18 jul 2018 @ 11:16 PM 

O CANTO DO SOFRER DE UM NORDESTE ESQUECIDO [1]

SAMARA FRANÇA GOUVEIA DA SILVA[2]

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SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO…………………………………………………………………………………….04
  2. O FENÔMENO DA SECA…………………………………………………………………….05
  3. A INDÚSTRIA DA SECA………………………………………………………………………09
  4. O ÊXODO RURAL……………………………………………………………………………….11
  5. CONSIDERAÇÕES FINAIS…………………………………………………………………..17
  6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS……………………………………………………….18

INTRODUÇÃO

O presente artigo visa abordar a relação entre as músicas do cantor e compositor brasileiro Luiz Gonzaga com as temáticas referentes à seca do Nordeste, a cultura de migração e o sofrimento dos nordestinos frente a realidade que os mesmos estão inseridos.

Luiz Gonzaga do Nascimento, também conhecido pelo título de Rei do Baião, nasceu em 13 de dezembro de 1912 em Exu, um município pertencente ao estado de Pernambuco, situado à altura do que é conhecido como Serra do Araripe, na divisa entre os estados Pernambuco e Ceará. Filho de Ana Batista de Jesus e Januário José dos Santos, o mestre Januário, o sanfoneiro de 8 baixos. Cresceu vendo e vivendo as dificuldades do Sertão. Saiu de sua terra, conheceu a vida, as pessoas, os lugares.

Iniciou sua produção musical por volta da década  de 1930, onde quando tornou-se  artista conhecido, Gonzaga se utilizou de sua posição no cenário musical brasileiro, bem como do veículo de comunicação mais importante de sua época, o rádio, para cantar os problemas existentes na região do Nordeste do Brasil, transmitindo em algumas de suas canções um ar de protesto, exaltando um Nordeste que transcende o campo geográfico dando espaço ao homem que nele habita e ao sentimento do mesmo para com sua terra. Suas músicas nos levam à reflexão e ao conhecimento de um Nordeste singular, difícil de se viver, mas que possui uma beleza própria e uma gente única.

Assim, neste artigo será observada a ligação que há entre as canções de Gonzaga e o Nordeste que castiga, que expulsa o homem de sua região, que lhe traz a dor. A dor da seca, da miséria, da partida, da saudade. A dor de um Nordeste por muito tempo esquecido, silenciado, absorvido pelas dificuldades.

A convivência do homem no Sertão reside no espaço dos opostos, ou seja, entre o tormento e a esperança. Torna-se um forte pelo fato de viver cada dia enfrentando sua morte. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.80).

O fenômeno da seca

“Alguns avistam a seca, poucos enxergam a seca”.

(Ariano Suassuna)

A seca presente na região semiárida do Nordeste brasileiro é histórica, tendo seu primeiro registro datado entre 1583/1585 pelo padre Fernão Cardin, esse que teria atravessado o Sertão da Bahia para Pernambuco, onde se deparou com uma forte seca pelo caminho. Desse modo, podemos notar que tal fenômeno não é recente, mas ainda assim é presente e recorrente na atualidade.

A zona característica ao semiárido corresponde a uma extensão de cerca de 969.589,4 km² de todo seu território, sendo referente ao Nordeste 89%. O Nordeste, por sua vez, corresponde a 18,2% do território do Brasil e possui 1.561.177,8 km². A respeito da população do semiárido, ela abrange cerca de 25 milhões de habitantes que vivem em condições severas devido a inúmeros fatores.

O fenômeno da seca é um evento climático que ocorre em decorrência das chuvas irregulares e mal distribuídas geograficamente, bem como da temperatura elevada presente na região. As estiagens próprias do semiárido nordestino podem ocorrer em períodos de tempo curtos ou muito longos – a exemplo a grande seca que foi de 1979/1985 onde nesses seis anos de duração castigou toda uma gente. Vale salientar que o período correspondente a estiagem só se torna um problema quando impossibilita a subsistência da população que, por não conseguir manter as plantações e os animais, a exemplo o gado, por conta da falta de água e de alimento, debilita-se e se torna vulnerável, entregue à própria sorte, recorrendo a meios que permitam a sobrevivência de tal situação, um desses meios é a migração para centros urbanos como forma de fugir da realidade de um Nordeste difícil.

A canção Asa Branca, composição de Luiz Gonzaga em parceria com Humberto Teixeira, gravada em 1947 e um dos grandes sucessos de Gonzaga até a atualidade, retrata muito bem a questão da perca dos animais e da plantação por conta da seca.

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação

Por farta d’água perdi meu gado

Morreu de sede meu alazão

É importante ressaltar que os nordestinos também relacionam o fenômeno da seca com alguns animais que lhes indicam quando haverá estiagem. Gonzaga canta algumas músicas na qual aparecem pássaros que representariam muito bem isso, sendo eles a asa branca e a acauã, ambas deram nome a canções de Gonzaga.

A asa branca é uma ave símbolo do Sertão visto que a mesma possui o papel de anunciar as mudanças climáticas por ser ela uma ave de migração que, quando pressente a seca, debanda em busca de um clima melhor. A canção Asa Branca, composta em 1947 por Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga retrata muito bem essa questão.

Inté mesmo a asa branca

Bateu asas do Sertão

Depois eu disse, adeus rosinha

Guarde contigo meu coração

No mais, a asa branca também foi tema de uma segunda música que retrata o seu regresso ao Sertão e, consequentemente, o regresso das chuvas na região. Seu nome é A volta da Asa Branca, composta por Gonzaga e Zé Dantas no ano de 1950.

Já faz três noites

Que pro Norte relampeia

A asa branca

Ouvindo o ronco do trovão

Já bateu asas

E voltou pro meu Sertão

Ai, ai eu vou me embora

Vou cuidar da plantação

A seca fez eu desertar da minha terra

Mas felizmente Deus agora se alembrou

De mandar chuva

Pra esse Sertão sofredor

Sertão das muié séria

Dos homes trabaiador

Rios correndo

As cachoeiras tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Ai, ai o povo alegre

Mais alegra a natureza

E a asa branca

A tarde canta, que beleza

Acauã é um pássaro que, em algumas regiões do Brasil, acredita-se que o mesmo traz com seu canto o “mau agouro”, prenunciando uma morte próxima àquele que o escuta. No caso da canção que recebe seu nome, o mau agouro seria a seca e a morte anunciada seria a da terra.   A Canção é composição de Zé Dantas, gravada em 1952.

Acauã, acauã vive cantando

Durante o tempo do verão

No silêncio das tardes agourando

Chamando a seca pro Sertão

Chamando a seca pro Sertão

Acauã, Acauã

Teu canto é penoso e faz medo

Te cala acauã

Que é pra chuva voltar cedo

Que é pra chuva voltar cedo

Toda noite no Sertão

Canta o João corta-pau

A coruja, mãe da lua

A peitica e o bacurau

Na alegria do inverno

Canta sapo, gia e rã

Mas na tristeza da seca

Só se ouve acauã

Só se ouve acauã

Acauã, acauã

Paralelamente, é comum relacionar o fenômeno da seca como o motivo principal da pobreza e do sofrimento dos nordestinos, mas não é bem assim. A má distribuição de água e de terras, bem como falta de políticas públicas efetivas voltadas para solucionar, ou pelo menos amenizar, o problema da estiagem afeta diretamente o âmbito social. Vale salientar que desde o período colonial foram desenvolvidos projetos que visavam, ou se diziam visar, a solução das secas. Além disso, apesar do semiárido possuir um grande contingente populacional e uma grande extensão territorial, o subdesenvolvimento no qual a região se encontra fomenta ainda mais a pobreza que a maior parte da população lá existente enfrenta. Desse modo, pode-se entender o fenômeno da seca, bem como o sofrimento do nordestino, como decorrente de questões sociais, econômicas e políticas.

No mais, o homem que vive no semiárido quando confrontado pelas dificuldades advindas da seca, muitas vezes vende sua mão-de-obra e seus bens a preços demasiadamente baixos a um afortunado qualquer que tenha condições e esteja disposto a compra-los, visto que já não mais possui garantias econômicas, já que em tal período o desemprego cresce, e os meios de sustento se esvaem. Gonzaga em uma das canções que interpreta formidavelmente traz à tona tal problema, e descreve a situação entonando, de certa forma, a tristeza através de sua voz. A música é A triste partida, do compositor Patativa do Assaré, gravada em 1964.

