Universidade Federal de Pernambuco

Resumo doPrimeiro capítulo do Livro História da Cultura de Peter Burke e do Documentário O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro.

 

                                       

 

 

 

                                            Trabalho apresentado ao professor  Severino Vicente

Da disciplina História da Cultura

Turma: I Turno: tarde Curso: Turismo

Alunos (as): Maria Rafaela dos Santos Rodrigues

Marina Rocha de Barros

Data: 23 de Maio de 2010

No livro “Cultura Popular na Idade Moderna”, Peter Burke apresenta toda a complexidade do termo “cultura popular”, definindo-a como a da “não-elite”, a das classes subalternas. Burke coloca a necessidade de se pensar nos artesãos e camponeses dos inícios da Europa Moderna a partir de um mundo totalmente diferente do atual, sem a existência de conceitos e valores contemporâneos. É evidente que ele apresenta sua hipótese, a de que a cultura popular, nos inícios do período moderno, não era estranha à minoria culta da ocidentalidade européia, que tinha como uma espécie de segunda tradição. Em outras palavras, a maioria da população e sua pequena parcela erudita, ambas compartilhavam de uma cultura popular comum. O livro mostra que até pelo menos a primeira metade do século XVII, as elites participavam das festas de rua e carnaval juntamente com os grupos menos favorecidos. O que quer dizer que ao longo dos tempos modernos, a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica e a ilustração fizeram com que a cultura erudita se transformasse, enquanto entre pequenas e grandes tradições, uma imensa distância foi estabelecida. Finalmente, a cultura popular tradicional passou aos olhos da minoria letrada como algo tão diferente, a ponto de ser exótico, e por isso atraente.

No século XIX, essa cultura tradicional se transforma em folclore onde, na realidade, as elites intelectuais redescobrem a cultura popular no século XIX, a partir da perspectiva do folclore. Burke entende que o significado do conceito está em função da hierarquização da sociedade em classes, entre a classe da elite e a classe da não-elite. Assim, a cultura popular seria como uma cultura não oficial, como a cultura da não-elite, das classes subalternas, onde a cultura oficial pertenceria à elite. Então, para o autor, essa definição chamaria a necessidade de analisar a sociedade e decompô-la em classes, para daí entender quem é o “povo comum” detentor da cultura popular. Apesar de manifestar que é vaga a fronteira entre o que se chama de cultura de elite e de cultura popular, e que as duas culturas não permaneceriam estanques, mas em interação, Burke destaca indiretamente que a cultura basicamente é separada em blocos: o bloco da cultura da elite e o bloco da cultura do povo. É possível perceber nessa conceituação uma tendência culturalista, que praticamente opõe cultura e natureza, faz da cultura uma ocorrência universal, ou seja, todos os povos possuem cultura. Podemos ainda pensar que: as culturas são únicas e não passíveis de serem comparadas valorativamente. Assim, o autor vê a cultura como produto de uma situação de classe, onde a separação da cultura entre elite e povo seria um rígido reflexo da hierarquia social a se interessar por coleções de poesia popular, contos populares e música popular.

Boitata

Boitata

Observando a história da cultura no mundo europeu, é quase impossível não lembrar que essa separação cultural, racial e social não aconteceu apenas pela Europa. No Brasil todo esse preconceito e separação também foi bastante presente, basta relembrar tudo que os índios passaram desde a colonização. Podemos ver todo um processo de formação nacional brasileira através, por exemplo, do documentário sobre a obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. No documentário, Darcy – assim como Burke – também busca entender os caminhos passados por nós brasileiros até a chegada de todas essas diferenças sociais. Segundo Darcy: “surgimos da confluência, inter-choque do caldeamento do invasor português com índios silvícolas e com negros africanos. Somos uma cultura sincrética, um povo novo que apesar de fruto da fusão de matrizes diferenciadas se comporta como uma só gente, sem se apegar a nenhum passado. Estamos abertos é para o futuro.” No filme é mostrada a herança da cultura indígena para o povo brasileiro. Técnicas de sobrevivência no território, hábitos alimentares e banho diário. Porém o maior legado deixado é o do testemunho de que um povo pode viver magnificamente integrado a natureza. É necessário entender que por mais que exista algum tipo de separação, preconceito ou qualquer outra coisa, a classe dos menos favorecidos deixa sempre, de uma forma ou de outra, alguma herança até mesmo para os que se julgam superiores. E se, como Burke diz, a “separação de culturas” se dá a partir do momento em que existe a hierarquização de classes, deve haver uma forma de quebrar determinados conceitos. Principalmente os de diferenciação dos tipos de cultura. Não existem valores diferentes para uma cultura, a cultura é uma só. Fazemos parte de um mesmo povo, que embora com costumes diferentes, mas a diferença desses costumes é apenas uma diferença vinda de acordo com o local habitado por cada um, de aspectos sociais, religiosos, econômicos… Mas isso não pode ser considerado um marco para a diferenciação. Apesar de hábitos diferentes, cada cultura tem a sua importância e se completam.

 

Bibliografia

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. 2.ed. -. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 385p.

Documentário: O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

 

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 23 mai 2010 @ 9:07 PM 

Universidade Federal de Pernambuco

História da Cultura

Professor: Biu Vicente

Alunos: Primícia Wanessa Tabosa de Azeredo

              Leonardo Malafaia Alves

Recife/ 2010

 

 

 

 

No vídeo de Darcy Ribeiro, “O povo brasileiro”, que nos foi apresentado, obtivemos a oportunidade de ver a origem do nosso povo e cultura, identificando costumes, estilo de vida e todas as mudanças decorrentes a partir da chegada do povo europeu.

Sabe-se que cultura é a totalidade de padrões aprendidos e desenvolvidos pelo ser humano, ou seja, são práticas e ações sociais que seguem um padrão determinado no espaço, e pode-se notar claramente esta definição ao se observar o comportamento indígena da época, quando os índios produziam seu próprio alimento, pintavam a pele com diferentes cores, e até a forma com que educavam seus filhos demonstra a cultura vivenciada de forma livre e sem restrinções. Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de mestiços, que fundou esse país, porém, a forma com que viviam era de tão grandioso contraste comparando-se aos europeus, que concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram cruamente e, logo, o povo europeu tratou de impor seus costumes aos praticados pelos índios.

Para os europeus, os indígenas pareciam belos seres inocentes, que não tinham noção de “pecado”, porém com um grande defeito: eram “vadios”, preguiçosos não produziam nada que pudesse ter valor comercial. Serviam apenas para ser vendidos como escravos. Os portugueses invasores possuíam relações sociais baseadas na estratificação das classes, tinham uma velha experiência como civilização urbana e, devido à sua chegada, acorreu a  mistura de etnias proveniente da colonização, a miscigenação ocorrida em função dessa mistura racial, dando origem à diversidade cultural pertinente até hoje em território nacional e  junto com eles veio a Igreja católica que exerceu uma grande influência no processo de formação sócio-cultural do povo brasileiro. Com isso, os povos passaram a se enfrentar e se fundirem, fazendo surgir “um novo modelo de estruturação societária”. Passamos a fundir nossas culturas, o que explica o fato de hoje em dia termos traços em comum tanto com os europeus quanto com o antigo povo brasileiro.

Referente ao livro “Cultura Popular na Idade Moderna” escrito por Peter Burke, para tratar da questão da cultura popular faz-se necessário primeiro identificar que o termo é complexo, possui uma variedade de significados e possíveis interpretações; dentro de uma destas interpretações Peter Burke em seu livro nos mostra que com o passar do tempo a “cultura popular” foi se polarizando; polarização essa que se agravou com o aumento do abismo entre classes.

No início do que seria o período moderno, notamos que a elite da época e as demais classes subalternas compartilhavam de uma cultura que podemos chamar de popular única; onde eventos, tradições, festas, etc. eram desfrutados pelas classes em geral. Com o passar dos anos, e com as constantes evoluções e reformas dentro da sociedade, a elite passou a ver a cultura popular como algo afastado de sua realidade; chegando ao ponto de caracterizá-la como exótica, para, depois, vir a redescobrir esta mesma cultura popular na forma do folclore ou agregando alguns destes “rituais folclóricos” a sua “cultura elitista”.

Esta incorporação de valores e rituais se dá porque apesar de toda a pressão exercida pela minoria letrada da época e das igrejas para silenciar tradições seculares, muitos dos rituais estavam tão enraizados dentro da sociedade; eles perduraram até os tempos de hoje, e muitos destes rituais foram incorporados ao cristianismo e, posteriormente, a cultura da própria elite, o que prova a tese de que, em certo ponto existiu, sim uma cultura popular compartilhada dentro das classes e esta cultura foi forte o bastante para garantir seu lugar na sociedade exclusiva que estava por vir.

Índios Kayapo - Xingu

Índios Kayapo - Xingu

Tanto o vídeo-documentário da obra de Darcy Ribeiro, quanto o livro escrito por Peter Burke referem-se a existência de culturas que foram modificadas ao longo do tempo, mostrando que quase nunca a passagem de uma cultura à outra se dá de forma pacífica pois há resistência dentro dos povos, resistência essa que permite o prevalecimento de certos elementos culturais originais, afinal, o que define um povo é a sua cultura.

 

 

 

 

Bibliografia

 

Burke, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

   Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro.

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 23 mai 2010 @ 8:45 PM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

Departamento Hotelaria e Turismo

Primeiro Período

História da Cultura

 

A Origem do Estudo da Cultura Popular

 

Hudson J. Duarte da Silva[1] [1]

 

Por volta do final do século XVIII e o começo do Século XIX, a classe menos favorecida da Europa começou a olhar para a sua própria cultura, e menos para a da elite. Assim, começou a surgir novos termos, como “canção popular”, “conto popular” e até mesmo a denominação “povo”, o que deixou em evidência o surgimento de novas ideias.

A Alemanha, onde a cultura popular era a mais esquecida do continente, já que a cultura da elite predominava, foi a pioneira no estudo da produção cultural da população. Logo em seguida outros países do Norte da Europa, como a Suécia e a Finlândia também passaram por isso. Toda essa nova fase pela qual passava o continente europeu levou à pesquisa histórica e a livros, sobre esportes e passatempos. Como o festejo veneziano, feriados e cerimônias do povo russo. Havendo desse modo, a descoberta da música popular.

