neste contexto, insere-se a fundação do Seminário Episcopal Nossa Senhora da Grasa[10], uma instituição de educação católica voltada para formação de padres e leigos, que fora fundada no ano de 1800, nas instalações do antigo Colégio dos Jesuítas e da Capela Nossa Senhora da Graça em Olinda pelo bispo D. Azeredo Coutinho. Como vimos, a formação educacional de Coutinho deu-se na reformada Universidade de Coimbra, no período pós-jesuítico, ou seja, uma formação baseada no iluminismo, que em Portugal caracterizou-se de modo singular pelo fortalecimento do poder real e pelo reformismo administrativo, protagonizado pelo Marquês de Pombal.

“O Iluminismo português encarnou um desejo incontido de modernização do reino, pobre e atrasado ainda na segunda metade do século XVIII, cuja justificativa apelava sempre para o estágio das nações europeias mais ricas e evoluídas.”

(ALVES: 2001, pág. 112)

Nos Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda (1798), uma das únicas obras voltadas propriamente para educação do bispo ilustrado, podemos identificar a finalidade educacional no pensamento de Azeredo Coutinho. Logo no preâmbulo, o bispo redige a função social daquele estabelecimento de ensino: “fazer Ministros dignos de servirem a Igreja e ao Estado[11], ou seja, a modernização do ensino esteve a serviço da formação de vassalos fiéis ao rei e ao papa. Azeredo Coutinho, exemplifica esta visão iluminista despótica presente no mundo pombalino e advogando nesta mesma direção à modernização do Reino, elaborou um projeto com uma solução a longo prazo para a superação dos problemas estruturais e inserção de Portugal na modernidade.

“Já aquelas outras obras de sua autoria [Azeredo Coutinho], de natureza mais pedagógica, como os dois ‘Estatutos’ [Seminário de Olinda e Recolhimento Nossa Senhora da Glória], são vistas como solução a longo prazo, se não da crise do sistema colonial, pelo menos das carências estruturais e históricas para a educação na colônia, tal como escolas, em maior número e qualidade, onde se forjariam os vassalos úteis e leais, segundo o espírito do tempo e as necessidades do sistema.” (SIQUIERA: 2012, pág. 157)

Para o pesquisador Gilberto Luiz Alves (2001), seu projeto pedagógico, materializado com a criação do Seminário de Olinda em 1800, possuiu um caráter eminentemente econômico. Para o autor, Azeredo Coutinho tinha clareza que a possibilidade de aumento de riqueza do reino já não seria viabilizada pelas navegações, nem tampouco pelo comércio marítimo, como foi nos séculos XV e XVI. Adviria pois pelo emprego de novos recursos, que eram para ele: o desenvolvimento da agricultura, a expansão das manufaturas e o pleno conhecimento das riquezas naturais do reino, visando sua futura exploração econômica.

A este serviço, Coutinho elaborou uma resposta educacional, seu ideário pedagógico pautava-se na formação de filósofos naturalistas, que estivessem dispostos a se interiorizarem nos sertões afim de que os recursos brasileiros (mineral, da fauna e flora) fossem explorados. Naquele momento, início do século XIX, ainda havia um profundo desconhecimento das riquezas naturais do Brasil, era necessário a realização de um imenso inventário para a devida exploração material do reino. Os filósofos naturalistas, cientistas da época, eram homens de gabinete e não almejavam fixarem-se nos sertões, para Coutinho quem estava habilitado a fazê-lo era justamente o sacerdote, por ser seu dever de ofício, estar no meio povo.

“O bispo de Olinda anteviu uma solução: se o indagador da natureza, por profissão, não deseja internar-se permanentemente nas brenhas, o homem que podia fazê-lo, até mesmo por dever de ofício, era o cura.” (ALVES: 2015, pág. 68)

O cerne desta formação ofertada no seminário esteve relacionado a um redirecionamento dos estudos clássicos humanísticos e entronização das ciências modernas (cientificas-humanistas) dentro dos quadros dos estudos filosóficos. Segundo Gilberto Luiz Alves (2001), esta formação fomentou uma visão de mundo burguesa, ou seja, preocupada com o domínio material, influenciada pela orientação pragmática das Luzes. Esta visão significou um distanciamento da proposta educacional dos antigos colégios jesuíticos, embora guardassem o mesmo formato, a preparação de jovens para hierarquia da Igreja e para conclusão dos estudos superiores na metrópole, a proposta educacional do fundador do Seminário de Olinda demarcou novas posições para elite eclesiástica nas relações do mundo luso-brasileiro.

O investimento de Azeredo Coutinho na formação de sacerdotes através da “Teologia da Ilustração”[12] criou uma sólida estrutura de ensino para formação de futuros padres e leigos, para o bispo beneficiariam a Igreja a o Estado, contraditoriamente, o que vimos é que professores e estudantes do Seminário fornecerem as bases intelectuais para as Revoluções Republicanas em Pernambuco, o currículo prescrito com as ideias iluministas acabaram influenciando movimentos de rompimento da ordem vigente, como as revoluções liberais de 1817 e 1824.

Azeredo Coutinho permaneceu na província de Pernambuco até 1802, quando ele retornou para Portugal para assumir o bispado de Bragança e Miranda. O bispo desempenhou papéis importantes na administração, esteve à frente da Diocese de Olinda, da Diretoria de Estudos, da Presidência da Junta da Fazenda, além de ter sido governador interino da Capitania de Pernambuco até 1802, último inquisidor-geral do Reino Português e eleito deputado as cortes constituintes no Rio de Janeiro, mas não chegou a assumir devido a seu falecimento. O Seminário de Olinda permaneceu funcionando com os estatutos elaborados pelo bispo Coutinho até sua desarticulação, após a proclamação da independência de 1817, seguido do seu fechamento, somente em 1836 o seminário foi reaberto, desta vez somente para a formação religiosa com novos estatutos.

Considerações finais

A compreensão da educação no início do século XIX nos permite identificar o processo embrionário de laicização iniciado pelo Estado, a partir das instituições religiosas. Através do ideário educacional do bispo Azeredo Coutinho notamos que as mudanças educacionais promovidas no período pombalino, possuíram um caráter reformista e não revolucionário, ou seja, estiveram a serviço da manutenção de um status quo da relação do Brasil com Estado Português, paradoxalmente sabemos que a difusão do pensamento burguês-iluminista no Seminário de Olinda, fomentou um terreno fértil para as bases intelectuais dos movimentos republicanos independentistas, contrário ao pensamento e proposta educacional do seu fundador. Deste modo, não podemos relativizar a importância de D. Azeredo Coutinho e do Seminário de Olinda na História da Educação no Brasil, que na historiografia da educação sua presença é ainda, muitas vezes, passada por despercebida, a história da educação atual passa pelo Seminário, pelo esforço modernizador de superação da “educação cristã” (Tobias; 1986), por um ensino cientifico-humanístico baseado nas ideias ilustradas.

Referências bibliográficas

ALVES, Gilberto Luiz. O pensamento burguês no Seminário de Olinda. 2 ed. Campinas, SP: Autores Associados / Editora UFMS, 2001

______. O Seminário de Olinda. In: FARIA FILHO, Luciano Mendes de; LOPES, Eliane Marta Teixeira; VEIGA, Cynthia Greive (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. 5 ed. 1 reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.

BRAZ, Fabiana Schondorfer; CONTI, Paulo Fillipy de Souza. “D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho: Um Bispo ilustrado em Pernambuco. Revista Tempo Histórico. Vol.5 – Nº 1. (2013) ISSN: 2178-1850

COUTINHO, J. J. da Cunha de Azeredo. Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda de Parnambuco: ordenados por D. Jozé Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho XII Bispo de Parnambuco do Conselho de S. Magestade Fidelissima fundador do mesmo seminário. Lisboa: Typografia da Acad. R. de Siencias, 1798.

FÉRRER, Francisco Adegildo. “O Marquês de Pombal e a instrução pública em Portugal e no Brasil (século XVIII)”. CLIO Revista do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco. n. 18. Recife, UFPE, 1999.

SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. 4 ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2013.

SIQUEIRA, Antonio Jorge. Bispo Coutinho e o Clero Ilustrado de Pernambuco na Revolução de 1817. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano V, n.14, setembro 2012. ISSN 1983-2850.

SODRÉ, Neslson Werneck. A ideologia do colonialismo: seus reflexos no pensamento brasileiro. 3 edição. São Paulo: Vozes, 1984.

TOBIAS, José Antônio. História da educação brasileira. 3. Ed. São Paulo: IBRASA, 1986.


[1] Licenciando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

[2] “Transitava, por diversas vezes, entre o liberalismo e o pensamento conservador – até mesmo reacionário -, entre o religioso e o profano, entre o homem das luzes e o defensor da escravidão.” (BRAZ e CONTI: 2013, pág. 15)

[3] Ensaio econômico sobre o comércio de Portugal e suas colônias (1794); Memória sobre o preço do açúcar (1791); Discurso sobre o estado atual das minas do Brasil (1804) e Análise sobre a justiça do comércio do resgate dos escravos da Costa da África (1798), obra complementada pela Concordância das Leis de Portugal e das Bulas Pontifícias (1808). Estatutos do Recolhimento de Nossa Senhora da Glória (1798), que era um educandário para mulheres no Recife e os Estatutos do Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça de Olinda de Pernambuco. (1798)

[4] HOLANDA, Sérgio Buarque de. Apresentação. In: COUTINHO, J.J. da Cunha de Azeredo. Obras econômicas de J. J. da Cunha de Azeredo Coutinho.

[5] “Combateu o monopólio do sal; o monopólio da exploração e da comercialização da madeira e o monopólio do tabaco. Combateu, igualmente, a taxação do açúcar, por diminuir a competitividade do produto brasileiro no mercado internacional.” (ALVES: 2001, pág. 88)

[6] “O Sismo de 1755, também conhecido por Terramoto de 1755, ocorreu no dia 1 de novembro de 1755, resultando na destruição quase completa da cidade de Lisboa, especialmente na zona da Baixa, e atingindo ainda grande parte do litoral do Algarve e Setúbal. O sismo foi seguido de um maremoto - que se crê tenha atingido a altura de 20 metros – e de múltiplos incêndios, tendo feito certamente mais de 10 mil mortos. Foi um dos sismos mais mortíferos da história, marcando o que alguns historiadores chamam a pré-história da Europa Moderna.” Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Lisboa_de_1755. Acesso: dia 15 de junho de 2018. 01h57.

[7] “Afirma-se, em muitos pontos, o poder real absoluto, inclusive em assuntos eclesiásticos, ao mesmo tempo em que se tenta limitar os poderes da Igreja Católica exclusivamente às matérias estritamente espirituais, ou seja, do foro íntimo da consciência. Toda a legislação desta época exalta o poder absoluto do rei, como defensor e protetor da Igreja, e o dever que ele tem de prover o bem, mesmo espiritual, dos seus súditos, em contraponto às teorias que reafirmavam os poderes do Papa e de seus delegados acreditados junto às Cortes europeias.” (FÉRRER: 1999, pág. 83)

[8] “O Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Jesu, mais conhecido pela denominação de Ratio Studiorum, foi o método de ensino, que estabelecia o currículo, a orientação e a administração do sistema educacional a ser seguido, instituído por Inácio de Loyola para direcionar todas as ações educacionais dos padres jesuítas em suas atividades educacionais, tanto na colônia quanto na metrópole, ou seja, em qualquer localidade onde os jesuítas desempenhassem suas atividades. [...] O método educacional jesuítico foi fortemente influenciado pela orientação filosófica das teorias de Aristóteles e de São Tomás de Aquino, pelo Movimento da Renascença e por extensão, pela cultura européia. Apresentava como peculiaridades a centralização e o autoritarismo da metodologia, a orientação universalista, a formação humanista e literária e a utilização da música.” Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/er/n31/n31a11. Acesso dia 16 de jun de 2018.