E vende seu burro

Jumento e o cavalo

Inté mesmo o galo

Venderam também

Meu Deus, meu Deus

Pois logo aparece

Feliz fazendeiro

Por pouco dinheiro

Lhe compra o que tem

A seca em si já inspirou diversas obras tanto no campo literário como no campo musical e cinematográfico, obras consagradas que descreveram, a partir da ótica de seus autores, o sertanejo, sua vida e sua terra. Dentre tantos artistas que descreveram o Sertão nordestino destaco aqui Luiz Gonzaga, o rei do baião, que difundiu pelo Brasil um novo Nordeste, um Nordeste real, que além das dificuldades enfrentas e do sofrimento já conhecido, também tem uma cultura rica, uma gente forte, animada e que ama sua terra.

Gonzaga conseguiu, através de suas músicas, criar um Nordeste que não era conhecido por aqueles que viviam na região Sudeste, quebrando estereótipos por muito tempo perpetuado. Conseguiu também protestar contra o descaso dos governantes e o esquecimento da região que ele nasceu, cresceu e saiu muito cedo para ganhar a vida. Suas músicas acalentavam um povo que sofria, ora por estar vivendo situação de flagelo em uma terra difícil ora por estar distante do seio de sua terra natal, e que se identificava com as letras de suas canções. Luiz, ou Lua, como também era conhecido, cantou o homem, as festas e a terra; cantou a saudade, a tristeza e o amor. Cantou também a felicidade, a partida e a fé, a fé na volta da chuva, na melhora da situação. Luiz cantou o que ele viveu, como nordestino de Exu, que passou pelas dificuldades que um sertanejo passa. Luiz, através de sua arte, deu visibilidade aos anseios de seu povo, que por muito tempo foi esquecido na invisibilidade de um país que desvaloriza o que não é da cidade grande. Luiz Gonzaga cantou o que acreditava e traduziu de forma singular o Nordeste e sua gente.

[...] a partir da arte de Luiz Gonzaga, os nordestinos passaram a ouvir então uma música que trazia no seu conteúdo a consciência de seus autores em relação aos verdadeiros valores do homem do Nordeste e os problemas de sua terra. (AUSTREGÉSILO, 2012, p.141).

A indústria da seca

O que é conhecido como indústria da seca é o movimento do âmbito político e econômico das regiões atingidas pela seca. Por conta da situação vulnerável que a população se encontra frente as dificuldades que a seca lhe impõe, muitos políticos e até mesmo comerciantes se utilizam dessa fragilidade para se beneficiar, faturando com a falta de água e de alimento, ou até mesmo explorando a mão-de-obra sertaneja.

Dito isso, os políticos aproveitam da debilidade de tal momento para se candidatarem, comprando votos através de envios de carros-pipas, de alimentos ou até mesmo através de promessas de melhorias. Usam do assistencialismo para imprimir em tal sociedade uma política de paternalismo, de clientelismo que se perpetua ao longo dos tempos. Assim, esses governantes podem até implementar projetos que visam ajudar os sertanejos, mas são apenas projetos de curto prazo, medidas adotadas para socorrer a população em um momento de seca, amenizando temporariamente o problema. Não se pensa em resolvê-lo por completo visto que é muito mais viável para eles, e todos aqueles que possuem certa posição de poder, manterem uma situação que lhes renderão lucros, do que solucioná-la. Desse modo, no período de grande estiagem é disponibilizado para o sertanejo um auxílio dado pelo governo, com o propósito de dar certa condição de sobrevivência para aqueles que estão sofrendo a perda de suas plantações e de seus animais.

Luiz Gonzaga canta uma música que aborda essa temática, a esmola, por assim dizer, cedida pelo governo, para um povo que perdeu tudo por conta da negligência dos donos do poder que fecham os olhos para a realidade cruel do semiárido do Nordeste brasileiro. A música de composição do próprio Gonzaga em parceria com o compositor Zé Dantas, gravada em 1953, é um apelo escancarado por melhorias e uma crítica aos governantes que acham que o pagamento de tal esmola em tempos difíceis é o suficiente para suprir as necessidades de um povo.

Seu dotô os nordestino

Têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista

Nesta seca do Sertão

Mas dotô, uma esmola

A um home que é são

Ou lhe mata de vergonha

Ou vicia o cidadão

É por isso que pedimo

Proteção a vosmicê

Home por nós escuído

Para as rédias do pudê

Pois dotô dos vinte Estado

Temos oito sem chuvê

Veja bem, quase a metade

Do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo

Encha os rios de barrage

Dê comida a preço bão

Não esqueça a açudage

Livre assim nós da esmola

Que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juro

Sem gastar nossa corage

Se o dotô fizer assim

Salva o povo do Sertão

Se um dia a chuva vim

Que riqueza pra nação

Nunca mais nós pensa em seca

Vai dá tudo nesse chão

Como vê, nossos destino

Mecê tem em vossa mão.

Na primeira e segunda estrofe Luiz canta o descontentamento da situação de dependência em governantes que parecem esquecer que eles foram escolhidos pelo povo no qual eles mesmo fazem pouco, bem como lembra que em um país de 26 estados, quase a metade se encontra em situação de miséria.

Na terceira e quarta estrofe fica claro que ele não quer receber auxílio do governo, mas quer meios de viver através de seu trabalho, pois quando a chuva vier tudo irá se ajeitar, sendo não mais necessária a ajuda dos políticos, pois com a chuva é possível plantar e assim também se torna possível viver de forma independente. Ao final, ele lembra que o destino de toda uma gente se encontra nas mãos daqueles que foram escolhidos para governar.

Apesar de Luiz Gonzaga e Zé Dantas serem os primeiros a dar a famosa esmola aos nordestinos, organizando campanhas de ajuda para os flagelados, recolhendo dinheiro, roupa e comida que mandavam para o Norte, estavam conscientes de que a solução não era essa, e que o problema era político.

(Dominique Dreyfus, 1997).

Outra canção interpretada por Gonzaga e que pode ser lembrada neste artigo ao que diz respeito das músicas que falam acerca dos que se utilizam da situação da seca para benefício próprio, fazendo uso das promessas de melhorias ao povo e da troca de favores em prol de candidaturas, é Procissão, composição de Gilberto Gil, gravada em 1971.

Muita gente se arvora a ser Deus

E promete tanta coisa pro Sertão

Que vai dar um vestido pra Maria

E promete um roçado pra João

Entra ano, sai ano, e nada vem

Meu Sertão continua ao deus-dará

O êxodo rural

O êxodo rural proveniente da seca do semiárido nordestino surge por conta da falta de condições de sobrevivência em um cenário precário no qual a negligência política e a falta de projetos governamentais efetivos não tornam possível manter o sertanejo em sua terra. A falta de trabalhos, dinheiro e chuva, contribuem para o distanciamento do homem de suas raízes.

Os espasmos que interrompem o ritmo habitual do clima semi-árido regional constituíram sempre um diabólico fator de interferência no cotidiano dos homens dos sertões. Mesmo perfeitamente adaptados à convivência com a rusticidade permanente do clima, os trabalhadores das caatingas não podem conviver com a miséria, o desemprego aviltante, a ronda da fome e o drama familiar profundo criado pelas secas prolongadas. (Ab’Sáber, 2003, p. 85).

O sertanejo, quando encurralado pela seca e todos os problemas que ela traz, como a fome e a miséria, encontra na fuga do sertão uma forma de melhorar de vida, e como consequência, ocorrem as migrações para áreas urbanas, vistas como meio de desenvolvimento, que carregam em si a utopia da prosperidade do retirante que largou tudo em busca de uma realidade diferente da do sofrimento que vivia no Sertão. Homens e mulheres corajosas juntavam o que podia e se arriscavam em viagens perigosas, muitas vezes feitas através do pau de arara, meio de transporte muito utilizado pelos sertanejos em meados do século XX. O pau de arara correspondia a um transporte irregular, muitas vezes um caminhão, que transportava um grande número de pessoas, era de certa forma um substituto imperfeito do ônibus. Desse modo, para compreendermos a forma que Luiz Gonzaga aborda tal temática, nos utilizaremos mais uma vez da canção A triste Partida, composição de Patativa do Assaré que fora gravada por Gonzaga.

Nós vamos a São Paulo

Que a coisa tá feia

Por terras alheias

Nós vamos vagar

Meu Deus, meu Deus

Se o nosso destino

Não for tão mesquinho

Cá e pro mesmo cantinho

Nós torna a voltar

Ai, ai, ai, ai

[...]

