16 out 2008 @ 12:20 PM 

Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História Moderna II
Professor: Severino Vicente da Slva

Alunos: Ítalo Almeida
João Vinícius
Raimundo Ferreira

ESTRUTURA E DINÂMICA DA CORTE FRANCESA MODERNA

Recife, outubro de 2008

Sumário
I – Prefácio…………………………………………………….3
II – A sociedade de corte no processo civilizador……………………………………………………..4
III – Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa……8
IV- Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte……..11
V – Rei, prisioneiro da etiqueta……………………………………………………….15
VI – Sociogênese da revolução…………………………………….18
VII – Referências Bibliográficas………………………………………………….22

Estrutura e Dinâmica da Corte Francesa Moderna

Prefácio
Por: Ítalo Almeida

Abordaremos ao longo dessa exposição, baseando-nos principalmente no pensamento do Alemão Nobert Elias, estudar não um rei em particular, mas a sua função de rei; não a ação de um príncipe, mas as redes de pressões na qual ele está inscrito. Trataremos da corte francesa de Luís XIV, o Rei-Sol, que se tornou modelo para toda a Europa. Levando em consideração a estrutura e a dinâmica dessa sociedade, tomando por base os elementos da lógica do prestígio social e suas ressonâncias na nova ótica social que está se estabelecendo com a ascensão da nova classe burguesa.

Os movimentos e articulações da complexa e delicada interdependência que se estabelecia entre o rei, a nobreza e a burguesia e na medida do possível, observar conexões que nossa sociedade tenha herdado e perpetuado até nossos dias desse contexto.

Faremos uma abordagem diferente da que se daria na Escola dos Annales, não é de nosso interesse privilegiar a História da vida privada. Uma vez que focaremos na estrutura e não no indivíduo, fenômenos que mesmo a vontade do príncipe não alteraria o contexto.

A Sociedade de Corte no Processo Civilizador

Por: Ítalo Almeida

Talvez transite no inconsciente coletivo comum, a corte como um lugar de ostentação de uma vida coletiva, ritualizada pela etiqueta, inscrita no fausto monárquico. O objetivo aqui é atentar para o duplo sentido do termo, ou seja, por um lado, a corte deve ser considerada como uma sociedade, isto é uma formação social na qual são definidas de maneira específica as relações existentes entre os sujeitos sociais e em que as dependências recíprocas que ligam os indivíduos uns aos outros, gerando códigos e comportamentos originais. Em contrapartida, a sociedade de corte deve ser entendida no sentido de sociedade dotada de uma corte, real ou principesca e inteiramente organizada a partir dela, constituindo assim, uma forma particular de sociedade.

Antes que entremos diretamente no processo civilizador no qual a corte exercia sobre seus partícipes, é válido chamar atenção para alguns pontos que serão mais esclarecidos ao longo do trabalho, aqui de forma genérica faremos um rápido sobrevôo nessa possível questão: Como o rei conseguiu atrair em torno dele a nobreza e estender tão fortemente sua influência sobre estes? Ao longo da formação do Estado Moderno, os direitos jurisdicionais pertencentes ao mundo feudal foram sendo incorporados ao aparato estatal. A priori, no momento em que o rei consegue estabelecer-se sobre os nobres mais próximos, achatando as condições destes em torno da sua figura, aos poucos ele recomeça a retomar sobre si seus poderes e influência que foram fragmentados com o Estado Feudal, com a ajuda de alguns nobres e da incipiente burguesia.

No início do século XVI, ocorre uma “refeudalização”1 que gera a Nobreza de Toga. Diferentemente na nobreza feudal, esta detém muito mais o poder administrativo do que militar. O rei, agora como um estrategista, estará mais preocupado com o serviço especializado que lhe será prestado do que com a origem social de quem o presta. Criando inicialmente espaço para uma ascensão social, que outrora na era feudal era praticamente impossível e ao mesmo tempo uma não satisfação dos nobres tradicionais, dando a gênese das articulações que o rei vai manobrar para cada vez mais consagrar-se como soberano.

Tendo iniciado essa lógica, observaremos as ressonâncias entre as partes da sociedade de corte francesa de Luís XIV. A corte foi a estrutura central tanto na constituição do Estado Absolutista quanto do processo civilizador que transformou radicalmente a psicologia do homem ocidental na modernidade. O rei precisaria atrair sobre si não só o poder como também o carisma social, pois a importância da autoridade e da iniciativa individual do líder, não dispõe de nenhum aparelho de dominação fora de seu grupo, está ai a importância do poder manipulativo do rei, permear entre estes meandros e inicialmente barganhar e depois impor sua influência de forma não tão explícita, mas que demonstre sua autoridade.

Na corte o rei trata das noções de figuração, interdependência, equilíbrio de tensões, evolução social e do desenvolvimento das figurações. Isso responde possíveis inquietações sobre o porquê que os indivíduos estão ligados entre si constituindo figurações dinâmicas e específicas? Por partes veremos as inter-relações e significados assumidos aqui pelos conceitos postos no início deste parágrafo. Figuração: formação social cujas dimensões são variáveis como jogadores de um carteado, a sociedade de um café, uma classe escolar, uma aldeia, uma cidade, uma nação. Os indivíduos estão ligados por interdependências e a reprodução supõe um equilíbrio móvel entre as tensões, na verdade, sua liberdade depende dos outros, limitando o que decidir e fazer. A imagem que pode representar estas relações em cadeia é o jogo de xadrez: “…como em um jogo de xadrez, cada ação decidida de maneira relativamente independente por um indivíduo representa um movimento no tabuleiro social, jogada que por sua vez acarreta um movimento de outro indivíduo – ou, na realidade, de muitos outros indivíduos…” 2

Estabeleceu-se um equilíbrio de tensões, como já colocamos, nos primórdios da sociedade de corte, resultante da ruptura das relações feudais; foi esta ruptura que remodelou toda a organização social a partir da proeminência conquistadas pelos reis, este que se tornou absoluto à custas de seus concorrentes: a nobreza e a burguesia.

A figuração da sociedade de corte está intrinsecamente ligada à construção do Estado Absolutista, no duplo monopólio do soberano. Primeiro o monopólio fiscal, o rei centraliza os impostos e dá ao príncipe a possibilidade de retribuir em dinheiro, não mais em terras, seus fiéis e servidores sobre a violência. Segundo, o rei, detentor da força militar, senhor e avalista de todo o espaço social, despoja a aristocracia dos antigos fundamentos de poder, obrigando-os a viver na proximidade do soberano dispensador de rendas, pensões e gratificações.

A afirmação do rei absoluto sufoca as diversas unidades de dominação de um determinado espaço. A hegemonia de um soberano na sociedade elimina, progressivamente, os concorrentes em potencial, reduzindo-os a situação de dependentes. Tomemos o exemplo da França, entre os séculos XI e XVI: a livre competição reduziu progressivamente o número de pretendentes a soberania, no início do século XIV, estes grupos eram apenas em cinco, com os reis da França e da Inglaterra, os duques da Borgonha e da Bretanha e o conde de Flandres.

A consolidação do poder pelos Capetos, em seguida pelos Valois e que atingirá seu clímax com os Bourbons. Em princípio, a concorrência se dará dentro da própria casa real: o rei x seus parentes. Em seguida sobrepujando seu rival inglês e reduzindo os concorrentes familiares, o rei da França estabelece sua dominação político-territorial desde o início do século XVI.

A medida que subjuga seus concorrentes externos e internos a unidade de dominação é tornada hegemônica, dando-se a partir do interior, com o rei exercendo o monopólio da dominação.

Na França, entre a aristocracia e o judiciário o equilíbrio de tensões é tal que fomentava não só o estabelecimento como a manutenção do poder absoluto real. Eram interdependentes e rivais a tal ponto que se fez impossível uma aliança contra o soberano. Assim, o rei é, portanto, mais forte do que cada um dos grupos tomados isoladamente.

Esse processo reforça o poder de uma burguesia burocrática e administrativa ao lado do rei. Seu monopólio de dominação que se faz entre as tensões aristocracia x burguesia gera este entrave: a vontade real é de proteger-se e ao mesmo tempo controlar a aristocracia contra o poder burocrático. Para fazer isso, a corte se torna a instituição essencial, de um lado, a vigilância pela proximidade, pelo outro, os jogos de favores monárquicos, criando uma esfera de reprodução de tensões. O monopólio fiscal, militar e a etiqueta de corte são, portanto, três instrumentos de dominação, conjuntamente definem essa forma social e original que é a sociedade de corte.

Não devemos compreender estas relações exclusivamente como lutas de classes, mesmo que ambos, aristocracia e burguesia, estejam sempre na busca por privilégios, o rei não é dependente diretamente de um grupo social, mas da manipulação das tensões, a origem de seu poder.

Entre os séculos XII e XVII, as diferenciações das funções sociais, multiplicaram a interdependência das classes, suscitando os mecanismos de autocontrole individual que caracterizou o homem ocidental da Modernidade. A corte serviu como um laboratório de comportamentos inéditos e lugar de elaboração de novas dinâmicas sociais, convenções mais coercitivas, controle dos impulsos e paixões, domínio mais rígido das condutas, relação menos brutal entre os homens e as mulheres, diferindo fortemente neste ponto da corte do medievo.

Paradoxos na corte absolutista como a maior distância na amplitude social, ao mesmo tempo, na maior proximidade espacial do rei, gera traços fundamentais e originais dessa sociedade, quando muitas vezes a grande confusão é entre a vida pública e privada que se misturam de tal forma a favorecer ainda mais a dominação real, atando os homens pela etiqueta. Não estamos afirmando que o rei está isento da etiqueta muito pelo contrário, entretanto sua manipulação dentro de seus limites em muito o favorecia com relação aos nobres e burgueses.

Além disso, a representação do indivíduo é essencial; na corte você é o que parece, gerando ostentação. Uma das exigências da posição que se pretende montar é como já tratamos, a hierarquia da etiqueta como modelo das diferenças sociais. Diferentes papéis e lugares no cerimonial de corte corroborando para a condição essencial da competição social, onde o rei como o senhor do tabuleiro, mexe as peças de acordo com sua necessidade. Sua representação está mais ligada a credibilidade dada ou recusada pelos outros do que a própria representação.

Superior socialmente pela submissão política. Aceitando a domesticação pelo soberano e a sujeição às formalidades coercitivas da etiqueta de corte, separando-se por este canal de sua concorrente a burguesia, assim fazia-se a nobreza. Observamos que para participar da sociedade de corte, o indivíduo precisa passar por uma transformação não apenas social, mas também psicológica para sobreviver e barganhar seus privilégios dentro de uma sociedade onde a instabilidade e estabilidade se misturam de tal forma, onde a centrífuga é naturalmente inconstância.

Deslocamentos sociais de poder na sociedade de corte francesa

Por: Raimundo Ferreira

A nobreza que anteriormente encontrava-se por todo o país espalhada vai originar à nobreza de corte reunida ao redor do rei tornando-o centro e poder determinante. A maior parte dos nobres passou de cavaleiros a seigneurs e grands seigneurs da corte, e também o rei passou por transformações. Exemplo de rei cavaleiro, Francisco I que amava os torneios, as caçadas, para ele a guerra era um jogo cavaleiresco, no qual, como o mais corajoso chevalier valia a pena arriscar a vida. Antes cavaleiresco, Henrique IV ao subir ao trono incorporou o tipo rei aristocrático de corte, que foi representado na sua plenitude por Luís XIV. Ao contrário de Henrique IV, ele não segue mais para a batalha à frente de seus nobres, como cavaleiro, desta feita manda seus generais para a guerra com tropas que recebiam soldo. O rei já perdera o costume aos esforços físicos e às atividades no campo de batalha.

Ao longo do século XVI ocorreram mudanças nas estruturas sociais do Ocidente, elas podem ter sido tão importantes quanto as do final do século XVIII. A oferta de metais preciosos originários das terras ultramarinas e o aumento na circulação de bens, espalhando-se por todos os países do Ocidente, apesar de variadas formas, não foi sozinha a causadora das revoluções deste século. No entanto, isso não seria possível se não houvesse na Europa a necessidade e os meios para aproveitá-los.

O aumento da circulação de dinheiro provocou uma inflação exorbitante. Houve uma desvalorização na moeda, na proporção de quatro para um. Com isso, os preços subiram na proporção inversa. O solo e a terra, embora fossem a base de todos os recursos, as pessoas guardavam uma grande quantidade de dinheiro em casa. A inflação provocou um grande abalo na vida dos franceses, os nobres viviam de rendimentos fixos da terra. A elevação dos preços fez com que os rendimentos da nobreza não cobrissem seus gastos. Com a maior parte dos nobres mergulhados em dívidas, após as guerras religiosas, muitas vezes tiveram as terras tomadas pelos credores. Os nobres que perderam as terras buscaram na corte uma vida nova.
O único nobre cuja base econômica, posição de poder e distância social não sofreram reduções, foram sim aumentadas, foi o rei. Há muito tempo sua fonte de renda deixou de ser os produtos das propriedades e passou a ser os impostos ou tributos similares, recolhidos de seus súditos. O rei deixou de distribuir terras e passou a distribuir dinheiro. Ao contrário dos últimos reis do século XVI, a realeza de corte dos séculos XVII e XVIII, economicamente falando é sustentada pelos rendimentos financeiros. Esses rendimentos dos reis eram diferentes dos rendimentos dos comerciantes e dos artesãos, pois não resultavam de um trabalho ou atividade profissional. Mas da renda do trabalho das camadas profissionais através da atividade de funcionários remunerados, os quais tinham suas atividades controladas e coordenadas pelo rei, podendo aumentar seus recursos financeiros sem precisar de uma atividade profissional, apenas com base no enriquecimento do país governado por ele.
A mudança na prática da guerra teve, também, grande influência no destino dos nobres. A nobreza medieval equilibrava as tensões entre ela e os príncipes suseranos, visto que, quando se tratava de guerras eles dependiam de seus nobres. Cabia aos nobres arcar com a maior parte das despesas bélicas – armaduras, cavalos e armas – não importando se o financiamento vinha do lucro da propriedade ou das pilhagens. Se desobedecesse o chamado para os campos de batalha ou desertar-se do exército antes do período determinado e para suas terras, vilas ou cortes retornar-se, podia ser punido por uma expedição comandada por um suserano à frente de uma tropa numerosa de guerreiros e forçado a permanecer na frente de batalha.
Nos exércitos franceses do século XVI misturavam-se elementos os mais diversos. Apenas em casos de necessidade, e sem muito proveito ou êxito militar, fazia-se a convocação da nobreza feudal. Na verdade, o antigo exército feudal estava desfeito. Os nobres em condições de guerrear incorporavam-se às companhias de cavalaria pesada, as companhias de ordenança, que formavam a gendarmerie: os gendarmes forneciam seus próprios cavalos e os equipamentos mais valiosos; os menos abastados eram incluídos nessas companhias como guardas montados … Nos ataques pesados de cavalaria, mas também nos serviços pessoais, esses guerreiros, que tinham uma formação baseada na honra, eram indispensáveis aos generais. Mas o futuro não pertencia mais a esse tipo de arma. Separada dessa cavalaria, muito abaixo dela em termos de nível social, desenvolvia-se uma cavalaria leve, que se baseava cada vez mais no uso de armas de fogo … Toda a organização do exército estava fundada no soldo. 3

No processo de disputa entre a maioria da nobreza guerreira e o príncipe suserano quanto à prática da guerra, ele acabou levando vantagem. A disponibilidade de recursos financeiros proporcionou-lhe a contratação de tropas para lutar a seu favor, equipando exércitos recrutados nas camadas inferiores liderados por comandantes de tropas. O desenvolvimento das armas de fogo facilitou o recrutamento dessas camadas inferiores em detrimento das camadas superiores. Visto que as armas de tiros mais antigas eram tradicionais de camponeses ou de tropas que não pertenciam a nobreza, elas serviam de auxílio nas batalhas de cavalaria, dado o fato que as armaduras de cavaleiros e cavalos limitavam o efeito das flechas disparadas. As armaduras não resistiam mais as novas armas desenvolvidas o que provocou a decadência da antiga nobreza guerreira e aos príncipes a guerra com exércitos de mercenários.

Ao contrário do período anterior, no qual a sociedade tinha pouco comércio e conseqüentemente menos moeda, fazendo-se o pagamento com a doação de feudos, agora a remuneração dos serviços militares era feita com o pagamento em moeda. A possibilidade da contratação de mercenários ou soldados pelos príncipes, diminuiu a dependência dos mesmos para com a nobreza feudal.

O mesmo não pode ser aplicado com relação às questões financeiras que se tornavam cada vez maiores. Enquanto a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo ganhava importância, a guerra tradicional de cavaleiros era desvalorizada. Esse fator diminuía a dependência do soberano quanto à nobreza e produzia o inverso. Enquanto valorizava-se a guerra baseada em exércitos de soldados com armas de fogo, a guerra tradicional de cavaleiros perdia seu valor. Surgem, dessa forma, relações de dependência, nas quais, o desenvolvimento do comércio é favorecido pelo aumento da proteção nas suas vias e à garantia legal do seu direito, pelo Estado, o qual, representado na figura do rei, não teria um rendimento regular oriundo do pagamento de impostos, com tropas insuficientes, por sua vez os rendimentos permitiam financiar exércitos com poderes ao nível das necessidades.

São fatores que aumentavam a dependência da nobreza em relação ao soberano e o deixavam cada vez mais, menos dependente dela.

Comportamento e mentalidade dos homens na sociedade de corte

Por: João Vinícius

A partir de agora, na leitura deste trabalho, é preciso ter em mente que estamos tratando de um Estado Absolutista consolidado, onde as relações na corte estão num grau de complexidade elevado. A maioria dos exemplos e das reflexões que serão expostas se refere à França Absolutista do século XVIII, especialmente sob o reinado de Luís XIV. Tentaremos expor como esta realidade não pode ser compreendida se não forem feitas as devidas contextualizações. Nossas prioridades hoje, no que se refere ao que nos é importante, foi em grande parte formada pela burguesia dita “iluminista” que conseguiu impor seu projeto de sociedade ao antigo projeto do Ancien Régime, ridicularizando em muito aquilo que no projeto anterior era a prioridade. O ethos ou o status burguês está muito preocupado com as nuances financeiras, com o dinheiro. Já o ethos aristocrata de corte, do século XVIII, está preocupado com as nuances de comportamento, sua prioridade é zelar por uma honra difícil de ser compreendida a partir dos paradigmas atuais, pois as chances de prestígio era o fim a ser buscado e não o acumulo de riqueza.

Depois das guerras religiosas, que ocorreram na segunda metade do século XVI, as finanças da França se estabilizaram durante algum tempo. Daí as grandiosas construções palacianas em estilo barroco e classicista, e a formação de um exército profissional francês, vale lembrar que tudo isto foi feito à custa de pesados impostos e da venda de cargos públicos, além da pirataria e do comércio mercantilista. Enfim, o que é importante para iniciar este trabalho é a compreensão que o rei, no início do século XVIII, tinha em torno de si uma corte de nobres que dependia dele para existir e vice-versa.

Esta estrutura é rígida e coerente para os parâmetros da época, e o rei não aprovava a fragmentação dos círculos que constituíam a corte, a vida social deveria ser a própria corte – o exemplo clássico é o do Palácio de Versailles, que em 1744 abrigou cerca de 10 mil pessoas4. No entanto, evitar completamente isto era impossível, já no reinado de Luís XV o centro de gravidade desloca-se dos palácios para os hôtels, residência de aristocratas da corte que não eram príncipes. Com a expansão da corte, por assim dizer, surge um fenômeno conhecido como cultura de salão5.

No que se refere à residência do rei, o sentido abstrato se impõe sobre o sentido prático, ou seja, não bastam dimensões úteis para a habitação, mas o tamanho da casa deve condizer com o prestígio social do nobre que ali habita. Nobert Elias diz que o próprio rei jamais dormiria em um lugar previamente construído segundo um cálculo racional e prático. Mas o quarto teria que ser feito sob encomenda de acordo com o gosto do monarca, e é claro com dimensões gigantescas6. Figurativamente o rei era tanto dono de todo o grandioso palácio como de todo o país, e esta grandiosidade tem de se fazer notar.

Antes de começarmos a falar das mentalidades que sustentavam este modelo de sociedade é preciso dar um exemplo do que era uma das maiores atividades que ocorriam em torno do rei: “Le lever du roi”7.

Todos os dias por volta das oito horas, ou do horário que o rei determinasse, o primeiro criado de quarto, que dormia aos pés da cama do rei, acordava a majestade e abria as portas para os pajens. Os pajens espalhavam a notícia de que o rei tinha acordado, um deles ficava na porta regulando a entrada e a saída de pessoas no quarto. Iniciava-se então, obedecendo uma rígida hierarquia, as seis entrées (entradas) no quarto do rei; vários grupos de nobres autorizados entravam no quarto do rei de acordo com sua hierarquia na corte. Na primeira entrada, ou entrée familière, entravam os filhos legítimos do rei, príncipes de sangue, além do primeiro médico, o primeiro criado de quarto e o primeiro pajem. Na segunda entrada, ou grande entrée, entravam os oficiais do quarto e do guarda-roupa, junto com senhores e nobres que tinham a honra de entrar concedida pelo rei. Esta entrada servia, sobretudo, para vestir o rei, e os nobres tinham o privilégio ou a obrigação de vestir a blusa do rei de acordo com seu nível hierárquico. Nobert Elias conta que certa vez quando a rainha acabara de ser despida por suas damas, a criada de quarto deu a blusa à dama de honra que deveria vesti-la quando entra no quarto a duquesa de Orléans. Então a blusa é passada novamente para a criada de quarto de acordo com o cerimonial para ser entregue à duquesa que deveria vestir a rainha, mas logo em seguida entra no quarto a condessa de Provence. Então a blusa tinha que ser passada novamente para a criada de quarto que deveria entregá-la a condessa que era de um nível hierárquico mais alto. A rainha teve que esperar nua por toda esta cerimônia até ser vestida. Na terceira entrada, ou première entrée, entravam os leitores do rei, intendentes de divertimento e festividades para entreter o rei. Na quarta entrada, ou entrée de la chambre, entravam os ministros, secretários, conselheiros de Estado, oficiais da guarda e marechais. Na quinta entrada senhores e senhoras da nobreza ainda poderiam entrar com o consentimento do pajem e a permissão do rei. A sexta entrada era a mais disputada, não era feita pela porta principal, e por ela vinham os filhos ilegítimos e o superintendente do edifício.

Mas qual era o porquê das pessoas se submeterem a este tipo de comportamento? O próprio Nobert Elias diz que durante o período de reinado de Luís XV os nobres já faziam de muito mal grado estas funções, terminadas esta cerimônia saiam depressa do quarto do rei como uma horda selvagem, no entanto, não as deixavam de fazer.

Entendamos então esta frágil estrutura que tende a se perpetuar, a se congelar, e sofre o mínimo de alterações, mesmo assim é frágil, é tensa. Todas estas funções são cedidas como privilégios pelo rei, ou seja, de uma forma ou de outra o rei tinha que estar muito próximo de todos e tudo o que se passava ao seu redor. Os que recebiam este privilégio por mínimo que fosse – calçar as sandálias do rei, por exemplo – já olhava com desprezo a massa de pessoas que não tinha privilégio algum. No entanto, dentro da própria corte havia um clima de tensão entre todos os nobres, pois eles poderiam ascender ou perder sua função de acordo com a vontade do rei. Daí a frieza e o automatismo das relações, o estilo classista é a representação desta relação fria que não pode ter espaço para a expressão do sentimento. A frieza do olhar também é percebida nas pinturas de nobres da época, até hoje se fala muito da frieza dos franceses em seu cotidiano. Na verdade tudo isto faz parte de um cotidiano em que o outro não pode saber o que você está pensando, qual será seu próximo passo. Como as expressões corporais e faciais dizem muito do que se está sentido, isto tem que ser evitado ao máximo, a sua existência social como nobre depende disto. Até mesmo os espetáculos de teatro da corte não serviam para extravasar ou entreter seus sentimentos, mas servia como mais um encontro de nobres. Comportamento muito diferente tem os comerciantes burgueses, já que no comércio expressar-se extravagantemente é até mesmo uma qualidade à medida que isto chama a atenção dos clientes.

Então o que importava nesta sociedade era o valor de uma pessoa, e não o valor da conta bancária, o próprio dinheiro era um meio para se conseguir se inserir na corte, ele não era um fim, muitas vezes ascender socialmente em algum cargo da corte implicava perda de condições financeiras. O valor de uma pessoa é a medida de sua honra, ao ingressar no círculo dos nobres ela perde parte de suas características pessoais, mas ao mesmo tempo se distingue da imensa massa de pessoas sem privilégios que está fora da corte. Podemos notar que neste contexto, existe ainda uma preocupação muito grande com a opinião coletiva. A um nobre era preferível morrer a ver a honra da família desmoralizada, ou desprezada. A existência do indivíduo não está dissociada da existência do grupo, não valeria a pena viver sem estar inserido em uma rede de privilégios que caracteriza a nobreza. Outro parâmetro de comportamento vai ser trazido pelos burgueses iluministas, e pelos revolucionários, ou seja, do individualismo, o indivíduo será bem sucedido de acordo com suas capacidades individuais, independente da vontade de outras pessoas. Há uma separação nítida entre a esfera particular, a esfera pública e a esfera profissional no modelo burguês, tudo isto está misturado no modelo aristocrata, a lendária frase de Luís XIV “o Estado sou eu” tem de ser vista para além da aparente soberba do rei, de fato é difícil dizer nesta estrutura até onde vão os interesses do rei e do Estado, o Estado não é visto como algo autônomo, mas algo que depende da existência do rei e dos nobres para também existir. Enquanto para o nobre a honra é o seu orgulho pessoal, para o burguês a propriedade privada exerce esta função.

A família também exerce um papel profundamente importante nesta sociedade de corte, pois quanto maior for sua antiguidade genealógica como nobre, maiores são suas chances de prestígios. Pois equivale mostrar que desde a infância você teve uma educação adequada para um nobre, e que você tem aquele tipo de comportamento. Além de que havia certa recusa na aceitação de novas famílias no círculo da nobreza, pois a entrega de cargos importantes era feita com base na antiguidade da família na corte. Muitas famílias por vitórias militares se tornavam importantes e entravam nos círculos aristocráticos, e queriam passar instantaneamente na frente de outras na linha sucessória por causa disto, o que causava sempre muita confusão.

Ora, todas as relações entre os homens se convertiam em chances de prestígio nesta sociedade:

O nível social, o cargo herdado e a antiguidade da “casa”. Convertia-se em chances de prestígio o dinheiro que alguém possuía ou ganhava. O favorecimento do rei, a influência sobre a sua amante ou sobre os ministros, a participação em uma determinada “panelinha”, a liderança no exército o esprit, as boas maneiras, a beleza do rosto etc., tudo isso convertia-se em chance de prestígio8.

Saint-Simon dizia que na corte não interessava o que a coisa era, mas sim o que ela significava para determinadas pessoas. O modelo de sociedade burguês tende a coisificar, ou objetivar, as pessoas e as relações, a sociedade cortesã fazia o inverso personificava ao máximo as relações e até mesmo as coisas, pois interessava as pessoas e suas inter-relações. “No âmbito da etiqueta, eles não se reuniam ‘em função de uma coisa’”9. Interessava que cada indivíduo, e antes de todos o rei, tenha sua posição de prestígio legitimada pelos outros. A etiqueta, portanto, não é mera formalidade, mas obedece a uma rígida estrutura e a identidade coletiva e individual do cortesão.

Todo o ritual, e a etiqueta, que cerca uma corte não podem ser entendidos, portanto, conforme o exposto, em seu sentido prático, ou pragmatístico que geralmente atribuímos a todas as relações profissionais hoje em dia, estas relações são um fim em si mesmas, são o próprio sentido de ser. “Aquilo que é ‘racional’ depende sempre da estrutura da sociedade”10. A racionalidade industrial dá origem a uma coerção econômica, mas a racionalidade cortesã tenta em primeiro lugar tornar calculáveis as pessoas e as suas chances de prestígio.

Rei, prisioneiro da etiqueta

Por: João Vinícius

O rei talvez tenha uma situação um pouco melhor, pois se todos os outros nobres sofriam pressão de todos os lados, o rei era o único que não sofria pressão de cima, pois era ele quem estava no topo. No entanto, o rei também é prisioneiro da etiqueta, ele talvez mais do que todos os outros deveria mostrar porque era nobre. Quando alguém dentro da corte destoava do comportamento cortesão se dizia “ou ele é louco ou o rei não é nobre”11. Ou seja, permitir a ruína da nobreza, para o rei, é permitir a ruína de sua própria casa.

Sobre isto o próprio Luís XIV escreveu:
Estão enganados aqueles que imaginam tratar-se aí apenas de questões de cerimônia. Os povos sobre os quais reinamos, não podendo penetrar o fundo das coisas, pautam em geral seu julgamento pelo que vêem exteriormente, e o mais freqüentemente é pelas primazias e posições que medem seu respeito e sua obediência. Como é importante para o público ser governado apenas por um único, também é importante para ele que este que exerce essa função seja elevado de tal maneira acima dos outros que não haja ninguém que possa confundir ou compara-se com ele, e podemos, sem sermos injustos para com o corpo do Estado, retirar-lhe as menores marcas de superioridade que o distingue dos membros12.

Está aí o sentido da etiqueta para o próprio rei, não é simplesmente cerimônia, como ele mesmo diz, mas é algo que cumpre até mesmo com as formalidades aparentes que a própria sociedade exige, é preciso ver para crer. Além das aparências é preciso manter também a distância do povo. O rei não é mais um ser humano, por assim dizer, mas é a própria personificação do Estado, para cumprir este papel é preciso manter certa distância do povo, e também o luxo. Além da honra, que todos os nobres devem ter, o rei tem a glória e é ela que garante o seu prestígio máximo. Não somente tem o rei a legitimação civil como tem também a religiosa, o poder dele é formalmente absoluto. Ou seja, para o rei não é suficiente apenas exercer o poder, mas demonstrá-lo constantemente. Ele precisa ser o paradigma, ele é o primeiro de todos os nobres.

O rei também é quem mantém e regula as disputas entre os nobres. De certa forma o rei deve jogar os nobres uns contra os outros e anular assim as suas forças contra ele. Embora a mobilidade social na corte seja muito difícil de ser conseguida ela tem que permanecer como paradigma a ser buscado, é isto que motiva os nobres a disputarem entre si. Saint-Simon dizia que as festividades eram uma forma de punir ou bonificar publicamente os nobres, pois ali todos viam quem foi convidado e quem não foi. Além dos ciúmes, as invejas e os agrados cotidianos serviam de reguladores para o poder dos nobres, Saint-Simon dizia que ninguém sabia fazer isto melhor do que Luís XIV. A sagacidade de Luís XIV era tanta que ele mais beneficiava quem mais lhe devia favores e que sem ele nada seriam, é uma forma muito eficiente de dominação. Por isto Saint-Simon dizia que os preferidos eram observados mais de perto.

Neste contexto o rei assume características de um líder carismático, ele precisava ser a cola social da corte. As pessoas que ingressam na nobreza devem ter a sensação de estarem pertencendo a algo especial. Ao mesmo tempo elas devem ter o mesmo interesse, as ações deste seleto grupo têm que ser, em tese, a extensão da ação do rei, e esta tensão é canalizada para as chances de prestígio, ou seja, as disputas entre os nobres. Com o desejo dos nobres de ascender, e um disputando mutuamente com o outro este objetivo, eles acabam agindo como o rei deseja, pois é ele quem concede os benefícios, é ele a própria encarnação viva do grupo, e é ele quem determina de certa forma o padrão de comportamento que ele deseja. Seja do cargo mais alto ao mais baixo o rei precisa sempre estar pessoalmente intervindo, regulando as ações, e alimentando as disputas. No entanto, estas disputas têm que serem feitas na medida correta, pois fazê-las demasiadamente satura e convulsiona as instituições. Luís XIV não era um gênio inventivo e intelectual, mas sabia como ninguém a justa medida em conceder benefícios, alimentar disputas e monitorar seus súditos, enfim, sabia como administrar um Estado Absolutista de corte. Não é o que se percebe com seus sucessores, Nobert Elias diz que os demais soberanos não souberam fazer este jogo político e saturaram o Estado, de forma que ele estava praticamente insustentável na época da Revolução Francesa.

Mas não podemos esquecer que quanto maior for o poder do rei, maior é a corte que o cerca. E quanto maior for a corte, mais interesses o rei vai ter que satisfazer. Então, não podemos ver o rei como uma figura que “apenas manda” descompromissadamente, ele também sofre uma pressão muito forte por parte de todos os grupos que o cercam. Como não existe uma separação entre o privado, o público e o profissional, o rei tinha que cumprir com as normas de etiqueta sempre, sem folga alguma. Talvez nos seja inimaginável pensar a pressão que estas pessoas estavam submetidas todo o tempo. “Nada falta a um rei, salvo as delícias de uma vida privada”13. Vale lembrar que a vida do rei estava calculada nos mínimos detalhes, não havia um só momento em que ele não deixava de ser assistido. É por isto que o rei é também um prisioneiro da etiqueta, mas está numa posição diferenciada, já que todos os nobres sofriam pressões de todos os lados, e o rei não sofria pressão de cima, pois ele estava no topo da hierarquia. Além de equilibrar as tensões o rei também tem que ser um paradigma de nobreza a ser seguido, ele também é vigiado por todos os bajuladores e desejosos de ascender ao poder. Ele tem que ser um símbolo carismático que ligue toda a corte em torno de um interesse comum, e mais ainda, ele tem que cumprir com as expectativas populares, pois ele é o próprio Estado. Vemos quanto é complicado todo este complexo jogo que o rei tem fazer. Ele age como um jogador de xadrez que deve mover as peças de forma coerente, mas é evidente que ele não faz isto de forma arbitrária como só um deus poderia fazê-lo, ele também é pressionado por cada peça numa teia de interesses que somente com muito talento ele pode manipular. Cada jogada é pacientemente demorada e fria, o próprio jogador, no caso o rei, pode perder a partida por um movimento errado, pois muitos desejam estar em seu lugar. Não estamos falando de uma sociedade burguesa onde todas as funções estão muito bem divididas e são exercidas por diferentes cargos dentro de uma empresa onde o dono apenas assume também mais cargo, no mais das vezes, um cargo burocrático. O rei tinha que regular pessoalmente, ou ao menos simbolicamente, todos os nobres que viviam em sua corte, ao mesmo tempo em que ele também era regulado por todos os outros.

Sociogênese da Revolução

Por: João Vinícius

Nobert Elias faz um pequeno ensaio ao final de seu livro falando sobre as origens da Revolução Francesa. Para o autor, nos enganamos quando atribuímos apenas ao momento imediatamente anterior a Revolução as causas de sua gênese. Ele chama a atenção para o processo de democratização que vem surgindo desde o mercantilismo no século XVI, e com isto a conseqüente tomada de poder e importância por parte dos comerciantes burgueses, ou seja, devemos ver este fato como um processo de longa duração. A democratização não ocorreu abruptamente com a Revolução Francesa, ela foi um processo que já estava acontecendo lentamente há alguns séculos.

O que acontece é que vários grupos de burgueses entraram nos círculos da nobreza, acumularam influência e poder bastante para isto. A um burguês não bastava ter um poder social, mas também um nível social. A burguesia desejava se enobrecer. Mas a aristocracia, como já foi dito, não absorve instantaneamente estes novos grupos, muito pelo contrário, dificultam ao máximo o ingresso destes novos grupos no círculo cortesão, pelos motivos das chances de prestígio.

Como os mais altos cargos do governo pertenciam à aristocracia, além de grandes lotes de terra, a burguesia começou a ver a aristocracia, e o rei, seu representante máximo, como os principais responsáveis pelas condições que eles combatiam, os aristocratas eram responsáveis por impedirem a elevação dos lucros, o desenvolvimento do individualismo e da ascensão da burguesia a cargos governamentais. A utilização da violência era um monopólio do Estado, neste momento ainda aristocrático e cortesão, mas a burguesia também começou a se utilizar da violência para conquistarem os seus objetivos. Nobert Elias chama a atenção para um fato importante, a Revolução acabou, de fato, com muitos privilégios da maior parte da aristocracia do Ancien Régime, mas destruiu de forma muito mais radical e definitiva as camadas privilegiadas da burguesia que se beneficiavam com o antigo sistema.

Temos ainda que pintar neste quadro a saturação da corte, que aumentava de tamanho, ainda que lentamente, e com isto aumentavam também os jogos de interesses, que Luís XV e Luís XVI não tinham tanto talento de conduzir como Luís XIV. Também não eram feitas reformas na corte, pois uma reforma sempre beneficiaria uma parcela da nobreza e prejudicaria outra, e isto era inaceitável para os nobres que seriam lesados, ou seja, o sistema de corte tende para a imobilidade, enquanto a sociedade está em constante mudança. No final do século XVIII a pressão vinda de baixo era tão forte que não havia como a corte responder a tais expectativas tentando manter o velho modelo.

A burguesia se une às massas de grupos excluídos, não para partilharem com eles o poder, mas para conquistá-lo para si através do uso generalizado da violência. Neste contexto, Nobert Elias diz que existem três alternativas para os monopolistas detentores do poder tomar com relação aos grupos excluídos. A primeira seria a admissão institucional e regulada destes grupos no poder. A segunda seria fazer concessões a estes grupos, sobretudo, econômicas, mas sem acesso ao monopólio do poder central. A terceira é não admitir que as relações mudam e não alterar o sistema vigente. No caso francês, a aristocracia foi incapaz de fazer qualquer mudança, ou seja, foi pela terceira opção proposta na analise de Nobert Elias. Nestas condições, o uso da violência foi a escolha tomada por parte dos revolucionários, mudando assim definitivamente as forças de diversos quadros sociais e suas relações mútuas. Dentro do sistema de corte somente uma força externa e violenta poderia alterá-lo, já que por si só o sistema de corte tende a imobilidade.

Referências Bibliográficas
ELIAS, Nobert. A Sociedade de Corte: investigação sobre a sociologia da realeza e da aristocracia de corte; tradução – Pedro Süssekind; prefácio – Roger Chartier. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
DUBY, Georges. A Sociedade Cavaleiresca; tradução – Telma Costa. Lisboa: Sanfil Ltda, 1989.
LANDURIE, Emmanuel Le Roy. Saint-Simon ou o sistema da Corte/ com colaboração de FITOU, Jean-François; tradução GUIMARÃES, Sérgio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

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Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
História Moderna II (Professor Severino Vicente da Silva)

Equipe:Mateus Simon,Taciane Martins,João Henrique Pinheiro,Pedro Lira

CIÊNCIA, NATUREZA E ARTE NA EUROPA DOS SÉCULOS XVII E XVIII

1. A construção da ciência européia: uma “Revolução científica”?

Ao ler os livros e manuais mais divulgados sobre a história da ciência européia nos séculos que nos propusemos a estudar, é comum encontrar o discurso que o século XVII teria alçado a prática científica a um novo patamar, causando uma verdadeira “Revolução científica”, modificando toda a estrutura mental da época, comumente chamada de “Era clássica” ou período Barroco. Essa “Revolução” seria devida às renovações na Astronomia após Nicolau Copérnico (1473-1543) ter defendido a teoria do heliocentrismo, a chamada “revolução copernicana” (Thomas Khun). A apropriação das descobertas de Copérnico por Galileu no início do XVII e essa “mudança de paradigma” seriam o início da ciência moderna, juntamente com o “racionalismo” cartesiano e o “emprismo” de Francis Bacon (1561 – 1626).