[9] O Concílio de Trento foi uma grande reunião de bispos convocado pelo Papa Paulo III dentro do movimento chamado de “reação católica”, em resposta a cisão da cristandade ocorrida com a Reformas Religiosas do século XVI, para assegurar a unidade de fé e a disciplina eclesiástica.

[10] Nome impresso nos Estatutos do Seminário elaborados pelo bispo Azeredo Coutinho em 1798.

[11] COUTINHO, J. J. da Cunha de Azeredo. Estatutos do Seminário Episcopal de N. Senhora da Grasa da Cidade de Olinda de Parnambuco: ordenados por D. Jozé Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho XII Bispo de Parnambuco do Conselho de S. Magestade Fidelissima fundador do mesmo seminário. Lisboa: Typografia da Acad. R. de Siencias, 1798.

[12] SIQUEIRA, Antonio Jorge. Os Padres e a Teologia da Ilustração – Pernambuco, 1817 / Antonio Jorge Siqueira. – Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2009.

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Categories: Azeredo Coutinho; Seminário de Olinda, Brasil
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 16 jul 2018 @ 11 55 PM

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

Semestre 2016.1

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

QUEM ERA A MULHER PERNAMBUCANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX?

Uma análise social sobre as invisíveis visíveis na cidade e no interior de Pernambuco

Aluno: Diogo de Barros Chagas.

Resumo:

Este artigo é uma análise histórica das mulheres pernambucanas em seu sentido de relevância á História no início do século XX. Temos por principal meta apresentar uma abordagem que trace características históricas da formação da mentalidade feminina diante de uma sociedade patriarcal e oligárquica, de costumes cristãos, de falta de liberdade e pensamento feminino e como se alterará tal conjuntura, utilizando a Nova História enquanto mecanismo de construção no material.

Temos como perspectivas os cenários das cidades, em especial Recife e seus cafés e prostíbulos, nas casas burguesas, seus comportamentos e características, suas lutas e construções sociais. Visitaremos também o interior durante o período do cangaço, como a mulher, quer seja pernambucana ou nordestina, enxergará a sua realidade, a conjuntura local, latifundiária e patriarcal e entender o imaginário destas mulheres e até a prática do banditismo e suas funções nesse movimento.

Palavras Chaves:

Mulher, Sociedade, Política, Cultura, Gênero.

QUEM ERA A MULHER PERNABUCANA NO INÍCIO DO SÉCULO XX?

Uma análise social sobre as invisíveis visíveis na cidade e no interior de Pernambuco

Quem era a mulher no Brasil do início do Século XX?

A historiografia, desde meados da década de 1970 com o surgimento da Nova História volta-se para a análise do cotidiano, das figuras que compuseram a história, não apenas os que estiveram no poder e na relevância dos documentos, mas que aqueles que integram todo o conjunto.  Aqui, o estudo das mulheres em seus mais diversos pontos é matéria para muitos historiadores, que, interessados no isolamento deste personagem histórico tão importante, é  lançado em meio ao coletivo, em especial aqui no Brasil, traz em seu bojo sua intelectualidade, a construção de sua mentalidade política, a quebra de suas tradições, a reorganização familiar e a evolução de seu papel social, que no começo do século XX, será marcado pelo controle das tradições do patriarcado do final do século XIX.

Precisamos entender inicialmente o quadro em questão: estamos falando de um Brasil que gradativamente vêm a entender sua nova esfera política, a República, que nos dizeres do historiador José Murilo de Carvalho, em sua obra Os Bestializados, dirá que os brasileiros só possuirão a noção de República “5 anos após sua declaração”. Homens, fazendeiros ricos, formadores uma poderosa oligarquia agrícola, buscam novas maneiras de alcançar o poder, principalmente após a queda da República da Espada (1889-1894). Se no Sul do Brasil o poder era caracterizado pela predominância das elites em suas funções políticas, no Norte não foi diferente. Uma política voltada para o controle dos votos, em suas mais funestas formas, o voto de cabresto enquanto elemento do controle, e o coronelismo, como mecanismo de opressão, não apenas partidária como também social serão elementos de coerção dos poderosos.

O que muitas vezes deixamos de analisar enquanto historiadores são os papéis femininos neste período, principalmente no Nordeste brasileiro, em especial aqui em Pernambuco. Como personagens invisíveis, as mulheres pernambucanas, e isso, em um sentido um tanto freyriano de dizer, pode ser particular ou um sentido tradicional do período em questão, ou seja, um pensamento coletivo de como a mulher seria em todo o Brasil. Seriam essas mulheres tão invisíveis assim? Tão “belas, recatadas e do lar?”.

Devemos inicialmente entender a mulher em sua tradição inicial, para, logo após, tentarmos isolar dentro do contexto de Pernambuco.

A mulher em transição ( Séculos XIX-XX)

No século XIX, o papel da mulher era basicamente confinado à casa, principalmente nas famílias de cunho burguês. A esposa, vista enquanto protetora do lar, mãe dedicada, esposa fiel e obediente, ganha destaque entre os burgueses. Sair de casa só? Jamais, pois tal ação poderia manchar a reputação do marido, dos irmãos e do pai, no segundo e terceiro casos, se esta ainda estivesse solteira.

Segundo Maria Ângela D’incao, em seu texto Mulher e família burguesa:

“ A mulher, submetia-se à avaliação e opinião dos “outros”. A mulher de elite passou a marcar presença em cafés, bailes, teatros e certos acontecimentos da vida social. Se agora era mais livre- “a convivência social dá maior liberdade às emoções”-, não só o marido ou o pai vigiavam seus passos, sua conduta era também submetida aos olhares atentos da sociedade. Essas mulheres tiveram de aprender a comportar-se em público, a conviver de maneira educada”.

Essa mulher isolada começa um processo de evolução cultural interessante. Tem acesso à leituras, estas que alimentam o imaginário das solteiras, em relação ao amor romântico e a expectativa em relação ao seu futuro marido ou o ideal de marido. Às casadas, a literatura torna-se fonte de distração dos afazeres. Infelizmente, grande parte dos escritos do final do século XIX aqui em Pernambuco são masculinos, voltados para a análise econômica de suas fazendas ou empresas, e a menção de suas esposas, muitas vezes não passam de algumas páginas.

Graças a esse sentimento, o “amor burguês”, a mulher torna-se responsável pela ascensão do marido na sociedade, na educação dos filhos, da castidade das filhas, dos afazeres domésticos, e estas mudanças ocorrerão simultaneamente durante o processo de modernização do Rio de Janeiro e do Recife, e, mais tarde, São Paulo.

Essa modernização ocorrerá com o fim do Império Brasileiro; em decorrência da Proclamação de 1889, durante a República das oligarquias, a partir de 1894, e, em Recife, que vem desde o governo do Conde da Boa Vista, que, segundo Severino Vicente:

A modernização do Recife vinha ocorrendo desde a atuação do Conde da Boa Vista, na segunda metade do século XIX, como se percebe pelo estabelecimento do fornecimento de água para a cidade, novas construções de prédios e passeios públicos, pontes, estabelecimentos de fábricas, trouxeram para Pernambuco engenheiros, padres, freiras e pastores que deram nova vida à cidade que se tornava internacional”.

Consideramos, que o sucesso de muitos investidores burgueses pernambucanos, e brasileiros, em contexto geral, socialmente falando deve-se do comportamento de suas esposas. Não se concebia, como mencionado anteriormente, que a mulher fosse vista andando sozinha na rua, ou conversando com um homem, ela, desacompanhada. O recato auxiliava na ascensão social. Diga-se de passagem, que cabia a mulher, até mesmo, a responsabilidade sobre as virtudes de suas filhas.

Com a passagem para o Século XX, a situação da mulher é alterada em relação ao quadro do século anterior. Os governos oligárquicos, os grupos de homens intelectualizados, estimulam debates progressistas a respeito dessas novas mulheres. É criada, em 1914, a Revista Feminina, que contava com a colaboração de jornalistas e escritores de renome em todo Brasil, como também leitores e leitoras, e publicava matérias traduzidas da imprensa estrangeira. Destinava-se, sobretudo, ao público feminino, com seções sobe comportamento feminino, relacionamento conjugal, etiqueta, culinária, moda, trabalhos manuais. Publicava contos, artigos de assuntos gerais e muita publicidade. O trecho que  abaixo é de uma matéria escrita em Março de 1928, falando justamente das alterações do quadro feminino:

“Sozinha pela rua, com as mãos na direção de seu auto; sozinha no passeio e na dancing da moda. É a moça de hoje que já não precisa da mamãe vigilante, nem da senhorade companhia[...] Como os cabelos, como os vestidos, como o rosto, a moça de hoje já fixou o espírito, fê-lo mais livre[...] fê-lo apto e forte[...] Nas repartições públicas, no balcão, na fábrica ou nas grandes casas, ela sabe estar sozinha pela vida[...]Sozinha: para as mãos, que são igualmente adestradas para empunhar a direção de um auto ou para mover-se sobre o teclado de uma máquina de escrever.”

Analisando Recife a partir desse  trecho da Revista, podemos entender que a mulher inicia um longo processo de independência, mesmo que ainda arraigada aos moldes de suas mães e avós, que utilizam mecanismo de um passado que não era desejado. A vida da mulher, no início do Século XX, encontra os entraves sócias como a falta de emprego, o sufrágio, que alimentará as lutas com a figura do feminismo, exemplificado em Edwiges de Sá Pereira, líder em Pernambuco da Federação Pernambucana para o Progresso Feminino, atuante entre 1924-1933, que comemorará mais a frente a conquista do sufrágio, mesmo este limitado às mulheres alfabetizadas.

A mulher do Século XX e os cafés

De certo ponto, a vivências das mulheres nos cafés de Recife não eram bem vistas, pois durante do dia, eram considerados até respeitáveis, entretanto, a noite era um local, de bebedeira, fumo, uso de cocaína e prostituição, principalmente o Café do Lafayette, entre as ruas do Imperador e 1° de Marcço e o Café Chile, que, era um dos mais modernos do início do século XX, utilizando a propaganda e a vantagem de ser o primeiro café a utilizar energia elétrica. Em artigo escrito por Sylvia Costa Couceiro para a Revista de História, em 16 de Setembro de 2009, ela relata sobre estes cafés:

“Da diversão para a criminalidade era um pulo. Palco de ocorrências diversas, causadas por embriaguez e por disputas envolvendo o sexo feminino, os cafés estavam sempre nos livros de queixas das delegacias e nas páginas policiais da imprensa. Em julho de 1922, o Café Chile, na Praça da Independência, foi alvo de uma batida policial que flagrou a venda de cocaína em sua tabacaria. O caso virou escândalo nas páginas do Jornal do Recife, em furo de reportagem: “A polícia apreendeu grande quantidade de frascos de cocaína em poder do estrangeiro Abílio, proprietário da tabacaria do Café Chile, o qual os vendia por bom preço ao meretrício”.

Esse episódio do café Chile, trará uma visão social negativa em relação aos seus frequentadores, entretanto, temos exemplos de mulheres que frequentavam a noite recifense, e as prostitutas, antigas circulantes do Bairro do Recife e do Porto, eram figuras de destaque e críticas sociais das camadas conservadoras. Elas eram acusadas de perverter os cafés, viciar jovens de boas famílias em cocaína. Os registros policiais estavam abarrotados de queixas contra os cafés, e, sua maioria, as prostitutas estavam presentes.