Gato de Botas

Gato de Botas

A expansão demográfica contínua das cidades européias causou uma conscientização na população local que sentiu a necessidade de preservar suas raízes, descobrindo sua cultura. Se não houvesse essa descoberta a tempo, seria impossível, hoje, sabermos sobre a história da cultura dos povos europeus. Na Europa, os antiquários eram poetas, e os poetas antiquários, isso ajudou a preservar os textos daquela época, sendo assim o acesso até eles ficou facilitado. No caso dos indígenas, a busca por essa cultura foi um pouco mais difícil.

Antropólogos como Darcy Ribeiro precisaram viajar ao interior do país e passar temporadas mergulhados em tribos para coletar informações sobre a sua cultura e costumes, para então fazer uma análise da identidade atual do povo brasileiro. No documentário “O Povo Brasileiro”, Darcy Ribeiro descobre a cultura indígena, seus costumes, sua música e sua arte, que de certo modo, ficaram esquecidas por muitos séculos, desde a chegada dos portugueses.

Essa é uma das várias demonstrações do estudo das diversas origens da cultura nacional, desde o dialeto até mesmo nossa vestimenta foi desenvolvida através de nossa observação e estudo. A cultura indígena trouxe para o brasileiro, diversos ensinamentos, como o uso de ervas medicinais

no tratamento de doenças, que não poderiam ter sido esquecidas. O estudo dessas contribuições fez com que entendêssemos um pouco mais do que somos.

O que o filme “O Povo Brasileiro” e o livro “Cultura Popular na Idade Moderna” têm em comum, é que os dois buscam o passado cultural do povo para entender a atual sociedade, pois é essa cultura popular que nos faz entender a formação da identidade de um povo de um determinado local.

 

Referências:

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa, 1500-1800. 2. ed. São Paulo: Schwarcz, 1995. 49 p.

Documentário O Povo Brasileiro. Baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

 

 

 


[1] Aluno do curso de Turismo da Universidade Federal de Pernambuco do 1° Período

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Universidade Federal de Pernambuco

Departamento de Hotelaria e Turismo

História da Cultura

Professor: Severino Vicente

Aluna: Maria Raíza Vicente

 

            Resumo: Cultura Popular na Idade Média / Aulas / O Povo Brasileiro – Matriz Indígena

Saci de Reis

Saci de Reis

           

 

            A definição de cultura é ainda muito imprecisa, mas de um modo geral, pode ser entendida como as ações e noções da vida cotidiana, é tudo aquilo que o ser humano faz, aprende, inventa e transmite socialmente. Segundo Peter Burke, é “um sistema de significados, atitudes e valores compartilhados, e as formas simbólicas nas quais eles se apresentam ou se incorporam”. A cultura não é estática, é uma construção social que muda de sociedade pra sociedade e de tempos em tempos.

            O homem e a mulher são seres incompletos que produzem cultura a partir das necessidades e possuem funções biológicas, como o aparelho fonador, o polegar oponível, uma visão estereoscópica, um cérebro desenvolvido e uma capacidade de abstração, que possibilitam e facilitam essa produção cultural.

            É importante saber distinguir o que é cultural do que é natural. Atividades como comer, dormir e urinar são naturais, mas a partir do momento em que eu e um conjunto as realizamos de modo particular, como comer com talheres ou seguindo regras de etiquetas, dormir de lado ou de bruços, urinar em pé ou sentado, então passamos a ter cultura.

            Numa época em que a “cultura” consumida era a francesa e o belo era o que vinha da França, começou na Alemanha um resgate da cultura tradicional local, que estava intimamente ligado a um sentimento nacionalista de valorização do regional. As poesias, contos e canções populares, outrora assimilados com a grosseria e a vulgaridade, passaram a ser admirados pelas classes medias e nobres pela simplicidade natural que possuíam, longe do rebuscamento existente na grande cultura da época.

            Estudiosos como os irmãos Grimm, passaram a pesquisar e registrar por escrito as tradições orais, evitando que se perdessem ao logo do tempo. A partir daí, podemos fazer um paralelo sobre os trabalhos dos irmãos Grimm e o de Darcy Ribeiro, todos procuram registrar as produções culturais de um povo, valorizando-os e evitando que se percam ao decorrer do tempo.

            O Brasil já existia antes da chegada dos portugueses, havia uma população indígena com hábitos e costumes próprios e diferentes dos europeus. Assim como na Alemanha o Belo era o que vinha da França, após a chegada dos portugueses no Brasil o Belo era o que vinha da Europa, sobretudo de Portugal. O trabalho de Darcy Ribeiro resgata essa produção cultural dos índios.

            Por provirmos de diferentes matrizes somos um povo único. Herdamos hábitos e costumes das matrizes indígenas, africanas, européias e asiáticas. Essas tradições foram transmitidas socialmente, e transformadas com o passar dos tempos.

 

Iara, senhora das águas encanta os homens

Iara, senhora das águas encanta os homens

     Os índios são auto suficientes, aprendem a fazer tudo o que vão precisar ao longo da sua vida como construir suas Malocas (casas) e a fabricar seus instrumentos. A história de seu povo e o que deveriam aprender para serem independentes era passada oralmente dos mais velhos para os mais jovens.

            A atividade mais honrada para os Tupinambás era a guerra e praticavam o canibalismo com seus prisioneiros. Havia um forte sentimento do bem comum. Eles possuíam sua casa, mas a terra não era de ninguém, era de todos e compartilhada por todos. O chefe não dá ordens a ninguém, cada um sabe sua função na tribo e não é obrigado a realizá-la. Conviviam pacificamente com a natureza e festejavam nascimentos, colheitas, chuvas, etc. Não havia diferença clara entre o que era trabalho e o que era arte.

            Embora não possuamos todos os hábitos dos índios, alguns costumes como o de tomar banho todos os dias, passou de geração em geração e persiste até hoje. A diferença está em como esse “tomar banho” adequou-se a nossa realidade urbana. Os índios banhavam-se em rios, nós tomamos banho em banheiros com chuveiros ou banheiras. Eis uma das adaptações e transformações que uma cultura pode obter ao longo dos anos.

 

 

 

            Bibliografia

            BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Média. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

            DOCUMENTÁRIO O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

                         

           

           

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 22 mai 2010 @ 7:46 PM 

      Universidade Federal de Pernambuco     

Aluna: Luany Maria Gondim Campos

 Turma: I Turno: tarde Curso: Turismo

Disciplina História da cultura

Trabalho apresentado ao professor Severino Vicente da Silva

Data: 22 de maio de 2010

 

 

 

Resumo da parte I “A descoberta do povo”, do livro “ cultura

popular na idade moderna”                                               

 

 

 

A descoberta do povo, parte I do livro cultura popular na idade moderna nos mostra como o povo, seu jeito e seus costumes se tornaram curiosidade para muitos estudiosos. Foi no inicio do século XIX, justamente quando a cultura popular tradicional estava começando a desaparecer que o “povo” se tornou “objeto” de interesse de grandes intelectuais da época. Houve uma série de razões para esse interesse pelo povo nesse momento da história européia, entre elas, uma das principais que pode se destacar é a revolta contra a “arte”, o artificial se tornou um termo pejorativo, enquanto selvagem virou elogio. Os artesãos e camponeses ficaram assustados ao verem suas casas sendo invadidas por gente bem vestida querendo que eles cantassem suas canções tradicionais ou contassem velhas estórias. Herder, jornalista, e os irmãos Grimm construíram obras de grande influência na época, Herder dizia, ou deixava implícito, que no mundo pós-renascentista, apenas a canção popular conservava a eficácia moral da antiga poesia, e os irmãos Grimm consideravam a poesia popular uma “poesia da natureza”.

João e Maria, correndo para a casa de comida

João e Maria, correndo para a casa de comida

Além da canção popular, outras formas de literatura passaram a ser elegantes, como o bilder-reimen, mais conhecidos como panfletos satíricos alemães que segundo o poeta Ludwig Tieck tinha uma maior inventividade autêntica e são mais simples e muito melhores do que os livros da época. Havia também o conto popular transmitido por tradição oral, que inclusive os irmãos Grimm fizeram uma coletânea dos contos, e acreditavam que, de fato, aquelas estórias exprimiam a natureza do povo. E finalmente, havia a “peça popular”, categoria que incluía o teatro de bonecos. Esse grande interesse por diversos tipos de literatura popular era parte de um movimento ainda mais amplo que se pode chamar a descoberta do povo. Houve ainda a descoberta da religião popular, das festas populares e da música popular, embora não tenha sido visto um interesse mais próximo pela arte popular. Embora esse tenha sido um movimento de grande amplitude e se fale na descoberta da cultura popular durante essa época, antes mesmo disso, estudiosos já haviam descrito os costumes populares; o que difere em Herder, os irmãos Griim e seus seguidores é a ênfase no povo e a crença de que cada um deles fazia parte do “todo”, expressando o espírito de uma nação. Para alguns intelectuais o povo era visto de uma forma exótica, e o apelo desse exótico estava no fato de ser selvagem, natural, livre das regras do classicismo. Esse movimento foi também uma reação contra o iluminismo, contra seu elitismo, seu abandono da tradição, contra sua ênfase na razão, a descoberta da cultura popular estava intimamente ligada à ascensão do nacionalismo. Tinha a idéia de unir o povo dividido, da autodefinição e da libertação nacional, a sociedade estava sob domínio estrangeiro e tinha o desejo de reviver a cultura tradicional. Em suma, a descoberta da cultura popular  fazia parte de um movimento de primitivismo cultural no qual o antigo, o distante e o popular eram todos igualados.

 

 

Bibliografia 

 

 

BURKE, Peter. Cultura popular na idade moderna. São Paulo: compainha das letras, 1995.

 

http://www.cefetsp.br/edu/eso/patricia/descobertapovo.html

Acesso em 22/05/2010

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMABUCO

CURSO DE TURISMO

História da Cultura

Prof. Severino Vicente da Silva

 

Análise e comparação do livro

Cultura Popular na Idade Moderna e o documentário

O Povo Brasileiro

 

Natália Saldanha Sobreira Valois

Curso de Turismo

Área IV, 2010.1

 

 

Bico de pena de Albert Durer

Bico de pena de Albert Durer

 

O documentário O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro, é evidentemente baseado na obra do autor, com o mesmo nome do filme, publicada em 1995. Com a narração de Matheus Nachtergaele, o filme conta a participação de inúmeros músicos e intelectuais brasileiros, como Chico Buarque, Tom Zé, Antônio Cândido, Aziz Ab’Saber, Paulo Vanzolini, Gilberto Gil, Eduardo Gianetti e diversos outros.