Essa teoria traz uma séria de problemas quando se considera, por exemplo, que essa ciência seria um paradigma único e constante no pensamento desse período, sendo quase que uma evolução natural, desde o pensamento “antropocêntrico” do Renascimento até a ciência do século XIX. Na verdade, esse tipo de esquema de explicação esquece os longos debates que ocorreram entre os intelectuais da época, as controvérsias, dificuldades e os aspectos mais duvidosos dessas teorias. O que se apresenta, na maioria das vezes, como bem alertou John Henry (1998), é uma decantação dos debates científicos da época, mostrando apenas o lado que teria “contribuído” para a “ciência moderna”, e para nosso próprio pensamento científico.

É desnecessário retomar como esse pensamento cai nos esquemas de uma teleologia e de um anacronismo, jogando nossas próprias concepções no passado. Além disso, ao ver a ciência como uma coisa homogênea, esquece que muitos dos ditos “progressos” da Era Clássica, não são em si próprios dessa época. Alexandre Koyré (1991) chamou atenção para o fato que algumas categorias que aplicamos à ciência moderna, como uma nova atenção ao conhecimento empírico, a aplicação da matemática, física e geometria à visão do cosmos (entendido como o mundo conhecido) e da lógica “racionalista” ao pensamento, não são específicas da idade moderna, mas ressurgem e se apagam ao longo da Baixa idade média e do Renascimento, com Nicolau de Cusa e Guilherme de Ockham na passagem do século XIII para o XIV, por exemplo. Por outro lado, contesta a idéia da “contribuição científica do Renascimento”, mostrando como o ideal renascentista foi muito mais de retórica do que de ciência como hoje pensamos. Dessa forma, não seria possível traçar uma linha clara e uniforme ao longo desses séculos.

O trabalho de Michel Foucault (1992) também se contrapôs às freqüentes insistências de certa historiografia da ciência, insistindo ele nas rupturas epistemológicas entre o Renascimento, a Era Clássica e a “nossa Modernidade”, que teria sido forjada no século XIX. Trocou o termo “ciência” pelo genérico “saberes”, de forma a dar conta da especificidade dos conhecimentos da época, e fazendo uma análise com fortes tons estruturalistas (em torno do conceito de epistême) dos principais temas de cada um desses períodos.

Já o italiano Paolo Rossi fez um amplo trabalho documental, reconstituindo os debates científicos dede o Renascimento, mostrando a impossibilidade de se aplicar termos demasiado generalistas, como “os aristotélicos” ou “paradigma da ciência moderna”, demonstrando como o que existiu foi uma pluralidade de caminhos, muitas vezes conflitantes, entre diversas correntes de pensamento, e que foram posteriormente, reformulados pela historiografia oitocentista. Paolo Rossi atentou para fatos interessantes, como o forte diálogo entre a ciência dos seiscentos e dos setecentos com a exegese bíblica, com a tradição hermética da alquimia e da astrologia, e com uma ciência especulativa, em torno de “outros mundos” possíveis, a partir da abertura da idéia de universo. Esses temas mostram os limites de se aplicar uma noção demasiado “racionalista” aos séculos que tratamos.

A intenção deste trabalho é, destarte, mostrar alguns dos temas que achamos interessantes de expor, e supõe alguns recortes. Primeiramente, destacaremos o papel da astronomia nos debates do período, personificados nas figuras de Galileu e de Isaac Newton; Eles exemplificam uma mudança na visão de cosmos e do lugar do homem no universo, operando o que Koyré chamou da passagem de um “universo fechado e hierarquizado”, representado de uma forma genérica pelo modelo de Aristóteles e Ptolomeu (século I e II) para um “universo infinito e homogêneo”. Por esse debate passam questões da física, da geometria e da matemática, mas também um forte diálogo com o pensamento astrológico. A segunda parte trata das ciências da natureza que posteriormente seriam agrupadas na “Biologia”, mas que à época era conhecida como História Natural. Em torno dos debates sobre uma forma “científica” e “iluminada” de se conhecer o mundo natural, uma nova sensibilidade em relação à natureza se forma dentro das elites européias, e que se reflete também nas colônias, e que é um dos inícios do pensamento ecológico. Por fim, essa sensibilidade nova será mostrada a partir das artes, nas gravuras e pinturas das expedições científicas, que se tornam cada vez mais freqüentes no XVIII e no XIX, como resultado dos interesses dos Estados modernos e das próprias modificações nas ciências.

Pensar os intelectuais e os saberes nesse período é ter em mente, também, toda a reforma dos Estados absolutistas, que se colocam no projeto da formação de uma corte e de uma elite de funcionários estatais “esclarecidos”, conhecedores das ciências naturais, das letras, do direito, da economia. Esses saberes que trabalharemos se desenvolvem à margem das universidades, concentrados em torno de Academias, Jardins botânicos e Herbários; fazem parte do movimento de construção das ciências como um instrumento do Estado, em torno de interesses concretos, mas também movimentam um discurso que versa como a difusão da “filosofia natural” e o interesse pelo funcionamento da natureza se constitui numa forma de aprimoramento moral, uma virtude necessária para o projeto de homem esclarecido do século XVIII. Por esse ponto de vista, é extremamente difícil delimitar entre esses intelectuais quais seriam propriamente “botânicos”, “físicos” ou “matemáticos”, posto que a especialização desses saberes se dá em grande medida no século XIX. O que se vê são pessoas interessadas no funcionamento da Natureza enquanto projeto de saber, agrupado de forma geral em torno da noção de “filosofia natural”, como conhecimento amplo das vicissitudes humanas. Grande parte dessa tradição vai se desenrolar em uma elite preocupada na atuação em diversas áreas, como o aprimoramento da agricultura, a gestão econômica do estado, o manejo dos recursos naturais e finalmente na construção de um saber já embrionariamente “científico”, no sentido de possuir uma linguagem própria, espaços específicos de pesquisa e atuação, e de métodos e objetos bem definidos. Nesse sentido, também tentaremos mostrar que somos de certa forma herdeiros desse emaranhado de conhecimentos, e de que forma eles chegaram até nós.

2. Galileu e seu tempo: começos do pensamento científico moderno.

Com esse escrito propomos a não fazer uma biografia do famoso cientista, mas divagar sobre as conseqüências de seus atos, bem como alguns aspectos específicos de sua vida. Afinal, existem muitas biografias que, por mais que sejam importantes, elas são limitadas a vida cotidiana do biografado. Com poucas exceções.
Parece que talvez nem Galileu Galilei soubesse de suas implicações quando propôs o seu sistema de linguagem matemática à natureza. Sempre tachada como um marco da superioridade da ciência européia para com o resto do mundo. Mas será mesmo isso? Antes de continuar por essa via, é necessário falar brevemente sobre Copérnico, para assim compreender a evolução do pensamento científico de Galilei na Europa do século XVII.

Copérnico, nascido na região da Polônia de hoje em 1473, se dedicou a vários seguimentos científicos como medicina, filosofia, astronomia e aprendeu grego e latim. Tornou-se eclesiástico e estudou a fundo o sistema Ptolomaico do cosmos. Não poderei reproduzir os cálculos matemáticos que o levaram a afirmar que, ao invés da terra imóvel no centro do sistema solar, ele propõe o sol. Escreveu um livro chamado “de revolutionibus orbium coelestium libri sex” onde expôs sua teoria em duas partes, uma discorrendo sobre um tratado trigonométrico e na segunda parte mostrando algumas provas de que a terra gira ao redor do sol.

Apesar de alguns amigos de Copérnico insistirem com ele para publicar suas idéias, o referido livro acima só foi publicado no final de sua vida. Apesar de ter apoio mesmo dentro da igreja, ele tinha certo receio de publicá-las e ser queimado na fogueira. De fato, a sua afirmação que o sistema é heliocêntrico, não agitou a classe conservadora da inquisição. Mas só o foi quando Giordano Bruno (1548 -1600), que adotou e propagou suas idéias em várias cidades, assim como incorporou outras idéias, provavelmente vindas da China, sobre um espaço sideral vazio e infinito com outros planetas, as idéias de Copérnico tornaram-se perigosas. Alguns dizem que Giordano Bruno não era um matemático, ou então entendia pouca coisa sobre os cálculos astronômicos, mas o fato dele ter sido queimado, pouco tem haver com sua inteligência a este respeito, mas muito mais por ter propagado idéias que feriam as santas escrituras assim como a autoridade da igreja católica.

O fato é que Copérnico, apesar de ter sido um grande astrônomo, não revolucionou a astronomia pondo o sol no lugar da terra. Pois, ele utilizara os mesmos conceitos Ptolomaicos de séculos atrás para justificar a sua idéia. Ou seja, ele ainda acreditava em um sistema finito, perfeitamente esférico, onde o sol com sua natureza divina, deveria ficar no centro e irradiar igualmente seus raios para todos os planetas. Assim, dirá Thomas Kuhn que “o movimento da terra fora simplesmente transferido para o sol”.

Mesmo que não atribuamos esse fato como uma grande revolução, de fato, é uma mudança que terá em Galileu Galilei uma espécie de plataforma, para continuar as idéias de Copérnico até prová-las como sendo verdadeiras em um outro tipo de linguagem.
Mas nem sempre Galileu Galilei usou uma linguagem diferente da tradicional da época (Bíblia). Antes de lançar as bases de uma outra visão ligada à natureza, ele tentou, sem sucesso, espelhar as suas descobertas nas santas escrituras. Ele queria justificar suas conclusões sobre o heliocentrismo através das falas e salmos do evangelho, onde também havia interpretações para o sistema Ptolomaico da terra sendo imóvel e no centro. Enfim, com a criação da luneta em 1608 por Zacharias Jassem, Galileu se anima e prontamente constrói o seu sem, mesmo ter um modelo em mãos, apenas por descrições orais. Não há como negar o seu gênio, e após construir sua luneta de aumento 3x e apontá-la para o céu, descobrindo que não tinha grande nitidez, constrói o primeiro telescópio com um aumente de 30x. É com ele que Galileu incrementa as suas observações e faz cálculos mais aproximados que aqueles de Copérnico, e vê que as escrituras estavam erradas.

Tendo também amigos eclesiásticos, Galileu apresenta ao vaticano suas intenções sobre o sistema heliocêntrico, que é reprovado por um certo cardeal de nome Belarmindo. Na igreja da época existiam basicamente dois segmentos: um mais fechado e radical cujo este cardeal fazia parte e outra mais aberta. Quando Galileu esteve em Roma e apresentou o telescópio aos sacerdotes, foram vários os eclesiásticos que se negaram piamente a verem o céu com aquele instrumento. Alegando que se Aristóteles disse que o sistema solar era de um jeito, não haveria necessidade de olhar para o céu. E se não fosse igual ao que Aristóteles dissera, então, o que se vê só poderia ser um engano.

É somente após a morte de Belarmino e do papa da época, Paulo V que Galileu se viu numa nova oportunidade de mostrar os seus trabalhos ao novo papa, Urbano VIII. Nesse ínterim, Galileu escreve obras que enaltecem a igreja católica afirmando sua superioridade, talvez, se nos permitem especular, para angariar a simpatia do novo papa. Ou como o Rossi escreve: “Os cientistas modernos, Galileu em primeiro lugar, agem com uma desenvoltura e um oportunismo metodológico que são totalmente desconhecidos da tradição medieval.”

É precisamente neste momento por volta de 1623, em que Galileu vai ao vaticano e apresenta a sua teoria revolucionaria no livro il saggiatore. Com a dedicação ao papa Urbano VIII e sua devida aprovação, passa despercebida a idéia que ira agitar a Europa nos anos posteriores. Apesar de ser citada a obra “dialogo sopra i due massimi sistemi Del mondo, tolemaico e copernicano” ou simplesmente “diálogos”, como a que mais chamou atenção na época, ele foi apenas a causa de sua condenação, por motivos óbvios.

Depois da entrevista com o papa Urbano VIII, que lhe concede a autorização para estudar as teorias de Copérnico, Galileu escreve “diálogos”, uma obra de caráter popular (em língua italiana e não latim como era comum em obras científicas) falando sobre as duas teorias vigentes. A saber: geocêntrica e heliocêntrica. Ainda que seja de língua popular, a obra é carregada de simbolismos que de certa forma ridicularizam a visão da igreja e enaltecem a teoria heliocêntrica.

Vejamos: a obra é uma longa discursão de três personagens sobre o sistema solar. Eis os personagens:
• Salviati: propaga as idéias de Copérnico
• Sagredo: é um observador neutro
• Simplicius: representa as idéias da igreja católica

Logo no princípio Salviati conquista a simpatia de Sagredo que juntos irão ridicularizar as idéias de Simplicius até o fim do livro. Evidentemente, que ao ler a obra, o papa Urbano VIII se sente traído, e a inquisição manda chamar Galileu para ir a Roma ser julgado. Alegando que estava doente e velho não poderia comparecer, até que foi ameaçado ser levado a força amarrado até com correntes, ele foi. Lá, foi julgado por ter propagado idéias heréticas e condenado a nunca mais defendê-las e forçado a exilar-se. No exílio, Galileu continua o seu trabalho em astronomia, chega a ficar cego, mas consegue ainda produzir um último livro chamado “discurso a respeito de duas novas ciências”, antes de sua morte em 1642.

Seu legado é grande: contribuiu para a teoria do heliocentrismo, lançou as bases do conceito da inércia, descobriu manchas no sol, escreveu um tratado sobre a aceleração dos corpos em queda livre, além de ter descoberto que a lua não era uma esfera perfeita e lisa como dissera a igreja e Aristóteles, mas levemente arredondada e cheia de crateras vista através da luneta, embora tal afirmação pudesse ter levado a pensar que todos os planetas seriam assim.

A maior contribuição que Galileu legou a posteridade foi ter dado uma linguagem matemática à natureza. Isso terá serias implicações, que, talvez nem o próprio Galileu e a igreja tivessem se dado conta. Pois essa será um dos prenúncios da decadência da igreja católica nos séculos posteriores.
Apesar de ser o precursor da Ciência Moderna, Galileu Galilei acreditava piamente em deus e nas santas escrituras. Ele não ousava dizer que eram mentiras as palavras escritas na bíblia, mas dizia que os homens poderiam enganar-se facilmente e levar-se a conclusões errôneas no que diz respeito as Ciências Naturais, pelas diversas traduções que a bíblia teve.

No livro, il saggiatore, Galileu Galilei estabelece que há duas linguagens pela quão o ser supremo se expressou. Uma, foi através das santas escrituras para ser dada aos homens e a outra através das ‘leis’ que regem a natureza. Por que será tão impressionante este fato? Primeiro que, se observamos bem, o conteúdo da linguagem das escrituras não são as mesmas da natureza. Pode até existir um paralelo na astronomia, mas a grosso modo, falam de assuntos divergentes. Com isso, Galileu diz nas entre linhas, que existem duas explicações para um fato natural: a religiosa tida por como “…ser reservada em último lugar” em uma discussão (palavras do próprio Galileu) e a outra através da linguagem matemática para desvendar o grande livro da natureza. Sem perceber o papa Urbano VIII deixa que exista duas linguagens para explicação de um fato, e quando essas duas visões se chocam, qual seria a vencedora? Algumas décadas depois, o que terá é a linguagem da bíblia entrando em grande decadência e a linguagem da natureza com as leis físicas em franca ascendência.

Mas, primeiro, falaremos mais sobre essa linguagem das escrituras. O verbo é algo susceptível às mais variadas interpretações. A linguagem não é exata, ela pode modificar-se ao longo do tempo, pode entrar em desuso ou mesmo assumir outros significados, vide Marcos Bagno. Quando o ser supremo ditou as palavras da santa escritura e depois foi passada de tradução em tradução, Galileu acreditou que os homens poderiam ter errado em uma dessas traduções, ou mesmo posto o seu ponto de vista neles. É por isso, que quando Galileu Galilei vai a Roma alertar o papa Paulo V sobre um pequeno erro nas santas escrituras, para que a igreja não se contradissesse, sobre um erro no que concerne ao sistema solar geocêntrico, ele é repreendido. Um erro humano de interpretação por certo, jamais um erro divino! Afinal, Galileu acreditava nas escrituras.

Então, com a certeza de que a terra girava ao redor do sol, através de suas observações, constatando a olho nu e pelos cálculos matemáticos, ele supôs que essa outra linguagem poderia ser uma outra forma de expressão das leis do divino. Em suas palavras, a natureza é “inexorável e imutável e não importa que as suas razões e os seus modos sejam expostos ou não a capacidade dos homens”. Essa nova maneira de ver o mundo, irá ser o embrião da Ciência Moderna, pois, algo para ser verdade terá que passar pelo crivo da matemática, da observação, do racional e não mais nas santas escrituras ou das lógicas sacerdotais. Agora a verdade não dependera da religião, e sim da matemática. Tal linguagem universal e imutável, pois os cálculos não metem, as pessoas é que podem errar e enganar-se com os números; mas em si, a matemática era a chave para descobrir as relações de deus através da observação da natureza.
Uma das citações mais importante de Galileu, talvez a que melhor defina essa nova visão de mundo revolucionaria, que aconteceu na Europa do século XVII, seja: “que as escrituras não deve se meter em outra coisa a não ser nos assuntos que concernentes a fé”. Em outras palavras, as verdades naturais só são possíveis de serem desvendadas através de cálculos matemáticos ou da observação e experimentação, e não mais da bíblia. Agora, as escrituras não servem para ser o juiz do verdadeiro e do falso, esse trabalho será dado pela Ciência Moderna.

Há outra implicação nesse raciocino. A linguagem da matemática não seria acessível a todos, desde camponeses até os eclesiásticos. Ela ficaria restrita aos eruditos católicos ou não, mas o importante é que ela seria para poucas pessoas. É muito mais fácil aprender a ler em latim do que resolver problemas matemáticos em relação aos movimentos celestes. Isso é tirar o poder de grande parte da classe sacerdotal que detinha o poder do verbo. Se agora a verdade está nas matemáticas da natureza, e quem domina essa faculdade são poucos, o poder da igreja se restringe mais. Será tantos cálculos, que mesmo um sacerdote matemático que os compreendessem, seria levado a crer no que os números diziam. Tempos depois a verdade estará nas mãos dos cientistas.

Apesar de ter revolucionado a visão de mundo, a Ciência Moderna ou a matematização da natureza, por si só não explicaria esse grande domínio que a Ciência exerceu no mundo. É preciso lembrar que a industrialização e os pensamentos novos da Revolução Francesa, impulsionados pela dominação dos povos, ajudaram a difundir esta idéia de Ciência da Europa para o resto do mundo. Fazendo com que, todas as outras concepções científicas, a exemplo da China, fossem atrasadas e ridicularizadas. Se não houvesse essa dupla revolução, a ciência moderna, talvez não se consolidasse tanto assim.
Enfim, a ciência moderna não nasceu da industrialização, (uniu-se a ela posteriormente) mas da imposição religiosa muito rigorosa sobre o mundo natural, fazendo com que os homens como Galileu, Copérnico, Kepler pouco a pouco elaborassem um conhecimento cada vez mais distante da visão radical da religião católica, que governou a Europa durante toda a Idade Média. Talvez se o catolicismo tivesse sido mais flexível e tentasse abarcar esses pensamentos contrários às escrituras, não assistiríamos o nascimento de uma linguagem tão opositora, como a explicação em bases matemáticas.

Pode até parecer contraditório que Galileu Galilei, acreditando em Deus e nas sagradas escrituras, pudesse desenvolver uma ruptura na concepção de mundo dos católicos. Mas, como já me referi acima, Galileu não sabia que as suas idéias dariam em uma ruptura tão radical da religião e da ciência, ou que o método científico seria a única explicação válida para os homens nas décadas posteriores. Assim, se antigamente havia relâmpagos porque deus estava em fúria, agora será “ Os relâmpagos consistem de uma descarga elétrica transiente de elevada corrente elétrica através da atmosfera. Essa descarga é conseqüência das cargas elétricas acumuladas, em geral, nas nuvens Cumulonimbus e ocorre quando o campo elétrico excede localmente o isolamento dielétrico do ar.”

2. A filosofia mecanicista.

Os séculos XVII e XVIII, como vimos acima, foram marcados por profundas mudanças na estrutura filosófica do pensamento. Neste ponto, analisaremos os continuadores da tradição galileana que, de certa maneira propagaram algumas de suas idéias-chave e as tornaram paradigma dominante (mas não unívoco) no pensamento europeu da época. Os teóricos iluministas começaram a introduzir o pensamento científico e gradualmente vamos chegando a noção científica que conhecemos hoje. Grandes pensadores vão complementando os raciocínios anteriores e ao mesmo tempo rompendo os paradigmas impostos pela tradição do tempo. É com a Filosofia Mecanicista que o mundo começa a sair da especulação partindo para um empirismo, tão necessário na revolução industrial.

Não diríamos que ela surgiu, pois sabemos que em tudo há um processo e, neste caso, parece que a antiga e tradicional “Filosofia Natural Escolástica” não satisfazia mais os interesses científicos que, muitas vezes, estavam atrelados interesses aos econômicos. Então os “revolucionários” deste período Iluminista iniciaram o longo processo de troca de mentalidades, que culminaria praticamente nas equações de Newton, posteriormente utilizadas para grandes máquinas dos séculos XVIII e XIX.

As mudanças prevaleceram como crítica ao antigo mundo físico de Aristóteles. Pensadores como Galileu, Copérnico, Kepler, entre outros, vieram para dar uma base aos pensadores desse momento. Renée Descartes, principal teórico mecanicista Francês, rompeu definitivamente os laços que os uniam aos pensamentos aristotélicos e às visões ptolomaicas do universo. O mundo físico foi alterado drasticamente para essas elites de pensadores: a propagação da luz à geração dos animais, da pneumática à respiração, da química à astronomia. Os pensamentos medievais aos poucos eram substituídos.

Dentre as características que podemos citar desses estudos filosóficos dos séculos do Iluminismo poderíamos citar:

• Explicações baseadas em conceitos matemáticos.
• Analogia da vida com o “Maquinismo”.
• Exclusão da intervenção teológica nos estudos.
• Distinções das verdadeiras propriedades do corpo(como tamanho e forma, movimento ou repouso).

A matemática entraria como um arcabouço teórico-prático para comprovação dos estudos. O convívio com as fórmulas matemáticas começou a fazer os pensadores acreditar que o mundo em que vivemos é uma eterna e perfeita equação. A busca pela “equação perfeita” ou “equação primordial” moveu os pensadores daquele período e a idéia de “Maquinismo” adentrou perfeitamente na concepção de mundo que se esperava. O mundo poderia ser quantificado matematicamente e desse modo haveria uma organização primordial. Como as incógnitas de uma equação ou as engrenagens de um relógio, a natureza funcionaria de uma forma extremamente complexa e perfeita. Regida por fórmulas matemáticas reais e possíveis de serem alcançadas. Uma das grandes mudanças que esse pensamento acarretou, foi a nova visão do homem perante o seu corpo. O corpo não é um mero instrumento da Alma, ele começa a perceber que o seu corpo é uma máquina extremamente perfeita que não funciona simplesmente porque Deus quer, mas sim porque há uma série de mecanismos que o fazem agir e interagir com o meio.

Tais avanços da teoria mecanicista não poderiam deixar de se confrontarem com os valores morais impostos pela Igreja. Pouco antes desse período, pensadores como Galileu e Copérnico foram obrigados a esconder seus estudos e preservarem a sua vida em detrimento da publicação dos seus estudos. Entretanto, os avanços liberais e burgueses dos séculos XVII e XVIII permitiram uma maior manifestação científica. Abrindo as portas para os conhecimentos tão sonhados que outrora foram queimados nas mentes e corpos de pensadores como Giordano Bruno.

O pensamento aristotélico que vinha sendo poderosamente enraizado na cultura européia desde a Idade Média é rompido, como dito anteriormente, e essa ruptura é causada pela incompatibilidade dos estudos aristotélicos com as necessidades científicas desta época. As propriedades da matéria começam a serem vistas de outra forma. Tamanho, forma, movimento ou repouso, tornam-se os conceitos fundamentais para se conceber a matéria como matéria. Já os antigos ensinamentos de Aristóteles funcionam como uma descrição totalmente secundária. No caso, as definições de gosto, cor, odor, calor ou frieza tornaram-se meros objetos de distinção da matéria.

Essas novas definições do Corpo, também estavam atreladas ao avanço do pensamento relativo ao “átomo”. Uma saraivada de pensadores iluministas retomaram as filosofias dos Gregos Epícuro e Demócrates, em especial Gassendi. Para eles os átomos seriam um novo universo que surgia aos nossos olhos, uma realidade paralela onde as leis e ordens seriam um caos em nosso mundo. Muitos dos “defeitos” do nosso mundo seriam explicados por esses “átomos”. Os átomos surgem como uma iluminação da antiga obscuridade da matéria. Deus, agora é a intervenção de pequenas partículas no nosso cotidiano; os átomos tornam-se definitivamente a parte fundamental da estrutura da matéria.

René Descartes termina sistematizando o método ideal. Em seu sistema a matemática aparece como instrumento fundamental dos amigos do saber. A geometria aparece para explicar o cotidiano e até as leis do universo. O heliocentrismo de Copérnico era fenomenal e já havia convencido boa parte dos iluministas, entretanto, sua teoria era inacabada, pois não explicava o funcionamento dos astros. Os pensamentos baseados na dedução(que era um dos pontos extremamente contraditórios de Descartes, pois ele pregava o empirismo e a matematização, porém suas conclusões eram obtidas por métodos dedutivos matematicamente) tentaram explicar o universo através do “vórtice”. Esse vórtice provaria o porquê dos movimentos dos astros ao redor do sol. As suas teorias foram aceitadas por várias e várias décadas, até que um Inglês chamado Isaac Newton viesse aplicar definitivamente os conceitos mecanicistas. O mundo de Newton era o mundo que a filosofia mecanicista tanto sonhara, era um lugar matemático(como o de Descartes) e ao mesmo tempo poderia ser sempre provado e calculado(como as teorias da Gravidade, Inércia e Ação e Reação de Newton). O mundo científico caminhava para uma reviravolta nas suas aplicabilidades que seriam assistidas de perto pela população européia, que veria o “boom” do século XIX aflorar com a revolução industrial e as suas invenções.

Em outro sentido, desenvolvia-se dentro desses círculos de sábios “iluminados” um culto cada vez mais freqüente à práticas de observação e classificação da Natureza, que depois seriam reagrupados na Biologia, a ciência da vida. Nessa época, no entanto, essas práticas eram agrupadas em torno da chamada História Natural, nome que remontava à Antigüidade, mais especificamente à Plínio (séc. II-I AC.). Essa outra vertente do pensamento científico compartilha com o mecanicismo o fato de se pautar numa idéia da ordem geral do cosmos, como entidade compreensível, subdivisível e, portanto, classificável. Compartilha essas idéias dos astrônomos, mas lhes dão um sentido próprio, como veremos abaixo.

4. A História Natural e as novas sensibilidades frente à natureza no século XVII e XVIII.

O desenvolvimento da História Natural na Era Clássica ilustra uma série de questões da história da ciência. O conhecimento sobre o mundo natural não havia sido modificado, no essencial, desde as contribuições de Aristóteles à botânica e zoologia, que estabeleceu os primeiros critérios gerais de classificação dos seres naturais. Esse conhecimento foi mantido pelos sábios helenistas e pelos herbários da Idade Média, cujo marco é Discórides de Anazarbus, ainda no primeiro éculo depois de Cristo, que escreveu De Materia Medica, livro que circulou por todo o medievo, nos mosteiros em especial, e que marcada as utilizações medicinais das ervas européias. Esse conhecimento não foi especialmente modificado até a chegada dos árabes na península ibérica, que p4ossuíam uma ampla prática de aclimatação de plantas e de manejo agrícola em geral.

No período do renascimento, sob o impulso da imprensa e da descoberta das novas terras no além-mar, há uma profusão de bestiários, catálogos botânicos e manuais sobre a natureza. O conhecimento do mundo natural estava profundamente ligado ao emprego medicinal e mágico das plantas, bem como à coleção infindável de informações do mundo. O mundo era visto, segundo Foucault, como uma infindável rede de palavras e de símbolos, a ser decifrada e reunida. Nesse sentido, havia uma grande crença na influência dos astros na ação das plantas medicinais, das propriedades alquímicas das ervas e no papel simbólico exercido pelos animais. Livros como De rerum monstruorum historia de Ulisse Aldrovandi, o principal marco desse período, além de um amplo espaço para os dragões, unicórnios e sereias, incluem sempre na descrição dos animais suas referências na literatura clássica, os usos desses animais na heráldica, suas propriedades mágicas e simbólicas, além do seu habitat, seus hábitos alimentares, a forma de caçá-los, como cozinhá-los. Ou seja, uma enumeração exaustiva de todos os conhecimentos produzidos sobre tal ou qual animal. Paralelamente a isso, estava presente a idéia da “Grande cadeia do ser”, de origem mágico-religiosa. Nessa concepção, toda a criação estava interligada, numa hierarquia dos seres inferiores até a humanidade, e todo esse universo se relacionava com o modelo de perfeição, ou seja, o mundo supralunar de Aristóteles, o firmamento, havendo, segundo tradição neoplatônica, um reflexo do “de cima” no “de baixo”.

Fora da cultura impressa da época, se desenvolvia uma íntima relação entre as comunidades rurais européias e a natureza. Keith Thomas (19xx) mostrou que esse conhecimento “popular”, na Inglaterra, via na natureza um espelho do homem, cheio de simbologias religiosas, de augúrios, de reminiscências pagãs. Essas comunidades possuíam complexos sistemas de classificação do mundo natural, em geral indicando os usos medicinais, as plantas com propriedades mágicas, os venenos, os animais que traziam maus presságios. É contra essa visão “antropocêntrica”, utilitarista, simbólica e religiosa da natureza que se posicionaram os praticantes da História Natural no século XVIII. Apesar de muitos naturalistas basearem-se nos conhecimentos populares, logo vão se distanciar dos “erros vulgares” e constituir uma ciência pautada apenas no conhecimento interno da natureza.

Ao longo da Era Clássica acontece, entre vários intelectuais europeus, uma discussão em torno da linguagem e de suas dificuldades em representar a realidade, ricamente documentada por Paolo Rossi. Segundo diversos desses autores, as “línguas naturais” (dadas ao homem por Deus), retomando o mito de Babel, seria uma forma de criar discórdia e incompreensão. Além disso, a língua escrita teria o empecilho de não representar diretamente a realidade, mas faze-lo mediante conceitos que não são universalmente aceitos. A partir dessa constatação, vão surgir diversas tentativas de se criar uma linguagem artificial, universal e que possa abarcar de forma simples e facilmente memorizável toda a realidade. Cogitou-se o exemplo dos hieróglifos, dos ideogramas chineses ou mesmo do hebraico (linguagem divina, segundo os cabalistas e os rosa-cruzes da época), depois a álgebra e a linguagem lógica. Dessa forma, se criou entre “sábios” de diversos locais a idéia de uma comunidade internacional em torno do conhecimento, falando uma língua em comum e intercambiando experiências. Esse projeto também se ligava desde meados do século XVII à construção de uma Encyclopaedia dos saberes, devidamente ordenados e classificados, e ao projeto de se construir um conhecimento universal, impossível de ser memorizável por um só indivíduo, e, portanto, a uma mnemônica ou uma arte da memória.

É nesse espírito que a História Natural vai se dedicar a estabelecer uma nomeclatura universal do mundo mineral, vegetal e animal. Entre os precursores da taxionomia podem ser lembrados John Ray (1627 – 1705), na Inglaterra, e Tournefort (1626 – 1705), na França. O último foi um influente botanista do Jardin do Roi, realizando um extenso catálogo de plantas em território Francês. A escola Francesa, em torno do Jardin do Roi (fundado em 1626), teve célebres representantes, como Michel Adanson (1727 – 1806) e A.L de Jussieu (1748 – 1836). Durante a administração colbertiana, o Jardin agregou uma série de pesquisas e publicações, o que demonstra o interesse do estado absolutista de Luís XIV no estímulo ao conhecimento do mundo natural, como estratégia econômica, essencialmente. Esse período, nesse sentido, vai abundar de experiências de aclimatação de vegetais, especificamente especiarias e plantas úteis aos interesses mercantilistas, e, posteriormente, fisiocráticos. Plantas como o tabaco, a cana-de-açúcar e o café serão alvo de uma série de tentativas de melhoramentos genéticos e aclimatações, e naturalistas se dirigirão a todas as localidades do mundo em missão de reconhecer vegetais rentáveis ao Estado.

O auge da taxionomia é representado na figura emblemática de Carl von Linné, naturalista sueco que criou o sistema de nomeclatura utilizado até hoje pelas ciências naturais. Lineu (como também era conhecido) era um admirador florístico, que durante toda sua vida ocupou-se de herbários e jardins botânicos. Em seus estudos, realizou uma série de viagens para diversas academias européias, onde provavelmente entrou em contato com as idéias de classificação de Tournefort e dos demais naturalistas. Ao regressar, ocupou-se de encontrar uma forma de reconhecer, a partir de caracteres visíveis, os gêneros das plantas. Em 1735 escreveu o Systema Naturae e em 1736 publicou o Fundamenta Botânica, nos quais dividiu as espécies segundo certas características – os órgãos reprodutores, no caso das plantas – e nomeou-as segundo os critérios de gênero e família, criando uma nomeclatura binomial em latim. Pela praticidade, o sistema tornou-se mundialmente conhecido e, a partir daí tornou-se imprescindível à formação de botânicos. Seus estudantes viajaram para diversas localidades em expedições de reconhecimento pela Ásia, América e África, participando inclusive da circunavegação do globo pelo capitão Cook. Produziu livros e manuais de baixo custo, como o Philosophia Botânica, ensinando como se criar herbários domésticos, catálogos de classificação, instrumental de campo, e como aplicar a nomeclatura para espécimes desconhecidos. Por outro lado, Lneu acreditava ter criado um sistema de classificação que representasse perfeitamente a criação de Deus. Nesse sentido, era partidário das idéias de uma natureza perfeita e imutável, completamente contrária ao conceito de evolução.

Outro marco do pensamento sobre a natureza da época foi o naturalista Georges Le Clerc, o conde de Buffon (1707 -1788), ligado também ao Jardin do Roi, que não acreditava em um sistema possível de classificação do mundo natural. Advogava a idéia de um reconhecimento metódico e gradual da natureza, muito próximo do método de conhecimento cartesiano. Defendeu uma série de idéias acerca da influência dos climas e da geografia na natureza, inclusive colocando que a natureza das Américas seria “imatura” e “inferior” ao velho mundo. Escreveu, entre 1749 e 1788, sua História Natural, geral e particular, com descrições de diversas espécies da fauna e da flora mundiais, em 36 volumes, ricamente ilustrados. Foi um dos primeiros a creditar a idéia de natureza em movimento, defendendo as primeiras idéias de evolução e a se contrapor a dogmas da igreja, que defendia que a terra teria 6.000 anos de existência. Isso demonstra não uma genialidade única, mas como certas idéias em curso no desenvolvimento das ciências da terra, em toda Europa, estavam circulando por pessoas das mais diversas especialidades.

Apesar de parecer questões extremamente específicas e técnicas da História das Ciências, todos os fatos acima citados causaram uma imensa repercussão na Europa e até nas Américas, especialmente em função de serem cada vez mais valorizadas na formação de pensadores e administradores das monarquias absolutistas. Se é verdade que a ciência natural se distanciou de uma visão de uma cumplicidade entre o homem e a natureza, como mostrou Keith Thomas, por outro lado a descoberta do funcionamento intrínseco do mundo natural causou uma ampla repercussão nas sensibilidades das altas classes européias em relação às florestas e aos animais. Assiste-se a um imensa preocupação na construção de parques, jardins, zoológicos, locais de preservação, e uma revalorização da imagem do mundo selvagem ou semi-domesticado na mente européia. Por outro lado, a atenção dada pelos naturalistas mais empíricos na fisiologia dos vegetais e na aplicação da física às plantas, unido ao esforço dos administradores agrícolas da fisiocracia, fez com que a antiga “Teoria do Dessecamento” voltasse à pauta do dia. Remontando à Antigüidade, esse pensamento cria que, devastadas as florestas e esgotados os solos, pela agricultura imprevidente, toda a mecânica que mantinha a “ordem natural” seria desfeita, o que culminaria na transformação do mundo em um grande deserto. Essa idéia está próxima também do “Sistema” e da “Economia” da Natureza defendidos por Lineu, no tocante à noção da utilidade de cada espécie dentro do plano da criação, e também das idéias de Buffon que revogavam um papel essencial ao meio na explicação da humanidade. Está aparentada também com a chamada “Teoria dos climas”, defendida por Montesquieu no Espírito das Leis (1748), que explicava o comportamento humano e a desigualdade entre as sociedades a partir do clima e do meio ambiente em geral.

Essas idéias repercutiram na formação de uma crítica do sistema de exploração colonial como vinha sendo feito. Esta foi propagada principalmente pelo reformador iluminista Domenico Vandelli (1735 – 1816), correspondente de Lineu e contratado do Marquês de Pombal para realizar a remodelação da Universidade de Coimbra. A partir de sua influência, amplamente embasada nos modelos da História Natural discutidos anteriormente, se difundiu entre uma série de intelectuais das colônias européias uma crítica ferrenha do modelo colonial, que se utilizava basicamente de uma explicação “ambiental” para realizar sua crítica. Esse pensamento teve entre seus defensores mais famosos o estadista José Bonifácio, mas entre outros podem ser citados o médico Manuel de Arruda Câmara e o abolicionista Joaquim Nabuco, nos quais ecoaram essas idéias difundidas em Coimbra.

Dessa forma, podemos concluir que a História da Ciência mostra sua real importância quando relacionada com outros níveis da explicação histórica, mostrando seus contatos com a sociedade e a política, além da ampla gama das “mentalidades”. Outro exemplo desse diálogo imprescindível é a relação que a arte vai estabelecer com a paisagem e com a representação da natureza. Participando dessa nova “sensibilidade”, os pintores holandeses já no século XVII participaram ativamente da criação de uma identidade para as terras atlânticas que viriam a ser chamadas de “Brasil”, e demonstram como uma série de idéias sobre a natureza transitavam nas mentes européias da época.

5. As Artes e as representações da natureza: Os Viajantes e suas Representações artísticas do Brasil no século XVII

Para a construção de uma verdadeira identidade visual brasileira os viajantes que aqui aportaram nos séculos XVI e XVII foram fundamentais. O registro artístico in loco supera o valor, no que tange a formação da identidade visual, das produções pintadas na Europa tendo como tema a América. Esses estrangeiros foram extremamente necessários para essa construção devido à falta de artistas locais e, além disso, eram de fato talentosos, pois quase sempre estavam a serviço de alguma companhia ou de alguma coroa européia que tentava levar para a sua metrópole visões dessas novas terras em processo de conquista.

