As Representações da Cultura Nordestina Através da Música e Literatura[1]

Nathália Mendes[2]

Introdução

Uma região esquecida e constantemente associada à seca e as mazelas decorrentes da mesma, o Nordeste constitui grande parcela da riqueza do Brasil em diversas esferas, sobretudo a cultural. Pensando nessas problemáticas e nas concepções negativas dadas a região Nordestina, intelectuais, cantores locais e outras personalidades, passam a representar o Nordeste em suas diversas faces, não se esquecendo de denunciar as questões sociais, mas, de evidenciar o leque da cultura produzida e vivida pelo povo nordestino.

Dessa maneira se deve pensar a região como resultado de uma produção, de agentes históricos que abandonaram a divisão do País em Norte e Sul, e com as mais diversas dinâmicas e artifícios criaram uma unidade entre esses estados, agrupando características afins criando o que denominamos de Nordeste, como cita Durval Muniz de Albuquerque Jr:

“O Nordeste não é um fato inerte da natureza. Não está dado desde sempre. Os recortes geográficos, as regiões são fatos humanos, são pedaços de história, magma de enfrentamentos que se cristalizam, são ilusórios ancoradouros da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente, originada por uma tradição de pensamento, uma imagística e textos que lhe deram realidade e presença”. (MUNIZ,  1966 , p.66)

No presente trabalho, visa-se a evidenciação do Nordeste, em seus diversos conceitos, nos diálogos e representações culturais através da música e literatura, pontuando questões indispensáveis como a seca e as relações do povo nordestino a partir dela, e de como constitui um elemento de problemática social frente ao descaso dos governos em suas políticas públicas. Pontuando também aspectos culturais do Nordeste a partir das obras de algumas personalidades, como: João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e Luiz Gonzaga.

1. Conceitos de Nordeste

Por muito tempo, o Nordeste não era assim denominado, nem considerado, faltava-lhe o reconhecimento de sua identidade. Marginalizado pela ótica lançada sobre o Brasil que de maneira mais geral era divido entre Norte (a parte mais superior), e Sul (a parte inferior). E apesar de durante a colonização o que concebemos como Nordeste constituir um pilar na economia canavieira, após a descentralização da economia para a região Sul, a “importância” dessa região Nordeste foi abandonada.

Nessa perspectiva de regionalização, uma visão estigmatizada do Nordeste e da figura do nordestino é reproduzida culturalmente, como uma verdadeira introjeção concebida até mesmo pelo povo nordestino. A ideia de inferioridade, de ausência de cultura, de inteligência e, sobretudo, de capacidade são as concepções atribuídas ao nordestino e durante muito tempo  constituintes de uma barreira. Que apesar do surgimento de diversos movimentos e produções no objetivo de romper essas estruturas preconcebidas, ainda na atualidade existe a negação de um Nordeste importante e contribuinte nas mais diversas esferas, situação presente não apenas na consciência autônoma do nordestino a respeito de sua relevância, mas, de outras regiões e estados brasileiros.

Devido a essas determinantes que o Nordeste foi pensado, não só em sua nomenclatura, usada até os dias atuais, mas, enquanto importante de fato para a construção de identidade de um povo que tem suas raízes culturais, e de como contribuem com a economia, a forma de pensar e fazer política. Sendo assim, em sua obra A Invenção do Nordeste e outras artes, Durval Muniz versa sobre o Nordeste como uma projeção de determinados grupos, pela necessidade de desprender-se desse ideal de um Brasil apenas de Norte e o Sul. Tratando também de uma criação e representação da região nordestina que consumimos: na mídia, no cotidiano, nas produções científicas. Assim como pontua, o Nordeste evidenciado pelos intelectuais e informais que pensaram na sua cultura, principalmente a do sertão e a de caráter mais popular demonstrando através de suas artes.

Para Muniz, o Nordeste assim terá varias definições e concepções, dependendo da época e do olhar lançado sobre a região. Logo, demonstra o Nordeste de Gilberto Freyre, surgido a partir da influência holandesa, insurreição pernambucana, o jornal diário de Pernambuco e as revoltas mais específicas que produzem a identidade nordestina, Por outro lado, o de Câmara Cascudo representa o popular, através do movimento do folclore como representativo da identidade nordestina, valorizando outros aspectos divergentes aos ressaltados por Freyre. Ariano Suassuna, por sua vez, visualiza o Nordeste do sertão, aquele representado pela figura do sertanejo, mas, também das diferenciações sociais, utilizando elementos populares, como a literatura de cordel e assuntos próprios da história do sertão, temáticas ligadas a vida do povo e sua memória. Através dessas perspectivas regionalistas e tradicionalistas que se constroem o Nordeste.

No que diz respeito a perspectiva regionalista, a cerca dos costumes e hábitos, dos aspectos mais próprios e recorrentes da região Nordeste. A seca, a miséria e todas as mazelas sociais decorrentes dessa problemática constituem temáticas bastante evidenciadas, assim como a religião e a questão dos poderios locais. O que de certa forma passa a tornar os retratos do Nordeste muito específicos, segundo Muniz, em privilegiar a seca e esquecer-se de outras áreas, que também são parte do Nordeste:

“A imagem do Nordeste passa a ser pensada sempre a partir da seca e do deserto, ignorando-se todas as áreas úmidas existentes em seu território. A retirada, o êxodo que ela provoca, estabelece uma verdadeira estrutura narrativa. Uma fórmula ritualística de se contar uma fuga de homens e mulheres do sertão que lembra a própria narrativa cristã da saída dos judeus do deserto” (MUNIZ, 1996, p.121)

Ainda no retrato da seca, a figura do cangaceiro, se tornou algo bem característico e presente na cultura nordestina, como um elemento constituinte do sertão, trazendo as características de violência, coragem, e do lado animalesco do nordestino, mas, como fator de resistência a modernidade, (ressalvando que o sertão não representava felicidade, nem progresso, diferente do setor urbano que significava avanço) como cita Muniz:

“O cangaceiro é tomado como símbolo da luta contra um processo de modernização que ameaçava descaracterizar a região, ou seja, ameaçava pôr fim à ordem tradicional que faziam parte. Ao lutarem contra os correios, arrancarem fios de telégrafo e trilhos de trem, sequestrarem “gringos”, enfrentarem os agentes do Estado, enquanto respeitavam os coronéis amigos e o padre, estes agentes de poder tradicional, os cangaceiros são vistos, por este romance, como uma figura trágica para quem o mundo também estava acabando. “Quixotes em luta pela defesa de uma sociabilidade que se perdia”. (MUNIZ, 1996, 126-127)

Podemos inferir que diversos elementos e formas constituem as diversas representações do Nordeste, não se esquecendo da imagética da região nordestina futurista, isto é, a valorização de seus aspectos apenas “turísticos”, suas belas praias no litoral, monumentos históricos e até mesmo os da própria natureza, imagens e representações que constituem uma pequena parcela do que venha a ser o Nordeste, mas, que comercialmente e midiaticamente, revela uma das concepções principais do que se entende pela região.

Através dessa perspectiva pode-se pontuar a cerca da intencionalidade de certas interpretações, baseando-se na perspectiva de Focault a cerca das relações de poder, a fim de compreender a necessidade de alguns agentes nessas construções da figura de um nordestino, sempre retratado como sofredor, de um Nordeste seco e improdutivo, nessa última afirmação nos seria mais variados sentidos, incluindo a economia e a cultura, reforçando, por exemplo, o poder do Sul, e a única imagética positiva do Nordeste residiriam na parte urbana, mais especificamente no litoral, que está contida as “belezas” a serem mostradas e visitadas:

“O Nordeste e o nordestino miserável, seja na mídia ou fora dela, não são do produto de um desvio de olhar ou fala, de um desvio no funcionamento do sistema de poder, mas inerentes a estes sistemas de forças e dele constitutivo. O próprio Nordeste e o nordestino são invenções destas determinadas relações de poder e do saber a elas correspondente”. ( MUNIZ,1996, p.21)

Nesse fundamento, das relações de poder e na batalha pela memória da concepção do Nordeste, que diversas correntes nos mais diversos campos vão surgir como já citadas anteriormente elaborando através de suas óticas arcabouços teóricos, literários e artísticos para compor a História da região nordestina através da evidenciação de suas problemáticas, belezas, costumes e dos agentes históricos em sua espacialidade e tempo. Tecendo a heterogeneidade que é o Nordeste em todas suas esferas, não podendo ser reduzido a um estigma negativo de miséria e fome e nem tão pouco o espaço idealizado das paisagens litorâneas:

“O Nordeste não é recortado só como uma unidade econômica, política ou geográfica, mas, primordialmente, como um campo de estudos e produção cultural, baseado numa pseudo-unidade cultural, geográfica e étnica. O Nordeste nasce onde se encontram poder e linguagem, onde se dá a produção imagética e textual da espacialização das relações de poder.” (MUNIZ,1996, p.23)

2. O Nordeste na Literatura

Através das obras literárias, da música e das obras de artes podemos reconhecer diferentes e semelhantes representações do Nordeste. Na literatura, intelectuais como Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e João Cabral de Melo Neto versam a cultura do sertão, a pobreza, a miséria, mas, em cada obra as suas particularidades referentes a vida do sertanejo, as relações sociais e aspectos que permeiam o campo dos sentimentos, a esperteza, a esperança, a coragem e a força. Atribuindo espaço e dando voz a figuras estigmatizadas, demonstrando outros elementos presentes nas vidas secas.

Em O Auto da Compadecida, peça teatral escrita por Ariano Suassuna revela o sertanejo e as relações sociais na religião e no trabalho, com a seca e a própria tradição popular. Escrita a partir da compilação de literaturas de cordel e histórias de dito popular revelam muito a cultura do povo.  Nos atos da peça retratados como o enterro da cachorra, o gato que descomia dinheiro e a gaita que ressuscita percebemos a riqueza nas histórias comuns do povo, a presença da Igreja em toda a peça versa a relação do povo com a mesma, mas, tratam também dos privilégios concedidos as oligarquias da região.  No enterro da cachorra, o padre ao pensar que se tratava de um animal pertencente ao coronel Antônio de Moraes, logo se prontifica a benzer:

“João Grilo- Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do Major Antônio Moraes [...] Padre: Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro.” (O AUTO DA COMPADECIDA, P.23)

A obra de Ariano também trata das doações feita a Igreja e como os comerciantes locais se relacionam com a mesma, na medida em que ameaçam o pároco a não lhe dar pão e tomar de volta a vaca que lhes era deram de propriedade, a mulher do padeiro e o padeiro. Esses últimos também protagonizaram a questão da traição e covardia respectivamente. Outra temática importante tratada foi à valentia e o medo na figura do cangaceiro Severino e seu bando.

No entanto, a parte mais emblemática da obra reside depois da morte da maioria dos personagens e do julgamento no purgatório. Esse momento revela a crença no céu e no inferno, no apego e devoção a Nossa Senhora e nas absolvições dadas pelos pecados através da misericórdia. Por outro lado, demonstram o preconceito racial dos clérigos ao verem Jesus como uma figura negra, e a presença da importância do dinheiro para os padres em detrimento das almas. No que se refere ao perdão, versa sobre a miséria e o medo de assolam o nordestino serem causa pela misericórdia como João Grilo que pela fome e seca, usou da esperteza para sobreviver, sendo perdoado e tendo outra chance para viver sem apregoar mentiras e enrolações.

Na obra Vidas Secas de Graciliano Ramos, por sua vez, nos deparamos com uma literatura mais dura na intenção de permitir ao leitor as sensações difíceis e angustiantes vividas por Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho e o mais novo, e a cachorrinha baleia que também era parte da família. As questões colocadas por essa história, além da seca e do êxodo provocado pela fome e miséria, as problemáticas com a elite local e os desmandos da própria policia e milícias, além das características animalescas atribuídas a Fabiano pela vida que estava levando e a firmeza e frieza que tinham que enfrentar as adversidades impostas pela seca da terra.

Podemos pontuar consideravelmente o dia de Natal e o esforço de Fabiano e sua família para se enquadrar no estereotipo de festa, no que diz respeito, as roupas e o modo de se comportar, até mesmo dentro da Igreja, que era algo sagrado, mas, não tão habitual em sua rotina o que diverge da obra de Ariano. A morte da cachorra baleia, pela fome e o mau trato da vida que levavam, o fato de Fabiano ter de acabar com o sofrimento do animal atirando com espingarda, demonstra o apego que tinha a mesma e após o ocorrido a lembrança triste presente em sua mente e na de sua pequena família.

Alguns pontos a mais para serem observados residem nas aspirações e anseios por quem vive de uma forma tão simples como aquela família. Sinhá Vitória sonhava apenas em ter uma cama de lastro de couro e Fabiano um lugar que pudesse ser respeitado e a sua dignidade de homem e provedor da família. Somado a esses apontamentos, os sentimentos estão sempre presentes em toda narrativa: a tristeza e a vergonha de ser humilhada por um cabo no caso de Fabiano, a esperança de uma vida melhor para seus filhos e para si como dona Sinhá e a coragem de todos em seguir em frente, na espera de um horizonte próspero e digno. Essas questões revelam o homem do sertão em sua brutalidade e pobreza como já característico na visão do estigma atribuído, mas, sobretudo, os valores e relações de união, amor, de sonhos e de contentamento com as pequenas coisas que conseguiam e permitiam a sobrevivência, como um preá ou a água de um xique-xique, que matasse a fome ou a sede naquele instante.

A obra de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina, trata do êxodo, da fome e da seca, mas, de algumas questões características dessa cultura do sertão.  O lucro com a morte, através das rezadoras e cantadores de ladainha que eram presentes na população encontrada logo após o início de sua partida. A propriedade configura uma questão muito importante nessa sociedade, e demonstra que mesmo entre o Agreste e Caatinga, devido o sofrimento do trabalho a vida não é fácil. E o autor retrata a morte, como sempre presente e de como está inserida nas mais diversas. No Recife, por exemplo, há hierarquia até mesmo nos cemitérios. Nesse sentido, a obra tem uma face ainda mais dura e demonstra a constante esperança frustrada pelo sertanejo Severino em querer estender sua vida, mas, encontra sempre a morte onde quer que se dirija.

3. O Nordeste na Música

Na música através de Luiz Gonzaga podemos perceber a presença da denúncia social sobre a seca, a fome, o descaso das políticas públicas, e, também a exaltação a terra e a costumes bem regionais. Em Vozes da Seca, ele faz uma petição em prol dos nordestinos e da questão da seca como uma situação natural, que acabou por se tornar um problema social:

“Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê;

Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê ;

Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage

Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage;

Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage;

Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage …” (GONZAGA,1953)

Na letra forte de Triste Partida, retrata o êxodo rural e todas as mazelas decorrentes da problemática da seca no sertão. Mas, em canções como a Samarica Parteira traz o elemento da medicina popular na figura da parteira muito comum nas regiões interioranas. Tratando também de tradição nordestina, compôs ainda São João na Roça, música que revela os festejos populares do período junino. Vale ressaltar que o auge de Gonzaga na propagação de suas músicas e na adoção de identidade regional nordestina está muito ligado ao surgimento do rádio e sua disseminação, como um veículo de integração nacional o que proporciona o sucesso e a criação dessa visão de Nordeste, aquele esquecido pelas autoridades, assolado pela seca, no entanto, cheio de vida, alegria, festa, dança e ritmo. Além, é claro de sua roupagem característica como um vaqueiro fazendo a representatividade desse elemento tão presente na cultura nordestina.

Bem representativa do Nordeste de suas formas mais gerais e aspectos é a música do cantor Lenine, denominada Leão do Norte, essa última versa sobre como o nordestino deve ser visto na cultura, na economia, na religião, na política, na literatura, sobretudo a figura do pernambucano:

“Sou mamulengo de São Bento do Una

Vindo num baque solto de um Maracatu

Eu sou um auto de Ariano Suassuna

No meio da Feira de Caruaru

Sou Frei Caneca no Pastoril do Faceta

Levando a flor da lira pra Nova Jerusalém

Sou Luiz Gonzaga, eu sou do mangue também” (LENINE,1996)

Ainda a respeito da marginalização sofrida pelo Nordeste, de composição de Braúlio Tavares e Ivanildo Vila Nova, a música Nordeste Independente, faz alusão a independência do Nordeste do Brasil e a autossuficiência do primeiro, e também a necessidade do último em buscar no exterior elementos produzidos pela região nordestina que abastecem e fazem lucrar a economia de todo o país. Embora, represente um sonho utópico retrata a visão de algumas personalidades expressando a indignação frente a marginalidade do Nordeste e ressaltando as possibilidades e benesses numa independência. Isto é, por que como a região do Nordeste possui o estigma negativo, a separação faria bem ao desenvolvimento do país, incluindo da própria região. Que não estaria a serviço de outras regiões e seria independente em suas esferas:

“O Brasil ia ter de importar do Nordeste algodão, cana, caju,

carnaúba, laranja, babaçu,abacaxi e o sal de cozinhar.

O arroz e o agave do lugar, a cebola, o petróleo, o aguardente;

o Nordeste é auto-suficiente nosso lucro seria garantido

imagine o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente.”

( VILLA NOVA E TAVARES, 1980)

4. Considerações Finais

Podemos inferir diante das informações apresentadas o Nordeste como espaço de continuidades e descontinuidades, de construções e reafirmações, de tradição e modernidade.  Revelado pela criação de personalidades que pensaram o Nordeste do sertão e do urbano, moderno e rural, da seca e da esperança, das mazelas e das bonanças. Demonstrando a heterogeneidade da identidade nordestina e da multiplicidade de elementos formadores do que caracterizamos como constituintes da cultura do Nordeste. Desde obras mais tradicionalistas à  regionalistas,  a composições literárias, a música de caráter mais popular ou erudito, todas contribuem para concepção de Nordeste. Quer seja uma produção proveniente da elite na Paraíba, um doce no município de Pesqueira ou uma renda no Sertão no Pernambuco, a compilação desses elementos é o Nordeste. A importância reside justamente em visualizar e compreender as diversas representações como componentes dessa cultura.

Referências Bibliográficas

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 125ª. ed. Rio de Janeiro: Record,2014.

MUNIZ DE ALBUQUERQUE, Durval. A invenção do Nordeste: e outras artes. 2ª. ed. São Paulo: Massangana, 2001.

SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 35ª. ed. Rio de Janeiro: AGIR, 2005.

DE MELO NETO, João Cabral. Morte e Vida Severina. São Paulo: Alfaguara, 2007.


[1] Texto apresentado na disciplina Tópicos da Cultura do Nordeste, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no primeiro semestre de 2018

[2] Graduanda em História na Universidade Federal de Pernambuco

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 17 jul 2018 @ 03 21 PM

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NOS ENTREMEIOS DA PISADA: MANIFESTAÇÕES CULTURAIS NA CIDADE DE LIMOEIRO, O COCO DE RODA DE ZÉ DE TETÉ E REPRESENTAÇÕES NO DISCO “POETAS DA MATA NORTE”.[1]

Emanuel Antunes da Silva Holanda

Graduando em História pela UFPE

emanuel_antunes13@hotmail.com

Resumo:

O presente artigo procura investigar representações sociais da cidade de Limoeiro, no agreste pernambucano, a partir de composições do coco de roda, principalmente do coquista Zé de Teté em álbum gravado no projeto “Poetas da Mata Norte” pela Fábrica Estúdios em 2008, assim como a construção de identidades na cidade do interior do estado, a partir de fatores culturais, religiosos ou políticos.

Palavras-chave: Coco de roda, Limoeiro, Música popular.

Introdução

A hidrografia e o relevo explicam e proporcionam determinados acontecimentos e verdades sobre seus respectivos lugares. Enquanto o Capibaribe corta Limoeiro de ponta a ponta, o Planalto da Borborema ergue-se como protetor mor de todo um povo, sem distinção para com cor ou classe. É nesse fluxo entre fauna e flora que as crenças e manifestações populares tomam forma na cidade.

A lenda já conhecida por grande parcela sobre o nascimento do Limoeiro que conhecemos apresenta suas verdades históricas e estas devemos reconhecer abaixo. Conta à narrativa que onde hoje é Limoeiro residia o padre Ponciano Coelho, enviado para aquela aldeia tupi em missão catequizadora, este acabara por rivalizar com o português Alexandre Moura, e desse modo o território agrestino encarou um duelo luso, político e religioso, entre a aldeia de Limoeiro e a de Poço do Pau, tudo por conta de uma imagem de Nossa Senhora da Apresentação, trazida de Portugal por Alexandre Moura. Entre os homens a virgem viu a formação de uma cidade que por décadas obteve o monopólio econômico da região, que influenciou os arredores com estratégias políticas e modelos governamentais. Vemos Limoeiro passar por mudanças diversas, desde sua emancipação em 1893, que afetam bruscamente o fazer cultural.

As heranças da colonização luso aparecem de palmo em palmo. As edificações religiosas católicas erguem-se em todos os lugares da cidade, desde o Alto de São Sebastião até o término da Pirauira, bairros que presenciaram acontecimentos que até hoje são comentados nas mesas de bares e no vai e vem de pedestres no pátio principal do município, conhecido por Pátio da Feira. Percebe-se semelhanças entre o coco de roda que toma conta das festividades de São João e o fado português, principalmente quando ouvimos a voz do cantador que se alonga no início da canção, sem instrumentação ao fundo, no seco e limpo silêncio que a música pode propiciar, é o cantador que resgata a herança luso, negra e indígena a medida que diz uma frase ou duas, que definem a música ou abrem as portas para rimas inimagináveis.