Com entrevistas do próprio autor, citações de poemas e outras obras e vídeos históricos, o documentário enfatiza o orgulho cultural do povo, de nossas raízes e dessa mistura particular que vem acontecendo no Brasil desde antes da colonização européia através dos índios. Um Brasil formado por índios, europeus, negros, crioulos, sertanejos, sulistas, caipiras, caboclos, da mistura de todas as raças, tentando buscar e trazer toda a virtude de toda a história da humanidade num povo só.

No filme basicamente o autor comenta que os indígenas foram os primeiros agentes de estruturação da nossa sociedade. Cita que antes da colonização, a população do território brasileiro era constituída por dois a cinco milhões de indígenas, pertencentes a varias nações ou etnias. As mais numerosas, e que ocupavam as maiores extensões territoriais, eram a etnia de e a Tupi Guarani.
A partir de 1500, as etnias nativas passaram a sofrer genocídio – extermínio físico; ou etnocidio – destruição da própria cultura, passando a falar outra língua, a seguir uma nova religião, alterando o modo de se vestir e de alimentação, integrando-se à sociedade dos colonizadores. Desta forma criando uma discussão sobre formação dos brasileiros, sua origem mestiça e a mistura cultural que ela resultou.

 

Já o livro Cultura Popular na Idade Moderna de Peter Burke fala sobre o início da Europa moderna com muita atualidade. Cita com importância os problemas conceituais, o contexto político e as dificuldades metodológicas de qualquer estudo deste gênero, que tem a ausência de testemunhos diretos com abordagens oblíquas.

Com sabedoria, exemplifica também um lado que deixa claro os valores e atitudes de artesãos e camponeses, revela seu conteúdo contestatório e os esforços doutrinadores da elite, que, paradoxalmente, resultaram na separação das culturas, dentro de uma mesma sociedade.

O autor analisa alguns dos  sentidos atribuídos ao termo “cultura popular” e enfatiza um modelo no qual há uma oposição entre pequena tradição e grande tradição – sendo que a pequena tradição é um sinônimo para cultura popular, referindo-se à cultura da maioria inculta, iletrada, que é transmitida informalmente; e a grande  tradição é  definida como a  cultura da elite, da  minoria culta, que é transmitida formalmente nas escolas, universidades. Segundo o autor, a minoria culta teria competência nas duas tradições e a maioria iletrada apenas em uma.

Podendo-se dizer que o livro basicamente resume um quadro da cultura popular na Europa pré-industrial.

Analisando esse dois gêneros, tanto o vídeo quanto o livro, podemos relacionar os dois como uma análise da cultura dentre o passar dos anos. Pois relacionam tipos de culturas, sejam entre nacionalidades como índios e europeus, ou entre classes sociais de diferentes épocas, mostrando que há culturas que se relacionam.

 

Bumba meu Boi

Bumba meu Boi

 

Bibliografia

 

 

 

  • BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das letras, 1995.

 

  • BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. Edição revista e atualizada. São Paulo: FTD, 2000.

 

  • Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Curso de bacharelado em turismo

História da Cultura

Prof. Severino Vicente

Aluna: Natália Saldanha Sobreira Valois

 

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 21 mai 2010 @ 9:01 PM 

Universidade Federal de Pernambuco

Curso: Turismo 2010.1

Alunos: Renato Santiago e Rebeca Santos

Profº Severino Vicente da Silva – Biu Vicente

História da Cultura

 curupira

            A definição de Cultura Popular é, de fato, bastante complicada. É arriscado criarmos um conceito de cultura, pois ele se modifica de tempos em tempos. Segundo Burke, cultura popular seria um conjunto de práticas culturais influenciadas pelas camadas mais pobres da sociedade. O livro aborda que a cultura tendia a referir-se à arte, literatura e música. Hoje, contudo seguindo o exemplo dos antropólogos, os historiadores e outros cientistas sociais usam o termo “cultura” muito mais amplamente, para referir-se a quase tudo que pode ser apreendido em uma dada sociedade, como comer, beber, andar, falar, silenciar e assim por diante. Peter Burke apresenta toda a complexidade do termo “cultura popular”. Primeiramente, é apresentado como sendo a cultura das classes marginalizadas, subalternas, valorizando os artesãos e camponeses do início da Europa Moderna, partindo de um mundo diferente do de hoje, retirando os costumes contemporâneos.

No início dos tempos modernos, segundo o texto, existia uma cultura popular comum tanto na maioria da população quanto na pequena parcela privilegiada. Até a primeira metade do século XVII, havia participação das elites nas festas de rua, juntamente com as pessoas menos favorecidas, isso significou que, ao longo dos anos,  a renascença, as reformas religiosas, a revolução científica fez com que os costumes se transformassem e fosse criada uma imensa distância entre as classes.

No século XIX, os intelectuais por meio do conhecimento e estudo do folclore, redescobrem a cultura popular. Segundo Burke, como a causa das transformações ocorridas na cultura popular foi o fato de as reformas religiosas empreenderem um esforço de reformulação da religiosidade popular na Europa com o objetivo de adaptar seus caprichos e aparências, ainda no século XVI. O real significado do conceito de cultura está relacionado entre a classe da elite e não-elite.

Apesar de o autor deixar vago que as duas culturas não permaneceriam estanques, mas em interação, o texto é desenvolvido baseado na análise da sociedade, decomposta em classes, podendo assim se chegar a um entendimento sobre quem é o povo detentor da cultura popular. Tal compreensão nos confunde, o autor compreende a cultura como um produto que é refletido através da hierarquia social, mas em outra ocasião fala que as culturas são únicas e não estão sujeitas a comparações.

A “descoberta do povo” foi quando os setores cultos da sociedade passaram a se interessar por coleções de poesia popular, contos e músicas. Havia uma série de razões estéticas e intelectuais para isso ocorrer.  Há algumas coleções de canções populares que produziram sentimentos nacionalistas, como uma intitulada de Wunderhorn, publicada simultaneamente com a invasão napoleônica na Alemanha. Tal publicação teve o real objetivo de estimular a consciência nacional alemã, e segundo um líder prussiano, foi um auxílio na luta contra os invasores. Sendo assim podemos concluir que a cultura popular pode ser um elemento para unir a nação, no sentido de oferecer a esta uma memória a ser compartilhada.

Entender o sentido do que hoje somos é muito mais do que um desafio, constituí num longo e detalhado processo de trabalho. A reflexão sobre a nossa formação nos leva às nossas origens, à história que como brasileiros, fomos construindo. A realidade na qual nos encontramos traz reflexões e pontos de vista provenientes de outros contextos.

Darcy Ribeiro

No que tange esse desafio de nos tornar “explicáveis”, Darcy Ribeiro indica um conjunto teórico a partir do nosso contexto histórico, ele reúne um conjunto de pesquisas que culminam em uma Teoria do Brasil até então inédita. Implicitamente à descrição desta teoria, está sua preocupação em entender por quais caminhos passamos e que nos levaram a diferenças sociais tão profundas no processo de formação nacional.

Os brasileiros se sabem, se sentem e se comportam como uma só gente, pertencente a uma mesma etnia, será? Essa unidade não significa, porém nenhuma uniformidade. O homem se adaptou ao meio ambiente e criou modos de vida diferentes, tolerância, convivência, civilidade, etc. A urbanização contribuiu para uniformizar os brasileiros, sem eliminar suas diferenças. Fala-se em todo o país uma mesma língua, um mesmo idioma só diferenciado por sotaques e gírias regionais. Mais do que uma junção de etnias formando uma etnia única, a brasileira, o Brasil é um povo nação, ajustado em um território próprio para nele viver seu destino.

Foi essa gente composta de índios, alma de índios, de negros, de mulatos, que fundou esse país. Ao longo da costa brasileira se encontraram duas visões de mundo completamente opostas: a “selvageria” e a “civilização”. Concepções diferentes de mundo, da vida, da morte, do amor, se chocaram.

No primeiro capítulo, ele, Darcy Ribeiro, apresenta as diferenças entre as matrizes étnicas tupi e lusa; as suas opostas visões do mundo, da vida, da morte, do amor; o processo civilizatório, de colonização distinta da América anglo-saxônica, que estabelece aqui um império mercantil salvacionista; a “atualização histórica”, que forçou os índios a incorporarem-se a uma sociedade mais avançada.

 

Referências Bibliográficas

 

BURKE, Peter. Cultura Popular na Idade Moderna. 2ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 49p.

 

Documentário O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro

 

BUENO, Silveira. Minidicionário da língua portuguesa. Ed. Ver. e atual. São Paulo: FTD, 2000.

 

http://recantodasletras.uol.com.br/resenhasdelivros/537837

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 26 abr 2010 @ 11:17 AM 

 Universidade Federal de Pernambuco – UFPE

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

História Moderna I

             

 

 

 

 

 

 

 

As Reformas Protestantes – Século XVI

 

 

  

 

Trabalho apresentado por Deíllio M. S. Souza, Daniel S. Gomes, Ramon de Oliveira, Carlos Alberto e Vlademir Gomes ao Curso de Graduação em História, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, como parte dos requisitos obrigatórios à primeira avaliação da disciplina História Moderna I.

Professor: Severino Vicente da Silva.

 

 

Recife, 2010

 

 

Sumário:

Introdução ………………………………………………………………………………………………..1

Vlademir Gomes

 

  1. A Reforma Luterana ……………………………………………………………………….4

Daniel S. Gomes

  1. Lutero, Um Frei Devoto e Rebelde …………………………………………4
  2. As 95 Teses: Questionamento ou Ruptura? ……………………………..5
  3. A Misericórdia de Ser Pecador ……………………………………………….7
  4. O Universalismo Hierárquico: Polêmicas, Excomungão e Ruptura 8
  5. Lutero Como Pensador Político ………………………………………….10 
  6. A Reforma Calvinista ……………………………………………………………………13

Deíllio M. S. Souza

  1. João Calvino ………………………………………………………………..13
  2. O Papel da Igreja …………………………………………………………………….15
  3. A Bíblia …………………………………………………………………………………..16
  4. O pecado e a Justificação ………………………………………………………….16

 

  1. A Reforma Anglicana ……………………………………………………………………18

Ramon de Oliveira

  1. Reforma no Tempo de Henrique VIII (1509-1547) ………………..18
  2. A Reforma no Reinado de Eduardo VI (1547-1553) ………………..19
  3. A Contra-Reforma no Governo de Maria Tudor (1553-1558) …….19
  4. Consolidação da Igreja Anglicana Sobre Elizabeth (1558-1603) …..20

 

  1. A Contra-Reforma ………………………………………………………………………..21

Carlos Alberto

  1. Introdução ……………………………………………………………………………….21
  2. Inácio de Loyola ……………………………………………………………………….22
  3. A Intolerância e Suas Conseqüências …………………………………………22
  4. A Guerra dos Trinta Anos ………………………………………………………….22

 

Bibliografia …………………………………………………………………………………………………24

 

Introdução

Por Vlademir Gomes

 

  • SOCIEDADE NO PERÍODO PRÉ-REFORMA

O surgimento da Reforma Protestante foi e continua sendo considerado um dos mais importantes acontecimentos da história, pois suas conseqüências, ainda hoje, permanecem vivas em nível religioso, político, econômico e cultural. Para entender esse fenômeno, devemos enquadrá-lo no contexto da época e, sobretudo, evidenciar as causas que o determinaram.