A prostituição, que aqui entra em comparação a vida burguesa, fugia aos parâmetros sócias do período- assim como todos os tempos históricos, a prostituição sempre foi vista com repúdio pelas classes dominantes,- entretanto, muitas prostitutas “afrancesadas” eram sustentadas na capital por coronéis de influência. A urbanização da cidade será acompanhada das mudanças e deslocamentos dessas mulheres para o Bairro do Recife, este revitalizado, tirando-as de Santo Antônio.

A mulher e as artes em Pernambuco

,No quadro artístico, as mulheres tiveram destaque. Tendo em vista que parte da educação feminina consistia em aprender um instrumento ou cantar, dotes que eram na verdade acréscimos ao currículo da esposa, embora, as escolas de arte limitassem ou até mesmo negassem o acesso ao ensino das artes a elas.  A exemplo de artista, temos Fédora do Rêgo Monteiro(1889-1975), artista que irá fazer parte de uma realidade em que, segundo Madalena Zaccara:

“Antecedendo as dificuldades enfrentadas para uma formação artística dentro dos cânones acadêmicos, o próprio processo educacional feminino no Brasil (e no Nordeste de forma mais enfática) passava, no fim do século XIX e início do XX, pelo conceito estabelecido de uma visão da mulher como um ser desprovido de capacidade intelectual. Dessa forma, a educação se processava de forma diferenciada para os dois sexos: enquanto os meninos eram encaminhados para colégios mais conceituados ou guiados por preceptores, as meninas tinham sua formação voltada para prendas domésticas (entre as quais destacava-se a prática da pintura concebida como trabalho manual e parte do dote intelectual necessário às moças de famílias abastadas). Afinal, o projeto de lei sobre instrução pública aprovado em 1827 (apud NASCIMENTO, 2010) “deliberava sobre a inclusão e obrigatoriedade, por parte das meninas, de aprendizagem de costura e bordado, sendo que nos Liceus os alunos aprenderiam o desenho necessário às artes e ofícios”

A escola de artes do Rio de Janeiros iniciou um processo de inclusão da mulher em seu quadro a partir de 1879, com restrições, a exemplo disso as aulas onde o nu era utilizado, e, em 1932 o ensino de Artes Visuais foi sistematizado através da Escola de Belas Artes em Recife, sob as mesmas restrições em disciplinas que o corpo era analisado. Vale lembrar que o ensino em Pernambuco fora inserido com qualidade a partir da década de 20, com a criação pelo Governo do Estado das Escolas Profissionais. Aos homens, com ensino voltado ao desenho, ao trabalho plástico em si, e para as mulheres, teremos a Escola Profissional Feminina, em 1929, que tinha como principal característica, ministrar aulas de “artes domésticas em geral”.

Fédora passará por uma educação francesa aos seus moldes artísticos, ficará um tempo na capital (Rio de Janeiro) e retornará a Recife em 1917, realizando uma exposição junto a outros artistas, homens, na Associação dos Empregados do Comércio. Sobre esta apresentação, o jornalista Carlos Rubens(1941), escreverá que :

Quando expôs na Associação dos Empregados do Comércio, no Recife, onde fixou residência, mereceu encônomios, dela se inscrevendo: ‘Dentre estas (eram trinta as telas expostas) se sobressaem: ‘La Sorcière’, ‘Danseuse em Rouge’, trabalhos de admirável concepção artística e que dispensam elogios, pois já foram consagrados por eminentes mestres franceses quando figuraram respectivamente no Salon de Versailles e no Salon des Artistes Indépendents’. As paisagens de Fédora são alegres, sorridentes e a combinação das tintas para efeito de luz é feita com uma felicidade tal que o observador se sente encantado com a magia que se lhe depara.

O que podemos analisar, é que a mulher quebra gradativamente os estereótipos criados pelo patriarcado, em especial aqui em Pernambuco, caminhando pela cidade desacompanhada, freqüentando os cafés e se inserindo nos quadros intelectuais, principalmente no que se refere às artes, e a figura de Fédora, enquanto exemplo dessa mudança da mulher pernambucana.

Uma viagem ao interior: a mulher da casa- grande e a mulher sertaneja no século xx

Se na cidade, no meio burguês, o cenário era de submissão da mulher, que dirá no interior? Analisando o histórico pré Proclamação, podemos iniciar esta análise com as palavras da historiadora Mirian Knox Falci, sobre essa realidade para podermos aferir as consequências sociais para o século XX na perspectiva feminina:

“As mulheres do tempo (séc .XIX), no espaço ( o sertão) aparecem cantadas na literatura de cordel, em testamentos, inventários ou livros de memórias. As muito ricas, ou da elite intelectual estão nas páginas dos inventários, nos livros, com suas jóias e posses de terras; as escravas, também estão ali, embora pertencendo às ricas. As pobres livres, as lavadeiras, as doceiras, as costureiras e rendeiras- tão conhecidas nas cantigas do nordeste-, as apanhadeiras de água nos riachos, as quebradeiras de coco e parteiras, todas essas temos mais dificuldade em conhecer: nenhum bem deixaram após a morte, e seus filhos não abriram inventário, nada escreveram ou falaram de seus anseios, medos angústias, pois eram analfabetas e tiveram, no seu dia a dia de trabalho, de lutar pela sobrevivência. Se sonharam, para poder sobreviver, não podemos saber.”

Podemos entender a partir deste fragmento a diversidade de funções dentre as mulheres do interior, cada uma com um afazer, mas acima de todas as coisas, a função de mãe, de responsável pelo lar, de alimentar os filhos, na questão das mais pobres, até educá-los, em relação as mais ricas, filhas herdeiras de fazendeiros, antigos senhores de engenho, ainda firmes com a mentalidade do século XIX, com seus filhos ou filhas bastardos das relações com suas escravas; os caboclos e as caboclas que se apinhavam no interior com suas crias; e a mulher, principal elemento dessa construção social e étnica. Infelizmente, as fontes históricas referentes às mulheres pobres são até mesmo inexistentes, e, então, parte-se para a História Oral, o que dificulta a prova da veracidade do conteúdo. Ademais, para as filhas das antigas sinhás, ainda estão imersas nas tradições patriarcais: os casamentos arranjados, a permanência e administração do lar, dos empregados e dos filhos.

Durante o período em que o coronelismo imperou sobre os grupos sociais do interior pernambucano, e em sua totalidade, nordestino, vale salientar que o poder da figura masculina tendeu ao crescimento. E não apenas a figura de poder, mas o sertanejo também terá uma autoridade na vida privada alicerçada nesses valores. Manter a honra de suas filhas, casando-as com o homem que a “desvirtuou” ou até mesmo lavar a honra com sangue, eram tradições masculinas de empoderamento. Eram várias as consequências para a mulher em caso de fuga do pretendente: ser expulsa de casa, e frequentar os prostíbulos locais, no caso das famílias mais pobres, ou o internamento nas igrejas para as filhas dos mais abastados. Em outras palavras, para a mulher, as consequências de sua fornicação eram ou ser freira ou ser “quenga”.

Em relação a este ambiente, teremos o banditismo, movimento paramilitar organizado por antigos jagunços ou bandidos em si, que aterrorizavam as classes abastadas do interior nordestino, e até mesmo no cangaço, a mulher estará presente. A entrada das mulheres no cangaço, segundo Daniel Lins em seu livro Lampião: o homem que amava as flores, foi a introdução de Maria Bonita, que é originária do sertão baiano. Considere que a realidade histórica daquele período para a mulher, uma vida baseada em uma “prisão social” atrelada ao imaginário romântico do cangaceiro, que eram vistos enquanto heróis por uma parte humilde da população, sombreia muitas atitudes de mulheres, como por exemplo, a ex-cangaceira Dorinha ( Laura),  segundo Lins(1997), ela

“Aderiu ao cangaço atirada pela vertigem, pelo risco eas canganceiras modificaram o movimento, inaugurando, nesse universo, uma ordem moldada pela cultura feminina numa  reciprocidade de gêneros.

Vale perceber também o caráter romântico e lúdico da união ao cangaço. Devemos perceber que a realidade de muitas sertanejas, cruel, de fome e opressão por parte de seus maridos, auxiliavam na construção da imagem do cangaceiro. Sobre isso, Lins ainda acrescenta:

Muitas mulheres sonhavam com Lampião, almejavam um dia ser juntar ao cangaço. Tocadas pela poesia, pelo imaginário, pelo desejo de aventura, de paixão e combate representados pelo cangaço, muitas viam na vida do bando uma promessa redentora. Outras à maneira de jovens, imaginavem o cangaço enquanto espaço de liberdade, de rebeldia. As mais românticas buscavam as emoções da natureza selvagem acopladas aos calafrios de uma epiderme buliçosa em simbiose com os sonhos ecológicos. Em um universo onde o perigo e o prazer davam ao presente um caráter de peste e de fim de mundo, a partilha simples de uma alegria efêmera, ‘entre pessoas que se respeitavam’, como diz a ex cangaceira Sila, tinha também a força do milagre.”

Podemos notar que as características da realidade feminina local se inserem sem seu imaginário com sua realidade: a fé, o sonho e o romantismo, mesmo entre as mais humildes, apresentam-se na construção do cangaço aos olhos femininos.

Aqui em Pernambuco, tentamos buscar fontes que trouxessem exemplos de mulheres que se uniram ao cangaço. Infelizmente, não encontramos as fontes, dado ao pequeno tempo para esse exercício escolar. Entretanto, o que podemos dizer a esse respeito é que como as mentalidades femininas do interior nordestino passavam pela mesma realidade, podemos presumir que havia também entre as pernambucanas uma visão romântica da vida bandida no cangaço, uma fuga da opressão de seus maridos, da vida no campo, da vida nas fazendas, dos casamentos arranjados e do patriarcalismo em um contexto romântico.

Conclusão:

Esperamos, através deste escrito, alcançarmos nosso objetivo: a análise e evolução histórica da mulher sob diferentes perspectivas, utilizando não apenas Pernambuco isoladamente, mas o Brasil enquanto tal, e como a mulher brasileira criará suas raízes de formação social, intelectual, artísticas; de resistência ante a realidade, quer seja o patriarcado, quer seja no interior enquanto sertaneja; burguesas, prostitutas, ex escravas, donas de casa de baixa renda, lavadeiras, poetisas, escritoras que irão realçar a beleza da cidade do Recife, levantar debates entre as elites dominantes.

A evolução destas mulheres acarretará com a inserção das mesmas na luta pelo sufrágio, no ensino e na vida boêmia. Agradecemos por apreciar esta singela tentativa de interpretação de nossas mulheres e como a História social e a Nova História as analisam.

Biliografia:

  • D’INCAO, Maria Ângela. Mulher e família burguesa. In: História das mulheres no Brasil. Mary Del Priori, org. 5.ed- São Paulo: Contexto, 2001.págs.223-240.
  • FALCI, Miridan Knox. Mulheres do Sertão Nordestino. In: História das mulheres no Brasil. Mary Del Priori, org. 5.ed- São Paulo: Contexto, 2001.págs.241-277.
  • LINS, Daniel. Lampião: o homem que amava as mulheres. São Paulo: Annablume,1997.
  • MALUF, MOTT, Marina e Maria Lúcia. Recônditos do mundo feminino. In: História da Vida Privada no Brasil volume 3. Organizador Nicolau Sevcenko. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Págs 368-420.
  • SILVA, Severino Vicente da. Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX. Recife: Editora UFPE,2014.
  • http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos/recife-brilha-a-noite, artigo escrito por Sylvia Costa Couceiro em 16/09/2009
  • http://epitaciosemluvas.blogspot.com.br/2010/07/historias-do-recife-capitulo-ii.html, Blog escrito por Epitacio Nunes de Souza Neto em 20/07/2010
  • http://www.dezenovevinte.net/artistas/frm_mz.htm, sobe Fédora do Rêgo Monteiro, em artigo escrito por Madalena Zaccara publicado entre Janeiro e Março de 2011.
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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 14 jul 2016 @ 12 19 PM

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AS PRÁTICAS DA CATEQUESE CRISTÃ REFORMADA NAS ALDEIAS INDÍGENAS E OS LIMITES DA TOLERÂNCIA RELIGIOSA CONCEDIDA AOS CATÓLICOS NO BRASIL HOLANDÊS.