Com uma visão de fora parar dentro, a Europa imprime a sua visão de mundo “em expansão” nas suas produções artísticas decorrentes das conquistas dos novos mundos. A imagem que chega à metrópole sobre as suas conquistas é sempre fragmentada e dividida entre vários artistas o que faz com que a identidade visual, como imagem, do novo mundo seja a formação de várias produções de diferentes pessoas a cerca da mesma região. É importante lembrar mais uma vez que a arte é um campo livre e a criação em cima do real é amplamente vista e não registra o tema a ser retratado em si, mas sim uma visão pessoal deste.

É interessante notar que essa questão da Europa conhecer novos lugares e ampliar os seus domínios ao redor do mundo lembra a narrativa da odisséia de Ulisses, o que Ítalo Calvino define bem: “a memória só importa realmente – para os indivíduos, para a coletividade, para a civilização – se ligar a impressão do passado com o projeto do futuro, se nos possibilitar agir sem esquecer o que queríamos fazer, tornar-se sem deixar de ser, e ser sem deixar de tornar-se”. Era por um processo parecido por qual passavam algumas metrópoles e especialmente Portugal, que como já escreveu Gilberto Freyre, era uma mistura muito forte de valores dos povos dominados, mas não deixavam de ser lusitanos em sua essência.

As primeiras produções artísticas verdadeiramente baseadas em uma visão in loco das Américas foram algumas gravuras que acompanhavam as cartas de Vespúcio disponibilizadas para a população letrada européia na forma de folhetim. Sempre essas primeiras representações tratavam de temas relacionados com os habitantes já residentes no novo continente. Com a descoberta de novas tribos e o conhecimento de algumas que mantinham práticas canibais logo se criou na Europa uma forte dicotomia no imaginário da população sobre esses habitantes: o bom selvagem e o terrível devorador de homens. Uma grande contribuição com a formação dessa dicotomia foi Hans Staden, que tendo sido capturado por uma tribo tupinambá antropofágica e conseguido se safar, ao chegar à Europa escreveu um livro com várias ilustrações com um tom bastante aventuresco contando com detalhes o dia-a-dia da aldeia em que fora aprisionado.

Os portugueses sempre tiveram uma preocupação bastante prática sobre a sua produção artística e técnica do novo mundo. Havia entre eles em grande número de levantamentos topográficos voltados para a realização de mapas, estudos das espécies da fauna e flora, textos descritivos, etc. Com a Invasão holandesa de Pernambuco, foi vista uma enorme mudança no número e na qualidade das produções artísticas. Os holandeses contrataram artistas já renomados na Europa e de técnicas apuradas para uma melhor representação da natureza e paisagem existente no mais novo negócio da Companhia das Índias Ocidentais. Albert Eckout e Franz Post foram os nomes mais conhecidos dentre os artistas que vieram a serviço da companhia pintar suas belezas naturais, diversidade de raças, frutas exóticas e toda sorte de coisas que um apreciador das artes europeu pudesse achar curioso e relevante em suas produções. Com a vinda desses pintores há claramente uma divisão temática nas produções artísticas realizadas no Brasil: um forte apelo aos sentidos é visto junto com uma maior fidelidade nas representações em tela. A produção se volta para o registro fidedignos onde os aspectos visuais são uma preocupação constante na obra do artista. E dessa forma o Brasil busca a sua identidade visual que demora ainda muito tempo para a sua construção na forma de uma arte verdadeiramente nacional.

Bibliografia

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Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
História Moderna II
Professor Dr.Severino Vicente da Silva

Escrito por:
John Keven Nunes
Manoel de Carvalho Niño Júnior
Patrícia Gomes
Raphael Wellington
Raquel Barbosa Lopes

Recife, outubro de 2008.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO………………………………………………………………………………………..4
1. A mulher e o casamento………………………………………………..5
2. A prostituição feminina no século XVI………………………………….10
3. A mulher na Igreja: o feminino e o conflito…………………………….14
4. Ocultismo e magia……………………………………………………18
5. A mulher trabalhadora e administradora…………………………………22

REFERÊNCIAS……………………………………………………………27

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por finalidade expor e analisar determinados aspectos pertinentes às mulheres na Idade Moderna, aspectos estes que geram a discussão de problemas referentes ao gênero, como sua condição quando inseridas nos mais diversos campos, como a família, a sociedade civil e a Igreja. Também são abordados os parâmetros comportamentais exigidos pelos grupos sociais das quais fazem parte, bem como as retaliações sofridas pela quebra dessas expectativas.
Buscou-se, então, delimitar o objeto de pesquisa em áreas as quais são as mais marcantes no que concerne o universo feminino, utilizando-se de contrapontos para uma melhor captação dos extremos de uma mesma questão considerada.
Por fim, procuramos trazer uma pequena contribuição para manter aceso o debate acerca da condição feminina através dos tempos, como forma de tentar obter respostas que satisfaçam a resolução dessa demanda.

1. A MULHER E O CASAMENTO

Raquel Barbosa Lopes

Independente da sua classe social, a menina, quando fruto de um casamento legítimo, assim que nascia estaria sob a tutela de um homem. Primeiro seria o seu pai, que teria por função sustentar a sua filha até o casamento, e depois o marido, que seria responsável pelo bem-estar da esposa. Este modelo se aplicava, sobretudo, às classes médias e altas da sociedade entre o período que se enquadra o Renascimento e a Idade Moderna.

A mulher para se casar teria que ter um dote. No livro História das Mulheres no Ocidente há um trecho escrito por Olwen Hufton que descreve que “uma filha levava da sua família dinheiro e recursos que tinham que comprar o seu bem-estar futuro e, idealmente, através da nova aliança, elevar a posição social dos seus parentes” (HUFTON, p. 25). Percebe-se, então, que os casamentos realizados entre as classes mais abastadas economicamente tinham o caráter de negócio.

É importante ressaltar que as mulheres cujas famílias não possuíam recursos para tal tinham que trabalhar para juntarem dinheiro para o seu dote. Além disso, independente de serem casadas ou solteiras, as mulheres das classes trabalhadoras tinham que se sustentar pelos rendimentos do seu trabalho, o que não significava que estas poderiam viver em plena independência. A mulher pobre solteira que não conseguia manter sua própria casa tinha que procurar um patrão que a abrigasse e este, então, passaria a ser seu responsável até esta mudar de emprego, casar ou voltar para a casa dos pais.

Por volta dos 12 anos, a menina pobre deixava a casa dos seus pais e saía em busca de trabalho. Até o final do século XVIII, nas zonas rurais o trabalho nas pequenas fazendas abrigava boa parte da mão-de-obra dessas moças. O que era uma grande vantagem visto que estas não se afastariam tanto da sua família e do padrão de vida a que estavam acostumadas. Quando não conseguiam trabalho nas fazendas, procuravam emprego nas cidades próximas, onde se submetiam ao trabalho doméstico das casas. “As criadas constituíam o maior grupo trabalhador na sociedade urbana, chegando a cerca de doze por cento da população total de qualquer vila ou cidade européia nos séculos XVII e XVIII” (HUFTON, p. 31). Isso se explica porque se ter criados era sinônimo de status social, além disso, havia a oferta farta e barata de mão-de-obra feminina nesse período. Nas zonas industriais, também foi notável a utilização de mulheres nas indústrias têxteis européias.

No que se refere ao casamento, as mulheres das classes aristocráticas e médias se casavam bem menos do que as das classes operárias, fato que se explica pelo valor elevado do dote. O dote das filhas poderia levar à falência das famílias. Geralmente, só as duas primeiras filhas se casavam, enquanto as outras ficavam em casa ou moravam em locais “modestos”. Lembrando que as mulheres da aristocracia só podiam casar com alguém do mesmo grupo social. A mulher de família mais pobre e que lutava por seu dote quase nunca deixava de se casar, pois não havia motivos para o impedimento do casamento.

De modo geral, havia uma tendência das mulheres em não se casar com alguém de condição econômica inferior a sua. As da aristocracia poderiam escolher o melhor partido; as filhas dos médicos também se casavam com médicos; as que trabalhavam nas fazendas se casavam com os agricultores; as que trabalhavam na indústria de tecido se casavam com algum tecelão; e assim por diante, enfatiza Olwen Hufton. Por sua vez, o número de criadas que se casavam com alguém de mesmo ofício era praticamente inexistente, pois estas aproveitavam o dinheiro do dote para, junto com o seu marido, abrir um negócio. O casamento tinha por finalidade proporcionar apoio econômico entre as partes, mas isso não significa que o amor romântico não ocorresse. Após o casamento, o papel da mulher consistia basicamente em ser uma boa companheira e de cuidar dos filhos.

A mãe desse período deveria alimentar o bebê e mantê-lo sempre aquecido e limpo. Houve uma tendência dos historiadores daquela época de taxarem que as mães eram indiferentes com seus filhos, pois era um hábito comum, no século XVII, as crianças serem alimentadas por amas de leite. As mães que permitiam isso comumente pertenciam à aristocracia, às classes médias urbanas ou trabalhavam nos negócios de família e, devido ao perigo do ambiente de trabalho, preferiam evitar expor seus filhos. No século XVIII, o número de mães que contratavam os serviços de uma ama tenderam a diminuir entre as primeiras classes citadas, pois os médicos e filósofos faziam uma propaganda que enfatizava o caráter negativo e “antinatural” dessa prática.

Segundo Olwen Hufton, após a infância, a mãe passava a exercer o papel de educadora, que variou de acordo com o tempo, a classe e o lugar. As mães das classes aristocráticas ensinavam suas filhas a se comportarem a fim de arranjarem um bom casamento, que nesse caso, a mãe seria o reflexo do sucesso da filha. Aprendiam a bordar, a dançar, a falar, a administrar os criados, a ler, a falar francês etc. Para a plebe a importância da leitura tinha um papel secundário, até porque o ensino da leitura dependia de uma mãe também letrada, as habilidades culinárias e a costura eram as prendas mais requisitadas por esta classe. A mãe pobre ensinava, sobretudo, a filha a se “virar” nas fases mais críticas. A educação moral da filha era função quase que exclusiva da mãe. “Uma filha era o que a mãe fazia dela” (HUFTON, p. 63).

Até o fim do século XVIII, as meninas, “com exceção de algumas, que eram enviadas às ‘pequenas escolas’ ou a conventos, a maioria era educada em casa, ou também nas casas de outras pessoas, uma parenta ou vizinha” (ARIÈS, p. 233).

Segundo Lawrence Stone, a preocupação com uma melhor educação para as meninas teve início no século XVII, quando algumas mulheres inmglesas, das classes média e alta, se inspiraram nos princípios de pensadores como, por exemplo, John Locke, William Law, Jonathan Swift, John Dunton e Daniel Defoe. Essas mulheres acreditavam que a educação seria um fator de enriquecimento da relação com os seus maridos, pois melhor preparadas seriam, conseqüentemente, melhores companheiras. Locke defendia que uma mulher bem preparada para o casamento deveria ler inglês perfeitamente, entender latim, aritmética e conhecer alguns dados cronológicos da história.

Lawrence Stone explica que a educação feminina mais ampla resultou em melhorias nas condições de vida, visto que poderiam ter uma maior autonomia na escolha de seus parceiros, ter maior participação nas decisões familiares, uma postura sexual mais relaxada, restringir o número de filhos etc.

Ao ficar viúvo, o pai tinha a obrigação de substituir a figura materna. A solução nesses casos poderia ser, por exemplo: mandar os filhos para a casa de uma irmã; trazer uma parenta solteira para a sua casa; deixar que a filha mais velha tomasse conta dos outros irmãos; ou casar-se novamente. A mulher viúva enfrentava muito mais problemas do que o homem, e, geralmente, sobrecarregavam ainda mais as suas filhas. Fato que nas classes mais favorecidas economicamente significava, muitas vezes, uma chance da mulher se tornar independente, pois poderiam levar o negócio da família adiante ou porque o dote do casamento ainda lhe garantia uma vida confortável e, dessa forma, poderiam escolher um tutor com mais cautela.

As mulheres possuíam uma vida muito difícil quando longe da família e fora dos papéis a que estava destina, de esposa e mãe. As solteiras, quando as famílias não podiam sustentá-las e devido aos baixos salários oferecidos, chegavam a se agrupar e tentar levar uma vida em conjunto.

De modo geral, o casamento era visto mais como uma união temporária do que um contrato vitalício, pois poucos casais conseguiam permanecer juntos até a velhice. Sara F. M. Grieco explica que quanto mais jovem mais alta seria a probabilidade de um recasamento. E enfatiza que para os homens o tempo para uma nova união era bem mais curto. O direito canônico não estipulava prazos para um novo casamento, mas recomendava pelo menos um ano de luto, principalmente no caso das viúvas. Outro dado curioso se relaciona à idade dos novos pares, a maioria dos homens, após o primeiro casamento, se juntava com mulheres mais jovens, ao contrário das mulheres, cujos recasamentos tendiam a ser com homens mais velhos. No sul da França, até o início do século XVII, o clero chegou a se recusar a fazer recasamentos, pois se questionava se tais pessoas teriam a chance de uma nova vida após a morte.

No que se refere à traição, as mulheres deveriam fingir que não se preocupavam com os casos do marido, além disso, deveriam tentar manter a virgindade até o casamento e serem fiéis ao relacionamento. Para a sociedade, um homem traído era sinônimo de falta de habilidade para manter a sua propriedade.

Nas áreas rurais, os maridos traídos e as mulheres infiéis eram submetidos à rituais de vergonha pública. Na aristocracia, a infidelidade tinha outra conotação; era comum homens e mulheres manterem relações extraconjugais. O único empecilho, no caso das mulheres, seria cumprir suas obrigações de esposa.

No que se refere ao divórcio, este processo era bem mais simples para o homem, às vezes, bastava alegar simplesmente a infidelidade da esposa. O seguinte trecho nos dá uma idéia de como era complicado para a mulher se divorciar do marido: “mesmo em 1857, em Inglaterra, a Lei do Divórcio tornou possível ao marido obter o divórcio alegando simples adultério da sua mulher, mas esta apenas o obteria se a infidelidade do marido fosse agravada por outras circunstâncias tais como crueldade, abandono, bigamia, violação, sodomia ou bestialidade” (GRIECO, p. 115).

2. A PROSTITUIÇÃO FEMININA NO SÉCULO XVIII
John Keven Nunes

O século XVI, além de ter sido um período de grandes descobertas, também conheceu uma forte mudança na concepção da imagem feminina, sendo apontado por alguns pensadores, como Reay Tannhill, por exemplo, um dos séculos mais críticos nessa mudança. Desde o período das cruzadas que vários agentes transformadores vieram atuando para uma nova forma de ver e entender a mulher, tais como: choques com a civilização mulçumana e sua forma de tratar suas mulheres, a ida de muitos membros intolerantes da sociedade européia para os campos de batalha, o que levou muitas mulheres a administrar os feudos dos seus esposos ausentes, um desenvolvimento de uma literatura palaciana, onde as mulheres passaram à condição de DAMAS e principalmente o desenvolvimento do culto à Maria. Esse último item ganhou força na Europa medieval a partir do contato com os bizantinos que já tinha uma devoção à Maria bastante amplificada, e sua divulgação na Europa se deu através de eclesiásticos como Bernard De Clairvaux, de trovadores, nobres, burgueses e ordens religiosas. Logo, Maria conquista toda a igreja cristã ocidental.

Como o século XV ficou conhecido como o “o século dos bastardos”, a igreja passou a ver a prostituição feminina como um mal necessário que servia para conter as demasias. Em sua obra Reay Tannahill faz menção a um bordel pertencente à igreja de Avinhão (França), onde as moças dividiam o tempo entre orações e favores sexuais aos clientes. Lugares como esse, foram difundidos pela Europa, porém proibidos para judeus e pagãos. Evocou-se o arquétipo de Maria Madalena (a prostituta arrependida dos evangelhos) para servir de exemplo às prostitutas e levá-las à conversão. Jacques Le Goff, conhecido medievalista francês, cita também que a igreja admitia a prostituição como “resultado do pecado original e da fraqueza da carne humana” (LE GOFF, p. 154). Porém essa prostituição deveria ser praticada apenas como necessidade de sobrevivência e não por prazer, ficando sempre aberto o caminho do arrependimento.

Uma epidemia de sífilis no final de século XVI freou o desenvolvimento dos bordéis e das casas de banhos. Cada lugar denominou essa doença venérea como os nomes próprios, que em geral evocava lugares aquém de suas fronteiras, tais como sarna espanhola, na Alemanha, e doença francesa, na Espanha. O retrocesso sofrido pela prostituição ganhou nova roupagem a partir do século XVIII com as inovações promovidas nos bordéis na Europa, já que eles deveriam satisfazer seus novos, ricos e influentes clientes, advindos da aristocracia e do clero em especial.

Uma das grandes novidades foi a divulgação dessas casas e de suas especificidades que deu fôlego ao negócio do sexo. Um dos ícones desse período eram os estabelecimentos de Miss Fawkland, que segundo Nickie Roberts eram decorados como templos e suas garotas tinham amplo treinamento para agradar clientes de todos os gostos, inclusive os mais excêntricos, para a época, como o sadomasoquismo, por exemplo. Outra inovação bastante difundida, ainda de acordo com Roberts, foi o uso de dramatizações nesses recintos, pois era grande a ligação entre o teatro e a prostituição, sendo o primeiro uma vitrina para as prostitutas recentes mostrarem seus talentos, onde muitas prostitutas – atrizes conseguiam também bons casamentos.

Um fato bastante interessante verificado nessa pesquisa foi a existência, também, de prostituição masculina, que servia para satisfazer os desejos de senhoras abastadas das classes aristocráticas. E a demanda por esses serviços másculos era grande, como atestam as movimentações nos prostíbulos das senhoras Hayes e Banks em Londres, onde se oferecia sexo comercial a ambos os sexos, sem nenhuma distinção, segundo Nickie Roberts. Em “As prostitutas na História”, Nickie Roberts, nos informa que “Londres era já no século XVIII a mais avançada cidade do ocidente” (ROBERTS, p. 205), onde o mercado da prostituição tinha grande profusão, às vezes escancarada.

Toda essa liberação era facilitada pelo desenvolvimento de ideais liberais, onde a economia de mercado se preocupava menos com questões morais, que com os lucros. O aumento da pobreza, a expulsão de camponeses de suas terras e grande quantidade de mulheres sem meios para casar, aumentou o número de prostitutas pobres, uma vez que a prostituição dava muitas oportunidades a essas desafortunadas, desde se livrarem de trabalhos exaustivos a conseguirem juntar dinheiro e com isso arrumar um marido. Não havia nas classes mais baixas um apego à moralidade. Era comum nos bordéis londrinos um número notório de prostitutas negras, muitas delas escravas trazidas das colônias por seus antigos senhores e abandonadas à dura sorte na metrópole inglesa. Entre os comportamentos profissionais das prostitutas estava o de receptar seus clientes entre os transeuntes de determinada rua e levá-los para os aposentos das mesmas e lá desenvolverem seus trabalhos sexuais; sendo comum que várias ruas tanto em Londres, como em várias cidades da Europa, fossem identificadas por esse tipo de oferta.

Ao contrário do que se pode pensar, as crianças não estavam livres de serem envolvidas por esse negócio. Devido à necessidade constante de virgens para aplacar os desejos dos clientes ricos e do aumento da pobreza, muitas meninas a partir de 11 anos de idade seguiam para uma triste vida nos prostíbulos, de onde muitas vezes só saiam mortas. Infelizmente a prostituição infantil atual, também tem suas raízes em várias sociedades modernas. Muitos espaços serviam para o oferecimento de serviços sexuais, tais como muitos cafés, que possuíam quartos para essas finalidades, quanto nas famosas tavernas, sendo, estas últimas, foco das prostitutas das classes trabalhadoras. Muitas festas eram realizadas com o intuito de promover encontro entre aristocratas e prostituas em geral essas festas se davam em festas, de bailes de máscaras, com lugares exclusivos para a sua realização. O escritor Thomas Brown faz alusão em sua obra a uma das numerosas tavernas: “aquela imunda escola de sodomia, que pela competência na ciência da devassidão, chamados de flogging Cillies pagam um preço exorbitante para serem açoitados em seus traseiros pelas Posture Molls”.

Outras cidades também foram foco de prostituição, tais como Paris e Viena, porém as prostitutas sofriam forte repressão por parte do estado, que utilizava de métodos brutais, como marcação a ferro nas prostitutas, banimentos e até decapitação das mesmas. Outros métodos mais brandos foram bastante disseminados nessas regiões, como trabalhos forçados em lavanderias, prisões etc., o que acarretou maior vigilância sobre as mulheres. Porém, como muitas vezes ao longo da História, a prostituição sobreviveu na clandestinidade, se destacando o papel dos cafetões, que aliciavam as prostitutas para seus clientes, e o disfarce que muitas utilizavam para oferecerem seus serviços. O resultado dessa prostituição clandestina foi a disseminação de muitas doenças sexualmente transmissíveis. Na França, também, foram tomadas muitas medidas para o controle da prostituição o que Foucault chamou de Grand Renferment, através dos quais prostitutas foram enviadas às instituições de saúde para serem tratadas e reintegradas à sociedade. Por ser considerada pelo governo francês uma necessidade de manter a prostituição ativa, porém controlada, paradoxalmente eram concedidas licenças para o funcionamento de bordéis (casas de tolerância) devidamente fiscalizados e mantidos em áreas restritas para tais fins. Muitas sociedades civis e particulares foram criadas para combater a prostituição, devido aos apelos por moralização das classes burguesas emergentes, numa tentativa desenfreada de “civilizar” a prostituição. Esses movimentos “pró-moral” também tiveram seus correspondentes na Inglaterra, onde a nova burguesia de ressaca puritana apostava na família nuclear, onde a mulher seria o eixo. Temos em Rousseau (filósofo iluminista), um simpatizante dessas teorias, onde a mulher se encontra em posição inferior aos homens e s mesma deve dar continuidade a uma carreira maternal. Devido a muitas perseguições de ordem moral, muitos freqüentadores dos submundos europeus desenvolveram gírias que facilitaram sua conversação sem serem entendidos por pessoas não afins, em Londres essas gírias levaram o nome de talking flash.

Pelo que podemos perceber o século foi Sui Generis na história das mulheres. Toda a liberdade que elas obtiveram plantou sementes que séculos mais tarde culminariam em movimentos de cunho feminista em todo o mundo. No presente século muitas mulheres ainda são vítimas de exploração e violência sexual e doméstica e em geral recebem salários mais baixos que os homens. Esperamos que o presente trabalho possa servir de base para outros estudos que demonstrem os papéis brilhantes que o erroneamente chamado “sexo frágil” desempenhou no percurso da História.

3. MULHER NA IGREJA: O FEMININO E O CONFLITO
Patrícia Gomes

A luta pela emancipação das mulheres tem se dado, em todos os segmentos da sociedade, numa batalha secular e sempre esteve presente em todas as formas de sociedade, sendo mais intensa nas patriarcais. Muitas foram as conquistas, porém o caminho ainda é longo, especialmente no tocante a religião, em especial a Igreja Católica, tema que iremos abordar neste breve estudo sobre a posição, a luta e as conquistas das mulheres na Igreja Católica nos últimos tempos.

Nosso ponto de partida é um dos períodos da historiografia onde se deu uma das maiores repressões às mulheres. No livro “A mulher numa estrutura eclesial masculina”, um dos autores, Ida Raming, destaca as atitudes tomadas no intuito de relegar à mulher a um segundo plano na Igreja: “assim evoluiu o cristianismo ortodoxo, estabelecendo-se cada vez mais como religião do Estado, numa atitude de defesa contra as comunidades tidas como heréticas, hostil à mulher e a sua emancipação. Contribuíram para esta evolução não só os teólogos da Igreja Antiga como também os padres da Igreja do quarto até o sexto século. Impregnados da idéia de inferioridade antropológica e ética da mulher, reduziram-lhe a vida a duas formas: primeiro à situação de mulher casada e dona-de-casa, com obrigação de submeter-se, obediente, ao seu marido e viver, como matrona honesta, totalmente isolada do público; e mais tarde, ao estado da virgindade, ao qual está associada à exigência de transcender o sexo feminino, resumo da inimizade a Deus, de perigo e fraqueza morais e de assim torna-se homem espiritualmente”.

Essas foram as primeiras formas assumidas para fechar os caminhos da Igreja à mulher, apoiados no direito romano e por uma passagem bíblica (Gn 3,6; 6,2) ao qual a mulher é julgada como fonte de pecado e sedutora do homem. Deste período em diante os padres da Idade Média tem uma elevada autoridade em suas afirmações que valiam como jurisprudência equiparada às decisões conciliares e aos decretos papais. Desta forma o afastamento da mulher da esfera do ministério eclesiástico assume, neste tempo, uma forma cada vez mais jurídica.

Com o decreto de Graciano (1140), é revelado o concreto estado de escravidão da mulher e é autenticado, quando diz: “a mulher deve está sujeita ao homem em tudo”. E com este decreto é negado à mulher o exercício de funções pastorais, atividades culturais e litúrgicas.

Temos neste momento a concretização do que seriam os longos séculos de perseguição e opressão à mulher dentro e fora do mundo religioso católico.

Em contraponto, temos o trabalho realizado por Bárbara Pataro Bucker que faz um estudo detalhado de como a Igreja lidou com o feminino, sem deixar de pontuar os momentos de maior conflito nos conceitos psíquico-sócio- antropológicos, podendo começar no destaque dos estereótipos teológicos mais negativos e aceitos sobre a mulher que a autora destaca:

• A mulher existe só para a reprodução;
• A mulher existe para o uso, serviço, prazer e beneficio do varão;
• A mulher é a origem do mal e do pecado, fonte de perversão.

O trabalho de Bucker trás a conflitividade vivida dentro da Igreja Católica desde a leitura e interpretação do Antigo Testamento até os dias atuais, mas a perspectiva do seu trabalho não é de crítica ou de contestação ao que foi feito contra a mulher. Ela trás a Igreja como algo do ser e da fé, não como um campo de batalha entre homens e mulheres. A autora ressalta que Deus não fez restrições a sexo e via a todos como sua imagem e semelhança, defendendo homens e mulheres no campo da fé e com uma proposta de vida melhor para todos. Obviamente esse processo de divisão dentro da Igreja entre homens e mulheres tem raízes históricas e está em processo de mudança, logo requer dados para uma melhor compreensão da historiografia religiosa e a mulher neste contexto, começando esse panorama através das três principais idéias da teologia que estão bastante difundidas numa sociedade cristã patriarcal e secular. Embora a autora também destaque que esse quadro vem mudando lento, mais definitivamente a atuação da mulher na vida religiosa, e temas nunca antes discutidos agora já permeiam as reflexões do mistério eclesial, por exemplo: a ordenação de mulheres ao sacerdócio ministerial e uma das mais polêmicas como o celibato masculino. Neste ponto vale nos ater um pouco mais, como afirma, sobre este assunto, Nadine Foley (a mulher numa estrutura eclesial masculina): “o celibato é uma das questões mais intransponíveis para as mulheres, o celibato foi elevado à categoria do sagrado e passa pela questão do poder e das conseqüências do exercício do poder. O celibato institucionalizado distancia efetivamente a mulher da casta sacerdotal e constitui uma afirmação implícita de que a Igreja, em sua expressão hierárquica, não tem necessidade da mulher”. Podemos então observar dois pontos críticos de discordância entre os autores sobre as conquistas feministas na Igreja nos dias de hoje.

Segundo Bucker, foram fundamentais as mudanças ocorridas a partir do Concílio do Vaticano II (1962) realizado para a discussão dos oprimidos econômica e politicamente, logo a mulher estava inserida neste contexto e como os padres se relacionavam com estas comunidades. A Igreja é pressionada a mais uma renovação diante das mudanças sociais em todas as partes do mundo e novos estudos e condutas são adotas no intuito de acompanhar as exigências de todos aqueles que lutam por igualdade. A Igreja “sente” a necessidade de mudar e reformular o papel da mulher dentro da esfera religiosa dos dias atuais, nos vários pronunciamentos da Igreja, a mulher é persistentemente considerada como tendo uma “natureza própria” e um papel específico a desempenhar na empresa humana.

Ser mulher passa a ter outra conotação e para cristalizar essa mudança a Igreja busca a nova figura da mulher espelhada em Maria uma das mulheres que foi lida dentro de tudo aquilo que a Igreja sempre procurou valorizar na mulher. O Papa Paulo VI, em 1972, apontou que o que explica a diferença única da mulher não consiste numa formalista ou materialista igualdade com o outro sexo, mas em reconhecer o que a personalidade feminina tem característica essencialmente especifica: a vocação materna da mulher.

• A mulher como companheira;
• A mulher como esposa;
• A mulher como mãe.

Outros ramos de pesquisa tiveram ascensão e ocupam lugar de destaque na Igreja Católica “renovada” como a teologia feminista e a mariologia (estudo específico sobre Maria considerada Mãe da Igreja), sem dúvida com a luta e dedicação não só pelas mulheres mais também por homens memoráveis. O feminino deve ter seu lugar na sociedade e na Igreja para que a riqueza, dada por Deus à humanidade através da mulher, permita o desenvolvimento dela e as contribuições específicas como companheira, esposa e mãe.

4. OCULTISMO E MAGIA

Raphael Wellington

Para entendermos a visão moderna sobre as mulheres e como muitas foram parar nas fogueiras da Inquisição sob acusação de bruxaria precisamos entender o cerne do problema: o período medieval. A Idade Média foi consagrada como um período negro e cheio de superstições, etapa da história onde os ritos pagãos ainda eram praticados em várias regiões do norte da Europa. O curandeirismo e os rituais de fertilidade dos celtas são a essência da bruxaria tanto no período medieval quanto na sucessiva Era Moderna e tinham nas mulheres as maiores praticantes de tais rituais pagãos. Esta afirmação segue uma lógica histórica, pois, no geral, as mulheres ficavam em seus lares sendo criadas para manter suas moradias e questões mais práticas da comunidade, enquanto os homens, com exceção dos sacerdotes, tratavam de ações no campo da tradição guerreira.

O envolvimento das mulheres com a religião gerou muitos avanços, como o conhecimento do poder das ervas usadas na cura de doentes e alívio da dor do parto. Outro ganho a ser citado seria o primeiro calendário, o calendário lunar, utilizado por muito tempo e supõe-se ter origem no procedimento de mulheres que observavam seus ciclos menstruais e os comparavam com os ciclos da Lua. As mulheres desenvolveram também os idiomas, a agricultura, a culinária, a cerâmica, entre outros. As contribuições das mulheres para as culturas humanas são inúmeras e nunca tiveram o devido crédito e valor.

Após a cristianização da Europa, o catolicismo começou a perseguir e condenar as práticas pagãs, tratando-as como diabólicas. As mulheres, antes com importante destaque pelos seus conhecimentos, começam a ser vistas como as portadoras do pecado, tal visão pautada no livro do Gênesis, em que Eva leva o seu companheiro Adão a cometer o pecado original, tornando a si e seus sucessores mortais. Também por ser a primeira mulher, fruto de uma costela de Adão, foi interpretado como conseqüência de que as mulheres não poderiam ser retas em suas condutas. Esses argumentos serão as bases para teólogos da Igreja que se exprimem em obras como o volumoso tratado dos dominicanos Malleus Maleficarum, de 1486, e a Summis desiderantes affectibus, de Inocêncio VIII. O primeiro coloca na sexualidade a porta para entrada do demônio, pois é através do sexo que o demônio poderia entrar no corpo e na alma do homem. Segundo a obra, as mulheres são o maior canal para a ação demoníaca.

No Malleus Maleficarum, sua principal característica é afirmar que as feiticeiras adquirem todos os seus poderes por copularem com o demônio. Todos os males, como aborto, destruição de colheitas, doenças em animais, impotências masculina, impossibilidade do homem se livrar das paixões desordenadas, entre outros, são causadas pelas feiticeiras. A sexualidade era o ponto mais crítico, pois é um aspecto vulnerável no ser humano, e segundo o livro “mas a razão natural está em que a mulher é mais carnal do que o homem, o que se evidência pelas suas muitas abominações carnais”. Desse modo, qualquer mulher disposta a tratar pequenas enfermidades ou ferimentos com preparados domésticos à base de ervas, morasse sozinha e tivesse um animal de estimação (um gato, por exemplo), tivesse comportamento pernicioso, entre outras alegações superficiais, podia ser acusada de bruxaria.

O pensamento moderno nos primeiros séculos sobre a feitiçaria teve como base teorias e superstições medievais, pois o pensamento racional voltado a explicação e a visão dos fatos do “sobrenatural” só viria a amadurecer por volta do século XVIII. A forma de descobrir uma bruxa e julgá-la na Era Moderna ainda seria a mesma praticada na Idade Média. A tortura, como é sugerida no próprio Malleus Maleficarum, era o método convencional utilizado para extrair as confissões das supostas bruxas, com o uso comum de aparelhos como A dama de ferro e a Cadeira das bruxas. Havia também métodos menos sofisticados, como aquecimento dos pés ou introdução de ferros sob as unhas. Deste modo, a ré passava por tantos suplícios que acabava por admitir as sentenças elaboradas pelo inquisidor.

O mundo anglo-saxão aderiu à luta contra a bruxaria tardiamente. Na Inglaterra, os procedimentos jurídicos de proibição à feitiçaria somente foram fixados em 1664, com os Suffolk Assizes, de Sir Mathew Hale. Ainda assim não podem ser comparadas às funestas dimensões da caça às bruxas dos países católicos. A explicação para isso deve-se há não existência entre os protestantes de uma instituição tão poderosa como a Igreja Católica, que via na heresia a marca da subversão. Contrário a toda visão “hiperbólica” da caça as bruxas e em defesa da Igreja católica, cito Zenit Manfred Hauke, sacerdote, professor de teologia dogmática da Faculdade de Teologia de Lugano e presidente da Sociedade Mariológica Alemã:

“A deplorada (caça as bruxas) não foi causada simplesmente pela crença na bruxaria, mas por uma histeria coletiva desencadeada ao início da era moderna, e pelos métodos absolutamente inaceitáveis empregados para detectar bruxas e bruxos. A tortura com efeito levava a «confissões» de delitos inventados, sugeridos pelos acusadores. A responsabilidade direta de ter mandado à fogueira supostos maléficos é da autoridade pública. A histeria coletiva (que culmina nos anos 1550-1650), estendia-se sobretudo pelos países germânicos e eslavos e muito menos no âmbito mediterrâneo”.

Dados apresentados pelo mesmo teólogo mostram as execuções de supostas bruxas no transcurso de quatro séculos quando se praticava a perseguição ativa da bruxaria. Foram mortas 50.000 pessoas, dos quais cerca de 20% eram homens. Na Espanha, Itália e Portugal, de meados do século XVI ao final do século XVIII, houve 12.000 processos contra supostas bruxas e bruxos. Só 36 pessoas, nestes milhares de processos, foram submetidas à pena capital. A imensa maioria dos processos da inquisição romana encerrou por falta de provas.

Um exemplo marcante dessa histeria coletiva acabou com um triste episódio gerado pela superstição e credulidade, levando, na América do Norte, aos últimos julgamentos por bruxaria na pequena povoação de Salém, Massachusetts, numa noite de outubro de 1692. O medo da bruxaria durou cerca de um ano, durante o qual vinte pessoas, na sua maior parte mulheres, foram declaradas culpadas e executadas. Temos na História casos de mulheres que se declararam bruxas e foram executadas sem mudar suas convicções, este é o caso de Isobel Gowdie, escocesa julgada por bruxaria em 1662, aparentemente sem tortura, confessou com detalhes seus atos de bruxaria, mantendo assim o folclore da época vivo.

Como existiam bruxas também existiam os caçadores de bruxas na época, um exemplo é Matthew Hopkins (1620 – 1647). Filho de um ministro puritano, que se auto intitulou “caçador de bruxas” e organizou caças às bruxas em Suffolk, Norfolk, Essex e Huntingdonshire, na Inglaterra. Ele empregava a técnica do “banho das bruxas”, em que mergulhava num lago as suspeitas de bruxaria, como a água é associada ao batismo cristão, pressupunha-se que o lago rejeitaria a bruxa, fazendo-a flutuar. Uma pessoa inocente afundaria, possivelmente morrendo afogada.

Na Inglaterra, observou-se um número crescente de juízes que começaram a desconsiderar as sucessivas denúncias de bruxarias que chegavam às cortes, apesar da legislação contra aquelas práticas só ter sido revogada em 1736. A perda do medo às bruxas também pode ser creditada à crescente expansão das luzes, aos avanços da razão, da educação e da lógica científica que culminaram na máxima “se não há diabo, não há Deus.” Em 1782, na Suíça é registrada a última mulher européia que foi executada como feiticeira.

5. AMULHER TRABALHADORA E ADMINISTRADORA

Manoel Carvalho Niño Júnior

Geralmente as mulheres dos séculos XVII e XVIII são expostas, no que diz respeito ao seu papel social, elas são definidas como simples elementos de propriedade do chefe da família, seja ele o pai ou o esposo, cuja atuação remete apenas ao âmbito doméstico, ou seja, cuidar do lar, da prole e do cônjuge, tendo exíguas atividades externas a casa, como ir à igreja, por exemplo.

Entretanto, descobriu-se que a mulher dessa época, ora considerada submissa e apenas detentora de deveres, teve seus episódios de autonomia a partir do momento em que exerceu uma das suas facetas mais interessantes: a de administradora. Com efeito, quando se aborda essa característica, somos remetidos ao seio do lar, tendo a mulher apenas como protagonista das atividades domésticas, todavia, ao nos aprofundarmos em pesquisas sobre o cotidiano, veremos que essa habilidade vai além do que dita o senso comum.

Segundo Nicole Castan, a mulher, de modo geral, é alijada das funções de caráter público e dos encargos externos (políticos, administrativos, corporativos, etc.), cabendo a ela “o papel oficioso [gratuito, serviçal] – reconhecido não sem acrimônia, aliás -, porém não oficial”.

Entre os séculos XVI e XVIII, todavia, têm-se registros de corporações de ofícios femininos, ou mistos, em geral, formadas por integrantes das classes populares: é o caso das arrumadeiras, das costureiras, comerciantes de moda, bem como das vendedoras e vendedores de grãos, entre outros. Ainda nesta época, várias mulheres trabalharam em Paris como “moças maiores”, termo que denomina mulheres independentes, nem casadas, nem viúvas.

A mulher, então tida como serva, entretanto, passava a se posicionar como senhora a partir do momento em que o chefe da família deixava expor suas limitações, quando, por exemplo, em suas mãos caíam assuntos de trato doméstico para uma resolução. Tal situação atribui à mulher um controle tal que, estando o elemento feminino, suprido de suas virtudes básicas como a modéstia, dedicação e economia, aliás, virtudes bastante demandadas, que faz com que se reconsidere a opinião de uma sujeição austera ao chefe familiar. O que vem a ocorrer, segundo Nicole Castan, é mais um repartimento de domínio e funções.