  • CAUSAS DA REFORMA
  • Causas político-religiosas

A partir do século XIV, a autoridade dos papas sofreu um forte declínio: de um lado, perderam a força política com que, embora em meio a lutas e resistências, nos séculos anteriores conseguiram erigirem-se como supremos moderadores nas controvérsias políticas. No século XIV, na Europa, começou a afirmar-se o nacionalismo com os soberanos locais, que se desvinculavam da submissão ao imperador e ao papa.

Do outro lado, o exílio de Avinhão (1309-1376), com a dependência do papa ao rei da França, e o cisma do Ocidente (1378-1417), durante o qual houve até três papas ao mesmo tempo, abalaram muito a autoridade e o prestígio do pontífice romano diante do povo. Nesse contexto, surgiram teorias chamadas conciliaristas, que sustentavam a superioridade do concílio sobre o papa, chegando a propor modelos de Igreja de tipo “democrático”. Como conseqüência de tudo isso, afirmou-se a tendência para a formação de Igrejas nacionais (na França, Alemanha e Inglaterra), o que constituiu uma das principais causas da revolução protestante.

  • Causas culturais

Um vento de novidade percorreu a Europa a partir do século XV: era o Renascimento que, reagindo à fuga do mundo e à subordinação direta de tudo à religião, típicas da Idade Média, reivindicava a necessidade da autonomia das atividades humanas. Era o início do caminho que levou o homem ocidental ao progressivo afastamento e até negação de Deus. A teologia perdera o contato com a reflexão dos grandes autores medievais (Tomás de Aquino, Boaventura) para reduzir-se a discussões vazias, longe da realidade (nominalismo). Occam, que exerceu grande influência sobre Lutero, reduzia muito a capacidade da mente humana de atingir a realidade, enquanto exacerbava a onipotência divina. Em geral, “a teologia”, como dizia o próprio Lutero, “está reduzida a meras opiniões… sem mais certeza alguma”.

Wycleff, Hus e Wessel, fundadores de movimentos reformadores nos séculos XIV e XV, contrapunham à Igreja visível uma Igreja espiritual e pobre, sem poderes nem estruturas.

Nesses mesmos séculos, difundiram-se correntes espirituais e místicas, que acentuavam a dimensão íntima e subjetiva na experiência com Deus ou que evidenciavam unilateralmente a onipotência da graça divina, chegando até a considerar inúteis as obras do cristão para sua salvação. Essas idéias terão lugar fundamental na doutrina luterana.

  • Causas religiosas

Além daquelas que apareceram anteriormente, há uma causa que já lembramos: a corrupção da Igreja. Dissemos que esta não pode ser considerada a causa principal da Reforma Protestante, mas é inegável que ela tornou mais fácil a difusão da revolta. Os bispos provinham exclusivamente da nobreza, quase todos levavam uma vida mundana, ocupados em ficar cada vez mais ricos, sem preocupar-se com sua responsabilidade pastoral. Os sacerdotes eram numerosos, mas constituíam, sobretudo no campo, o proletariado clerical: pobres, pouco instruídos, em sua grande maioria não observavam o celibato. Também nos conventos, masculinos e femininos, a situação muitas vezes era lamentável.

Dito isso porém, não deve fazer esquecer que, já antes de Lutero, havia notáveis iniciativas de reforma em toda a Igreja por parte de religiosos, bispos e leigos.

 

 

  • Causas sociais

Sobretudo na Alemanha, duas classes sofriam com a crise econômica surgida após a descoberta da América: os cavaleiros e os camponeses. Os primeiros tinham perdido seu antigo poder e procuravam o meio para recuperá-lo: assim, a posse dos bens da Igreja poderia oferecer-lhes uma cômoda e fácil oportunidade. Entre os camponeses, ainda na condição de escravos, há muito estava incubado o fermento revolucionário, que já havia explodido com violência em revoltas que, periodicamente, sacudiam a Alemanha, desde o final do século XV. Eles esperavam a hora da própria libertação.

Todo esse conjunto de fatores religiosos, culturais, políticos e sociais constituía um imenso material explosivo. Bastava uma centelha para fazê-lo estourar. A ação de Lutero foi o estopim, com sua personalidade forte e inspirada. A data exata do começo desse processo foi estabelecida a partir das 95 teses de Lutero, publicadas em novembro de 1517.

Na mesma época, independentemente de Lutero, começaram sua pregação Zwinglio, na Suíça de língua alemã, e João Calvino, na de língua francesa. O movimento reformador, surgido em países diferentes e em determinadas situações históricas, apresenta – dentro de algumas diferenças inevitáveis – uma característica de unidade fundamental.

  

 

 

 A Reforma Luterana

Por Daniel S. Gomes

 

1.1                 Lutero, Um Frei Devoto e Rebelde.

          Nascido em 10 de novembro de 1483, em Eilenben, na Turíngia, um dos muitos territórios alemães do final do século XV, filho mais velho de Hans Luder, um pequeno aldeão que atinge a classe média ao se tornar empresário de minas, e Margareth Luder, Martim Luder foi uma dos intelectuais mais polêmicos e controversos da história ocidental. Suas decisões e ideais soam-lhe tão pessoais a ponto de não só a sua decisão de seguir a vida monástica como também a sua militância ideológica serem explicitamente expressões de seu íntimo. Seu sobrenome é um exemplo. Um ano após compor as 95 Teses ele, com base na palavra grega eleutheros (livre, liberto), exclui de seu sobrenome o “d” e substitui por “th”, passando a considerar-se eleutherius, Lutherus, Lutero[1].

        Tanto na família como na escola, Lutero teve uma educação severa, bom aluno, e ao mudar-se para Mansfeld, foi enviado pelo seu pai à escola de Magdeburgo, dirigida pelos Irmãos da Vida Comum, um movimento de “devoção moderna” de temor a Deus, e, posteriormente, foi para a escola de Eisenach. Por fim, ingressou na Universidade de Erfut, onde, em 1502, se bacharelou e licenciou-se em filosofia. Após lecionar filosofia durante alguns anos, seu pai o encaminhou para a Faculdade de Direito, curso que não concluiu devido ao acaso de estar envolvido em um temporal perto de Stotternheim e naquele momento ter feito o seguinte voto: “Santa Ana se me auxiliares, tornar-me-ei monge!”.

         Em julho de 1505, Lutero ingressa na congregação de Eremitas de Santo Agostinho de Erfut na condição de noviço, mesmo sem a aprovação do pai. A ordem agostiniana determinou que ele viesse a se tornar professor de Teologia. E, em 1508, foi enviado para Wittenberg, onde se tornou bacharel e doutor em Teologia. Até o final de sua vida Lutero seria professor de Bíblia, um exegeta, na Faculdade de Teologia da Universidade de Wittenberg.

          Os motivos que levaram Lutero a seguir a vida monástica são misteriosos até hoje. Sabe-se que, assim como todo homem medieval, sua grande preocupação foi com a questão da salvação. Sem dúvida, a possibilidade de morrer sem estar preparado, levou-o a se questionar sobre a salvação e o caminho a ser tomado para alcançá-la. Sua angustia era tanta que, durante a sua primeira missa, no momento da elevação da hóstia e do cálice, tomou-se de pavor por se sentir indigno perante Deus[2]. Contudo, não tinha duvida sobre sua vocação e, durante toda a sua vida monástica, dedicou-se ao máximo para alcançar a dignidade de ser um representante de Cristo perante o altar.

          No entanto, suas angustias só iriam se apaziguar quando o seu questionamento sobre a fé o levasse a medidas radicais contra aquilo o que ele antes acreditava que poderia lhe trazer a paz, a Igreja. Talvez tenham sido proféticas as palavras de Hans Luder quando, ao se referir à vocação de seu filho, tenha afirmado: “Queira Deus que isso não seja o apelo do diabo[3].” Tais palavras serão um estimulo para Lutero expandir seus horizontes teológicos.

 

1.2                 As 95 Teses: Questionamento ou Ruptura?

          As indulgências, surgidas no século XI, estão ligadas ao sacramento da penitência, dado que o pecado não acarreta apenas culpa, mas também castigo. Na penitência espera-se o arrependimento do pecador. Isto pode ser feito de duas formas, através da reparação, ou seja, assumindo seus atos aqui no plano terreno, ou da expiação, recebendo uma sentença no purgatório[4]. A doutrina da emissão das indulgências está ligada ao direito divino e eclesiástico da Igreja em perdoar, através de suas relíquias santas, os pecados dos cristãos. De início, as indulgências eram emitidas apenas aos castigos temporais impostos pela Igreja, ou seja, a penitência de reparação, depois se passou aos castigos purgados por Deus, ou seja, os de expiação, e, finalmente, passou-se aos pecados de parentes já falecidos.

          As indulgências não eram emitidas de graça, o desejo de salvação do povo vem em encontro das necessidades econômicas da cúria papal: a lucratividade das indulgências se equiparava à função que mais tarde viriam a ter os empréstimos. Contudo, Roma não foi o único centro de indulgências, os papas delegavam a outras igrejas o privilégio de emitir suas indulgências. A própria igreja do Castelo de Wittenberg, que tantas vezes ouviu os calorosos sermões de Lutero, era um destes centros. Segundo as crônicas da época, dentre suas diversas relíquias, Frederico, o Sábio, possuía até mesmo um dos espinhos da coroa de Cristo com certificado de genuíno, o qual lhe proporcionava um tremendo lucro, ao fazer sua exposição pública no dia de Todos os Santos.