Em um caminhão

Ele joga a famia

Chegou o triste dia

Já vai viajar

Meu Deus, meu Deus

A seca terrível

Que tudo devora

Lhe bota pra fora

Da terra natá

Outras duas canções interpretadas por Gonzaga que retratam a migração sertaneja são O andarilho, composição de Dalton Vogeler em parceria de Orlando Silveira, gravada em 1968 e A vida do viajante, composição de Luiz Gonzaga em parceria de Hervê Cordovil, gravada em 1953.

O andarilho, demonstra a solidão de quem largou a família e foi embora ganhar a vida em terras que possuem chuva, onde Deus olha pelos seus, bem como demonstra que para chegar na cidade grande o sertanejo teve que desafiar as dificuldades que a seca lhe impõe.

Caí do céu por descuido

Se tenho pai, num si não

Venho de longe, seu moço

Lugar chamado Sertão

Vivo sozinho no mundo

Zombei da sede, zombei

Cortei com minha peixeira

Todo mal que encontrei

Fui caminhando, enfrentando

As terras que o sol secou

Até chegar a cidade

Dos homens que Deus olhou

A vida do viajante, por sua vez, retrata a saga daquele que, ao sair de sua terra em busca de descanso e felicidade, guarda em sua memória o afeto pelos lugares em que passou e pelas pessoas que deixou pelo caminho.

Minha vida é andar

Por esse país

Pra ver se um dia descano feliz

Guardando as recordações

Das terras onde passei

Andando pelos Sertões

E dos amigos que lá deixei

Chuva e sol

Poeira e carvão

Longe de casa

Sigo o roteiro

Mais uma estação

E a alegria no coração

O repertório de Gonzaga aborda o processo migratório por diversas vezes em várias canções por ele interpretadas, visto que o mesmo entendia tal situação de partir em busca de melhores condições de vida, bem como de melhores oportunidades, pois ele mesmo havia passado por isso. Suas narrativas cantadas contribuíram para o conhecimento da cultura existente no Nordeste. O êxodo é, por assim dizer, uma cultura forte do Sertão: a cultura do abandono, da tristeza de largar a terra e tudo aquilo que ela representa.

Eu ia contando as coisas tristes do meu povo, que debandava do Nordeste para o Sul em busca de melhores dias, de trabalho. Porque lá chove no período exato, lá se sabe o que são as estações. No Nordeste, as intempéries do tempo são todas erradas. Quando é pra chover não chove, então o povo vai procurar trabalho no Sul e o Nordeste vai se despovoando… Então, minha música representa a luta, o sofrimento, o sacrifício do meu povo. (Luiz Gonzaga).

O apego do sertanejo com sua terra, a saudade e a tristeza frequentemente presente na vida daqueles que foram forçados por fatores políticos, econômicos, sociais e climáticos a debandar para regiões distantes, se jogando na incerteza de um futuro, bem como o saudosismo do homem e sua vontade de retornar para seu lugar de origem são questões denotadas com maestria através da música A triste partida.

Trabaia dois ano,

Três ano e mais ano

E sempre nos plano

De um dia voltar

[...]

Lhe bate no peito

Saudade lhe molho

E as agua nos óio

Começa a cair

[...]

Distante da terra

Tão seca mas boa

Exposto à garoa

À lama e o pau

Outra característica presente nas canções de Gonzaga e também presente em A triste partida é o apego religioso do povo sertanejo que se agarra na fé em Deus, rogando por chuvas e, consequentemente, melhor condição de vida. Na música aparecem, como exemplo, a citação de São José que representa a fé do nordestino no seu santo padroeiro, bem como a recorrente frase “Meu Deus, meu Deus”, que implica um ar de súplica. A fé no socorro que vem do céu é muito bem demonstrada na música Súplica cearense, composição de Gordurinha em parceria com Nelinho, gravada em 1979, e interpretada por Gonzaga.

Oh! Deus, perdoe este pobre coitado

Que de joelhos rezou um bocado

Pedindo pra chuva cair sem parar

Oh! Deus, será que o senhor se zangou

E só por isso o sol se arretirou

Fazendo cair toda chuva que há

Senhor, eu pedi para o sol se esconder um tiquinho

Pedi pra chover, mas chover de mansinho

Pra ver se nascia uma planta no chão

Meu Deus, se eu não rezei direito

O Senhor me perdoe

Eu acho que a culpa foi

Desse pobre que nem sabe fazer oração

Meu Deus, perdoe eu encher meus olhos de água

E ter-lhe pedido cheinho de mágoa

Pro sol inclemente se arretirar

Desculpe eu pedir toda hora pra chegar o inverno

Desculpe eu pedir pra acabar com o inferno

Que sempre queimou o meu Ceará

Nessa canção, é nítido o tom de clemência por parte de alguém que apenas quer que o seu Deus envie aquilo que vai lhe livrar da dor de viver no “inferno” no qual a seca é comparada. O personagem dessa canção, um nordestino cearense, chega a pedir perdão por não saber rezar direito, como se a culpa da chuva não ter vindo ser sua. Como o próprio nome da música diz, ela é uma súplica. Súplica de quem já não sabe o que fazer e recorre a sua fé para conseguir viver dias melhores.

Outra canção interpretada por Luiz Gonzaga que também atenta para a religiosidade do povo nordestino é São Francisco de Canindé, composição de Julinho com parceria de Luiz Bandeira, gravada em 1977.

Eu vi a terra fumaçá

Vi graveto estalando o sol

Eu vi o rio virar

Um deserto de pedra e pó

A noite se avermelhou

De tão quente o céu e o chão

Meu povo se encomendou

Esperando o fim do Sertão

Dê um jeito meu São Francisco

Foi assim que pedi com fé

De repente choveu bonito

O rio encheu de fazer maré

Só pode mesmo julgar

Que não é exagerado meu

Pessoa de boa fé

Ou então quem por lá viveu

É triste acompanhar

O Sertão secar e morrer

Compensa a graça de Deus

O milagre do renascer

Obrigado meu São Francisco

Louvo a Deus sua sagração

Tenha sempre ao seu cuidado

O povo humilde do meu Sertão

Não precisa prometer

Ele ajuda a quem tem fé

Fazer bem é seu poder

São Francisco em Canindé

A música retrata muito bem a fé, de forma a apontar o “milagre do renascer” da terra, que com a chegada da chuva tornou-se a vida, onde o rio encheu ao ponto de virar maré. Essa canção dispõe da presença de Deus e do padroeiro, São Francisco, ambos seres de fé e devoção, que possuem em si o poder de trazer vida ao Sertão.

Considerações finais

A partir da análise feita do cenário nordestino levando em consideração as músicas produzidas pelo cantor e compositor Luiz Gonzaga podemos notar como foi interpretado e difundido um Nordeste que a muito tempo fora esquecido e estereotipado por grande parte do país, mas que na voz de Gonzaga ganhou certa visibilidade e representação, de modo a ser transmitido para várias regiões um Sertão desconhecido e difícil de se viver.

Ele mostrou nas letras de seu repertório a poesia singular que está presente na figura icônica do Rei do baião, Luiz Gonzaga do Nascimento, nordestino que ganhou o país cantando e encantando o povo, falando de sua gente, sua luta e sua terra. Mostrando que o Nordeste é real e único, e que os nordestinos sofrem, mas possuem demasiada força para saberem lidar com a dor da seca, da fome, da miséria, do abandono e da saudade, visto que, como disse Euclides da Cunha em seu livro intitulado Os Sertões, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.

Referências bibliográficas

AB’SÁBER, Aziz. Os domínios de natureza no Brasil: potencialidades paisagísticas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

AUSTREGÉSILO, José Mário. Luiz Gonzaga: o homem, sua terra e sua luta. Recife: FASE Faculdade, 2012.

DREYFUS, Dominique. Vida de viajante: a saga de Luiz Gonzaga. 2. Ed. São Paulo: Editora 34, 1997.

DUARTE, Renato. Seca, pobreza e políticas públicas no nordeste do Brasil. Disponível em: http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/gt/20101030020924/16duarte.pdf

Acessado em 02/06/018

MADEIRO, Carlos. Alimentada pela escassez, “indústria da seca” fatura com a estiagem no Nordeste. Disponível em:

https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2012/05/19/alimentada-pela-escassez-industria-da-seca-fatura-com-a-estiagem-no-nordeste.htm

Acessado em 02/06/2018.

