18 jul 2018 @ 11:16 PM 

O CANTO DO SOFRER DE UM NORDESTE ESQUECIDO [1]

SAMARA FRANÇA GOUVEIA DA SILVA[2]

.

SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………….04
  2. O FENÔMENO DA SECA…………………………………………………………………….05
  3. A INDÚSTRIA DA SECA………………………………………………………………………09
  4. O ÊXODO RURAL……………………………………………………………………………….11
  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS…………………………………………………………………..17
  6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………….18

INTRODUÇÃO

O presente artigo visa abordar a relação entre as músicas do cantor e compositor brasileiro Luiz Gonzaga com as temáticas referentes à seca do Nordeste, a cultura de migração e o sofrimento dos nordestinos frente a realidade que os mesmos estão inseridos.

Luiz Gonzaga do Nascimento, também conhecido pelo título de Rei do Baião, nasceu em 13 de dezembro de 1912 em Exu, um município pertencente ao estado de Pernambuco, situado à altura do que é conhecido como Serra do Araripe, na divisa entre os estados Pernambuco e Ceará. Filho de Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos, o mestre Januário, o sanfoneiro de 8 baixos. Cresceu vendo e vivendo as dificuldades do Sertão. Saiu de sua terra, conheceu a vida, as pessoas, os lugares.

Iniciou sua produção musical por volta da década  de 1930, onde quando tornou-se  artista conhecido, Gonzaga se utilizou de sua posição no cenário musical brasileiro, bem como do veículo de comunicação mais importante de sua época, o rádio, para cantar os problemas existentes na região do Nordeste do Brasil, transmitindo em algumas de suas canções um ar de protesto, exaltando um Nordeste que transcende o campo geográfico dando espaço ao homem que nele habita e ao sentimento do mesmo para com sua terra. Suas músicas nos levam à reflexão e ao conhecimento de um Nordeste singular, difícil de se viver, mas que possui uma beleza própria e uma gente única.

Assim, neste artigo será observada a ligação que há entre as canções de Gonzaga e o Nordeste que castiga, que expulsa o homem de sua região, que lhe traz a dor. A dor da seca, da miséria, da partida, da saudade. A dor de um Nordeste por muito tempo esquecido, silenciado, absorvido pelas dificuldades.

A convivência do homem no Sertão reside no espaço dos opostos, ou seja, entre o tormento e a esperança. Torna-se um forte pelo fato de viver cada dia enfrentando sua morte. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.80).

O fenômeno da seca

“Alguns avistam a seca, poucos enxergam a seca”.

(Ariano Suassuna)

A seca presente na região semiárida do Nordeste brasileiro é histórica, tendo seu primeiro registro datado entre 1583/1585 pelo padre Fernão Cardin, esse que teria atravessado o Sertão da Bahia para Pernambuco, onde se deparou com uma forte seca pelo caminho. Desse modo, podemos notar que tal fenômeno não é recente, mas ainda assim é presente e recorrente na atualidade.

A zona característica ao semiárido corresponde a uma extensão de cerca de 969.589,4 km² de todo seu território, sendo referente ao Nordeste 89%. O Nordeste, por sua vez, corresponde a 18,2% do território do Brasil e possui 1.561.177,8 km². A respeito da população do semiárido, ela abrange cerca de 25 milhões de habitantes que vivem em condições severas devido a inúmeros fatores.

O fenômeno da seca é um evento climático que ocorre em decorrência das chuvas irregulares e mal distribuídas geograficamente, bem como da temperatura elevada presente na região. As estiagens próprias do semiárido nordestino podem ocorrer em períodos de tempo curtos ou muito longos – a exemplo a grande seca que foi de 1979/1985 onde nesses seis anos de duração castigou toda uma gente. Vale salientar que o período correspondente a estiagem só se torna um problema quando impossibilita a subsistência da população que, por não conseguir manter as plantações e os animais, a exemplo o gado, por conta da falta de água e de alimento, debilita-se e se torna vulnerável, entregue à própria sorte, recorrendo a meios que permitam a sobrevivência de tal situação, um desses meios é a migração para centros urbanos como forma de fugir da realidade de um Nordeste difícil.