          Porém, em 1517, o papa Leão X concede o privilégio das vendas das indulgências ao arcebispado de Mainz, dirigido pelo bispo Alberto de Brandemburgo, em troca, a casa bancária dos Fugger concederia uma elevada soma adiantada para a remodelação da Basílica de São Pedro. Temendo a fuga de dinheiro para fora de seu Estado, Frederico, o Sábio, de quem Lutero é súdito, proíbe, em seus domínios, a entrada de vendedores das indulgências do arcebispado de Mainz. A medida, porém, não se mostra eficaz, pois os súditos atravessam a fronteira em busca das indulgências e voltam mais pobres, mas sentindo-se redimidos de seus pecados.

          Como é possível perceber, o ano o qual as 95 Teses vieram à tona foi em um momento bastante oportuno e não foi à toa que o príncipe Frederico, o Sábio, apoiou arduamente as investidas de Lutero contra a Igreja. Mas, apesar de seu conteúdo objetivo e contundente, as Teses não foram apresentadas com o intuito de ruptura – ao menos esta não era a intenção de Lutero naquele momento – a prova disto é que, provavelmente, segundo K. Honselmann e E. Iserloh, no dia 31 de outubro de 1517, as 95 Teses não foram fixadas na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, mas sim enviadas nesta data a determinadas autoridades eclesiásticas, inclusive a Alberto de Brandeburgo, com o intuito de se discutir sobre o valor das indulgências. Mas por não receber notícias, acabou por enviar para alguns de seus amigos[5]. Todavia, as Teses foram impressas e distribuídas sem o conhecimento de Lutero, elas se espalharam por todo o império, as repercussões foram enormes.

          Em suas Teses Lutero não exclui todo tipo de indulgência, mas sim, restringe às penas temporais impostas pela Igreja, ou seja, à penitência de reparação; mas, mesmo assim, para Lutero, de nada iria adiantar esta indulgência sem o arrependimento dos pecados e o temor a Deus, caso o contrário, será apenas uma falsa segurança:

 

“Erram (…) aqueles apregoadores de indulgências que afirmam que a pessoa é libertada e salva de toda a pena pelas indulgências do Papa. (…) de todas as penas, o Papa não entende simplesmente de todas, mas somente daquelas que ele simplesmente impôs. (teses 20 e 21)”.

 

          Mais adiante ele continua:

 

“Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remição plena de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência; Mesmo assim a remição e participação [da indulgência] pelo Papa de forma alguma deve ser desprezadas, porque (…) constituem declaração do perdão divino. (…), porém [as indulgências são] muito prejudiciais quando, de posse delas, perde-se o temor de Deus. (teses 36 e 38)”.

 

          Desta maneira, Lutero afirma, ainda timidamente, que o pecado é perdoado apenas por Deus, sendo útil, mas não essencial, o “alvará” dado pela Igreja, relativizando, assim, o poder hierárquico da Igreja. Além disto, ele também afirmava publicamente a permanência do pecado no homem. Portanto, só alcançaria a graça aquele que, diante de sua imperfeição, justificasse seus atos guiando-se pela fé.

 

1.3                 A Misericórdia de Ser Pecador.

          Logo ao entrar no convento, Frei Martinho, como era chamado, recebeu uma Bíblia. Identificando-se com o pensamento de Santo Agostinho e Pedro Lombardo, Lutero optou por uma teologia não aristotélica. Seu pensamento guiar-se-á por uma vertente voltada para o místico e através deste pensamento, ele irá cultivar a idéia de que o “homem deve abrir o coração passivamente à ação de Deus” [6]. Portanto, buscando arduamente meios de alcançar a salvação, Lutero se identificará com algumas teorias onde a principal foi o occamismo, tão difundido em sua época.

          Os dois célebres occamistas foram G. Biel e P. d’Ailly. Lutero encontrou na obra destes autores uma separação radical do mundo em dois domínios: o da natureza, aberto à observação e à ação do homem, podendo por suas forças naturais se conformarem a qualquer comando através da razão, evitando o pecado, tornando-se merecedor da graça; o segundo é o de Deus, incognoscível e insondável, exceto pela revelação – “não podemos saber o que o Todo-Poderoso pensa e como julga” [7]. Daí, como saber se as nossas ações, guiadas pela razão, são meritórias da benção divina aos olhos de Deus?

          Este questionamento levou Lutero a desenvolver sua própria teoria, mantendo a ideia de transcendência absoluta de Deus, mas negando o otimismo de Biel de que o homem por intermédio da razão evita todos os pecados mortais.

          Lutero, por influência da escolástica de Pedro Lombardo, chegou à conclusão de que, devido ao pecado original, o homem permanece indigno e incapaz de merecer a felicidade eterna. Logo, o mal é algo inerente ao homem. E, para ele interagir com a natureza, o homem terá que se guiar pela fé, não pela razão, tornando-se submisso a Deus, e este, por sua vez, mesmo sabendo do mal existente no homem, concede-lhe a graça, pois a misericórdia de Deus antecede qualquer ação humana. Assim, deve-se apenas justificar aquilo que, de antemão, já se é merecedor, ou seja, a fé antecede as obras, mas não o isenta do pecado. Esta é a verdadeira penitência e a verdadeira “liberdade”.

 

 

1.4                 O Universalismo Hierárquico: Polêmicas, Excomunhão e Ruptura.

          Em 1516, um ano antes da polêmica das 95 Teses, a teoria citada anteriormente já tinha sido formulada por Lutero, a qual ele expôs em seu comentário sobre a Epístola dos Romanos, porém, algo ainda estava incompleto. O polêmico sucesso das Teses terão conseqüências que o levaram a novos questionamentos e a um engajamento político-teológico que intensificarão os antigos atritos políticos do Sacro Império Romano Germânico.

         Roma encarregou um tomista de renome, o Cardeal Cajtano, de analisar as Teses e, logo após, foi instaurado um inquérito contra Frei Martinho. Em 7 de agosto de 1518, Lutero foi convocado para comparecer a Roma, contudo, sua Dieta foi realizada no mês de outubro na cidade de Augsburgo. Nesta Dieta, foi revelada a má vontade da nobreza alemã em relação à idéia de cruzada e, principalmente, às novas taxas que deveriam financiá-las[8]. O ponto de concordância era que Lutero cessaria toda a polêmica das indulgências e os enviados do Papa se comprometeriam em conseguir de Leão X que o julgamento de Lutero fosse feito por uma universidade alemã. Lutero proclamou obediência a Santa Sé, mas o acordo era muito fraco para conter a polêmica que fora despertada.

          Em 22 de fevereiro de 1519, Lutero descarrega um caloroso sermão contra o poder pontifício e, entre 4 e 5 de julho de 1519, ocorreria o debate que ficou conhecido como Disputa de Leipzig. Nesta Disputa, Lutero, confrontando-se intelectualmente com João Eck, defendeu a tese de que os concílios podem errar e que João Hus[9] foi condenado injustamente pelo Concílio de Constança. Entretanto, Eck convenceu Lutero de que se o Concílio cometeu uma injustiça, como explicar a discordância de Lutero para com uma das proposições que condenou João Hus: “Não é necessário para a salvação acreditar que a Igreja Romana seja superior às outras[10]”. Nasceria daí o que faltava para aqueles que se justificavam pela fé.

          Se antes Lutero não desejava uma ruptura com Roma, o germe para isto já estava lançado. Em fevereiro de 1520, diversos escritos de Lutero são censurados[11], culminando, junto aos argumentos de João Eck, na bula Exsurge Domine, a qual estipulava um prazo de sessenta dias para Lutero se esclarecer. Este, por sua vez, convidou mestres e estudantes da Universidade de Wittenberg a presenciarem, em praça pública, a combustão de sua bula de excomunhão e diversos livros de direito eclesiásticos. Depois é publicado um contundente escrito intitulado Porque os Livros do Papa e de Seus Discípulos Foram Queimados pelo Dr. Martinho Lutero. Das chamas de sua bula de excomunhão nascia a fogueira que dividira a cristandade.

          A Disputa de Leipzig revelou  Lutero àquilo que já estava implícito em sua teoria, porém ainda não tinha se dado conta. Se o homem, diante de sua imperfeição, guia-se pela fé, não por salvação, mas sim, por submissão a Deus; pelo fato deste, em sua misericórdia, proporcionar-lhe o paraíso sem querer nada em troca, Lutero chega à conclusão de que, aquele que crê, não necessita de um intermediário para receber a graça divina. Portanto, sem negar a utilidade da hierarquia na sociedade, Lutero não irá ver diferença entre padres e fiéis, podendo qualquer um ser iluminado a saber mais do que qualquer concílio. Os fiéis, segundo Lutero, seriam um sacerdócio universal.

          Excomungado, porém mais seguro de sua ideologia, Lutero estava sujeito a receber da Igreja medidas drásticas contra a sua “heresia”, mas por ser súdito germânico, o jovem imperador Carlos V concede-lhe o direito de defesa, assim como determinava a Constituição do Império. Lutero, contudo, decidiu desta vez não se retratar, afirmando: “Eu não posso nem quero me retratar, porque não é seguro nem sincero agir contra sua consciência. Que Deus me ajude. Amém![12]”.

          Em abril de 1521, através do Edito de Worms, Lutero é formalmente banido do solo alemão e seus livros são queimados como heréticos. Até mesmo a sua vida corre perigo. Em meios a diversas perturbações e ameaças, Lutero recebe ajuda do príncipe Frederico, o Sábio, abrigando-o no Castelo de Wartburg. Enclausurado, com o nome de Cavaleiro George, ele trabalha arduamente em duas de suas obras mais importante: Tratado Sobre os Votos Monásticos, onde afirma não haver na Bíblia nenhuma exigência em se fazer voto de castidade; e em sua tradução da Bíblia, que apesar de não ser a primeira tradução, a singularidade de sua obra esta no uso de uma linguagem estritamente correta, porém simples, acessível a todos. Sem falar que a tradução luterana da Bíblia definiu o padrão do que viria a ser o alemão moderno.