Não podemos nos remeter aqui a estruturação poética e musical, mas pincelaremos e discutiremos um pouco sobre isso, sabendo o foco do que deve ser dissertado. Uma linha tênue entre religião (lê-se aqui os dois segmentos mais fortes na região: As religiões de matrizes africanas e o catolicismo) e cultura é sempre cruzada e muitas vezes essas se mesclam para formatar as manifestações que viemos a conhecer. Um exemplo prático disso é a festividade do boi bumbá que varre as ruas limoeirenses principalmente no carnaval, onde o branco e o indígena bailam, onde os caboclinhos dançam em volta de um boi ressuscitado, trazido de volta a vida para comprovar o poder do denominado pejorativamente, gentio. Os “bois” desfilam em Limoeiro de acordo com o calendário católico, sempre acompanhando as maiores festas ligadas à religião cristã. Ainda permanecendo conservador até certo ponto na cidade, o catolicismo predomina quando o assunto é “delimitar espaço”. A igreja matriz é um marco territorial na cidade, é ela que interrompe o fluxo de carros em plena avenida, que foi fincada ali para ser via de mão única entre os fieis e não adeptos. É impossível transitar em Limoeiro sem esbarrar com a magnitude da Igreja arquitetada na época de Ponciano.

O espectro de grandes figuras ligadas ao catolicismo é constante no imagético popular da cidade. Ponciano, Luís Checchin (1924 – 2010) e tanto outros figuram como líderes religiosos, e acima de tudo, populares. A figura do bem e do mal está presentes nesses dois representantes maiores, os padres e os coronéis, sendo o principal representante dessa segunda classe, o coronel Chico Heráclito (1885 – 1974)¹. A tradição de colocar o vigário contra o líder político se mantém e renova-se, seja na música, na poesia ou no teatro (É válido destacar que isto faz-se presente no imaginário popular, mas no que condiz a política essas duas figuras caminham juntas e muitas vezes de mãos dadas). As produções artísticas da cidade margeiam esse embate e por consequência lhes apresentam novos significados.

“As obras da natureza”

Outro ponto que caracteriza o município são os períodos de cheia. É sabido que Limoeiro vive de contradições que nem a fé consegue explicar, mas em alguns momentos é a ciência que escancara determinados fatos. Por ter, como dito, o rio Capibaribe rasgando e dividindo a cidade em duas, sempre que o nível do mesmo ganha alguns centímetros a mais, toda a população fica apreensiva. É costumeiro que o rio transborde e por isso mesmo esse fato ganha destaque nas produções e manifestações. A cheia de 1975, que assolou o estado de Pernambuco, foi a de maior impacto no município e costumeiramente é citada nos entremeios populares.

A oralidade é veículo primordial da comunicação local, seja por meio da rádio do município que vigora atualmente, mas que descende de uma tradição de décadas, até o boca a boca também preservado sob manutenções que o tempo exige e delimita. Um local crucial para a existência dessa oralidade forte é o Pátio da Feira (já citado no início do texto). Localizado em um ponto que poderíamos encarar como “rosa dos ventos”, o pátio da Feira (Pátio de Eventos Toinho de Limoeiro ‘personagem esse que abordaremos mais adiante’) encara a Prefeitura da cidade ao lado oeste, o antigo açougue municipal ao lado sul (próximo ao açougue temos uma passagem direta para o rio Capibaribe), o Mercado Municipal ao norte (e entre o Mercado e a Prefeitura a Igreja de Santo Antônio, esta que é ponto final da segunda principal avenida da cidade) e ao leste o prosseguimento da Avenida Matriz. O fluxo de pessoas no Pátio da Feira é bem maior do que ocorre na Praça da Bandeira, outro ponto movimentado do município, e por conta disso é tal pátio o local básico para a ocasião de manifestações culturais e provem deste o cotidiano mais amplo e acessível que podemos ter para observação.

A relação comercial no cujo pátio acontece das mais variadas formas, desde a troca de produtos no início da manhã até a feira que se estende ao entardecer. Se habita o pátio como uma casa. Sua conexão com o Mercado Municipal (Ou Mercado da Farinha) faz com que as pessoas se envolvam entre as barracas alojadas ali como se aquilo tudo fosse um labirinto de conversas e afazeres. Vez ou outra pode-se encontrar um coquista puxando versos, ou um sanfoneiro cantando Luiz Gonzaga. São figuras comuns ao cotidiano limoeirense, e são estas que fazem as duas principais festividades do local, o carnaval e o São João.

Entre fevereiro e junho a cidade fervilha nas diferentes manifestações, faz do início do ano a algazarra que o carnaval exige (e permite) e entra em resignação durante a quaresma, seguindo as demandas religiosas, aguardando a ressurreição de um Cristo que a todos enxerga. Entre Abril e Junho, Antônio, Pedro e João são celebrados diariamente, com as comidas advindas do milho, com as fileiras de fogueiras que crepitam no prelúdio do inverno, e com o som inquietante do coco de roda, filho do pandeiro, do ganzá e do surdo, das palmas, dos círculos e aglomerações, da gente que fala a partir da voz do cantador, que não desafina nem peca na simetria poética. Limoeiro ganha rosto e movimento à medida que seu povo dança e salta no ritmo que desconcentra e revela as origens de uma cultura mística.

“Campo verde bonito”

Da popularmente conhecida por “Serra do Cristo” descem as expressões culturais de Limoeiro. Do Bairro Nossa Senhora de Fátima até os pés da escadaria os caboclinhos, os cirandeiros, os coquistas, todos estão presentes e quando se faz necessário eles caminham como em procissão para o pátio da feira, vão em busca de uma confraternização que tornou-se hábito, e entre estes mestres da produção cultural encontramos um dos conquistas mais reconhecidos em todo o estado. Zé de Teté, aprendiz de Paulo Faustino e filho de Limoeiro, nasceu no dia 20 de julho de 1944, influenciado desde criança pelos grupos de coco da cidade, José Rodrigues da Silva figura como um dos representantes mais conhecidos do município. Cantador e barbeiro, Zé de Teté gravou o disco que vamos abordar mais a frente entre os anos de 2004 e 2005. A obra é uma coletânea presente na série “Poetas da Mata Norte”, tendo por produtor musical o cantor e compositor Siba Veloso. O projeto reuniu vários artistas da região para gravações de ritmos que vão desde a ciranda até o coco aqui estudado (Entre os convidados está o também cidadão limoeirense, João Limoeiro).

Com doze faixas, todas compostas por Zé de Teté, o álbum nos remete a uma visão que predomina nas populações ribeirinhas e nas que habitam a encosta do planalto. Destes lugares advém a poesia do mestre coquista e são eles que celebram a música. A faixa número 3, intitulada “Campo verde bonito” nos encaminha para um problema recorrente da localidade e até mesmo de lugares vizinhos a Limoeiro. A música coloca em questão o êxodo constante para a capital, ao ter como verso a seguinte frase “se passar mais três dias sem chover, vendo tudo que tenho e vou embora…”, e junto a este ponto vem também o fator de Limoeiro ser fronteira entre o Agreste e o Sertão e como o clima é fator crucial para o comercial local. A chuva é tida como miragem, não só nesta composição, mas também na faixa 8, “Canto ruim de morar”. O poeta narra o processo comum dos habitantes da cidade, de colocar o roçado (plantação) e dele cuidar dia após dia, e os desafios que este acarreta a partir que a chuva não vem.

Os roçados são predominantes na cidade, grande parte da estrutura econômica de Limoeiro formou-se graças a essa forma de produção individual, onde o dono da terra pode ou não ser o agricultor, mas que no fim das contas uma parcela da produção e venda fica nas mãos do cultivador. Algodão, milho, feijão e outras monoculturas ganharam força no município e isso aparece constantemente nas composições de Zé de Teté. O fluxo populacional da cidade para os roçados, a vegetação que rodeia a cidade surgindo na canção “Machadeiro Moacir (Faixa 9)” e os desafios que são impostos a cada trabalhador.

A rima que surpreende e acompanha a “pisada” do pandeiro junto ao surdo faz do coco de Zé de Teté obra genuína do seio do agreste pernambucano, e o próprio autor tem consciência disso, pois na faixa 2 (Ai, ai meu Deus) o coquista canta de modo saudosista sua própria música. “Eu não sei o porque é, que Zé de Teté só canta coco pesado” fala o coro que acompanha o cantor, e completa na mesma dose o compositor “Sou respeitado, eu nunca temi valente, brigo, morro, eu mato gente, não sou desmoralizado”. Fascinante como funciona essa interpretação de si, pois é reflexo da interpretação popular de limoeirenses, que levantam a bandeira da cidade e reproduzem esse sentimento de pertencimento e soberania. Uma via de mão dupla, entre compositor e povo que traduz o íntimo de uma visualização de local, de cidade e de ser daquele determinado lugar.

O ritmo e clima de “dono de si” são anteriores a essa música, quando a faixa 1 (Dei um brado na terra) já diz “não bula comigo que eu sou um terror”. Ninguém mexe com o cantador, ninguém interfere o ritmo do coco, porque o coco flui e não existe força que consiga burlar tudo isso. Está presente palavra após palavra da faixa de abertura que possui tom apocalíptico, pois onde o cantador chega os seres se ouriçam, os espaços em branco são preenchidos, e cada coisa muda de lugar. É uma ideia de afirmação que perpetua na ciranda, e nas próprias serestas românticas do também vangloriado Toinho de Limoeiro, que ao cantar “Meu grito” nos bares e clubes transformou a música do município. Uma imagem de Limoeiro ganha forma nas músicas de Zé de Teté aos poucos, não é algo vago, nem simples. Trata-se de ser representante de determinado público, de cantar por estas pessoas e essas pessoas o acatam seja nas palhoças durante o São João, ou no cotidiano, ouvindo e colocando o cantor em lugar especial, em determinado hall de artistas que não condiz com a normalidade.

A faixa 4 (Os Serrotes) cita Zé de Teté em terceira pessoa e descreve uma festa rotineira da população. Trata-se de um mundo idêntico a outro inserido neste mesmo mundo. O cantador esquematiza a canção com certo cuidado e necessidade de detalhes que faz desta uma das melhores poeticamente falando do álbum. A constante mantida pelo pandeiro produz um efeito que pessoa alguma consegue ignorar. Limoeiro é festa e reunião nas músicas de Zé de Teté, assim como também é seca e problemática. Não se delimita a música sobre o que seja ou não a localidade, as definições ocorrem entre os versos e pescamos as mais claras, entre elas a crítica ao sistema político.

A premissa de “Quem viver em Pernambuco, não há de estar enganado: Que, ou há de ser Cavalcanti, ou há de ser cavalgado” predomina na cidade e Zé de Teté coloca essa insatisfação popular e descrença no sistema político em uma canção do álbum, intitulada “Votei tanto que cansei” (Faixa 11). No verso “eu só voto de hoje em diante se Jesus for candidato” traduz todo o clima da canção. A política limoeirense, assim como na maioria das cidades do Agreste, Sertão e Mata norte, é feita por grandes famílias, detentoras de poder agrícola e “prestígio”. A corrida eleitoral não fica fora disso em Limoeiro, que tem o poder concentrado em duas famílias, mas não nos ateremos aos problemas vigentes, pelo contrário, veremos como essa parcela da população encara os acontecimentos. Na poesia gravada na faixa 11 o sentimento de “inutilidade” do eleitor após as eleições predomina e esse discurso é comumente difundido nas ruas do local, onde eleição virou circo, onde não existe mais seriedade no que se faz politicamente, e assim regressamos para o modelo de bem e mal falado no início do texto.

O quesito religioso não desaparece do coco de roda de Zé de Teté, que após mostrar seu domínio sobre a música, dita que o “homem faz uma garrafa, só não faz uma girafa, que é obra da natureza” e assim na faixa 7 (As obras da Natureza) a onipotência e onipresença de um Deus cristão ocupa lugar. Durante toda a canção o autor detalha versos sobre isso, que o homem pode de tudo efetuar, mas o que se é natural, o que foi produzido por Deus em seus sete dias na criação, não pode ser obtido pelo homem em seus meios industriais. Em igual tom na faixa 10 (SOS) Zé de Teté coloca em xeque a “clemência” popular  e mostra como essa submissão a um Deus pode salvar a população de tragédias que assolam o mundo, mas em certos casos a cidade de Limoeiro. Reúnem-se assim vários conceitos e verdades populares na produção musical de Zé de Teté, artista que nasceu neste ambiente e que até hoje permanece, cantando e falando diretamente com a população que representa no coco.

O encerramento do disco apresenta uma participação especial de Paulo Faustino, mestre coquista de Zé de Teté, também limoeirense e cantador fiel as raízes da cidade. Na música “Ta solto no meio do mundo” o professor de José Rodrigues da Silva conta os feitos do aprendiz e mostra que Zé de Teté soltou-se mundo a fora para representar Limoeiro e um grande grupo dos habitantes da cidade. A imagem que é transmitida sobre Limoeiro nas composições demonstra as dificuldades e alegrias da população, mas sem auto-vitimismo ou algo do gênero. Temos o ganzá fazendo seu habitual movimento de leva e trás e a voz sem receios do cantador. O coco de roda cantado por José Rodrigues reafirma a força do nordestino e o coloca como figura incansável, desafiador de preceitos. Canta-se o menino que desce a ladeira para ver o desfile do boi bumbá, o agricultor, a lavadeira, a continuação de um ciclo cultural que vigora em partes específicas da cidade.

Conclusão

Buscou-se nessa explanação uma breve compreensão sobre as representações e óticas de mundo presentes nas composições do coco de roda e como certas narrativas se mantém através dos tempos. Vimos que tanto poetas como Zé de Teté ou outros influenciadores políticos e culturais criam e representam um mesmo lugar de diferentes formas, trejeitos e significados. Os signos do coco de roda são transmutados a cada dia que se passa, assim como o boi que transcorre as ruas de Limoeiro e a ciranda que chega ao fim das festas populares. Compreender estas manifestações como o cotidiano de uma cidade chega a ser de maior validez do que tentar decifrar suas intenções, por hora, enquanto estas só tangem ao livre expressar de indivíduos.

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e outras artes. 4º Edição, Editora Cortez, 2009.

ALBUQUERQUE, Durval Muniz de. A feira dos mitos: A fabricação folclore e da cultura popular (Nordeste 1920 – 1950). 1ª edição, Editora Intermeios, 2013.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? (Who is Cultural History) 2ª edição, Editora Zahar, 2008.

AYALA, Maria Ignez Novais. Os cocos: uma manifestação cultural em três momentos do século XX. Estudos Avançados, Vol 13, Ano 35, 1999. Disponível: www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141999000100020.


[1] Trabalho apresentado na disciplina História de Pernambuco, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, no curso de Licenciatura em História da Universidade Federal de Permabuco. 2018.

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INDÚSTRIA DA SECA NO NORDESTE: INTERVENÇÕES E LUCROS[1]

RAQUEL BARRETO NASCIMENTO[2]

RESUMO: O texto desenvolvido a seguir tem por objetivo destacar características pertencentes ao Nordeste brasileiro, atentando para o fenômeno da seca – recorrente nesta região e alguns aspectos das produções culturais sobre este período. Nos debruçaremos sobre algumas políticas públicas oriundas do Estado, que visam amenizar os efeitos da seca na região semiárida do Nordeste. Em contrapartida, poderemos perceber que tais ações nem sempre são benéficas à população, atendendo apenas aos latifundiários da região, caracterizando o processo que será denominado “Indústria da seca”.

Palavras-chave: Nordeste, Intervenção, Indústria da seca, Estado.

1 – Introdução

Uma das problemáticas mais tocantes no que diz respeito à economia nordestina, são as secas que assolam a região periodicamente. As contribuições intelectuais acerca deste assunto – que trataremos a seguir – visam destacar os principais problemas econômicos, políticos e sociais gerados em decorrência das estiagens, atentando para as políticas públicas oriundas do Estado, que visam contornar estes problemas. Atentaremos para os resultados das alternativas propostas pelo Estado, quer sejam positivas ou negativas.

Nesta análise busco tratar o fenômeno da seca o dividindo em 4 aspectos que serão, mais a frente, tratados separadamente. São eles (1) a seca enquanto desastre natural, analisando os fatores climáticos que contribuem para a estiagem e para a criação dos açudes públicos (construídos a partir de investimentos do DNOCS[3] – que visam atender às necessidades básicas da população, (2) a seca como crise de produção, onde serão averiguados os setores prejudicados pela seca – como a criação de gado – e o modo como a população cria artifícios de subsistência frente a estas condições. Atentaremos também para uma análise da (3) seca como calamidade pública. Por fim nos voltaremos para (4) as políticas públicas oriundas do Estado que visam diminuir os impactos da seca no Nordeste. Além disto, me pauto em alguns aspectos da produção cultural que tem por objetivo retratar a realidade do povo sertanejo. Trabalharei com a figura de Luiz Gonzaga e sua composição “Vozes da seca”.

2 – Os efeitos da seca no Nordeste: ações estatais, migração, climatologia e lucros.

Antes de adentrarmos em uma análise de fato sobre os aspectos já mencionados, voltemos nosso olhar para a questão ligada ao povoamento da região nordestina e sobre a composição dessa massa populacional. De início, devemos pontuar que os sertões brasileiros passam a ser povoados a partir do Século XVII. Como pontua Severino Vicente da Silva (1986), este fora um povoamento ralo que, embora tenha produzido algo como a “civilização do couro”, não chegou a ocupar de fato os espaços de uma forma contínua e densa. Esta ocupação vem a ocorrer, ainda segundo o autor, após as invasões holandesas, devido a necessidade que se sentia na época de acabar com os Quilombos dos Palmares e com a Confederação do Cariri. Por outro lado, a ocupação efetiva das terras sertanejas só ocorrerá com a valorização do plantio de algodão – que passa a ocupar mais espaço em detrimento do plantio da cana-de-açúcar, que se voltava para o mercado externo.

Devido à situação de pobreza a qual está inserida a maior parte dos habitantes do Nordeste, a seca passa a atingir dimensões catastróficas, se transformando em uma calamidade pública. A pobreza da qual fazemos menção está diretamente ligada à falta de recursos a população deveria ter acesso, mas que em decorrência da má administração pública e da ambição de alguns grandes proprietários de terra, lhes são restritos. Sobretudo, a referida pobreza não diz respeito às produções artísticas e culturais de modo geral, como alguns lutam para fazer parecer.

Neste sentido, podemos perceber a vulnerabilidade desta população – principalmente rural, pois depende necessariamente de boas condições naturais para desenvolver suas atividades-, que sem outra alternativa, necessitam de auxílios emergenciais advindos do governo local para se manter, ou decide migrar para as áreas urbanas do próprio Nordeste ou para outras regiões do país, onde espera-se obter melhores condições de vida (DUARTE, 1999: 9). Como observamos adiante, nem sempre a migração proporciona melhores condições para tais.

As secas de 1977 – 1988 e 1988 – 1990 irão coincidir com o processo de valorização da borracha nos países industrializados. A seca então se torna uma facilitadora da migração para a região amazônica, onde se necessita de mão-de-obra para a extração da borracha das seringueiras, para atender as demandas do crescente mercado capitalista. (PINHEIRO, 1986: 31). Observando o estudo de caso proposto por Pinheiro, é possível perceber o processo de migração para diferentes áreas do próprio país, geralmente incentivadas pelo Estado, que por sua vez busca atender as demandas do mercado externo. O referido processo irá se repetir em diferentes momentos da história brasileira, sobretudo no Nordeste.

Ademais, as regiões semiáridas – que atingem oito dos nove estados nordestinos – são consideradas as localidades onde as precipitações não chegam a atingir as necessidades de crescimento da vegetação durante todo o ano. Destaquemos que estas áreas estão sujeitas à salinização e à sodidade dos solos e das águas, sejam profundas ou superficiais. Isto faz com que grande parte da região não esteja propícia para a irrigação, impossibilitando o plantio e o cultivo (COELHO, 1988: 67,90).

O Nordeste, caracterizado por seu clima semiárido, periodicamente é castigado pelas secas que, em maior ou menor intensidade assolam a região. O Estado cria políticas públicas que visem diminuir as consequências da estiagem, atuando na criação de açudes públicos e em programas de distribuição de água para a população – que necessita desse auxílio para subsistir. Retomando o debate acerca da construção dos açudes públicos, pontuamos que estas são obras voltadas para a região semiárida a fim de minimizar os impactos da seca.

A seca que atinge a região nordestina “pode caracterizar-se tanto pelo baixo nível da precipitação anual em relação à média de um ano de chuvas normais quanto pela sua distribuição irregular durante o período chuvoso – que dura de quatro a seis meses, entre janeiro e abril, ou maio, ou junho, dependendo da área – ou, como frequentemente acontece, as duas coisas. ” (DUARTE, 1999). No entanto, faz-se necessário pontuar que além da seca ser caracterizada como um desastre natural, constitui-se fundamentalmente em um problema social por ser utilizada por muitos com o propósito puro e simples de gerar lucros.

O que caracteriza esta região é a perda acentuada das águas na superfície através da evaporação. A conservação da água nestes açudes “depende tanto das características do reservatório (profundidade, extensão do espelho d’agua, impermeabilização do leito) quanto de elementos externos como a intensidade e distribuição das chuvas no período de seca e nos anos precedentes e, naturalmente, da quantidade de água retirada dos reservatórios” (DUARTE, 1999:16)

Algumas medidas para a manutenção da quantidade e qualidade das águas destes reservatórios são tomadas por parte do Estado. Podemos observar esta ação de forma clara nos açudes em regiões onde a ação da ANA[4] e do DNOCS são evidentes. No sentido de contornar os problemas gerados pela estiagem, a Agência Nacional de Águas  adota medidas regulatórias emergenciais. Estas medidas variam desde o controle da saída de água dos reservatórios à determinação de dias específicos para obtenção da água para recursos produtivos. Já em casos mais extremos, uma das medidas adotadas é a suspensão temporária do uso.