*Bianca Cruz dos Anjos

Produzido para a disciplina eletiva As Reformas Religiosas nas Américas, séculos XVI a XVIII, ministrada pelo Prof. Severino Vicente da Silva no ano de 2013.

Esse trabalho visa discutir a presença da religião calvinista no Brasil Holandês, inserida na configuração social a que pertence, considerando os encontros e confrontos a que é constantemente submetida, dessa forma, a abordagem da religião calvinista deve ser vista dentro de um prisma social envolvido por diferentes situações, com relação às estratégias de convivência com povos de religiões e ideologias diferentes. O Calvinismo estava inserido em uma rede de interesses e não pode ser analisado apenas pelo viés teológico, o aparelho religioso montado pelos holandeses no Brasil assumiu uma função política e estratégica, na tentativa de dominação territorial, diante dessas circunstâncias, podemos concluir que a religião calvinista e a política eram elementos praticamente inseparáveis.

Para produzir esse trabalho, primeiramente, foi preciso realizar uma série de leituras sobre o período da invasão, permanência e expulsão dos holandeses no Brasil, pois é preciso entender o contexto da época para se criar conjecturas acerca do assunto estudado, e para problematizar o assunto em questão fiz uma análise das produções historiográficas que se referem ao estudo aprofundado do Calvinismo em Pernambuco no século XVII. Antes de qualquer explanação sobre a chegada da religião calvinista e seu desenvolvimento no Brasil Holandês é preciso entender a conjuntura social que a Europa estava vivenciando, a religião calvinista estava inserida em contexto maior e envolvida por diferentes situações sociais que possibilitaram a consolidação do Calvinismo na Holanda e sua propagação no Novo Mundo.

A Reforma Protestante foi um movimento reformista cristão iniciado por Martinho Lutero em 1517 com a publicação de suas 95 teses.O contexto social e religioso da Reforma estava envolvido pelo relacionamento tenso entre a Igreja e os reis, pois a Igreja era detentora, não só do domínio espiritual da população, mas de um sólido poder temporal ao lado dos di-

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*Graduanda do 6º período em História Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco

tames régios. Diante dessa situação, a população e até mesmo o poder real perceberam a desmoralização do clero, o abuso de poder e a contradição de suas pregações moralizadoras, embora condenassem a usura e a obtenção de lucro, os membros da Igreja praticavam-nos de forma desenfreada. Essa falta de ética e de moral religiosa levou ao rompimento e críticas de vários reis com a Igreja Católica e suas doutrinas religiosas. O motivo da Reforma ter sido tão popular vai além das questões religiosas, pois as críticas surgidas estão imbricadas a esfera política e econômica, pois a religião católica e suas concepções estavam interferindo nos interesses dos reis e da burguesia europeia, a nobreza não queria pagar o tributo papal e a burguesia gostaria de aplicar suas leis comerciais que visavam o lucro e isso era condenado pela Igreja.

Uma missão francesa, enviada por João Calvino, foi estabelecida em uma das ilhas da Baía de Guanabara, originando a França Antártica, quando em 1557 foi realizado o primeiro culto protestante brasileiro. Esse processo de expansão da religião reformada se tornou uma ameaça para o domínio português na América e a presença de protestantes em uma colônia católica intolerante acirrou a disputa pelo domínio espiritual da população, entre reformados e católicos, isso levou a expulsão dos protestantes pelas autoridades portuguesas.

No século XVII, durante o domínio holandês em Pernambuco, o protestantismo surgiu de forma intensa e atuante em terras brasileiras. Ao se estabelecer aqui em 1630, os holandeses trouxeram a Igreja Reformada Holandesa, fundaram a Igreja Reformada como oficial, além de instituir 22 igrejas protestantes no Nordeste. A maior delas, em Recife, visitada por Maurício de Nassau que governou a região entre 1637-1644.

O Nordeste teve um grande desenvolvimento econômico com a presença dos holandeses, mas o florescimento não se limita aos aspectos comerciais, houve o florescimento religioso. Nesse período a liberdade religiosa foi implantada por Nassau, os protestantes da Igreja Reformada eram bastante atuantes nas suas ações missionárias em aldeias indígenas, na pregação, no ensino e na beneficência para a conversão dos índios, foram realizados vários métodos de catecismo, um deles foi a adaptação da pregação para a língua nativa.

Procurando entender os métodos de catequização utilizados pelos predicantes calvinistas e a composição do aparelho burocrático do governo holandês, é indispensável definir as características do Calvinismo praticado na Holanda e como se deu a sua transferência para as colônias da América, sobretudo no período do Brasil Holandês.

Os holandeses estavam divididos em pessoas que prestavam serviço exclusivo à Companhia que recebiam salários e em pessoas que não estavam a ela subordinadas.

Sabemos que a Holanda era um país calvinista, herdeira da reforma luterana, e quando o Nordeste brasileiro é ocupado, a intenção não se restringia a obtenção de lucro e colonização, houve a chegada de muitos predicantes que buscavam expandir a religião reformada e utilizá-la como um instrumento político e educacional para converter a população nativa.

No que se refere à religião reformada no período da invasão holandesa, os principais ministros religiosos eram Keesselerius e Dapper em Recife e Olinda, o ministro Plante que estava encarregado de servir ao exército, o ministro Polhemius na Ilha de Itamaracá e Goiana e os ministros Cornelis van der Poelen e Doreslaer na Paraíba. No Recife pregava o ministro Soler em francês e português e o ministro Batchelar em inglês na Paraíba. Além de atuarem na catequese, os ministros serviam de consoladores de enfermos em muitas guarnições.

Como muitos holandeses tinham investido na compra de engenhos, se empregavam em canaviais e por esse motivo moravam no interior, isso acabou dificultando o deslocamento à prédica, então era preciso a vinda de ministros ou candidatos idôneos da Holanda para pregarem nos lugares mais distantes, no campo.

Seguindo essa linha de pensamento que busca apreender como se deu o trabalho da catequização dos predicantes nas aldeias indígenas, como esse corpo missionário era constituído e interpretar as práticas da religião católica e como ela era vista pelos holandeses, nos próximos parágrafos explicarei melhor as ações dos católicos na colônia e o trabalho realizado pelas ordens religiosas na difusão da fé católica.

Os católicos tinham liberdade religiosa sobre o uso de suas igrejas e conventos para reunir seus fiéis em nome da fé católica, essa tolerância religiosa foi intensa até a permanência de Maurício de Nassau, pois ele tentava equilibrar as relações conflituosas entre os religiosos. Do clero católico faziam parte as ordens dos Franciscanos, Carmelitas, Beneditinos e jesuítas.

Afora estas ordens, havia muitos clérigos que os portugueses chamavam de padres. Eram os padres seculares ou de São Pedro. Estes pregavam na realização de missas e viviam com o dinheiro que ganhavam como retribuição da missa ou com o que lhes davam os doentes. Possuíam terras e rendas que serviam de base para a construção dos seus bens, ocupavam-se em plantações que cultivavam com a posse dos seus negros. Em cada capitania os padres estavam subordinados a um vigário e mais um vigário geral que costumava residir em Olinda, sendo o superior de todos os membros do clero.

As ordens religiosas dos papistas se apoiavam nos seus patrimônios para a divulgação da religião católica, em todas as cidades havia uma igreja matriz e outras capelas espalhadas pelas cidades, também era raro um engenho sem igreja. É importante perceber que por meio da administração política os holandeses poderiam catalogar o número de bens que cada Ordem religiosa católica possuía e através disso poderia vigiar os locais onde se realizavam as missas.

Os moradores portugueses eram obstinados na ampliação da religião e imbuídos de conceitos que eram repassados oralmente entre a população, isso criava uma aversão contra a entrada da nova religião trazida pelos holandeses. Na visão dos batavos, aqueles moradores que se diziam praticantes do catolicismo quase não possuíam conhecimento dos fundamentos da própria religião, só sabiam rezar suas Ave Marias pelos rosários, que eram carregados em volta dos seus pescoços e às vezes nas mãos, essa simbologia de ostentação era uma forma de ser considerado um bom cristão. Consideravam os holandeses como hereges e os odiavam não somente pela religião, mas pelo fato de terem saído vitoriosos na invasão e dominado a população.

  • As medidas utilizadas pelos predicantes holandeses para a catequização indígena

Primeiramente, é importante entender que a religião estabelece uma ligação entre o homem e o espaço social, pois o a relação entre o homem, o divino e a maneira como a sociedade se converte a tal religião é um processo de ligação de forças ideológicas e concepções distintas, ou até mesmo ideias em comum que conduzem o homem a procurar o sentido religioso na sua existência. Imagens, simbologias e outros elementos portadores de significados religiosos se tornam elementos de mudança, sobretudo nos aspectos arquitetônicos e culturais inseridos na sociedade, a chegada da religião reformada dos holandeses transformou as cidades sob o ponto vista arquitetônico, com a institucionalização de igrejas protestantes em um ambiente que ainda guardava vestígios do catolicismo instaurado pelos portugueses.

Para compreender a questão da evangelização, é necessário conhecer os principais disseminadores da religião reformada na colônia. Como já foi descrito no trabalho em questão, a presença do protestantismo no Brasil se institucionalizou, pela primeira vez, no século XVII, entre o Ceará e o Rio São Francisco, no primeiro momento a dominação dessas áreas estava relacionada às disputas pelo território português na América, porém devemos levar em conta que as questões geopolíticas e econômicas não poderiam se distanciar do aspecto religioso, porque mais tarde, no período que os holandeses se fixavam em terras brasileiras, a religião se torna um instrumento político e educacional, logo o projeto missionário vai muito além das considerações econômicas estabelecidas pelo poder holandês em cada território dominado.

Foi no Sínodo Nacional de Dort, em 1618 e 1619, que a prática missionária foi abordada e tratada como política dos Estados Gerais, tinha-se o propósito de levar a todos os povos,sem diferenciação e discriminação, a palavra de Deus e seu Evangelho.Com relação ao indígenas,faz-se necessário  entender a maneira  como foi estabelecido o processo histórico de evangelização pela Igreja Cristã Reformada nas aldeias, por meio da interação entre a cultura nativa e suas própria visões de mundo com a religião reformada européia.

O interesse pelo índio era geral na Europa, encontrava-se na época em que o Romantismo Naturalista florescia nos campos literários e artísticos. Interessantes são as atitudes tomadas pelos holandeses para a instrução religiosa dos índios, a catequese se iniciou como um movimento de fato no ano de 1638, quando o Conselho dos XIX lembrava que o meio mais fácil para a pregação era que os predicantes estudassem o tupi para depois instruírem os índios na sua própria língua,devendo ensinar aos jovens brasilianos a língua holandesa.

Em 1636, o Conselho de Pernambuco propôs medidas completas para a educação e catequese dos indígenas quando perceberam que a evangelização dos adultos era mais complicada, porque eles apresentavam valores da religião católica ensinada pelos jesuítas, além de não se libertarem totalmente de suas antigas superstições, então a intenção dos holandeses era instruir as crianças indígenas. Nessa linha de pensamento, a medida encontrada para evangelização seria a retirada dos índios pequenos dos seus pais, os filhos dos brasilianos seriam obrigados a frequentarem as escolas, que funcionariam como um internato, onde o ensinamento seria passado através da língua holandesa, os meninos estudariam o alfabeto, aprenderiam a soletrar, e finalmente iriam ler e escrever. As orações seriam ensinadas desde a sua entrada na escola, aprenderiam a profissão de fé e os dez mandamentos, depois de tudo isso o Catecismo seria aplicado.