A canção Asa Branca, composição de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira, gravada em 1947 e um dos grandes sucessos de Gonzaga até a atualidade, retrata muito bem a questão da perca dos animais e da plantação por conta da seca.

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação

Por farta d’água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

É importante ressaltar que os nordestinos também relacionam o fenômeno da seca com alguns animais que lhes indicam quando haverá estiagem. Gonzaga canta algumas músicas na qual aparecem pássaros que representariam muito bem isso, sendo eles a asa branca e a acauã, ambas deram nome a canções de Gonzaga.

A asa branca é uma ave símbolo do Sertão visto que a mesma possui o papel de anunciar as mudanças climáticas por ser ela uma ave de migração que, quando pressente a seca, debanda em busca de um clima melhor. A canção Asa Branca, composta em 1947 por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga retrata muito bem essa questão.

Inté mesmo a asa branca

Bateu asas do Sertão

Depois eu disse, adeus rosinha

Guarde contigo meu coração

No mais, a asa branca também foi tema de uma segunda música que retrata o seu regresso ao Sertão e, consequentemente, o regresso das chuvas na região. Seu nome é A volta da Asa Branca, composta por Gonzaga e Zé Dantas no ano de 1950.

Já faz três noites

Que pro Norte relampeia

A asa branca

Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas

E voltou pro meu Sertão

Ai, ai eu vou me embora

Vou cuidar da plantação

A seca fez eu desertar da minha terra

Mas felizmente Deus agora se alembrou

De mandar chuva

Pra esse Sertão sofredor

Sertão das muié séria

Dos homes trabaiador

Rios correndo

As cachoeiras tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Ai, ai o povo alegre

Mais alegra a natureza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Acauã é um pássaro que, em algumas regiões do Brasil, acredita-se que o mesmo traz com seu canto o “mau agouro”, prenunciando uma morte próxima àquele que o escuta. No caso da canção que recebe seu nome, o mau agouro seria a seca e a morte anunciada seria a da terra.   A Canção é composição de Zé Dantas, gravada em 1952.

Acauã, acauã vive cantando

Durante o tempo do verão

No silêncio das tardes agourando

Chamando a seca pro Sertão

Chamando a seca pro Sertão

Acauã, Acauã

Teu canto é penoso e faz medo

Te cala acauã

Que é pra chuva voltar cedo

Que é pra chuva voltar cedo

Toda noite no Sertão

Canta o João corta-pau

A coruja, mãe da lua

A peitica e o bacurau

Na alegria do inverno

Canta sapo, gia e rã

Mas na tristeza da seca

Só se ouve acauã

Só se ouve acauã

Acauã, acauã

Paralelamente, é comum relacionar o fenômeno da seca como o motivo principal da pobreza e do sofrimento dos nordestinos, mas não é bem assim. A má distribuição de água e de terras, bem como falta de políticas públicas efetivas voltadas para solucionar, ou pelo menos amenizar, o problema da estiagem afeta diretamente o âmbito social. Vale salientar que desde o período colonial foram desenvolvidos projetos que visavam, ou se diziam visar, a solução das secas. Além disso, apesar do semiárido possuir um grande contingente populacional e uma grande extensão territorial, o subdesenvolvimento no qual a região se encontra fomenta ainda mais a pobreza que a maior parte da população lá existente enfrenta. Desse modo, pode-se entender o fenômeno da seca, bem como o sofrimento do nordestino, como decorrente de questões sociais, econômicas e políticas.