Salientemos ainda que outro problema notado nos açudes, além da própria redução no volume das águas, é justamente a qualidade desta, que pode vir a se tornar salobra[5] ou barrenta[6]. As atividades agropecuárias do semiárido nordestino dependem, em sua maioria, das chuvas. Em períodos de seca severa, nota-se grandes perdas nas safras e na criação de gado, resultando em enormes prejuízos para a produção nordestina, devido também a redução do PIB[7] da região. A grande maioria das famílias nordestinas praticam a agricultura de subsistência e por isso, quando as safras se perdem em decorrência das estiagens, são submetidas à precariedade.

Além dos efeitos devastadores dos fatores climáticos, as políticas públicas que visam contornar estes problemas, não são completamente eficientes, resultando muitas vezes no agravamento da situação – isto porque algumas destas políticas públicas favorecem apenas aos latifundiários, causando notável acentuação na hierarquização da região. Acrescido a outros, estes fatores corroboram para a necessidade de migração desta população para outras regiões, onde espera-se encontrar melhores condições de vida. Contudo, o Nordeste não pode ser caracterizado apenas pela desigualdade econômica a qual a população encontra-se imersa. Devemos atentar para a rica produção cultural e artística destes, como poderemos observar mais à frente. Mais à frente analisaremos aspectos da musicalidade nordestina que remontam às desigualdades sociais a qual nos referimos até então.

A pobreza da área rural nordestina “além de resultar das condições de posse da terra, é agravada pela instabilidade ocupacional representado pelo trabalho assalariado temporário” (DUARTE, 1999:23). Os efeitos da seca, sem dúvidas afetam de forma mais acentuada os pequenos proprietários e os trabalhadores sem terra, que constituem as camadas mais desfavorecidas da população rural.

Ainda devido a “heterogeneidade edafoclimática do semi-árido nordestino, não é possível estabelecer qual é a área ideal de uma propriedade que permita a uma família do semi-árido sobreviver aos impactos de uma grande seca (…) a reestruturação fundiária é, portanto, fundamental para a atenuação dos efeitos sociais da seca” (DUARTE, 1999:24)

Para fomentar nossa análise sobre as políticas públicas que têm por objetivo amenizar o efeito das secas no Nordeste, nos valemos de uma obra de fundamental importância para a temática, denominada “ A seca nordestina de 1998-1999: da crise econômica à calamidade social”, Escrita por Renato Duarte com publicação datada de Junho de 1999. A obra foi solicitada pela SUDENE[8] à Fundação Joaquim Nabuco.

O que nos vale, sobretudo, é destacar a ação das políticas públicas – de longo e curto prazo – no Nordeste atentando para como estas podem beneficiar a população mais carente ou os grandes proprietários de terra. Para Duarte a localização dos açudes e barragens geralmente obedeceu a critérios políticos ou de engenharia e não a determinantes sociais e agrônomos que contemplassem o uso da terra. Penso que este fator constitui em grande dificuldade para os pequenos e médios produtores rurais – que continuam dependentes do Estado e dos latifundiários e ainda que este desfavorecimento cria um “divisor de águas” entre as diferentes classes, ao passo que o mal planejamento da instalação destes açudes – e consequentemente a distribuição de água – inviabiliza o desenvolvimento autônomo dos pequenos proprietários, que ficam à mercê do grande produtor.

Duarte passa a discorrer, ainda nesta mesma obra, acerca da implementação de políticas à curto e longo prazo. As políticas de longo prazo são, neste sentido, as que visam longa durabilidade de suas ações, como a construção dos açudes, o perfuramento de poços e a criação de instituições que visam enfrentar o problema da seca a partir de projetos econômicos e agronômicos , como no caso da própria SUDENE (1959) e o Banco do Nordeste (1952). Tornando mais didática nossa apresentação do tema, destacamos as obras de transposição do Rio São Francisco, ou “Velho Chico”, como assim preferirmos.

Um dos mais importantes rios do Brasil, o São Francisco nasce em Minas Gerais, atravessando a Bahia, Pernambuco e dividindo os Estados de Sergipe e Alagoas. Mas além de sua extensa composição física, o rio é bastante relevante em seu sentido econômico. Por ser um rio perene, é capaz de proporcionar benefícios para a agricultura mediante a irrigação, além de sua importância fundamental na pesca e pecuária. Contudo, o que nos vale salientar é o desenvolvimento das regiões que entornam o Velho Chico.

O Governo Federal, em 2007, aplicou medidas para a transposição deste para que possa atingir o semiárido nordestino. As medidas preveem o desvio de cerca de 3% de suas águas para o abastecimento de rios temporários e açudes que não conseguem suprir as necessidades básicas da população em momentos de estiagem. Estas ações poderiam proporcionar o abastecimento constante de áreas secas, provocando aumento no setor agropecuário e de produção de bens de consumo. Contudo, a transposição do Rio São Francisco é um tema que acalora debates pontuáveis. Desde os prejuízos para o ecossistema que este feito poderia causar até a possibilidade de atenuar a fragilidade dos afluentes que jorram no Velho Chico, outro tema nos chama a atenção: a possibilidade iminente de que a transposição venha a beneficiar os latifundiários, uma vez que parte dos canais passam por suas fazendas. É preciso pensar até que ponto a transposição se transformaria em um feito positivo para a população e se esta, de fato receberia os benefícios que o São Francisco proporciona.

Retomando o debate sobre as políticas públicas, entendemos que as de curto prazo se dão através da abertura de frentes de trabalho, que visam atender a população carente, com efeito imediato. São caracterizadas como medidas emergenciais. Pontuamos que estas são necessárias, em muitos dos casos, devido ao insucesso das políticas de longo prazo.

O Nordeste – rica região em cultura e diversidade – fora palco das maiores decisões políticas do Brasil até o século XIX, quando este pólo se desloca para a região centro-sul – em especial São Paulo – em decorrência da instalação de indústrias mais sólidas do que a produção cafeeira nordestina propiciara. Este dinamismo da região Centro-Sul irá contribuir, entre outras, para a redução demográfica do Nordeste[9].

Contudo, observemos que as secas enfrentadas pela região nordestina também contribuem para esta diminuição do senso populacional, uma vez que provocam grande fragilidade na estrutura econômica regional, expulsando a população através dos processos de migração para outras áreas do país. É notório que apesar das obras de infraestrutura hídrica e as políticas públicas para a região nordestina, estas foram “incapazes de contribuir para a transformação da economia da aludida zona, especialmente em relação ao setor agrícola” (CARVALHO, 1988:15). Adiante poderemos observar os efeitos desastrosos provocados pela seca na agricultura.

3 – Estrutura socioeconômica do Nordeste e panorama geral das políticas públicas.

Para que possamos entender os efeitos da seca – mesmo que não em sua totalidade – nos setores políticos, econômicos e populacionais na região, faz-se necessário que analisemos a estrutura socioeconômica do próprio Nordeste, atentando para as políticas públicas de contenção dos efeitos da seca, analisando até que ponto estas foram – e continuam sendo – benéficas à população em geral ou a um pequeno grupo detentor de grandes porções territoriais e consequentemente dos meios de subsistência: os latifundiários. Para tal, atentemos para a agricultura nordestina – principal fonte de renda.

Ao longo do processo de formação das indústrias do Nordeste e em demais regiões do país, a agricultura exerce papel fundamental para tal, pois (a) supre a necessidade de matérias-primas que a indústria necessita, (b) oferece insumos alimentícios barateados que suprem as necessidades das forças trabalhadoras que movimentam a economia regional e  ao mesmo tempo, (c) a própria indústria possibilita a modernização da agricultura através do oferecimento de máquinas e equipamentos que esta necessita para o aumento de sua produtividade (CARVALHO, 1988).

A referida modernização pode vir a ser financiada pelo próprio Estado, pois a este interessa a produção acelerada dos bens de capital. Nas palavras de Otamar de Carvalho, “um maior grau de desenvolvimento agrícola e pecuário, nessas condições, significa o emprego produtivo em bases especificamente capitalistas, em função do qual as relações de produção já não constituem obstáculo para o desenvolvimento das forças produtoras” (CARVALHO, 1988:20). Como visto, esta modernização, portanto, dá-se a partir de bases capitalistas. Ainda mencionemos que em relação ao setor industrial, a agricultura no Nordeste tem se desenvolvido de forma lenta.

A seca constitui papel importante para o atraso econômico observado no Nordeste em relação às outras regiões do país. Estes fatos podemos perceber na fala de Otamar de Carvalho, quando pontua que “o estudo das diferentes manifestações das secas constitui passo decisivo e essencial para a investigação das reações determinantes do atraso econômico do Nordeste, e em particular da sua agricultura, notadamente quando se pretende estabelecer as relações causais sobre o lento avanço da agricultura irrigada na região” (CARVALHO, 1988:74).

4 – Produções culturais no Nordeste enquanto críticas à Indústria da Seca.

É preciso pontuar que ao contrário do que muitos acreditam e defendem, o Nordeste não é escasso em produção derivada de plantio, restando apenas grandes porções de terras incultiváveis e sem solução. Pelo contrário, o solo da região nordestina é rico em minerais e a população residente encontra meios de subsistir -  mantendo o gado e as plantações – frente às estiagens. O que a população nordestina precisa é de políticas públicas eficientes que visem o desenvolvimento autônomo da região e de seus residentes, como expresso na canção: “Vozes da Seca” de Luíz Gonzaga:

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão

Mas doutô uma esmola a um homem qui é são

Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão

É por isso que pidimo proteção a vosmicê

Home pur nóis escuído para as rédias do pudê

Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê

Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage

Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage

Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage

Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão

Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!

Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão

Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos.

Com base na musicalidade de algumas grandes figuras do nordeste, é possível compreender o cenário político, econômico e cultural da região. A escolha da referida canção de Luiz Gonzaga, um dos grandes nomes da música nordestina, dá-se pelo fato desta refletir o que buscamos analisar ao longo deste artigo: as políticas intervencionistas do Estado frente a seca enquanto fenômeno natural, enquanto crise de produção e enquanto calamidade pública.

A partir da análise de alguns versos da referida canção, notamos existência de uma visão pejorativa que as demais regiões brasileiras – e até o exterior – têm do Nordeste e de seu povo. Esta visão desconsidera o grande potencial produtor que possui a região, que pode ser considerada um dos motores da economia brasileira por produzir petróleo, ferro, exportar o cacau, açúcar, fumo etc.

Manuel Correia de Andrade, ao analisar a intervenção do Estado através de políticas públicas no Nordeste, pontua que esta região é conhecida “no exterior e nas áreas mais desenvolvidas do Brasil, como região superpovoada e a mais pobre do país. Aquela onde ocorrem periodicamente grandes secas “ (ANDRADE, 1986). Nisto notamos o grande desconhecimento por parte destes da realidade nordestina, uma vez que pensam só haver seca e grande estado de miséria.

Quando as secas se prolongam, os reservatórios secam, matando a plantação e parte do gado. É em referência a este período que Luiz Gonzaga rememora ao pedir auxílio dos governantes, expresso no trecho “É por isso que pidimo proteção a vosmicê. Home pur nóis escuído para as rédias do pudê (…) Dê serviço a nosso povo, encha o rio de barrage. Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage” de sua canção.

O caos[10] gerado nesse período requer a intervenção do Estado, por se tratar de um momento crítico para a economia da região. Precisamos analisar o papel do Estado neste sentido, entendendo, historicamente, a ação deste em momentos de seca. Manuel correia de Andrade realiza um elaborado estudo para tratar desta questão e nos valeremos de seus registros para nos aprofundarmos na temática.

“No período imperial (1822-89) a população sertaneja era a mais numerosa e as autoridades nacionais mais sensíveis aos seus reclames” pontua o referido autor. Destaquemos que neste período criaram-se planos de assistência a esta população, como a formação dos açudes e as expedições que visavam analisar o fenômeno da seca. É somente a partir de 1907 que se desenvolvem as obras de construção das barragens.

Porém, Manuel Correia de Andrade aponta que os verdadeiros beneficiários das ações estatais foram os grandes proprietários de terra por não haver políticas de caráter social que visassem o desenvolvimento autônomo da população, nem poder político suficiente para desapropriar esses latifundiários antes da construção dos açudes. A própria criação das rodovias, que visavam ligar o litoral ao sertão, não solucionou os problemas da seca, apenas tinha caráter de auxílio em momentos de extrema crise.

São notórias as diversas crises emergenciais que atingiram a região nordestina em decorrência das secas. O que nos chama atenção são as diversas tentativas, ineficazes, de solucionar estes problemas. O que acontece, sobretudo, é a falta de políticas públicas em períodos chuvosos, onde o Nordeste mostra seu potencial produtivo. O que acontece de fato é que os investimentos do Estado só se direcionam para o sertão em épocas de seca – muitas vezes de forma reduzida -, não sendo suficientes para barrar os seus catastróficos efeitos. Este ciclo irá gerar o que Manuel Correia denomina de “Indústria da Seca”, uma vez que os latifundiários lucram com a escassez de recursos direcionados a massa populacional.

Referências Bibliográficas

DUARTE, Renato. A seca nordestina de 1998-1999: da crise econômica a calamidade social. Recife: [s.n.], 1999.

MEIRA, Olyntho José. As secas do nordeste, suas causas e remédios. Rio Grande do Norte. Fundação Guimarães Duque, 1982.

CARVALHO, Otamar de. A economia política do nordeste: secas, irrigação e desenvolvimento. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

http://www.cartaeducacao.com.br/reportagens/entenda-a-transposicao-do-rio-sao-francisco/


[1] Artigo para a disciplina Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro, ministrada pelo Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, 2018.

[2] Graduanda em História pela Universidade Federal de Pernambuco

[3] Departamento nacional de obras contra as secas

[4] Agência Nacional de Águas

[5] Água que perde sua qualidade por tornar-se mais salgada que doce. Este fenômeno ocorre devido a evontranspiração

[6] Ocorre devido ao assoreamento do leito

[7] Produto Interno Bruto

[8] Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste

[9] De acordo com o primeiro censo demográfico no Brasil (1872), a população nordestina correspondia a 46,7% do total do contingente populacional do país. Em 1980, este contingente só chega a atingir 29,2%

da população brasileira total. Dados analisados na obra “A econômia política do Nordeste: Secas, irrigação e desenvolvimento” escrita por Otamar de Carvalho, 1988.

[10] O caos a qual nos referimos se instala em decorrência do abandono de terras, animais e objetos que não podem ser transportados, em períodos de migração. Além disso, a concentração de flagelados desestabiliza a economia regional, levando ao empobrecimento das famílias e causando problemas de segurança e salubridade.

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Universidade Federal de Pernambuco
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de História
Disciplina: História de Pernambuco
Docente: Severino Vicente da Silva
Discente: Lucas Melo da Silva
Semestre Letivo: 2017.1

Mamãe Eu Quero Votar[1]: uma análise da campanha Diretas Já em Pernambuco

Lucas Melo da Silva[2]

Resumo: O presente artigo visa investigar a movimentação política e social, principalmente esta última, em torno da campanha “Diretas Já” em Pernambuco. O estudo está pautado numa investigação sucinta do movimento em âmbito nacional, refletindo sobre as suas motivações e em seguida focando especificamente nas suas atividades em Pernambuco com ênfase nas movimentações realizadas nos primeiros meses de 1984.
Palavras-chave: Diretas Já, Pernambuco, Ditadura Civil-Militar

A Ditadura Civil-Militar Brasileira foi um período da história nacional marcado por diversas perdas de direitos por parte dos cidadãos comuns e um destes direitos perdidos foi o de eleger o presidente da república, porém em março de 1983 um deputado federal mato-grossense recém-eleito apresentou uma proposta de emenda constitucional que propunha o reestabelecimento das eleições para presidente da república já no pleito de 1985, e foi com base nesse projeto de lei que emergiu um dos movimentos de massa mais marcantes da história brasileira, trata-se da campanha “Diretas Já”.

Antes de tratar especificamente do movimento em si é preciso que nos debrucemos sobre o contexto histórico no qual este movimento esteve inserido para que seja possível compreender os motivos que estimularam e possibilitaram a existência de tal fenômeno no período em questão.

É sabido que durante a década de 70 a ditadura militar sob o governo linha dura do general Emílio Garrastazu Médici vivenciou o conhecido “milagre econômico”, período em que o PIB brasileiro obteve aumentos significativos e o poder de compra de alguns brasileiros elevou, o que acabou por legitimar o regime, porém esse “milagre” não durou muito tempo, pois em 1973, período de auge do “milagre brasileiro”, alguns países exportadores de petróleo resolveram quadruplicar os preço do barril, e o Brasil, que era um grande importador desse produto, não tomou medidas de segurança frente a este problema que surgira e como consequência, somado à outros fatores, se sucedeu um período de crise econômica nos anos 80.

Em 1974 assumiu a presidência Ernesto Geisel que não conseguiu controlar os problemas econômicos que estavam surgindo e em 1979 João Figueiredo o sucedeu, mas este também não resolveu a questão, pois existiam conflitos entre os membros de equipe econômica, havendo os que defendiam as medidas de austeridade e os que acreditavam no desenvolvimento a qualquer modo.

Em 1979 ocorreu um novo problema para a economia brasileira, tratava-se da interrupção da produção de petróleo iraniana e isso causou uma nova elevação do preço deste produto. Após este evento seguiu-se na década de 80 uma época de agravamento da crise, fazendo com que muitos analistas intitulassem este período de “década perdida”.

Em 1982 o PIB apresentava quedas e a inflação continuava a subir, em 1983 o governo recorreu ao FMI, porém, devido à Moratória Mexicana de 1982, o mesmo passou a cobrar maior ajuste das contas públicas, logo o governo brasileiro teve que tomar medidas mais austeras o que resultou no descontentamento da população em geral.

A crise econômica foi fundamental para que o regime perdesse sua “legitimidade” adquirida sob o período do “milagre” e tornou possíveis as greves do final da década de 70 e também estimulou o engajamento da sociedade na campanha “Diretas Já” devido ao descontentamento com a situação do país.

Segundo Alberto Tosi Rodrigues dois fatores contribuíram para a surgimento da “Diretas Já”, estes foram a Crise do modelo de desenvolvimento econômico e o Ressurgimento da sociedade civil. Ambos os fenômenos estão intimamente ligados, pois foi justamente no momento em que o sistema econômico capitalista passou por crise[3] que surgiram as movimentações da sociedade para contestar a situação, como foi o caso dos movimentos grevistas que emergiram ao passo em que o país era atingido por uma crise financeira.

O regime militar já sentia sinais de desgaste político desde as eleições parlamentares de 1974 em que o MDB ganhou um número significativo de cadeiras na câmara de deputados, apesar do PDS ter continuado com a maioria. Em 1979, numa tentativa de desarticular a oposição, foi instituída a reforma partidária permitindo assim a criação e o reestabelecimento de partidos políticos, com exceção do Partido Comunista. A estratégia visava enfraquecer a oposição, porém a manobra não se deu da maneira tal qual foi pensada e nas eleições de 1982 as oposições conquistaram ainda mais cadeiras na câmara como aponta Daniel Aarão Reis:

Entretanto houve uma novidade de peso: o partido do governo, o PDS, embora com maior bancada na Câmara dos Deputados, tinha menos cadeiras que as oposições reunidas, com 244 deputados. É verdade que o PTB, com treze deputados, era mais governista do que oposicionista, o que contrabalançava o número das oposições. No computo geral, porém, confirmava-se o inegável deslocamento dos votos em favor das oposições, pelo menos nos centros mais importantes do país. (REIS, 2014, pg. 141)

Portanto, foi diante de um contexto de crise econômica e fortalecimento das oposições que a campanha “Diretas Já” pôde emergir como um movimento que visava dar força ao projeto de emenda constitucional enviado ao parlamento pelo deputado Dante do Oliveira que propunha o reestabelecimento das eleições diretas para presidente no pleito de 1985. A emenda Dante de Oliveira, como ficou conhecida, foi apresentada à câmara de deputados em 2 de Março de 1983 e nos meses, ou dias[4], seguintes surgiram algumas manifestações no país em favor do voto direto para presidente, essas manifestações acabaram por dar origem ao “Diretas Já”

Em síntese, à nível geral, a campanha “Diretas Já” teve seus primórdios ainda no ano de 1983 com manifestações populares, articulações políticas entre os partidos de oposição e alguns grandes comícios[5], porém em 1984 o movimento ganhou maior força principalmente entre janeiro e abril de 1984, período que antecedeu a votação da emenda na câmara de deputados, votação esta que se deu ao dia 25 de abril do referido ano. Com relação à campanha em nível nacional pode-se destacar os comícios do dia 25 de janeiro de 1984 ocorrido em São Paulo na Praça da Sé contando com um número aproximado de 300.000 pessoas, também se destaca o comício ocorrido na Candelária no Rio de Janeiro, o qual se deu ao dia 10 de abril de 1984 e chegou à cifra de 1.000.000 de participantes, e por último é de grande importância o comício também ocorrido na Praça da Sé, mas ao dia 16 de abril de 1984, que atingiu a marca de cerca de 1.500.000 pessoas.