Esse projeto não obteve êxitos, muitos pais brasilianos se revoltaram com a medida tomada pelos holandeses, então a catequese prosseguiu de forma lenta, com isso os predicantes se propuseram a solução mais cômoda para eles: procurou levar os índios até as cidades para instruí-los  e manter os mestres-escolas nas aldeias, no entanto essa proposta foi desaprovada pelo Supremo Conselho, que em 1638 decidiu que os missionários deveriam ir aos lugares mais distantes para levar a palavra divina.

Como parte dos fundamentos da evangelização os pastores reformados decidiram preparar um catecismo para a instrução dos indígenas nos preceitos morais e religiosos da religião cristã reformada, o objetivo dos holandeses era atingir uma maior parcela da população e esclarecer dúvidas existentes sobre a nova religião. Sabemos que o catecismo já existia antes da Reforma, contudo a principal diferença é que, a partir de então, as orações e as regras da doutrina passariam a ser elaboradas na forma de perguntas e respostas, iniciando um novo método de catequização que chamava mais a atenção dos índios para a conversão e estudo da religião.

Elaborado o Catecismo-pequeno livro- como chamou Soler, foi enviado à metrópole para a impressão, porém a metrópole não atendeu ao pedido por concluir que o compêndio da religião cristã reformada faltava alguns capítulos fundamentais, além de conter expressões que não seguiam as regras concebidas pelo Presbítero de Amsterdã, então foi proposto que a pregação de Soler deveria atender ambientes particulares e não ambientes institucionais, como nas igrejas.

Os predicantes não se abateram diante dos ditames da metrópole, perceberam que o catecismo era fundamental para a instrução religiosa, diante dessa situação, em Outubro de 1638 a liderança da Igreja Reformada, reunida em Recife, decidiram elaborar um novo Catecismo, um compêndio da religião cristã reformada, contendo formulários e outras atribuições da Igreja, como o Batismo, os responsáveis pelo cumprimento dessas regras seria o pastor Soler com o auxilio do pastor Van der Poel e Polhemius.Essas novas fórmulas de catecismo foi o resultado da tradução da fé reformada, no que se refere ao Catecismo de Heidelberg, para as fórmulas do Batismo e  da Comunhão para a língua brasiliana.

Um dos primeiros entraves ao desenvolvimento do catecismo nas aldeias indígenas foi a língua a ser utilizada nas pregações, muitos predicantes se valeram dessa ortografia criada pelos jesuítas para o seu trabalho missionário.

Em 1642, o Conselho dos XIX reuniu-se com predicantes para analisar as proposta de catequização para as crianças indígenas, visando o ensino do costume civil holandês, o aprendizado do manejo das armas e assentar as novas bases de regulamentos religiosos a serem seguidos tanto por predicantes quanto pelos índios a serem convertidos. O convento de São Francisco foi escolhido para ser escola dos índios, as medidas básicas tomadas foi a retirada dos curumins de seus pais, com o consentimento dos mesmos, contudo o propósito de separação dos seus respectivos pais por parte do governo holandês foi o estopim para transbordar a impaciência dos índios contra os holandeses.

Embora não tivesse se estendido por muitos anos, a instrução religiosa promovida pelos holandeses nas aldeias indígenas e a difusão do Calvinismo, estiveram sujeitos a várias modificações, em uma época de insurreição e lutas, mas nem por isso a catequese dos predicantes deixou de compor adeptos fervorosos da religião reformada calvinista.

  • Os limites da tolerância religiosa concedida aos católicos no Brasil Holandês

Procurando discutir os limites da tolerância religiosa e os respectivos conflitos entre católicos e protestante, as fontes utilizadas para embasar as idéias apresentadas nesse tópico foram tanto de origem portuguesa como holandesa, através dessas referências bibliográficas procurei confrontar o relato de Frei Manuel Calado em Valeroso Lucideno e o relato de Gaspar Barléu em História dos feitos recentemente praticados durante oito anos em permanência no Brasil.

O relato de Barléu mostra uma imagem benevolente de Nassau referente a tolerância religiosa concedida aos católicos e judeus, a obra foi escrita embasada em informações recebidas por Nassau, portanto Barléu nunca esteve presente em terras brasileiras para descrever de perto a situação religiosa entre os predicantes holandeses e católicos, enquanto Calado narra as intolerâncias e  a luta da população para se livrar da dominação holandesa.

De acordo com a leitura da obra de Barléu, as razões para dominar o Brasil não deveriam se restringir a questões econômicas, mas também a salvação das almas era a principal justificativa dos predicantes na colônia, porque  desejavam propagar uma doutrina mais pura, alegando que deveria mostrar um facho de luz que guiasse os povos a um reino de amor e conhecimento de Cristo.

A questão da tolerância poderia ser entendida por duas formas: liberdade de celebrações para culto religioso e a idéia de que a tolerância que os holandeses consideravam é a liberdade de consciência das pessoas, ou seja, respeito às concepções de cada um, pois cada qual tinha a sua religião como verdadeira. Os católicos puderam exercer livremente o seu culto, como cerimônias públicas, contudo essa tolerância não foi estendida aos jesuítas, embora Maurício de Nassau concedesse tolerância religiosa, ele deixava transparecer algumas restrições como: os padres não poderiam viver segundo as leis e o direito de Portugal, o Conde ainda teve o cuidado de nomear para todas as províncias conquistadas, ministros de culto reformado com o objetivo de suprimir o culto supersticioso das imagens.

Com partida de Nassau as condições de tolerância e os conflitos religiosos se acirraram ainda mais, as restrições aos católicos podem ser corroboradas pelos registros das Nótulas holandesas que continham a reclamação dos padres que denunciavam as restrições a liberdade religiosa dos católicos.

Percebe-se que a liberdade religiosa foi uma necessidade estratégica, admitida por Nassau e pelo corpo jurídico e religioso que o acompanhava, cabe dizer que essa liberdade não foi uma conquista dos moradores subordinados ao domínio holandês, mas uma necessidade do ponto de vista político, pois não se deseja confrontar os habitantes, conquistar a confiança do povo para que continuassem trabalhando nas terras e sem nenhuma intenção de motim, pois, os holandeses procuravam se afirmar territorialmente e economicamente nas terras brasileiras. No entanto, a tolerância tinha restrições, visto que em 1638 pressionado pelos protestantes, o governo de Recife proibiu não só as procissões, mas todas as manifestações externas de culto católico, após essas limitações, são instauradas em seguida as proibições de casamentos católicos realizado por padres sem a licença da Igreja oficial e as restrições dadas aos senhores de engenho por mandar benzer as moendas no início da safra por meio a reza dos padres.

Outro aspecto importante que pode ser retirado da leitura dessas obras é o fato de que o núcleo urbano de Recife e Maurícia eram preponderantemente calvinistas, enquanto o interior era constituído pelos portugueses católicos, a religião estava presente nas marcas arquitetônicas e até mesmo na forma de ocupação das cidades, a arquitetura dos novos templos foi adaptada aos valores da religião calvinista, eram caracterizados pela delicadeza minimalista e iconoclasta, tanto no interior como no ambiente exterior, cujas paredes eram caiadas de branco e não continha nenhum adereço do tipo imagens ou esculturas, continha apenas um púlpito numa estante de coro e bancos para os membros religiosos. É preciso pontuar que a barreira lingüística também foi um dos fatores de preservação da fé católica e do costume diário das práticas luso-brasileiras presentes na vida campestre.

A religião serviu de justificativa nos conflitos bélicos, visto que um dos motivos utilizados pelos rebeldes, na Insurreição Pernambucana em 1645, contra a dominação holandesa se referia a perseguições religiosas, uma dessas indignações por parte dos católicos era o fato dos portugueses não poderem receber o auxílio de novos padres para substituir os que faltassem, ou seja, a tolerância enfatizada por Barléu não era sentida da mesma forma na visão dos católicos e dos protestantes que estavam aqui em Pernambuco, a situação poderia ser resumida em uma frase: o período holandês instaurou uma tolerância religiosa com limites.

Durante a dominação de Pernambuco, a cidade de Olinda foi completamente destruída e saqueada, a finalidade dos holandeses foi desorganizar o centro de governo português e os destroços foram reutilizados na construção de Maurícia. Os saques foram realizados nas igrejas e conventos católicos, na concepção de Calado, a destruição das igrejas era uma heresia e profanação, enquanto Gaspar Barléu se refere à destruição de Olinda como uma maneira de acabar com as simbologias católicas que lembravam a fé propagada pelos portugueses, a destruição seria uma limpeza para a entrada de uma nova religião, que dava maior segurança para a disseminação do culto protestante.

Aparentemente, as leis holandesas direcionavam a uma conquista que visava uma paz estratégica e a subordinação tranquila dos povos, deliberando direitos fundamentais para uma boa convivência, contudo, na prática os direitos foram convertidos em concessões no intuito de manobrar os povos rumos aos interesses da Companhia das Índias, isso resultou um sentimento de submissão nutrido pelos portugueses que se viam subjugados tanto por um viés político quanto pelo lado religioso.

A liberdade religiosa não era bem quista pelos predicantes calvinistas, embora não fosse projetada juridicamente e teologicamente inicialmente nos projetos de conquista da colônia brasileira, ela existiu devido às circunstâncias de ocupação e desenvolvimento econômico, logo, a ocupação holandesa foi conduzida primeiramente por razões religiosas, mas ligado a esse fator religioso podem ser encontrados interesses econômicos.

Portanto, mediante as aulas ministradas em sala de aula e com base nas referências bibliográficas, fazendo uma avaliação contexto histórico do estudo em questão, nos permite criar interpretar como se deu a transferência do ideal religioso calvinista elaborado na Europa e como ele deveria ser construído, recriado ou ressignificado no Novo Mundo, isso mostra que a religião não é condicionada pelas fronteiras geográficas, mas é o tempo histórico e as relações sociais que definem o seu desenvolvimento em cada espaço, é dentro dessa particularidade e liberdade de fronteira espacial que o homem vai além, canalizando a construção dos seus sonhos e suas ideologias através da fé.

Referência Bibliográfica

GONSALVES DE MELLO, José Antônio. Tempo dos Flamengos – Influência da ocupação holandesa na vida e na cultura do norte do Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks Universidade Editora, 2001, 4°edição.

MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada: guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. Rio de Janeiro, São Paulo: Editora Forense-Universitária, Editora da Universidade de São Paulo, 1975.

MELLO, Evaldo Cabral. Nassau. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

CALADO, Manuel. O Valeroso Lucideno. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: EDUSP, v. I 1987.

BARLÉU, GasparHistória dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1974.

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 13 dez 2010 @ 4:11 PM 

 

A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO CARMO EM RECIFE/PE

 Trabalho apresentado por João Paulo Andrade Rodrigues do Ó.

na Disciplina Problemas da História do Nordeste,

ministrada pelo Prof; Severino Vicente da Silva,

segundo semestre de 2010.

1 ORIGEM DOS CARMELITAS E DA ORDEM

            Os primeiros carmelitas surgem no século XII no Monte Carmelo, do hebraico “jardim”, uma montanha situada junto do Mar Mediterrâneo e da Baía de Haifa.