No mais, o homem que vive no semiárido quando confrontado pelas dificuldades advindas da seca, muitas vezes vende sua mão-de-obra e seus bens a preços demasiadamente baixos a um afortunado qualquer que tenha condições e esteja disposto a compra-los, visto que já não mais possui garantias econômicas, já que em tal período o desemprego cresce, e os meios de sustento se esvaem. Gonzaga em uma das canções que interpreta formidavelmente traz à tona tal problema, e descreve a situação entonando, de certa forma, a tristeza através de sua voz. A música é A triste partida, do compositor Patativa do Assaré, gravada em 1964.

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

A seca em si já inspirou diversas obras tanto no campo literário como no campo musical e cinematográfico, obras consagradas que descreveram, a partir da ótica de seus autores, o sertanejo, sua vida e sua terra. Dentre tantos artistas que descreveram o Sertão nordestino destaco aqui Luiz Gonzaga, o rei do baião, que difundiu pelo Brasil um novo Nordeste, um Nordeste real, que além das dificuldades enfrentas e do sofrimento já conhecido, também tem uma cultura rica, uma gente forte, animada e que ama sua terra.

Gonzaga conseguiu, através de suas músicas, criar um Nordeste que não era conhecido por aqueles que viviam na região Sudeste, quebrando estereótipos por muito tempo perpetuado. Conseguiu também protestar contra o descaso dos governantes e o esquecimento da região que ele nasceu, cresceu e saiu muito cedo para ganhar a vida. Suas músicas acalentavam um povo que sofria, ora por estar vivendo situação de flagelo em uma terra difícil ora por estar distante do seio de sua terra natal, e que se identificava com as letras de suas canções. Luiz, ou Lua, como também era conhecido, cantou o homem, as festas e a terra; cantou a saudade, a tristeza e o amor. Cantou também a felicidade, a partida e a fé, a fé na volta da chuva, na melhora da situação. Luiz cantou o que ele viveu, como nordestino de Exu, que passou pelas dificuldades que um sertanejo passa. Luiz, através de sua arte, deu visibilidade aos anseios de seu povo, que por muito tempo foi esquecido na invisibilidade de um país que desvaloriza o que não é da cidade grande. Luiz Gonzaga cantou o que acreditava e traduziu de forma singular o Nordeste e sua gente.

[...] a partir da arte de Luiz Gonzaga, os nordestinos passaram a ouvir então uma música que trazia no seu conteúdo a consciência de seus autores em relação aos verdadeiros valores do homem do Nordeste e os problemas de sua terra. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.141).

A indústria da seca

O que é conhecido como indústria da seca é o movimento do âmbito político e econômico das regiões atingidas pela seca. Por conta da situação vulnerável que a população se encontra frente as dificuldades que a seca lhe impõe, muitos políticos e até mesmo comerciantes se utilizam dessa fragilidade para se beneficiar, faturando com a falta de água e de alimento, ou até mesmo explorando a mão-de-obra sertaneja.

Dito isso, os políticos aproveitam da debilidade de tal momento para se candidatarem, comprando votos através de envios de carros-pipas, de alimentos ou até mesmo através de promessas de melhorias. Usam do assistencialismo para imprimir em tal sociedade uma política de paternalismo, de clientelismo que se perpetua ao longo dos tempos. Assim, esses governantes podem até implementar projetos que visam ajudar os sertanejos, mas são apenas projetos de curto prazo, medidas adotadas para socorrer a população em um momento de seca, amenizando temporariamente o problema. Não se pensa em resolvê-lo por completo visto que é muito mais viável para eles, e todos aqueles que possuem certa posição de poder, manterem uma situação que lhes renderão lucros, do que solucioná-la. Desse modo, no período de grande estiagem é disponibilizado para o sertanejo um auxílio dado pelo governo, com o propósito de dar certa condição de sobrevivência para aqueles que estão sofrendo a perda de suas plantações e de seus animais.

Luiz Gonzaga canta uma música que aborda essa temática, a esmola, por assim dizer, cedida pelo governo, para um povo que perdeu tudo por conta da negligência dos donos do poder que fecham os olhos para a realidade cruel do semiárido do Nordeste brasileiro. A música de composição do próprio Gonzaga em parceria com o compositor Zé Dantas, gravada em 1953, é um apelo escancarado por melhorias e uma crítica aos governantes que acham que o pagamento de tal esmola em tempos difíceis é o suficiente para suprir as necessidades de um povo.