Em uma análise geral da campanha percebe-se que esta contou com dois fatores de grande importância: Articulação política entre os partidos de oposição, fenômeno que se percebe quando atenta-se para a rede de comitês suprapartidários pró-diretas instalados em todo o país, e ampla participação popular, fator perceptível à medida que se analisa a quantidade de pessoas que participam dos comícios e que se envolveram na organização dos mesmos.

Após analisar as motivações que possibilitaram a emersão da campanha[6] e suas características gerais é que se faz possível buscar compreender como este movimento se desenvolveu em Pernambuco.

O estudo acerca da campanha “Diretas Já” em Pernambuco já nos coloca de início frente a uma questão interessante, pois algumas narrativas[7] apontam que este movimento teria se iniciado em Pernambuco com um comício realizado em Abreu e Lima no dia 31 de Março de 1983 pelo vereador Severino Farias e mais outros 3 vereadores, caso este evento for verídico é possível afirmar que Pernambuco teria sido pioneiro na campanha fazendo a primeira manifestação pró eleições diretas do país, porém nesta pesquisa não se obteve registro documental escrito da ocorrência de tal evento na dita cidade. Embora a ocorrência, ou não, deste evento não tenha sido comprovada por este estudo, é nítido que existe uma disputa pelo pioneirismo desta campanha, que, apesar de não ter sido vitoriosa em sua meta principal foi vencedora ao ponto que envolveu à população de um maneira particular e acabou por fazer com que o governo federal recorresse à negociação junto à oposição para articular a sucessão do presidente João Figueiredo.

Apesar das narrativas sobre o comício de 31 de março de 83, o fato é que a campanha das diretas oficialmente foi lançada em Pernambuco no dia 08 de agosto de 1983[8] com um ato público realizado pelo PMDB na pracinha do Diário contanto com a presença de várias lideranças políticas de oposição, como Teotônio Vilela, Beth Mendes, Fernando Coelho entre outros. O evento em questão contou com um pronunciamento de Teotônio Vilela, apesar da muita idade e dos problemas de saúde do mesmo.

Tanto em nível nacional como em Pernambuco a campanha “Diretas Já” passou a estar mais evidente e ativa em 1984, desta forma, esta pesquisa buscou focar especificamente neste período, mais exatamente entre os meses de fevereiro, março e abril do dito ano tendo em vista que poderia ter ocorrido uma maior movimentação neste momento em que a votação da emenda na câmara dos deputados se aproximava cada vez mais.

Analisando os eventos ocorridos no mês de fevereiro de 1984 com relação à campanha “Diretas Já”, pode-se destacar alguns bem significativos como a Caminhada Democrática[9] que arrastou cerca de 40 mil pessoas nas ruas do Recife. A caminhada ocorreu em 18/02/1984 concentrando-se na Praça da Independência onde foi lido um documento pró-diretas e depois saiu em caminhada passando por pontos estratégicos da cidade, como a Avenida Boa Vista, em horário de rush, buscando maior visibilidade. A caminhada contou com a participação de orquestra de frevo além dos vários políticos que se fizeram presentes como Beth Mendes e Marcos Freire.

Ao dia 19/02/1984 ocorreu comício pró-diretas em Caruaru, contando com a presença de aproximadamente 30 mil pessoas na praça da Matriz, no centro da cidade. O comício foi organizado pelo prefeito da cidade José Queiroz do PMDB e entre os políticos presentes esteve Tancredo Neves, governador de Minas Gerais no período.

Cabe destacar que no último final de semana de fevereiro a deputada federal pelo PMDB Cristina Tavares realizou e participou de uma série de comícios[10] nas cidades de Arcoverde, Salgueiro e Garanhus, sendo este último um evento com particularidades interessantes tendo em vista que o prefeito da cidade, integrante do PDS, realizou um evento carnavalesco ao mesmo tempo em que o comício, o que pode ser visto como uma forma de enfraquecer o movimento, porém outro fenômeno observado na preparação do comício em questão cabe ser destacado, é o fato de que antes da realização do comício os organizadores do mesmo, juntos com algumas professoras, levaram crianças do Grupo de Trabalho Educacional Charles Chaplin às ruas munidas de pinceis para pintarem murais com temas relacionados às eleições diretas, o que nos mostra uma movimentação prévia antes das realizações dos comícios e uma tentativa de envolver a população local.

Em fevereiro também foram realizados comícios em Oiterio[11] e outro em Arcoverde[12], cada um desses contando com particularidades interessantes, pois o primeiro foi organizado pelo movimento Terras Sem Ninguém[13], ou seja, não esteve diretamente ligado aos comitês de organização da campanha, e quanto ao segundo cabe enfatizar o apoio dado pelo prefeito Rui de Barros do PDS, este cedeu palanque e iluminação, o que mostra que políticos da situação, por diversos motivos, também estavam dando apoio às eleições diretas em contraposição à orientação do partido.

Ainda em fevereiro um grupo de estudantes representados pelo Projeto Guararapes[14], entidade que representava estudantes secundaristas e universitários em Pernambuco, manifestaram-se, através do Jornal do Comércio[15], que iriam fazer um movimento em prol das eleições diretas para presidente, promovendo seminários que buscariam conscientizar o jovem do seu papel no processo eleitoral. Esse episódio demonstra que os estudantes pernambucanos também estavam inseridos no processo de luta para reconquista do direto de voto para presidente. A atuação de estudantes em Pernambuco em prol das eleições diretas também foi apontada no trabalho de Thiago Nunes Soares o qual indica que houveram atos de pichações organizados por estudantes universitários, no qual eram pichadas mensagens que atentassem para a urgência do voto direto, o autor traz um depoimento de uma ex-militante do movimento estudantil da UFPE chamada Izabel Cristina de Araújo, a qual relatou o seguinte:

E eu me lembro que a gente fez algumas pichações aqui nos viadutos [próximos da UFPE] e em alguns lugares [...]e a maioria das pichações estavam ligada exatamente a isso: “Diretas Já”! era esse sentimento … “Democracia para o Brasil” era muito ligado a esse sentimento de redemocratização do país [...]. Sempre as pichações eram em vermelho, a cor então era algo significativo. (SOARES, 2012, Pg. 111)

A movimentação político-social em torno das “Diretas Já” também se fez muito ativa durante março de 1984, e a particularidade deste mês é que neste aconteceu o Carnaval, no qual a campanha popular não cessou suas atividades, mas fez com que as festividades ganhassem as cores e os temas do movimento.

Algumas cidades de Pernambuco nomearam seus carnavais com e temática da campanha das diretas, foi o caso de Olinda no qual o prefeito José Arnaldo Amaral nomeou os festejos carnavalescos como “Carnaval das Diretas”[16], também o carnaval de Goiana entrou no movimento e este foi intitulado de “Carnaval das Diretas – 85”[17]. Não só prefeituras assumiram esses lemas em seus carnavais, mas também na Sudene a ASS (Associação de Servidores da Sudene) nomeou seus festejos de “Carnaval das Diretas”[18], contando com o baile “Direto no Frevo”, a matinê “Mamãe eu quero votar” além de ornamentar os espaços de festejos com o amarelo, cor tema da campanha.

A campanha das diretas não esteve presente no Carnaval pernambucano de 1984 apenas nos títulos que algumas prefeituras deram para seus festejos, mas também muitos blocos implementaram o conteúdo da campanha em seus desfiles. Em Olinda no bloco Eu Acho é Pouco o povo desfilou nas ruas com camisas amarelas com inscrições pró-diretas, também o bloco Os Patuscos, da mesma cidade, desfilou com dois dos seus bonecos com os seguintes dizeres: “Não me venha com indiretas” e “Diretas Já”, ainda em Olinda o bloco A Burra Namoradeira trouxe um hino chamado “A Burra Presidenciável”[19] com o objetivo de tecer uma crítica às eleições indiretas.

Também no Recife o Carnaval incorporou a temática das diretas em seus festejos ao passo que blocos saiam às ruas expondo críticas ao sistema em vigência, como os casos dos blocos Boi de Piranha, organizado pelo Sindicato dos Médicos do Recife, o Nois Sofre Mais Nois Goza preparado pelos artistas, intelectuais e jornalistas do Recife, e o Bloco do T, este último encabeçado pelos publicitários da capital pernambucana. Ainda cabe destacar o Bloco Teimozinho que, montado pela Associação de Moradores de Brasilia Teimosa, saiu às ruas da cidade ao dia 04/03/1984 exibindo bonecos com críticas à situação vigente e promovendo as eleições diretas. Também a união de alguns sindicatos montou um bloco chamado Bloco dos Sindicatos Pelas Diretas[20], que em seu desfile contou com a presença de várias organizações como, por exemplo, membros do sindicato dos metalúrgicos e da Ação Católica Operária.

Após o fim dos festejos carnavalescos a campanha continuou ativa e contando com a participação de várias associações de bairros que arquitetavam e executavam várias manifestações na capital pernambucana. Um exemplo dessas manifestações organizadas por essas associações populares foi uma série de comícios e concentrações, realizadas nos entornos de Casa Amarela pelos movimentos Terras De Ninguém e Causa Comum, iniciando com um comício no Morro da Conceição no dia 08/03/1984, seguido de outro comício, dessa vez, no Alto Novo Mundo em 09/03/1984, prosseguindo no dia 10/03/1984 com uma concentração na Linha do Tiro, que deu vez a um comício no Vasco da Gama em 12/031984, sucedido por uma concentração no Alto José do Pinho ocorrida no dia 15/03/1984, que continuou, por sua vez, com uma concentração no Poço da Panela ao dia 16/03/1984[21]. A realização de uma série de manifestações como esta descrita acima não é tarefa fácil devido à necessidade de recursos econômicos que possibilitem tal feito, e a falta destes recursos era um problema relatado pelos organizadores desta sequência de comícios, deste modo é possível pensar que outras entidades de pequeno porte envolvidas na campanha também vivenciavam tais adversidades.

Março de 1984 pode ter sido um período de maior organização para a campanha “Diretas Já” em Pernambuco, e isto devido ao lançamento do Comitê Unitário Pró-Diretas no Cabo de Santo Agostinho[22] e também por conta do Lançamento da Frente Municipalista Pelas Eleições Diretas[23] em Pernambuco, este último se deu no dia 14/03/1984 na Câmara Municipal do Recife contando com a presença do vice-governador de São Paulo e presidente na Associação Paulista de Municípios, Orestes Quércia. Os lançamentos destes espaços de organização podem ter conferido maior organização ao movimento além de se tratarem de espaços suprapartidários, o que pode ter facilitado para o engajamento de mais pessoas, mesmo com divergências políticas, à campanha.

Março também foi marcante para a campanha das diretas em Pernambuco, tendo em vista que foi neste mês que um conjunto de intelectuais, artistas, escritores, músicos e cientistas lançaram um manifesto pedindo a realização de eleições diretas para presidente. À frente do manifesto estavam Gilberto Freyre, Mauro Motta e Leda Alves, mas o documento também contou com as assinaturas de Gilvan Samico, Manuel Correia de Andrade, Frederico Pernambucano, Ariano Suassuna e outros mais. O manifesto, que foi distribuído à impressa, pedia o reestabelecimento de eleições diretas para presidente imediatamente como se percebe no trecho à seguir:

Escritores e artistas pernambucanos antes de tudo cidadãos brasileiros preocupados com o bem estar do País e desejosos de participar na realização dos destinos nacionais, dirijimo-nos a toda Nação para manifestar nossa vontade de que nós e toda a população do Brasil recebamos de volta, já o poder de escolha direta de Presidente da República.[24]

O manifesto dos escritores ganhou repercussão na política pernambucana, e isto é nítido ao ponto que o deputado Osvaldo Lima Filho chegou a fazer uma leitura de um trecho do texto na Câmara Federal ainda solicitando que o manifesto fosse inscrito nos anais da câmara[25], pedido este que foi aceito.

As manifestações de artistas em favor das eleições diretas também ocorreram em Pernambuco, estas se materializaram de diversas formas, até em algumas apresentações, como é o caso das Certinhas do Lalau, que no dia 30/03/1984 fizeram o “Show pelas Diretas”[26] no Teatro de Santa Isabel unindo temas eróticos com a crítica política.

Alguns artistas pernambucanos também se fizeram presentes na campanha “Diretas Já” por meio da arte mural, mais exatamente com a reativação da Brigada Portinari que foi pioneira no movimento muralista em Pernambuco. A Brigada Portinari foi criada em 1982 junto aos candidatos Roberto Freire, Hugo Martins e Carlos Eduardo Pereira, todos do PMDB, para fazer campanha política por meio de pinturas em muros da cidade do Recife, pinturas estas executadas por artistas profissionais engajados na luta contra os candidatos que apoiam a ditadura. Em 1984, a Brigada Portinari reativou sua atividades como afirma Tiago Soares Nunes no seguinte trecho:

Outra questão importante é que a Brigada Portinari reativou as suas atividades iniciadas nas Eleições de 1982 durante a campanha das Diretas Já. Em 03/01/1984 e 26/02/1984, alguns artistas pintaram murais no Cemitério de Santo Amaro, Recife, ao som de conjuntos musicais. (SOARES, 2012, pg. 212)

Além de artistas demais segmentos da sociedade se fizeram ativos na campanha pelas diretas, e merece destaque a participação feminina na campanha pró-diretas, sendo esta de tal forma notável que partidos políticos chegaram a pensar e criar espaços para atuação das mulheres[27]. Alguns eventos demonstram a participação das mulheres na campanha, foi o caso de uma passeata[28] realizada por entidades que representavam as mulheres, como a SOS Corpo e a Federação das Mulheres Pernambucanas, ocorrida no dia 21/03/1984 saindo da Assembleia Legislativa em direção à Praça do Diário. Outro evento interessante encabeçado por mulheres ocorreu na Sudene[29] já em abril no dia 03/04/1984, onde mulheres ocuparam o local reservado para a imprensa no plenário da instituição e distribuíram rosas amarelas para os presentes no local, afim de divulgar um grande comício pró-diretas marcado para o início de abril.

Abril de 1984 foi um mês impar para a campanha das diretas tendo em vista que a votação da emenda Dante de Oliveira se daria neste mês, daí houve a necessidade de articular e estruturar manifestações ainda maiores do que as que haviam ocorrido antes para que o objetivo final da campanha pudesse ser atingido, pois como afirma Alberto Tosi Rodrigues: “Um movimento como o das Diretas só se mantem com eficácia enquanto é capaz de ampliar a si próprio, coisa que, é óbvio, não se pode fazer indefinidamente.” (RODRIGUES, 2003, pg. 60)

Percebe-se, portanto, que na reta final da campanha era preciso montar eventos cada vez melhor organizados e em Pernambuco um exemplo de grande e complexa articulação foi o comício ocorrido no Largo de Santo Amaro[30] em 05/04/1984. As estimativas apontaram que o comício de Santo Amaro reuniu entre 50 e 80 mil pessoas, o que representou um sucesso para os organizadores, porém é preciso acentuar que o comício em questão começou a ser estruturado em meados de março do mesmo ano contando com a colaboração de brigadas de estudantes secundaristas e publicitários para a confecção do material de divulgação[31] e com a participação efetiva de mulheres, como aponta o fato de que no dia 01/04/1984 houve em Olinda o I Encontro da Mulher do PMDB[32] para discutir, justamente, a participação feminina no comício em questão.

O comício de Santo Amaro também contou com a participação de lideranças políticas de prestígio da época, como Tancredo Neves, Lula e Ulisses Guimarães, além de estarem presentes artistas engajados na campanha das diretas como Cristiane Torloni, Alceu Valença e Beth Carvalho. Ocorreram apresentações artísticas neste comício, o que era uma marca dos comícios da campanha, e entre os grupos que se apresentaram estavam o Quinteto Violado, o Mamulengo Só Riso e o Teatro Popular de Teimosinho, além de outros artistas. Merece destaque que o comício de Santo Amaro contou com o apoio da prefeitura do Recife, do governo de Pernambuco, que cederam o palanque e montaram o esquema de iluminação elétrica, e ainda das empresas de transporte do Recife, que disponibilizaram 232 ônibus gratuitos para o comício.

Em abril ainda foi realizado um comício em Petrolina[33] no dia 07/04/1984 contando com a presença de Ulisses Guimarães e uma concentração em Moreno[34] organizada pelo comitê suprapartidário local. Também houveram debates sobre o tema na Fundaj[35], que além de reunir intelectuais para discutir o tema também realizou uma exposição de cartuns sobre os presidenciáveis.

As igrejas de Pernambuco também se manifestaram acerca das eleições diretas, de modo que a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese da Olinda e Recife, que atualmente se denomina de Comissão Arquidiocesana de Pastoral para a Caridade, Justiça e Paz, distribuiu panfletos defendendo a realização de eleições diretas para presidente[36]. Similarmente, a Igreja Batista Regular do Jordão decidiu em Assembleia Ordinária manifestar-se favorável às eleições para presidente e a apoiar o movimento pró-diretas[37].

O dia 25 de abril com certeza foi o dia mais marcante de toda a campanha pró-diretas, pois foi neste dia que ocorreu a votação da emenda Dante de Oliveira na câmara dos deputados. Sabe-se que o governo federal organizou uma enorme manobra por meio da decretação das Medidas de Emergência para que não houvesse, e não houve, transmissão da votação da emenda, mas a população não se abateu por conta dessa medida e realizou passeatas e comícios em várias regiões do país.

Pernambuco contou com a realização de uma passeata organizada pelas entidades estudantis[38] que saíram em caminhada da Rua Sete de Setembro rumo à Praça da Independência, onde estava sendo realizada uma concentração com batucadas e comícios em favor das eleições diretas. Também em frente à Câmara Municipal do Recife se realizou uma vigília para acompanhar os resultados da votação da emenda como nos narra o trecho da reportagem a seguir:

Hoje é dia da votação da badalada emenda pelas “Diretas Já”. E o recifense vai estar nas ruas logo cedo, a partir das 10h com batucadas, comícios passeatas e vigília cívica, numa mobilização que promete entrar pela noite, com concentrações na Praça da Independência e Câmara Municipal do Recife. Esta Casa vai estar aberta a partir das 9h com seis telefones diretos para comunicação com Brasília a fim de acompanhar a votação no Congresso e repassar as informações ao público.[39]

O desfecho da campanha “Diretas Já” não foi o esperado por nenhum de seus participantes, visto que a emenda não recebeu o número suficiente de votos para ser aprovada, faltando 22 votos para atingir a maioria qualificada de dois terços da câmara. Apesar de toda a movimentação em torno da luta pela retomada imediata das eleições diretas para presidente o resultado esperado não foi atingido, porém é preciso observar que, mesmo assim, a “Diretas Já” se constituiu como um marco na política brasileira ao ponto que esta campanha pode ser considerada como o fenômeno que fez com que o povo pudesse retomar sua capacidade de mobilização coletiva e de intervenção na política institucional e isto é notório quando nos atentamos para o fato de que já em 1992 a sociedade novamente se mobilizou, dessa vez, objetivando o impeachment de Fernando Collor de Mello. Uma mobilização como a dos “Caras Pintadas” talvez não pudessem ter existido como tal se não fosse precedida pela “Diretas Já”.

Portanto, muito embora a “Diretas Já” não tenha atingido seu objetivo principal, ela conseguiu inaugurar um novo período de mobilização coletiva, pois o povo não mais agia apenas como massa de manobra, mas se tornou também agente mobilizador e participativo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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REIS, Daniel Aarão. Ditadura e democracia no Brasil: do golpe de 1964 à constituição de 1988. Rio de Janeiro. Editora Zahar, 2014. 1ª ed.

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FONTES

Diário de Pernambuco. 1983 – 1984. Hemeroteca Digital Brasileira

Jornal do Comércio. 1983 – 1984. Hemeroteca do Arquivo Público Pernambucano Jordão Emereciano

REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS

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BAZAGA, Rochelle Gutierrez. AS “DIRETAS JÁ”: UMA ANÁLISE SOBRE O IMPACTO DA CAMPANHA NO PROCESSO DE TRANSIÇÃO POLÍTICA BRASILEIRA. http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1364952315_ARQUIVO_ARTIGOANPUH_1_.pdf Acesso em: 06/06/2017 às 15:50

BERTONCELO, Edison Ricardo Emiliano. “Eu quero votar para presidente”: uma análise sobre a campanha das diretas. Lua Nova, São Paulo, 76: 169-196, 2009. Disponível em: http://www.producao.usp.br/handle/BDPI/6947 Acesso em: 06/06/2017 às 15:51

SOARES, Thiago Nunes. CAMPANHAS POLÍTICAS E REPRESSÃO POLICIAL: as pichações na cidade do Recife (1979-1985). Dissertação de Mestrado em História. UFPE. Recife. 2012. Disponível em: http://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/11086 Acesso em: 06/06/2017 às 15:53

_____ Arena política: a campanha das diretas já sob a lógica da vigilância do DOPS-PE. REVISTA CONTEMPORÂNEA – DOSSIÊ REDEMOCRATIZAÇÕE E TRANSIÇÕES POLÍTICAS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO. Ano5,          n° 7|2015, vol.1. Disponível em: http://www.historia.uff.br/nec/sites/default/files/10_arena_politica-_a_campanha_das_diretas_ja_sob_a_logica_da_vigilancia_do_dops-pe.pdf Acesso em 06/06/2017 às 15:48

SOUZA, Elizabet Soares de. BRIGADAS MURALISTAS. “Ou como pichar com arte os muros de uma cidade”. Revista Tempo Histórico. Vol. 4 – Nº 1 (2012) ISSN: 2178-1850. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistatempohistorico/index.php/revista/article/viewFile/33/30 Acesso em: 06/06/2017 às 15:51

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Memórias da Ditadura. Diário de Pernambuco. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/especiais/politica/memorias-da-ditadura/capa_memoria_da_ditadura/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:01

Reynaldo-BH: O movimento das Diretas Já começou com os 200 de Abreu e Lima. Veja.com. Augusto Nunes. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/reynaldo-bh-o-movimento-das-diretas-ja-comecou-com-os-200-de-abreu-e-lima/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:03

Votação da emenda da Diretas Já completa 30 anos. Jornal Hoje. Disponível em:  http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/04/votacao-da-emenda-da-diretas-ja-completa-30-anos.html Acesso em: 06/06/2017 às 16:04


[1] O título do artigo é retirado de uma matiné infantil realizada pela Associação de Servidores da Sudene durante suas comemorações carnavalescas em 1984. O mesmo título também foi parte do refrão de uma paródia da música de Vicente de Paiva e Jararaca Mamãe eu quero utilizada no Carnaval de Olinda em 1984 como forma de crítica política.