Carmelo significa graça e fertilidade. A Bíblia o retrata como uma torrente – a fonte de Elias – e uma vinha muito fértil. O Monte Carmelo é rico em cavernas, bosques, dunas, arbustos e plantas aromáticas, elementos que contribruem para a beleza da paisagem e que serviram de inspiração ao Rei Salomão para expressar a beleza da esposa no Cântico dos Cânticos: “A tua cabeça sobre ti é tão linda quanto o Carmelo e teus cabelos como a púrpura” (Ct 7,5)   

O Monte Carmelo é considerado sempre em sua referência no mundo bíblico como sinal de graça e de bênção. (BOAGA, 1989, p. 23)

             Foi no Monte Carmelo onde segundo a tradição bíblica viveram os dois grandes profetas de Israel: Elias e Eliseu.

Segundo Sciadini (1997, p. 16) Elias é o profeta que causou a mais profunda e duradoura impressão no povo de Deus, tanto no Antigo como no Novo Testamento, seu nome significa “Javé é Deus”.

O profeta Elias aparece na Sagrada Escritura como o homem que caminha sempre na presença de Deus e combate, inflamado de zelo, pelo culto do único e verdadeiro Deus. Reivindica os direitos divinos no desafio feito aos profetas de Baal, goza no Horeb da íntima experiência do Deus vivo.

Segundo São Gregório Magno[1]:

O Horeb representa um exercício habitual das virtudes num espírito de graça. A caverna é o mistério da sabedoria escondida na alma, e seu santuário. Quem nela penetra terá a intuição profunda e mística do saber “que supera toda ciência” e na qual se manifesta a presença de Deus. Pois se alguém, como o grande profeta Elias, busca verdadeiramente a Deus, deve não somente “subir ao Horeb” (e é evidente que quem se consagrou à ação deve também aplicar-se à virtude), como também “penetrar no interior da caverna” situada sobre o Horeb, isto é, estar completamente dedicado à contemplação, na obscuridade e no mistério mais profundo da sabedoria, fundada sobre uma prática habitual da virtude.

Segundo a tradição bíblica eremitas passaram a habitar o Monte Carmelo, esses cristãos viviam na simplicidade, buscando a solidão e a oração, vivendo em obséquio de Jesus Cristo, isto é, no seu seguimento e a seu serviço. Construíram uma capela e a dedicaram a Virgem Maria, com o passar do tempo, começaram a ser chamados de Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo ou Carmelitas.

Os carmelitas têm por característica essenciais a origem eliana e a dedicação a Maria. 

Por força da instabilidade política da Palestina e pelas dificuldades provenientes dos sarracenos que iam ganhando espaço, no ano de 1238, os carmelitas migram para a Europa. (BOAGA, 1989, p. 38).

 Os primeiros carmelitas sentiram a necessidade de se organizar e de criar uma regra para sua convivência, regra esta elaborada por Alberto, Patriarca de Jerusalém e aprovada pelo Papa Inocêncio IV em 1241.

Surgem assim rapidamente vários conventos carmelitas na Europa, que ao exemplo dos Agostinianos, Dominicanos e Franciscanos passam a vivenciar os valores evangélicos de maneira mais radical.

Segundo Boaga (1989, p. 25) “a vida apostólica está interpretada como vida comum em pobreza coletiva e em pregação itinerante e mendicante, esta vida apostólica é a resposta às exigências do ideal da pobreza evangélica”.

Assim, nasceu no Carmelo um modo de “vida mista”: a vida ativa se exerce como fruto e consequência da contemplação que continua sendo fundamento e princípio da vocação carmelitana.

 

2 OS CARMELITAS EM PERNAMBUCO

No final do século XVI, durante o período do padroado, a Coroa Portuguesa com o objetivo de povoar as terras brasileiras, desenvolveu estratégias de ocupação. Para isso, contou com a ajuda da Igreja, trazendo para a colônia religiosos de diversas ordens religiosas, entre as quais, os carmelitas.

A Igreja Católica influenciou e participou do processo de formação da nossa sociedade, principalmente nos três primeiros séculos de colonização, era quase impossível viver na colônia sem seguir ou respeitar a religião católica. (HOONAERT, 1978, p.13)

Foi em Pernambuco onde desembarcaram os primeiros carmelitas e se estabeleceram no Brasil, vindos de Portugal, no ano de 1580. Aportados em Olinda, receberam de doação uma ermida dedicada a Santo Antônio. Construíram com ajuda dos olindenses e do Reino, a primitiva Igreja e convento do Carmo de Olinda. É nesse momento que é implantada a semente da devoção a Nossa Senhora do Carmo em Pernambuco.

No século XVII, as ordens religiosas que possuíam conventos em Olinda, passam também a desejar fundar conventos em Recife, e os carmelitas não ficaram de fora. Receberam no final do século XVII como doação o Palácio da Boa Vista, pertencente a Maurício de Nassau. (MEDEIROS, 2003, p. 168)

Em 1665, o Capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos deu início às obras de construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo do Recife, mandando executar, com os seus próprios recursos, a capela-mor.

Concluída em 1767, a Igreja do Carmo, apresenta características arquitetônicas que apontam para a fase de transição do barroco, passando do seiscentismo para o setecentismo. Ricamente ornamentada, possui a Igreja uma beleza rara e uma singular importância para a história da arte barroca em Pernambuco.

A atividade pastoral e intelectual propiciou o bom conceito da comunidade carmelita do Recife perante a população, o que resultou em uma devoção ainda maior à Virgem do Carmo.

Na segunda metade do século XVIII, a rainha Dona Maria I, em sinal de reconhecimento pelos trabalhos desenvolvidos pelos carmelitas, doa para a Ordem, uma belíssima imagem de Nossa Senhora do Carmo, feita de cedro maciço, no estilo barroco rococó, medindo 2 metros e meio de altura e ornada de luxuosas jóias.

Os frutos da atividade intelectual e missionária vão surgir no começo do século XIX, quando inúmeras personalidades ligadas ao Carmelo vão se destacar nas mais variadas áreas do conhecimento, tais como: Botânica e Ciências Naturais, Gramática, Retórica, Geometria, Filosofia Política, História e Geografia.

Segundo Américo Jacobina Lacombe (1993, p.75):

… coube afinal à Igreja, na formação da nacionalidade, o aspecto mais nobre da colonização. Quase tudo que se fez em matéria de educação, de cultura, de catequese e de assistência social, correu por conta de sua hierarquia, de seu cleto, de seus religiosos.

 

 

3 A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO CARMO

A partir de 1828, tem-se notícias das Solenidades em honra a Nossa Senhora do Carmo, apesar de não ser ainda a padroeira do Recife, mas sim Santo Antonio.

Segundo Severino Vicente (2007):

”no século XIX cresce a importância dos frades carmelitas na sociedade recifense, em uma época de mudanças, tanto na vida urbana quanto na religião católica que estava inicianado uma reforma interna, e essa reforma afetou as práticas de expressão externa na religiosidade dos católicos.

 

 Em 1850, o governo imperial proibe às ordens religiosas receber novos noviços, o que significa uma ameaça a continuidade das ordens em território brasileiro em um curto espaço de tempo, sem falar nas constantes investidas dos Bispos para incorporarem à Mitra Diocesana o patrimônio dos religiosos. (MEDEIROS, 2003, p. 170). 

O reerguimento da Ordem do Carmo em Pernambuco começa no final do século XIX, com a chegada dos frades carmelitas espanhóis, oriundos das províncias de Aragão, Valência e Catalunha.

A festa e a devoção à Virgem do Carmelo começa a ganhar força e notabilidade a partir da chegada dos espanhóis, isso porque os hispanos incentivam a devoção de forma lúdica, ao mesmo tempo que educam para a preparação aos sacramentos e a participação na procissão e na missa solene, em geral, presidida pelo bispo diocesano.

Na sua tradição, sobretudo a partir do século XVI, o Carmelo manifestou a proximidade amorosa de Maria ao povo mediante a devoção do Escapulário[2]: sinal de consagração a ela, meio de agregação dos fiéis à Ordem Carmelita e forma popular de evangelização.

Segundo o Papa Pio XII[3] (1950):

“entre todas as devoções a Maria, deve-se colocar, em primeiro lugar, a do Escapulário dos Carmelitas, a qual, pela sua simplicidade ao alcance de todos e pelos abundantes frutos de santificação que tem produzido, se acha extensamente divulgada entre os fiéis cristãos”.

 

 Acontece que o culto a Nossa Senhora do Carmo vai ganhando cada vez mais espaço na cidade, enquanto que o padroeiro, Santo Antônio, vai caindo em importância, pois os franciscanos alemães que chegaram para restaurar a Ordem Franciscana, não tiveram a mesma sensibilidade para com as devoções populares.

Aproveitando a “queda de popularidade” do antigo patrono, os frades carmelitas de grande respaldo na sociedade pernambucana empreendem a campanha da Senhora do Carmo como Padroeira do Recife. A população adere a ideia, e em 1909, Nossa Senhora do Carmo é proclamada oficialmente Padroeira do Recife.

Os frades carmelitas ajudados por leigos influentes, conseguem que o dia 16 de julho seja feriado municipal. Encabeçam uma grande campanha pela coroação canônica, cuja aprovação é dada pelo Papa Bento XV. Em 21 de setembro de 1919, a imagem doada por Maria I sai da Igreja do Carmo, desfila pelo centro do Recife até o Parque 13 de Maio, onde é coroada solenemente, com a presença de 34 bispos brasileiros. Diante do êxito da coroação, os frades lançam, três anos depois, a campanha para a Igreja do Carmo receber o título de Basílica, o que acontece em 1921. Em 1922, é celebrada a cerimônia solene de Sagração da Basílica, presidida pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Miguel de Lima Valverde. (MEDEIROS, 2003, p. 171-172).

As festividades dos 700 anos do Escapulário, foi sem dúvida nenhuma, a maior obra missionária já realizada pelo Carmelo brasileiro. Houve, portanto, pela primeira vez, uma ação conjunta entre os frades Calçados[4] e os Descalços[5]. A peregrinação da Imagem de Nossa Senhora do Carmo percorreu todas as capitais e cidades mais importantes do Brasil, entre o período de 31 de agosto de 1950 e 14 de julho de 1951. Além da visita da imagem, houve pregação dos frades, confissões, distribuição de milhares de escapulários, culminando no Congresso Nacional do Escapulário, com a participação de inúmeros estudiosos nacionais e internacionais sobre os mais variados temas ligados ao Carmelo.

Um dos elementos fundamentais que atraía, e atrai até hoje, a população para a novena do Carmo é a música. Desde a chegada dos espanhóis, alguns deles músicos,  o uso da música foi incetivado. Trouxeram uma novena própria, para coral e orquestra, bem como o Ofício solene das Vésperas, cantado na noite do dia 15 de julho. Além da beleza dos cantos, que variam em latim e português, estes cantos são exclusivos e escutados apenas durante as festividades de Nossa Senhora do Carmo.

Desde os anos 1980, a procissão não termina dentro da Basílica, em virtude do grande número de fiéis que a acompanha. Arma-se um palanque na frente do templo, e o Arcebispo fala e dá a bênção final da parte religiosa da festa.

Assim como algumas devoções marianas são celebradas nos terreiros[6] afrobrasileiros, Nossa Senhora do Carmo também é celebrada no Recife, no Xangô e na Umbanda. É sincretizada com o orixá feminino que é a divindade das águas doces e do ouro, chamada Oxúm. É representada pela cor amarela, é comum encontrar pessoas vestidas dessa cor durante as festividades do Carmo, o que pode-se concluir trata-se de pessoas praticantes desses cultos ou simpatizantes. (MEDEIROS, 2003, p. 174) 

 

REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Maria das Graças Aires. A influência da Ordem Carmelita no processo de formação da sociedade pernambucana. In: II Encontro Internacional de História Colonial. Natal, 2008.