A inclusão feminina no mercado de trabalho ocorre pelo caminho da filantropia, empregada pela mulher da classe dominante para obter um pretexto para se retirar das restrições domésticas. A relevância do lar e da vida em família nas classes médias, desde o século XVII, reforçam o conceito de que as funções caseiras e educativas diziam respeito ao universo feminino. Acompanhando esse mesmo incitamento, as mulheres das classes populares procuram diferentes alternativas, vindo a agir de modo coletivo, como demonstrado anteriormente.

A partir do momento em que a estrutura familiar se altera, por volta do século XVIII, devido ao avanço burguês e ao início do processo industrial, a mulher é levada a ficar restrita ao âmbito doméstico, diferentemente do período pré-industrial, no qual a casa abrigava tanto o ambiente familiar quanto o laboral, tendo a família, principalmente a esposa-mãe, de auxiliar o esposo-pai nos seus negócios, o que dava à mulher um contato maior com o mundo externo ao lar, visto que a atividade envolvia a todos. Isso podia ser visto tanto no ambiente urbano como no rural. A mulher podia gerenciar com o marido o empreendimento, ainda que com restrições. E, muitas vezes, tais empreendimentos eram originários dos valores correspondentes aos dotes matrimoniais, que acompanhavam a esposa.

Salvo algumas exceções, sendo integrante das classes superiores ou viúva, por exemplo, a mulher não participava efetivamente da economia externa, mercantil: não é vista no fechamento de contratos ocorrentes nas feiras; a manipulação do dinheiro e do crédito não faz parte da sua alçada, bem como a gerência do patrimônio. Até a solicitação de dinheiro ao marido era, para muitas esposas, motivo de acanhamento e vergonha.

Entretanto, se nos aprofundarmos no universo feminino, podemos observar uma circulação secreta e informal de valores monetários, bens materiais, mantimentos, roupas, serviços, diversas vezes efetuada sem que os homens tomassem conhecimento. Armava-se, então, uma rede solidária na qual ficava evidente a flexibilidade de manobras exercidas pelas mulheres, de modo que elas exerciam uma autonomia de ações sem, no entanto corromper as expectativas de posicionamento impostas pela sociedade. Casos como o de camponesas que, em plena madrugada, reúnem-se em grupos de três ou quatro componentes, e partem para o mercado próximo no intuito de comercializar ovos e/ou produtos de sua horta, tendo o produto desse comércio, como destino certo, seus cofres pessoais, segundo exemplifica Castan.

No tocante às mulheres do meio rural, aliás, podemos dizer que elas não passaram por tantas alterações nas suas relações laborais e administrativas, visto que o grosso das mudanças no campo socioeconômico se concentrava com mais intensidade nas áreas urbanas. As divisões funcionais do campesinato obedeciam aos costumes de há muito determinados, podendo-se, inclusive, afirmar com alguma firmeza de argumento, que as atividades entre homens e mulheres no campo se equivaliam, excetuando-se, evidentemente, aquelas do interior do ambiente do lar.
Os primeiros movimentos organizados de luta de emancipação feminina tiveram origem no século XVIII, tendo nos escritos da francesa Olympe de Gourges (1748-1792) e da inglesa Mary Woolstonecraft (1759-1797), entre outras, as bases para atender aos anseios das mulheres por uma participação mais incisiva na formação geral da sociedade na qual viviam, através da conquista da cidadania, o que incluía também o direito a usufruir das benesses advindas do trabalho.
Encontramos algumas ocupações exercidas pelas mulheres que apresentam peculiaridades interessantes, como por exemplo, as taberneiras que, em geral, são viúvas e herdam o empreendimento do marido; dependendo em que local as tabernas se situam, estas também podem ter a função de estalagens e, ainda não raro, de bordéis, nos quais as taberneiras poderiam obter um lucro considerável, a ponto de algumas delas acumular uma fortuna razoável com o mercado do sexo.

Outro caso típico de empreendimento é o caso das religiosas internas em conventos que, para colaborar com a manutenção de suas ordens, algumas destas investiam na atividade de costura e trabalhos manuais, bem como na produção de artigos culinários, do qual são famosos os doces oriundos dos conventos portugueses. Os conventos femininos também merecem destaque pelo fato de serem espaços nos quais as mulheres, ainda que estivessem submetidas à hierarquia da Igreja, dominada pelos homens, puderam construir uma estrutura própria de relações, sua própria administração, com práticas por elas determinadas, o que fez com que as religiosas experimentassem um nível de autonomia, enquanto grupo, de aspecto magnífico.

Podemos chegar ao máximo extremo da atuação feminina na Idade Moderna, se exemplificarmos o caso de duas mulheres que regeram suas nações, de modo tal que tiveram seus nomes inscritos juntos aos de outros grandes lideres, homens em sua maioria. A primeira é a rainha Elizabeth I (1533-1603), da Inglaterra, que governou de 1588, até à sua morte. Filha do rei Henrique VIII, seu reinado foi denominado Período Elizabetano ou Era Dourada. Seu governo foi marcado por medidas que elevaram o reino inglês a um patamar de potência, que seria uma marca profunda na história mundial durante séculos.

Entre os fatos que fizeram a história de seu reinado, está a retomada da adoção do anglicanismo como religião oficial, revogando a ação de sua irmã Maria I (Mary Stuart), que havia tornado o catolicismo a religião do Estado, promovendo, inclusive, perseguições aos protestantes. Outro evento que marcou o governo de Elizabeth I foi a supremacia política na Europa, obtida através de vitórias contra a Espanha e sua Invencível Armada, o que contribuiu sobremaneira para a expansão do que seria o Império Britânico.

A outra personagem monarca que obteve relevância no continente europeu durante a Era Moderna, foi Catarina II, da Rússia (1729-1796), cujo reinado foi caracterizado pelo chamado “despotismo esclarecido”, tendência que alguns monarcas europeus seguiram, que visava adequar as estruturas econômicas de seus países à burguesia, ora em ascensão, bem como mesclar idéias iluministas ao modo absolutista de governo.
Autocrata convicta, Catarina II, entretanto, estabeleceu laços de proteção com filósofos e artistas, tendo, inclusive, mantido correspondência com Voltaire.
Entre suas ações de governo, estão a construção de escolas, hospitais, reformas no sistema de saneamento básico em São Petersburgo, além de promover uma importante reforma administrativa. No campo político, sufocou, em 1744, a Revolta dos Cossacos, e empreendeu também a expansão do território russo, graças às conquistas frente à Turquia (1787) e à Polônia (1793 e 1795).

Enfim, no decorrer da Idade Moderna, a mulher sempre buscou administrar não só o seu lar, um negócio, ou até mesmo um país, mas, principalmente, os rumos do seu destino.

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http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruxas.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Anton_Praetorius.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruxas_de_Salem.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/feiticeiras2.htm.

http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/feiticeiras3.htm.

http://www.zenit.org/article-11419?l=portuguese.

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http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-BR&sl=en&u=http://en.wikipedia.org/wiki/Isobel_Gowdie&sa=X&oi=translate&resnum=1&ct=result&prev=/search%3Fq%3DIsobel%2BGowdie%26hl%3Dpt-BR%26client%3Dfirefox-a%26rls%3Dorg.mozilla:pt-BR:official%26hs%3Dqx.

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 30 set 2008 @ 8:42 AM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: IDADE MODERNA II
PROF. SEVERINO VICENTE DA SILVA
ALUNOS:
CRISTHIANE ANDRADE,
FERNANDO CARVALHO,
MARIA CRISTINA,
RAFAEL CRUZ,
TALITA ALBUQUERQUE.

O JOVEM NA IDADE MODERNA

OS TUTORES DA DESORDEM: RITUAIS DA CULTURA JUVENIL NNOS PRIMÓRIDIOS DA IDADE MODERNA

Nos séculos XVI e XVII, na Europa ainda saindo do medievo, ainda não se traçava uma demarcação nítida entre infância e juventude e ainda não se tinha uma noção precisa daquilo que hoje chamamos de adolescência, existia ainda uma compatibilidade na epistemologia das palavras “criança” e “adolescente”, por denominarem muitas vezes a mesma coisa, no fim a significação segundo o autor, “aqueles que não eram responsáveis por suas próprias ações”, o que abre uma nova discussão, por buscar a delimitação do fim da infância e juventude para a fase adulta, tal delineação era determinada e até hoje muitas vezes é, pelo advento do matrimônio, da saída da casa da família e da instituição da sua própria família, abarcando responsabilidades em relação a outras pessoas, porém, ao analisar-se a questão social, em estruturas camponesas, a questão de responsabilidade era definida muito cedo por conta da iniciação nos campos para auxiliar a família, e o casamento adiado por questões sociais, tal transição espaçada por questões de subsistência e meios de sustentabilidade.

Esta ausência de responsabilidades e, muitas vezes, apoio silencioso legitimador por parte dos adultos originava uma cadeia de eventos provocados pelos jovens, “anônimos regentes da noite”; aqui já não se encontra diferenciação entre as práticas dos jovens seja no campo ou em núcleos urbanos, os mesmos agiam livres das fundamentações adultas, seus atos revelavam reivindicações “coletivas” que serviam para proteger os mesmos através de suas práticas que procuravam abalar os sistemas que regiam o certo e o errado na sociedade em que viviam.

Os jovens reinavam nas noites promovendo arruaças, gritarias e estragos, tal ritualização de atos acabava por se caracterizar como uma afirmação da masculinidade e da coragem. Arrastando pelas ruas o que estivesse pelo caminho, invadindo casas e campos de colheita sejam de uvas ou de cerejas e outros itens mais; nossa pesquisa nos indica que é visível a forte oposição à figura religiosa local, por conta da imagem reprovadora e moralizadora que o mesmo passava, servindo assim tal figura para ataques noturnos aos bens do mesmo, além de ataques verbais sobre sua moral e costumes; enfrentavam também, aqueles que por medidas de segurança foram colocados como meio de tentar controlar os jovens e manter a paz noturna, a ponto de o governo permitir o uso da violência para com os jovens.

Porém, na segunda metade do século XV medidas foram tomadas para controlar as ações juvenis que desafiavam as relações de poder impostas pelos adultos, através dos “Decretos Comunais”, criaram-se penas como trancar em torres e multas, para aqueles que provocassem desordens; locais conhecidos como “berlindas”, “casa dos loucos” eram construídos para alocar tais jovens e utilizá-los como exemplo para outros mais; as ruas receberam lampiões para uma maior iluminação. Muitas dessas medidas serviram para incentivar e provocar maior audácia em burlar e atacar os costumes e regulamentos da sociedade. Ainda como parte de tais intervenções, foi instituído o caráter de “furto” às tradicionais brincadeiras em atacar às casas; e isso dava maior amplitude na hora de julgar e aplicar pena aos jovens, colocados como “garantia ‘orgânica’ da transformação social”. Porém tais penalidades eram brandas, se comparadas com as dos adultos, as próprias práticas juvenis serviam de estrutura para sua proteção dificultando o entendimento de até onde o ato juvenil era de desaforado ou reprovador.

Estudiosos levantam a questão da existência da juventude e da adolescência no começo da era moderna e a forma como esta permeia a consciência de si que teriam os jovens, passando pela dimensão cultural de sua auto-definição. A distinção entre infância e juventude era feita pelos próprios grupos juvenis que, em defesa de seus privilégios específicos perante os jovens do início da Idade Moderna tinham sua força social através do princípio em que as pessoas permanecem unidas porque já se conhecem há muito tempo. Mecanismo social simples, pois eles se encontravam regularmente à noite na praça, em pequenos grupos ligados por amizade, vizinhança ou parentesco. As conversas giravam, sobretudo, em torno das moças e de como atrair a sua atenção. O ponto nodal da cultura dos grupos jovens eram essas práticas para estabelecer contatos com o sexo oposto, visando à escolha matrimonial. Estas formas organizadas de se cortejar constituíam um controle sobre o “mercado matrimonial”.

A atitude de pretendentes estranhos que tentavam cortejar as moças da comunidade, era tida como “invasão”. Os jovens locais os rechaçavam e, às vezes ocorriam lutas brutais. Os jovens solteiros assumiam a função patriarcal de guardiões das moças núbeis da comunidade. Consideravam-se os tutores da moral e da honra das moças que estavam em idade de casar da própria aldeia. Era difundido o costume de indicar pessoalmente para cada moça um jovem, que durante algum tempo seria o guardião da sua honra. Um tipo de “teste de casamento temporário” para os futuros papéis matrimoniais.

Aos jovens era reservada a função de preparar o carnaval e os costumes carnavalescos, onde eles eram considerados os verdadeiros protagonistas. Essa dimensão cultural dava um perfil de grupo à cultura juvenil masculina. A função social dos jovens enquanto detentores de costumes típicos do “mundo às avessas” era, segundo a concepção adulta, que nada mais natural que aqueles em fase de transição administrassem os jocosos rituais de transformação e renovação do carnaval.
Nas cidades suíças havia numerosas organizações juvenis associadas ao carnaval, que por seus nomes criativos provocavam por vezes problemas de interpretação aos historiadores. Nomes divertidos representavam a auto-ironia, como a “Corporação da Porca” e a “Sociedade do Pontíssimo, Grandioso e Insuperável Conselho”. Fazia-se paródia da ordem constituída e de reivindicações do poder. Demonstrações essas que a juventude assumiria no futuro.

O papel dos jovens como detentores dos costumes carnavalesco assumiu relevância social. Eram atividades exclusivas deles as preparações de festas de passagem. Aos jovens eram também concedidas certas funções de manutenção da ordem, de censura moral, que ampliava a atividade de controle das moças solteiras, e também exerciam sobre os adultos infratores da moralidade. O grupo de jovens considerava como infração aqueles que abandonavam o teto conjugal por certo período, condenando-os e pretendendo como reparação certa quantidade de vinho que era bebida pelo grupo. Caso não pagasse o vinho a transgressão seria dada ao conhecimento de todos da comunidade. Eles exerciam sua censura controlando de maneira geral a moral e a ordem da vida cotidiana.

Nossas leituras indicam que as regulamentações meticulosas entre comportamento “justo” e “errado”, criadas ao longo dos séculos XV e XVI. Constituem a formação de um o projeto burguês de “bom comportamento”, e tiveram sua origem numa das funções mais simples dos grupos juvenis, o controle da sexualidade. O campo de ação dos jovens era atravessado por verdadeiras contradições, e esse caráter paradoxal reflete-se nas atitudes em que os jovens solteiros resguardam a virgindade de “suas” moças, mas o fazem para que elas a entreguem só a eles no fim.
Nos seus júris simulados os jovens Imitavam do modo mais próximo possível os procedimentos judiciários oficiais. As obscenidades contidas em protocolos como nos do “Tribunal da Porca” demonstravam como o espírito carnavalesco das organizações juvenis levava ao absurdo os rituais do poder dominante.
Sobre a juventude feminina, não se conhece formas de organização como os rapazes.

Algumas fontes documentais isoladas mostram ações de grupo de jovens solteiras. Porém, existiu sempre uma forte reação a inversão dos privilégios do grupo juvenil masculino. Numa política cada vez mais severa de separação dos sexos em lugares públicos e o delineava-se com mais força que o lugar da mulher era em casa e não em lugares públicos.

Nesta política de privilegiar um âmbito exclusivamente doméstico, observa-se o propósito de encerrar mulheres e moças, numa função meramente reprodutora e sexual, com papel de “donas de casa” e de “mães”, tendo pouco espaço para a socialização externa. Nesse contexto social público, o comportamento dos jovens demonstra o privilégio do sistema patriarcal.

Na Itália podemos observar que a Igreja da Contra-Reforma se dedicou a um projeto de disciplina, que, sob a bandeira da “moralidade”, tentou disciplinar os súditos aos seus ideais cristãos. No entanto, esse projeto sofreu resistência dos jovens, que chegavam a brincar e protestar contra a postura da Igreja, como o fato da obrigatoriedade de freqüência às funções religiosas.

A cultura popular, como os relacionamentos entre jovens, que faziam parte do rito de passagem para a vida adulta, era duramente criticada pela Igreja reformada. Esta utilizava de abstratas argumentações morais para criticar e reprimir alguns costumes, como as danças e o carnaval, caracterizando tais costumes como sendo “escandalosos”. O autor entende que a Igreja reformada estava incapacitada de compreender a lógica social e a cultura popular, vendo apenas distúrbios e imoralidade em atos como brincadeiras e namoros entre os jovens.

Nesse choque entre moralidade cristã e cultura popular, foi inevitável o conflito no início da Idade Moderna entre eclesiásticos, extremamente rigorosos acerca dos valores cristãos, e os jovens, com suas necessidades de auto-afirmação e as vontades pela oposição, típicas da juventude. Com a vontade dos eclesiásticos de “reformar” os costumes, tentando reprimir atos considerados “heréticos” pela Igreja, os jovens atacavam o “campo ético” da Igreja, tornando-se uma espécie de “braço armado” em defesa dos direitos e costumes de suas comunidades, fazendo, como maneira de protestar, algum tipo de “bagunça”, como os párocos costumavam dizer de suas ações. Com esses atos, os jovens buscavam demonstrar o descontentamento da comunidade, numa tentativa de aconselhar o pároco a não ir de encontro aos costumes da aldeia.

Podemos analisar também a relação entre os jovens e os adultos. O que se observa é que os jovens não eram reprimidos por suas atitudes. Existia certo elo entre jovens e velhos, tendo os jovens certa liberdade cedida pelos velhos, num tipo de preparação para a vida adulta. Não se tratava de um complô, mas uma permissão aos jovens de agir. Podemos observar essa “preparação” em alguns acontecimentos, como a participação da juventude de certas comunidades em momentos importantes, como as assembléias eleitorais. Essa certa liberdade cedida pelos adultos pode ser mais bem compreendida se analisarmos os aspectos culturais no sistema da sociedade rural da época.

É fácil se observar que, no início da era moderna, adotava-se o partido de deixar que os jovens se virassem sozinhos em seus negócios. Além de criar espaços específicos para os jovens, essa liberdade aliviava as responsabilidades dos adultos, que se dedicavam aos seus negócios, como os necessários contatos sociais. Os jovens, por si, admiravam os adultos e suas atividades sem que fosse necessário os ensinar os valores da sociedade rural, tendo os jovens a imagem do que queriam ser na fase adulta.

Apesar disso, preocupante eram certas atitudes violentas dos jovens, nas arruaças por eles cometidas. Podemos entender isso como a maneira que os jovens possuíam de se mostrarem como seres existentes. Gritavam, agrediam e usavam do próprio corpo como maneira de declarar a sua presença. Os rapazes solteiros utilizavam desses meios para se mostrarem para as moças, ou pra impor respeito entre os outros rapazes, que eram seus rivais em potencial. É possível comparar essa situação com a dos rapazes hoje em dia, que saem cantando pneu com seus carros em frente a discotecas com o intuito de impressionar. Apesar da tentativa das autoridades de controlar essas arruaças e gritos noturnos, a cultura e valor social desses “ritos de passagem” dos jovens não permitiu que a situação mudasse. Apenas o Absolutismo e algumas mudanças rígidas na maneira de tratar esses jovens fizeram com que a situação apaziguasse.

Podemos dizer que, apenas com a mudança cultural, com o mundo do consumismo do século XX, além da defesa dos interesses burgueses que fez com que as instituições tivessem um apoio maior, a juventude deixou de ser um ponto de inquietação e construiu-se então uma visão positiva dos jovens. O jovem deixou de ser visto como um “quase adulto” que tinha que caminhar sobre suas próprias pernas, e o sonho de “eterna juventude” se difundiu. Ocorreu uma inversão: o jovem começou a ser visto como um ser perto da infância, e sendo doutrinados a se aprisionar com a nova cultura industrial e missionária do capitalismo. A troca de gerações deixou de ser uma atitude de confiança na sociedade, orientada para o futuro.

JOVENS NOBRES NA ERA DO ABSOLUTISMO: AUTORITARISMO PATERNO E LIBERDADE

A partir do século XVI houve uma maior difusão da instituição da primogenitura, e ela era usada de forma mais firme que em outros períodos. Havia variações em cada Estado, mas se tornou comum nesse período que os pais passassem todo o seu patrimônio, bem como o seu nome e o direito de perpetuá-lo a um único herdeiro, o filho mais velho. Quanto aos filhos mais moços, cabiam-lhes a vida religiosa, o exército ou, em poucos casos, um casamento menos vantajoso.

Porém, essa questão da primogenitura variava de acordo com o sexo dos filhos. Se fossem homens, teriam essa oportunidade de gozar dos bens paternos. No entanto, se fossem mulheres, as primogênitas quase sempre estavam destinadas ao claustro. Isso ocorria por conta dos valores dos dotes de casamento, que despendiam quantias bastante altas (que às vezes chegavam a ser cerca de 5 anos de renda familiar). Às filhas mais novas era destinado o casamento em virtude de haver um maior tempo para que essa quantia fosse guardada.

Com relação à liberdade de escolha, alguns teóricos vão se posicionar a respeito, bem como os que estavam ligados à área religiosa. A educação deveria ser rígida, com pouca afetuosidade, porém, deveria ser respeitada a “vocação” de cada um. Baseados no Quarto Mandamento, os pais deviam obediência aos pais. Contudo, cabia aos pais observar também a “natureza” de cada filho, não o condenando a viver uma vida de dissabores.

No que diz respeito à educação dos rapazes, pode-se dizer que existia um padrão até pelo menos a adolescência, não importando a quais carreiras profissionais as crianças estavam mais ou menos predestinadas: todos, primogênitos ou caçulas, meninos ou meninas, eram educados da mesma forma.
Com relação aos valores morais cultivados e incutidos nos jovens, há uma grande diferença comportamental que distingue as crianças dos adolescentes, e a passagem de uma fase para outra não pode ser outra coisa senão conflituosa. Graça, vivacidade, exuberância e vitalidade são virtudes moralmente aceitas numa criança, ao passo que a obediência e principalmente a modéstia e a humildade são as virtudes que guiarão o comportamento dos jovens rumo à fase adulta.

Sem dúvida, o fato de a península itálica abrigar a sede da Igreja Católica – e, por conseguinte, a presença dessa instituição ser especialmente forte nessa região – contribuiu consideravelmente para a difusão desses valores (humildade, modéstia, retidão, recato), uma vez que as famílias italianas estavam sempre repletas de membros do clero. Mas esses valores morais não têm só raízes eclesiásticas. Inúmeros tratados de pedagogia, escritos por pensadores como Erasmo de Rotterdam, propalavam a idéia de que a modéstia e a humildade serviam como um antídoto a um dos mais censuráveis defeitos da época: o orgulho, característica que faz parte da natureza dos adolescentes.

Mas é claro que, além das questões de ordem moral e religiosa, os interesses sociais e familiares também estavam em jogo. Os pais acreditavam que através dessas virtudes, os filhos galgariam importantes lugares-sociais, obtendo êxito nas carreiras escolhidas. Existia também o temor de que os jovens, moralmente frágeis, inseguros e altamente influenciáveis, fossem desvirtuados por más companhias, maculando a honra da família. Por isso era recomendável que eles só andassem acompanhados por um preceptor ou por um membro adulto da família, principalmente quando em público.

Essa fragilidade moral dos jovens foi uma das razões pelas quais se difundiu pela Europa o hábito de mandar os rapazes para colégios. Essa instituição era vista pelos pais como uma garantia de uma boa disciplina e educação, além de encaminhamento profissional; servia tanto aos primogênitos, futuros grandes proprietários e chefes de família, tanto aos caçulas, que seguiriam na magistratura ou no clero, tendo a educação formal desses últimos um enfoque ainda maior. Os jovens poderiam ser enviados para os colégios propriamente dito, de onde geralmente sairiam formados em ciências jurídicas; poderiam ir para a escola de pajens, onde ingressariam na vida militar, ou ainda enviados para convetos-seminários, iniciando carreira no clero.
A decisão das carreiras profissionais dos jovens ocorria por volta de doze ou treze anos. Eram fortemente influenciadas pelos pais, mas não de forma totalmente arbitrária. As decisões eram baseadas ao menos em dois fatores: a vocação, necessária para o êxito profissional, e os interesses familiares, a partir dos quais os pais persuadiam os filhos. Portanto, pode-se dizer que o livre-arbítrio do jovem era quase sempre respeitado, mas os pais tratavam de encaminhar seus filhos desde cedo para os caminhos que mais convinham às famílias.

Da mesma maneira os pais se posicionavam em relação ao casamento dos filhos. Ao contrário do que geralmente se imagina, os casamentos não eram de todo forçado: também as afeições entre os noivos eram relevadas. Os pais levavam em consideração a felicidade do filho, e talvez por isso mesmo se imbuíam do compromisso de arranjar-lhe uma boa parceira, pois, segundo o pensamento corrente da época, abandonar criaturas tão moralmente frágeis e inseguras à própria sorte seria desumano. É claro que essa escolha estava intimamente ligada aos interesses da família, mas não era totalmente arbitrária.

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Last Edit: 30 set 2008 @ 08 42 AM

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 22 set 2008 @ 8:15 AM 
Universidade Federal de Pernambuco
Centro de filosofia e ciências humanas
Departamento de História
Moderna II – Professor: Severino Vicente da Silva

O SER SOLDADO NA IDADE MODERNA

Equipe: Alex Moura, Diego Carvalho, Diogo Cordeiro, Mozart Anderson

1. Introdução


Inicialmente o tema de nosso trabalho foi, “o ser soldado na idade moderna”, mas resolvemos abranger mais o campo do estudo para a nossa apresentação. Até porque as fontes que dispomos não ajudam numa pesquisa tão especifica. Então a partir disso, resolvemos falar não só do “ser” soldado, mas dos exércitos formados por esses homens, sejam eles mercenários, sejam eles nacionais. Falar de como esses corpos militares influenciaram na formação do novo continente europeu. Agora formado por Estados nacionais, onde os exércitos tiveram papel fundamental. Resolvemos analisar isso de um pouco antes, de forma a tentar esclarecer mais como foram surgir tais tropas, a relação entre o príncipe e os seus soldados, inicialmente. Para isso vou falar um pouco dos estados principescos e como os exércitos se encaixavam nesse contexto.
Phillip Bobbit define quatro características dessas cidades-reino italianas que são o claro exemplo do estado principesco, usando como exemplo a cidade de Florença. A primeira dessas marcas segundo ele, é que elas eram definidas por meios geográficos, o que fazia com que tivessem uma maior consolidação, tanto cultural, quanto política. Outro fator muito importante é a grande receita dessas cidades, o texto mostra que Florença tinha um ganho anual maior do que o do rei da Inglaterra, o que dava a essa república condições de sustentar a sua burocracia e seus gastos, inclusive os com os militares. Terceiro ponto, é que essa riqueza era objeto de cobiça alheia, e para proteger-se disso que se tornava necessária a proteção armada do seu reino, já que, geralmente, as cidades italianas tinham populações muito reduzidas para que pudessem criar milícias eficazes, elas contratavam exércitos mercenários. Por fim, as novas tecnologias, como canhões muito mais móveis, por exemplo, fez com que essas cidades passassem à fase seguinte. O Estado teve que mudar para dar respostas, não só as inovações tecnológicas, que não os deixavam mais seguros atrás de suas muralhas, mas também como forma de garantir a legitimidade de um líder em uma forma de governo recém criada, dar a esse representante a proteção que ele necessitava.
O estado nesse período vai tomando um caráter jurídico, que antes não possuía. Vai ganhando seus traços característicos, personalidade, legitimidade, continuidade, integridade e soberania. Na península italiana, a intrincada questão de alianças tornava difícil confiar em mercenários que pertencem à outra região que não a sua. Nesse momento que aparece a figura do Condottiere que vou falarei mais a frente. O que importa agora é saber que com a aquisição desses guerreiros se tornou cada vez mais necessário à formação de uma burocracia para financiar os Condottes e também adquirir artilharia. Foi nesse contexto que a figura dos mercenários ganhou força, mas se engana que pensa que eles eram só condottieres italianos, havia na própria Itália mercenários de todas as partes do mundo. Eram esses grupos de homens que lutavam em busca do ganho financeiro, sem nenhum envolvimento pessoal com a batalha que travavam.

2. As tropas Mercenárias
Os soldados mercenários eram “Soldados que, mediante pagamento em dinheiro, luta por uma causa que não lhe concerne”. Isso é o que está escrito no livro de Anthony Mockle, História dos Mercenários (1969). E parece ser bem adequada para falar desses homens que viviam uma vida tão conflituosa, em busca de ganho financeiro. A seguir vai um breve de três importantes grupos mercenários desse momento que estamos estudando.

Landsknechts:
A palavra Landsknecht literalmente significa “o servo da terra”. Provenientes da Suábia e da Alsácia principalmente, eles formaram a poderosa infantaria de mercenários de origem alemã, tão conhecida por volta de 1500.
Convocados pela primeira vez por Maximiliano I, para lutar na Guerra da Suábia, sob o comando de Georg Von Frundsberg, que é considerado o pai dos Landsknechts. Lutaram também nas repúblicas italianas e com a ajuda de Maximiliano, Frundsberg fundou o seu corpo de infantaria altamente treinado. Ganhou visão com seus homens ao defenderem Verona em uma guerra contra a cidade de Veneza, quando venceram os franceses. Geralmente suas tropas lutavam junto ao corpo do exercito local, eram contratados, principalmente pelas republicas italianas.
Em campo de batalha tinham comportamentos variáveis, mas ficaram conhecidos não só por sua bravura e organização em combate, mas pelo seu característico uniforme, que inspirado nos uniformes suíços, com bem mais cores. Seu regimento era formado em média por 10.000 homens, em um máximo registrado de 17.000, divididos em regimentos de 4.000 homens. O seu armamento tradicional era o Pique, uma lança bastante avantajada, muito comum na época e que era usada pela maioria dos homens. E também era muito comum o uso de uma espada longa de duas mãos.


Reislaüfer (Guarda Suíça)

Antes de fazer a guarda do vaticano, esses homens formavam um dos mais expressivos grupos de mercenários da Europa. Eram comandados por Kaspar Von Silenen. Foram os preferidos em fins do período medieval, na Suíça além de enormes, os contingentes de mercenários eram facilmente contratados, tinham ainda a vantagem de que na suíça, as milícias locais eram mantidas regularmente e assim eles dispunham sempre de armamentos e treinamento. Assim como os Landsknechts, lutaram nas guerras das republicas italianas, famosos por seus ataques em massa com seus piques e alabardas, suas principais armas, logo ficaram conhecidos em meio aos reinos europeus.
Deles é que se originou a famosa Guarda Suíça. Foi em um ataque do rei habsburgo, Carlos V ao Vaticano, no dia 6 de maio de 1527, dia em que até hoje se comemora o aniversário da guarda e o teste de admissão dos novos membros, que a Guarda provou o seu valor. A maioria dos seus homens morreu no ataque, mas os poucos que sobraram protegeram a vida do Papa Clemente VII. A partir desse dia os antigos mercenários suíços, ficaram responsáveis por uma das mais importantes missões de proteção do mundo. Hoje são senão a mais, uma das guardas mais respeitadas do mundo, não só por seu status mais devido também a seu preparo técnico e prático.

Condottiere

Uma espécie de senhores feudais muito comuns nas províncias italianas, que ao invés de deterem terras, controlavam milícias e vendiam suas forças de batalha aos príncipes italianos. Também foram bastante importantes nas batalhas das províncias italianas. Segundo Christophe Coureau, o nome condottiere vem do termo condottas (contratos). Que são vínculos assinados com o príncipe ou o principado, que definem o tipo de serviço a ser prestado por aquelas milícias.
Em Florença, por exemplo, existiam três tipos de condottas: “A condotta a solda disteso, pela qual o soldado deve obedecer às ordens do general local; a condotta a mezzo solda, segundo a qual o condottiere é livre para invadir, quando e como desejar, os territórios do inimigo; e, por fim, a condotta in aspetto (espera), que corresponde aos tempos de paz.” Esses condottieres evoluíram tanto, que alguns deles como Francesco Sforza de Milão, que casou com uma filha ilegítima de um príncipe que não tinha sucessores, buscaram legitimar-se no poder e conquistar para si tal província. Muitos outros buscaram também essa legitimidade, que era a única coisa que lhes faltavam para que pudessem assumir o poder em diversas províncias da Itália.


Maquiavel X Mercenários

Maquiavel diz logo de inicio do capitulo sobre os mercenários: “Os principais fundamentos de um estado, sejam ele hereditários ou novos, ou mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não é possível haver boas leis onde não há boas armas, e onde existem boas armas é conveniente que existam boas leis, falarei apenas das armas.” Desse pensamento inicial, quisemos extrair uma das bases desse trabalho. Tentamos nele mostrar como os exércitos, sejam eles mercenários ou não, foram importantes para a conservação e até mesmo a criação de alguns estados nacionais. Mas nessa parte inicial, tentaremos mostrar como o pensamento de Maquiavel é totalmente contra o uso de força mercenárias.
O autor do príncipe subdivide as tropas militares em quatro grupos: Mercenários, Mistos, Particulares e Auxiliares. As mistas são formadas em parte de mercenários e em parte particulares. Mas para ele são as mercenárias e as auxiliares, que são tropas enviadas por um outro reino para ajudar na defesa, que são demasiadamente perigosas para o príncipe que as contrata. Em suas palavras: “As tropas mercenárias e auxiliares, são inúteis e perigosas. Se alguém mantiver seu estado apoiado nessas tropas. Nunca haverá de estar seguro…”. Esse trecho mostra sua total desconfiança nesses homens que luta somente por dinheiro.
Em seu pensamento Maquiavel repudia os mercenários, por vários motivos, mas ele deixa claro, o fato de que a falta de ligação desses homens com o Estado Principesco é perigosíssimo para a soberania dos regentes. Nas palavras do pensador Florentino: “O Estado é espoliado por elas (tropas mercenárias) na paz, na guerra, pelos inimigos. O motivo disso é que não nutrem nenhum amor nem força que as conserve em campo, apenas um pequeno soldo, e ele não é suficiente para que desejem dar a vida por ti.”
Isso se demonstra em vários casos em que os mercenários se vendem pra estrangeiros, mudando totalmente o rumo de um combate. O próprio Maquiavel dá o exemplo de Carlos, rei de França, que conquista a Itália com grande facilidade, apoiado por tropas que antes lutavam pelos príncipes, em dado momento do livro, ele chega até a dizer que: “a presente ruína da Itália não tem como causa outra coisa senão o fato de, durante muitos anos, estarem apoiada em forças mercenárias”.
Fica claro que Maquiavel era totalmente contra os serviços dos mercenários. Ele mesmo presenciou momentos em que esses soldados se voltaram contra o seu príncipe ou o abandonaram. Ele acreditava que uma milícia local seria muito mais eficiente. Prova disso é o estatuto que ele mesmo cria em 1505, citado no texto de Bobbit, determinando a forma de organização de uma milícia florentina. Para ele a justiça e as armas eram fundamentais para o estado, então o príncipe tinha de ter plena poder e confiança sobre seus comandados, além de um corpo de funcionários públicos, que desse a ele maior controle sobre esse estado.

3. A formação do exército moderno

Na Europa moderna houve um grande processo de metamorfose onde a ascensão e a que das monarquias influenciaram na formação do Estado. Este Estado Moderno Absoluto presenciou fases, como: principesco, régio e territorial. Cada qual com suas especificidades, o período régio destacou – se pela transformação do exército e influências de novas técnicas militares, como diria Michael Roberts, especialista na formação do exército moderno. “Houve uma revolução militar”.
Estudando as organizações militares percebemos que há vários conceitos e generalidades, como afirma John Keegan em seu livro Uma História da Guerra, onde há seis tipos de organizações militares ao longo da história: o guerreiro, o mercenário, o escravo, a tropa regular, a milícia e o recruta. O que vamos estudar nessa parte são as tropas de linha, também chamada regular formada inicialmente por mercenários e logo depois por soldados das suas nações. Essas tropas regulares exerciam tarefas permanentes e dependentes em princípio de um soberano, logo depois assumido pelo Estado Burocrático.
O sistema de manutenção das tropas era por conta do erário, diferentemente dos exércitos independentes e formados totalmente por mercenários, seja em tempo de crise ou paz, essas organizações burocráticas reforçam o poder monárquico assim sendo militarizam a nobreza, e adotam um recrutamento que contribui na formação da sociedade. Muito acima da lealdade e da técnica dos cavaleiros com sua vassalagem.
“A razão decisiva para o progresso da organização burocrática foi sempre a superioridade puramente técnica sobre qualquer outra forma de organização”, análise feita por Max Weber. Antes de tudo essas tropas eram subordinadas ao Estado mostrando assim toda submissão possível ora no papel, ora nas atitudes. Novas construções mentais apareceram na Europa moderna, criadas acima de tudo pelos Estados Absolutistas e seus filósofos, assim a nova definição de militar sustenta-se em três pilares: ordem, disciplina e obediência, tendo na sua labuta manter a ordem no estado, refletindo assim na formação de instituições sociais, como a família.
Este estado centralizado tornou-se o senhor bélico a partir da ordem política e social criando assim a disciplina como forma de controle e de dominação, pois toda estrutura estatal estava reformulada devido o fim da vassalagem. Os estados nacionais consolidam a formação de exércitos burocráticos, afirma Weber 1. A cavalaria passa a ter valor secundário, ela que um dia representou status social e sentimento de nobreza, perde espaço para a infantaria2 .
Os soldados passam a ser pagos pelo soldo, podendo voltar para casa a cada 40 dias, apesar de mínimo e muitas vezes não são pagos, a guerra continua, como pilhagem, saques, perdão de sentença para condenados e propagandas nacionalistas como na guerra de cem anos. O exercito do séc. XVII entra em guerra com a infantaria, artilharia, a cavalaria os piqueiros, os lanceiros, os arqueiros e os besteiros. Sendo que os comandantes de tropa buscavam através de estratégia utilizar a proporção certa de todas as especialidades. A regra certa. (SILVA, 2007, pp.31)

A disciplina como forma de poder

Adestramento é a inovação tática? Bem, para a forma em que o adestramento era feito no exército da era moderna, sim. Mas treinar para lutar já era feito pelas sociedades anteriores, os homens de guerra como: Samurais, Vikings, tupinambás, etc.
As táticas são técnicas de guerra utilizadas para prever e antecipar batalhas. “O adestramento é assim o instrumento de controle que os estados modernos, já unificados, usam sobre suas tropas, já agora regulares. Ele aparece nas unidades militares criadas no século XVII. “Unidades essas que se caracterizam por suas profissionaliza ao contraio de seus predecessores medievais” (SILVA, 2007,pp.32)
O individualismo do guerreiro deixa de existir, o soldado pensa em conjunto, formando assim as tropas coesas conceituadas como unidade por Foucault, enquanto Weber denomina de massa essa consistência massificada da formação de soldados para guerra, são palavras diferentes que possuem os mesmos significados.
Vários instrumentos eram utilizados para controlar a cadência da marcha, por exemplo, o tambor no pé direito, o apito para executar ordens, os passos eram medidos para uniformidade de movimento até conseguir atitudes simultâneas com eficiência. Sendo assim o treinamento com disciplina foi essencial para formar as tropas. Enquanto para Foucault a disciplina é a arte de dispor em fila, organizando homens, enquanto para Weber foi, mas importante que a própria pólvora, pois só assim esse instrumento de controle foi eficiente, as atitudes não eram feitas apenas por obrigação.
Essa época nasceu também à necessidade dos quartéis, de acordo Kalina Vanderlei objetivo de criar espaço onde as novas tropas burocráticas possam ser tanto alojadas quando vigiadas, e mantidas sob estrito controle. Como deveria ser mantido um exército após as batalhas ou como preparar-se antes das mesmas, sem ameaçar sua sociedade e sem perder o controle, só com disciplina e violência para obter um efetivo domínio, ter medo do inimigo como também dos oficiais que comandam os quartéis, que seja obediente antes que útil, uma estrita relação de poder (FOUCAULT, 1997).