VILAR FILHO, Manoel Dantas. Xorocentelha Nº 5 – do profeta paraibano da Seca, Manelito: a busca de elementos biológicos e conhecimentos apropriados. Disponível em: http://www.fundaj.gov.br/images/stories/observafundaj/a-busca-de-elementos-biologicos-e-conhecimentos-apropriados.pdf

Acessado em 02/06/2018.


[1] Trabalho apresentado com o intuito de concluir a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro da graduação do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco, ministrado pelo Prof. Dr. Severino Vicente da silva

[2] Graduanda nno curso de História da Universidade Federal de Pernambucco – UFPE

Tags Categories: História do Brasil, Histório da Cultura, Luiz Gonzaga; José Austragésilo, Nordeste Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 18 jul 2018 @ 11 16 PM

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A atuação da Historiografia na Construção da Verdade sobre o Nordeste[1]

Aluno: Geovane Augusto da Costa Tavares[2]

Introdução

O que é Nordeste? A verdade sobre esta região é múltipla, não sendo única e nem muito menos imutável, em verdade, existem várias concepções e realidades dentro de um espaço imaginário que se constrói. Essas realidades são diversas, sendo baseadas em aspectos econômicos, sociais, culturais e que a partir disso, a verdade sobre o nordeste vai se construindo a partir de diferentes interesses, de diferentes regiões, de diversas histórias, e que assim vão se concretizando ao longo do tempo -através da repetição de um discurso- e sincronizando com outras até a construção de uma verdade, podendo ser ela  de boa ou má fé.

Muitos, quando pensam sobre esta região, visam-na como região de miséria, violência, corrupção, seca, região que determina os indivíduos que lá nascem à miséria etc. Outros já a pensam como região onde remete saudade, lugar de fartura e até polo cultural do Brasil. Essas visões e verdades refletem também como vai se escrever a história desta região, podendo ser elas com o objetivo de enaltecer a Região, como fez o sociólogo Gilberto Freyre, ou almejando a depredar, como fez, por exemplo, o jornalista Paulo Barros, do jornal O Estado de São Paulo.

Este presente artigo terá como objetivo principal de mostrar como a historiografia influência na construção da verdade sobre o Nordeste, como essa historiografia nasce e sob qual contexto ela é construída. Utilizando-se como metodologia a análise de estudos sociológicos, textos jornalísticos e até escritos literários sobre a região e demonstrar como eles participam do processo de construção da historiografia Nordeste, e demonstrar como podemos utilizar estudos históricos como arma para a desconstrução deste Nordeste criado.

Dividirei este artigo em 3 partes, a primeira, chamada de “O nascimento das regionalizações” terá como objetivo investigar como nasce a ideia de nação e as regiões de nosso país, tendo início na segunda metade do século XIX e os vários movimentos que surgem em busca da ideia de nação e como isso acaba influenciando na construção da historiografia e o modo de ver o território nordestino. A segunda parte, chamada de “Como a historiografia vê o Nordeste”, tem como objetivo mostrar como o Nordeste nos é construído e nos é mostrado (os estereótipos sobre Nordeste) e mostrar os principais autores que ainda nos influenciam na visão da região e como nasce a “historiografia da seca”. A terceira parte possui a denominação de “Em busca da autêntica verdade sobre o Nordeste” mostrarei estudos historiográficos e análises que ajudam a desconstrução da visão estereotipada sobre o Nordeste e os autores que buscam trazer à tona a verdade, desconstruindo a historiografia positivista e mostrando um novo modo de contar a história pelo próprio Nordeste.

O nascimento das regionalizações

Para compreendermos melhor como nasce a historiografia que aborda o Nordeste, é necessário voltarmos ao início, desde os movimentos nacionalistas e modernistas emergentes da segunda metade século XIX, pois é neste momento de revolução intelectual que nasce as regiões e as formas especificas de como enxergá-las. Estes movimentos possuíam por objetivo construir a ideia de nacionalidade em nosso país, pois ainda que fossemos independentes desde o início do século XIX, a ideia de nação e regionalidade – este como pré-requisito da construção nacional – em nosso país era embrionária e estática.

O Nordeste que falaremos, não é o que costumamos ver no mapa do Brasil, que se resume a um ponto físico entre o Norte e o Leste, mas sim como região que possui traços socioculturais próprios e que é construída historicamente de forma única e região que é vista por várias vertentes, devemos voltar no processo de construção da nação brasileira, pois é nesse contexto que nascem as várias verdades que constroem o que é o Nordeste.

Na segunda metade do século XIX, o Brasil vai se emancipar como Estado independente da coroa portuguesa e com isso surge em nosso território novas formas de enxergarmos o espaço e região na qual os indivíduos estão inseridos. Essas visões sobre nosso território aparecem com mais força no período de transição do regime monárquico para a república, pois é nesse período que a região onde, predominante os modernistas estão, que é o Sul, vai avançar e mostrar progresso em relação às outras regiões. Antes o Brasil era visto através da visão Belle époque europeia, visão esta que definia uma verdade determinista sobre o nosso país, olhando de maneira naturalista e de tropicalidade exótica, ignorando as diferenças regionais e explicando-as como uma pequena variante do clima tropical brasileiro. Colocando o meio e a raça como fatores determinantes para o atraso sociocultural brasileiro. Esta visão eurocêntrica decai a partir do surgimento da primeira “grande” guerra e a partir daí o Brasil necessita da criação de uma identidade nacional para se auto afirmar como nação independente da influência cultural europeia.

Segundo o historiador, Durval Muniz, a identificação com o local de vivência é uma necessidade do homem ocidental, sendo culturalmente praticada desde o século XVIII, que com isso, tem por objetivo de criar um valor ao local em que nasceu, cresceu e adquiriu comportamentos sociais, linguísticos e culturais únicos. Baseado nisso, é que foram, como exemplo, criados os primeiros Estados-Nações da Europa.

No Brasil, a partir deste momento de desconstrução da antiga territorialidade, as regiões irão à procura de símbolos e costumes que tornem autêntico a construção daquela região, pois é principalmente depois da década de 1920 que se constrói uma ideia de “macro” regionalismo (região composta de vários grupos que mesmo com suas diferenças individuais, compartilham semelhanças entre si) em detrimento do “micro” regionalismo (valorização somente de um grupo como o único agente criador de uma região), e nesse processo, nasce o Nordeste e também outras regiões de nosso país, que é um rompimento do complexo Norte do Brasil, destacando-se pelas suas próprias características socioculturais e econômicas.

Concomitantemente a esta época, o brasil estava em processo de transição político cultural. O contexto brasileiro, principalmente o sul/sudeste (fatores como a vinda da mão de obra valorizada culturalmente e economicamente da Europa, o capital acumulado nessa região e o posterior investimento no café que fez um grande sucesso, ajudaram no processo de crescimento desta região), entra em um processo de modernização, tanto ideológico quanto no espaço físico das grandes metrópoles, e isso ocasionará um momento de grande expectativa para o progresso da nação brasileira e a partir disso, acreditava-se que a nação só iria se construir a partir do progresso econômico e modernização, porém, quem não se enquadrasse nesse processo, não se enquadraria na nação. Cabe dizer que a verdade sobre uma região ela é imposta, e isso interfere na busca de uma real verdade sobre o Nordeste, sendo assim, é através da valorização de alguns elementos, que nesse caso eram o progresso e o avanço econômico, em detrimento do antigo espaço brasileiro, ignorando fatores histórico-culturais

Surge nesse período, dois grandes movimentos que criam as regiões e como elas se organizam no imaginário de nação, são eles o regionalismo, propriamente dito, e o modernismo. O regionalismo é um movimento que busca trazer identificação a uma certa região, e colocá-la em posição de destaque, sendo ela o produto do imagético e das relações sociais entre os indivíduos e/ou grupos que ali estão e a partir disso, valorizar e engrandecer o seu território e dizer que é a partir deste produto anteriormente citado, construir o ideal de nação, exemplo disso é o “bairrismo”, expressão esta muito utilizada por Gilberto Freyre para designar que o centro de referência cultural é a sua própria localidade. De certa forma é considerado um movimento até que separatista. Já o movimento modernista é um movimento que visa nacionalizar, ele prega que o regionalismo é um pré-requisito para a construção da nação. Podemos entender melhor essa ideia com a parte do trecho de Durval de Muniz de Albuquerque JR:

“O regionalismo é, no entanto, visto com bons olhos por alguns intelectuais nacionalistas. Sampaio Ferraz, por exemplo, considera que o apego natural à terra natal não colide com a formação da nacionalidade, mas achavam que a consciência regional era a primeira forma de manifestação da consciência nacional. Só que esta era um estágio a ser ultrapassado, quando houvesse a criação da consciência brasileira.”(pág. 63)

Com isso o modernismo acreditava que a verdadeira nação se construiria a partir da incorporação das diferentes regiões do Brasil, como por exemplo, a relação entre o mundo costeiro e litorâneo com o homem sertanejo, visto em Macunaíma de Mário de Andrade

Porém, em verdade, esse nacionalismo pregado pelo movimento modernista era um regionalismo disfarçado, pois maior parte dos que pertenciam ao movimento exaltavam o eixo sul, principalmente São Paulo, pois naquela época, o sul passou economicamente sobre o Nordeste, sendo assim o novo polo industrial e moderno do país, logo, a nação moderna que eles pregavam era inspirada na região Sul, principalmente São Paulo – berço do movimento modernista brasileiro – e todas aquelas regiões que não apresentavam o desenvolvimento equivalente ao do Sul/Sudeste não enquadrava-se na nação, assim afirma o historiador Durval Muniz:

“Um regionalismo que, após a proclamação da república, passa a se expressar cada vez mais sob o disfarce do nacionalismo. São visões e interpretações regionalistas que buscam impor como nacionais, e cujo embate é um dado fundamental na história do país.”(A invenção do Nordeste e outras artes, pág. 65)

Para a propagação destes pensamentos, utilizou-se o campo das artes, sendo preferencialmente o uso da literatura e os artigos científicos jornalísticos pois com esses recursos, reconhecia se as diferentes regiões do Brasil e ajudavam na construção da nação ideal, integrando as diferentes regiões e afirmando que é justamente nessa dualidade de realidades que a nação brasileira nasce. Os artistas pertencentes a esse movimento preocupavam-se bastante com o que eles mesmo poderiam abordar, tendo como preocupação a construção na produção desse novo espaço nacional.

Assim, começou a se construir um Nordeste carente, miserável, violento etc. Ou seja, um cenário totalmente caótico e distópico, em que pela própria natureza da região, ela é fadada a dar errado, tanto pelos fatores da Natureza – como a seca que vinha de alguns tempos se tornado frequente, principalmente no fim do século XIX e no século XX – também pelos fatores sociais, que são consequentes aos períodos de estiagem, causando fome, morte e o desejo de retirada desse lugar – tendo como principal destino a região sul/sudeste – e com isso, cria-se uma visão estereotipada sobre Nordeste. Tanto pelos fatores também culturais da sociedade Nordestina, que foi demonizada como retrógrada, principalmente culpando a presença da raça negra na formação da sociedade desta região e outros fatores, como a religiosidade, movimentos sociais como o cangaço, etc.

Como a historiografia vê o Nordeste

Como vimos anteriormente, para a construção da verdade sobre uma região, um dos elementos essenciais é a coleta de dados históricos e a produção cultural que os grupos daquele imaginário espaço produzem, porém, dependendo da intenção e da ideia, constrói-se métodos para que se omita a verdade de outra para elevar a sua região. Um desses métodos é a escrita da história que se relatados somente de um lado, imponha-se e cria-se somente uma visão, sendo ela universal (fazendo com que até as próprias vítimas da estereotipização acreditem nesta versão) para todos.

Cabe dizer que a historiografia não se resume somente na análise de trabalhos científicos ou textos acadêmicos, mas também abrangem qualquer forma escrita de passagem de informações e de discurso ideológico, incluindo assim, os textos jornalísticos e as artes, principalmente a literatura, sendo assim, sendo necessário a análise de toda a forma historiográfica que construiu o Nordeste como a região do caos e regresso e como isso interfere no modo de escrita da história desta região.

Surge no final do século XIX, o desejo de se construir uma historiografia nacional, com o objetivo de construir nossa história de nossa nação e exaltar a todos aqueles que participam desse processo de avanço e progresso (um exemplo disso é como está bem explicito as palavras, em nossa bandeira republicana, “Ordem e Progresso”, insinuando, claramente, que o Brasil é um país do futuro). Nesse contexto, existe uma dualidade entre Norte e Sul de nosso país, enquanto o “Complexo Sul” demonstrava progresso, evolução e intelectualidade, a região oposta, o Norte, demonstrava atraso, improdutividade e dependência do Estado. Os pioneiros de nossa produção historiográfica foram os modernistas, e como vimos antes, sabemos que os modernistas pregavam um falso nacionalismo, e que na verdade era um regionalismo de exaltação da região Sul, pois naquele contexto tinha virado o centro do Brasil. Com isso, começa-se a criar todo uma exaltação em torno do “eixo do progresso” e constrói-se uma imagem de perdição ao “eixo do regresso”.

A relação da seca e Nordeste é um ponto essencial que precisamos conhecer da região, pois ela é uma temática que é diretamente ligada, pela historiografia, à região. O historiador Manuel Correia de Andrade, nos traz essa dimensão, dizendo que na região:

“há dois tipos de seca no Nordeste, a anual, que dura de sete a oito meses, correspondendo ao longo período de estio entre dois períodos chuvosos de três a quatro meses, de vez que o sertanejo já está adaptado e ela dispõe de reservatório d’água que dão para atravessar estes períodos. Ao lado desta existem as secas periódicas, de difícil previsão e que se efetivam quando em um período normalmente chuvoso – dezembro a março – não caem as chuvas esperadas, fazendo com que aquele período seco de sete a oito meses se estenda por dois e às vezes três a quatro anos.” (A Intervenção do Estado e a Seca no Nordeste do Brasil. Revista de Economia Política. Pág. 126)

Durval Muniz diz que o surgimento da visão da seca e da intervenção estatal Nordeste surge a partir do reconhecimento das secas na região Nordeste, sendo a de 1877-1878 a primeira reconhecida e espalhada massivamente pela mídia, é que se começa a maior preocupação, por parte dos governantes, sobre esta realidade de estiagem e suas consequências desastrosas para as populações da região. Os governantes do Norte irão a partir deste momento, descobrir uma enorme arma para o ganho de verba, requisitando mais e mais ajuda financeira no Parlamento, através da militância política, reclamando e exigindo o mesmo tratamento, por parte do Governo Federal, que era dado ao “Sul”. E é a partir deste momento que surgem dois problemas que se tornaram verdades sobre a região, tanto pela repetição do discurso quanto pela sua ocorrência após esse fato, surge então o “Nordeste clientelista” e a “Industria da Seca”.

O “Nordeste clientelista” é uma visão (na qual torna-se verdade tanto pelo dizível, tanto por realmente sua ocorrência) na qual diz que a situação da região e, às vezes, do país são consequência dos “nordestinos” que não sabem votar e trocam seus votos por agrados clientelísticos, como cargos públicos, cestas básicas, acessórios para uso pessoal etc. e consequente a isso surge a “Indústria da Seca”, que é a corrupção por parte desses governantes (geralmente populistas que prometem que os problemas do povo irão terminar caso ele assuma o cargo na política), que solicitam verbas federais para o investimento nas áreas de estiagem, como obras de infraestruturas (Hospitais, Escolas e até de reservatórios de água.), porém, sempre desviam dinheiro, utilizam para outros fins e prejudicam realmente aqueles que precisam e os mantem na miséria para que nas próximas eleições possam novamente pedir votos e assim tornando um ciclo vicioso. E a historiografia costuma a retratar este fatídico fato como totalidade na região, passando assim a ideia de que esses problemas ocorrem por serem naturais da região e da própria população, não sendo problemas das pessoas que utilizam a fome e sede desse povo para se aproveitarem.

O nascimento da terminologia “Nordeste” na historiografia, surge a partir da designação feita pela Inspetoria Federal de Obras Contra a Seca (IFOCS), criada em 1919, que teve por objetivo destacar dentro da região Norte, uma região que está mais suscetível aos males da estiagem, sendo assim, através do discurso desta instituição, podemos ver que o Nordeste nasce oficialmente como região que está ligada as secas. É através de discursos assim que vai se construindo a historiografia do Nordeste.