[2] Estudante de Licenciatura em História pela UFPE

[3] É importante destacar que a crise não só atinge ao Brasil, mas também outros países, fato que nota-se ao momento em que atentamos para que alguns dos motivos da crise são externos.

[4] Existe variação quanto aos locais e datas das primeiras manifestações.

[5] Os comícios foram a marca principal da campanha.

[6] Este estudo compreende a campanha das diretas como mais abrangente do que as movimentações “oficiais” dirigidas pelos por partidos ou entidades políticas ligadas à campanha, mas entende que as movimentações de reivindicação do direito de voto para eleger o presidente, orquestradas pela população em geral, podem ser entendidas como eventos inclusos na campanha num momento histórico em que a mesma perpassava a vida social das pessoas e abrangia muito mais elementos do que apenas eventos organizados pelos órgãos que coordenavam a campanha.

[7] Memórias da Ditadura. Diário de Pernambuco. Disponível em: http://www.diariodepernambuco.com.br/especiais/politica/memorias-da-ditadura/capa_memoria_da_ditadura/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:01

Reynaldo-BH: O movimento das Diretas Já começou com os 200 de Abreu e Lima. Veja.com. Augusto Nunes. Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/reynaldo-bh-o-movimento-das-diretas-ja-comecou-com-os-200-de-abreu-e-lima/ Acesso em: 06/06/2017 às 16:03

Votação da emenda da Diretas Já completa 30 anos. Jornal Hoje. Disponível em:  http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2014/04/votacao-da-emenda-da-diretas-ja-completa-30-anos.html Acesso em: 06/06/2017 às 16:04

[8] Oposição deflagra a campanha pelas eleições diretas. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 9 ago 1983. Capa. Hemeroteca Digital

[9] Caminhada Democrática reúne 40 mil pessoas. Jornal do Comércio, Pernambuco, 18 fev 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[10] Cristina acerta com Ulisses Guimarães comício em Petrolina. Diário de Pernambuco, Pernambuco, 28 fev 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[11] Diretas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 1 mar 1984. Opinião, pg. 7. Hemeroteca Digital

[12] Prefeito de Arcoverde quer mobilização pelas diretas. Diário de Pernambuco. 29 fev 1984. Política, pag. 3. Hemeroteca Digital

[13] Movimento popular e comunitário do bairro de Casa Amarela criado em 1975 para lutar frente à especulação imobiliária.

[14] Os representantes identificam o Projeto Guararapes como uma entidade cultural e cívica que visa representar os estudantes secundaristas e universitários de Pernambuco.

[15] Estudantes em favor das eleições diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 26 fev 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[16] Direta: Tema dominante do Carnaval. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 8 mar 1984. Carnaval, pg. 22. Hemeroteca Digital

[17] Bloco das professoras nas ruas de Goiana. Jornal do Comércio. Pernambuco, 2 mar 1984. Local, pg. 2. APEJE

[18] Eleição direta é tema dos servidores da Sudene. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 3 mar 1984. Carnaval, pg. 13. Hemeroteca Digital

[19] Pró-diretas aproveita o carnaval e faz campanha. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 3 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[20] Op. Cit.

[21] Mobilização pró-diretas é retomada com povo nas ruas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 11 mar 1984. Política, pg. 7. Hemeroteca Digital

[22] Oposicionista destaca instalação de comitê pró-diretas no Cabo. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 24 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[23] Lideranças lançam Frente Municipalista. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 15 mar 1984. Capa. Hemeroteca Digital

[24] Escritores e artistas pelas diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 11 mar 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[25] Osvaldo Lima lê na câmara manifesto pedindo diretas. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 15 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[26] Hoje, no Santa Isabel, “As Certinhas do Lalau” – o show pelas diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 30 mar 1984. Caderno C, pg. 4. APEJE

[27] Comissões organizam departamentos Jovem e Feminino do PMDB. Diário de Pernambuco. Pernambuco. 24 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[28] Entidades femininas promovem passeata até a Pracinha do DIARIO. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 25 mar 1984. Política, pg. 6. Hemeroteca Digital

[29] Mobilização pelas “Diretas”, já. Jornal do Comércio. Pernambuco, 4 abr 1984. Local, pg. 8. APEJE

[30] Comício pelas eleições diretas reúne mais de 50 mil pessoas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 6 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE.

[31] PMDB já aprontou material para o comício do dia 5. Jornal do Comércio. Pernambuco, 29 mar 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[32] Comício. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 30 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[33] Pró-diretas tem comício em Petrolina. Jornal do Comércio. Pernambuco, 7 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[34] Concentração em Moreno, amanhã. Jornal do Comércio. Pernambuco, 7 abr 1984. Política Local, pg 5. APEJE

[35] DIRETAS. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 18 mar 1984. Opinião, pg 11. Hemeroteca Digital

[36] Comissão de Justiça divulga panfleto e defende mobilização. Diário de Pernambuco. Pernambuco, 31 mar 1984. Política, pg. 2. Hemeroteca Digital

[37] Batistas já apoiam eleições diretas. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[38] Votação da emenda reúne a juventude. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

[39] Votação das Diretas levará recifense às ruas logo cedo. Jornal do Comércio. Pernambuco, 25 abr 1984. Política Local, pg. 5. APEJE

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

HISTÓRIA DE PERNAMBUCO

SEMESTRE 2017.1

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

EM BUSCA DA DEMOCRACIA FEMININA NO RECIFE MODERNO:

Amélia Beviláqua: Face Literata de Mobilização

FERNANDA YARA DA SILVA

RECIFE

2017

Trabalho de conclusão apresentado como requisito parcial para aprovação da disciplina História de Pernambuco, engloba aspectos pertinentes ao Recife do século XX, como solicitado. Versa pelo lado da luta feminina, de ocupe aos seus espaços de direito- nos mais variados planos, de reconhecimento da sua cidadania, capaz de expandir seu intelecto. O presente trabalho se utiliza ainda da figura literata Amélia Bevilaqua, a qual pode ser traduzida como uma face da mobilização e resistências a discursos de misoginia no Recife.

Palavras-chaves: Amélia Bevilaqua; Recife Moderno; Mobilização Feminina; Face literata.

ABSTRACT

Conclusion paper presented as a partial requirement for approval of the discipline History of Pernambuco encompasses pertinent aspects to Recife of the twentieth century, as requested. Versa on the side of women’s struggle, occupy their spaces of law – in the most varied plans, recognition of their citizenship, able to expand their intellect. The present work is also used of the literary figure Amélia Bevilaqua, which can be translated as a face of the mobilization and resistance to discourses of misogyny in Recife.

Keywords: Amélia Bevilaqua; Modern Recife; Women’s mobilization; Face literate.

INTRODUÇÃO

O Recife do iniciante século XX trazido aqui como moderno remonta a características de renovação tanto no plano intelectual, como cultural e urbanístico, visto que estes entre outros passaram por transformações influenciadas pelo campo ideológico ao qual se pode atribuir os mais variados conceitos externos, incorporados e assimilados por vezes de bom grado pelos brasileiros, e tais quais pelos recifenses- não esquecendo, contudo, do seu apreço pelo regionalismo. A partir do entendimento dessa premissa uma dúvida paira pelo ar questionando a temporalidade principiante do que seria esse Recife moderno e qual o seu alcance.

Decerto tal indagação pode ser parcialmente sanada com respaldo no conceito de coexistência do antigo e do novo, ou seja, mesmo que vistos como opostos ambos podem ocupar o território do outro sem precisão de maiores rivalidades- apesar da política higienista não demonstrar esse caráter permissivo. De todo modo a referida política é uma categoria para além, senão oposta à causalidade encontrada na coexistência sendo, portanto, uma interferência mais “racionalizada” e interessada na segregação entre pobres (mocambos) e ricos (centros). O fato é que o moderno não simboliza no todo apenas avanços e benefícios, mas também desnivelamentos ou ainda falta de reconhecimento e estranheza.

No plano educacional a interferência racionalizada também se fez muito presente tendo, inclusive, apoio de alguns veículos de comunicação, inicialmente centrados no uso das letras através da publicidade do jornal que funcionavam juntamente com canções da época como forjadores de imaginário e de identidade social, era este numa visão geral o país do interventor Getúlio Vargas e o estado, em que estava inserida Recife, de Agamenon Magalhães. É válido ressaltar ainda no entremeio desse aspecto a função da figura feminina no referido governo, sendo a de responsabilidade pelo êxito do lar e da família ficando a parte a dedicação e busca à uma possível intelectualidade. O plano intelectual, por sua vez destacou-se com figuras masculinas, porém, não só estas o ocuparam.

  1. 1. PERSONALIDADES RELEVANTES DA INTELECTUALIDADE MASCULINA DO RECIFE EM MEADOS DE 1930.

Dissertar acerca de tais personalidades é uma tarefa não muito árdua visto que a nível de pesquisa, encontrar produções sobre tais sujeitos e suas obras é relativamente comum, ao passo que a dificuldade pode ser encontrada se indagarmos sobre a ocupação das mulheres no espaço intelectual em Recife, que em particular vivia uma fase de endossamento ao regionalismo, sendo este a princípio uma forte marca das obras de Gilberto Freyre, além do seu conservadorismo agrário.

Alguns dos intelectuais contemporâneos a Freyre partilhava desse endossamento e dessa defesa outros por sua vez não o faziam como por exemplo Mário Melo, que apesar de ter grande apreço pelo Recife e por Pernambuco tinha um olhar mais flexível, porém não ingênuo quanto a assimilação da modernização sabendo, inclusive, os males degradantes que, por conseguinte poderia evocar.

Houve também no período a presença de José Lins do Rego, Luís da Câmara Cascudo, Eugênio Coimbra Júnior, Joaquim Cardozo, Ascenso Ferreira, entre outros. A figura de Ascenso Ferreira, poeta brasileiro conhecido por integrar o movimento com uma poesia que destacava a temática regional de sua terra, demonstra uma posição parecida com a de Freyre.

Juntamente com Mário Melo e Gilberto Freyre os quais possuíam em comum tanto a personalidade de intelectual, em maioria referente as letras, quanto o frequente convívio na esquina Lafayette, onde ambos se encontravam ansiosos por um debate acerca dos recentes acontecimentos tanto no plano ideológico e cultural, quanto social, além da busca por divertimento. Tal espaço não era frequentado por mulheres do lar, com rara exceção de Rachel de Queiroz, acompanhada por seu marido.

Este afastamento do gênero feminino se mostra como uma falta de incentivo ao intelecto feminino, já que estes espaços utilizados pelos intelectuais atuantes da época, para tais fins discursivos aglomeravam as mais recentes informações, a atualização diária destes informes era uma aspecto imprescindível no letramento de cada qual, através do qual se fariam ouvir e compreender como seres pensantes, apesar de que a luta  por quem os ouvisse não era tão dificultosa quanto para a mulher, que em oposição nem ao menos acesso livre aos lugares de debate possuía. Mas a privação não fora o suficiente para impedir que as mulheres conseguissem o letramento, o voto e o direito de frequentar os mais variados espaços ainda que a passos lentos.

  1. 2. FIGURAS DA INTELECTUALIDADE FEMININA NO RECIFE MEADOS DAS DÉCADAS DE 20 E 30: LOUCURAS E ESTIGMAS

[...] surgem no cenário recifense: a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, encabeçado por Edwiges de Sá Pereira e a Cruzada Feminista Brasileira, liderada por Martha de Hollanda Cavalcanti. Elas possuíam diferentes percepções de feminismo e sobre o rumo das mulheres naquele período. Isso não implica dizer que existiam apenas essas duas mulheres no movimento feminista do Recife. (SILVA, 2014, p.2300).

Não implica dizer que existiam apenas essas figuras no movimento feminista”. A partir dessa frase retirada da citação à cima é possível fazer uma reflexão acerca da relação de intelectualidade e envolvimento com o movimento feminista da época. Tal premissa pode ser confirmada pela “etiqueta” estipulada a mulher, do cuidado com o lar e responsabilidade pelo êxito familiar, como já citado na introdução deste trabalho, significando que as mulheres dedicadas a viver a partir de sua intelectualidade recusando a vida do lar proposto, fora do padrão desejado tendiam num processo involuntário a serem feministas, a princípio não por uma escolha ideológica, mas numa posição de recusa, de mostrar-se capaz de pensar criticamente. Logo, a relevância de se ter esse surgimento de mobilizações feministas no Recife foi um avanço positivo.

Edwiges de Sá Pereira foi sócia correspondente da Academia Pernambucana de Letras, antes de ingressar como membro efetivo em 1920. Essa atuação a fez ser considerada equivocadamente a primeira mulher a ingressar em uma academia de letras no Brasil. Como membro eleito dessa academia, chegou a exercer a função de vice-presidente*, produziu também juntamente com Amélia Bevilaqua, Úrsula Garcia e outras mulheres a revista feminina “O Lyrio”, a qual será posteriormente abordada.

Martha filha do farmacêutico Nestor de Holanda Cavalcanti foi a única mulher a cursar o normal médio, a primeira mulher a conquistar o título de eleitor em Pernambuco, foi candidata a deputada em 1933. E publicou um livro de grande sucesso intitulado de “O Delírio do Nada”. A vida intelectual de Martha teve início em 1928, sua obra literária era vasta como em revistas, almanaques, magazines, jornais e etc.

Decerto diversos acontecimentos da década anterior a de trinta, traz a ela muitos desdobramentos, é o caso de uma alteração na psiquiatria brasileira, a qual passa a inserir investimento não somente no tratamento dos loucos, mas também estendendo seu atendimento a prevenção das doenças mentais afim de controlar a degeneração da população brasileira. Ao estipular moldes para se alcançar uma nação moderna não era recomendada atividades concernentes a vida pública, além de evitar comportamentos histéricos, caso contrário a mulher poderia causar desequilíbrios sociais e comprometer os avanços já conquistados. A partir desse entendimento, como ficava então a sua vez das mulheres citadas a cima? Se pode perceber que fugir a esses padrões era ser acometida por um pesado estigma social, como pode ser percebido na citação abaixo.

Assim, o retrato da mulher pública é construído em oposição ao da mulher honesta, casada e boa mãe, laboriosa, fiel e dessexualizada. A prostituta construída pelo discurso médico simboliza a negação dos valores, ‘pária da sociedade’ que ameaçava subverter a boa ordem do mundo masculino. (…) Por isso, ela deve ser enclausurada nas casas de tolerância ou nos bordéis, espaços higiênicos de confinamento da sexualidade extraconjugal, regulamentados e vigiados pela polícia e pelas autoridades médicas sanitárias” (RAGO,1997, Apud CUPELLO, 2010, p.4).

Ainda acerca do que era recomendado às mulheres a pesquisadora Maria Concepta Padovan afirma o incentivo aos exercícios como forma de gerar filhos saudáveis e de afastamento da loucura. A feiura era coisa de gente louca, pois se acreditava que a beleza não era inata, precisava ser conquistada a partir da educação física.

“As mulheres eram incentivadas a realizar exercícios como danças e ginásticas para fortalecer o corpo e, assim, dar à luz filhos mais saudáveis”. “No prontuário de uma paciente de nome Severina constava que ela tinha sido internada por causa de sua aparência repugnante”, (PADOVAN,2015. Apud SCHIER, 2015, p. 1)

  1. 3. AMÉLIA BEVILÁQUA- UMA MULHER DE VANGUARDA
  1. a. AMÉLIA BEVILÁQUA VERSUS A RESIGNAÇÃO POLÍTICA DA OUTRA AMÉLIA (UMA MULHER DE VERDADE).

Nascida na fazenda Formosa, em Jerumenha, no Piauí, filha do Desembargador José Manuel de Freitas e de D. Teresa Carolina da Silva Freitas. Concluiu sua educação em Pernambuco, onde conheceu e casou com Clóvis Beviláqua no ano de 1883.

Se o termo vanguarda tem por definição, “parcela que está à frente, mais consciente e combativa, ou de ideias mais avançadas, de qualquer grupo social”, é este exatamente o termo ao qual se pode atribuir à literata Amélia de Freitas Bevilaqua, que por sua vez mesmo inserida num contexto de tanta resignação feminina perante a política foi ousada e extemporânea. Estas posições de Amélia por sua vez, vão contra o sugerido para a formação da família, como já citado, nos preceitos de sua contemporaneidade ser outro tipo de “Amélia” seria de “bom tom”.

A Amélia de Ataulfo e Mário Lago, nascera ano de 1941 cabe exatamente ao modelo proposto a todas as mulheres, e é, por conseguinte utilizada como propaganda do país para incentivar tal comportamento.

Ai meu Deus que saudade da Amélia Aquilo sim que era mulher Às vezes passava fome ao meu lado E achava bonito não ter o que comer E quando me via contrariado dizia Meu filho o que se há de fazer Amélia não tinha a menor vaidade Amélia que era a mulher de verdade. (ATAULFO; MÁRIO LAGO,1941).

Ao que tudo indica esta música tinha mesmo essa função de propagar a modelagem de como era a mulher de verdade para a nação e em especial para os homens.  Apesar de já preencherem alguns espaços de divertimento como cafés, a mulheres precisavam estar hábeis para o lar e esta premissa pode ser confirmada se analisarmos as propostas de educação do interventor Agamenon Magalhães em Pernambuco em que seguindo as orientações federais buscou diferenciar o ensino entres meninas e meninos, tendo por princípio prepará-las para o lar como mostra a citação abaixo.

Tais princípios foram mais especificados no ensino de Economia Doméstica e a elaboração desse curso teve dois momentos. Num primeiro, foi criado, em 1938, o Ensino Doméstico e curso de iniciação à vida do lar. Essa modalidade ficou dividida em dois períodos: o primeiro era um preparatório de um ano e o segundo era realmente o curso doméstico, de dois anos. (RAMOS, 2014, op. cit,p. 126).

Retomando a proposição acerca da música, pode-se aferir que embora criada numa temporalidade diferente, a influência de tal não se limita ao seu referido tempo, ela transpõe barreiras, adentra no imaginário social, forjando Amélias em todo o país. Até recentes tempos se pode ver pessoas da geração de 70 cantando em tom de nostalgia a referida canção, o que por sua vez escandaliza um pouco devido ao momento acalorado de discussões feministas, e um momento em que muitas mulheres se recusam a serem Amélias.

De modo generalizado, se vê mais movimentação de liberdade em trabalhar e dedicar-se ao letramento, não desconsiderando o trabalho duplo de muitas, divididas entre manutenção do lar e do sustento. Mas há de se convir que as mulheres conseguiram ocupar o espaço de uma outra Amélia, a Beviláqua.

  1. b. EXPRESSÃO E MOBILIZAÇÃO LITERATA NA REVISTA LYRIO.

No ano de 1930, Amélia Beviláqua estava por volta dos seus 70 anos de idade e já em 1920, um nome reconhecido por críticos como Sílvio Romero e Araripe Júnior, tendo várias obras publicadas pela Bernard de Fréres, importante editora da época. Sua projeção literária notavelmente inspirou outras mulheres.

Fora uma das fundadoras da revista O Lyrio (1902), e apesar desta conter em suas publicações poemas, crônicas entre outros gêneros, não deixava a desejar quanto a carga crítica de grande relevância que estimulava a produção de outras mulheres, muitas delas do Piauí, lugar de origem de Amélia.

Há dois aspectos a esclarecer um é acerca de sua origem e espaço de produção pois apesar ser piauiense, ela passa boa parte de sua vida no Recife, lugar de produção da revista citada acima. O segundo diz respeito a época de produção de O Lyrio bem anterior ao ano trabalhado, entretanto, há de se convir que a influência de sua literatura ultrapassa a temporalidade assim como sua pessoa, portanto a análise de O Lyrio permanecerá, já que tendo ele iniciado no começo do século XX, a seu modo tem um legado de extrema relevância a posteriori.

Amélia Bevilaqua era uma mulher como muitas, entretanto possuidora de qualidades intelectuais como poucas, no caso dessas era devido à escassez de oportunidade. Além de alfabetizada era letrada o que significa dizer que seus conhecimentos eram utilizados como meio de mobilização de outras mulheres, seja através da O Lyrio ou de outras obras. O fato é que seu entendimento e recusa não ficaram trancafiados no seio de sua mente, deixando fluir nas suas atitudes sua ousadia, que fora também mostrada ao candidatar-se a uma cadeira da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1930, a qual foi recusada, o quão impactada não ficara a cidade do Recife, senão o país, diante de tal avidez? Decerto fora uma contribuinte da mobilização recifense para além de 1930.