“As bases econômicas em que alicerçam as organizações não é o único agente que determinou o desenvolvimento da disciplina, embora sua importância tenha sido considerável. A disciplina dos exércitos bem treinados e o papel, maior ou menor, que tiveram na guerra dependiam, ainda mais e com efeitos duradouros, da ordem política e social. Essa influência, porém, era ambígua.” (WEBER, 1959)

Os baluartes do exército moderno

“Pode-se defender que a guerra era possivelmente o mais racional e rápido modo de expansão de extração de excedentes ao alcance de qualquer classe dominante sob o feudalismo”, é o que pensa Perry Anderson nas linhagens do Estado Absolutistas.
Basta pensar em disputar sem que haja sangue violência que assim mesmo é considerado Guerra. Thomas Hobbes, na obra Leviatã, assim disse:”Guerra não é apenas luta,…, basta o desejo de rivalizar através de batalhas é suficiente…”

a) Nesse mundo disputado nasce o holandês Maurício de Orange-Nassau em 1567, filho de Guilherme, o Taciturno. Sucedeu o irmão Felipe Guilherme em 1618. Estudioso em técnicas de guerra, ele formou o primeiro exército profissional, ainda boa parte de mercenários, com recursos da expansão marítima, mas adotou a disciplina tática para rivalizar com vitórias em cima dos tercios espanhóis, os quais detinham o maior poder de luta, com seus prototanques, inspirados nos gregos, formação massificada retangular de piques, porém lentos e formação de blocos. Nassau buscou nos romanos, utilizou fileiras e rapidez em municiamento, deixando que os piquetes protejam os mosquetes. Saraivadas sucessivas e ininterruptas sufocava o inimigo, coreografia ágil, ocupando grandes espaços devido à extensão das tropas lateralmente e pouca profundidade. (BOBBIT, 2005, pp.92).

b) O dinâmico e impetuoso Gustavo Adolfo, o Leão do Norte, Rei da Suécia, filho de Carlos IX, nasceu em 1594-1632. Subiu ao trono com 16 anos, lutou ao lado dos protestantes. Aprimorou a técnica de Nassau, admirado pelo seu pai, as saraivadas tornou-se cerradas em fileira simultâneas, concentrou o fogo em três tiros por vez. Novo alinhamento e contramarcha com revezamento na Guerra Linear.
Só pode ter um Estado régio centralizado devido ao seu diplomata Axel Oxestierna, dando um novo formato constitucional, reformou o tesouro, fisco, educação e justiça. Tendo apoio da Dieta, do Conselho, da Administração Provinciana e a Igreja. Ela própria participava na elaboração dos Decretos como os Artigos de Guerra em 1621. Um das mais importantes revoluções sociais no exército foi o sistema de recrutamento, todo cidadão sueco estaria preparado para a guerra, superando o número de mercenários, assim nascendo um sentimento de nação com seu Estatuto do Pessoal Militar em 1620.

c) Wallenstein foi um grande general imperial, príncipe de Sagan, lutou pela Liga Católica, financiava, suprimia grandes forças chegando a 100 mil homens, se tornou credor do imperador, começou agir independentemente gerando insegurança no Estado Régio e na Liga, sendo destituído e assassinado por oficiais de confiança do Imperador.
“A tática de Gustavo atendia a uma estratégia de aniquilação; representava, pois, uma profunda mudança de pensamento em relação à estratégia de desgaste de Wallenstein ou a tática de cerco de Maurício” (BOBBIT, 2005, pp.106).

Chegamos à conclusão no fim desse período que a disciplina foi mais importante que a pólvora, pois soube utilizar de maneira eficiente e determinante. E que as mudanças táticas introduzidas pelos baluartes, não só mudou as estratégias da guerra como também o modo de vida da sociedade, uma verdadeira transformação social, finalizando com o pensamento de Michael Roberts assim como abrimos nossa parte.

Guerra dos 30 anos

Foi por um lado uma guerra civil alemã entre regiões que queriam autonomia diante do poder imperial e outras que queriam manter o império. Por outro lado foi internacional, pois os defensores católicos do Sacro Império Romano Germânico em aliança com os espanhóis, lutaram contra os protestantes de diversas regiões da Europa que tinham o apoio da franca católica.

O bloco dos Habsburgos

· Áustria e Hungria – do rei Fernando II
· Alemanha (especialmente a Bavária) do rei Maximiliano I
· Espanha – Felipe III, com apoio do papa e da polônia
· Durante algum tempo recebeu apoio dos luteranos (saxônia) e dos calvinistas (Brandemburgo)

Bloco protestante
· Protestantes da boemia, Palatinato (Frederico V), Holanda, Suécia, Dinamarca e Inglaterra
· Franca católica na fase inicial de forma indireta e na segunda metade se junta à Suécia e define o destino da guerra

A Alemanha da época

No século XVII a Alemanha era uma complexa região formada por mais de mil unidades políticas e não possuía fronteiras definidas. Matinha uma estrutura política feudal. Entre essas regiões erguiam-se diversas barreiras para cobrança de pedágio e postos de aduana. Antes do inicio da Guerra dos 30 anos existiam dois lados em briga constante pelo poder, de um lado a liga católica representada por Maximiliano da Bavária e de outro os protestantes liderados por Frederico V, do Palatinado, que defendia os cultos reformados.

Espanha

Era a Herdeira do maior império do mundo, abrangendo áreas em todos continentes do México a filipinas. A península empírica havia sido praticamente imune as transformações impostas pelo renascimento e pelos avanços da ilustração, e careceu de uma revolução burguesa democrática. Com a renuncia de Carlos V em 1555 o império foi dividido em dois ramos dos Habsburgos
1. O império filipino que abrangia Espanha, Portugal, parte da Itália, flandres e as diversas colônias ultramarinas
2. E o rei da Áustria que dominava o sacro império

Holanda

Já estava na luta pela sua independência, contra a Espanha desde 1568. Na guerra dos 30 anos interferiu fornecendo tropas bem treinadas, formalizadas pela academia militar, de Mauricio de Nassau e dando apoio financeiro, aos países protestantes. Com o fim da guerra estava com a maior frota naval militar e comercial, com o controle de parte das colônias asiáticas e americanas e com um imenso desenvolvimento urbano e cultural

França

Entrou na guerra na época de Luis XIII e seu chanceler Richelieu, que tinha habilidade estratégica suficiente para impedir que espanhóis e austríacos, em seus avanços sobre a Europa central. Richelieu internamente manteve uma política de relativa tolerância com os protestantes e uma orientação externa baseada nos interesses nacionais franceses, o que fica evidenciado com sua participação na Guerra dos trinta anos. Em 1635 após concluir seu tratado de alianças com a Suécia e com as províncias unidas declarou oficialmente guerra contra a Espanha e ao arquiduque governador dos países baixos

Suécia

Entrou em conflito contra a Dinamarca e polônia e buscava, sobretudo o controle sobre a região do mar báltico, recebendo apoio da Rússia que tinha o interesse de neutralizar a polônia. Gustavo Adolfo junto com o ministro Axel Oxenstierna revoluciona o cenário militar europeu, como foi visto anteriormente.

Outros Países

Os países da península itálica, principalmente Milão, Nápoles, Sicilia, Sardenha e os territórios papais apoiavam o lado Habsburgo. Enquanto o ducado de Sabóia, a toscana, Veneza e outros ducados menores oscilaram em suas alianças maior parte destes se juntaram aos franceses contra o domínio espanhol e austríaco sobre a Itália. Já Inglaterra estava em guerra civil que culminou com a execução do rei Carlos I em 1649 e colocou no poder o parlamento representado por Oliver Cromwell. Apoiou a primeira fase da guerra discretamente o lado protestante, porem não desempenhou um papel importante na guerra continental.

Fases da guerra

De inicio uma serie de conflitos iniciados na Alemanha culmina com a invasão espanhola ao palatinado, onde expulsou Frederico V, a região passou a ser controlada pelo imperador Maximiliano da Bavária. A partir de 1621 foi rompida a trégua de 12 anos entre Espanha e os países baixos. A luta entre os principados alemães protestantes e o império Habsburgo não era apenas uma disputa religiosa, mas também estava em jogo o controle do centro da Europa e também as rotas comerciais marítimas e terrestres.

A guerra foi motivada ao mesmo tempo pelas rivalidades, franco-espanhola, Holanda-espanha, reforma-contra. reforma, fora as divergências entre diversas regiões da Europa central. Em todas as fases essas regiões protestantes lutaram contra a coligação formada pela Espanha, estados germânicos católicos e a Bavária.

O contexto militar

Durante a guerra a existência de milhares de soldados criou uma situação caótica durante décadas na Europa, chegando entre 1625 a 1635 a reunir cerca de um milhão de soldados em combate. O aparato de logística para o abastecimento dos soldados era quase nulo, seus pagamentos atrasavam, com isso ocorria constantemente os motins, o que dificultava mais ainda a organização das tropas.
Embora em algumas regiões a maioria dos soldados fosse voluntária, havia também o recrutamento forcado de civis e de ex-prisioneiros, e o pagamento era muitas vezes a própria pilhagem. As tropas mercenárias foram amplamente usadas, e os estragos provocados por elas foram muitas vezes mais destrutivos para os que as contratavam do que para os inimigos.
Uma grande falha desses exércitos especialmente o dos franceses seria a venda dos cargos militares que muitas vezes eram concedidos a nobres inexperientes em guerras longas e sistemáticas. Um fato interessante é que durante o conflito houve uma grande difusão do uso de bebidas alcoólicas pelo soldado, com destaque para os destilados de cereais, como o gim, que era usado principalmente pelos holandeses. O número estimado de vitimas é de quatro milhões de mortos, numero que só foi superado nas guerras mundiais do século XX.


A paz de Vestfalia

As conferencias de paz começam em 1644, com duas sedes, em locais distintos, os católicos, reunem-se em Munster e os protestantes em Osnabruck. O acordo só será concluído em janeiro de 1648, quando efetiva-se a paz do conflito nas províncias unidas, onde a Espanha reconhece após 80 anos a independência holandesa. A Espanha após Vestfalia prosseguiu em guerra contra a franca ate 1659, quando foi firmada a paz dos Pirineus.

Quadro geral depois de Vestfalia
· A franca ganha a Alsacia, Metz, Toul e Verdun;
· Suécia o controle do porto de Wismar no Báltico e dos estuários dos rios Oder, Elba e Weser;
· As províncias unidas e a Suíça são reconhecidas como republicas independentes;
· Brandenburgo ganha a Pomerania oriental e uns pequenos territórios, o que irá alicerçar as bases para a formação do Estado Germânico, com a fusão com o ducado da Prússia;
· A Bavária ganha o alto Palatinado;
· Cerca de 300 estados são reconhecidos do sacro império tem sua soberania reconhecida;
· O rio Reno deveria permanecer aberta a todas as nações;
· A paz de Augsburgo e confirmada e estendida aos calvinistas;
· A Espanha sofreu com as rebeliões na Catalunha, Portugal e em Nápoles.

O final da guerra determinou principalmente o fim do poderio Habsburgo e da Espanha, sobre a Europa, a emergência holandesa, e em seguida dos britânicos, o advento do máximo esplendor do absolutismo Frances. Além disso, no mundo europeu é estabelecido um sistema internacional de estados, surge um direito internacional, tendo como grande contribuinte Hugo Grotius, cada estado teria suas normas não mais se sujeitando a normas externas e as relações internacionais passam a ser estabelecidas em função do reconhecimento da soberania do estado, independentemente da sua religião.

Ocorre também após o conflito o triunfo do estado régio, e começa-se a prepara o terreno para o desenvolvimento do estado territorial. Após o fim da guerra em 1648 a paz de Vestfalia cria uma nova ordem na Europa moderna, na qual, a razão do estado, sobrepõe aos princípios religiosos medievais e na Europa não houve mais guerras motivadas por divergências religiosas.

Estados Territoriais

Os Estados Territoriais, como toda forma de organização política e administrativa, possuem bases de sustentação. A primeira e fundamental é o exército profissional e permanente. Não mais aos moldes do Estado Régio, que também possuía um exército permanente, mas estava impregnado pelos mercenários. A burocracia estava cada vez mais centralizada. Não na figura do rei, e sim, no serviço ao Estado. Estes cargos não eram mais vendidos para angariarem somas para os monarcas fazerem suas guerras. Havia se estabelecido outro nível de sistematização.

A Idade Moderna foi a era dos acordos e tratados de guerra e paz. Neste nível se fazia necessário uma constante representação de diplomatas de um Estado em outro com o fim de selar acordos que permitissem uma maior mobilidade política. Um serviço que não apenas estivesse para acordar alianças dinásticas e matrimoniais. O território também passou ater um nível de preocupação maior por parte dos agentes do rei e do próprio rei. Queria-se uma unidade territorial contínua, e não fragmentária descontínua como no caso Habsburgo. O monarca deveria garantir suas fronteiras, pois eram nelas que passavam o comércio – importante fonte de recursos através dos impostos – a guerra travava-se muito mais neles, além de serem a passagem do comércio era o começo de sua soberania. A defesa do território começava com a defesa das fronteiras, muitas fortificações foram construídas nas fronteiras dos estados e lá as batalhas eram mais comumente travadas.

A guerra ajudou a forjar as bases deste Estado, não que ela tenha sido a única. Contudo, a forma de batalha não era mais aquela da Guerra dos Trinta Anos, cataclísmica de grandes embates e megalomaníacas. Tinham seus objetivos mais delimitados, travada com meios delimitados visando objetivos restritos. Com isso, as batalhas eram mais estratégicas colocando os exércitos em pé de uma relativa igualdade. O exército era profissional, vestido, armado e treinado durante todo o tempo pelo Estado. A disciplina era rigorosa, chegando ao patamar do exército prussiano onde se objetivava que o soldado possuísse mais medo do seu oficial do que do seu inimigo. O abastecimento das tropas em campanha despertou mais cuidado por meio dos homens de guerra. A comida para estes soldados em batalha era algo primordial para mantê-los dispostos a lutar, armas suficientes munição e transporte também completavam a lista de tarefas. E já se começou a imprimir na cabeça dos soldados a noção de lutarem pela pátria, se bem que isso não foi muito difundido por se tratar ainda de tema delicado e escorregadio.
Por fim, a paz de Vestefália e o Tratado de Utrecht foram primordiais para a consolidação dos estados territoriais. O primeiro por garantir uma expansão das fontes de legitimação, quando previa que os outros estados reconhecessem a soberania deles como estados independentes. E o segundo por sacramentar o sistema político dos estados territoriais. Onde os estados que melhor representaram este papel foram a Holanda, a Inglaterra, a Suécia e a Prússia.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA:

BOBBITT, Philip. “A guerra e a paz na história moderna: o impacto dos grandes conflitos e da política na formação das nações”. Rio de Janeiro: Campus, 2003.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir. História da violência nas prisões. 11ª edição. Petrópolis: Vozes, 1987.

HOBBES, Thomas. Leviatã. São Paulo, Abril Cultural, 1974

KEEGAN, John. Uma história da Guerra. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.

MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução, introdução e notas de Antonio D’Elia. São Paulo: Cultrix, 1987.

MAGNOLI, Demétrio. História das guerras. 3ª. Ed. São Paulo: Contexto, 2006.
MILLER, Douglas. The Landsknechts: The Osprey Men-at-Arms Series; 1976.

MOCKLER, Anthony. The New Mercenaries. London: Paragon House, 1987.

SILVA, Kalina Vanderlei Paiva da. O miserável soldo & a boa ordem da sociedade colonial: militarização e marginalidade na Capitania de Pernambuco dos séculos XVII e XVIII. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2001.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2002.
1 Esse tipo de formação é explicado justamente na obra Ensaios de Sociologia, pp.258, onde toda burocratização do exército corroborou na formação do Estado, basta ver nas transferências de serviços, privilegiando alguns qualificando outros. Semelhança a empresa capitalista privada, tanto no recrutamento quanto logo depois na indústria bélica, pois os chefes de companhias eram donos de materiais e suprimentos bélicos, toda pesquisa e instrução científica, tudo passou a ser regido pelos recursos do Estado burocrático, regulando assim a economia administrativa para canalizar e favorecer a nova elite.
2 A afirmação encontra-se no livro O Soldo Miserável de Kalina Vanderlei pp.29, que essa substituição foi gradativa que apesar dos valores da cavalaria medieval ela passou a ter outra função num exército, além de aprimorar a técnica, utilizando mosquete com Gustavo Adolfo, chegando a ter armaduras pesadas. No decorrer da história no exército prussiano já não encontrava isso, pois utilizaram armas portáteis, punhais, coletes e uniformes leves dando proteção e agilidade.

observação final do professor. Como uma parte do trabalho foi o simples control c – control v, retiramos essa parte, especilamente por não ter sido mencionado a fonte.

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 24 jun 2008 @ 2:09 PM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROBLEMAS DA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO
SEVERINO VICENTE DA SILVA

O Pântano e o Riacho

Aluna: Wanessa Teles

Recife, 20 de março de 2008.

Introdução

O presente trabalho se propõe a fazer uma discussão acerca do livro O Pântano e o Riacho do historiador Raimundo Arrais. Este livro foi fruto da tese de doutorado de tal estudioso, cuja personagem principal é a própria cidade do Recife.
A partir do recorte histórico que vai de 1840 a 1890 Arrais traça a trajetória da cidade que de burgo triste alcançará o posto de capital da província pernambucana em detrimento de Olinda, já no século XVII.
O período histórico enfocado, segundo o autor do livro, foi escolhido em virtude dele ser inaugurador do progresso, desencadeado na Europa e transplantado para a cidade, que não ficará imune às mudanças que serão implementadas pelas elites, tencionando projetá-la a condição de cidade “civilizada”, entretanto veremos no decorrer da discussão sobre a obra que o progresso irá acentuar muitas contradições de uma sociedade calcada, ainda, no trabalho escravo, e que embora a elite recifense almejasse dar uma ar de “civilidade” ao Recife cada segmento social se apropriará do espaço público de formas distintas.

Tomando como referencial histórico o século XIX, mais precisamente, os anos de 1840 a 1890, Raimundo Arrais resgata a História da cidade do Recife, cujo objeto de exame é a própria capital da província pernambucana. Utilizando-se de uma perspectiva histórico-social do urbano, o historiador supracitado reconstrói a História da cidade a partir das transformações urbanas implementadas pelas elites recifenses, que imbuídas por valores transplantados dos grandes centros urbanos europeus, timoneadas pelo fulgor do progresso, sendo este inaugurador da modernidade, irá imprimir na cidade um caráter pedagógico, dando-lhe um aspecto de “civilidade” que será concretizado na transfiguração de: Práticas, comportamentos, valores… A cidade aqui é palco das mudanças tanto de ordem material como também simbólica, carregando em sua “alma” a subjetividade das representações humanas.
Ao discorrer sobre a historiografia pernambucana Raimundo Arrais traz à tona uma discussão acerca de uma lacuna no que concerne ao estudo da História do Recife do século XIX. Alguns historiadores que estudaram tal período não atentaram para os fenômenos da produção material e simbólica da cidade, esta na concepção do autor durante muito tempo foi relegada em detrimento de eventos políticos, econômicos… Que movimentaram a História do Recife e de Pernambuco, observa-se, pois, um apego às tradições por parte dos intelectuais no que tange a reprodução do imaginário, do tradicionalismo e do status quo, perpetuando as tradições no pensamento da historiografia pernambucana.
Além desse desinteresse por parte de alguns historiadores de fixarem a cidade como objeto de problematização historiográfica, concretizado na escassez de estudos, a cidade quando vista por alguns escritores do século XX, mais especificamente, quando da intervenção urbanística implementada durante a vigência do Estado Novo. Este fato fará com que os mesmos remontem ao passado do Recife de forma nostálgica e melancólica, fixando seus olhares nas questões pitorescas da cidade, algumas fornecidas pelos diários de viajantes europeus que estiveram na capital no início do século XIX. Um exemplo fornecido por Arrais é Estevão Pinto, que embora tenha sido pioneiro na reconstituição do passado histórico da cidade, este irá absorver por demais os relatos de tais viajantes, sendo seus escritos desprovidos de um senso crítico, isto é, problematizador.

Vê-se, portanto, na obra O Pântano e o Riacho, uma inovação no diz respeito aos estudos acerca da História do Recife e um incentivo aos que futuramente quiserem seguir por esses meandros historiográficos, além do mais, essa produção acadêmica veio acrescentar ao preencher essa vacância nos estudos da História de nossa cidade.
A seguir, é relevante ressaltar a contribuição que os flamengos deram a cidade do Recife, visto que as intervenções urbanísticas implementadas pelos holandeses irão fomentar as atividades econômicas com as construções de pontes, propiciando uma interação entre a cidade e seus arrabaldes, dando uma maior dinamicidade a capital da província. Um outro aspecto interessante abordado pelo autor é no que concerne à conquista de territórios, através dos aterramentos, que apesar da historiografia dar ênfase a ampliação do espaço pelos flamengos, Raimundo Arrais nos fornece informações acerca da atuação da irmandade do santíssimo sacramento da Boa Vista, que embora fosse impelida a fazê-lo por questões relacionadas ao culto divino, estas não excluem o desejo de ocupar solos abertos a expansão urbana. Além da atuação do clero também houve a participação de particulares no aumento da área habitável. Essa observação feita pelo autor descentralizou um pouco o foco sobre a contribuição flamenga, mormente no que se refere à maximização do espaço da planície recifense sobre as áreas alagadiças, ampliando a visão do leitor ao trazer informações no que tange à participação de alguns setores da sociedade na conquista do solo da cidade.

Com a transformação do Recife em vila em detrimento de Olinda, e sendo aquela uma intermediária nos assuntos econômicos, já que era por intermédio de seu porto que se efetuavam as trocas comerciais, dando a cidade um incremento populacional como também prestígio administrativo, além se ser a terceira em importância no império. Uma crítica que faço ao autor é que o mesmo ao trabalhar com dados quantitativos sobre a população do Recife, ele não explica um decréscimo que houve entre os anos de 1872 a 1890, passando a população de 116.671 a 111.556, respectivamente, deixando o leitor sem uma noção exata dos fatores que influenciaram na baixa populacional, pois naquele momento a cidade passava por um momento de transformações, e é legítimo pensar numa atração populacional e não numa retração, no entanto mais adiante ele ao tratar da questão da salubridade pública, evidencia a questão das epidemias que assolaram a província durante o período enfocado.

Dando seqüência à obra há um destaque ao progresso, que era visualizado por intermédio dos empreendimentos urbanos implementados pelas elites recifenses, um fato muito curioso abordado por Arrais é a questão do emprego do ferro nas construções erigidas pela cidade, que era visto como um fator de desenvolvimento, isto é, progresso. Outro âmbito interessante em relação às construções é que as mesmas tentavam imprimir um caráter moralizador com o emprego de mão-de-obra livre nas edificações, além evocar uma espécie de culto ao trabalho, tudo isso com intenção de impressionar aos que aportavam no Recife, principalmente, os viajantes europeus.

A partir do contexto progressista vivenciado pela cidade, é muito interessante quando da abordagem pelo autor da questão no que diz respeito a concepção de teatro como escola dos bons costumes, meio de instrução e formação dos povos, é nessa perspectiva que o teatro de Santa Isabel será concebido, com toda sua pompa em estilo neoclássico, um reflexo da influência européia, mais precisamente italiana, visto que é na Europa que as autoridades irão buscar o exemplo de “civilidade”, forjando no indivíduo urbano um modelo de homem do século do progresso.

Outros sinais de progresso que eram vistos pela cidade eram as praças ajardinadas, espaços de sociabilidade e lazer, que irá excluir uma boa parte da população, visto que o populacho era sempre alvo de críticas nos jornais da cidade, pelo seu mau comportamento, destruindo os espaços naturais construídos pelas autoridades administrativas. É notório que com o advento do progresso fossem acentuados as diferenças no comportamento dos vários segmentos sociais, pois cada um irá se apropriar desses espaços de maneira distinta, vê-se portanto uma certa ingenuidade das elites recifenses em querer adaptar a realidade européia à realidade local, visto que por mais que tentassem dar ares civilizados a cidade por meio de suntuosas construções o cotidiano era,ainda, de uma sociedade baseada no trabalho escravo e com profundas disparidades sócio-econômicas.

Embora as elites Recifenses fossem buscar no continente europeu um referencial no tocante a civilidade, essa tentativa pareceu meio turvada, quando da contratação de uma companhia inglesa responsável pelo saneamento da cidade, que fora no período estudado alvo de inúmeras críticas por parte dos médicos salubristas, inclusive, o médico e vereador Lobo Moscoso responsável pela salubridade pública do Recife, já que além de não resolver os problemas que tanto atormentavam a população no que concerne a questão dos encanamentos por onde deveriam escoar os excrementos, quando solicitado seus serviços a mesma ao fazê-lo escolhia os momentos inadequados para desobstrução dos encanamentos, principalmente no verão, quando a disponibilidade de água era escassa, mostrando a estreiteza do atendimento por parte da companhia inglesa.

Levando em consideração o que fora supracitado, o autor poderia ter explorado essa ausência por parte da Recife Draynage de meios técnicos eficientes relacionados a problemas tão básicos que é a questão do saneamento, pois se as elites iam buscar na Europa, particularmente, na França e em Londres um paradigma de civilização, como é que uma companhia inglesa era tão incompetente ao ponto de não solucionar problemas de ordem pública, a princípio, básicos, embaraçando a vida dos moradores dos sobrados, muitos dos quais não possuíam sequer vasos sanitários, corroborando a fragilidade operacional de tal companhia.

Ao longo da obra, Arrais vai mostrando ao leitor as inúmeras dificuldades das elites, especialmente das autoridades administrativas em dar a cidade requintes de civilização, sendo as contradições acentuadas à medida que o progresso ia se instalando por meio das edificações e seus modelos arquitetônicos suntuosos. Essas contradições ficavam patentes na precariedade dos serviços prestados a população, tais como: Saneamento básico precário, dificuldade para fazer o censo populacional, precariedade no abastecimento de água para a população… Ou seja, serviços imprescindíveis a uma cidade que almejava fazer parte do universo progressista não conseguia resolver problemas básicos para um bom funcionamento da capital da província e até mesmo para o bem estar de sua população.

Além disso, por mais que as autoridades quisessem imprimir na população um comportamento dito civilizado, essa mesma população muitas vezes contrariava essa perspectiva. Um exemplo bem comum era o hábito dos moradores dos sobrados jogarem suas águas utilizadas para o asseio pessoal pelas janelas, batizando os transeuntes que tinham o infortúnio de passarem na hora em que a água era despejada, esse é só um exemplo do ideal de homem civilizado que as elites tentaram forjar, mostrando seu insucesso tendo em vista a permanência de tais práticas.
À medida que o progresso, mesmo que modestamente, ia se instalando pela cidade, um progresso luminoso surgia para registrar de um lado as obras arquitetônicas, os bondes, as maxabombas…Sinais de desenvolvimento como esses eram contrapostos aos hábitos não civilizados da população, a exemplo de indivíduos que urinavam nas ruas, deixando-as com um odor desagradável, além de constranger as damas que passavam nessas horas, essa imagem foi publicada pela América Illustrada, que denunciava a falta de moralidade pública dos moradores da cidade.

Outras cenas captadas pelas câmeras fotográficas eram as que diziam respeito ao cotidiano da população recifense, nas quais o elemento negro está muito presente nas representações das imagens. É muito comum negros carregando damas que passeavam em suas cadeirinhas de arruar, negros despejando os tigres com excrementos de seus senhores no mar, negros carregadores de água, negras vendedoras de doces… Todas essas cenas foram registradas por H. Lewis em 1848. Outros registros mostravam os hábitos avessos à questão da salubridade pública, tais como: Animais sendo lavados nos rios, enquanto mulheres lavavam suas roupas, cozinhavam, tomavam banho e em outro plano da mesma imagem um casal contemplando construções que atestavam o progresso vivenciado pela cidade.
Por conseguinte, no final do livro o autor não se propôs ir mais além de comentários simplórios acerca da introdução do elemento fotográfico, além de uma análise pouco aprofundada das fotografias, deixando de explorar com mais afinco as contradições registradas pelo recurso ótico entre as mudanças acarretadas pelo progresso e os hábitos da população, inclusive, o cotidiano escravo retratado em muitas das imagens, que insistia em permanecer.

Bibliografia:

ARRAIS, Raimundo. O Pântano e o Riacho: A formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, 2004.

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 20 jun 2008 @ 11:40 PM 

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO – UFPE
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: PROBLEMAS DA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO
PROFESSOR: SEVERINO VICENTE DA SILVA

O SERTÃO DO ARARIPE

IZABELLE FELICIANO, INGRID MOURA, ANDRÉ MENDES, MARCONE MENDONÇA,
LUANA JOELMA.

Recife, junho de 2008

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO………………………………………………………………………………………….01

1. Araripina…………………………………………………………………………………………………02

2. Santa Cruz………………………………………………………………………………………………04

3. Exu………………………………………………………………………………………………………..04

4. Santa Filomena………………………………………………………………………………………..05

5. Granito…………………………………………………………………………………………………..05

6. Ouricuri………………………………………………………………………………………………….06

7. Ipubi………………………………………………………………………………………………………06

8. Moreilândia……………………………………………………………………………………………..09

9. Trindade………………………………………………………………………………………………….10

10. Bibliografia……………………………………………………………………………………………14

11.Anexos…………………………………………………………………………………………………..15

INTRODUÇÃO

A Microregião de Araripina é formada por dez municípios, tem mais de 11% da área do Estado (11.792 km2). Seu clima é o semi-árido, e a vegetação é predominantemente de Xérofilas. Apenas na região da Chapada do Araripe o clima é diferenciado – ameno e com índices pluviométricos maiores. Na economia da microregião, tem grande destaque a produção de gesso – no pólo gesseiro de Araripina, Ipubi, Trindade, Bodocó e Ouricuri sai 95% do gesso consumido em todo o Brasil. A maioria do gesso retirado das jazidas do pólo gesseiro é tratado em Araripina, cidade mais desenvolvida, rica e importante da microregião. A segunda cidade em importância é Ouricuri, com posição estratégica na malha viária.
As Cidades que entegram a microregião são: Araripina, Bodocó, Exu, Granito, Ipubi, Moreilândia, Ouricuri, Santa Cruz, Santa Filomena e Trindade.

ARARIPINA

“Uma mina de progresso no coração do Nordeste”.

Araripina constituía um distrito de Ouricuri e tinha a denominação de São Gonçalo. O distrtito de São Gonçalo foi criado pela Lei Municipal de 01 de julho de 1893 contando na época com 8 ou 10 casas e a capelinha de Nossa Senhora da Conceição, primeira e única padroeira do lugar. A Lei Estadual no. 991, de 01 de julho de 1909, elevou o povoado à Vila como distrito de Ouricuri. Em 1922, o Bispo de Pesqueira, Dom José Lopes criou a Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de São Gonçalo do Sauhem, que até 1933 ficou sob a responsabilidade do Vigário de Ouricuri. Em 14 de junho de 1923, chegou o primeiro Vigário residencial, iniciando a partir daí, uma nova era para São Gonçalo. Surgiu a primeira Escola Estadual em 21 de junho de 1950 e vieram vários melhoramentos.
Em 1928, começou a luta pela independência do distrito. O Município foi criado pela Lei Estadual no. 1.931, de 11 de setembro de 1928, que teve vigência a partir de 01 de janeiro de 1929, quando foi instalado. O Decreto – Lei Estadual no. 952, de 31 de dezembro de 1943, mudou a denominação do Município de São Gonçalo para Araripina, provavelmente, pelo fato de ser localizado nas imediações da Chapada do Araripe. Alguns historiadores defendem a tese de que o nome Araripina deriva etimologicamente do tupi: ara + iba, ou iriribá: coloração vermelha. Outra tese bastante aceita e divulgada diz que o topônimo Araripina origina-se do termo Arari(Pe), devido à localização no sopé da Chapada do Araripe, acrescido do sufixo “Iná”, vindo do nome do famoso missionário sertanejo Padre Ibiapina, que edificou a primeira capela da cidade. É, ainda, assunto de pesquisas e estudos. Outros nomes sugeridos à comissão encarregada de elaborar o Projeto de Reforma Administrativa do Estado de que resultou o Decreto-Lei no. 952, de 31 de dezembro de 1943, foram: Oestina, Cararama e Ibiçaroca (alusão ao grande valado ao pé da Serra do Cariri e que termina em Exu). Administrativamente, o Município compõe-se dos distritos: sede, Lagoa do Barro, Nascente, Bom Jardim do Araripe, Morais e pelo povoado de Gergelim, Feira Nova, Cavaco, Serrânia, Sipaúba e Lagoa de Dentro. Anualmente, no dia 11 de setembro, Araripina comemora a sua emancipação política.
Distando aproximadamente 690 km da capital Estadual, Recife, tendo como acesso rodoviário as BR’s 316 e 232, e a Rod. PE585. Suas coordenadas geogáficas são 7°,32’ e 45’’ de latitude Sul; 40°,34’, de longitude W. Gr. Com altitude de 622m. limitando-se ao Norte com o Município de Campos Sales-CE; a Oeste com os Municípios de Fronteiras, Marcolândia e Simões-PI; ao Sul com o Município de Ouricuri-PE e ao Leste com os Municípios de Trindade e Ipubi-PE.
Com uma área de 1.906km2, Araripina representa 1,7% da área total do Estado e se insere totalmente na Bacia Hidrográfica do Rio Brígida. Possui clima semi-árido quente com uma temperatura média anual de 24°C; precipitação pluviométrica média de 700mm/anuais, com solos adequados para cultivos temporários ou permanentes de vegetação típica de caatinga.

II – Canto às Origens

ARARIPINA

Araripina é Estrela do Araripe
Urbe que se alteia bonita
Nesse majestoso araxá do gesso

Araripina é topônimo erudito de Mário MeloVoz tupi, aglutinante de termos primários.- “ ‘RARI ” e “ PINA” – reunidos na forma daPalavra absoluta – ARARIPINA.
Sua origem remonta ao ancestral mongol Semitoasiático – tupiná – gênese de TupãQue fez a se mesmo – O PRIMEIRO PAI
São etinos orientais que nos faz lembrar,O Canto agreste d’arara, no cimo da chapada- “ Ará, ará” – sempre a cantarAs origens remotas de Araripina.
Araripe – é a grande serra, irmã gêmea de Ibiapina- Pátrio rincão tropicalOnde nasceu a doce IracemaSímbolo de – beleza – e bravura
D’ascendênte de Araribóia – O guerreiro cobraQue do País, fez sairO invasor “Mair da França Antártica”
- Meu Comandante Camarão, olha lá!Astro rei dos “ ‘RARI”É o sol, é o dia, é – Araripina Estrela – luzQue alumia a mente tupiná do meu Sertão. Esse poema faz parte do Livro do Professor e Naturalista, Vicente Alexandre Alves, intitulado As Origens e Riquezas Naturais de Araripina, como sede da região do Araripe, ainda aguardando publicação, podendo ser copiado sem restrições, desde que citada a fonte.

SANTA CRUZ

No ano de 1929, durante uma peregrinação pelo sertão, dois frades capuchinhos, tiveram que interromper a viagem devido a uma febre que acometeu um deles permanecendo no local por cerca de um mês. Abrigaram-se sob o pé de um juazeiro. Diversas famílias acorriam a eles para assistência espiritual e celebração dos sacramentos e missas. Despediram-se da região deixando uma grande cruz de madeira no local onde se abrigavam.
Esta cruz foi encontrada pelos vaqueiros do fazendeiro José Correia, senhor de muitas terras e escravos que habitava a região. José Correia pediu que trouxessem a cruz à fazenda, colocando-a na capela. A cruz passou a ser objeto de veneração da população local, que visitava a capela em busca de proteção divina. Ao seu redor começou a surgir a povoação. Aos poucos surgiu a festa da Venerada Santa Cruz, que ocorre de 1 a 3 de maio, que além dos rituais religiosos também conta com barraquinhas de comidas típicas e bebidas, bingos, danças, etc.
O distrito de Santa Cruz, subordinado ao município de Ouricuri foi criado em 23-01-1915. Foi elevado à categoria de município autônomo pela estadual nº 10623, de 10-01-1991, e instalado em 1993. O município é constituído pelo distrito sede, Varzinha, Poço D’Antas, Caçimba Nova, e Santa Helena.

EXU

Longe de ser oriundo do nome homônimo de um orixá, a cidade do aclamado Rei do Baião, Exu parece ter sugido da força da interação entre os fonemas LUSA e TUPI. A ele são atribuídas duas origens. A primeira como corruptela do nome de uma tribo local, Açu, ou ainda, do nome dado pelos indígenas da mesma tribo ao que seria o ferrão de espécies de abelhas comum à região, chamados “Enxu ou Inchu”.
A história desse município é mais um exemplo de um desenvolvimento independente e autônomo dos grandes centros urbanos. A implantação da economia açucareira na Zona da Mata e Litoral pernambucano pareceu direcionar a migração de portugueses apenas a essas áreas. Exu era uma área mais remota. Estava mais voltada para fora do Estado, para ser mais exato o oeste do Ceará, do que para dentro do próprio Estado.
A fixação em Exu remonta a exploração do Sertão do São Francisco. Ocorreu perante as graças do chefe da tribo Açu, o Cacique Araripe, cuja tribo aldeiada junto à fonte da Gameleira indicou aos primeiros portugueses onde se fixar, junto a uma área cujo terreno era da melhor qualidade para pecuária e agricultura. Era a encosta da Chapada do Araripe, sede de onde se formaria o primeiro foco de povoamento português, e que ficou conhecido posteriormente como Exu Velho.
A penetração desse território seguiu a expansão do nordeste. Seus principais fundadores, de sobrenomes Araripe, Alencar, Sampaio, entre outros, transpassa a história do município até os dias atuais. Contaram estes, como em outros casos que serão citados nesse trabalho, com a chegada de frades jesuítas, que logo cuidaram de erguer uma capela local, dedicada ao Senhor Bom Jesus dos Aflitos. Pronto! Estavam mobilizados os ingredientes de uma receita, que continham como produtos principais uma elite local, assessorada por uma Igreja Católica de forte atuação.
O Padre João Batista de Holanda, vindo da Paraíba com a missão de catequizar, iniciou em outra área, a construção da Igreja Matriz, também dedicada a Bom Jesus dos Aflitos. Ao redor desta Igreja surgiram casas de comércio e residências, local da pedra fundamental da Cidade de Novo Exu, onde hoje seria a Praça Casimiro Ulisses.
O Município propriamente dito foi instalado apenas em 1846, pela lei provincial de Nº 150. Porém, Exu vai ficar sujeita a várias alterações administrativas que tornaram sua história política bem conturbada, ora restaurando sua autonomia, ora sendo anexado a outros povoados, como Ouricuri, Cabrobó, Granito. Exú só foi reconhecido como Comarca em 07 de junho de 1885, fato que não durou muito tempo, sendo suprimido enquanto município pela Lei Provincial de nº 608 de 03 de Abril de 1895.
Somente em 1907 é que ocorre a restauração administrativa definitiva da administração de Exu, marco que a 08 de setembro do mesmo ano, faz-se celebrar o aniversário da cidade.