Uma das maiores obras historiográficas que ajudaram e muito na construção deste Nordeste na perspectiva e realidade das secas é o livro “Os Sertões”, publicado em 1906, pelo escritor e jornalista, Euclides da Cunha. Esta obra trata de relatar o conflito armado que estava ocorrendo na cidade de Canudos, no interior da Bahia, pois na época ele era correspondente do jornal O Estado de São Paulo. O contexto da guerra era que essa região do sertão baiano, historicamente caracterizada por latifúndios improdutivos, secas cíclicas e desemprego crônico, passava por uma grave crise econômica e social. Milhares de sertanejos partiram para Canudos, cidadela liderada pelo peregrino Antônio Conselheiro, unidos na crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social. Os grandes fazendeiros da região, unindo-se à Igreja, iniciaram um forte grupo de pressão junto à República recém-instaurada, pedindo que fossem tomadas providências contra Antônio Conselheiro e seus seguidores. Criaram-se rumores de que Canudos se armava para atacar cidades vizinhas e partir em direção à capital para depor o governo republicano e reinstalar a Monarquia.

Esta obra é uma referência quando se trata na exposição das mazelas ocasionadas pela seca, mostrando também a ineficiência do Estado na aplicação das leis e a violência que se instaura neste local consequente a estiagem, sendo assim, esta obra se torna uma grande referência relacionada aos estudos das ciências sociais e a temática da seca. Porém, esta obra sócio literária torna a situação da seca como verdade absoluta na região Nordeste, sendo assim, a partir desta obra, infortunadamente, cria-se uma visão de caos e atraso na região Nordeste.

Outra obra, desta vez completamente literária, muito importante que contribui para a construção e disseminação deste Nordeste é “Vidas Secas”, de autoria do literata Graciliano Ramos. O livro aborda a pobreza e as dificuldades da vida do retirante no sertão nordestino, narrando as fugas de Fabiano e sua família das secas. Mostrando também relações de poder entre aqueles que dependem dos exploradores para sobreviverem. Com isso ele constrói um Nordeste baseado na visão da miséria e o caos, como diz Durval Muniz:

“Graciliano constrói um Nordeste de vidas infelizes, parcas, trapos de pessoas que rolam pelos monturos. (…) Nordeste das cidades sonolentas, onde homens nasciam oportunamente, casavam oportunamente e morriam oportunamente. E, entre estas ocorrências, comportavam-se mais ou menos direito, e examinavam as vidas alheias, sempre achando nelas motivos para desagrado. Nordeste onde o eleitor cambembe votava para receber um par de chinelos, um chapéu e um jantar que o chefe político oferecia, e onde todos queriam a fácil do serviço público. Nordeste da elite pragmática, sempre disposta a abandonar concepções antigas para aderir imediatamente aos vencedores do dia. Um Nordeste onde as ações se definem pela imitação, pelos gestos copiados dos mais velhos. Nordeste de pessoas que executam ações sem saberem as forças reais que as determinam, presas a quase rituais. Nordeste de homens que pensavam andando banzeiros como urubus, de pés espalhados como de papagaios, nos quais não estravam nem sapato, todos sonhando com a terra da promissão que ficava no Sul. Eram esses complexados e inferiores, derreados sob o peso da enxada, sofrivelmente achados, otimamente obtusos. Uma raça condenada a desaparecer, se não fosse acordada de se torpor, de seu sono, de sua ignorância.”(A Invenção do Nordeste e Outras Artes, Pág. 270)

A criação desta “verdade” deve-se também ao fato da repetição do discurso das imagens da seca que assolam o Nordeste. Os veículos de mídia, além da literatura, também participaram deste processo de construção de verdade sobre a região. A mídia jornalística vai ser um essencial propagador desta visão, principalmente no contexto político da época, em que o poder decisório em nosso país passa a se instaurar na região sul. Em relação a isso, o historiador Durval Muniz nos explica como ocorre este processo:

Torna-se comum a visita de “especialistas e curiosos” a outras áreas (nas Províncias do Norte) do país. Como a centralização do poder, no Rio de Janeiro, obrigava a vinda de políticos dos Estados do Norte, pelo o menos para essa cidade, o desconhecimento do restante do país era mais acentuado entre as populações dos Estados do Sul, que, em sua maioria, apenas ouviam falar do Norte pela imprensa, sobretudo daquilo que os discursos de seus representantes, no Parlamento, diziam e faziam ver. (A Invenção do Nordeste e Outras Artes, Pág. 54)

Com essas visitas, os jornalistas que aqui chagavam já vinham carregados visionariamente da visão euclidiana sobre o Nordeste, com isso, transcreviam aos jornais que tudo que aqui se encontrara era consequente da “natureza má” da região, logo as características socioculturais do Nordeste eram completamente descritas com a repetição de certas imagens que denigrem a região. A cultura nordestina é construída, através desses relatos, como uma cultura primitiva, por ser/ter uma cultura totalmente diferente da cultura “ideal” que os sulistas criaram, pois para eles o sucesso econômico e desenvolvimentista urbano do sul é graças à cultura europeia branca advinda dos imigrantes italianos, alemães, japoneses, etc. (exemplo disso é o movimento modernista que se expandiu a partir das décadas de 20 e 30 do século passado, que visava o objetivo de trazer uma visão moderna e única a todo o Brasil, desvalorizando as características exclusivas que cada região possuía). E prova disso é como os veículos de mídia retratavam e ainda retratam o nordeste, como sendo uma região totalmente sem preparo nenhum para o crescimento, e ainda, criou-se que o Nordeste é uma região que atrapalha o desenvolvimento da nação, um exemplo disto é que até hoje, tem-se como verdade, que culpa de toda a atual situação política/econômica/cultural do país é colocada sobre o nordeste, por ser uma região de pessoas miseráveis e não inteligentes, que vendem seus votos em troca de produtos e mercadorias de subsistência, para políticos populistas e que consequentemente elegem corruptos (mesmo que a verdade sobre a corrupção, é que este problema está no aparelho estatal brasileiro, independente de região e cultura, sendo um problema estrutural de nosso Estado-Nação) e todo o país paga as consequências das erradas escolhas da população nordestina brasileira, sendo assim, criando um discurso de verdade sobre a região, dizendo que o Nordeste é uma região de miséria e atraso em relação ao progressismo que o sul/sudeste prega.

Um dos jornalistas mais influentes na criação deste imagético nordestino é o jornalista Paulo de Moraes Barros, colunista do jornal O Estado de São Paulo. Ficou conhecido a partir de seus relatos em visita a Juazeiro, que lá considera, de forma explicita, que o meio (O clima e a natureza da região) e a raça (A presença do negro em maioria na composição étnica do Nordeste) são fatores determinantes para o atraso regional. Paulo Barros, em sua série de artigos intitulados como “Impressões do Nordeste” relata a presença, na região de seus estudos, de “fanáticos boçais que se disseminavam por toda a região” e pelas “turbas que os assediavam, homens e mulheres de aspectos alucinados, olhos esbugalhados , com os braços estendidos, atirando-se por terra, tentando tocar a barra da batina do beato”,  como também a “violência dos bandidos facinorosos” e com isso, questionava-se como podia um povo assim ser a base de construção de uma nação (visão essa claramente modernista). Analisando completamente essa série de artigos, encontramos também a construção de outras imagens negativas como verdade sobre a região, vemos a construção de um lugar onde possui uma história violenta, bárbara, que sua população vive na miséria por serem preguiçosos, região do coronelismo, região de cidades “interiorizadas”, o sotaque é visto de uma maneira inferiorizada, dando significância como o linguajar do caipira, a fé como questão de atraso, chamada de fanatismo religioso.

Nesse processo surge a historiografia em relação ao Nordeste, que como os outros meios, tende a distorcer a verdade sobre o Nordeste. Essa historiografia nos apresenta-nos de maneira fraca o Nordeste açucareiro, do lucro e da fartura, e dá a importância, de forma prioritária, do Nordeste da seca e das tentativas de intervenção do Estado, ignorando completamente a importância do Nordeste diante do cenário brasileiro e até mundial. É necessário afirmar que está historiografia é escrita por, majoritariamente, historiadores influenciados pelas ideias modernistas, na qual, a partir do século XX a diante a história do Brasil só é contada na perspectiva de crescimento e modernização, e que depois do crescimento e modernização da região Sul, o Nordeste torna-se totalmente do progresso e intervenção na economia do Estado.