Na primeira edição de O Lyrio, datado de 5 de novembro de 1902, são feitas colocações sobre o perfil de público pretendido pelas fundadoras, mais uma vez avidez é de se espantar já que de modo direto sem muitos rodeios explicitam suas bandeiras e interesses sociais estando inclusos o incentivo as mulheres para publicação de suas obras, anseio por democracia feminina e esperança do adentramento feminino nos espaços científicos, não deixando de enaltecer um sentimento austero de pernambucanidade. Vejamos alguns trechos referentes.

(…) “O Lyrio surge, porém surge mebriado de olores magicos, bafejado por uma atmosphera de estridentes aplausos, applausos que partem do âmago do coração d’aquelles que desejão ver desfraldado o estandarte da democracia feminina. ” (LIMA; LUIZ 1902, p.3)

(…) “entre lágrimas sorridentes diremos apenas, fazendo parte d’esse cortejo mirifico- a mulher pernambucana assim fazia jús pelo seu talento. (Idem.)

Contudo na chamada a leitura da revista uma das fundadoras na figura de Amélia Bevilaqua, coloca-a como algo inocente e puro ao dizer “Senhoritas gentis, entre o vosso minúsculo dedal, a vossa tesourinha de costuras, vossas fitas e os vossos estudos, reservai um cantinho para o Lyrio. (…) ele é inocente e puro como vossas almas diaphanas e amorosas. ”

Ou seja, ao que parece não há, portanto, uma busca por erudição literária, ou por manter a revista não só no plano intelectual, mas também no uso social aproximando as mulheres dos lares, o que colocaria tais mulheres em contato com pontos de vistas a favor do gênero feminino, sem muita radicalidade, se utilizando assim da sutileza e pureza do lírio. Dedica também parte do discurso aos “cavalheiros illustres”.

  1. 4. (IN)ELEGBILIDADE PERANTE A SUPREMACIA MASCULINA
  2. a. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E SEU DISCURSO EXCLUSÓRIO AO GÊNERO FEMININO.

“Não é preciso definir esta instituição, iniciada por um moço, aceita e completada por moços, a Academia nasce com a alma nova, naturalmente ambiciosa. O vosso desejo é conservar, no meio da federação política, a unidade literária. ”

A Academia Brasileira de Letras (ABL) uma instituição cultural inaugurada em 2 de julho de 1897 e sediada no Rio de Janeiro, cujo objetivo é o cultivo da língua e da literatura nacionais Compõe-se a ABL de 40 membros efetivos e perpétuos, e 20 sócios correspondentes estrangeiros.

A citação a cima é uma parte integrante do discurso de Machado de Assis na fundação da instituição e fora como ele mesmo declarou, o anseio de conservar a unidade literária do Brasil o mote da fundação. Por esse discurso não se consegue ter claramente uma ideia da visão de Machados de Assis sobre a elegibilidade da mulher na ABL, mas de todo modo os termos utilizados por ele “(…)iniciada por um moço, aceita e completada por moços” evoca dúvidas as quais não podem ser sanadas de numa primeira leitura da frase. Há de se convir a priori que podendo ou não haver um sentimento misógino por parte dele, decerto há uma acomodação de que moços estariam a frente daquela instituição.

De toda forma a problemática se desenrola anos à frente, com a candidatura de Amélia Bevilaqua à uma das cadeiras da ABL em 1930, a qual não foi homologada por puro egoísmo senão machismo dos acadêmicos, é o que defende a pesquisadora Michele Asmar Fanini comprovando tal pensamento através da comprovação da própria Amélia em sua obra “A Academia Brasileira de Letras e Amélia Bevilaqua”, na qual esboça os elementos atenuantes pelos quais não foi deferida sua candidatura.

(…) sustentaram, energicamente, as barreiras da tradição. Selecionaram a raça, a espécie, que será por eles mesmos cultuada, na sua palidez sem relevo… e eu passei a contemplar as coisas mundanas, em seu aspecto exterior e interior, sob uma claridade nova (BEVILAQUA, p.13 apud FANINI, 2010).

Ainda para Fanini, a obra de Amélia acerca do processo vivido por ela foi uma forma de delação a qual teria a incumbência de contribuir para que sua reivindicação não caísse no esquecimento e pudesse mobilizar outras pessoas solidárias à questão.

Em suma a Academia no momento mostrou-se apenas indiferente, com exceção de um seleto grupo de intelectuais. Despreocupados com a elegibilidade feminina levantando apenas indagações frívolas como qual indumentária usaria a mulher neste caso em que os homens usam fardões, levando o acontecimento como simples modo de entretenimento e foi levado assim por muitos anos sendo a primeira cadeira ocupada apenas em na década de 70, pela escritora Rachel de Queiroz.

ANEXOS

Amélia Beviláqua e seu marido Clóvis Bevilaqua

1ª Edição da Revista Feminina O Lyrio.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As considerações a serem feitas por mim não serão muito prolongadas, cabendo suscitar apenas algumas observações que incluem as lacunas do estudo por mim realizado e o aproveitamento geral da pesquisa. Quanto ao aproveitamento geral, pode se dizer que o mesmo incidiu de forma positiva na vida acadêmica, tendo em vista a carga de leitura com que se pode deparar afim de dar embasamento a temática, o que de fato não será desperdiçado pela memória, fazendo com que o arcabouço teórico se expanda. Decerto cada aspecto e fragmento aqui abordados serviram de instigue para novas pesquisas, afim de ultrapassar, inclusive, as lacunas ainda não superadas, já que talvez ao possuir um aporte mais filosófico e um domínio mais sagaz da periodicidade abordada pudesse extrair mais reflexões acerca da temática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
DISCIPLINA: TÓPICOS DE HISTÓRIA DO NORDESTE – IGREJAS E RELIGIÕES
SEMESTRE 16.1
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

CATOLICISMO EM CORTÊS-PE: NUMA PERSPECTIVA HISTÓRICA

Luis Felipe de Lima Durval

Resumo: Este artigo trata da religiosidade católica no município de Cortês, a partir de uma leitura do panorama local, acentuado as contribuições do catolicismo para formação do município e traçando o perfil histórico da devoção popular, explicitando a atuação dos leigos, sobretudo, o protagonismo das mulheres e a devoção mariana alimentada pelos padres que passaram pela Paróquia de São Francisco de Assis. As metodologias utilizadas para este trabalho foram fontes orais e a bibliografia existente. Não se pretende com este trabalho findar as discussões sobre o tema, pelo contrário, sua proposta é iniciar a temática da religiosidade no município.
Palavras chave: Catolicismo. Cortês. Religiosidade Local.

Introdução

O município de Cortês é situado na mata-sul pernambucana e possui um contingente populacional de 12.602 habitantes, dos quais 6.773 declaram-se católicos e 3.274 professam outros credos cristãos. A cidade foi construída sobre terrenos íngremes e sua economia é baseada na monocultura do açúcar, no funcionalismo público e no comércio. Cortês possui limites fronteiriços com os municípios de Gravatá, Joaquim Nabuco, Amaraji, Ribeirão, Barra de Guabiraba e Bonito, fazem parte das delimitações da cidade o povoado da Agrovila Barra de Jangada, Usina Pedrosa e engenhos. Suas terras estão à margem do Rio Sirinhaém. O que hoje compõe o centro da cidade, fora antigos canais ribeirinhos, recentemente, a cidade foi tomada pelas fortes chuvas de junho de 2010, as enxurradas derrubaram barreias e as violentas águas do Sirinhaém adentraram nas casas, a cidade vem se recuperando desta catastrófica enchente.

1. Histórico do município

O povoado de Cortês foi criado sob a devoção a São Francisco das Chagas, comprado em terras em 1872 e doadas ao santo italiano pelo Capitão Francisco Veloso da Silveira para construção de um povoado em 17 de abril de 1875. Juntamente com a vila de Primavera, a vila de Cortês passa a pertencer ao município de Amaraji, tendo sido elevada a condição de distrito de Amaraji em 1938, sua emancipação política foi efetivada em 29 de dezembro de 1953, paralelamente, com a criação de outros novos municípios . Os fatores que elevaram o vilarejo à condição de cidade foram: a presença da Usina Pedrosa desde o século XIX, vereadores cortesenses que possuíam assento na Câmara Municipal de Amaraji, casas comerciais no distrito, feiras semanais e a fundação da Paróquia de São Francisco em 1947.

1.1 Usina Pedrosa
A fundação da Usina Pedrosa em Cortês é do fim da década de 1880, com a decadência dos banguês que fabricavam açúcar bruto e aguardente, passando a serem substituídos pelas usinas de açúcar cristal e álcool. Nas delimitações do engenho Ilha de Flores os parentes do Coronel Manoel Gomes da Cunha Pedrosa (Barão de Bonito) empreenderam o projeto de fundação da indústria. Com ele, se estabeleceu uma elite canavieira nos arredores da Ilha de Flores, dentre os quais, Carlos de Barros Cavalcanti e José de Moura Borba .
Um dos filhos do Barão, o Coronel Manoel Honorato da Cunha Pedrosa “Sr. Nezinho”, administrou o Engenho Pedrez, “para quem o trem de Cortês parava, em frente da sua residência, permitindo o embarque e o desembarque da sua nobre família.” (MOURA: 2002, p.40) Segundo relato dos mais antigos, o coronel construiu uma capela de dedicação desconhecida no Morro do Cercado, cuja edificação fora abandonada quando a indústria açucareira a assumiu. Invadia por animais, a capela não suportou o rigoroso inverno de 1940, além do Coronel “Nezinho” ter sido sepultado no local, há relatos também de outras sepulturas.
No fim da década de 1940, é erguida a capela da Usina Pedrosa dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição e celebrada a primeira Missa da Botada, pelo pároco de Bonito, o Monsenhor Francisco de Barros Cavalcanti (Cônego Chicó). A pedido de Dulce Von Shosten, proprietária da Usina na época, a cantora Maria Parízio animou a celebração e a festa continuou num show organizado pelo grupo de teatro do Clube Lítero-Recreativo 6 de junho, apresentado pelo jovem José Roberto de Melo, que mais tarde viria a ser o primeiro prefeito da cidade.

1.2 A Paróquia e a facilitação para a emancipação municipal
O início da década de 1950 é marcado pelas lutas de emancipação política, seja com a presença dos vereadores cortesenses em Amaraji – Carlos de Barros Cavalcanti, José Valença Borba e José Roberto de Melo – proferindo discursos emancipacionistas na tribuna da câmara, seja pela publicação de notas diárias nos jornais de circulação estadual emitidas por José Roberto de Melo e por padres de Cortês, rebatendo críticas de bonitenses e amarajienses contrários à emancipação do distrito. No artigo denominado “Anatomia de um distrito de Amaraji”, o Padre José Maria Rabelo destaca a importância da condição de paróquia para o favorecimento da elevação de um município:
Há cinco anos e meses, foi a vila em apreço, elevada à categoria de sede da Paróquia de São Francisco que muito tem contribuído para a elevação do povo. A ação da igreja se faz necessária em todos os meios para o progresso não só espiritual, mas social. Acaso o nosso país e todo o mundo não sentiu no percurso de sua existência a influência benéfica da Igreja? Como não encontrar, também na nossa Cortês um ato de progresso na atuação dos princípios morais desta mesma Igreja de Cristo? [...] Há algumas semanas, certo jornalista mostrava… o exemplo de Pesqueira que se deixou desmembrar com a criação de novos municípios e ainda está favorecendo o distrito de Poção para a sua rápida emancipação. Que os nossos vizinhos de Amaraji e Bonito imitem Pesqueira para o adiantamento de Pernambuco e também do nosso Brasil que está se desenvolvendo para um futuro que nos espera bem próximo.

2. Instalação da Paróquia de São Francisco de Assis
O distrito de Cortês pertencente a cidade de Amaraji é elevado a condição de paróquia no dia 05 de março de 1947, o Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife Dom Miguel de Lima Valverde, nomeia o território canônico como Paróquia de São Francisco de Assis, modificando a nomenclatura das terras que fora doada a Francisco das Chagas e confere ao padre João Eduardo Tavares a missão de assumir inicialmente a administração paroquial . Devido à sobrecarga dos clérigos que assumiam outras comunidades, em vista do pequeno número de padres arquidiocesanos disponíveis para o interior, a história paroquial começa com irregularidade dos padres quanto ao cumprimento permanente das demandas religiosas dos cortesenses.

2.1 Católicos e protestantes no final do século XIX

Antes mesmo da fundação da paróquia, os católicos recebiam com muita dificuldade assistência espiritual de Amaraji, os padres viam-se muitas vezes impossibilitados ao se deslocarem para vila, viajavam a cavalo e as estradas dificultavam a acessibilidade ao local. As celebrações aconteciam mensalmente, o que favorecia a migração de padres de outras localidades, tais como, o Cônego Chicó de Bonito, que visitava as delimitações do vilarejo a pedido dos coronéis do final do século XIX.
O terreno doado para construção do povoado de Cortês foi concedido a São Francisco das Chagas, logo pertencera por mão-morta a Igreja Católica, que devido à inconstância da Igreja Oficial já explicitada, o terreno católico foi invadido pelos protestantes na década de 1870, gerando revolta por parte dos católicos da localidade e proprietários de terras, “quando Padre Jerônimo de Assunção teve conhecimento da presença dos protestantes em Cortês, achou um absurdo a terra de São Francisco ser invadia por infiéis” (MOURA: 2002, p. 51)
Tal insatisfação desencadeou num movimento de contestação, através de muita pancadaria e queima de bíblias os católicos conseguiram a expulsão completa dos protestantes , segundo as informações orais, os fundos da primeira igreja matriz foram erguidos neste contexto de disputas, pelos próprios protestantes, nota-se que as estruturas da igreja foram posteriormente alargadas e concluídas pelos católicos, pois, segundo os relatos, a intenção dos protestantes era edificar um templo naquele lugar. A primeira matriz foi finalmente erguida em 1914.

2.2 Antecedentes paroquiais
No ano de 1947 tinha-se no recinto paroquial as imagens de São Francisco de Assis, do Sagrado Coração de Jesus, de Nossa Senhora de Lourdes e nichos de imagens de Santa Terezinha, São Sebastião e São Benedito, no que diz respeito a organização religiosa havia presente o Apostolado da Oração , do qual foram pioneiras as senhoras Irene Teixeira de Carvalho, Maria dos Anjos da Silva “D. Janja” e Maria Josina Bezerra “D. Mariquinha”. O primeiro pároco não conseguiu assistir cotidianamente a comunidade, reversava suas atividades na Paróquia de São Francisco e, em Ribeirão, era vigário substituto como assinala o livro de tombo paroquial:
Desde o dia 13 de agosto até o dia 5 de outubro de 1947, por ordem do Sr. Arcebispo D. Miguel Valverde o padre João Eduardo Tavares ficou residindo na cidade de Ribeirão, como vigário substituto, vindo a vila de Cortês toda semana, atendendo os fiéis com circunstâncias que o permitiam.

3. Caminhada pastoral
Com o estabelecimento da paróquia não mudou muita coisa quanto a permanência de sacerdotes na comunidade, o que estava assegurado eram as celebrações dominicais semanalmente, mesmo num curto período de tempo a cidade acolheu muitos padres, cada um deixando registrada sua marca, suas devoções pessoais, sendo determinantes para formação religiosa dos católicos cortesenses. Ao longo do histórico paroquial mais de vinte padres passaram por Cortês, alguns com administrações breves, outros com longos períodos de pastoreio, como é o caso dos padres Antônio Borges, Salvatore Borgh e Josenildo José da Silva.

Padres da Paróquia de São Francisco de Assis em Cortês:

José Eduardo Tavares 14 de junho de 1947 – 5 de maio de 1949
Valdenito Lins de Oliveira 5 de maio de 1949 – 26 de janeiro de 1952
José Maria Rabelo Machado 26 de janeiro de 1952 – 02 de fevereiro de 1953
Arnaldo da S. Moreira 02 de fevereiro de 1953 – 06 de outubro de 1953
Regência de Amaraji 06 de outubro de 1953 – 10 de dezembro de 1953
Arnaldo da S. Moreira e cooperadores 10 de dezembro 1953 – 26 de março de 1955
Gerson de Farias Galvão 26 de março de 1955 – 25 de abril de 1958
José Lins de Moura 01 de maio 1958 – 24 de outubro de 1958
André Camarotti 25 de outubro de 1958 – 28 de fevereiro de 1961
Antônio Borges 11 de março de 1961 – 28 de fevereiro de 1969
José Ramos de Galvão 1968
Francisco Espata 01 de março de 1969 – 03 de maio de 1970
Antônio Borges 03 de maio de 1970 – 20 de setembro de 1974
José Butkewiez 20 de setembro de 1974 – 08 de dezembro de 1974
Noberto Penzkofer 15 de dezembro de 1974 – 04 de janeiro de 1976
Antônio Borges 06 de janeiro de 1976 – 11 de janeiro de 1987
Hermínio Canova 18 de janeiro de 1987 – 31 de dezembro de 1989
José Kalapura 01 de janeiro de 1990 – 01 de dezembro de 1991
Salvatore Borgh 01 de dezembro de 1991 – 21 de junho de 1999
Salmo Caetano Souza 1996
Paulo César Rodrigues 21 de junho de 1999 – 16 de março de 2001
Josenildo José da Silva 16 de março de 2001 – 28 de março de 2002
Gilberto Luna Moura 2001 – 2002
Jaime de Matos 01 de fevereiro de 2002 – 05 de agosto de 2005
José Edivaldo de Brito 2005
Ramiro Ludêna Amigo 2005
Josenildo José da Silva 05 de agosto de 2005 – 15 de dezembro de 2015
Francisco Jerônimo Dias de Meneses 15 de dezembro de 2015, até o momento.
* I Livro de Tombo

A sustentação da Igreja Paroquial nascente norteou-se de modo bem particular, pelo Pastoril Religioso , chegada as festividades natalícias, a professora Abigail Guerra e Arzeny Assis da Silva organizavam a dança das crianças para arrecadação de recursos através dos cordões azul e encarnado para contribuição para Igreja.

No dia 27 de maio de 1949 é fundada a Cruzada Eucarística de Cortês, organizada pela professora Abigail, funcionava como uma continuação para adolescentes que tinham recebido a primeira comunhão, os membros recebiam uma fita azul, havendo uma distinção entre uma e outra que determinava o cargo ocupado por eles.

Em fevereiro de 1950 é erguida a Escola Paroquial, sendo oferecidos inicialmente os cursos de formações iniciais, mais tarde, o Padre Antônio Borges assumiu a direção da escola, sua passagem pela cidade deu-se por mais de duas décadas, mesmo passando este tempo, sua atuação dava-se efetivamente na questão educacional do município e nas celebrações dos finais de semana, visto que ele dirigia outra escola em Ribeirão.

Ainda na década de 1950, são construídos o Salão Paroquial, a Casa Paroquial e a Rádio Amplificadora Paroquial Pio XII, uma difusora organizada por Mário Feitosa de Araújo e José Amarante “Dudé”, seus alto-falantes distribuídos por toda cidade levavam aos munícipes canções populares, notícias, propagandas, transmissão de celebrações e toda uma programação interativa. A difusora durou aproximadamente dez anos, a falta de recursos da paróquia deu margem para ausência de manutenção dos materiais, muitos deles se perderam ao longo do tempo, na nova matriz ainda restou um alto falante da rádio.

No Salão Paroquial eram organizados eventos pelos próprios paroquianos para manutenção da Igreja:
Já em 1955, quando da permanência de Pe. André Camarotti, como vigário de Cortês, (Clarice Rocha Borba – “D. Dalva”), organizou e participou, juntamente com sua prima Marly Borba, de um desfile de modas, em benefício da Matriz de São Francisco de Assis. (MOURA: 2002, p. 94)

Para as comemorações do padroeiro eram realizadas muitas festas de rua, carrosséis, canoas, barracas, danças populares, a programação religiosa iniciava pela manhã com a alvorada, celebração da missa e seguia pela tarde com a procissão. Na década de 1950 o Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife Dom Antônio de Almeida visita a cidade, como registra José Roberto de Melo:

O Arcebispo, D. Antônio de Almeida Morais Júnior, chegou quinta-feira para demorar até sábado. Foi recebido pelo prefeito José Valença Borba, vereadores, juiz de Direito, escolas, delegado de polícia (cordialmente), associações religiosas, o padre e o povo… Pronunciou três discursos. Inaugurou o novo Salão Paroquial crismou centenas de pessoas. Celebrou missa solene. Espalhou simpatia. Andou pela feira perguntando o preço dos gêneros. (MOURA: 2002, p.136)

Nestas condições, de uma Igreja clerical de transições, os paroquianos, sobretudo, as “beatas” assumiam a causa da evangelização semanal na cidade e nos engenhos. Partindo de uma religiosidade existente, com uma forte devoção a Nossa Senhora, o Padre Gerson de Farias Galvão alimenta as manifestações de fé à Maria e cria uma associação de mulheres intitulada Pia União das Filhas de Maria.

3.1 Padre Gerson Galvão e a devoção a Nossa Senhora de Fátima
Padre Gerson é uma figura bem particular no contexto paroquial, quase que unanimemente, seus contemporâneos cortesenses o intitulam de “homem santo”, “homem de Deus”. Seu período foi relativamente curto, mas decisivo para construção de uma religiosidade mariana na cidade.

No contexto das grandes guerras do século XX, a figura de Maria sempre é uma resposta dos católicos para os momentos de tensões, na luta contra o avanço do protestantismo e no combate aos regimes ditatoriais. As aparições de Maria no povoado de Fátima (Portugal) , dão conta desta necessidade do povo devoto ser cuidado por uma mãe, pela senhora de todos, pela protetora dos pobres, por “Nossa Senhora”.