BOAGA, Emanuele. Como pedras vivas: para ler a história e a vida do Carmelo. Roma, 1989

______. A Senhora do Lugar: Maria na história e na vida do Carmelo. Paranavaí, 1994.

HOONAERT, Eduardo. Formação do catolicismo brasileiro: 1550-1800. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1978

LACOMBE, Américo J. Ensaios Históricos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1993.

MEDEIROS, Batolomeu Tito F. Nossa Senhora do Carmo do Recife: a brilhante Senhora dos muitos rostos e sua festa. 1987. Dissertação (Mestrado) – Curso de Antropologia, UFPE, Recife, 1987.

______. “… me chamarão Bem-aventurada”: Textos de Mariologia Carmelitano. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2003.

PROVÍNCIA CARMELITANA PERNAMBUCANA. Basílica do Carmo: História, Cultura e Fé. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2002.

______. Em oração com Maria, Mãe do Carmelo. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2005.

PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS. Carmelita: um estilo de vida. Belo Horizonte, 1980.

MESTERS, Carlos. A caminhada do profeta Elias. Curitiba: Gráfica Damasco, 1991.

SCIADINI, Patrício. O Carmelo: história e espiritualidade. São Paulo: Loyola, 1997.

SILVA, Severino Vicente. Padroeiros e Padroeiras do Recife. Recife: UFPE, 2007. Disponível em: <http://www.biuvicente.com/blog/?p=175>. Acesso em: 01 dez. 2010.

www.festadocarmo.com.br acesso em 01/12/2010

http://ocarm.org/es/content/ocarm/origen  acesso em 01/12/2010

www.pcp.org.br acesso em 01/12/2010

http://www.carmelitas.org.br/default.asp?pag=p000032 acesso em 01/12/2010

http://iconacional.blogspot.com/2008/07/hegemonia-do-culto-do-carmo-no-recife.html acesso em 01/12/2010

http://www.carmelitasmensageiras.com.br/carmelo.htm acesso em 01/12/2010

 

 


[1] Monge beneditino, governou a Igreja durante 14 anos (590-604). Foi o responsável pela divulgação e expansão da música sacra, principalmente a que conhecemos como Canto Gregoriano.

[2] O Escapulário do Carmo está ligado a uma tradição carmelita, na qual, Nossa Senhora do Carmo teria aparecido a São Simão Stock, em 1251, trazendo o escapulário na mão e dizendo: “aquele que fizesse parte da Ordem (recebesse e usasse o escapulário como sinal dessa pertença) seria salvo definitivamente. Portanto, o Escapulário é um sinal externo da devoção a Maria. O escapulário recorda aos seus utilizadores o compromisso da Ordem Carmelita e o seu modo de vida e a dimensão mariana do carisma carmelita

[3] Governou a Igreja durante 19 anos (1939-1958), a sua ação durante a II Guerra Mundial tem sido alvo de debates e polêmicas.

[4] Frades da Antiga Observância

[5] Frades reformados por Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz em 1593.

[6] Nome mais comum que se dá aos templos das tradições afrobrasileiras, entre elas o Xangô e a Umbanda.

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Last Edit: 13 dez 2010 @ 04 13 PM

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DEFESA DE DISSERTAÇÃO

VIVANE ANTUNES GUIMARÃES ALMEIDA

 

CHOREM OS SINOS: OS DISCURSOS E AS PRÁTICAS ANTICOMUNISTAS DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE (1952-1960)

DATA: 05/08/2010

HORA: 09h30Min.

LOCAL: Auditório da Pós-graduação em História (10º andar)

 

BANCA DE EXAMINADORES:

 

 

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (Deptº de História – UFPE / Orientador)

Prof. Dr. Carlos Alberto Cunha Miranda (Deptº de História – UFPE / Examinador Interno)

Prof. Dr. Emanuela Sousa Ribeiro (Deptº de Museologia – UFPE / Examinador Externo)

Prof. Dr. Antonio Paulo de Morais Rezende (Deptº de História – UFPE / Suplente Interno)

Prof. Dr. Newton Darwin de Andrade Cabral (Deptº de Hostória – UNICAP / Suplente Externo

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Que História é essa

Hoje na História

 

16 de junho de 1950:

Inaugurado no Rio de Janeiro o estádio do Maracanã

Aline De Biase

Aluna do 5º período de História

Bolsista da Pró-Ext

 

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

Estádio do Maracanã - Estádio Mário Filho

  Na década de 1940, em virtude da Segunda Grande Guerra, não houve a realização das Copas do Mundo de 1942 e 1946. Com o fim da guerra em 1945, a Europa estava abalada e em reconstrução, e por isso, a Federação Internacional de Futebol Associado – FIFA – interessada em fazer ressurgir o campeonato, estava em dificuldades em encontrar um país para sediar o evento. No Congresso da FIFA de 1946, o Brasil apresentou o seu projeto de sediar uma Copa em 1950, mudando o ano do evento que estava previsto para 1949, salvou o torneio que talvez nem fosse mais ocorrer, pelo desinteresse da comunidade internacional.

  Proposta aceita, com a decisão do presidente Eurico Gaspar Dutra iniciou-se a 2 de agosto de 1948, a  construção de um estádio de futebol gigante para ser a sede da 4ª Copa Mundial de Futebol, na capital federal. Inúmeras críticas foram feitas aos gastos dirigidos para a construção desse estádio, por desviar os investimentos que poderiam ser aplicados na melhoria das estruturas sociais brasileiras. Na contra mão dessas opiniões, estava no jornalista esportivo Mário Rodrigues Filho, que pelo seu incentivo à construção, foi homenageado, dando seu nome ao estádio.

 Assim, em 16 de junho de 1950, o Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã foi inaugurado como o maior estádio de futebol do mundo. O nome Maracanã, de origem tupi-guarani, significa “semelhante a um chocalho”, uma menção ao fato de que no local onde o estádio foi construído existia uma grande quantidade de aves, chamadas Maracanã-guaçu, que emitiam sons semelhantes ao de um chocalho.

 A partida de futebol que inaugurou o estádio ocorreu no dia 17 de junho de 1950 entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo, partida vencida pelos paulistas por 3 a 1. O autor do primeiro gol no estádio foi o meio-campista Didi, da equipe carioca, e depois bi-campeão mundial de 1958 e 1962, pela seleção brasileira.

Didi, o Mestre da Folha Seca

Didi, o Mestre da Folha Seca

  A aguardada Copa do Mundo de 1950 foi iniciada em 24 de junho, com a partida entre Brasil e México, em que a seleção brasileira venceu por 4 a 0. Entretanto, ao contrário da preferência e dos rumores de vitória esperados, a seleção brasileira não ganhou a Copa. Na partida final, o Uruguai venceu o Brasil, por 2 a 0, no que é considerado um dos maiores reveses da história do futebol e esta partida ficou conhecida pelo termo espanhol “Maracanazo”.

 No Maracanã, os grandes jogadores da história do futebol brasileiro iniciaram ou consagraram suas carreiras:  a primeira vez que Pelé jogou pela seleção brasileira foi nesse estádio, em 1957 e Zico é artilheiro do estádio com 333 gols em 435 partidas.

  Em 2000, no aniversário de 50 anos do Maracanã, foi inaugurada a Calçada da Fama, nela os maiores craques da história do estádio deixaram a marca dos pés. Em 2007, o estádio – que é utilizado para diversos eventos, como espetáculos musicais com artistas consagrados -  foi palco das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 no Rio de Janeiro.

  Por muito tempo, o Maracanã, que atualmente tem a capacidade de abrigar 94 751 pessoas, foi o maior estádio do mundo. Entretanto, perdeu o título para o estádio Rungrado May Day, inaugurado em 1º de maio de 1989, na Coréia do Norte e que tem capacidade para 150 mil pessoas.

 

Texto produzido para o programa QUE HISTÓRIA É ESSA, e lido no dia 16 de junho de 2010.

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Last Edit: 16 jun 2010 @ 11 52 AM

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 05 jun 2010 @ 11:37 AM 

Universidade Federal de Pernambuco

Curso: Turismo 2010.1

Alunos: Renato Santiago e Rebeca Santos

Profº Biu Vicente

História da Cultura

 

            A definição de Cultura Popular é, de fato, bastante complicada. É arriscado criarmos um conceito de cultura, pois ele se modifica de tempos em tempos. Segundo Burke, cultura popular seria um conjunto de práticas culturais influenciadas pelas camadas mais pobres da sociedade. O livro aborda que a cultura tendia a referir-se à arte, literatura e música. Hoje, contudo seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros cientistas sociais usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser apreendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. Peter Burke apresenta toda a complexidade do termo “cultura popular”. Primeiramente, é apresentado como sendo a cultura das classes marginalizadas, subalternas, valorizando os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna, partindo de um mundo diferente do de hoje, retirando os costumes contemporâneos.

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

Nau dos insensatos - Jheronimus Bosch

No início dos tempos modernos, segundo o texto, existia uma cultura popular comum tanto na maioria da população quanto na pequena parcela privilegiada. Até a primeira metade do século XVII, havia participação das elites nas festas de rua, juntamente com as pessoas menos favorecidas, isso significou que, ao longo dos anos,  a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica fez com que os costumes se transformassem e fosse criada uma imensa distância entre as classes.

No século XIX, os intelectuais por meio do conhecimento e estudo do folclore, redescobrem a cultura popular. Segundo Burke, como a causa das transformações ocorridas na cultura popular foi o fato de as reformas religiosas empreenderem um esforço de reformulação da religiosidade popular na Europa com o objetivo de adaptar seus caprichos e aparências, ainda no século XVI. O real significado do conceito de cultura está relacionado entre a classe da elite e não-elite.

Apesar de o autor deixar vago que as duas culturas não permaneceriam estanques, mas em interação, o texto é desenvolvido baseado na análise da sociedade, decomposta em classes, podendo assim se chegar a um entendimento sobre quem é o povo detentor da cultura popular. Tal compreensão nos confunde, o autor compreende a cultura como um produto que é refletido através da hierarquia social, mas em outra ocasião fala que as culturas são únicas e não estão sujeitas a comparações.

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

Rostos do povo - Leonardo Da Vinci

A “descoberta do povo” foi quando os setores cultos da sociedade passaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos e músicas. Havia uma série de razões estéticas e intelectuais para isso ocorrer.  Há algumas coleções de canções populares que produziram sentimentos nacionalistas, como uma intitulada de Wunderhorn, publicada simultaneamente com a invasão napoleônica na Alemanha. Tal publicação teve o real objetivo de estimular a consciência nacional alemã, e segundo um líder prussiano, foi um auxílio na luta contra os invasores. Sendo assim podemos concluir que a cultura popular pode ser um elemento para unir a nação, no sentido de oferecer a esta uma memória a ser compartilhada.

Entender o sentido do que hoje somos é muito mais do que um desafio, constituí num longo e detalhado processo de trabalho. A reflexão sobre a nossa formação nos leva às nossas origens, à história que como brasileiros, fomos construindo. A realidade na qual nos encontramos traz reflexões e pontos de vista provenientes de outros contextos.

No que tange esse desafio de nos tornar “explicáveis”, Darcy Ribeiro indica um conjunto teórico a partir do nosso contexto histórico, ele reúne um conjunto de pesquisas que culminam em uma Teoria do Brasil até então inédita. Implicitamente à descrição desta teoria, está sua preocupação em entender por quais caminhos passamos e que nos levaram a diferenças sociais tão profundas no processo de formação nacional.

Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia, será? Essa unidade não significa, porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes, tolerância, convivência, civilidade, etc. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, um mesmo idioma só diferenciado por sotaques e gírias regionais. Mais do que uma junção de etnias formando uma etnia única, a brasileira, o Brasil é um povo nação, ajustado em um território próprio para nele viver seu destino.

Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Ao longo da costa brasileira se encontraram duas visões de mundo completamente opostas: a “selvageria” e a “civilização”. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram.