Seu dotô os nordestino

Têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista

Nesta seca do Sertão

Mas dotô, uma esmola

A um home que é são

Ou lhe mata de vergonha

Ou vicia o cidadão

É por isso que pedimo

Proteção a vosmicê

Home por nós escuído

Para as rédias do pudê

Pois dotô dos vinte Estado

Temos oito sem chuvê

Veja bem, quase a metade

Do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo

Encha os rios de barrage

Dê comida a preço bão

Não esqueça a açudage

Livre assim nós da esmola

Que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juro

Sem gastar nossa corage

Se o dotô fizer assim

Salva o povo do Sertão

Se um dia a chuva vim

Que riqueza pra nação

Nunca mais nós pensa em seca

Vai dá tudo nesse chão

Como vê, nossos destino

Mecê tem em vossa mão.

Na primeira e segunda estrofe Luiz canta o descontentamento da situação de dependência em governantes que parecem esquecer que eles foram escolhidos pelo povo no qual eles mesmo fazem pouco, bem como lembra que em um país de 26 estados, quase a metade se encontra em situação de miséria.

Na terceira e quarta estrofe fica claro que ele não quer receber auxílio do governo, mas quer meios de viver através de seu trabalho, pois quando a chuva vier tudo irá se ajeitar, sendo não mais necessária a ajuda dos políticos, pois com a chuva é possível plantar e assim também se torna possível viver de forma independente. Ao final, ele lembra que o destino de toda uma gente se encontra nas mãos daqueles que foram escolhidos para governar.

Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político.

(Dominique Dreyfus, 1997).

Outra canção interpretada por Gonzaga e que pode ser lembrada neste artigo ao que diz respeito das músicas que falam acerca dos que se utilizam da situação da seca para benefício próprio, fazendo uso das promessas de melhorias ao povo e da troca de favores em prol de candidaturas, é Procissão, composição de Gilberto Gil, gravada em 1971.

Muita gente se arvora a ser Deus

E promete tanta coisa pro Sertão

Que vai dar um vestido pra Maria

E promete um roçado pra João

Entra ano, sai ano, e nada vem

Meu Sertão continua ao deus-dará

O êxodo rural

O êxodo rural proveniente da seca do semiárido nordestino surge por conta da falta de condições de sobrevivência em um cenário precário no qual a negligência política e a falta de projetos governamentais efetivos não tornam possível manter o sertanejo em sua terra. A falta de trabalhos, dinheiro e chuva, contribuem para o distanciamento do homem de suas raízes.

Os espasmos que interrompem o ritmo habitual do clima semi-árido regional constituíram sempre um diabólico fator de interferência no cotidiano dos homens dos sertões. Mesmo perfeitamente adaptados à convivência com a rusticidade permanente do clima, os trabalhadores das caatingas não podem conviver com a miséria, o desemprego aviltante, a ronda da fome e o drama familiar profundo criado pelas secas prolongadas. (Ab’Sáber, 2003, p. 85).

O sertanejo, quando encurralado pela seca e todos os problemas que ela traz, como a fome e a miséria, encontra na fuga do sertão uma forma de melhorar de vida, e como consequência, ocorrem as migrações para áreas urbanas, vistas como meio de desenvolvimento, que carregam em si a utopia da prosperidade do retirante que largou tudo em busca de uma realidade diferente da do sofrimento que vivia no Sertão. Homens e mulheres corajosas juntavam o que podia e se arriscavam em viagens perigosas, muitas vezes feitas através do pau de arara, meio de transporte muito utilizado pelos sertanejos em meados do século XX. O pau de arara correspondia a um transporte irregular, muitas vezes um caminhão, que transportava um grande número de pessoas, era de certa forma um substituto imperfeito do ônibus. Desse modo, para compreendermos a forma que Luiz Gonzaga aborda tal temática, nos utilizaremos mais uma vez da canção A triste Partida, composição de Patativa do Assaré que fora gravada por Gonzaga.