SANTA FILOMENA

Quase não foram encontradas fontes de pesquisa sobre este município. As poucas linhas encontradas dizem que Santa Filomena foi desmembrada do território de Ouricuri, tendo uma história bastante recente, foi criado em 22 de setembro de 1997, com base na lei estadual complementar nº 15 de 1990, Santa Filomena possui base econômica na agricultura e pecuária, preservando diversos engenhos do período colonial. Nesta cidade também existem vestígios da atuação das missões jesuíticas, fato que pode ser facilmente verificado em um passeio pelas ruas da cidade que leva a visualização da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios.

GRANITO

O município de Granito leva esse nome devido à predominância dessa rocha na região. Esse município, que hoje se estima ter 6.492 habitantes, segundo dados IBGE, foi criado em 1859, às margens do Rio Brígida, na antiga fazenda Poço Dantas pelo vigário José Modesto Correia de Brito, que construiu uma capela na região com o nome de Nossa Senhora do Bom Conselho. Se observarmos bem, veremos que esse fato é muito comum nas áreas interioranas do território brasileiro, pois grande parte desses municípios do interior “nasceu” ao redor das capelas e igrejas que iam sendo construídas pelos vigários e padres.
Com a criação da capela de Nossa Senhora do Bom Conselho, começou-se a se edificar um povoado. Em 1863, esse povoado recebeu, através da lei provincial de 9 de abril nº548, a honra de Vila, cuja sede foi transferida do termo Exu para Granito, pelo próprio vigário José Modesto, fundador da capela que deu origem ao povoado. No ano seguinte ao da Proclamação da República, foi criada pelo Sr. Juiz de direito Alfredo Afonso Pereira a Comarca de Granito. A 5 de junho de 1893, Granito constituiu-se município autônomo. Em 1924, ainda na República do Café com Leite, Bodocó passa a ser sede do município de Granito. E em 1938 o município passa a se chamar Bodocó, sendo Granito rebaixado a condição de distrito. Só no ano que antecedeu o golpe civil-militar de 64 é que Granito foi desmembrado do município de Bodocó, e conseguiu novamente sua autonomia, sendo elevado à condição de Cidade.
Hoje, o município de Granito é composto pelo município sede e pelos povoados de Rancharia e Lagoa Nova. Sua emancipação política é comemorada no dia 20 de dezembro, tendo como padroeira da cidade Nossa Senhora do Bom Conselho, nome da primeira capela, erigida pelo vigário José Modesto Correia. Sua Área é de 521,86 km² representando 0,53 % do Estado, 0,03 % da Região e 0,01 % de todo o território brasileiro. A principal base econômica de Granito é a agropecuária, onde se destacam o cultivo de milho e feijão.

OURICURI

Ouricuri começa a ser povoado em 1841 quando o padre Francisco Pedro da Silva compra terras de D. Brígida Alencar e constrói uma capela em homenagem a São Sebastião. Nos arredores da capela, que está inserida na bacia hidrográfica do rio brígida, começa a se desenvolver atividades agro-pecuárias. O próprio padre fundador do povoado dá o nome de Ouricuri àquelas terras; Esse nome é oriundo de uma palmeira. Porém existe a versão que diz que a origem do nome do povoado vem de um casal Goulart do século XIX, que compra parte das terras da fazenda de gado de D.Brígida Alencar. Esse casal, que fixa residência no local, dá o nome de “Aricuri” (termo indígena), que significa “duas serras juntas”.
Em 1893 Ouricuri foi transformada em município autônomo e teve como seu primeiro prefeito o tenente-coronel Elias Gomes de Souza. Sua fundação, no entanto, acontece em 1939, quando Alexandre Bernardino, juiz de direito da Comarca da Boa Vista, chega à cidade fugindo de uma epidemia de febre, a qual foi denominada na época de “carneirada”. A festa comemorativa da emancipação da cidade ocorre no dia 14 de maio
Hoje, esse município é formado pelos distritos de Barra de São Pedro e Santa Filomena. Possui uma área de aproximadamente 2.423 km2 e uma população de 58.653 habitantes (censo de 2000. IBGE). Sua principal atividade econômica é a agricultura, onde temos como principais produtos o feijão, algodão, mandioca, milho, cebola, tomate; ainda temos a criação de bovinos e aves, além da mineração. É importante que se diga que 40% das reservas de gipsita do mundo estão localizadas na região do Araripe, onde Ouricuri faz parte. Essa região é conhecida como pólo gesseiro e detém 95% da produção nacional de gesso, que se caracterizou pela criação de um parque industrial na região, que gera cerca de 12.000 empregos diretos e 60.000 indiretos.

IPUBI

Ipubi localiza-se a uma latitude 07º39′07″ sul e a uma longitude 40º08′56″ oeste, estando a uma altitude de 535 metros. Sua população estimada em 2004 era de 23.971 habitantes. Possui uma área de 972,17 km² e é formado pelos distritos de: Ipubi (sede), Serra Branca e Serrolandia e pelo povoado da Mineradora São Severino. O município faz parte da Região de Desenvolvimento do Araripe. Essa região representa 18,8% do território estadual com 18.576,9 km² e abrange ainda, os municípios de Araripina, Bodocó, Cedro, Exu, Granito, Ouricuri, Moreilândia, Parnamirim, Salgueiro, Santa Cruz, Santa Filomena, Serrita, Trindade e Verdejante. Seu acesso se faz através da BR-232 e PE-630.
Em 1938, agricultores de várias regiões começaram a habitar a Fazenda Poço Verde, nome inspirado num poço que raramente secava, suas águas eram cristalinas, uma parte coberta por plantas aquáticas que exaltava a cor verde das águas. Esses habitantes foram atraídos a esta fazenda, por ela possuir um solo predominantemente argiloso úmido e de bastante fertilidade, isso devido a sua localização no sopé da chapada do Araripe. Com essas boas características logo se construiu um povoado. O Poço abastecia todos os moradores da região, ao lado havia três grandes árvores frondosas, o juazeiro, o tamboril e a baraúna, cujas sombras abrigavam as pessoas que ali passavam em busca do descanso.
Em meados de 1938, comboieiros de várias regiões circunvizinhas transitavam por veredas, vilarejos, povoados e cidades, transportando ao lombo de burros com malas de couros os produtos regionais: sal, abacaxis, peixes, salgados, farinhas e outros. A sombra das árvores foi o local principal onde se realizou a primeira feira em 1938, criada pela necessidade dos habitantes que pouco a pouco crescia e se estendia nas caatingas do alto sertão pernambucano.
De uma maneira simples e de estilo rústico dos seus habitantes, realizou-se a primeira feira, na ausência de barracas, apenas sobre sombra das árvores, onde foram expostos produtos artesanais e comidas típicas da região.
Neste mesmo ano ao som de búzios dos vaqueiros houve uma convocação de voluntários com objetivo de desmatar o terreno para construção da futura vila. Tendo em frente deste movimento os senhores: Joaquim Eugênio Silva, Antonio Tavares e Aureliano Damascena Rodrigues. O terreno foi comprado à senhora Pulcina Maria de Siqueira e Marcelino Correia, logo em seguida foi doado ao patrimônio de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Padroeira da cidade, cuja festa é comemorada na primeira quinzena do mês de agosto.
O Sr. Antônio Tavares da Silva auxiliou na demarcação. Juntamente com o Dr. Inácio Gonçalves Guimarães, fizeram requerimento de demarcação e divisão da Fazenda mencionada, que teve como Juiz de causa o Dr. Ladislau Rego Barros, como agrimensores Jorge Calisto de Alencar e Manoel Alves Parente, que fizeram a demarcação e divisão da Fazenda como ela foi vendida, por quadras, braças e posse.
Terminada a demarcação, foi contado o total de 36.000 tarefas de terras, sendo 12.000 hectares de terras aproveitáveis e cerca de 7.000 a 8.000 não aproveitáveis, porque eram ocupadas pelas cordilheiras das terras e serrotes pedregosos. Finalmente demarcada e dividida a terra, a Fazenda Poço Verde ficou situada da seguinte forma: Ao norte limita-se com a fazenda Serra Branca, ao Oeste com a Fazenda Espírito Santo, ao Sul com a Fazenda Boa Esperança e Manuino e ao Leste com a Fazenda Queimadas, fazendo assim o perímetro dessa fazenda, salientando que é a Fazenda mais rica do sertão, suas terras todas são produtivas, além do solo bom, há no subsolo a maior reserva de gipsita da América Latina, onde estão localizadas as seguintes Mineradoras: Sítio Barbosa – Matarazzo, Sítio Baixas – São Severino, Mário Ferraz, Itapessoca, Calmina, Gesso Serra Branca, Buracão, Escorrego e a São Jorge.
Vendo a valorização das terras depois de serem demarcadas, seus fundadores chegaram à conclusão de criar um povoado. O lugar escolhido foi às margens do cacimbão, onde eram situadas 03 árvores, um Juazeiro, uma Baraúna e um Tamboril. Quando feita a demarcação dessa fazenda, foi deixado um esquadro de 04 tarefas dessa área como servidão pública. Bem próxima das 03 árvores já existia uma casa de taipa onde funcionava uma mercearia que pertencia ao Sr. Felipe Mudo e Camilo Pereira, ali era um lugar ideal para se reunirem muitos vaqueiros, criadores, camboeiros e finalmente os passageiros que trafegavam por aqui.
Ainda em julho de 1938, foi marcado um domingo para 1ª Feira, que se realizou com grande entusiasmo daqueles que fizeram parte, direta ou indiretamente desta. Depois de mais ou menos dois meses da 1ª Feira, as pessoas foram surpreendidas pela polícia, onde os delegados eram regionais e sempre cumpridores dos comandos de chefes políticos. O Comandante de Ouricuri, nessa época era o Coronel Anísio Coelho, que autorizou ao Delegado Olímpio Ferraz, acabar com a feira local. Mas felizmente depois de vista a feira, o Delegado surpreendeu-se com a multidão encontrada, e logo desistiu.
Com a continuação da feira, os políticos de Ouricuri e Serra Branca foram perdendo o apoio da população, e Poço Verde segui em frente. Naquele tempo não havia casa, os armazéns eram a própria terra, fazia-se montanhas de mamonas, algodão, milho, feijão etc. O açougue era um pequeno jirau de madeira, o teto era formado dos couros bovinos, vendidos ali. Então seus fundadores, sentindo o prazer e satisfação de seus habitantes e visitantes, convocaram todos os feirantes e discutiram uma forma de melhorar a feira, compraram mais 9 tarefas de terras ao Sr. Marcelino Correia da Silva, onde hoje são situadas a Praça professor Agamenon Magalhães e a Igreja Matriz. Esta terra era coberta de mata.
Foi marcado o dia da broca do terreno em 13 de outubro de 1938. D. Bernardina Mudo e suas auxiliares fizeram uma grande festa em baixo de um umbuzeiro, onde hoje é localizada a casa do Sr. Osvino Apolinário (falecido). No espaço de duas horas foram desmatadas as nove tarefas. A madeira feita lenha foi posta fora, os aceiros foram varridos no dia 03 de novembro do mesmo ano. Em seguida foram tirados os esquadros da Praça Professor Agamenon e das ruas adjacentes.
Assim começou o povoado de Poço Verde, hoje cidade Ipubi. Cidade esta, segundo seu principal fundador, foi a gloriosa Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro, que com a sua proteção cobriu de bênção e graças os habitantes que ali residiam, e deu-lhes coragem, inteligência e força para lutarem pela sua criação. Esta milagrosa padroeira teve sua imagem comprada no Rio de Janeiro, vinda de Avião até a cidade do Crato-CE., e seguida para uma fazenda na Serra do Araripe. Depois de alguns dias numa grande procissão trouxeram para o Sítio Virgínio, onde ficou por algum tempo, até que se concluísse o trabalho de sua Igreja, a qual teve início em Novembro de 1941. A primeira missa foi celebrada na referida Igreja no dia 22 de fevereiro de 1942, pelo Padre Luiz Gonzaga, onde também foi celebrado o casamento do Sr. Antonio Mudo com D. Maria Madalena Mudo.
Devido o seu progresso em 31 de Dezembro de 1943, o povoado foi elevado à categoria de Distrito, sendo então o seu nome mudado de Fazenda Poço Verde para Ipubi, nome indígena que significa “lugar úmido”. A Igreja não dispunha de recursos para ser terminada a sua construção, então o Padre Luiz Gonzaga com os demais moradores que , segundo registro do Sr. Antonio Mudo, não deixaram de lutar para ver a tão sonhada Ipubi, cidade livre, liberta, diante da falta de recursos para concluir a construção da Igreja local, convidou o Sr. José Cirilo Neto (Zé Milú). Fizeram uma festa com apresentação dos dois partidos (azul e vermelho) por eles representados, assim travou-se a batalha dos mesmos e no espaço de mais ou menos 4 meses, concluindo-se no dia 24 de junho de 1952, arrecadaram 82 Contos de Réis, que foi o custo da construção da torre da nossa Matriz, que teve como construtor o mestre Luiz.
Chegando ao fim da batalha de um povoado já com um pequeno matrimônio. Vale a pena salientar que os legítimos donos do Sítio Poço Verde, eram: D. Pulcina Siqueira de Vasconcelos e seus filhos, Miguel Francisco de Vasconcelos, outros irmãos de Marcelino Correia, a quem foi comprado o 1º patrimônio. O Sítio Poço Verde pertencia a D. Pulcina Siqueira de Vasconcelos, terra esta, que tinha sido comprada pelo seu falecido marido Manoel Davi de Vasconcelos na demarcação e divisão da Fazenda Poço Verde num total de 4.500 tarefas de terra, onde hoje é situada a cidade de Ipubi. Chegando ao fim da luta para criação do Povoado de Poço Verde, marcharam juntos com a padroeira Nossa Senhora do Perpétuo do Socorro para criação do Distrito.
Desse período até março de 1962, a cidade de Ipubi pertenceu ao município de Ouricuri. Emancipou-se se tornando então independente em 02 de março de 1962, pela Lei nº. 3.340 publicada no dia 31 de Dezembro de 1958, que passou a vigorar quatro anos depois, em 02 de março de 1962.
Em Ipubi, a agricultura já foi a atividade econômica predominante, perdendo espaço atualmente para a exploração da gipsita. Ainda assim ainda são produzidos feijão, algodão, mandioca, mamona, milho, cebola e tomate. O rebanho de bovinos, e a criação de aves são outras fontes de renda do município. Ipubi é grande produtor de gipsita, razão da existência de várias empresas de calcinação de gesso instaladas no município. Empresas estas, grande parte provenientes de outras regiões do País, que além de serem responsáveis pelo beneficiamento da gipsita do município, proporcionam emprego, por conseguinte provocam o aquecimento da economia local.

MOREILÂNDIA

Durante a grande seca de 1877, vários agricultores do Ceará deixaram suas terras em busca de locais onde houvesse água para consumo humano e dessedentação animal. Foi o caso de Claudiano Alves Moreira, que veio de Iguatu, no Ceará, com sua família e rebanho. Dirigia-se provavelmente ao vale do Rio São Francisco. Entretanto, ao atravessar o sertão pernambucano, encontrou uma região desocupada, pertencente à paróquia de Granito, onde as terras eram férteis. Ao cruzar um riacho, observou poços d’água, o que o fez supor a existência de água subterrânea acessível, o que foi confirmado. Estabeleceram-se no local e foram seus primeiros habitantes. Cultivaram um sítio de frutíferas, que se desenvolveu bem. Logo o local passou a ser chamado Sítio dos Moreira.
A região se prestava a atividades agro-pecuárias e foi se desenvolvendo a partir desta atividade. A primeira igreja foi construída por José Alves Lopes, dedicada a Santa Terezinha e concluída em 1930. A primeira feira livre ocorreu em 1935.
O distrito foi criado em 10/05/1957, desmembrado do distrito de Carimirim, subordinado ao município de Serrita. Pela lei estadual nº 4.965, de 20 de dezembro de 1963, foi constituído em município autônomo e foi instalado em 19-05-1964.
Conforme a lei orgânica municipal foi realizado, em 31 de maio de 1991, um plebiscito visando a mudança do nome do município. A lei municipal nº 84/91, homologou a vontade popular mudando o nome de Sítio dos Moreiras para Moreilândia. Atualmente é constituído de 2 distritos: Moreilândia e Carimirim.
De acordo com o censo 2000 do IBGE, a população residente total é de 11.116 habitantes. Os habitantes do sexo masculino totalizam 5.586 (50,3%) enquanto que do feminino totalizam 5.530, (49,7%), resultando numa densidade demográfica de 18,00 hab/km2. A rede de saúde se compõe apenas de 02 ambulatórios e 01 hospital, com 27 Agentes de Saúde Comunitária. A taxa de mortalidade infantil, segundo dados da DATASUS é de 74,75 para cada mil crianças.
Na área de educação, o município possui 43 estabelecimentos de ensino fundamental com 3.444 alunos matriculados e 02 de ensino médio com 542 alunos matriculados. A rede de ensino totaliza 109 salas de aula, sendo 10 da rede estadual e 99 da municipal.
Dos 2.551 domicílios particulares permanentes, 1.076 (42,2%) são abastecidos pela rede geral de água, 466 (18,3%) são atendidos por poços ou fontes naturais e 1009 (39,6%) por outras formas de abastecimento. A coleta de lixo urbano atende 997 (39,1%) domicílios.
Os gastos sociais per capita são R$44,00 em educação e cultura, R$19,00 em habitação e urbanismo, R$21,00 em saúde e saneamento e R$15,00 em assistência e previdência social (1996). A economia formal do município se compõe basicamente do setor de serviços, do setor de comércio e do setor de Administração Pública, com 539 empregos.
O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal-IDH-M- é de 0,364. Este índice situa o município em 96 no ranking estadual e em 4.368o no nacional.
O Índice de Exclusão Social, que é construído por 07 (sete) indicadores (pobreza, emprego formal, desigualdade, alfabetização, anos de estudo, concentração de jovens e violência) é de 0,303 ocupando a 115a colocação no ranking estadual e a 4.664a no nacional.

TRINDADE

O município de Trindade recebeu três nomes. Entre os quais, o primeiro foi “Feira do Toco”, devido a um terreno brocado há não muito tempo e por isso, havia vários tocos, onde foi realizada a primeira feira do município em 1948. Devido à alegria demasiada de alguns, onde consequentemente houve muita bebedeira e com isso varias brigas a feira também foi chamada de, “Feira do Pau”, nesse período, essa parte da terra tinha apenas uma casa de taipa e algumas barracas cobertas de folhas. Como esta localidade se encontra nas proximidades de uma lagoa denominada Espírito Santo o município recebeu nome homônimo e o padroeiro escolhido foi: Divino Espírito Santo.
A emancipação política ocorreu em 1963 e pelo fato de existir uma lei que proibia uma cidade ter nome de Estado, houve a necessidade de mudar o nome da mesma. Com a independência política acontecendo em 20 de dezembro de 1963, o nome dado ao município foi Trindade, que significa: Pai, Filho e Espírito Santo.
Em meados do século XIX, mais especificamente em fins de 1830, na região do sertão do Araripe, onde hoje se localiza a cidade de Trindade, chegou o Capitão Manoel Felix Monteiro, senhor rico que veio do estado da Paraíba, na cidade de Monteiro e que depois de residir nas imediações do Pajeú, na cidade de Flores, deste mesmo estado, dirigiu-se à região, pois reconheceu naquelas terras, fertilidade propicia para pecuária e a agricultura. Desse modo, o mesmo comprou as terras conhecidas por Sítio Baixo e Sítio Patí aos senhores Desidório Ferreira, Manoel Pereira, Antônio Barbosa, Raimundo Pereira e Matias Pereira. O Sr. Eufrásio da Costa Araújo, oriundo de Catolé do Rocha localizada no Estado da Paraíba, comprou 1850 ao Capitão Monteiro por trezentos mil réis os sítios Baixos e Patí. Vale salientar que essa transação comercial efetuou-se através de uma procuração pública passada para o Sr. Pacífico Lopes de Siqueira.
Cinqüenta e dois anos depois o Sitio Baixo foi vendido a diversos condôminos pelo Sr. Eufrásio essas terras foram, com o tempo, sendo vendidas e deixadas como herança. Já em 1936, o município desagregou-se, por Lei Estadual, do município de Ouricuri, ao qual pertencia e se agregaram ao município de São Gonçalo, atual Araripina.
Em 1947, na gestão do então perfeito, Sr. Manoel Ramos de Barros tencionou-se implantar uma feira no sítio Baixo, e assim após um ano, em 29 de janeiro, houve um encontro com a comissão de organização e criação da feira, dentre os quais se encontrava o Pe. Luiz Gonzaga Kerhle, vigário da paróquia de São Gonçalo que rezou a 1º missa campal da futura cidade de Trindade. A primeira feira foi realizada na mesma data, com grande movimento em barracas cobertas de folhas. Posteriormente a esse episódio teve início um levantamento topográfico das ruas que partiriam da Avenida Central. Em pouco tempo foram edificados prédios suficientes para o nascimento de uma vila e depois de um povoado.
A emancipação política de Trindade ocorreu em 1963, na gestão do então governador Paulo Pessoa Guerra, tendo sido nomeado para Prefeito interino o Sr. João Lino Barbosa, que dirigiu o município durante um ano. E a partir do seguinte ano foram realizadas eleições periódicas por voto, para prefeitos e vereadores.
Na feira, que teve origem em janeiro de 1949, e até 1984 foi realizadas aos domingos, eram negociados, em barracas de folhas, produtos como feijão, milho, mamona, farinha, querosene, carnes e peles de animais. Grande parte dos comerciantes eram moradores do local e transportavam seus produtos em animais como: jumento, cavalos, burros e carros-de-boi. Além disso, a feira era visitada por moradores dos municípios vizinhos como Jutaí, Petrolina, Cabrobó, Mirandiba, Araripina, Ouricuri entre outros. Com a evolução do comércio foram surgindo às primeiras casas e pontos comerciais chamadas de bodegas, onde se vendia o básico para a alimentação. Já nos anos 60, contava com lojas onde eram vendidos tecidos, cobertas, chapéus além de outros produtos.
A cidade de Trindade teve assim como o Divino Espírito Santo, uma festa comemorada no mês de maio. Passou com a emancipação e conseqüente mudança do nome da cidade, a ter como Padroeiro a Sagrada Família, que significa Pai, Filho e Espírito Santo. A festa de padroeiro da Sagrada Família é celebrada de 19 a 29 de setembro. Onde de frente a Igreja Matriz ocorre no dia 19, o hasteamento da bandeira, ato religioso que simboliza uma mensagem de Amor e Paz, abrindo as portas para a celebração do novenário da padroeira. Vale Salientar que a primeira igreja evangélica do município de Trindade foi a Assembléia de Deus, fundada em 1964, um ano após a emancipação política, pelo Senhor Pedro Francisco Barbosa. Ao longo dos anos foram surgindo outras igrejas e Trindade hoje conta com aproximadamente 4% de habitantes evangélicos.
Entre as festas de maior destaque na cidade, existe o carnaval, que se restringiam, a princípio, a manifestações de foliões que usando máscaras e sujando-se com talco, saiam de bar em bar e de vilarejo em vilarejo tocando valsinhas em difusoras e vitrolas. Com o passar dos anos a festa ganhou um novo perfil.
Por volta de 1974, um grupo de moços da cidade se juntou à amigos de cidades vizinhas, e tiveram iniciativas de organizar fanfarras, batucadas que passaram a dar um novo estilo ao nosso carnaval, daí nasceu a primeira escola de samba, e como o forte da animação era a bebedeira dos seus componentes, a escola foi denominada de MOWYDAMÉ. Vale salientar que, na região do Araripe, somente o município de Trindade realiza em grande escala a festa carnavalesca, razão pela qual toda a região do Araripe, prestigia, com aproximadamente 40 mil presenças nos quatro dias de festa. Um dos momentos mais forte o desfile das escolas de samba que é esperado com grande expectativa pelos foliões. Nessa festa também se destaca os grupos carnavalescos, dentre os quais se destacam Os Papa Léguas, Os Fugitivos, Agora é que são elas: “Dez Cabaça”, Polêmicos, Bloco da Sorte, Amigos, As Kafajestes, Os Tampas, Os Bocas, Os Bacanas.
Outra festa bastante comemorada, e antiga, é o São João. A princípio as festas aconteciam na quadra da escola Governador Paulo Guerra e eram bastante animadas, contava com apresentações de quadrilhas de todas as escolas do município, barracas e bebidas típicas, também com apresentações de sanfoneiros da região. Com o desenvolvimento da cidade e consequentemente com o aumento da população, a festa passou a ser realizada na Praça de Eventos e nas ruas, com os concursos de quadrilhas, de ruas e apresentação de shows com bandas regionais e artistas da terra.
A historia da educação de Trindade tem sua origem antes mesmo da sua emancipação política, quando o ensino de difícil acesso era oferecido em salões e residências, de forma publica e privada por professores sem formação, a maioria deles eram apenas alfabetizados e poucos tinham o primário completo (ensino fundamental I). Nessa época, o ensino de 1ª a 4ª série se fundamentava somente no desenvolvimento da leitura e escrita. Essa forma de ensino perdurou por quase três décadas. Após a emancipação, havendo melhor acesso no aumento do número de escolas (com funcionamento em salões) e conseqüentemente o aumento de professores contratados para lecionarem em turmas seriadas e multisseriadas de escolas urbanas e rurais direcionadas pelo Departamento Municipal de Educação (atual Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desportos).
O primeiro prédio escolar erigido foi o Ginásio Municipal de Trindade (atual Escola Municipal Governador Paulo Guerra), construído no governo do primeiro prefeito eleito, Otacílio Leocádio da Silva, com autorização do funcionamento do 1º ciclo secundário a partir de 01/03/1968. No ano de 1981 a escola recebeu autorização de funcionamento do segundo grau (atual ensino médio) com habilidade profissional de magistério e teve o seu nome mudado para Escola Municipal Governador Paulo Guerra.
O primeiro prédio de escolarização estadual foi a da Escola Governador Muniz Falcão, construído no Governo Nilo Coelho e na gestão do prefeito Otacílio Leocádio da Silva. Um projeto do presidente dos EUA, John Kennedy, com um programa de ajuda econômica aos vizinhos de continente beneficiou o Sertão do Araripe. A cidade de Trindade recebeu a Escola Governador Muniz Falcão, Ouricuri, a Escola D. Hidílio e Araripina a Escola Independência, todas com a mesma estrutura. Com o passar do tempo foram sendo construídas outras escolas municipais e estaduais de nível fundamental e médio. Com a conclusão do 2º grau, os estudantes sentiram a necessidade de cursar o 3º grau (atual ensino superior). Daí algumas famílias enviaram seus filhos para estudarem nos grandes centros.
Hoje, a educação Trindadense conta com 38 escolas publicas municipais, 10 na zona urbana e 28 na zona rural, 03 escolas públicas estaduais e 02 privadas. Contando com 7.500 alunos matriculados na rede municipal, 2.637 na rede estadual e 614 na rede privada. No ano de 1999, foi oferecido pela primeira vez um curso de nível superior no município. A Faculdade de Formação de Professores de Petrolina – FFPP estendeu o curso de pedagogia à Trindade, com aulas presenciais e duração de dois anos.

Bibliografia

· Atlas Escolar de Pernambuco/ Coordenador Manuel Correia de Oliveira Andrade. –João Pessoa.

Sites consultados (Todos consultados entre os dias 04/04/2008 a 09/05/2008 nos horários da tarde e da noite):

· www.araripina.com.br

· www.portalipubi.com

· www.pt.wikipedia.org

· www.citybrasil.com.br

· www.interlegis.gov.br/comunidade/casaslegislativas/municipal/PE/

· http://www.portaltrindadepe.com.br/mural.htm

· http://www.brasilchannel.com.br/municipios/mostrar_municipio.asp?nome=Trindade&uf=PE

· http://www.reidobaiao.com.br/historia-de-exu

· http://www.pe-az.com.br/turismo/exu.htm

· http://www.ferias.tur.br/informacoes/5423/santa-filomena-pe.html

Anexos:
ESCUDO OFICIAL DO MUNICIPIO DE ARARIPINA – PERNAMBUCO
AUTORIA: Estudante Gildenilson Gomes Pereira
Escolhido através de Concurso promovido pela DERE – Sertão do Araripe, por competente COMISSÃO INTERINSTITUCIONAL que se reuniu com esta finalidade no dia 31/05/1985, na sede do departamento Regional de Educação – Sertão do Araripe.
APROVADO pela Lei Municipal nº 1647 de 26 de Julho de 1985.
SANCIONADA em 30 de Julho de 1985 data a partir da qual foi oficializado.
CORES BASICAS: O dourado, o verde e o marrom.
COMPOSIÇÃO: No escudo com bordas douradas, figuram:
Na parte superior, uma engrenagem de três rodas dentadas, sendo que, ao centro da roda maior está característica ( representando as industrias );
Um pouco abaixo, na parte central do Escudo, no lado direito superior, nossos planaltos e montes, na cor marrom escura;
No lado esquerdo-inferior na parte central do escudo, de cor marrom-clara, o sertão e seu mais autêntico símbolo – o mandacaru, na cor verde;
Com o sol ao alto, na cor dourada, ambos representam os nossos dois tipos de solos comuns e nosso clima semi-árido;
Dividido Chapada e Sertão, uma faixa branca com cinco Estrelas douradas, com uma maior ao centro representando o Distrito.
O escudo pousa sobre uma coroa de ramos de feijão e milho, ambos na cor verde, ficando o ramo de feijão do lado direito e o milho do lado esquerdo do Escudo.
Os ramos surgem por trás das asas de uma Águia Dourada, que representa a nossa soberania.
Por fim, a Águia segura um listel azul, onde estão escritos : “ 1900 – Araripina – 1928” ( Datas de elevação à categoria de Vila e de Emancipação Política, respectivamente).
De conformidade com o Art. 4º da Lei Municipal nº 1647, a mesma entrou em vigor a partir de 11 de Setembro de 1985, data em que se comemora o Aniversario de Emancipação Política do Município.

Hino oficial de Araripina
Nos caminhos do Sertão andou teu povo
E, Pairando sobre ti, terra querida,
Pode ver então surgi um mundo novo
Que ganhou, com trabalho. Força e vida.
Não se esquece tua luta no passado,
Os teus filhos, com muita sapiência,
Defenderam o teu nome perante o Estado
Conseguindo conquistas a independência.
Salve, salve, salve, Araripina
Nossa história, nossa cultura!
Viva o seu verde, as suas minas.
E o teu povo, sua bravura.
És das flores do sertão a mais bonita,
Oásis do deserto brasileiro.
Tuas praças, teus jardins ninguém imita,
Teus o céu dos mais azuis o ano inteiro
Há muito mais beleza nos teus vales,
Na cidade e no olhar de tua gente,
Tu enfrentas, com coragem, muitos males.
E, por isso, o amor do teu filho é mais ardente.
Salve, salve…
Mais se um dia precisares de defesa,
De justiça, da paz e liberdade.
O filho teu fará tremer a natureza
Levantando a espada. Mestra da verdade
Se há tristeza é porque falta sorriso
Há saudades antes de despedir
A lembrança irá consigo ao infinito,
É um filho que acaba de partir.
Salve, salve…
Bandeira do Município

A Lei n°. 1.345, de 31 de julho de 1978, cria, compõe e oficializa a Bandeira do Município de Araripina. Criação de Francisco Alves de Souza. Cores básicas: Amarelo, Azul, Verde, Branco e Marrom. O círculo branco representa a paz, o trabalho com gesso e farinha de mandioca. Círculos sobrepostos representam os Distritos. O milho e a mandioca, as riquezas vegetais. As datas 1909 e 1928 representam as épocas das elevações de Vila e Cidade, respectivamente.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: PROBLEMAS DA HISTÓRIA DE PERNAMBUCO
PROF.: SEVERINO VICENTE DA SILVA

ALUNOS: MARILENE GALDINO
RUI OLIVEIRA BARBOSA

SEMINÁRIO: O SERTÃO DE SÃO FRANCISCO

Recife, 17 de junho de 2008.

SUMÁRIO:

1. Introdução………………………………………………………………………………….03
2. O Sertão do Estado……………………………………………………………………..03
3. Formas de Povoamento do Sertão…………………………………………………04
4. Bacia do São Francisco……………………………………………………………….05
5. A Transposição do Rio São Francisco…………………………………………..05
6. Belém do São Francisco – sua origem…………………………………………..06
6.1 Fazenda Canabrava……………………………………………………………………06
6.2 Fazenda Belém………………………………………………………………………….06
6.3 Cidade………………………………………………………………………………………07
7. Petrolina……………………………………………………………………………………..08
8. Dados relacionados à educação nos municípios da região……………………………………………………………………………………………..09
9. Barragem de Itaparica…………………………………………………………………..12
10. CESVASF: Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco – Breve Histórico……………………………………………………………………………….15
11. Referências Bibliográficas…………………………………………………………..16

1. INTRODUÇÃO

Nosso trabalho se propõe a apresentar questões a respeito da região do Submédio do São Francisco, contudo mais particularmente centramo-nos na região do Vale do São Francisco. Temos a consciência que não conseguimos abranger todas as cidades, e mesmo aquelas que foram citadas neste estudo, tiveram um enfoque bem rápido e pontual. Entretanto gostaríamos de informar que a nossa preocupação não estava num levantamento de dados a respeito dessas cidades, mas evidenciar temáticas que acabam se inserindo na maioria delas, como as formas de povoamento, informações sobre agricultura e pecuária, algumas implicações da construção da barragem de Itaparica, entre outras.

2. O SERTÃO DO ESTADO

Ocupando aproximadamente 70% do território de Pernambuco, o Sertão é a maior região do Estado, onde predomina a caatinga: vegetação seca formada principalmente de jurema, pereiro, xique-xique, marmeleiro, e mandacaru.
No Sertão predomina latifúndios nas áreas de criação de gado. Os minifúndios são encontrados em maior número nas áreas mais elevadas das serras e chapadas, onde aparecem os “olhos d’água” (nascentes de água) que permanecem favorecendo a agricultura.
A agricultura de subsistência tem grande visibilidade no Sertão, praticada em pequenas propriedades instaladas nas áreas úmidas no alto das serras e chapadas, favorecidos pelos olhos d’água perenes ou pelas jusantes de açudes, onde os canais de irrigação são comuns. A agricultura praticada nas áreas serranas é rudimentar e apresenta baixo rendimento. Os principais produtos agrícolas são o milho, o feijão e o algodão. A jusante dos açudes e barragens, anteriormente feita referência, favorece o aparecimento de uma agricultura mais bem planejada, com canais de irrigação e maior assistência técnica, com lavouras de banana, milho, hortaliças, arroz e feijão.
Por apresentar clima semi-árido, o investimento na atividade pecuária apresenta boa expressão, com centro econômico localizado em Petrolina, que ainda se destaca como maior produtor de uvas e vinhos do Nordeste. Esta cidade está localizada as margens do São Francisco.

3. FORMAS DE POVOAMENTO DO SERTÃO

No Sertão, foi a pecuária o elemento essencial de povoamento e desenvolvimento. Através dos caminhos do gado surgem os currais e as feiras. Com o transporte do gado era necessária a criação de locais apropriados para a recuperação do peso, e para o descanso de animais e homens. Assim, vão surgindo os currais e as fazendas, juntamente com pequenas parcelas de culturas de subsistência.
A formação de aldeamentos surgidos a partir das missões religiosas foram também formas de fixação de novos povoados;

“É natural vermos a construção da igrejinha anteceder a criação da freguesia, assim como a criação da freguesia preceder, em muitos anos, à organização política das povoações do Vale. E esses aldeamentos eram, na sua maior parte, quase sempre, resultados dos frades missionários”, (LEITE, pág. 26).

Havia, na região, muitos atritos entre os colonizadores da Casa da Torre de Garcia D’Ávila e os missionários; estes eram freqüentemente forçados a deixar a região, junto com os índios, por isso a presença indígena na região de Belém do São Francisco já era praticamente inexistente em fins do século XVIII.
Quando não era mais possível que as lavouras agrícolas e a pecuária convivessem lado a lado devido à necessidade de amplas pastagens e o desenvolvimento dos rebanhos; esta última ganha o Sertão, uma expansão que ocorre pelas margens de rio e riachos. Então além de alimentos, o gado passa a fornecer couro, matérias-primas para consumo interno e externo.

4. BACIA DO SÃO FRANCISCO

O rio São Francisco foi descoberto em 04 de outubro de 1647 pelo capitão Garcia D’Ávila II e o padre Antonio Pereira; esse rio recebeu seu nome em homenagem ao missionário da Paz, Francisco de Assis.
Sua bacia é formada pelo rio São Francisco e seus afluentes, abrangente cerca de 7,5% do território brasileiro. O rio São Francisco é de planalto, nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais, e atravessa os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe. Possui grande potencial hidrelétrico, e ao longo do seu curso existem várias usinas: Três Marias (que, além de produzir energia elétrica, controla o nível das águas), Paulo Afonso, Sobradinho e Moxotó.
É navegável num longo trecho entre Pirapora (MG), Juazeiro (BA) e Petrolina (PE) e no seu baixo curso, situado na planície costeira. Recebe várias denominações: rio dos currais, devido ao seu papel na criação de gado, e rio da Unidade Nacional, porque une vários estados do Brasil. Possui um regime Tropical.

5. A TRANSPOSIÇÃO DO RIO SÃO FRANCISCO

A idéia de desviar parte das águas do Rio São Francisco para irrigar o Sertão, por meio de um canal que o comunicasse com o Rio Jaguaribe, no ceará, surgiu em 1858.
De ‘rio da Integração Nacional’, o São Francisco virou ‘Pomo da Discórdia’. O motivo em um projeto [...] de retirada de parte de suas águas para tornar permanentes os rios e açudes do semi-árido nordestino, beneficiando Paraíba, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará. Defendida pelo governo federal, a transposição enfrenta oposição por parte de especialistas e políticos de Minas Gerais, Bahia, Alagoas e Sergipe, que temem prejuízos para seus estados.
Ao longo dos anos 1980 e 1990, a transposição voltou ao debate, mas sempre esbarrando em questões técnicas, financeiras e políticas. Em 2004 um novo projeto foi elaborado e aprovado pelo governo federal, com um custo estimado de R$ 4,5 bilhões.
A transposição prevê a construção de espaços de bombeamento, aquedutos, túneis e outras obras para alimentar dois grandes eixos que atingirão os estados beneficiados. O objetivo é retirar do rio uma vazão contínua de 26 metros cúbicos de água por segundo, aumentando esse volume de acordo com a capacidade do reservatório de Sobradinho. Ao longo dos eixos, as águas alimentariam rios e açudes, impedindo-os de secar durante a estiagem. Apesar de as obras atravessam áreas de preservação e terras indígenas, os técnicos [do governo federal] afirmam que o projeto não terá impactos sobre elas. Para os críticos contrários, o projeto beneficia mais as grandes cidades e empresas do que a população dispersa no Sertão.