Em outubro de 1917, é registrada a última grande aparição da “Senhora” em Fátima, na ocasião, haviam de 70 a 80 mil pessoas, reforçando como a figura mariana é uma atração religiosa, principalmente entre os pobres, aos quais depositam na mãe suas esperanças em meio aos conflitos, calamidades e guerras.

Antes mesmo do reconhecimento das aparições em Fátima por parte da Igreja oficial, o culto a santa já estava propagado pelo mundo. Em Cortês, o Padre Gerson Galvão assumiu a devoção e tratou de incentivá-la: todos os dias treze de cada mês eram realizados procissões em honra a Fátima, a imagem ficava aos cuidados dos paroquianos em suas casas, diante dela, recitavam o rosário, e no mês seguinte era organizada outra procissão, conduzindo a imagem para outra residência familiar.

Estas manifestações religiosas foram alimentadas pela doação de um terreno para construção da Igreja de Nossa Senhora de Fatima pela Prefeitura Municipal de Cortês, como registra entusiasmadamente o Padre Gerson ao saber da notícia da doação do terreno: “Foi mais um dia de vitória de Nossa Senhora de Fátima, desta vez, um local esplêndido cedido pelo senhor prefeito, afim de ser edificada uma capela em honra a Nossa Senhora de Fátima.”

Devido à reconstrução do Salão Paroquial, os gastos com a Amplificadora e os problemas com a infraestrutura, a paróquia suspendeu a construção da igreja. Embora no decenário da paróquia, o pároco tenha chegado a benzer a pedra fundamental da capela no local
Com alvorada festiva teve início o dia alegre de 27 de março. Dia bonito e propício para os acontecimentos se desenvolverem. A tarde, pelas dezesseis e trinta horas, saiu a procissão solene com as imagens do Padroeiro São Francisco de Assis, do Sagrado Coração de Jesus e Nossa Senhora de Fátima. Recorre a procissão para o local onde dever-se-ia benzer pedra da capela de N.S.F. O rever. vigário procedeu a benção da pedra que o exmo. sr. prefeito, José Valença Borba, colocou uso devido local, ao pé da velha cruz de madeira erguida para esta finalidade.

3.1.1 Associação Pia União das Filhas de Maria

Em torno desta devoção, Padre Gerson organizou na paróquia a Pia União das Filhas de Maria, uma associação religiosa de moças virgens, que se reuniam para oração, evangelização e ajudavam o vigário na condução das procissões. Além deste trabalho, o sacerdote ministrava cursos bíblicos e retiros no casarão de Paulo Severino Fraga no Engenho Limão. Fizeram parte desta associação: Arzeny Assis da Silva, Abigail Guerra, Irene Teixeira de Carvalho, Maria de Lourdes da Silva Fraga, Maria José da Silva Fraga, Maria das Graças, Madalena Ferreira Barbosa, Josefina Ferreira Barbosa e “Aninha”.

Estas mulheres desde cedo sentiam o desejo de serem religiosas, devido ao desconhecimento deste papel na época, aliado a falta de condições familiar para enviá-las ao convento e muitas delas terem que cuidar das atividades da paróquia e da família, somente Maria de Lourdes da Silva Fraga ingressou no convento, na Congregação das Irmãs dos Pobres de Catarina de Senna no ano de 1962 na Bahia, mais tarde, algumas destas pias optaram por serem freiras em suas casas, numa nova configuração de vida religiosa.

Depois de ter deixado a cidade, o Padre Gerson deixou a batina e teve filhos com uma mulher no Recife, procurado por muitos bispos para voltar ao exercício do sacerdócio ele resolveu continuar com sua companheira, segundo as Filhas de Maria ainda vivas, o mal do sacerdote foi ter deixado Cortês. Com sua saída, a associação se desarticulou, mas as pias seguiram conduzindo os trabalhos da comunidade paroquial em outras associações e grupos.

3.2 Ereção da Diocese de Palmares

Atendendo ao processo de criação de novas circunscrições eclesiásticas, para um maior controle da Igreja na República laica, longe dos benefícios do padroado, a Igreja de Palmares tardou a ser erguida, sua fundação é datada no dia 13 de janeiro de 1962, surge a partir de paróquias cedidas da Diocese de Garanhuns e da Arquidiocese de Olinda e Recife, tendo a Sé Episcopal na Catedral Nossa Senhora da Conceição dos Montes em Palmares, aos cuidados Dom Acácio Rodrigues como primeiro patriarca diocesano.

O território diocesano reúne vinte paróquias que abrangem cidades do agreste e da mata sul pernambucana, sendo Cortês inclusa nesta listagem. Com esta criação, a Paróquia São Francisco ganha uma nova roupagem, embora a assistência do clero permanecendo transitória. Com a proposta da Carta Encíclica Fidei Donum escrita pelo Papa Pio XII e seu apelo para a dimensão missionária nos diferentes continentes, chegam a recente diocese padres estrangeiros, sobretudo, europeus. Neste percurso, passaram pela Paróquia São Francisco de Assis os padres José Butkewiez (polonês), Noberto Penzkofer (alemão), Hermínio Canova (italiano), José Kalapura (indiano) e Salvatore Borgh (maltês). Este último foi responsável pela coordenação da construção da nova igreja matriz finalizada em 1996 .

3.3 Congregações Religiosas em Cortês
As religiosas da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Calvário chegaram a Cortês em fevereiro de 1977, se estabeleceram na Casa Paroquial e atuaram na paróquia por quase quatro anos. O trabalho das freiras deu-se na área educação, a Irmã Margarida atuou como professora de Admissão, a Irmã Odíla trabalhou como professora de religião e educação artística do Ginásio no colégio paroquial.
Com a saída das Irmãs de Nossa Senhora do Calvário da Casa Paroquial, em março de 1982 é chegada a Congregação do Sagrado Coração de Jesus iniciando um trabalho mais específico com a Catequese, na evangelização da zona rural e no acompanhamento de grupos jovens. Desta congregação, atuaram em Cortês as irmãs: Lúcia (superiora), Letícia, Rosário, Francisca, Paula, Dalva, Eunice e Anunciação. Devido às despesas da manutenção das religiosas, tanto para paróquia, quanto para as congregações, favoreceu a saída das irmãs da cidade, atualmente, o antigo convento é administrado pelo Instituto das Irmãs Missionárias Seguidoras de Maria.

4. Igreja atual
A Paróquia São Francisco de Assis caminha no contexto do Concílio Vaticano II, trabalhando intensamente a questão da formação laical e das comunidades. Atualmente, a paróquia vem sendo administrada interinamente pelo vigário forâneo, o Padre Francisco Jerônimo da Forania Beato Eliseu Maneus (Cortês, Ribeirão e Gameleira), tendo em vista a ausência do pároco Josenildo José da Silva, que se encontra em Recife para conclusão de sua tese de doutoramento. O Padre Josenildo Silva trabalhou intensamente a dimensão catequética da paróquia, bem como a organização litúrgica e a interiorização dos templos religiosos nas áreas periféricas.

Desde 2010 a festa do padroeiro é aberta com uma grande romaria, intitulada Romaria da Paz, que parte da Agrovila Barra de Jangada para as principais ruas da cidade. Tornando-se uma experiência de espiritualidade, mas também uma animação para a juventude da cidade e das regiões circunvizinhas. Em 2013 a igreja matriz passou por uma reforma, com a mobilização dos próprios fiéis, a paróquia conseguiu custear todos os gastos que ultrapassaram a casa dos 200 mil reais.

As devoções presentes nas comunidades da paróquia foram organizadas pelos padres a partir uma religiosidade que se perdurou na história, pela necessidade ou identificação do santo com a comunidade ou pela influência pessoal do sacerdote. A comunidade de Nossa Senhora da Conceição na Usina Pedrosa, por exemplo, resistiu aos problemas sociais gerados pela queda da economia açucareira e continua ativa na vida paroquial, devido ao relato de muita violência na localidade a igreja da comunidade de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro foi erguida através destas demandas sociais que exigiam uma devoção de súplica, e em meio a devoções tradicionais tanto no Centro da cidade, tanto no bairro da Nova Cortês, a devoção é a São João Paulo II e Nossa Senhora de Fátima, por influência pessoal do Padre Josenildo Silva, que assim dedicou ambas comunidades.

Comunidades da Paróquia de São Francisco de Assis
Zona Urbana
São José – Bairro de São José
Santa Terezinha – Alto Santa Terezinha
Nossa Senhora das Dores – Alto do Campo
São João Batista – Arraial
Mãe Rainha – Corte do Maracujá
São João Paulo II e Nossa Senhora de Fátima – Centro da Cidade
São João Paulo II e Nossa Senhora de Fátima – Nova Cortês
Zona Rural
Nossa Senhora de Fátima – Cansa Cavalo
Nossa Senhora do Perpétuo Socorro – Capivara
Santo Antônio de Santana de Galvão – Pitombeira
São Miguel – Cumaru
Santa Luzia e Santa Terezinha – Tigre
Nossa Senhora da Conceição – Usina Pedrosa
Nossa Senhora Aparecida – Engenho Bento
Santa Clara – Barra de Jangada
Nossa Senhora de Fátima – Novo Jardim

Há de se notar a presença constante da devoção a Nossa Senhora de Fátima, tanto na cidade como no campo, o trabalho do Padre Gerson Galvão se perdurou pelo século, sendo alimentado por outros sacerdotes, sobretudo, o jesuíta, Padre Antônio Borges e o atual pároco Josenildo Silva, mantendo viva a devoção no imaginário simbólico dos cortesenses.

4.1 Instituto das Irmãs Missionárias Seguidoras de Maria
Com o regresso da Irmã Maria de Lourdes da Silva Fraga da Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena em 2008 para cuidar de sua mãe em Cortês, e posteriormente, com licença assinada pela Sagrada Congregação em Roma, para cuidar de sua própria saúde, a freira permanece em Cortês, sendo uma religiosa sua casa e atuando nas atividades paroquiais com grupo de casais, crianças, jovens e adultos, sobretudo na coordenação da catequese.

Em 2002, o Padre Josenildo Silva se afasta da paróquia para concluir seus estudos em Roma e propõe à religiosa a fundação de uma organização para mulheres. Com a volta do sacerdote, a Irmã Maria de Lourdes funda o Instituto das Irmãs Missionárias Seguidores de Maria , uma instituição secular de moças virgens e viúvas que se dedicam a oração pessoal em suas casas e em comunidade mensalmente, através da entrega total ao Santíssimo Sacramento, a serviço das atividades à Igreja, na evangelização das comunidades e na propagação da devoção a Nossa Senhora de Fátima e do Sagrado Coração de Jesus.

Fizeram parte da fundação do Instituto a irmã Maria de Lourdes da Silva Fraga (madre superiora), Arzeny de Melo Farias, Amara Assis da Silva, Maria José da Silva Fraga e Solange Maria de Farias, posteriormente foram introduzidas mais postulantes, hoje somam-se quatorze o número de membras, abrangendo religiosas em Catende e Jaqueira. Este modo de vida religioso proposto pelo instituo, favoreceu a introdução de mulheres que passaram à vida inteira dedicada a paróquia, mas não tiveram a oportunidade de entrar num convento como aconteceu com a Irmã Maria de Lourdes, tais como as irmãs Arzeny Farias e Maria José Fraga que participaram da Associação Pia União das Filhas de Maria na década de 1950 e desde jovem sentiam-se chamadas à vida religiosa.

5. Considerações finais
Com a constante transição de padres na paróquia, aliada inconstância semanal dos religiosos na comunidade, favorecem o desenvolvimento de uma liderança laical por partes dos paroquianos para assegurar o ritmo das tradições católicas, mantidas, sobretudo, pelo protagonismo feminino, de certa maneira oficializado com a fundação do Instituto das Irmãs Missionárias, muito embora, muitos paroquianos tenham atuado intensivamente na condução das comunidades. A devoção a Nossa Senhora de Fátima explicitada, demostra os traços de uma religiosidade estabelecida antes mesmo das afirmações da Igreja oficial, mas também impulsionada pelo trabalho pastoral dos padres que transitaram na cidade.

Anexos

Construída em 1996 e reformada em 2013

Referências bibliográficas
GALVÃO, Gerson. A Cidade Católica. A Cidade, Ano IV. Cortês, pág. 3, junho de 1957.

MELO, José Roberto. A cidade comunga com a alegria do povo católico de Cortês e presta a sua homenagem ao santo padroeiro da cidade, São Francisco de Assis, na ocasião de sua festa. A Cidade, Ano III. Cortês, capa, set 1956.

MELO, José Roberto. Festa de São Francisco. A Cidade, Ano III. Cortês, pág. 2, set 1956.

MOURA, Severino Rodrigues. Cortês – Cidade do Rio e das Serras. Recife: Centro de Estudos de História Municipal / FIDEM, Prefeitura Municipal de Cortês, ed. 2002.

MOURA, Severino Rodrigues. Senhores de Engenho e Usineiros, a Nobreza de Pernambuco. Recife: Centro de Estudos de História Municipal, ed. 1998.

SILVA, Tiago Vidal. A construção da figura de Maria na Igreja Católica: Uma análise do contexto político, social e religioso das Aparições de Fátima de 1917 a contemporaneidade. I Encontro do GT Nacional de História das Religiões e Religiosidades, ANPUH: 2007.

Fontes obtidas pela internet
Cortês Pernambuco – IBGE. Disponível em: . Acesso em: 17 de jun. 2016.
CORTÊS – Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: . Acesso em: 13 de jun. 2016.
Diocese de Palmares: História e Geografia. Disponível em: . Acesso em: 15 de jun. 2016.
ESTATUTO DO APOSTOLADO DA ORAÇÃO. Disponível em: . Acesso em: 16 de jun. 2016.
Relatos orais

ARAÚJO, Mário Feitosa. História de Cortês. Residência familiar, 13 de jun. 2016, duração: 45’33’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

BARBOSA, Madalena Ferreira. Relatos da Paróquia de São Francisco. Residência familiar, 04 de jun. 2016, duração: 22’15’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

BORBA, Vilma Maria Ferreira. Devoção Mariana. Residência familiar, 04 de jun. 2016, duração: 08’53’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

FARIAS, Arzeny de Melo. Devoção Mariana e Associações Religiosas. Residência familiar, 13 jun. 2016, duração: 37’53’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

FERREIRA, José de Anchieta. História de Cortês e Religiosidade Cortesense. Residência familiar, 06 jun. 2016, duração: 18’35’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

FRAGA, Maria José Silva. Relatos da Paróquia de São Francisco. Residência familiar, 04 de jun. 2016, duração: 44’16’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

FRAGA, Maria de Lourdes Silva. Instituto das Irmãs Missionárias Seguidoras de Maria. Residência familiar, 06 de jun. 2016, duração: 34’19’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

SILVA, Josenildo José. Devoções no município de Cortês. Residência familiar, 06 maio 2016, duração: 48’30’’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

SILVA, Maria José. Atuação da Igreja Católica na Usina Pedrosa. Igreja Nossa Senhora da Conceição – Usina. 13 de jun. 2016, duração: 22’18’. Entrevista a Luis Felipe Durval.

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Categories: Panorama da Igreja Católica no Século XX, Sem categoria
Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 13 jul 2016 @ 11 24 AM

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UFPE – Universidade Federal de Pernambuco

CFCH – Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Discente: Mário Pereira Gomes

Docente: Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Disciplina: Tópicos Especiais da História do Nordeste Brasileiro

Período: 5º

2016

Análise da novela Os Dez Mandamentos

Palavras-chave: RELIGIÃO, NOVELA, SOCIEDADE

Keywords: RELIGION, SOAP OPERA, SOCIETY

A novela Os Dez Mandamentos da Record fala sobre a saga de Moisés que é enviado por Deus para libertar os hebreus que, segundo a Bíblia, viviam como escravos dos egípcios. O presente artigo se propõe a demonstrar ao leitor a mensagem que a novela busca transmitir ao telespectador através da abordagem de três temas que são: uma comparação de como a religião dos hebreus e a dos egípcios aparece na novela, como os personagens dos dois povos (hebreus e egípcios) lidam com o ceticismo e quais são os caminhos simbolizados por Moisés e Ramsés.

A novela mostra a religião egípcia como desprovida de amor pelos mais necessitados, idólatra e que tem como centro dos cultos deuses que não passam de meras estátuas despossuídas de qualquer poder. Por falar em estátuas, há uma cena no início da novela na qual Simut, ajudante do sumo sacerdote Paser, derruba por descuido um ídolo e não diz nada por medo de uma possível represália do faraó Seti I. Quando Paser vai ao santuário e vê a estátua de um deus egípcio caída no chão ele se desespera, pois acredita que é um sinal de mau agouro e conta para o faraó e este ordena que um novo ídolo seja fabricado imediatamente pelos escravos. A crença egípcia está totalmente assentada em bases materiais, ou seja, a crença nos deuses se dá por causa do Egito ser uma nação próspera e não pelos egípcios terem fé em suas divindades, isto é tão verdadeiro na telenovela que muitas vezes eles questionam os hebreus sobre o que seria a fé.

A religião egípcia dá licença para grandes banquetes sem qualquer compaixão em ajudar os que passam fome; a crença egípcia também serve para legitimar a submissão dos hebreus ao Faraó, sendo este responsável por manter a ordem cósmica do universo que significa preservar o status quo da sociedade do Egito. Ele deve fazer tudo para sustentá-la, incluindo matar pessoas como ocorre na novela quando, nos primeiros capítulos, Seti I ordena que todos os bebês hebreus do sexo masculino sejam jogados no rio Nilo como forma de controle populacional dos escravos. A religião egípcia é uma crença exibida como autoritária que é seguida pelas pessoas mais por medo de serem severamente punidas pelo faraó do que por uma entrega sincera aos deuses. Estes são mudos e sua suposta vontade nada mais é do que uma projeção da vontade do faraó que, quando faz algo, diz que foi por ordem dos deuses como forma de legitimar a própria ação ou dos sacerdotes que diante de fenômenos naturais se dizem interpretadores da vontade dos deuses. Na novela, o medo que os antigos egípcios tinham da noite não é explicado, e fica claro que a mensagem que a telenovela tenta passar acerca da religião egípcia é de que os deuses cultuados não passam de criações humanas e que a chamada vontade divina apregoada pelos sacerdotes e o faraó é apenas um sinônimo dos desejos humanos. Outra coisa que se nota é que Paser descobre fatos ocultos, não por ter sido informado por um deus ou ter interpretado a vontade destes, mas sim por ele ter ouvido ou alguém ter contado para ele. Um exemplo disto é que Moisés mata um feitor para defender um escravo e depois ele oculta o cadáver. Então o faraó Seti I ordena que Paser descubra quem é o assassino e onde está localizado o cadáver. O sumo sacerdote usa a magia para tentar elucidar o problema, mas nada acontece até que sua esposa Yunet escuta uma conversa entre Ramsés e Moisés na qual este afirma que foi o responsável pela morte do feitor. Ela vai falar com Paser e o convence a contar toda verdade ao faraó, e ainda diz que o sumo sacerdote deveria dizer ao rei que foram os deuses que revelaram que Moisés era culpado pela morte do feitor, o que Paser faz depois de hesitar. Depois disso os crimes de Yunet são descobertos e ela é expulsa do palácio e fica perambulando pela cidade junto de seus ídolos aos quais ela pede que melhorem sua vida, mas como os deuses egípcios são apenas estátuas ela jamais consegue o que deseja através da vontade divina.

Um dos crimes de Yunet é que ela envenenou a princesa Henutmire para que esta abortasse toda vez que ficasse grávida, pois a vilã não queria que o general Disebek tivesse filhos da princesa visto que Yunet era apaixonada por ele chegando até ter tido uma filha chamada Nefertari e esta depois se transformou na grande esposa real do faraó Ramsés.

A religião egípcia é demonstrada na telenovela Os Dez Mandamentos como opressora, pois é através dela que se tenta justificar a escravidão. A magia usada pelos magos nada tem de miraculosa, pois é apenas um conhecimento aprofundado sobre as propriedades medicinais de certas plantas como se pode observar no episódio em que os magos Janes e Jambres contaminam a fonte de água dos hebreus depois de jogarem um pó que deixa a água com uma coloração avermelhada e imprópria para o consumo humano. A crença dos egípcios é individualista, pois seus seguidores não se preocupam com o bem estar do próximo, mas em desfrutar dos prazeres da vida sem se preocupar com os outros e, por último, é uma religião mostrada pela novela como falsa por ter deuses que na verdade não existem; e todas estas características são totalmente contrárias à religião professada pelo povo hebreu.

A religião dos hebreus é completamente oposta à dos governantes, pois o povo de Israel é cheio de compaixão para o outro mesmo que este seja um egípcio. É imensa a quantidade de cenas nas quais a maioria dos hebreus reparte o pão cotidiano com aqueles que nada têm para se alimentar, pois os hebreus ao contrário dos egípcios são solidários e sempre dispostos a ajudar o próximo independente de quem seja. A religião dos hebreus é baseada na fé em um deus que provê o que o povo dele precisa, ou seja, não importa quão difícil esteja a situação os hebreus continuarão acreditando que Deus irá lhes ajudar ao contrário dos egípcios que tendo uma crença fundamentada no mundo material qualquer crise pode destruir a crença nos deuses egípcios. O deus cultuado pelos descendentes de Abraão existe, apesar de não poder ser visto. A divindade adorada pelos hebreus não é só mais uma entre dezenas, mas a única. Deus cumpre a promessa que fez para os filhos de Jacó mesmo que demore décadas ou séculos e, segundo os personagens hebreus, os planos do Criador são perfeitos e seu tempo é diferente do que é seguido pelos mortais. Os hebreus conhecem as aplicações medicinais de certas plantas, mas ao contrário dos sacerdotes egípcios, não dizem que é magia, pois acreditam que o poder sobrenatural não é proveniente de plantas, mas de Deus. A fé dos hebreus faz com que eles sejam resilientes mesmo nas situações mais adversas, o que impressiona os egípcios, e estes não entendem como escravos podem ser tão confiantes quanto ao futuro. Mas nem todos hebreus são devotos da religião judaica e há alguns que duvidam das promessas feitas por Deus a Abraão, Isaac e Jacó e estas pessoas são vistas como párias pelos os outros da comunidade hebraica. Todavia, não penseis que entre os egípcios a relação com os céticos é diferente.