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheias

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

[...]

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Outras duas canções interpretadas por Gonzaga que retratam a migração sertaneja são O andarilho, composição de Dalton Vogeler em parceria de Orlando Silveira, gravada em 1968 e A vida do viajante, composição de Luiz Gonzaga em parceria de Hervê Cordovil, gravada em 1953.

O andarilho, demonstra a solidão de quem largou a família e foi embora ganhar a vida em terras que possuem chuva, onde Deus olha pelos seus, bem como demonstra que para chegar na cidade grande o sertanejo teve que desafiar as dificuldades que a seca lhe impõe.

Caí do céu por descuido

Se tenho pai, num si não

Venho de longe, seu moço

Lugar chamado Sertão

Vivo sozinho no mundo

Zombei da sede, zombei

Cortei com minha peixeira

Todo mal que encontrei

Fui caminhando, enfrentando

As terras que o sol secou

Até chegar a cidade

Dos homens que Deus olhou

A vida do viajante, por sua vez, retrata a saga daquele que, ao sair de sua terra em busca de descanso e felicidade, guarda em sua memória o afeto pelos lugares em que passou e pelas pessoas que deixou pelo caminho.

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia descano feliz

Guardando as recordações

Das terras onde passei

Andando pelos Sertões

E dos amigos que lá deixei

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E a alegria no coração

O repertório de Gonzaga aborda o processo migratório por diversas vezes em várias canções por ele interpretadas, visto que o mesmo entendia tal situação de partir em busca de melhores condições de vida, bem como de melhores oportunidades, pois ele mesmo havia passado por isso. Suas narrativas cantadas contribuíram para o conhecimento da cultura existente no Nordeste. O êxodo é, por assim dizer, uma cultura forte do Sertão: a cultura do abandono, da tristeza de largar a terra e tudo aquilo que ela representa.

Eu ia contando as coisas tristes do meu povo, que debandava do Nordeste para o Sul em busca de melhores dias, de trabalho. Porque lá chove no período exato, lá se sabe o que são as estações. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando… Então, minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício do meu povo. (Luiz Gonzaga).

O apego do sertanejo com sua terra, a saudade e a tristeza frequentemente presente na vida daqueles que foram forçados por fatores políticos, econômicos, sociais e climáticos a debandar para regiões distantes, se jogando na incerteza de um futuro, bem como o saudosismo do homem e sua vontade de retornar para seu lugar de origem são questões denotadas com maestria através da música A triste partida.

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos plano

De um dia voltar

[...]

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as agua nos óio

Começa a cair

[...]

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o pau

Outra característica presente nas canções de Gonzaga e também presente em A triste partida é o apego religioso do povo sertanejo que se agarra na fé em Deus, rogando por chuvas e, consequentemente, melhor condição de vida. Na música aparecem, como exemplo, a citação de São José que representa a fé do nordestino no seu santo padroeiro, bem como a recorrente frase “Meu Deus, meu Deus”, que implica um ar de súplica. A fé no socorro que vem do céu é muito bem demonstrada na música Súplica cearense, composição de Gordurinha em parceria com Nelinho, gravada em 1979, e interpretada por Gonzaga.

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou

E só por isso o sol se arretirou

Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

Pedi pra chover, mas chover de mansinho

Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito

O Senhor me perdoe

Eu acho que a culpa foi

Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher meus olhos de água

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa

Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir toda hora pra chegar o inverno

Desculpe eu pedir pra acabar com o inferno

Que sempre queimou o meu Ceará

Nessa canção, é nítido o tom de clemência por parte de alguém que apenas quer que o seu Deus envie aquilo que vai lhe livrar da dor de viver no “inferno” no qual a seca é comparada. O personagem dessa canção, um nordestino cearense, chega a pedir perdão por não saber rezar direito, como se a culpa da chuva não ter vindo ser sua. Como o próprio nome da música diz, ela é uma súplica. Súplica de quem já não sabe o que fazer e recorre a sua fé para conseguir viver dias melhores.