6. BELÉM DO SÃO FRANCISCO – SUA ORIGEM

6.1 Fazenda Canabrava

Por volta de 1793, o casal Manoel de Carvalho Alves (português) e dona Inácia da Conceição arrendaram terras da “Casa da Torre” de Garcia D’Ávila, na região ribeirinha do São Francisco. Acredita-se que na referida região existia uma planta silvestre e brava, espécie de cana, que dominava a paisagem. Daí o nome da Fazenda CANABRAVA.

6.2 Fazenda Belém

Na antiga aldeia da Ilha Araxá, hoje Ilha da missão, segundo informações, existia uma igrejinha dedicada à Nossa Senhora de Belém. Em 1792 numa grande enchente do rio São Francisco a igrejinha desabou, ficando apenas os escombros. Reza a tradição que batismo do nome de Belém à fazenda do Sr. Antonio de Sá Araújo teria sido em homenagem a Nossa Senhora de Belém.
Nessa fazenda foi construída a primeira igreja – Nossa Senhora do Patrocínio – em 1840, o que favoreceu o seu povoamento. Assim, em 12 de outubro de 1885, pela Lei Estadual nº 553, o povoado de Belém passou a Freguesia e, 17 anos depois, à vila.

6.3 Cidade
Em 07 de maio de 1903, a vila Belém foi elevada à categoria de cidade pela Lei Estadual nº 597 com o nome de Belém de Cabrobó, permanecendo com este nome até 1943, quando passa a ser denominada Jatinã. O nome Belém foi substituído por Jatinã por força de um decreto – lei na ditadura de Getúlio Vargas, quando ficou proibido haver no Brasil duas cidades com o mesmo nome. Como já existia Belém do Pará, foi enviada uma lista tríplice a Mário Melo, na época, diretor do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, e ele escolheu o nome Jatinã por sua preferência a nomes indígenas.
Em 1953, a cidade voltou a receber o nome “Belém” acrescido da expressão “do São Francisco”, que permanece até hoje: BELÉM DO SÃO FRANCISCO.
A partir da década de 70, em homenagem à emancipação política do município, o dia 07 de maio passou a ser comemorado festivamente, constando o evento de: missa solene, disputas esportivas, desfiles estudantis, bailes, congregando assim os belemitas para os festejos de ordem política, cívica, artística e religiosa.
Assim sendo, resumimos nestes quadros as seguintes informações sobre o município de Belém do São Francisco:
· Denominações Diversas;
1793
FAZENDA CANABRAVA
1830
FAZENDA BELÉM
1885
FREGUESIA BELÉM
1902
VILA BELÉM
1903
CIDADE – BELÉM DE CABROBÓ
1928
BELÉM
1943
JATINÃ
1953
BELÉM DO SÃO FRANCISCO

· Independência Política – 07 de maio de 1903;
· Em maio de 1971, o então prefeito Gerson Alves de Carvalho Pires oficializou o Hino do município de Belém do São Francisco.
· O Brasão, a bandeira e o Hino são os símbolos oficiais do município de Belém do São Francisco.

7. PETROLINA

O frei capuchinho italiano, Henrique, realizava missões pelo caminho das águas pelas povoações ribeirinhas; também em ilhas banhadas pelo rio São Francisco, e nos trechos que hoje correspondem aos municípios de Santa Maria da Boa vista e Petrolina. Em medos do século, o mesmo frei fez o pedido da construção de uma capela ao vigário de Coripós, o que hoje é Santa Maria da Boa Vista. A construção foi dada início em 1858 na pequena povoação de Passagem, localizada na margem esquerda do Rio São Francisco; no local havia uma área coberta de rocha, que posteriormente foi utilizada na construção da Igreja Catedral de Petrolina. Na área também conhecida por “Pedra Grande”, fica a atual praça do Centenário, considerada marco zero da cidade.
Recebeu o nome de Petrolina em homenagem ao Imperador Dom Pedro II.

Periodização Histórica – de povoação à cidade

1858
POVOAÇÃO “PASSAGEM DE JUAZEIRO”
1862
FREGUESIA “PASSAGEM DE JUAZEIRO”
1870
VILA DE PETROLINA
1879
COMARCA DE PETROLINA
1893
AUTONOMIA MUNICIPAL

8. DADOS RELACIONADOS À EDUCAÇÃO NOS MUNICÍPIOS DA REGIÃO

CABROBÓ:
População: 28.851 hab. – Área da Unidade Territorial: 1.658 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Total Matrículas do Ensino Fundamental
6.623 estudantes
Matrículas na Escola Pública Estadual
2.069 estudantes
Matrículas Escola Pública Federal
0
Matrículas Escola Pública Municipal
4.114 estudantes
Matrículas na Escola Privada
440 estudantes
Total Matrículas do Ensino Médio
1.962 estudantes
Matrículas na Rede Pública Estadual
1.850 estudantes
Matrículas na Rede Privada
112 estudantes
Nº de Docentes no Ensino Fundamental
408 docentes
Nº de Docentes no Ensino Médio
93 docentes

ITACURUBA:
População: 4.097 hab. – Área da Unidade Territorial: 430 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Total Matrículas do Ensino Fundamental
1.353 estudantes
Matrículas na Escola Pública Estadual
0
Matrículas Escola Pública Federal
0
Matrículas Escola Pública Municipal
1.353 estudantes
Matrículas na Escola Privada
0
Total Matrículas do Ensino Médio
339 estudantes
Matrículas na Rede Pública Estadual
339 estudantes
Matrículas na Rede Privada
0
Nº de Docentes no Ensino Fundamental
54 docentes
Nº de Docentes no Ensino Médio
14 docentes

SALGUEIRO:
População: 53.167 hab. – Área da Unidade Territorial: 1.639 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Total Matrículas do Ensino Fundamental
11.571 estudantes
Matrículas na Escola Pública Estadual
5.934 estudantes
Matrículas Escola Pública Federal
0
Matrículas Escola Pública Municipal
4.106 estudantes
Matrículas na Escola Privada
1.531 estudantes
Total Matrículas do Ensino Médio
2.907 estudantes
Matrículas na Rede Pública Estadual
2.560 estudantes
Matrículas na Rede Privada
347 estudantes
Nº de Docentes no Ensino Fundamental
505 docentes
Nº de Docentes no Ensino Médio
138 docentes

FLORESTA:
População: 26.648 hab. – Área da Unidade Territorial: 3.644 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Total Matrículas do Ensino Fundamental
6.111 estudantes
Matrículas na Escola Pública Estadual
1.922 estudantes
Matrículas Escola Pública Federal
0
Matrículas Escola Pública Municipal
3.788 estudantes
Matrículas na Escola Privada
401 estudantes
Total Matrículas do Ensino Médio
1.901 estudantes
Matrículas na Rede Pública Estadual
1.823 estudantes
Matrículas na Rede Privada
78 estudantes
Nº de Docentes no Ensino Fundamental
347 docentes
Nº de Docentes no Ensino Médio
126 docentes

JATOBÁ:
População: 13.797 hab. – Área da Unidade Territorial: 278 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Matrículas no Ensino Fundamental
3.033 estudantes
Matrículas no Ensino Médio
1.094 estudantes
Nº de Docentes no Ens. Fundamental
150 docentes
Nº de Docentes no Ens. Médio
60 docentes

BELÉM DE SÃO FRANCISCO:
População: 20.545 hab. – Área da Unidade Territorial: 1.831 km².
Ensino – Matrículas, Docentes e Rede Escolar/ 2006.
Total Matrículas do Ensino Fundamental
4.382 estudantes
Matrículas na Escola Pública Estadual
772 estudantes
Matrículas Escola Pública Federal
0
Matrículas Escola Pública Municipal
3.365 estudantes
Matrículas na Escola Privada
245 estudantes
Total Matrículas do Ensino Médio
1.635 estudantes
Matrículas na Rede Pública Estadual
1.607 estudantes
Matrículas na Rede Privada
28 estudantes
Nº de Docentes no Ensino Fundamental
265 docentes
Nº de Docentes no Ensino Médio
74 docentes

9. BARRAGEM DE ITAPARICA
Com a construção da barragem de Itaparica (PE/BA – potencial hidrelétrico: 2.500 MW) cerca de 5.800 famílias de agricultores foram transferidas para agrovilas, em glebas na caatinga. Os projetos abaixo são de reassentamentos que a CHESF (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) foi obrigada a prover as condições necessárias à instalação de uma vida digna para estas famílias:

Santa Maria da Boa Vista
Projeto Caraíba
Orocó – PE
Projeto Brígida
Itacuruba – PE
Projeto Itacuruba
Petrolândia – PE
Projeto Apolônio Sales
Curaçá – BA
Projeto Pedra Branca
Glória – BA
Projeto Borda da Lagoa
Chorochos/Terachil
Piscigranjas
Glória – BA
Jusante
Rodelas – BA
Itacoatiara
Petrolândia – PE
Bloco 2

v Projetos como o Itacoatiara (Rodelas /BA), Jusante ( Glória BA), e BLOCO 2 (Petrolândia /PE); são os que tem apresentado maior demora na conclusão das obras de beneficiamento da região.

Até hoje representantes do Pólo Sindical dos Trabalhadores Rurais do Submédio do São Francisco lutam por melhorias na região, afetada pela construção da barragem de Itaparica e formação do seu lago. Esta construção foi uma ação promovida pela CODEVASF (Companhia de desenvolvimento do Vale do São Francisco) e iniciativas privadas.
Em reunião em setembro de 2005 com o presidente, à época, da CODEVASF, Francisco Guedes, foi reivindicada a devida assistência técnica aos projetos irrigados e a transferência de sua gestão para os reassentados. A luta dos trabalhadores do Pólo é histórica, começou em 1986 quando tiveram que se deslocar para agrovilas já que a área que ocupavam havia sido coberta com a inundação do lago de Itaparica. A partir daí, o Estado garantiu que as mesmas condições de vida que a população tinha antes seriam mantidas. E para tanto, na data de 06 de dezembro de 1986 foi garantido aos reassentados, a formação de um reassentamento irrigado para as cerca de 6.000 famílias de trabalhadores e trabalhadoras da Bahia e de Pernambuco, que estavam passando por todo este processo.
Foi o primeiro projeto financiado pelo Banco Mundial, em todo o mundo, que gerou ao invés de indenizações em dinheiro o reassentamento para as famílias. Infelizmente 20 anos após, esses projetos ainda se arrastam.
Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, foi criado o GERPI (Grupo Executivo para Conclusão do Projeto Itaparica) que instituiu o programa de compensação financeira. Na época o Pólo Sindical utilizou-se de estratégias para que trabalhadores e trabalhadoras não aderissem à proposta, mas um número acima de mil reassentados e reassentadas fez adesão. O que é indicado como um fator de miséria, desemprego e aumento da miséria na região, segundo o Pólo sindical, pois deste dinheiro pouco pode ser feito.
Porém segundo reportagem de 2006, o término para as obras estava previsto para abril/2007, entretanto até aquele momento apenas o que havia sido concluído era a abertura das licitações para compra do material elétrico e de irrigação (Boletim PTRD KOINONIA, 2006)[1].
Após pesquisas feitas em dois assentamentos (Brejinho de Fora – próximo a Petrolândia,PE, e Fazenda Canafístula – próxima a cidade Delmiro Gouveia, AL), pesquisadoras da FUNDAJ, concluíram que a renda família, no primeiro reassentamento, ficava em torno de dois salários mínimos na época. Sendo que aproximadamente metade da renda nos assentamentos provinha de aposentadorias e pensões. A produção agrícola era basicamente voltada ao consumo familiar; eram plantados basicamente milho, mandioca e feijão, mais algumas fruteiras como banana, melancia, coco. As vendas de verduras ou frutas nas feiras são feitas eventualmente. O criatório de animais também dá-se de forma bem resumida, numa média de menos de meia dúzia de animais por família.
A maioria dos serviços, saúde, educação, abastecimento da casa em utensílios e alimentos complementares são feitos na cidade de Petrolândia, no caso de Brejinho de Fora. A facilidade encontrada quanto a transporte na comunidade de Brejinho, não há em Fazenda Canafístula, as vezes é preciso ir a cidade mais próxima, de moto ou a cavalo, ou fretar, na localidade mais aproximada, um carro, esta é a medida mais apropriada se for o caso de haver um doente, ou alguém que um deseje ou não possa se aventurar em caminhadas, ou nos outros meios citados. A situação do ensino nesta comunidade também é precária; a escola construída durante o processo de reassentamento, como parte do compromisso da CHESF, atende apenas crianças do 1º grau menor, conta com 3 professoras, à época, e recebiam 1 salário mínimo. O abastecimento de água nas duas comunidades é ponto de crítica dos moradores devido a distribuição, as quebras freqüentes nas bombas, e o tratamento da água. “Segundo afirmam, há uma enorme diferença entre a qualidade da água que abastecia antes as moradias e a que, hoje, lhes é oferecida. Lá, elas possuíam “fontes” de abundantes e saudável”. (RAT, pág. 22).

10. CESVASF: CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO VALE DO SÃO FRANCISCO – BREVE HISTÓRICO

No ano 1971, o Sr. Alípio Lustosa de Carvalho juntou-se a alguns professores e autoridades de Belém do São Francisco para articularem a possibilidade de se fundar uma faculdade. Foi colocado à disposição o prédio da antiga Escola Normal N. Sra. do Patrocínio, em horário noturno, para funcionamento da instituição idealizada. Em novembro de 1975, através da Lei nº 04/75, publicada no D.O. de 13 de novembro de 1975, foi instituída a Autarquia Municipal Faculdade de Formação de Professores de Belém do São do São Francisco (FAFORBE).
Os cursos da FAFORBE foram reconhecidos em 04 de setembro de 1984, através de Portaria Ministerial nº 377, publicada no Diário oficial da União, em 13 de setembro de 1984. No mesmo ano, em dezembro a Autarquia passou a ser denominada de Autarquia Belemita de Cultura, Desportos e Educação – ABCDE, e a FAFORBE passou a ser denominada pelo nome que conhecemos até hoje, Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco – CESVASF. A plenificação de seus cursos se deu no ano seguinte, através da portaria ministerial 222, de 20 de março de 1985; e o que era o curso de Ciências Sociais foi desmembrado em História e Geografia; porém o reconhecimento destes só foi obtido em 1991. Em fevereiro de 1994, foi autorizado mais um curso, desta vez o de Ciências, com Habilitação em Matemática, reconhecido em 10 de maio de 2001.
Desde 2000, o CESVASF começou a oferecer cursos de Pós-Graduação “Latu Senso” nas áreas de História, Letras e Geografia, todos autorizados pelo Conselho Estadual de Pernambuco. Em 2003, os cursos de pós-graduação foram ampliados, coma criação dos cursos de Geografia do Turismo, História Contemporânea, Técnicas Educacionais, Educação Matemática e Educação Ambiental.
Em 2007 foram instituídos mais dois cursos de graduação, Biologia e Física e, na pós-graduação, as especializações em Ensino de Língua Inglesa e em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena. Hoje o CESVASF com 32 anos, vem assim, alargando seu campo de atuação e desenvolvendo um trabalho reconhecido pelos órgãos educacionais e pela comunidade da região, a qual é também diretamente beneficiada pelas atividades de extensão desenvolvidas por esta Instituição de Ensino Superior.

11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· Boletim do Programa Trabalhadores Rurais e Direitos KOINONIA – Ano I – nº 0 / 2006.
· Especial Rio São Francisco (continuação 4) 26/10/2004. http://www.ana.gov.br/
· LEITE, Marlindo Pires. Belém: uma cidade no Vale do São Francisco / Marlindo Pires Leite, Maria Estelita Lustosa Roriz. Maria Auxiliadora Lustosa Coelho; prefácio de Edson Lustosa Cantarelli. – Recife: CEPE, 1993.
· LIMA, Ana Elisa V.; GALINDO, Magda Caldas. Projeto Itaparica: avaliação do reassentamento rural (4º Relatório de Acompanhamento Trimestral – RAT). FUNDAJ, 1995.
· SILVA, Severino Vicente da. Mergulhados na saudade das cidades mergulhadas nas águas do Lago de Itaparica. IN: www.ufpe.br/historia/artigo4rev1

[1] Associação sem fins lucrativos, formada por pessoas de igrejas cristãs e de outras expressões de fé, além de líderes do movimento social. Tem como princípio fundamental o compromisso com o ecumenismo e a democracia tendo em vista a luta em favor da cidadania, contra toda forma de exclusão humana.

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CURSO DE TURISMO
HISTÓRIA DA CULTURA
PROF. SEVERINO VICENTE DA SILVA

RAP E REPENTE

EQUIPE:

DANIELLE RODRIGUES MENDES FERREIRA
INÊS HEBRARD
MARIANA MELO DO NASCIMENTO
RENATA MAGALHÃES DE LIRA

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. …………p. 2

I. CONCEITOS-CHAVE……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ….. ….p. 3
a. Tradição e renovação
b. Improviso na fala, nas artes, na música

II. REPENTE ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……….p. 6
a. Definição de Repente
b. História
c. Métrica
d. Subdivisão do gênero: embolada, aboio e cantoria de viola
e. Principais repentistas
f. O Repente na atualidade

III. RAP……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. …………. …….p. 10
a. A cultura hip-hop
b. O Rap: definição e evolução
c. O Rap brasileiro

IV. RAP-REP……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ………….p. 13
a. Personagens
b. Eventos
c. Depoimentos e considerações finais

CONCLUSÃO ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. …………………… .p 16
BIBLIOGRAFIA……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………….. ……………………p. 17

INTRODUÇÃO

“Nada se perde, nada se cria, tudo se tranforma”, disse Lavoisier. Essa lúcida constatação adapta-se particularmente bem ao tema de nosso trabalho. Rap e repente são gêneros musicais que apareceram em épocas, lugares e ambientes completamente distintos, porém têm certos pontos em comum que explicam o seu recente encontro. Nos últimos meses, poetas repentistas e rappers tem começado a cruzar suas artes, num movimento que recebe o rítmico nome de rap-rep.
Vamos mergulhar na história e na evolução destes dois gêneros musicais, que ainda não foram consagrados nem nas pesquisas nem nos manuais. Seu encontro exemplifica uma das problemáticas inerentes à História da Cultura: a tradição lida com a modernidade, o contemporáneo se inspira no passado… A particular trajetória do repente e do rap, elementos que fazem parte da cultura musical brasileira, servem de ilustração ao conceito dinâmico de “Cultura”.
Depois de fazer esclarecimentos necessários à comprensão do tema, passaremos a apresentar separadamente cada um dos gêneros, o repente e o rap. Finalmente, falaremos da sua mistura.

I. CONCEITOS-CHAVE

a. Tradição e Renovação

O conflito entre tradição e renovação na cultura é um tema recorrente, no qual a teoria é mais fácil de impor do que a prática. A cultura é dinâmica e é importante preservar a tradição, contudo a renovação é essencial para se manter viva uma tradição, o problema é a dosagem. Quando as culturas alcançam a união entre tradição e renovação elas se fortalecem, mantendo os alicerces sobre os quais se erguem e acrescentando soluções criativas para os desafios da contemporaneidade e da globalização.
Encontros entre grupos de repentistas e rappers acontecem sem muita divulgação, por todo país, resultando numa surpreendente miscigenação cultural entre elementos aparentemente incomunicáveis: a cantoria de viola e o hip-hop. As resistências e dificuldades vão sendo quebradas e surgem interações que ainda é cedo para saber em que vão dar. A mistura entre o rap e o repente tem um lado mercadológico e um lado cultural. Em termos de mercado, não se compara à gigantesca máquina que existe por trás do hip-hop.
O rap da mesma forma que o repente é um estilo de cantar versos improvisados. Existem diferenças na sua base rítmica, do modo como rimam e como se organizam em estrofes. Entretanto, tudo que é improviso é repente, e as formas de improviso nordestina têm pontos de contato com improvisos da cultura hip-hop. O hip-hop e o repente têm raízes parecidas e na maioria das vezes têm a intenção de retratar a realidade em que estão inseridos. Rap significa ritmo e poesia e isso equivale ao que os emboladores fazem.
Atualmente os poetas (repentistas) estão sendo inseridos em um cenário urbano, em grandes festivais e congressos ou em meios como rádio e televisão. Além de cultuarem o universo mítico em que se originaram suas artes incorporam temas da atualidade em seus desafios, do mesmo modo que os folhetos de cordel sempre fizeram. Os rappers começaram a procurar os poetas na maioria das vezes em uma atitude reverencial, na qualidade de mestres da poesia. Essas notáveis iniciativas receberam as atenções do poder público que passou a incentivar o “diálogo entre as culturas”.
O repente nordestino e o hip-hop descendem da poesia oral africana. Esta descendência pode ser notada através de características como: a propensão lúdica ao jogo de palavras puro e simples; a vocação agonística, competitiva, dos grandes desafios; o sentido profundo de que dois poetas são porta-vozes de suas comunidades; e até mesmo recursos específicos como trava-língua, a enumeração, as perguntas e respostas.
A aproximação que existe entre o rap e o repente gera convivência entre manifestações artísticas de mesma origem e espírito semelhante, contudo são separadas pelo gigantismo financeiro que uma veio a atingir e pela desvalorização que sofre a outra, existente há 150 anos no Nordeste, e que sempre foi vista com desdém pela maioria dos nordestinos ricos e letrados.

b. Improviso na Fala, nas Artes, na Música

“Todos nós improvisamos o dia inteiro, – só que em prosa. Nenhum de nós prepara e decora o que vai dizer no dia-a-dia, e quando tenta fazê-lo (declaração de amor…entrevista de emprego…depoimento à polícia…) geralmente dá com os burros n’água. Somos todos improvisadores – mas em prosa”, diz Braulio Tavares. Mas certas pessoas falam com mais fluidez que outras, ou seja, certas pessoas têm uma maior capacidade para improvisar. O professor de oratória de executivos, artistas e políticos Reinaldo Polito é mestre em ciências da comunicação, e autor de 17 livros sobre o assunto. Segundo ele, “a capacidade de improvisar é uma das qualidades dos bons oradores”. E acrecenta que “improvisar não significa falar sobre o que não se conhece, e sim organizar os pensamentos e transformá-los em palavras diante de situações não esperadas.”
Segundo Nuno Matos Duarte, quando se trata de definir o improviso no relacionamento que este tem com a arte, os dicionários usam expressões tais como “é o discurso, poesia ou trecho musical proferido, feito ou executado sem preparação”. Mas essa falta de preparação é relativa. Com efeito, como diz Eugênio Mussak, “Só improvisa quem conhece o assunto sobre o qual deve improvisar”. Desta forma, nas artes o improviso pode desenvolver-se com certa preparação, não deixando de ser improvisação por esse motivo. Esta teoria pode ser verificada através de vários exemplos.
Assim, já nas origens do teatro, na famosa Comédia dell’Arte, ou Comédia dell’Improviso, os atores deviam ter uma grande capacidade de improvisação, sendo que não existiam os “scripts”. Na época era comum que um ator representasse a mesma personagem durante muitos anos seguidos, aumentando assim a sua capacidade de improvisação na pele desse personagem. Não podemos dizer que o ator saía em cena “sem preparação”, já que sua atuação era o resultado de uma experiência, de um trabalho prévio. Mas ele, certamente improvisava.
O mesmo acontece na música. A improvisação é usada em vários gêneros musicais, nacionais e internacionais, eruditos e populares. Na Europa ocidental, já na Idade Média, juglares eram capazes de improvisar poemas e cantorias. No Nordeste brasileiro, no maracatú rural, existia antigamente a “sambada de pé na parede”. Na Bahia, nas rodas de capoeira, ao som dos pandeiros e berimbaus, o coro às vezes improvisa cantorias. De forma geral, o gênero de música mais comunmente associado à improvisação é o jazz, mais particularmente o “be-bop”. Mas os improvisadores desta música possuim o que Nuno Matos Duarte chama de “uma espécie de léxico musical que, no fundo, não é mais do que uma extensa coleção de clichés, “vocábulos”, com o poder de tornar o discurso musical coerente, embora este, sendo improvisado, se vá tornando obra à medida que o músico o vai inventando em tempo real”.
E essa constatação, na verdade, é válida para todo tipo de improvisação: “Só improvisa quem conhece o assunto sobre o qual deve improvisar. Chefes de cozinha improvisam nas panelas, músicos improvisam com os instrumentos, professores improvisam na sala de aula, médicos improvisam no hospital de campanha, poetas improvisam ao ouvido de suas musas” (Eugênio Mussak). Assim, como aqueles jazzman possuem um “léxico musical”, rappers e repentistas possuem um repertório bem completo de palavras, versos e rimas que permitem inúmeras combinações, de forma que eles podem inovar – e, portanto, improvisar – constantemente. Eles são especialistas das palavras, por isso podem improvisar com elas. Com razão o rapper fancês MC Solaar fez famosa a sua declaração “meu livro de cabeceira é o dicionário”.

II. O REPENTE

a. Definição

O repente pode ser chamado de improviso, é a arte do instante, a arte de criar no momento da execução da obra, pois se considera o momento do improviso como o ponto mais alto alcançado pela arte do cantador nordestino. É nesse momento, com o verso feito na hora, metrificado, bem rimado, no calor do momento e diante da platéia, que se observa a maestria desse artista do povo, que é o repentista. Esse ritmo, que também pode ser chamado de desafio, é uma forma de criação artística ainda não consignada nos manuais. Tem presença marcante no Nordeste brasileiro, é mescla entre poesia e música na qual predomina o improviso – a criação de versos “de repente”. É uma arte transversal, que pode ocorrer em diferentes atividades. Define-se o repente genuíno, como aquele que é criado no calor do momento, sem que seja possível voltar atrás e consertar os detalhes, os pequenos defeitos, já que criação e exibição foram simultâneas para o público.
A palavra repente pode ser usada com dois significados principais, segundo uma discussão dos próprios poetas. Primeiro, querendo dizer improviso, coisa feita na hora, é o verso resultante da imaginação do próprio cantador. Por outro lado, a expressão O Repente também tem um significado mais amplo, sendo sinônimo de Cantoria de Viola, referindo-se a arte dos cantadores, juntamente com: os modelos poéticos, o jeito de cantar, os valores estéticos, os rituais.

b. História

O Repente é uma tradição folclórica brasileira, tendo sua origem relacionada com os trovadores medievais. No caso do Brasil, a tradição ibérica dos trovadores deu origem aos cantadores, os chamados poetas populares, que vão de região em região, com a viola nas costas, para cantar os seus versos. Estes versos aparecendo na forma de trova gaúcha, do calango (Minas Gerais), do cururu (São Paulo), do samba de roda (Rio de Janeiro) e do repente nordestino. Diferente dos outros, o repente nordestino se caracteriza pelo improviso, em um desafio com outro cantador. Não se leva em consideração a beleza da voz ou a afinação, o que vale é o ritmo e a agilidade mental, fazendo com que o oponente fique encurralado apenas através da força do discurso.
O repente se insere na tradição literária nordestina do cordel, de histórias cantadas em abundantes versos, publicadas em pequenos folhetos, que são vendidos nas feiras por seus próprios autores. Ele foi para o Sudeste em meados do século XX, junto com a migração de nordestinos para as grandes capitais: chegou a São Paulo por volta de 1946 com o alagoano Guriatã de Coqueiro (Augusto Pereira da Silva) e, no Rio de Janeiro, instalou-se na Feira de São Cristovão.

c. Métrica

O repente possui diversos modelos de métrica e rima, tendo ainda uma variação na organização dos seus versos. O seu cantar normalmente é acompanhado de um instrumento musical, podendo ser o dedilhar de uma viola de sete ou dez cordas. Nas cantorias é preciso seguir as métricas delimitadas para modalidade. A rima deve ser feita de acordo com a estrutura das palavras e não pelo som. Existe ainda um rigor com as métricas da rima improvisada.

Estrutura de alguns estilos:
· Sextilha: Seis versos de sete sílabas cada.
· Brasil Caboclo: Estrofe da décima, com refrão nas 2 linhas finais: “Neste Brasil de caboclo, de Mãe Preta e Pai João”, e melodia própria.
· Quadrão mineiro: Oito versos de sete sílabas, com o refrão “Cantando quadrão mineiro” na última linha, e melodia própria.
· Martelo agalopado: 10 versos, com 10 sílabas cada. Os versos são acentuados nas sílabas três, seis e dez.
· Martelo alagoano
· Martelo miudinho
· Galope beira-mar
· Gabinete
· Quadrão de meia-quadra
· Toada alagoana
· Gemedeira
· Mourão de sete linhas
· Décima
· Dez pés a quadrão
· Mourão Voltado
· Dez de queixo caído
· Oito pés a quadrão
· Mourão você-cai

d. Subdivisões Do Gênero

Os improvisos cantados variam em função da parte instrumental. A partir disso acontece uma subdivisão desse gênero em embolada, aboio e cantoria de viola, que se baseia no fato de que os repentistas, de um modo geral, são poetas que fazem versos improvisados.
Ø EMBOLADA: pode ser chamada de coco ou coco de embolada. Arte surgida no Nordeste, diferenciada pelo uso de pandeiro ou ganzá, tem um estilo mais livre, mais solto. É feita com uma dupla de cantadores que usam versos rápidos e improvisados onde um tenta diminuir, desfazer, a imagem do outro, com versos ofensivos, famosos pelos palavrões e insultos utilizados. O cantador ofendido deve improvisar uma resposta rápida e ao mesmo tempo bem bolada, caso não consiga, o outro é coroado triunfante.

Ø ABOIO: é um canto utilizando apenas a voz. Foi se modificando e hoje é cantado em dupla, no norte de Minas Gerais e em versos no estado de Pernambuco.

Ø CANTORIA DE VIOLA: é uma atividade musical que se baseia em uma improvisação de versos por dois cantadores que se alternam, respeitando normas poéticas. A cantoria é uma arte que se iniciou no meio rural, especialmente no sertão, e aos poucos conquista o público das grandes e pequenas cidades. Apesar do pouco reconhecimento que a cantoria tem, ela continua até hoje encantando através dos violeiros.

e. Principais Repentistas

O Repente tradicional, composto pelos violeiros-cantadores em duelo, se manteve graças a alguns nomes importantes como: Oliveira das Panelas (vencedor do 1º Campeonato Brasileiro de Poetas Repentistas, realizado em 1997), Mocinha da Passira, Valdir Teles, Lourinaldo Vitorino, Sebastião da Silva, Azulão, Miguel Bezerra, Otacílio Batista, Ivanildo Vila Nova, Zé Cândido, Ismael Pereira e Natan Soares. Ivanildo Vila Nova venceu inumeráveis concursos de Repente, têm dezenas de CDs gravados, participou de muitas excursões tanto no exterior, como no Brasil, é considerado um divisor de águas na cantoria. Além deles merece destaque, a dupla de emboladores mais célebre do Brasil, Caju e Castanha. Viraram estrelas de cinema pelas telas de Walter Sales. Cantando no Mercado São José e também em outros pontos do Recife foi como eles começaram a ganhar a vida. Além de suas rimas próprias eles produziam os seus próprios pandeiros. A dupla já fez shows na França, em Londres e até mesmo no Rock in Rio. Em 2001, o Caju faleceu, e no seu lugar ficou Cajuzinho. Sendo assim, atualmente Castanha divide os desafios com o sobrinho Cajuzinho.

f. O Repente na Atualidade

O cantador moderno acompanha as mudanças que acontecem no perfil social da população nordestina. Atualmente o cantador, continua fazendo shows aonde ele é chamado, mas já acrescenta a sua atividade elementos da modernidade como, como celular, automóvel e avião. Os estilos próprios da cantoria se mantêm, mas os temas utilizados é que se modificam, já que a arte do cantador consiste em se apodera do presente, sem abrir mão do passado. Não se substitui a tradição, mas se acrescenta a ela novas técnicas, novos temas e novas motivações.

III. O RAP

a. A Cultura Hip Hop

O Hip-hop é geralmente definido como um movimento cultural urbano que surgiu a partir dos anos 60, entre a Jamaica e os Estados-Unidos. A “cultura hip-hop” se compõe, básicamente, de quatro tipos de manifestação artística: o canto, a instrumentação, a dança e a pintura (cf. tabela aqui embaixo).

MANIFESTAÇÃO

Instrumentação
NOME -Disc-Jockey
PESSOA – Disc Jockey e/ou MC (Mestre de Cerimônias)
DEFINIÇÃO – Música feita a partir do uso de dois discos de vinil, dos quais se usa :
- a parte instrumental da música, chamada de “Break”, com a qual se podem fazer “Scratchs” (atrito da agulha do toca-discos no disco de vinil).
- Os “Samples”, pedaços instrumentais ou vocais de outras músicas reutilizados para criar outra peça.
Dança
Break-Dance
Breaker
Movimentos rápidos e malabarismos corporais, com formas e equilibrismos herdados das artes marciais.
Pintura
Graffiti
Tagger
Pintura realizada em muros, geralmente em espaços públicos. É uma forma de “marcar o territorio”, usada por gangs ou rappers.
Canto
Rap
Rapper
Ver embaixo.

O Rap: definição e evolução

Rap (sigla inglesa para “Rythm and Poetry”, Ritmo e Poesia) é o que podemos chamar de “expressão musico-verbal” da cultura hip-hop. O rap tem uma batida rápida e acelerada e a letra vem em forma de discurso, com muita informação e pouca melodia. Segundo o texto de suapesquisa.com, “quando o rap possui uma melodia, ganha o nome de hip-hop”…
Não existem estudos empíricos sobre a origem deste tipo de música, mas as pesquisas apontam que sua origem estaria na década de 60 na Jamaica.
Nos anos 70 houve um forte movimento de imigração de jamaicanos para os Estados-Unidos, e começa a ser conecido em Nova Iorque um DJ jamaicano, Kool Herc. A ele se atribui a combinação do Sound-Stystem e o canto falado, assim como da técnica do “scratch”. Certas historiografias insistem em remontar as origens do rap até as músicas negro-americanas como o Funk e o Jazz, se bem parece mais exato falar de “influência” ou “uso” do funk pro surgimento do Rap. Com efeito, as primeiras gravações identificadas como Rap consistiam na declamação de um texto sob o ritmo das batidas de tambores africanos, sendo a negritude o tema principal.

Gangsta Rap
O Gangsta Rap (Rap Gângster) surgiu nos Estados Unidos no meio dos anos 80. Com letras duras e brutais o gangsta rap logo ganhou espaço na mídia mundial, e foi desde o começo alvo de muitas críticas. Entre os maiores gangsta rappers destacam-se Tupac, Eazy-e, Compton Most Wanted ,entre outros, que em suas rimas falavam das desigualdades e do racismo além do ódio que sentiam uns pelos outros e pela sociedade que os rejeitava. Este tipo de Rap apresenta, basicamente, letras baseadas no estilo de vida dos membros de gangues.

Free-style Rap
É o modo de cantar o rap de forma improvisada, colocando versos feitos na hora, no que se chama uma “batalha ou “desafio” de rappers. Os versos são, assim, baseados nos versos dos seus adversários. No Brasil existem cada vez mais rimadores que vem alcançando sucesso, como por exemplo Marechal, Max B.O., Kamal e Slimrimografia.
A princípio as batalhas de freestyle no Brasil tinham pouca força, mas passaram a ganhar mais espaço depois de serem organizadas por Mc’s do Rio de Janeiro como Dom Ngrone, Marechal, Aori, entre outros.

c. O Rap Brasileiro

Segundo o rapper Master Tee, o nascimento do Rap brasileiro aconteceu em São Paulo nos anos 80 (quase simultaneamente com os Estados-Unidos). Lá, um grupo de jovens começou a dançar breack, e logo depois alguns deles tornaram-se rappers, isto é começaram a criar e declamar versos ao som da batida.
A primeira música de RAP a surgir no Brasil foi “Kátia Flávia”, em 1987, de autoria de Fausto Fawcett e Laufer, gravada com os Robôs Efêmeros.
O registro inicial do rap brasileiro é a coletânea Hip Hop Cultura de Rua (1988, Eldorado). Ela trouxe faixas dos grupos Thaíde e DJ Hum (produzidas por Nasi e André Jung, do grupo de rock Ira!), MC Jack, Código 13, entre outros. No começo dos anos 90, Thaíde e DJ Hum e os Racionais eram reconhecidos como os mais sérios e importantes nomes do rap paulistano, sempre envolvidos com campanhas de conscientização da juventude e movimentos de divulgação, unificação e promoção do hip-hop no Brasil.
Naquela mesma época, surgiu no Rio de Janeiro uma nova figura no rap: o adolescente branco de classe média alta Gabriel Contino, vulgo Gabriel o Pensador, que estourou no final de 1992 nas rádios com a música Tô Feliz, Matei o Presidente, direcionada para Fernando Collor, que tinha acabado de renunciar, acusado por corrupção. Ele pode ser considerado o Eminem brasileiro, já que conseguiu inserir-se no mundo do rap, antes dominado exclusivamente pela população negra.
Quase desde seu início, o rap começou ser utilizado e misturado por outros gêneros musicais. O movimento manguebeat, por exemplo, presente na música de Chico Science & Nação Zumbi fez muito bem esta mistura. Em Recife, o Faces do Subúrbio apostava, por sua vez, na embolada-rap.