Comumente, quando estudamos história do Nordeste e sua influência em cenário nacional, sob esta historiografia positivista, estudamos que o primeiro empreendimento português foi a exploração do Pau-Brasil, depois a metrópole exigiu a plantação da cana e depois, período esse que durou muito tempo (e percebe-se que o Nordeste nesse período não é citado, ele se quer existe nesse período), e logo vemos que a história do Brasil se volta ao movimento dos bandeirantes, crescimento do sul, principalmente depois da desvalorização da cana no Nordeste (deixando a partir deste momento totalmente de lado esta região) e vemos que a partir de fatores, sendo eles principalmente, a transição da monarquia para a república, o café e a vinda da mão de obra branca europeia, a exploração de metais preciosos em Minas Gerais, a região sul passou a tomar conta das decisões econômicas e políticas do país, tendo um dos maiores exemplos a política café com leite. Porém, até a história recente do nosso país é registrada a partir da visão e as decisões são tomadas pelos “sudestinos” e “sulinos”, deixando o “complexo Norte” para trás, e em alguns casos, culpando está região, já tão prejudicada, pelos problemas das regiões sul e sudeste (caso este, o julgamento sobre os retirantes que chegam lá com esperança para a construção de uma nova vida nessas metrópoles) e também os problemas gerais da nação.

Em busca da autêntica verdade sobre o Nordeste.

Contrapondo a imagética e verdade ideológica construída sobre a “região das secas”, existem autores que representam o contrário, representam a supervalorização da região, demonstrando-a não como uma região marginal ao centro civilizador brasileiro, mas sendo o centro civilizador brasileiro, sendo assim, colocando o Nordeste como primeira região do Brasil, construindo uma história do Nordeste pelo Nordeste. Assim, valorizando e amando o próprio espaço regional, nasce uma historiografia nova, que tem por objetivo, não de esconder a verdade sobre a região, mas sim, de demonstrar o outro lado que a historiografia tradicional e positivista ocultou de nós mesmos. A historiografia é uma ferramenta essencial para a desconstrução do Nordeste “euclidiano” que faz com que a verdade da região seja de miséria, seca e improdutividade, pois, se percebemos e analisarmos obras historiográficas, perceberemos que a região tem um significado muito maior do que é nos passados pela mídia, as artes e outros campos do conhecimento, como os estudos sociológicos e ecológicos.

Para descobrirmos este outro lado “oculto” do Nordeste, devemos voltar num período em que nem o Brasil (enquanto espeço geográfico oficial) existia, e analisarmos desde o período colonial os fatores que ajudaram na construção do que é esta região na atualidade. O Nordeste foi a primeira região de nosso país que foi povoada e explorada, tendo como marco inicial no litoral sul da Bahia, onde se localiza a atual cidade de Porto Seguro. A partir deste momento o Nordeste se tornou essencialmente a região fornecedora de riquezas e matérias-primas, principalmente as suas terras, fartas e saudáveis. Os maiores exemplos de riquezas que a metrópole portuguesa usufruiu foram a exploração intensiva do Pau-Brasil – que foi a primeira riqueza explorada de forma sistemática e esta exploração se deu de forma tão intensa que esta arvore é rara em seu território nativo – e a Cana-de-açúcar – que veio do oriente para aqui oficialmente em 1532 através de Martim Affonso de Souza, que foi o primeiro donatário da Capitania de São Vicente, porém, forma nas capitanias localizadas, onde atualmente é o Nordeste, que o plantio deram sucesso e os engenhos se multiplicaram, sendo os principais polos de plantação as capitanias de Pernambuco (do litoral à zona da mata) e da Bahia ( região conhecida como “Recôncavo baiano”, sendo o responsável por esse sucesso o Capitão-donatário Duarte coelho. Esta última riqueza citada, a Cana, foi essencial para a formação da estrutura social, cultural e econômica da região nordestina, pois desde o século XVI, até os meados do século XIX, foi a principal atividade econômica de toda a colônia. O crescimento econômico desta região foi estruturado totalmente à mercê dos interesses da coroa portuguesa, sendo assim chamada de economia colonial, ou seja, a colônia só cresce se for do interesse da metrópole, sendo assim, a região não tem autonomia de decisões sobre seu próprio território, servindo exclusivamente ao Estado metropolitano, Com isso, a estrutura sociocultural da região se constrói em torno da atividade econômica, ignorando os desejos individuais (caso aqueles que trabalhavam e serviam aos interesses metropolitanos) daqueles que ali estavam.

O tipo de economia anteriormente citado, a mercantilista, ajudou a formar vários “Nordestes” dentro de um (Nordeste canavieiro, Nordeste da pecuária, Nordeste do algodão etc.), pois para cada ambição da metrópole (e a região do Nordeste era produtiva o suficiente para atender aos interesses metropolitanos, do litoral ao “sertão”) construía-se uma forma social exclusivamente em torno daquela produção, sendo assim, aqui se formava expressões culturais, sociais e econômicas próprias, ou seja, a economia colonial foi um dos fatores que ajudaram na heterogeneidade de sociedades que estão presentes na região do Nordeste, sociedades essas que, contraditoriamente, eram próximas e afastadas. Próximas no sentido de possuírem em comum uma metrópole colonizadora única, considerada “progenitora” de sua bagagem cultural (religiosidade, linguística etc.), e afastadas pela própria característica do sistema colonial mercantilista, que exigia de suas colônias o pacto colonial, conjunto de regras e leis que a metrópole colocava sobre sua colônia, e uma delas era a proibição de qualquer tipo de relação comercial ou troca de informações de sua colônia com outras metrópoles ou outras colônias, ou seja, o produtor de riquezas – que era colocado de forma estratégica pela metrópole, assemelhando-se ao sistema feudal europeu – de uma determinada colônia era escravo dos ordens e interesses do Estado metropolitano, dono por legitimação da colônia. Com isso, podemos notar a construção de uma diversidade sociocultural e de riquezas em nossa região, contrariando a visão homogênea que a historiografia sulista nos descreve.

Quando se fala em “historiografia nordestina”, é impossível não falarmos do pioneiro que possibilitou a criação deste movimento historiográfico e o de desconstrução do Nordeste retrogrado que sulistas pregavam, e que nos possibilitou ver a região com outros olhos, esse pioneiro se chama Gilberto Freyre, pois é como o professor Frederico de Castro Neves fala sobre sua participação na construção da historiografia Nordestina:

“Mas, de qualquer maneira, em qualquer circunstância, a obra de Gilberto Freyre é central na configuração desta nova regionalização no Brasil. É dele, portanto, que podemos partir para tentar uma abordagem compreensiva sobre a historiografia e a construção do Nordeste como uma “região” – unidade cultural e política constituída imaginariamente, sedimentada na estruturação identitária brasileira”(O Nordeste e a historiografia brasileira, Frederico Castro Neves. Pág. 3)

Gilberto Freyre irá analisar o Nordeste através de uma metodologia única e inovadora, metodologia essa que a historiografia brasileira, contemporânea a Gilberto, abominava. Sua metodologia é fundada na análise sociológica e ambiental da região em que nascera, para isso, buscou intensivamente analisar a “sociedade canavieira” – maneira esta que ele conceitua a sociedade nordestina – reunindo dados históricos sobre a região, mostrando através dos fatos históricos como nossa região é prospera, tanto na quantidade e capacidade de criação de riquezas materiais, também como o Nordeste é rico culturalmente, influenciando assim todo o território brasileiro.

Durante três séculos e meio foi o Nordeste que alimentou o abastecimento das naus portuguesas, com principalmente a atividade da Cana-de-açúcar, e não somente isso, construiu-se aqui não somente a plantação da cana, mas, segundo a visão “Freyreana” também foi aqui o início da civilização brasileira, ou como Gilberto Freyre diria, “civilização açucareira”, pois é em volta da produção da cana que se constrói nossa sociedade, com a valorização do patriarcado, a mistura de raças e culturas, fatores esses que a cana proporcionava.