           As burguesias urbanas se inclinavam cada vez mais para a Reforma. Os príncipes, a princípio, hesitaram em seguir o exemplo de Frederico, o Sábio, mas, gradativamente, os grandes príncipes do Império iriam aderir a Reforma e se recusariam a aplicar o Edito de Worms. Em 1529 sai uma nova Dieta tentando impor aos príncipes a aplicação do Edito de Worms, seis príncipes, dentre eles João da Saxônia, sucessor de Frederico, e quatorze cidades protestam. Nasce daí o nome Protestante. Em março de 1531, constituiu-se a liga de Smalkald, movimento de adesão ao luteranismo. A ruptura estava oficialmente selada – e os conflitos também.

 

1.5                 Lutero Como Pensador Político.

          Os principados duelavam simultaneamente contra o Império e contra a Igreja. Até que por volta de 1555 é instituída a Paz de Augsburgo, onde se repartia a Alemanha entre Luteranos e Católicos, de acordo com o princípio Cujus rejio, hujus religio (a religião dos governantes dita a religião dos governados), e dois terços do país se tornam Luteranos. Este acordo proporcionou o reconhecimento de uma nova perspectiva do cristianismo, como também legitimou a independência dos principados que se contrapunha a idéia de unidade universal.

          Lutero foi um dos primeiros a fundamentar em Deus o poder absoluto dos príncipes. Segundo a sua obra, O Apelo à Nobreza Cristã da Nação Alemã, o direito da igreja sobre o poder secular, o direito de exclusividade sobre a interpretação das Escrituras Sagradas e a prerrogativa de que apenas o Papa poderia convocar um concílio, são pontos estritamente criticados, pois são estas “muralhas” que restringem a liberdade do poder político e religioso. Para um melhor funcionamento destas duas esferas de poder, Lutero irá desenvolver a tese da Doutrina dos Dois Reinos.

          Segundo Lutero, Deus estabeleceu dois reinos, ambos criação de Deus, e ambos sobre o governo de Deus. Mas um está sob a lei (poder-civil) e o outro sob o evangelho (Igreja). Embora ambos tenham origem divina e estejam debaixo do mesmo poder, o governo civil foi estabelecido com o intuito de restringir os perversos  e limitar as conseqüências do pecado, inclusive podendo usar de violência se necessário. Tal atitude se justificaria, devido a ação de ambas as forças, a de Deus e a de Satã, agirem por sobre o mundo dos homens e nem todos estarem predestinados em, diante de sua imperfeição, serem um servo de Deus:

“A vontade humana se acha portanto colocada entre Deus e Satã e se deixa guiar e esporear como um cavalo. Se é Deus a guiá-la, vai aonde Deus quer e como Ele quer (…). Se Satã dela se apossa, vai onde ele quiser e como quiser. Ora a vontade humana em tudo isso não é livre de escolher um senhor: os dois cavaleiros combatem e disputam a posse dela”.[13]

 

          Lutero admitia que Deus instituiu o Estado para, por meio dele, controlar o pecado e a maldade do mundo. Mas, o reino temporal constitui um domínio distinto das funções do reino espiritual. A Igreja deve restringir a sua atuação às questões de fé, especialmente à pregação do evangelho, e, além disto, estar submissa ao poder civil. Todavia, não se deve pensar nesta distinção como no sentido moderno-liberal entre Igreja e Estado, como no pensamento iluminista. A maior influência do pensamento luterano deu-se através de sua contribuição ao absolutismo, onde o poder político age distinto do religioso, mas o rei é o representante direto de Deus na terra, logo suas ações são justificadas pelo mesmo. A Igreja só deve interferir no poder civil, quando este põe em risco os princípios cristãos.

          A adesão de Lutero ao princípio Cujus rejio, hujus religio foi uma tentativa conservadora de conter os atritos instigados com o advento da Reforma Protestante. Lutero não admitia uma hierarquia eclesiástica, mas admitia a necessidade de uma hierarquia social para existir a manutenção da ordem. Por isso, ele não hesitou em se posicionar contra as revoltas camponesas que, confusas em verem os velhos princípios jurídicos medievais serem substituídos pelas normas do Direito Romano, dando margem à propriedade privada, começam a se questionar porque não é possível alcançar uma vida melhor na terra, sem submissão, se é possível alcançar Deus sem uma hierarquia eclesiástica. A resposta era simples, para Lutero só contava uma única liberdade, a “a liberdade espiritual” do cristão. E até o final de sua vida ele terá três grandes inimigos: os Judeus, o Papa e os Anabatistas, movimento que além da reforma religiosa lutava por revoluções sociais.

 

A Reforma Calvinista

Por Deíllio M. S. Souza

 

2.1 João Calvino.

Afirmadamente um dos maiores pensadores da fé cristã, João Calvino nasceu em 1509, filho de Gerard Cauvin, “escrivão da cidade, defensor da provisória, agente fiscal e secretário do bispo, por fim procurador do cabido da sé” (DELUMEAU, 1989: p115), a princípio, teve uma formação que o direcionava para o mundo eclesiástico. Aos doze anos recebeu do bispo de Noyon cidade francesa onde nasceu, um primeiro benefício com o qual pôde custear seus estudos em sua cidade natal. Posteriormente, mudou-se para Paris onde estudou no colégio de La Marche e no de Montaigu, estudou na Universidade de Paris, onde teve contato com a educação escolástica assim como os primeiros humanistas e adeptos da teologia reformada de Lutero.

Contudo, em 1529, seu pai por conta de um desentendimento com o bispo foi excomungado pelo mesmo. Este fato pode nos parecer bastante isolado ou insignificante, mas ele desviou o jovem Calvino do caminho da educação eclesiástica quando, a pedido de seu pai, Calvino trocou Paris por Orléans, e a teologia pelo estudo do direito. É bastante interessante notar aqui, que o homem considerado como um dos mais célebres críticos da igreja não tinha formação teológica. Isto, porém, não nos serve de maneira alguma para desconsiderar a obra de Calvino, muito pelo contrário, sua erudição era notável. Em Orléans sua formação teve grande influencia dos humanistas e, após a morte de seu pai, já formado em direito, volta à paris e ingressa no Collège Royal, escola dedicada ao estudo da antiguidade cristã e clássica. Em 1532 escreveu um comentário sobre a obra de Sêneca intitulada De Clementia, nesta obra, descreve Martin N. Dreher, “deparamo-nos com um autor que conhece os filósofos gregos e latinos, que discute com Erasmo, mas que não revela ainda qualquer influencia de Lutero [mesmo tendo estudado anteriormente em Paris com Melchior Wolmar, um discípulo de Lutero]. Há influencias do humanista Faber Stapulensis[14], Jacques Lefèvre d’Etaple”. (DREHER, 2006: p.97).

Por esta época Calvino ainda não havia decidido abandonar a fé católica, segundo nos escreve Delumeau, ele declarou ter ficado bastante tempo longe dos escritos protestantes e teve muita resistência em aliar-se a fé reformada, principalmente pelos desacordos em relação à ceia: “Lutero interpretava a consubstanciação como a melhor teologia para a Ceia do Senhor; Calvino negava a presença física de Cristo, aceitando apenas a presença espiritual de Cristo pela fé nos corações dos participantes”. (CAIRNS, 1995: p.251). Somente a partir do final do ano de 1533, João Calvino começa a notar-se como protestante e a se expor publicamente como tal, ao auxiliar seu professor e então reitor da Universidade de Paris, Nicolas Cop, na elaboração do discurso a ser pronunciado em 1° de novembro daquele mesmo ano. O pronunciamento elaborado pelos dois estava tão prenhe de idéias humanistas e reformadoras que eles foram obrigados a fugir de Paris. Passando de cidade em cidade, Calvino retorna a Noyon, em 1534. Após um breve retorno a Paris e tomando consciência da impossibilidade de sua permanência na França, ruma para a Suíça, e o primeiro destino é a cidade de Basiléia, notadamente a cidade onde viveu e morreu Erasmo de Roterdã.

Em Basiléia, Calvino tenta viver de maneira pacata e sem chamar muito a atenção. Entretanto, ao saber das perseguições aos protestantes na frança busca pleitear em favor dos perseguidos e escreve um documento em defesa da fé protestante. Este documento é até hoje considerado a mais importante declaração de fé protestante, trata-se da Institutas, ou o Tratado, da Religião Cristã (Institutio christianae religionis), o qual é dedicado ao rei Francisco I da França para que Calvino elenque as razões que lhe levaram a escrever o documento por meio de uma carta endereçada ao rei logo no início de seu texto:

“Quando, de início, tomei da pena para redigir esta obra, de nada menos cogitava, ó mui preclaro Rei, que escrever algo que, depois, houvesse de ser apresentado perante tua majestade. O intento era apenas ensinar certos rudimentos, mercê dos quais fossem instruídos em relação à verdadeira piedade quantos são tangidos de algum zelo de religião. E este labor eu o empreendia principalmente por amor a nossos compatrícios franceses, dos quais a muitíssimos percebia famintos e sedentos de Cristo, pouquíssimos, porém, via que fossem devidamente imbuídos pelo menos de modesto conhecimento. Que esta me foi a intenção proposta, no-lo diz o próprio livro, composto que é em uma forma de ensinar simples e, por assim dizer, superficial.” (CALVINO, 2006: Tomo I p. 23)

 

Ainda em seu texto, defende os perseguidos de forma veemente:

“Como, porém, me apercebesse de até que ponto tem prevalecido em teu reino a fúria de certos degenerados, de sorte que não há neles lugar nenhum à sã doutrina, dei-me conta da importância da obra que estaria para fazer, se, mediante um mesmo tratado, não só lhes desse um compêndio de instrução, mas ainda pusesse diante de ti uma confissão de fé, mercê da qual possas aprender de que natureza é a doutrina que, com fúria tão desmedida, se inflamam esses tresloucados que, a ferro e fogo, conturbam hoje teu reino. Pois nem me envergonharei de confessar que compendiei aqui quase que toda a súmula dessa mesma doutrina que aqueles vociferam deveria ser punida com o cárcere, o exílio, o confisco, a fogueira, que deveria ser exterminada por terra e mar.” (IDEM: p. 23)

 

Além disso, o Tratado cristão detalha minuciosamente o pensamento e a teologia calvinista. Contudo, vale salientar que o material em questão é, sobretudo, complexo e amplo cabendo a nós, neste texto, não mais que uma breve análise a que faremos a seguir elencando três importantes pontos do pensamento de Calvino.