Outra canção interpretada por Luiz Gonzaga que também atenta para a religiosidade do povo nordestino é São Francisco de Canindé, composição de Julinho com parceria de Luiz Bandeira, gravada em 1977.

Eu vi a terra fumaçá

Vi graveto estalando o sol

Eu vi o rio virar

Um deserto de pedra e pó

A noite se avermelhou

De tão quente o céu e o chão

Meu povo se encomendou

Esperando o fim do Sertão

Dê um jeito meu São Francisco

Foi assim que pedi com fé

De repente choveu bonito

O rio encheu de fazer maré

Só pode mesmo julgar

Que não é exagerado meu

Pessoa de boa fé

Ou então quem por lá viveu

É triste acompanhar

O Sertão secar e morrer

Compensa a graça de Deus

O milagre do renascer

Obrigado meu São Francisco

Louvo a Deus sua sagração

Tenha sempre ao seu cuidado

O povo humilde do meu Sertão

Não precisa prometer

Ele ajuda a quem tem fé

Fazer bem é seu poder

São Francisco em Canindé

A música retrata muito bem a fé, de forma a apontar o “milagre do renascer” da terra, que com a chegada da chuva tornou-se a vida, onde o rio encheu ao ponto de virar maré. Essa canção dispõe da presença de Deus e do padroeiro, São Francisco, ambos seres de fé e devoção, que possuem em si o poder de trazer vida ao Sertão.

Considerações finais

A partir da análise feita do cenário nordestino levando em consideração as músicas produzidas pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga podemos notar como foi interpretado e difundido um Nordeste que a muito tempo fora esquecido e estereotipado por grande parte do país, mas que na voz de Gonzaga ganhou certa visibilidade e representação, de modo a ser transmitido para várias regiões um Sertão desconhecido e difícil de se viver.

Ele mostrou nas letras de seu repertório a poesia singular que está presente na figura icônica do Rei do baião, Luiz Gonzaga do Nascimento, nordestino que ganhou o país cantando e encantando o povo, falando de sua gente, sua luta e sua terra. Mostrando que o Nordeste é real e único, e que os nordestinos sofrem, mas possuem demasiada força para saberem lidar com a dor da seca, da fome, da miséria, do abandono e da saudade, visto que, como disse Euclides da Cunha em seu livro intitulado Os Sertões, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Referências bibliográficas

AB’SÁBER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

AUSTREGÉSILO, José Mário. Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta. Recife: FASE Faculdade, 2012.

DREYFUS, Dominique. Vida de viajante: a saga de Luiz Gonzaga. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

DUARTE, Renato. Seca, pobreza e políticas públicas no nordeste do Brasil. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101030020924/16duarte.pdf

Acessado em 02/06/018

MADEIRO, Carlos. Alimentada pela escassez, “indústria da seca” fatura com a estiagem no Nordeste. Disponível em:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/05/19/alimentada-pela-escassez-industria-da-seca-fatura-com-a-estiagem-no-nordeste.htm

Acessado em 02/06/2018.

VILAR FILHO, Manoel Dantas. Xorocentelha Nº 5 – do profeta paraibano da Seca, Manelito: a busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/images/stories/observafundaj/a-busca-de-elementos-biologicos-e-conhecimentos-apropriados.pdf

Acessado em 02/06/2018.


[1] Trabalho apresentado com o intuito de concluir a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro da graduação do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, ministrado pelo Prof. Dr. Severino Vicente da silva

[2] Graduanda nno curso de História da Universidade Federal de Pernambucco – UFPE

Tags Categories: História do Brasil, Histório da Cultura, Luiz Gonzaga; José Austragésilo, Nordeste Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 18 jul 2018 @ 11 16 PM

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02 de dezembro de 1870



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