Ciranda

Ciranda

No primeiro capítulo, ele, Darcy Ribeiro, apresenta as diferenças entre as matrizes étnicas tupi e lusa; as suas opostas visões do mundo, da vida, da morte, do amor; o processo civilizatório, de colonização distinta da América anglo-saxônica, que estabelece aqui um império mercantil salvacionista; a “atualização histórica”, que forçou os índios a incorporarem-se a uma sociedade mais avançada.

 

Referências Bibliográficas

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro

BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. Ed. Ver. e atual. São Paulo: FTD, 2000.

http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/537837

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 11 37 AM

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Aluna: Chamillys Teixeira dos Santos

 

 

ACERCA DO LIVRO CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA E DO FILME POVO BRASILEIRO

 

 

Acerca do livro Cultura Popular na idade moderna e do filme Povo Brasileiro foi possível fazer uma análise mais aprofundada do quem vem a ser a cultura, principalmente no Brasil.

Hoje se usa o termo cultura para referir-se basicamente a tudo que se aprende vivendo em sociedade, coisa simples como: comer, andar, falar entre outras. Cultura tornou-se algo que temos por cotidiano. Desde os povos mais antigos a cultura esteve presente e hoje em dia não seria diferente, a cultura indígena possui peculiaridade que a maioria dos povos desconhece, a cultura sertaneja é muito mais do que a seca que ouvimos falar constantemente, é incrível como nós que habitamos o mesmo país tenhamos tantas peculiaridades em cada pedaço geográfico que habitamos, cabe a nós respeitar e conservar cada uma delas.

Sobre a cultura popular seria interessante destacar o termo em si: Cultura Popular, que muitos interpretam a sua maneira que pode não a mais sensata, uns acreditam ser a cultura das classes populares, ou seja, as classes menos favorecidas o que não necessariamente seria uma verdade porque mesmo em classes populares se tem culturas diferentes, modos de pensar distintos, não se pode generalizar uma cultura única pelo meio em comum que as pessoas têm de viver. Uma outra parte pode interpretar esse termo com uma homogeneidade de cultura que não há em lugar algum do mundo, não seria diferente no Brasil.

Algumas faces do Brasil

Algumas faces do Brasil

Afirmar que um país como o nosso tem uma cultura singular é incorreto pelo fato  de termos até mesmo num mesmo bairro pessoas que vivem de formas distintas, num pais imenso geograficamente como o Brasil não seria humanamente possível se ter mesmas culturas em cada região; por isso que o nosso país possui singularidades que nenhum outro lugar tem, temos aqui culturas únicas,belas e impressionantes que devem ser valorizadas em todos os tempos.

Desde as mais antigas análises de culturas o Brasil sempre esteve como um pais multicultural, de culturas impares e belas o que sempre atraiu e muito olhares para o nosso precioso pais. Brasileiro tem que respeitar a cultura de outro brasileiro para que possamos fortalecê-las e não acabar com elas, como foi o caso de algumas tribos indígenas, que foram extintas e assim também sua cultura passou a ser apenas algo a ser lembrado e não observado de perto. Valorizar o que temos é a forma mais sensata que temos de mostrar o amor as nossas raízes.

 

 

Referências Bibliográficas:

BURQUE, Peter. Cultura popular na idade moderna. SP: Companhia das letras, 1995.

Documentário O povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 11 22 AM

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 05 jun 2010 @ 10:48 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

DEPARTAMENTO DE HOTELARIA E  TURISMO

BACHARELADO EM TURISMO

PRIMEIRO PERÍODO

 

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

 

 

 

 

Alunas:

Rafaella Fonseca de Albuquerque

                                                        Maria Cecília Novaes Ferraz

 

 

 

 

 

No livro “Cultura Popular na Idade Moderna” de Peter Burke, é mostrada toda a concepção do que chamamos de  “cultura popular”, o que ele define a partir de Gramsci, primeiramente como sendo aquela não oficial, a da “não-elite”, a das classes menos favorecidas. Burke fala da necessidade de ver os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna a partir de um mundo totalmente livre de conceitos e valores contemporâneos. Ele expõe sua idéia de que a cultura popular no início dos tempos modernos não era diferente à minoria culta da Europa Ocidental. A maioria da população e sua pequena parcela erudita compartilhavam de uma cultura popular comum. Essa visão de compartilhamento da cultura também é vista do filme “O Povo Brasileiro” baseado na obra de Darcy Ribeiro, que mostra que os índios não fazem monopólio de bens e de conhecimento, ao contrário do que se percebe na elite européia. Percebe-se que até a metade do século XVII as elites iam às festas de rua junto com os grupos menos favorecidos. Isto mostra que ao longo dos tempos modernos a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica e a ilustração fizeram com que a cultura erudita fosse se modificando, ao ponto que entre pequenas e grandes tradições foi estabelecida uma grande distancia.

P. Burke.

P. Burke.

A tradicional cultura popular foi vista pela minoria letrada como algo muito diferente, a ponto de ser extraordinário, sendo assim tornou-se interessante. A partir do século XIX essa cultura tradicional começa a ser chamada de folclore.  Como  conseqüência destas transformações, Burke fala que a reforma Tridentina, assim como as reformas protestantes no geral exerceram um esforço de reorganização da religiosidade popular na Europa a partir do século XVI, tendo como objetivo diminuir suas extravagâncias carnavalescas e exterioridades.

Quanto a isso Burke explica que o significado deste conceito está em função da hierarquização da sociedade em classes, entre a classe da elite e a classe da não-elite. Assim, a cultura popular se mostrava como uma cultura não oficial, como a cultura da não-elite, das classes subordinadas; do outro lado, a cultura oficial pertenceria à elite. Logo, para o autor esta definição traria a necessidade de analisar melhor a sociedade, dividindo-a em classes para entender quem é o “povo comum” possuidor da cultura popular. Apesar de demonstrar que é indeterminada a fronteira entre o que se chama de cultura de elite e de cultura popular, e que as duas culturas permaneceriam em interação, Burke deixa subentendido que enxerga a cultura fundamentalmente separada em blocos: o bloco da cultura da elite e o bloco da cultura do povo. Dessa maneira, o autor entende a cultura como produto de uma situação de classe, de forma que a divisão da cultura entre elite e povo seria um espelho da hierarquia social. Indo de encontro com o que ele mesmo denominou de “concepção aristocrática de cultura”.

Curupira

Curupira

Essa visão sobre a cultura popular, segundo Burke, foi aceita rapidamente  e os setores cultos da sociedade começaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos populares e música popular. Esse movimento foi denominado pelo historiador inglês como “a descoberta do povo” e ele via uma série de fatores para que isso estivesse acontecendo naquele momento. Eram eles: razões estéticas, que mostravam uma insubordinação contra o artificial na arte culta e assim a valorização das formas simples; razões intelectuais, que se relacionavam com uma postura hostil para com o iluminismo, enquanto pensamento valorizador da razão em detrimento do sentimento e das emoções. Existia também com relação ao aspecto intelectual um certo desprezo com as regras clássicas da dramaturgia, herdadas do pensamento aristotélico.

O povo brasileiro

O povo brasileiro

No filme “O Povo Brasileiro” é mostrada a idéia de que “somos símbolos da utopia”, ou seja, de algo idealizado, que no imaginário dos europeus seria o paraíso, sem doenças, cobranças e guerras. A cultura popular pôde servir de elemento básico para a formação de uma unidade nacional, dando a esta uma memória a ser compartilhada e símbolos capazes de produzir um eficiente nível de coerência social. Por outro ela também pôde ser um impedimento, no sentido de que a constituição do estado – o povo se formou sem dar importância às unidades culturais já existentes tentando impor sua cultura, homogeneizando-as, modificando-as em parte dessa nova estrutura nacional. Nesse sentido podemos perceber que a cultura popular serviu, contraditoriamente, como resistência cultural ao processo de unificação nacional.

 

Bibliografia

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

 Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro.

             

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 10 48 AM

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 05 jun 2010 @ 10:33 AM 

  

      Universidade Federal de Pernambuco     

 

Resumo da parte I “A descoberta do povo”, do livro “ cultura

popular na idade moderna”

 

                                  A DESCOBERTA DO POVO

 

Trabalho apresentado ao professor Severino Vicente

Da disciplina História da cultura

 Turma: I Turno: tarde Curso: Turismo

Aluna: Luany Maria Gondim Campos

Data: 22 de maio de 2010

 

 

A descoberta do povo, parte I do livro cultura popular na idade moderna nos mostra como o povo, seu jeito e seus costumes se tornaram curiosidade para muitos estudiosos. Foi no inicio do século XIX, justamente quando a cultura popular tradicional estava começando a desaparecer que o “povo” se tornou “objeto” de interesse de grandes intelectuais da época. Houve uma série de razões para esse interesse pelo povo nesse momento da história européia, entre elas, uma das principais que pode se destacar é a revolta contra a “arte”, o artificial se tornou um termo pejorativo, enquanto selvagem virou elogio. Os artesãos e camponeses ficaram assustados ao verem suas casas sendo invadidas por gente bem vestida querendo que eles cantassem suas canções tradicionais ou contassem velhas estórias. Herder, jornalista, e os irmãos Grimm construíram obras de grande influência na época,

J. HERDER

J. HERDER

Herder dizia, ou deixava implícito, que no mundo pós-renascentista, apenas a canção popular conservava a eficácia moral da antiga poesia, e os irmãos Grimm consideravam a poesia popular uma “poesia da natureza”. Além da canção popular, outras formas de literatura passaram a ser elegantes, como o bilder-reimen, mais conhecidos como panfletos satíricos alemães que segundo o poeta Ludwig Tieck tinha uma maior inventividade autêntica e são mais simples e muito melhores do que os livros da época. Havia também o conto popular transmitido por tradição oral, que inclusive os irmãos Grimm fizeram uma coletânea dos contos, e acreditavam que, de fato, aquelas estórias exprimiam a natureza do povo. E finalmente, havia a “peça popular”, categoria que incluía o teatro de bonecos. Esse grande interesse por diversos tipos de literatura popular era parte de um movimento ainda mais amplo que se pode chamar a descoberta do povo. Houve ainda a descoberta da religião popular, das festas populares e da música popular, embora não tenha sido visto um interesse mais próximo pela arte popular.

 

Embora esse tenha sido um movimento de grande amplitude e se fale na descoberta da cultura popular durante essa época, antes mesmo disso, estudiosos já haviam descrito os costumes populares; o que difere em Herder, os irmãos Griim e seus seguidores é a ênfase no povo e a crença de que cada um deles fazia parte do “todo”, expressando o espírito de uma nação. Para alguns intelectuais o povo era visto de uma forma exótica, e o apelo desse exótico estava no fato de ser selvagem, natural, livre das regras do classicismo. Esse movimento foi também uma reação contra o iluminismo, contra seu elitismo, seu abandono da tradição, contra sua ênfase na razão, a descoberta da cultura popular estava intimamente ligada à ascensão do nacionalismo. Tinha a idéia de unir o povo dividido, da autodefinição e da libertação nacional, a sociedade estava sob domínio estrangeiro e tinha o desejo de reviver a cultura tradicional. Em suma, a descoberta da cultura popular  fazia parte de um movimento de primitivismo cultural no qual o antigo, o distante e o popular eram todos igualados.

 

Amamentando - Lui Gonzaga, Goiana. Foto de Biu Vicente

Amamentando - Lui Gonzaga, Goiana. Foto de Biu Vicente

 

Bibliografia 

 

 

BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: compainha das letras, 1995.

 

http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/descobertapovo.html

Acesso em 22/05/2010

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Last Edit: 05 jun 2010 @ 10 33 AM

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02 de dezembro de 1870



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