É dele, umas das Obras historiográficas mais complexas para compreendermos a realidade sociocultural e econômica da região Nordeste, tendo como base a influência da Cana-de-açúcar, é Nordeste: Aspectos da influência da Cana sobre a vida e paisagem do Nordeste do Brasil. Este livro foi revolucionário a seu tempo pois utiliza fontes históricas oficiais, como também jornais e cartas como fontes primarias de sua pesquisa ecológica sobre o Nordeste, também destacando as obras historiográficas de nordestinos, em detrimento da historiografia sulista. Este livro tem por objetivo pessoal de Gilberto de destacar características próprias da região – que em sua época era desconsiderada e de maneira estereotipada, ainda fazia nas relações oficiais parte do “complexo Norte do Brasil” – e consequentemente construir uma visão de Nordeste como, historicamente, centro civilizador do Brasil, ignorando e rebatendo os discursos que pregavam a “inferioridade nordestina” que o sul pregava em seus meios de comunicação e literatura, principalmente sob influência “euclidiana”. Nesta obras, o mestre de Apipucos procura mostrar como a chegada da economia canavieira modificou o ambiente natural e construiu uma sociedade escravocrata e aristocrata, onde uma minoria de senhores explorava as então chamadas “classes subalternas”, para Gilberto, o Nordeste real nasce do desenvolvimento de culturas e extração de riquezas; apoderando-se do meio natural e do homem, criando, destruindo e sincretizando o cultural europeu, indígena e africano e a partir do aproveitamento das ótimas condições climáticas e do solo roxo, rico em nutrientes, e que na junção desses fatores surge a “civilização do açúcar”.

Gilberto quando afirma que o Nordeste é o centro civilizador do brasil e deve ter uma historiografia própria, ele tem por objetivo nos passar que foi aqui, a “mina de ouro” portuguesa, como ele relata:

De modo que escrever-se a História do Brasil durante esse período, dando maior relevo ao extremo Nordeste ou ao Recôncavo da Bahia, não é bairrismo, como tantas vezes se tem levianamente insinuado, em críticas a historiadores maranhenses, pernambucanos ou baianos. Será talvez bairrismo. Porque através daqueles dias mais difíceis de fixação da civilização portuguesa nos trópicos, a terra que prendeu os luso-brasileiros, em luta com outros conquistadores, foi essa de barro avermelhado ou escuro. Foi a base física não simplesmente de uma economia ou de uma civilização regional, mas de uma nacionalidade inteira. (Nordeste: Aspectos da influência da Cana sobre a vida e paisagem do Nordeste do Brasil. Gilberto Freyre. Pág. 50)

Baseando-se neste relato e em outras obras historiográficas sobre a região, a região Nordeste do Brasil foi a que mais provocou conflitos entre as metrópoles europeias, por justamente sua produtividade, sendo Portugal a protetora de seu “empreendimento” e nações como França e Holanda (através da Companhia das Índias Ocidentais, que foi uma grande empresa de comércio), apelidadas por Gilberto como “os loiros”, eram as concorrentes e interesseiras na colônia. Prova disso, é que se analisarmos numericamente a quantidade de fortes e fortalezas que se encontram em todo o Brasil, não somente nos litorais, mas também em terra a dentro, podemos perceber que a maior parte destas feitorias estão na região Nordeste, isto significa que era aqui que estavam as maiores riquezas que se explorava e é a partir desta luta e suas consequências, (podendo ser elas socioculturais e econômicas) que surge o Nordeste.

Outros autores nos mostram a importância do Nordeste para a nacionalidade e a construção do que é o país hoje, mesmo nos períodos de estiagem que assolam a região, temos por exemplo o historiador Manuel Correia de Andrade, autor do livro “A terra e o Homem do Nordeste”, que “a costa nordestina foi, inegavelmente, dentre a grande extensão litorânea brasileira, a primeira a ser explorada” e isto nos mostra como a região litorânea nordestina foi essencial para o estabelecimento português no Brasil, pois desde o litoral até o sertão. Outro historiador, Cristiano Luís Christillino, na qual nos mostra em seu estudo “O Nordeste na historiografia sobre a Política no Segundo Reinado” que o Nordeste, mesmo no processo de perda das decisões políticas do país ocorrida no final do século XVIII (consequentes das constantes crises da manufatura canavieira), ainda assim, as províncias do Norte eram respeitadas e ouvidas pelo Imperador, atuando ativamente com as decisões políticas do Império, porém este historiador nos mostra, como vimos antes, a mídia como atuante neste tempo para a construção desta verdade, pois os jornais sulistas só noticiavam as decisões de sua respectiva região, ignorando as províncias do Norte neste processo de influência na  politica nacional.

O Nordeste, segundo análise ecológica, é uma região farta em água pois a manufatura açucareira e a pecuária são áreas (que foram áreas fundamentais da economia colonial no Nordeste) que exigem bastante o uso de água, pois para mover as moendas da cana e saciar a sede dos animais se exige grandes quantidades de água, logo, conclui-se que o Nordeste é uma região muito boa na área hídrica e que os problemas naturais da seca são momentâneos. O Nordeste nos mostra diversidade em riquezas e que os problemas que aqui estão presentes, não são de sua natureza, mas como se organiza e a utiliza para bem próprio de grupos de minorias que usufruem-se dessa situação, contribuindo para a construção negativa da região, como ele mesmo nos diz “De qualquer forma observa-se que o grande problema do Nordeste semiárido não é físico, de solos ou de clima, mas de sensibilidade de governo de interesse social.” (Andrade, A interveção do Estado e a seca no Nordeste do Brasil, 1986)

É essencial dizer que foi por causa dos movimentos emigratórios da região do Nordeste para Sul (maior parte para o que hoje é a região sudeste) que as cidades dessa região cresceram tanto economicamente e consequentemente, estes emigrantes levavam daqui para lá sua eterna saudade do lar em que cresceram e aprenderam a amar e consequentemente, carregados de sua cultura popular, influenciaram e muito na construção sociocultural das grandes metrópoles. Exemplo disto é que hoje, no Estado de São Paulo, encontra-se o maior centro cultural de viola Nordestina, estudo esse realizado pelo o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, que teve como tema da pesquisa “A cultura nordestina no contexto urbano do Sudeste”, mostrando assim, que muito de nossa história cultural, social e econômica está ligada com o Nordeste.

Considerações Finais

No estudo sobre a relação do Nordeste e historiografia vimos que é uma relação construída por várias vertentes, não sendo nunca homogênea, pois cada historiador, escola historiográfica, irá ter uma visão sobre o seu campo de estudo. Vimos também o poder que a utilização dos recursos historiográficos possui para a construção da verdade sobre algo, com o objetivo de justamente demonstrar superioridade em detrimento do outro.

Em nosso atual meio escolar e acadêmico, podemos notar que a historiografia positivista do século XIX ainda é muito presente no meio educacional, sempre nos mostrando a visão da seca e miséria como única verdade quando pensamos em Nordeste. Porém, a passo lentos vem perdendo a vez para a historiografia regionalista inspirada por Gilberto Freyre, que conta com a ajuda de historiadores, jornalistas literatas etc. que constroem o Nordeste na qual contrapõe-se a esta visão determinista sobre a região e constroem assim, um Nordeste do povo, farto, onde muitos usufruem do bom e do melhor e que possuem orgulho por serem desta região e possuírem de certa forma, uma cultura única e riquíssima construída a partir das vastas relações culturais.

Referências Bibliográficas

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Andrade, M. C. (1963). A Terra e o Homem No Nordeste. xxx: Brasiliense.

Andrade, M. C. (Dezembro de 1986). A interveção do Estado e a seca no Nordeste do Brasil. Revista de Economia Política, 6, 125-130.

Barros, P. d. (3 de Setembro de 1924). Impressões de São Paulo. O Estado de São Paulo, pp. 3-4.

Christillino, C. L. (2013). O Nordeste na historiografia sobre a Política no Segundo Reinado. XXVII Simpósio Ncional de História, 9.

Freyre, G. (1937). Nordeste: Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. São Paulo: Global Editora e Distribuidora LTDA.

Júnior, D. M. (2011). A invenção do Nordeste. São Paulo: Cortez Editora.

Neves, F. d. (2012). O Nordeste e a Historiografia Brasileira. 18.

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https://www.suapesquisa.com/colonia/pacto_colonial.htm (Último acesso às 15:45 do dia 16/06/2018

https://bndigital.bn.gov.br/francebr/equinocial.htm (Último acesso às 16:34 do dia 19/06/2018)


[1] Trabalho apresentado na disciplina Tópicos da História do Nordeste, ministrada pelo professor Severino Vicente da Silva, no Curso de Licenciatura de História da Universidade Federal de Pernambuco, 2018.

[2] Graduando de História na Universidade Federal de Pernambuco.

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Categories: História do Brasil, Nordeste
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 09 jul 2018 @ 09 07 PM

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02 de dezembro de 1870



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