 

2.2 O Papel da Igreja.

Calvino argumentou a existência de duas igrejas, uma invisível, formada por pessoas a quem somente Deus se dá a conhecer o nome, e a igreja visível, humana, cuja formação é local, física e deve ser autônoma, mas não separada do Estado. A esta igreja visível é dada relevante importância por Calvino ao defender que “Deus quer que seus filhos se agreguem, não apenas para que sejam nutridos de seu labor e ministério, por tanto tempo quanto são infantes e crianças, mas também de seu cuidado materno sejam guiados até que amadureçam e, finalmente, cheguem à meta da fé”. (CALVINO, 2006: Tomo IV p. 23). Dessa forma, o indivíduo depende da igreja para seu desenvolvimento e conhecimento de Deus, sem ela, a interpretação da bíblia, por exemplo, fica limitada ao ser submetida ao despreparo do leitor leigo.

Para que a igreja pudesse cumprir sua missão materna, Calvino desenvolveu a doutrina das “Ordenações Eclesiásticas” formada por quatro ministérios. O primeiro era o ministério dos pastores, estes eram ordenados por ele e tinham por função a pregação e a condução dos sacramentos – batismo e ceia. O segundo era o dos presbíteros ou anciãos, cuja função era observar a comunidade quanto ao seu comportamento, ética e o cumprimento das escrituras. Juntamente com os pastores, os presbíteros formavam o Consistório, cuja principal função era evitar o retorno da igreja ao clericalismo. Em terceiro lugar estavam os diáconos, estes eram responsáveis pela assistência aos necessitados da comunidade, pobres e doentes principalmente. E finalmente os mestres, a quem Calvino dava grande importância, pois eram eles os responsáveis por estudar detalhadamente as escrituras e ensinar aos pastores.

 

 

 

2.3 A Bíblia.

Para Calvino, Deus se revela por meio de sua palavra e sua palavra só pode ser encontrada na Escritura. Por isso “para que alguém chegue a Deus, o Criador, é necessário que a escritura seja seu guia” [15]. Mas, estudar as escrituras não significa, porém, decorar partes dela, visto que a Bíblia é somente um relato escrito a respeito da palavra viva de Deus, a saber: Jesus Cristo, no qual se resume toda a revelação divina desde o Antigo ao Novo Testamento e, sendo assim, para Calvino não há escrituras sem Cristo.

 

2.4 O pecado e a Justificação.

Segundo a concepção calvinista, o homem traz dentro de si o gérmen do pecado e por isso suas atitudes e pensamentos são abomináveis diante de Deus. O “pecado original” é desde Adão transmitido a toda raça humana e que é, por conta disso, produtora das “obras da carne” [16]. Neste contexto, nem mesmo as crianças estão livres deste pecado, mesmo de forma inconsciente trazem dentro de si a semente pecaminosa de seus antepassados, e por isso também carecem da justificação que só se dá por meio de Cristo.

O homem está a tal ponto depravado por causa do pecado que é incriminado e condenado diante de Deus e dessa forma imerecedor de seu perdão. Este perdão, porém, só se torna possível ao homem por meio de Cristo seu único filho e o único capaz de interceder a Deus a respeito do humano pecador.

 

“Uma vez que na pessoa de Adão haja perecido todo o gênero humano, em verdade nada nos aproveitaria aquela excelência e nobreza de origem que já rememoramos; de modo que, antes, ceda a maior ignomínia até que Deus, que por obra sua não reconhece a homens poluídos e corrompidos pelo pecado, se mostre Redentor na pessoa de seu Filho Unigênito. Portanto, depois que decaímos da vida à morte, inútil seria todo esse conhecimento de Deus como o Criador, de que temos disserta- do, a não ser que viesse também a fé, pondo diante de nós, em Cristo, a Deus como o Pai.” (CALVINO, 2006: Tomo II p. 105).

 

 

Aos 26 anos de idade, Calvino finalmente completa a primeira edição das Institutas. A ampla aceitação do documento o motiva a aprofundar ainda mais em seus estudos teológicos e, é a partir de então que Calvino deixa de ser apenas um pensador da fé reformada e torna-se um reformador. Em 1536, passando por Genebra conheceu Guilaume de Farel.

Farel, protegido pelos reformadores Zwinglianos de Berna, foi quem começou o processo reformatório em Genebra. Ao saber da presença do autor das Instituições Cristãs, imediatamente vai a Calvino e o convence a permanecer em Genebra. Calvino e Farel conquistaram juntos grandes vitórias em favor da causa reformadora, contudo, em 1538, provocam sérias desavenças com alguns importantes membros da sociedade genebrina e são exilados, retornando em 1541 a convite de forças reformadoras que obtiveram o controle de Genebra. Neste ano, Calvino teve promulgadas as quatro Ordenanças Eclesiásticas concretizando assim a reforma em Genebra.

Ao lado de Lutero, Calvino é, muito provavelmente, o mais conhecido dos reformadores. Mesmo sendo o foco de suas ações a cidade de Genebra, na Suíça, sua teologia irá influenciar grandes mudanças no mundo cristão, as quais encontraram raízes até os dias atuais como é o caso das igrejas Presbiterianas, por exemplo. Além das Institutas da Religião Cristã, que abrange quatro volumes, sua obra compõe-se de comentários bíblicos, sermões, catecismos, tratados teológicos, cartas e exegese de todos os livros da Bíblia.

 
3. Reforma Anglicana

Por Ramon de Oliveira

3.1 A Reforma no tempo de Henrique VIII (1509-1547) [17].

              A reforma inglesa mais do às outras reformas será a expressão da vontade das monarquias europeias de subordinar a Igreja como instituição a um controle real.

Na Inglaterra a reforma não teria sobrevivido se “o Papado não sido outrora profundamente desconsiderado nas Ilhas Britânicas e se a Igreja anglicana não tivesse já antes se habituado a viver de forma autônoma.” [18] Isso por que o século XIV e XV, já tinha assistido a duas cismas na Igreja católica[19] onde os soberanos tiveram que escolher a qual Papa o seus reinos deveriam obedecer, criando certa dependência da vontade do Estado.

Foi por essa tradição de autoridade real sobre a Igreja, que fez com que o clero inglês tomasse partido do rei durante sua disputa com o Papa sobre a nulidade do casamento de Henrique VIII e Catarina de Aragão. Antes mesmo do rompimento com o catolicismo a própria Igreja anglicana já tinha renunciado a qualquer poder legislativo e declarado o rei seu único senhor. Essa transformação no reino da Inglaterra se inscreve dentro do quadro do questionamento do poder universal do Papa, onde teóricos como Francisco de Vitoria argumentaram a favor da supremacia do rei[20], em questões temporais, sobre o Papado. Esse questionamento era formulado nos dois sentidos tanto o poder universal do império quanto o da Igreja. Porém num mundo em que o poder da igreja não se assentava em poderes militares, mas sim em uma esfera moral e espiritual. Os questionamentos dessa autoridade criaram um vazio de poder que rapidamente foi preenchido pela acedente influência do Estado que se centralizava em torno da figura do Rei, que rapidamente passa a por em duvida até mesmo a primazia espiritual da Igreja Católica. Henrique VIII contava ainda com outra estratégia para o sucesso de sua reforma, que foi o confisco e subsequente venda das propriedades eclesiásticas o que “criou uma aristocracia rural devotada à reforma” [21].     

Podemos perceber que mesmo que legalmente submetida a Roma na prática a Igreja Inglesa estava sobre controle do monarca. Mesmo essa sujeição legal acabaria com o ato de supremacia de 1534, que estabelecia controle exclusivo da religião no reino ao Rei.     

3.2 A Reforma no Reinado de Eduardo VI (1547-1553).      

 

Eduardo VI filho de Henrique VIII e Jane Seymour, a terceira esposa de seu pai, assume a coroa com apenas nove anos não podendo governar diretamente. Por esse motivo durante o período de seu reinado a Inglaterra será governada por dois “protetores” Somerset ( 1547-1549) e Warwick (1549-1553).

Foi em seu governo que alguns traços característicos da Igreja anglicana reformada parecem tomar forma como a influencia ideológica do Calvinismo. Causada pela simpatia do Rei por essas ideias como também por uma afluência de protestantes calvinistas do continente para a Grã-Bretanha.

 

3.3 Contra reforma no governo de Maria Tudor (1553-1558).

              Filha do primeiro casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, filha dos reis católicos da Espanha, era católica como sua mãe. Como nos conta Jean Delumeau, em seu governo ela:

              “quis reconciliar seu reino com Roma e o parlamento foi tão dócil a segui-la nesse caminho quanto o fora no sentido inverso nos dois reinados precedentes. A 3 de janeiro de 1555, votou o regresso a obediência de Roma. Entretanto, os bens secularizados da Igreja continuaram com seus detentores.”[22]

 

Essa docilidade do parlamento pode ser explicada com a posterior condenação a morte de 273 reformadores mais exaltados, em outras palavras o reino na altura da metade do século XVI não possuía um clima favorável à contestação do monarca no trono. Porém não podemos atribuir a reforma religiosa inglesa a simples interesses políticos e econômicos ou a temor da violência estatal. Se essa fosse a verdade a reforma poderia ter encontrado seu fim no governo da Rainha Maria, nada é mais prova de um verdadeiro sentimento religioso, por parte de seguimentos da população, do a obstinada resistência contra a Rainha nesse momento. Mesmo que esta oposição possa também ser explicada com base em interesses econômicos, séria difícil isolar a Inglaterra de toda a efervescência religiosa da Europa continental neste momento ainda mais com a presença de calvinista em seu território.

 

3.4 A Consolidação da Igreja anglicana sobre Elizabeth (1558-1603).

        Elizabeth era filha de Henrique VIII com Ana Bolena, sua segunda esposa. Em seu governo novamente o país rompera com Roma com o restabelecimento do ato de Supremacia. Entretanto ela não era favorável a uma reforma radical, mas uma feita sobre o estrito controle do Estado. Sobre a doutrina ela manterá boa parte do cerimonial católico junto com uma hierarquia clerical. Porém sua teologia será, sobretudo, inspirada no calvinismo como a negação do culto a imagens e relíquias e a permissão do casamento de bispos e padres.

 

 

 

 

 4. A Contra-Reforma

Por Carlos Alberto de Oliveira Filho

4.1 Introdução.

Ao comentar sobre a crueldade que a Reforma e Contra Reforma exerceu nos séculos XVI e XVII fica a dúvida de qual lado a crueldade foi mais intensa. Segundo Jean Delumeau deixa claro que é impossível dizer qual dos lados foi mais cruel e em que local ou país levaram mais longe os requintes de atrocidade.[23] Conversão de príncipes, quebra da concentração de poder papal e confisco de propriedades e riquezas da igreja católica e ambição de poder constituem como fatores contextuais para reação.