IV. RAP-REP

a. Personagens

No início da década de 90, surgiu no Alto Zé do Pinho a banda Faces do Subúrbio, formada por jovens da periferia, fortemente influenciada pelo movimento hip-hop americano. O líder do grupo Zé Brown, juntamente com os outros integrantes, incluiu em suas letras a temática da realidade ao seu redor assim como os outros rappers por toda a América Latina. Através do contato com a realidade local construíram uma ligação entre ritmos brasileiros como o repente, literatura de cordel, a embolada e as batidas do hip-hop. Conhecido como rapper de respeito, Zé Brown, percebeu algumas afinidades entre o rap e o repente, através de certas características que os dois ritmos têm em comum, principalmente versos livres, rimas repetidas e batidas rítmicas, desde então ele passou a compor letras de rap com batidas de embolada. Simultaneamente no eixo Rio-São Paulo, com a forte presença de nordestinos em comunidades pobres, houve uma influência dos emboladores no rap local.
Um dos destaques do rap paulistano, Thaíde, participou em 1994 de um vídeo com Raio de Luz, poeta repentista e embolador que se apresentava nas ruas do centro de São Paulo. Em 2000, o rapper teve um encontro no interior do Ceará com o lendário Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, o maior nome da poesia de cordel. Este encontro foi promovido pelo jornalista e escritor Bruno Zeni na Serra de Santana, junto à pequena Assaré, Ceará. O poeta e o rapper declamaram versos e conversaram entre outros temas sobre meninos de rua, Deus, Luiz Gonzaga e Lampião. O encontro foi gerador de razoável repercussão na mídia. Para Thaíde, “a juventude precisava de uma maneira mais direta para transmitir sua mensagem. O repente sempre teve o dom da palavra, e se juntou ao hip-hop de uma maneira muito natural.” Ele faz uma homenagem à Patativa, dizendo que é preciso “conhecer pra respeitar”. Também fala que: “o Brasil tem uma música muito rica em termos de matemática literária, em termos de produção musical, em termos históricos”.
Rappin Hood, outro rapper paulistano, gravou um disco com a famosa dupla Caju e Castanha, assim como fizera Zé Brown, que também teve a oportunidade de gravar com os emboladores e desde então mergulhou numa pesquisa no universo do coco de embolada que o fez conhecer vários mestres anônimos.

b. Eventos

Em 2005, na programação do Ano do Brasil na França, no Carreau du Temple e, depois, na Torre Eiffel, o mais consagrado dos cantadores nordestinos, Ivanildo Vila Nova, se apresentou com o Faces do Subúrbio. Ao que consta, com sucesso de público. A experiência foi repetida no Rio, desta vez entre Ivanildo e os rappers BNegão, Bernardo e Gabriel o Pensador.
Em outubro passado, entre os dias 26 e 28, na cidade de Campina Grande, na Paraíba, foi realizado o I Encontro Nacional de Rappers e Repentistas no Spazzio, com entrada franca. O evento contou com a participação de artistas e profissionais de todos os cantos do país e apresentou um versátil leque rico de opções, como shows musicais, apresentações teatrais, mostra de dança, cinema e vídeo e exposições de xilogravura e cordel. Além de oficinas e seminários, que pretendiam abordar e discutir a diversidade da cultura brasileira. O evento foi promovido pelo Ministério da Cultura, em parceria com o Governo da Paraíba, por meio da Subsecretaria de Cultura do Estado e com o apoio cultural da Petrobrás, por sugestão do próprio ministro da Cultura, Gilberto Gil. Estavam presentes nomes importantes como: Zé Brown, Gabriel o pensador, Caju e Castanha, “As Ceguinhas” de Campina e Nelso Triunfo. A idéia do I Rap & Rep foi mostrar que gêneros aparentemente tão distintos têm muito mais em comum do que se pensa. Assim a rima e a poesia, a dança de rua, a discotecagem e o graffiti coexistiram com a embolada, o cordel e o próprio repente.

c. Depoimentos e Considerações finais

Essa combinação de ritmos foi registrada pelo documentário “Poetas do Repente” produzido pela Fundação Joaquim Nabuco. O documentário é composto por quatro programas dentre eles, um que é intitulado Recriando o Repente, trata da interação entre essas diversas formas de expressão poética e mescla cenas de shows, conjuntos e depoimentos de rappers, poetas populares, produtores, jornalistas e teóricos. Pelos depoimentos, percebe-se a riqueza da situação e suas dificuldades. Afinal, não se faz por decreto a união de formas poéticas diversas no tempo, no espaço, nas classes sociais, nos objetivos e no posicionamento mercadológico. Recriando o Repente relaciona as modernas formas urbanas de improviso, como o rap, e procura ver suas possíveis ligações com a poesia popular nordestina.
O poeta (erudito e popular) paraibano Astier Basílio resume: “A cantoria vive dessa contradição de ser rígida e ao mesmo tempo possibilitar várias renovações. É um código que tem pilastras que não se alteram, mas ao mesmo tempo essas pilastras se renovam de forma diferente. Não é possível pensar a contemporaneidade como algo adversativo à tradição. (…) A possibilidade de diálogo teria de crescer muito mais. É muito mais possível ao rapper brincar com elementos formais da cantoria, introduzindo no seu desempenho, do que o cantador jogar a viola do lado, pegar um microfone e colocar uma base. Por que ele não pode fazer isso? Porque o código em que ele se insere não permite esse tipo de procedimento. Quando se estabelece essa relação de diálogo, ela é muito mais possível pela liberdade que o rapper faz com outras coisas – com o samba, com outros elementos musicais, pode fazer com a cantoria. (…) Essa renovação segue uma exigência do mercado. Não pode dissociar. Não é só uma fruição estética…A cantoria tem exigência de mercado, de aperfeiçoamento, de adaptação”. Ele também considera que a cantoria evolui pela necessidade de adeqüar-se a novos públicos e a novas condições técnicas, não é apenas por opção estética.
Ivanildo Vila Nova comenta a experiência da mistura do rap com o repente, afirmando que para que os dois grupos se entendam, um deles não precisa cantar igual ao outro: “Nem o pessoal do hip-hop pode cantar no tom do cantador, nem nós podemos cantar dançando e balançando, porque assim ia descaracterizar a cantoria”.
Bruno Zeni arremata: “O repente é um avô do hip-hop. O hip-hop tem muito a aprender com o repente. Acho que o repente pode aprender um pouco com o hip-hop também”.
Assim, nessa dialética entre tradição e renovação, a cantoria de viola, do alto dos seus quase 150 anos de prática, encara agora o diálogo com os jovens do hip-hop brasileiro, nascido em meados dos anos 80.

CONCLUSÃO

Uma frase popular diz que “Você não pode depender do improviso para viver, mas se não souber improvisar, estará perdido”. Poderiamos dizer que os repentistas fizeram dessa frase a regra de base de seu trabalho. O mesmo aconteceu com o genêro musical relativamente recente, o rap. Finalmente, a fusão de rap e repente aconteceu em boa hora. Talvez seja o golpe de ar fresco que ambos precisavam: o repente, pelo desgaste natural que sofrem as manifestações culturais que gostamos de chamar de “tradicionais”, o rap pela constante demanda de inovação.
“A criação improvisada, por ser “performativa”, parece aceitar erro e defeito, bem como o seu fim cronológico, fundando mesmo a sua estética no efémero, isto é, estabelece-se como processo criativo que respeita a sequência “nascimento – vida – morte”, diz Nuno Matos Duarte em seu artigo. Certamente, rap e repente aceitam essa idéia de efêmero para as suas criações, mas não para elas mesmas como artes. Com todas as aspas necessárias para o uso destas noções, podemos dizer que o encontro do rap e o repente é uma “renovação” da cultura popular “tradicional”. Com o rap-rep, presente e passado mostram-se juntos, desafiam-se e ao mesmo tempo misturam-se, transformando-se num exemplo perfeito do conceito dinâmico de “cultura”.

BIBLIOGRAFIA – WEBOGRAFIA

MASTER TEE, “Freestyle rap”, http://www.planetablack.com/arquivoshtm/materias/freestyle.html
“O Rap”, http://www.suapesquisa.com/rap/
“Rap Brasileiro”, http://www.mundosites.net/musica/rap.htm
MATOS DUARTE, Nuno, “Artes e improviso”, http://nuno-matos-duarte-textos.blogspot.com/2007/03/arte-e-improvisao-uma-questo-de.html
MUSSAK, Eugênio, “O improviso”, em http://vidasimples.abril.com.br/edicoes/048/pensando_bem/conteudo_236906.shtml?pagina=1
TAVARES, Braulio, “O verso que cai do céu”, Continente, fevereiro de 2008, n° 86
ZENI, Bruno, Encontro de Patativa do Assaré com Thaíde, em http://www.memorial.sp.gov.br/memorial/revistaNossaAmerica/20/esp/musica-es.htm
Poetas do repente, Ed. Massangana, Recife, Fundação Joaquim Nabuco, 2008 (Livro e DVD)
“Cantoria de viola”, Tesauro de Folclore e cultura popular brasileira http://www.cnfcp.com.br/tesauro/00002148.htm
Site “Aboio” http://www.teia.art.br/sites/aboio/
“Embolada”, http://pt.wikipedia.org/wiki/Embolada
Site do evento Rap-rep, http://www.raprep.com.br/programacao.php

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Universidade Federal de Pernambuco – UFPE
Centro de Artes e Comunicação – CAC
Curso: Turismo
Disciplina: História da Cultura
Prof.Severino Vicente da Silva

MITOS E LENDAS DE PERNAMBUCO

Equipe: Thomás Galvão
Jeckson Andrade
Andreza Campos
Rhaissa Cezar
Caroline Carvalho

Recife, 11 de junho de 2008.
Sumário

Introdução…………………………………………………………………………………………………………. 1
Lendas e Mitos de Pernambuco…………………………………………………………………………… 2
A Lenda…………………………………………………………………………………………………………… 2
O Mito…………………………………………………………………………………………………………. 3
Lendas e Mitos de Pernambuco (por região)…………………………………………………………. 4
Zona da Mata……………………………………………………………………………………………………. 4
Litoral……………………………………………………………………………………………………………… 5
Sertão……………………………………………………………………………………………………………… 6
Região Metropolitana………………………………………………………………………………………….. 7
Todo o Estado…………………………………………………………………………………………………… 8
Estudiosos sobre Mitos e Lendas………………………………………………………………………. 10
Luís Câmara Cascudo……………………………………………………………………………………….. 10
Gilberto Freyre…………………………………………………………………………………………………. 11
Lendas do Recife: um novo modo de explorar o Turismo……………………………………… 13
Considerações Finais………………………………………………………………………………………… 14
Bibliografia………………………………………………………………………………………………………. 15

Introdução

“As formas mais interessantes da literatura oral são os contos, os mitos e as lendas. Eles exprimem a concepção do mundo compartilhada pelos membros de uma coletividade e servem para reforçar a solidariedade social e a coesão moral do grupo. Dizem que a imaginação do povo, com suas maneiras peculiares de expressão, é que espalha na terra os encantos, as ilusões e as virtudes.” (MEGALE, Nilza Botelho, 2001)

As lendas e mitos são manifestações da cultura de um povo e tem sua natureza na oralidade, já que é esse o principal meio de transmissão dos mesmos. Não há um consenso na definição dessas duas manifestações, o que amplia ainda mais a compreensão de seus significados, mas sabemos que estão inseridos num contexto sócio-cultural, e que podem estar associados a um local e a um determinado espaço de tempo. É válido ressaltar que o que é considerado mito em uma cultura, pode ser lenda, ou conto, ou caso em outras culturas. Porém no mito e na lenda há uma carga emocional muito forte do fator crença, algo que é fundamental para o processo de sobrevivência de ambos e é também uma das características que os destaca das demais formas narrativas.
São muito associados ao conceito de folclore e são, geralmente, alvos de análise da Sociologia, História e Filosofia, porém de uns anos pra cá, já tem aparecido em outros âmbitos científicos, como por exemplo, no universo da lingüística. Isso demonstra que a temática oferece um campo fértil para estudos e pesquisas.
Antigamente os mitos e as lendas não eram abordagens muito utilizadas, principalmente em sala de aula, ao contrário do que acontece hoje, onde é possível se ver um trabalho mais efetivo em cima dessa questão. Inclusive há projetos que utilizam esses aspectos culturais como forma de trabalhar outros assuntos, tais quais sustentabilidade, e educação ambiental.

Lendas e Mitos

A cultura popular tem como essência o imaginário, que configura uma riqueza imprescindível. É nesse campo fértil que o imaginário popular atua, revelando sentimentos que desabrocham em lendas, mitos, contos, crendices, superstições e em outras belezas que retratam a nossa cultura.

A Lenda
Há de se considerar, que as lendas são narrativas que enfeitam e caracterizam um lugar, acompanhadas de mistérios, assombrações e medo. Não se sabe ao certo como nasceram e criaram as lendas. Elas acompanham fatos e acontecimentos comuns, ilustrada por cenários exóticos e de curta extensão. Muitas vezes são fatos verídicos acrescentados de novos dados ou até mesmo recriados. Podendo ser muito confundida com os mitos. Para Paulo de Carvalho Neto: “Lenda – É uma narrativa imaginária que possui raízes na realidade objetiva. É sempre localizável, isto é, ligada ao lugar geográfico determinado.”
Afonso Arinos entende lenda como: “Lenda vem de ‘ler’, como ‘legenda’ vem do latim ‘legere’; é o que deve ser lido. Era de costume nos conventos e mosteiros, desde os primeiros tempos da era cristã, fazer cada dia, à hora das refeições em comum nos vastos refeitórios, a leitura da vida do santo que dava o nome ao dia. Daí a denominação ‘lenda’; o trecho a ser lido. A lenda era a biografia dos santos e bem aventurados. Como fossem diárias as leituras e pudessem faltar as biografias, foram sendo compostas ou acrescentadas com as ações que a fé ardente dos autores atribuía a seus heróis. Não podia haver lenda sem sinceridade e simpleza no coração. Em todos os casos, ainda quando reconhecida depois como fabulosa, a lenda foi sempre na sua origem a expressão naquilo que ele julga sinceramente a verdade.
Para Câmara Cascudo:
“As lendas são episódio heróico ou sentimental com elemento
maravilhoso ou sobre-humano, transmitido e conservado na tradição oral e
popular, localizável no espaço e no tempo. De origem letrada, lenda,
legenda, “legere” possui características de fixação geográfica e pequena
deformação e conserva-se as quatros características do conto popular:
antigüidade, persistência, anonimato e oralidade. É muito confundido com
o mito, dele se distância pela função e confronto.” (p.348) (1976)

O Mito
O Mito é uma narrativa tradicional, com caráter explicativo e/ou simbólico. Procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio de deuses, semi-deuses e heróis (criaturas sobrenaturais). Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade. Ele tem natureza filosófica própria, pois procura através de argumentos, saber e explicar sua realidade, mesmo que, para nós, não sejam tão claras de serem compreendidas.
Comumente, associa-se erroneamente, o conceito de mito a mentira, ilusão, ídolo e lenda. O mito não é uma mentira, pois é verdadeiro para quem a vive. A narração de determinada história mítica é a primeira atribuição de sentido ao mundo, sobre o qual a afetividade e a imaginação exercem grande papel. Não podemos afirmar também que o mito é uma ilusão, pois sua história segue uma linha de raciocínio mesmo que não tenha uma lógica. Fatos históricos podem transformar-se em mitos se adquirirem uma determinada carga simbólica para uma dada cultura.
Devemos diferenciar mito e ídolo, pois mesmo existindo uma relação entre eles, o mito é muito “maior” que o ídolo (objeto de paixão, veneração). Como exemplo, temos a história do Super-Homem. Ele representa um ídolo, pois é venerado. Porém sua história é mítica, devido ao fato de representar todos os momentos de fracassos do ser humano na pele de Clark Kent, e por outro lado, como Super-Homem assume a capacidade de ter sucesso pleno em todas as áreas. Assim, o Super-Homem é um ídolo, porém sua história é mítica, sendo a única forma de representar a incapacidade do pleno sucesso humano, sem frustrações; pois o único que conseguiria tal feito seria um super herói, e já que esse não existe, os seres humanos ficam mais conformados com suas limitações e “criam” o mito do Super-Homem para poderem “falsamente” confortar-se com sua realidade.
Segundo Luís da Câmara Cascudo “O mito pode ser um sistema de lendas, gravitando ao redor de um tema central com área geográfica mais ampla e sem exigências de fixação no tempo e no espaço…”. (1976)
A nossa forma de compreensão do mundo dessacraliza o pensamento e a ação mítica (isto é, retira dele o caráter de sobrenaturalidade), fazendo surgir a filosofia, a ciência e a religião. Como mito e razão habitam o mesmo mundo, o pensamento reflexivo pode rejeitar alguns mitos, principalmente os que vinculam valores destrutivos ou que levam à desumanização da sociedade.
Agora que já temos um conhecimento prévio sobre as definições e contextualizações de mitos e lendas, partiremos para a abordagem de alguns exemplos que são muito comuns no estado de Pernambuco. É válido ressaltar que os mesmos foram classificados por local de predominância, mas que podem ser encontrados em outros cantos do estado, inclusive do país. Vale salientar também que por serem transmitidos oralmente, possuem um caráter de flexibilidade muito grande, o que faz com que surjam variações de uma mesma história. Fizemos aqui então, um apanhado das principais informações que foram coletadas sobre alguns mitos e lendas.

Lendas e Mitos de Pernambuco

Zona da Mata

A Cumade Fulozinha
Um dos nomes do Caipora-fêmea na cultura lendária de Pernambuco. É conhecida na Paraíba como flor-do-mato. Tem a missão de proteger as matas e os animais que nelas vivem. Como protetora tem o controle de toda a mata. Em dias de caça só favorece aos caçadores, quando por sua vez se vê beneficiada em alguma coisa. Não o sendo, fica irada, e se vinga escondendo a caça, afugentando-a para longe, fazendo com que o homem se canse e nada consiga.
Detesta crianças malcriadas, e carrega consigo um chicote feito de talos de urtiga para dar uma “lição” nos garotos desobedientes, principalmente os que maltratam a natureza. Sua chegada é anunciada com um assovio que funciona da seguinte maneira: quando se escuta de perto, ela está longe, e quando o assovio é escutado ao longe, ela está perto.
Para fazê-la mansa é necessário levar consigo uma lembrança, que se bota num pé de pau e ela vai buscar. De preferência fumo e cachaça. Essa caipora se apresenta como se fora uma menina de doze anos, com os cabelos longos e estirados e de aparência simpática. É sempre vista pelos caçadores que em geral lhe votam grande admiração e respeito, pois sabem que para ter uma boa caça precisam de sua ajuda. As exceções constituem aqueles que se utilizam de pimenta. É coisa que aborrece a Cumade Fulozinha. Mas ela sabe vingar-se.

O Papa-Figo
Mito muito comum em todo meio rural. Acredita-se que a intenção do conto era para alertar as crianças para o contato com estranhos, como no conto de Chapeuzinho Vermelho.
O Papa Figo é um homem muito feio de orelhas enormes que mata crianças para comer seu fígado. Outras vezes, pode parecer como um velho esquisito que carrega um grande saco às costas. Na verdade, ele mesmo pouco aparece. Prefere mandar seus ajudantes em busca de suas vítimas. Os ajudantes por sua vez, usam de todos os artifícios para atrair as vítimas, todas crianças claro, tais como: distribuir presentes, doces, dinheiro, brinquedos ou comida. Eles agem em qualquer lugar público ou em portas de escolas, parques, ou mesmo locais desertos.
Depois de atrair as vítimas, estas são levadas para o verdadeiro Papa-Figo, um sujeito estranho, que sofre de uma doença rara e sem cura. Um sintoma dessa doença seria o crescimento anormal de suas orelhas.
Diz a lenda, que para aliviar os sintomas dessa terrível doença ou maldição, o Papa-Figo, precisa se alimentar do Fígado de uma criança. Feito a extração do fígado, eles costumam deixar junto com a vítima, uma grande quantia em dinheiro, que é para o enterro e também para compensar a família.

Litoral

A Alamoa

Duende feminino que aparece principalmente na ilha Fernando de Noronha. É uma mulher branca, loura, nua, tentando os pescadores ou caminhantes retardados. Transforma-se num esqueleto, endoidecendo o enamorado que a seguiu. Aparece também como uma luz ofuscante, policolor, perseguindo quem foge dela. Sua residência é o Pico, elevação rochosa, de mil pés de altura, absolutamente inacessível.
“As sextas-feiras a pedra do Pico se fende e na chamada porta do Pico aparece uma luz. A Alamoa vaga pelas redondezas. A luz atrai sempre as mariposas e os viandantes. Quando um destes se aproxima da porta do Pico, vê uma mulher loura, nua como Eva antes do pecado. Os habitantes de Fernando chamam-na alamoa, corruptela de alemã, porque para eles mulher loura só pode ser alemã… A vítima entra na porta do Pico, crente de ter entrado para fruir as delícias daquele corpo fascinante. Ele, entretanto, é mais infeliz que o cavaleiro Tannhauser. A ninfa dos montes transforma-se numa caveira baudelairiana. Os seus lindos olhos que tinham o lume das estrelas, são dois buracos horripilantes. E a pedra logo se fecha atrás do louco apaixonado. Ele desaparece para sempre.
(Olavo Dantas, Sob o Céu dos Trópicos, 28, Rio de Janeiro, 1938).

João Galafuz

Nome com que a superstição popular designa uma espécie de assombração, que diz aparecer em certas noites, emergindo das ondas ou surgindo dos cabeços de pedras submersas, como um facho luminoso e multicor, prenúncio de tempestade e naufrágios; crença essa dominante entre os pescadores e homens do mar do norte do Estado de Pernambuco, e principalmente de Itamaracá, dizendo-se que esse fantasma marinho é a alma penada de um caboclo, que morreu pagão, acaso conhecido por João Galafuz. A superstição tem curso também em outros Estados, como Sergipe, porém lá recebe o c nome de Jean de la Foice.

Sertão

O Gritador
Acredita-se que seja um fantasma que ronda o sertão do estado sendo mais comum no vale do São Francisco. O Gritador é também conhecido como “Zé-Capiongo”, e vive gritando dentro da noite. Contam que ele é a alma de um vaqueiro que, desrespeitando a Sexta-Feira da Paixão, saiu a campear e nunca mais voltou. Sumiu misteriosamente com o cavalo, o cachorro e a rês que campeava. Virou assombração. Hoje vive gritando no mato, aboiando uma boiada invisível como ele.
Embora os seus gritos sejam mais ouvidos durante a noite, o Gritador não tem hora para gritar. Dizem que até ao meio-dia ele clama no meio do mato, assombrando os vivos, assustando os bichos. Nas noites de sexta-feira, além do seu aboio triste, são ouvidos o rumor dos cascos do seu cavalo e o ladrar do seu cachorro.

Região Metropolitana do Recife

O Caralho-de-asas

Outra parte do corpo humano transformada em mito é o órgão genital masculino. Em uma versão de narrativa masculina, o “caralho-de-asas” é o responsável pela gravidez de paternidade não-identificada. Em uma narrativa em grupo feminino, a referência ao caralho-de-asas se dá como advertência às moças, para que não tomem banho de rio e de açude, bem como não durmam “desprevenidas”, isto é, sem roupas íntimas. O caralho-de-asas, que parece ser a permanência do mito grego de Leda e o Cisne. Júpiter metamorfoseado em cisne, manteve relações sexuais com a ninfa Leda, a qual veio a conceber os gêmeos Castor e Pólux – tem uma iconografia que foi documentada fotograficamente no Rio de Janeiro e na cidade do Recife. Há também a sua presença como personagem de história em quadrinhos de revistas de palavras cruzadas e enigmas destinados a público masculino, denominado de “passaralho”.

A perna-cabeluda

Os jornais e as emissoras de rádio do Recife divulgaram em varias matérias a aparição de uma perna humana destacada do corpo, cabeluda, que chutava pessoas em diversos subúrbios da região metropolitana. Tal entidade foi objeto de dois folhetos de poetas populares, o que atesta a sua incorporação à cultura folk. A criação desse mito tem sido atribuída ao radialista conhecido como Jota Ferreira. O mito foi objeto, também, da produção de um vídeo, cujo lançamento ocorreu no bar-boate sugestivamente denominado “Boato”.

Todo o estado
A Cabra Cabriola

A Cabra Cabriola, era uma espécie de Cabra, meio bicho, meio monstro. Sua lenda em Pernambuco, é do fim do século XIX e início do século XX. Era um Bicho que deixava qualquer menino arrepiado só de ouvir falar. Soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas às sextas a noite. Mas, o pior era que a Cabriola entrava nas casas, pelo telhado ou porta, à procura de meninos malcriados e travessos, e cantava mais ou menos assim, quando se aproximava:
Eu sou a Cabra Cabriola Que como meninos aos pares Também comerei a vós Uns carochinhos de nada…
As crianças não podiam sair de perto das mães, ao escutarem qualquer ruído estranho perto da casa. Podia ser qualquer outro bicho, ou então a Cabriola, assim era bom não arriscar. Astuta como uma Raposa e fétida como um bode, assim era ela. Em casa de menino obediente, bom para a mãe, que não mijasse na cama e não fosse traquino, a Cabra Cabriola, não passava nem perto.
Quando no silêncio da noite, alguma criança chorava, diziam que a Cabriola estava devorando algum malcriado. O melhor nessa hora era rezar o Pai Nosso e fazer o Sinal da Cruz.
É também conhecida como bicho-papão, cabriola ou papão de meninos. No Brasil, deriva-se de um mito afro-brasileiro, onde acreditava-se tratar-se de um duende maligno que tomava a forma de uma cabra. Costumava atacar as mães quando estavam amamentando, bebiam seu leite direto nos seus seios, e depois devoravam as crianças. Além de Pernambuco, existem versões deste mito nos estados do Ceará e Pará.

A Bruxa

Também conhecida como Feiticeira, Súcubo e Velha Bruxa esse mito tem origem européia, de muitos anos atrás, e os elementos que nos chegam vieram de Portugal. A Bruxa para as crianças é a figura clássica da mulher velha, alta e magra, corcunda, queixo fino, nariz pontudo, olhos pequenos e misteriosos, cheia de sinais nos cabelos, e manchas na pele.
O principal trabalho das Bruxas é carregar meninos que teimam em não dormir cedo, ou em alguns casos, mantendo os vestígios do mito de origem Européia, sugar seu sangue sem que ninguém a veja, já que é capaz de se tornar invisível. No Norte do país, ela é conhecida como Feiticeira.
Para evitar que a Bruxa entre numa casa, deve-se riscar nas portas os símbolos cabalísticos; o sinal de Salomão, que é uma estrela de seis pontas, feita com dois triângulos; a estrela de cinco pontas, que é o sagrado pentágono; ou as palhas secas do Domingo de Ramos postas em forma de cruz, ou fios da fibra de Caroá, planta usada para fazer barbantes, linhas de pesca e tecidos. A Bruxa então é obrigada a parar, e só entra na casa depois de contar fio por fio daquele feixe de fibras de Caroá, ou Gravatá. A tradição é a mesma na Europa. Em Portugal é um molho de fios. Na Itália mata-se um cachorro e a Bruxa é obrigada a contar os cabelos do animal.
Com uma foice molhada na água benta ou outra lâmina, como uma faca, de forma compassada, de meia-noite ao primeiro cantar do galo, deve-se ferir o ar em volta do berço onde dorme a criança que está sendo sugada pela Bruxa. Ao fazer isso, um golpe pode acertar a Bruxa e assim ela perde o encanto, isso quebra suas forças, e ela retoma sua forma humana e fraca.
Em outros estados, Minas Gerais, estado do Rio de Janeiro, Goiás, a Bruxa se transforma em borboleta noturna, uma espécie amarelada que aparece quando o sol se põe. Diz-se que a Bruxa é a sétima filha. Sempre aparece em torno do número Sete, que tem um forte apelo místico.
Na Europa, as Bruxas se reúnem nas noites de sexta-feira, sendo presididas pelo Diabo em pessoa. Estas Bruxas voam sentadas em cabos de vassouras. De acordo com a tradição Brasileira, ela algumas vezes se apresenta como uma velha carregando uma pequena trouxa de roupa, e quando vê uma criança, logo lança sobre ela mau olhado.
Quando uma Mulher já teve seis filhas, partos seqüenciais, antes de nascer uma sétima, para livrar-se da maldição de virar Bruxa, deve a mãe colocar nela nome masculino. Caso não faça isso, e se nasce menina, ao completar sete anos se transforma em borboleta, entra pelas fechaduras das portas para chupar o umbigo das crianças recém nascidas. E assim, logo a criança adoece de um mal chamado de “Mal de sete dias”, que é muito grave, mortal. Para livrar as crianças desse mal, a parteira deve colocar embaixo da cama da mulher que deu à luz, uma tesoura aberta, milenar símbolo de proteção.

Estudiosos sobre Mitos e Lendas

Luís da Câmara Cascudo

Luís da Câmara Cascudo nasceu em Natal, Rio Grande do Norte, em 30 de dezembro de 1898. Filho do Coronel Francisco Cascudo, o futuro historiador e folclorista estudou Humanidades no Ateneu Norte-Rio-Grandense, cursando posteriormente Medicina na Bahia e no Rio de Janeiro até o 4° ano, quando desistiu da carreira, ingressando na Faculdade de Direito do Recife, onde se formou em 1928. Essa iniciação científica na Medicina, entretanto, de alguma forma deve ter sido proveitosa e útil ao seu interesse pela etnografia e pelo próprio folclore, onde a intuição, por si só, não é suficiente para o estudo e análise de ambas as disciplinas, ainda que seja naturalmente indispensável.
Embora só se tenha formado em 1928, já aos 30 anos portanto, desde a mocidade Luís da Câmara Cascudo se dedicava ao jornalismo, tendo estreado nas colunas do jornal A Imprensa, aliás propriedade de seu pai, passando daí em diante a escrever em todos os jornais de Natal. Além do jornalismo, também o magistério foi uma constante em sua vida, inclusive pelo fato de que a fortuna paterna se havia perdido e as necessidades materiais se impunham duramente, em contraste com o início risonho e fácil à época da mocidade. Professor de História do Brasil no Ateneu Norte-Rio-Grandense, na Escola Normal e no Instituto de Música, Luís da Câmara Cascudo aposentou-se afinal, em 1966, como professor de Direito Internacional Público da Faculdade de Direito da UFRN. Foi ainda secretário do Tribunal de Justiça e consultor jurídico do Estado atividades todas, no entanto, que jamais prejudicaram ou fizeram arrefecer seu continuado labor de pesquisa e elaboração nos campos de sua indiscutível especialidade: a história, a etnografia e o folclore. Seu primeiro livro publicado data de 1921 – Alma Patrícia – crítica literária, iniciando uma vasta bibliografia que ultrapassa de muito a centena de obras, não se falando na colaboração jornalística, impossível de ser recenseada, e em prefácios, introduções, conferências, anotações, etc. Voluntariamente homem de província, encerrado entre seus livros numa casa também provinciana, Câmara Cascudo, entretanto, não é monge de clausura ou inimigo da geografia. Ao contrário, já fez quatro viagens de estudos à Europa, uma à África e outra ao Uruguai, não se falando no Brasil, que conhece bem, com exceção do norte amazônico.
Com um nome que hoje se projeta muito além das fronteiras culturais do Brasil, sua ascendência no campo dos estudos etnográficos não sofre contestações, e sua obra, como um todo, é profunda lição de apego às raízes tradicionais do Brasil, que ele expõe e analisa em função da história, dos costumes, dos mitos, das lendas, do pensar do povo sobre que se apóia a cultura erudita assimilada de outras fontes criadoras, como via de acesso à civilização material que nos conforma.
Distinguido por inúmeras condecorações nacionais e internacionais, além de várias medalhas culturais, Luís da Câmara Cascudo já mereceu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, por conjunto de obra, e ainda conquistou o Prêmio Hening Albert Boilesen, por “sua contribuição ao aperfeiçoamento cultural do país”.
Não se sabe ao certo quantas foram as obras escritas por Câmara Cascudo, até o próprio autor desconhecia a exatidão desses números. De acordo com o acervo de Carlos Lyra, “o homem que fotografou Cascudo”, e que provavelmente tem a maior coleção de seus livros, e também segundo o livro de Zilda Mamede, Luís da Câmara Cascudo: cinqüenta anos de vida intelectual; 1918-1968; bibliografia anotada (1970), há cerca de 180 obras, entre traduções, correções, anotações e comentários. Entre elas estão: Alma Patrícia, critica literária (1921); Antologia do Folclore Brasileiro (1944); Geografia dos mitos brasileiros (1976); História da Cidade do Natal (1947); Anubis e outros ensaios (1983); Tradições populares da pecuária nordestina (1956); Flor dos romances trágicos (1982); História dos nossos gestos (1976); Breve História do Palácio da Esperança (1961) e; O mais antigo marco colonial do Brasil (1934).

Gilberto Freyre
Sociólogo, antropólogo e escritor, Gilberto Freyre nasceu no Recife, a 15/03/1900. Autor de dezenas de livros, entre os quais “Casa Grande e Senzala” (1933), seu mais importante trabalho, obra considerada fundamental para o entendimento da formação da sociedade brasileira. Escreveu seu primeiro poema aos 11 anos de idade e, em 1917, concluiu, no Recife, o curso colegial (Colégio Americano Gilbeath de Pernambuco), seguindo, no princípio de 1918, para os USA, onde fez seus estudos universitários: na Universidade de Baylor (bacharelado em Artes Liberais com especialização em Ciências políticas e Sociais) e na Universidade de Colúmbia (mestrado e doutorado em Ciências Políticas, jurídicas e Sociais) onde defendeu, em 1922, a tese “Vida Social no Brasil em Meados do Século XIX”. Viaja a países da Europa e retorna ao Brasil em 1923. Considerado pioneiro da Sociologia no Brasil, em 1926 foi um dos idealizadores do I Congresso Brasileiro de Regionalismo do qual resultou a publicação do Manifesto Regionalista – documento contrário à Semana de Arte Moderna de 1922 e que valorizava o regionalismo nordestino em confronto com as manifestações da “cultura européia”. Em 1936 e 1959, publica, respectivamente, os livros “Sobrados e Mocambos” e “Ordem e Progresso”, obras que, com “Casa Grande e Senzala”, formam uma trilogia sobre a história da sociedade patriarcal brasileira.
Foi pioneiro no Brasil ao abordar, em estudos sociológicos, temas como alimentação, moda, sexo etc. e causou polêmica ao defendera tese de que a riqueza cultural brasileira originou-se da mistura de raças (a miscigenação racial) propiciada pelo fato de o colonizador português não ter preconceitos raciais e isso teria facilitado o contacto com o colonizado cordato. Em 1946 foi eleito deputado federal constituinte (UDN-PE), sendo vice-presidente da Comissão de Educação e Cultura da Câmara e representante do governo brasileiro na Assembléia geral das Nações Unidas em 1947.
Quando deputado, apresentou o projeto de criação do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (posteriormente transformado em fundação). De 1926 a 1930, foi secretário particular do então governador de Pernambuco, Estácio Coimbra. Durante a ditadura Vargas foi preso três vezes. Apoiou o governo militar que se instalou no Brasil em 1964 e, posteriormente, defenderia uma reabertura. Foi, também, pintor. Como jornalista, dirigiu o jornal “A Província” (Recife) e o Diario de Pernambuco; escreveu para a revista O Cruzeiro e colaborou com várias revistas estrangeiras, entre as quais The American Scholar (USA), The Listener (Londres), Diogène (Paris), Kontinent (Viena) e outras. Era integrante do Conselho Federal de Cultura desde a sua criação; foi presidente do conselho-diretor da Fundação Joaquim Nabuco (Recife); detentor de vários prêmios literários e doutor Honoris Causa de dezenas de universidades brasileiras e estrangeiras. Da Rainha Elezibeth II recebeu o título de Cavaleiro do Império Britânico. Morreu no Recife, a 18/07/1987, de isquemia cerebral, depois de passar uma semana na UTI do Hospital Português.

Lendas do Recife: um novo modo de explorar o turismo

Fazendo parte do programa Recifense Praticante, o projeto Lendas do Recife realizado pela primeira vez em 13/01/2006, tem como objetivo percorrer trilhas onde, supostamente, teriam ocorrido fenômenos sobrenaturais e que fazem parte do imaginário popular. Para dar um ar mais realista e promover uma maior interação com o público, a prefeitura contrata atores para se caracterizarem como fantasmas e assombrações e contar as lendas aos visitantes. Várias histórias são contadas no projeto que ocorre em datas esporádicas.
Em sintonia com a idéia do projeto Recifense Praticante o projeto Lendas do Recife tem suas atividades inicialmente voltadas para a população da cidade, elevando a auto-estima do recifense e despertando a cidadania dos que nela vivem. A proposta é, sobretudo, trabalhar o turismo como um agente de inclusão geográfica, cultural e social do Recife.
A idéia inicial da trilha “mal assombrada” nasceu de uma proposta apresentada por alunos do 2º período do curso de turismo da Faculdade Metropolitana da Grande Recife, na disciplina de fundamentos do turismo, e foi incorporada no projeto de sensibilização turística de recife coordenada pelo turismólogo Renato Barbosa de Souza e executada pelos estagiários do projeto. Os alunos puderam com a visita, participar de uma trilha urbana noturna observando a operacionalização prática do aprendizado em sala de aula, analisando os pontos positivos e negativos desta trilha que mostra além de lendas assustadoras toda riqueza histórica cultural e arquitetônica do bairro do recife.
Nas edições já realizadas, uma média de 200 pessoas percorre trilhas selecionadas onde supostamente teriam ocorrido fenômenos sobrenaturais e que, até hoje, povoam a crença popular. Episódios como o da “Emparedada” da Rua Nova, mortes no cemitério de escravos na Cruz do Patrão, personagens misteriosos que surgiam no Teatro de Santa Isabel e as assombrações do Rio Capibaribe, são algumas das muitas lendas que já foram abordadas pelo projeto.
Com a chegada do inverno, que dificulta a execução de qualquer evento de rua e por problemas burocráticos de repasse de dinheiro, o projeto se encontra parado, sem previsão de retorno, mas com a certeza de que um grande público espera a sua volta.

Considerações Finais

Com a influência estrangeira, o Brasil, hoje, um país riquíssimo, se tratando de mitos e lendas, abandona um pouco sua história e incorpora aspectos da cultura externa e isso se reflete na abordagem contida nessas narrativas. Por um lado isso enriquece ainda mais o universo mítico e lendário nacional, em contramão o país mostra que ainda está rendido às intervenções internacionais. Não que se deva haver um processo de protecionismo, mas deve se procurar um meio-termo para essa situação, de modo que, não deixe o país tão suscetível ao que vem de fora, nem que se torne uma nação impenetrável, sem possibilidade de comunicação.
Com as reflexões e dados apresentados neste trabalho queremos identificar um pouco da cultura brasileira através do estudo dessas duas formas de expressão cultural e mostrar que ambas nos dão subsídios para entendermos melhor nossa história. Espera-se, assim, que o mesmo possa colaborar com o processo de sensibilização e valorização da cultura nacional, mais especificamente a local, gerando uma conscientização no que diz respeito ao zelo pelo o que é nosso.

Bibliografia

Sites:
http://www.terrabrasileira.net/folclore/regioes/3contos/entesnd.html#topo

http://www.orecifeassombrado.com/Historias008.html

http://ich.unito.com.br/view/2926

http://www.memoriaviva.com.br/cascudo/

http://sitededicas.uol.com.br/folk04.htm

http://sitededicas.uol.com.br/folk15.htm

http://www.recife.pe.gov.br/pr/secturismo/lendas.php

http://www.metropolitana.edu.br/?pagina=lab_npt_vis_len

htpp://www.orecifeassombrado.com

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http://www.recifensepraticante.com.br/acoes/lendas_do_recife/39450%3B56776%3B0106%3B0%3B0.asp

http://pernambucocomamor.blogspot.com/2008/02/o-caralho-de-perna-cabeluda-os-jornais.html

http://pt.wikipedia.org/wiki/Mito#Tipos_de_mitos

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lenda

Livros:

CASCUDO, Luís da Câmara. Geografia dos Mitos Brasileiros. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olímpio, 1976.
DANTAS, Olavo. Sob o céu dos trópicos. 28, Rio de Janeiro, 1938
FREYRE, Gilberto. Assombrações do Recife Velho. Rio de Janeiro: Condé, 1955.
MEGALE, Nilza Botelho. Folclore Brasileiro. 4. ed. Vozes, 2001.

Tags Categories: Sem categoria Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 19 jun 2008 @ 04 09 PM

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02 de dezembro de 1870



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