O papa Paulo III convocou, em 1545, o Concílio de Trento: condenou os princípios protestantes. A Bíblia, interpretada pela Igreja, continuava sendo a fonte da verdade cristã, não concedendo aos leigos. Permaneceu com os sete sacramentos: batismo, confirmação, penitência, eucaristia, matrimônio, ordem e unção dos enfermos.[24] O papa reorganizou o Colégio de Cardeais e a administração da Igreja, e estabeleceu o Tribunal do Santo Ofício para velar pela pureza da fé e perseguir os não-católicos. A Inquisição romana, encarregada de julgar os hereges, instituiu os primeiros tribunais da Inquisição na América espanhola em 1570. Paulo IV tomou medidas para velar pela disciplina do clero e dos fiéis. Estendeu o poder e as atividades da Inquisição. Publicou, em 1559, o primeiro Índex, catálogo contendo as leituras proibidas aos católicos. Pio IV regulamentou o cumprimento das disposições do Concílio de Trento e a organização de seminários, visando melhorar a formação do clero católico.

A ação da contra-reforma visou trabalhar em dois aspectos: a conquista pelas armas e amplos meios coativos como fundações de colégios e universidades. As questões políticas envolvem neste aspecto: a qualquer custo teria que abolir essa prática “herética”. Roma aprovava naturalmente as ações militares empreendidas pelos príncipes católicos. Os métodos papais em ações militares eram limitados: para agir dependia de intermédio de pessoas.

 

 

4.2 Inácio de Loyola.

Ex-soldado, ferido na batalha de Pamplona (20 de Maio de 1521), passou meses inválido, no castelo de seu pai. Durante o longo período de recuperação, Inácio procura ler livros para passar o tempo, e começa a ler a “Vita Christi”, de Rodolfo da Saxônia, e a Legenda Áurea, sobre a vida dos santos, de Jacopo de Varazze, monge cisterciense que comparava o serviço de Deus com uma ordem cavalheiresca. Fundou a sagrada companhia de Jesus com aprovação papal em 1540: adotando a hierarquia militar, os jesuítas eram “soldados do catolicismo”. Assumiram várias tarefas para divulgar a fé católica: dirigiram missões jesuítas, responsáveis pela doutrinação dos índios na América, fundação de colégios e paróquias.

 

4.3              A Intolerância e Suas Conseqüências.

A intolerância foi a razão de matanças religiosas como a noite se São Bartolomeu na França e a defenestração em vinte e três de maio de 1618 em que boêmios invadiram o castelo de Hradsin, interromperam uma reunião entre comissários imperiais e deputados do Estado e, em seguida, lançaram dois comissários e seus secretários pela janela servindo de estopim para a Guerra dos Trinta Anos.

A chacina de Tours levou a aniquilação de 200 Huguenotes (calvinistas franceses). Do lado protestante, no Delfinado e no Forez o barão de Adrets mandava executar as guarnições católicas que se rendiam.

Em vinte e quatro de agosto de 1572 os Guises, chefes do partido ultra-católico, junto a Catarina de Médicis organizaram a matança da noite de São Bartolomeu. Neste dia os reformados vindos em grande número a Paris para o casamento de Henrique de Navarra com a Filha de Catarina, Margarida foram massacrados em massa. Até três de outubro reinou a carnificina com resultado de 30.000 vítimas protestantes.

 

4.4                                A Guerra dos Trinta Anos.

 

Na Europa central, três denominações disputavam dominação: Catolicismo romano, Luteranismo, e Calvinismo. Isto resultou em uma confusão de alianças instáveis na medida em que os príncipes e prelados chamavam potências estrangeiras em seu auxílio. No todo, a luta estava entre o Sacro Império Romano, que era católico e domínio da família dos Habsburgos, e uma rede de cidades e principados protestantes que confiaram nas principais potências anti-Católicas, a Suécia e os Países Baixos Unidos para seu auxílio.

Desenvolvida entre 1618 e 1648, foi uma série de conflitos religiosos e políticos ocorridos especialmente na Alemanha nos quais rivalidades entre católicos e protestantes e assuntos constitucionais germânicos foram gradualmente transformados em uma luta européia. Apesar de os conflitos religiosos serem a causa direta do conflito, ele envolveu um grande esforço político da Suécia e da França para procurar diminuir a força dos Habsburgos, que governavam a Áustria. A guerra causou sérios problemas políticos, econômicos e demográficos, especialmente da Europa Central.

Fernando II, rei da Boêmia em 1617 e mais tarde imperador em 1619 tinha como ambição o triunfo da igreja romana. O papa Carlo Carafa, um dos inspiradores da política de repressão da Boêmia, teve suas esperanças iludidas: no caminho um cruzado protestante chamado Gustavo Adolfo: luterano que com seu exercito forte almejava “salvar” e se possível unificar os protestantes.

O tratado de vestfália (1648), negociado nos anos finais da guerra, pretendia acabar com o conflito que mobilizou quase toda a Europa. A França, extremamente beneficiada com o acordo, obrigou os Habsburgos a levarem seu projeto expansionista em direção ao tratado Império Turco-Otomano e obteve domínio sob as regiões do Rossilhão, Alsácia e Lorena. Além disso, nações como a Suíça e a Holanda (Países Baixos) conseguiram consolidar a independência de seus estados.

 

Bibliografia:

CAIRNS, Earle. O cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja cristã / Earle Cairns; | tradução Israel Belo de Azevedo |. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.

CHAMPLIN, RN. Enciclopédia da Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Editora Hagnos, 2001.

CALVINO, João. As institutas. Trad. Waldyr Carvalho Luz a partir da edição latina

de 1559. 2.ed., 4 vols. São Paulo, SP: Cultura Cristã, 2006a.

DELUMEAU, Jean. Nascimento e Afirmação da Reforma. Trad. João Pedro Mandes. São Paulo: Pioneira, 1989.

DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento, volume I. 1. ed. Lisboa: Editarial Estampa Lda, 1994.

DREHER, Martin N. A crise e a renovação da igreja no período da reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. 134p. (Coleção História da Igreja; V3)

JUNGHANS, Helmar. Temas da Teologia de Lutero. São Paulo: Editora Sinodal, 2000.

LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, São Paulo: Martin Craret, 2006.

SCHWIKART, George. Dicionário ilustrado das religiões – Aparecida, SP: Editora santuário, 2001

ZERON, Carlos. A cidadania em Florença e Salamanca in________ PINSK, Jaime. (org) História da Cidadania. São Paulo: Contexto, 2003.

Sites Consultados:

http://www.seminariobetania.com.br/A%20Doutrina%20dos%20dois%20Reinos-Igreja%20e%20Estado%20no%20Pensamento%20Pol%EDtico%20de%20%20Lutero.doc 08/04/2010 09h42.

 

http://en.wikipedia.org/wiki/Cuius_regio,_eius_religio 09h04min 13/04/2010.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_dos_Trinta_Anos

http://pt.wikipedia.org/wiki/In%C3%A1cio_de_Loyola

 

 

 

 

24

 


[1] DREHER, Martin N. Do Cativeiro Babilônico da Igreja: Um Prelúdio de Martinho Lutero (introdução). In LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, São Paulo: Martin Craret, 2006. p. 13.

[2] DELUMEAU, Jean. Nascimento e Afirmação da Reforma. Trad. João Pedro Mandes. São Paulo: Pioneira, 1989. p. 86.

[3] Idem. p. 86.

[4] DREHER, Martin N.. Introdução às 95 Teses (texto complementar). In LUTERO, Martin. Pelo Evangelho de Cristo. Porto Alegre – São Leopoldo: Concórdia-Sinodal, 1984. p. 121.

[5] DELUMEAU, Jean. Nascimento e… p. 89.

[6] DELUMEAU, Jean. Nascimento e… p. 87.

[7] Idem.

[8] Autor não citado. Das Cinzas da Bula Papal Nasce Uma Nova Religião (texto complementar). In LUTERO, Martinho. Do Cativeiro Babilônico da Igreja, São Paulo: Martin Craret, 2006. p. 150.

[9] João Hus foi um pré-reformador que pregava o ideal da pobreza e condenava o patrimônio terreno dos príncipes da Igreja. Ele defendia a autoridade da consciência e tentava aproximar a Igreja do povo, através das pregações. As suas pregações eram feitas na língua tcheca e não em latim, como determinava a Igreja oficial na época. Além disso, só reconhecia a autoridade da Bíblia nas questões da fé, repudiava os tribunais da Inquisição e os juízes terrenos.

 

[10] DELUMEAU, Jean. Nascimento e… p. 92.

[11] Suas principais obras em 1520 são O Papado de Roma, O Apelo à Nobreza Cristã da Nação Alemã, Do Cativeiro Babilônico da Igreja e Da Liberdade do Cristão.

[12] DELUMEAU, Jean. Nascimento e… p.92.

[13] DELUMEAU, Jean. Nascimento e… p.107.

[14] “Faber Stapulensis era o líder dos humanistas franceses e reunia em torno de sua pessoa bispos, teólogos, filósofos, patrólogos e pregadores. Seu grupo encontrava-se entre as tradições do humanismo cristão e da Reforma luterana. Divergiu do parecer da Sorbonne a respeito da ortodoxia de Lutero”. (DREHER, 2006: p.97).

[15] Título do capítulo VI, Tomo I das Institutas da religião Cristã.

[16] Gálatas 5:19

[17] Período de seu reinado.

[18] Nascimento e afirmação da reforma p.137

[19] DELUMEAU, Jean. A civilização do Renascimento, volume I. 1. ed. Lisboa: Editarial Estampa Lda, 1994. p122

[20] ZERON, Carlos. A cidadania em Florença e Salamanca in________ PINSK, Jaime. (org) História da Cidadania. São Paulo: Contexto, 2003 p. 97-112.

[21] Nascimento e afirmação da reforma p.138

[22] Idem p.140

[23] Delumeau, Jean. Nascimento e afirmação da reforma. – São Paulo: Pioneira, 1989.   (Pág.163)

[24] Schwikart, George. Dicionário ilustrado das religiões – Aparecida, SP: Editora santuário, 2001

Tags Categories: História Européia, História Moderna I, Hisória do Cristianismo Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 26 abr 2010 @ 11 17 AM

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02 de dezembro de 1870



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