Os egípcios e hebreus apesar de terem religiões distintas possuem a mesma postura quanto ao ceticismo, ou seja, total ojeriza em relação aos que duvidam principalmente dos que duvidam do poder divino seja do faraó ou de Moisés. O rei do Egito é considerado um deus pelo povo e ele exige ser adorado como tal e que as ações que pratica não sejam contestadas, afinal o faraó, sendo tido como divino, sabe exatamente o que é melhor para seu povo; vê a si mesmo como um filho dos deuses e não aceita que as pessoas digam o que ele deve ou não fazer. Assim, as pessoas se submetem a vontade do faraó mesmo que seja uma ação deletéria para a sociedade egípcia. As decisões do governante nunca são contestadas, pois isto significaria uma afronta aos deuses o que é passível de morte. Deste modo, o faraó é absoluto em seu governo graças à legitimidade adquirida por causa da religião que afirma a autoridade divina do rei. Os egípcios, em certos casos, duvidam da divindade do governante, mas fazem isto de forma velada, pois caso sejam descobertos poderão receber do faraó a pena capital. Já entre os hebreus a descrença em Deus é malvista, mas não significa que se um hebreu duvidar da existência de Deus ele será apedrejado pelos outros integrantes da comunidade hebreia, pois se lembrem de que, na novela, os hebreus que seguem a fé judaica são solidários e cheios de compaixão. Todavia, há quatro hebreus que podem ser caracterizados como céticos, sendo o primeiro aquele que duvida por estar perdido espiritualmente mesmo tendo um bom caráter e os outros três são céticos quanto ao poder divino e são pessoas de mau caráter. O primeiro hebreu é Arão, pois durante grande parte da novela se mostra descrente das promessas feitas por Javé aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, chegando ao ponto de dizer que não acredita que Deus existe, sendo logo reprimido pelos familiares e amigos. Arão é um questionador que suscita a dúvida acerca das profecias hebraicas por todos aqueles que o cercam. Ele não segue as ordens divinas, mas a própria consciência. Sua revolta faz com que os outros hebreus acreditem que tudo de ruim que acontece em sua vida é por causa da incredulidade nas promessas de Deus, mas a família de Arão reitera várias vezes que, se ele se arrepender das dúvidas que teve e voltar a acreditar no que Javé prometeu, a vida irá mudar para melhor. Neste caso, o que a novela tenta passar é que, por maior que seja o pecado, este poderá ser perdoado, pois Deus é misericordioso ao contrário do faraó que mandaria matar qualquer um que dissesse abertamente não crer nos deuses.

Outros exemplos de hebreu cético e mal na novela é Corá, Datã e o irmão deste de nome Abirão. Corá e Datã são os chefes dos escravos e usam o cargo em benefício próprio, mas isto ocorre prejudicando os outros hebreus. Corá é uma pessoa falsa que não hesita em fazer coisas ilícitas se estas lhe beneficiarem. Um exemplo disto é que ele fala para o chefe dos feitores, Apuki, informações sobre os escravos e em troca ganha certas regalias como mais porções de alimento e consegue que os próprios filhos não trabalhem nas obras egípcias, como a construção de templos. Para os hebreus ele se mostra solícito, atencioso e crente na religião judaica, mas por trás Corá revela o que de fato é: uma pessoa mesquinha, que não acredita que um dia Deus irá libertar seu povo da escravidão e que deseja levar uma vida confortável à custa do sofrimento dos hebreus. Ao longo da novela Corá se mostra uma pessoa perversa, exemplo disto é que ele tenta beijar Safira, irmã de sua esposa Bina, à força. A esposa de Corá ao ver tal cena se desespera, então de repente entra na casa Datã, que é o esposo de Safira, e ele pergunta o que está acontecendo. Bina diz que a própria irmã tentou seduzir Corá e este confirma dizendo que resistiu o máximo que pode, mas que acabou cedendo por ser homem. Datã se enfurece e arrasta Safira para fora de casa onde ela segundo o costume dos hebreus seria apedrejada até a morte pelo adultério. No momento em que Datã iria atirar a primeira pedra, aparece Bina que pede que Safira não seja morta, mas expulsa de casa ao que o marido da acusada aceita tal pedido.

Outro exemplo de que Corá não é uma boa pessoa é quando Moisés aparece dizendo ser o libertador enviado por Deus para tirar os hebreus da condição de escravos, Corá é o primeiro a questionar a veracidade do que é contado pelo libertador. Para o chefe dos escravos, o antigo príncipe do Egito não passa de um mentiroso que se utiliza da crença dos hebreus para enganá-los. Há um episódio em que Moisés e Arão reúnem todos os habitantes da vila dos escravos para que saibam do plano divino de libertação dos hebreus. Corá, juntamente com Datã e Abirão, questiona os dois sobre como ocorrerá a libertação dos filhos de Israel, então Moisés para provar que é o libertador transforma o cajado que carrega nas mãos em serpente, a mão fica leprosa voltando ao normal logo em seguida, e a água se transforma em sangue. Mesmo assim Corá, Datã e Abirão não se convencem de que Moisés irá de fato libertar os hebreus e começam a criticar, durante vários capítulos, as ações de Moisés e Arão por estarem supostamente enganando o povo e trazendo a fúria do faraó Ramsés sobre os escravos. Nos capítulos em que ocorrem as pragas, Corá e Yunet se unem para acabar com Moisés e para isto o chefe dos escravos arquiteta o plano de roubar o cajado de Moisés, pois acredita que o poder causador das pragas está no objeto portado pelo libertador dos hebreus. Ele consegue o cajado fazendo com que os próprios filhos roubassem o objeto e entregassem ao pai, este depois entrega para Yunet que, por sua vez, dá para Ramsés. Ela pede para o faraó que a deixe ficar no palácio e ele atende ao pedido da mãe da rainha, mas esta se esquece de seu comparsa hebreu e não lhe dá uma casa nova como ele desejava. Corá é enfim descoberto e diz que está arrependido, mas quando confrontado por Abirão e Datã, fala que de nada se arrependeu mostrando o quão falso ele é. Corá é uma pessoa que continua cometendo pecados mesmo depois de ser castigado pelos erros que cometeu. Na verdade, há pessoas na novela que podem sofrer os mais dolorosos castigos pelos pecados cometidos, mas mesmo assim continuarão praticando os mesmos erros e ficarão com mais ódio das pessoas que dizem que elas devem parar de agir contra a vontade de Deus. Corá é o exemplo hebreu deste tipo de pessoa e há entre os egípcios uma pessoa que pode receber os maiores castigos por causa de seus pecados, mas que não se arrepende do que fez. Esta pessoa egípcia que segue apenas a própria vontade, e que não pede perdão para Deus é o faraó Ramsés.

Na novela há dois personagens que representam os extremos entre uma pessoa que segue a própria vontade e outra que segue apenas o que Deus lhe ordena. Estas pessoas são respectivamente Ramsés e Moisés. O primeiro é o faraó do Egito que assume o trono depois do assassinato de seu pai Seti I e que, ao se tornar o governante máximo, passa por uma grande mudança em sua personalidade. Ramsés desde pequeno foi educado para ser o futuro rei do Egito, por isso todos os seus desejos sempre foram satisfeitos tornando-o uma pessoa mimada e incapaz de receber um não. Quando cresce e se torna o faraó, Ramsés demonstra ser um governante mesquinho, vaidoso, que quando contrariado se vinga da pessoa que lhe ofendeu e que trata os escravos com mais ódio do que o pai. Ele não poupa esforços para que sejam erguidas estátuas de si mesmo e chega ao auge da vaidade quando manda que fabriquem um ídolo dele para ser colocado no santuário, lugar onde só poderia ter estátuas dos deuses egípcios. Paser tenta mostrar que tal ação é errônea, mas Ramsés o repreende por dizer o que o Hórus vivo deve fazer. Quando Moisés volta ao Egito e exige em nome de Deus a libertação dos hebreus, o faraó se torna mais cego por causa do poder. Ramsés afirma para Moisés que nunca deixará o povo hebreu partir, então começam as pragas que afligem o Egito e tem como propósito obrigar o faraó liberar os hebreus para que estes sigam até a terra de Canaã. As pragas só tornam o Senhor das duas coroas mais intransigente e evidencia que ele não se importa com o sofrimento do povo egípcio, sendo este tido pelo faraó como sua propriedade, além dos escravos e do gado. As chamadas dez pragas do Egito representam um dilema para o governante das duas coroas, pois se ele concordar em libertar os hebreus estará indo contra o objetivo de seu cargo que é a manutenção da ordem cósmica do universo que nada mais é do que, como já foi dito anteriormente, a conservação do status quo da sociedade egípcia. Todavia, ao não dar a liberdade aos escravos o faraó coloca em risco a segurança do Egito fazendo com que esta nação mergulhe no caos, algo que um faraó não deveria permitir que acontecesse. As pragas se sucedem até que se chega à derradeira punição de Deus sobre o Egito que é a morte de todos os primogênitos humanos e animais dos egípcios. Quando Ramsés percebe que o próprio filho Amenhotep não foi poupado pela praga, o rei expulsa os hebreus da terra tida por Heródoto como uma dádiva do Nilo, mas de repente Deus “endurece” o coração do faraó e faz com que este persiga os hebreus com seu exército até a beira do Mar Vermelho. Neste momento, Deus ordena que Moisés estenda seu cajado fazendo com que o mar seja aberto permitindo assim a passagem dos filhos de Israel pela parte seca. Mais uma vez Deus endurece o coração de Ramsés e este decide mandar seus soldados pela terra que apareceu depois da divisão do mar, mas neste momento as rodas dos carros de guerra começam a se partir por causa das pedras e os egípcios tentam voltar para a praia. Todavia, Deus manda Moisés erguer o cajado e ao fazer isto o mar retorna ao que era antes matando assim todos os egípcios que perseguiam os hebreus. Ramsés é um rei que não escuta os conselhos dos que estão ao seu redor como Paser, o amor próprio do rei é maior do que seu amor pelo país que governa. O faraó sempre tenta resolver os problemas na base da força e o diálogo é algo que ele raramente pratica. Quando as pragas afligem seu povo, Ramsés diz que tudo vai se resolver e que não será um deus desconhecido e sem rosto dos escravos que destruirá a nação mais poderosa da Terra. Isto muda com a morte de seu filho e na destruição do seu exército no Mar Vermelho, pois no primeiro desastre ele perde uma das poucas pessoas que realmente amava. No segundo evento, o faraó mostra ao telespectador até que ponto um governante dominado pelo ódio e cegado pelo poder pode levar seu povo a ruína e Ramsés que se achava senhor da própria vontade descobre da pior forma possível que não é ele que está no controle do mundo, mas Deus.

Já Moisés é um hebreu que foi colocado dentro de um cesto de junco pela sua mãe Joquebede para que pudesse fugir do decreto do pai de Ramsés que mandava matar os hebreus recém-nascidos do sexo masculino. O cesto que levava o bebê parou num lugar onde estava a princesa Henutmire que se banhava no rio Nilo juntamente com suas damas de companhia. Ela que não tinha nenhum filho por causa de Yunet resolveu adotar o garoto que recebeu o nome de Moisés por este ter sido salvo das águas do rio. Ele era muito amado por sua mãe adotiva, mas Seti I e Yunet o desprezavam pelo fato dele ser um hebreu o que na concepção geral dos egípcios era sinônimo de inferioridade. Moisés cresce e se torna um poderoso guerreiro, mas sua origem hebreia ainda é motivo de raiva por parte do faraó Seti I. Quando todos descobrem que foi Moisés que matou um feitor, ele foge do Egito sem rumo certo. Dias depois Seti I é assassinado por Yunet, mas as pessoas acham que ele morreu de causas naturais. Quando Ramsés assume, este revoga o decreto que punia Moisés com o exílio perpétuo. Moisés chega a Midiã e neste lugar conhece a mulher que viria a ser sua esposa chamada Zípora, num belo dia Moisés sobe uma montanha para buscar uma ovelha perdida quando de repente surge a sarça ardente e nesta planta Deus se revela para o pastor de ovelhas e diz que ele é o libertador aguardado pelos hebreus para libertá-los do jugo do faraó. Moisés hesita, mas acaba aceitando os desígnios divinos. Ele ruma em direção ao Egito e no meio do deserto se encontra com seu irmão Arão que tinha sido ordenado por Deus para encontrar o libertador de Israel no deserto. Deste lugar, o dois vão para o Egito munidos de seus cajados, com os quais irão operar milagres e pragas, sendo a primeira ação para convencer o povo hebreu de que eles foram enviados por Deus e o segundo ato é para obrigar Ramsés a deixar os escravizados partirem. Moisés durante a novela demonstra ser uma pessoa que tenta sempre resolver os problemas através do diálogo, pois ele vê nisto a melhor solução. Ele é uma pessoa racional e sabe que o melhor tanto para os egípcios quanto para os hebreus é fazer a vontade de Deus. O libertador de Israel tem compaixão pelos outros e fica aflito com o sofrimento que os egípcios passam durante as pragas por causa da teimosia do faraó. Moisés é o exemplo que todos os que creem em Deus devem seguir por ser uma pessoa boa, misericordiosa, racional e temente aos mandamentos divinos.

Os Dez Mandamentos traz ao telespectador a mensagem de que a única maneira de se ter uma vida feliz é basear todos os atos na vontade de Deus, pois isto lhe dará uma vida bem-aventurada. Isto se alcança tendo uma atitude de confiança de que por mais difícil que seja a situação, tudo irá melhorar graças à vontade divina, mas a novela também lembra que Deus não luta pelos hebreus e sim com eles como fica evidente pela etimologia da própria palavra Israel que significa lutar ou prevalecer com Deus[1]. Se deve lembrar também de que Moisés e Arão só se tornaram os libertadores dos hebreus por terem se rebelado contra a condição humilhante de seu povo, ou seja, é preciso que o povo lute contra a opressão em que vive para que Deus comece a agir. Ele não quer fazer tudo pelo seu povo, mas ajudá-lo quando necessário. O faraó na novela representa o caminho de seguir somente a própria vontade ignorando o que Deus ordena, a pessoa faz o que quer e quando castigada ao invés de dobrar a cerviz para ser perdoada ela fica com mais raiva de Deus, fala mais blasfêmias e continua mais firme em suas más atitudes. Essa senda termina em tragédia por ir contra os desígnios divinos, já o libertador é o caminho do amor a Deus, a pessoa que anda por essa estrada pode passar por várias adversidades, mas depois será agraciada com muitas bênçãos. A busca pela justiça e a liberdade são características desse caminho, o amor ao próximo mostra ao telespectador que se ele for uma boa pessoa o caminho poderá até ser difícil, mas o destino será maravilhoso.

O que foi dito anteriormente é a mensagem da novela sobre como um cristão deve ser (Moisés) e quão deletério é o ateísmo (Ramsés), mas há também mensagens acerca das religiões de matriz africana e em menor quantidade o catolicismo. Sobre o ceticismo a visão da novela é de que se trata de algo praticado por pessoas que não têm fé em Javé mesmo com as evidências de ações divinas como Corá ou no caso de Arão de alguém que realmente gostaria de acreditar nas promessas feitas aos seus antepassados, mas que se mostra sem esperança por viver em tempos difíceis. Assim, a dúvida quanto ao deus hebreu existir ou ter mandado Moisés para libertar os escravizados se mostra como algo deletério e próprio de pessoas descrentes nas promessas divinas ou simplesmente más. Os céticos se convencem de que Javé é de fato o único deus, mas Corá, Datã e Abirão continuam céticos quanto a Moisés dizer que as leis que o povo deve seguir são provenientes de Deus, pois eles nunca viram uma conversa entre os dois e por isso acreditam que o libertador simplesmente mente ao dizer que fala com a divindade que se apresenta no Monte Sinai. Os diálogos de Simut com os deuses egípcios representados por estátuas num templo são reveladores quanto à visão que Os Dez Mandamentos busca passar sobre religiões de matriz africana e o catolicismo. Primeiro as estátuas não passam disto, são apenas produtos de mãos humanas que não possuem qualquer poder sobre a vida da humanidade. Segundo, os egípcios são vistos como pessoas que não adoram os deuses através de suas representações na forma de ídolos, mas de que eles seguem as próprias estátuas. Os sacerdotes egípcios nos rituais e vestimentas lembram tanto o catolicismo quanto os cultos de matriz africana e assim ao falar da crença religiosa do Egito Antigo como uma superstição a novela acaba criticando religiões contemporâneas da IURD, pois a sociedade apresentada não é a que de fato existiu milhares de anos atrás nas margens do rio Nilo, mas sim a visão de pessoas do século XXI sobre determinada população.

A novela Os Dez Mandamentos representa um marco na televisão brasileira, pois é a primeira novela bíblica que é recorde de audiência. A trama é sobre algo que todos no Brasil conhecem, mas que mesmo assim cativa o público. Percebe-se também a importância de assistir a novela de maior sucesso da Record para saber o que a IURD deseja que seus fiéis pensem sobre si mesmos e sobre os seguidores de outras crenças.

Na televisão já há propaganda da próxima novela intitulada A Terra Prometida que será sobre a conquista de Canaã pelos hebreus, então resta saber quais serão as novas mensagens que a Record passará para os telespectadores.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Livros:

CAMPBELL, Joseph. As máscaras de Deus: mitologia oriental. 6. ed. São Paulo: Palas Athena, 2008.

O Livro das Religiões. [tradução: Bruno Alexander]. São Paulo: Globo Livros, 2014.

SARAMAGO, José. Caim. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TORÁ: a Lei de Moisés. São Paulo: Sêfer, 2001.

Sites:

Os Dez Mandamentos. Disponível em: <https://www.netflix.com/>

Bíblia online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/>

Página oficial da novela Os Dez Mandamentos. Disponível em: http://entretenimento.r7.com/os-dez-mandamentos


[1] Gn 32:28.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 12 jul 2016 @ 02 20 PM

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 03 ago 2015 @ 10:50 AM 

Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

Departamento de História

Cultura Popular de Pernambuco

Docente: Severino Vicente da Silva

Estudante: Rafaella Fernanda Villa Nova

Recife, 1º de julho de 2015.

UM BREVE PASSEIO POR PERNAMBUCO

Resumo: O presente trabalho se propõe a expor alguns dos temas apresentados e discutidos em sala de aula, assim como também em atividade externa (viagem do dia 20 de maio de 2015) os quais contribuíram para o desenvolvimento de conhecimentos sobre a Cultura Popular em nosso estado. Tais conteúdos compuseram a disciplina eletiva no primeiro semestre de 2015. Contempla também outros aspectos relevantes a respeito da cultura e da sociedade pernambucana. No princípio da disciplina conhecemos as divisões do estado Pernambuco, sendo destacadas as macrorregiões; são elas: litoral, zona da mata, agreste e sertão. Cada uma destas apresentando características distintas entre si em sua vegetação e em seu clima. Urge dizer que as populações presentes em tais espaços geográficos desenvolveram maneiras próprias de se relacionar social e politicamente. Desta maneira, pode-se falar sobre uma gama de culturas populares desenvolvidas dentro do mesmo território, chamado Pernambuco.

Palavras chave: Pernambuco, Geografia, Política, Economia, Sociedade, Cultura.

Características Geográficas, Sociais e Econômicas do Estado de Pernambuco

Pernambuco localiza-se na região Nordeste do Brasil, fazendo fronteira com cinco estados da mesma região e, a leste, tendo o Oceano Atlântico por limite. A área do território estadual é composta por 98.311,616 km². Seu Clima é tropical atlântico no litoral e semiárido no interior, em parte graças ao Planalto da Borborema, que impede que nuvens mais baixas sejam levadas pelos ventos adentrando no interior do território. Desta maneira, uma grande massa do interior é seca, havendo problemas sociais atrelados à escassez de água nos sertões. Contudo, neste mesmo sertão está o Rio São Francisco, tradicionalmente conhecido por “Velho Chico”, responsável por banhar a parte sudeste do estado. O Rio Ipojuca é outro que recebe destaque na hidrografia pernambucana. É conhecido especialmente por sua poluição que já há muito alcançou níveis avançados.

Na região Agreste, está presente importantes polos têxteis, que infelizmente continuam a derramar as águas das lavagens dos tecidos no Ipojuca, que, assim como outros rios do território pernambucano, noutros tempos fora local de lazer, local de banhos das sinhás e dos moleques, como assinalava Gilberto Freyre ainda no século passado. Eram indicados os banhos de rio como cuidado à saúde. Nos rios se transportava o açúcar de um canto a outro do estado. Além de ser fonte de renda para pescadores. Ainda neles, ocorre a formação de populações ribeirinhas, ou seja, que moram à beira do rio. Quando há enchentes, estas são as maiores vítimas. Necessitam deixar seus lares e ficam dependendo da ajuda dos governos.

Quando chove na capital do estado – o Recife – há vários tipos de transtornos urbanos. As ruas ficam alagadas de tal forma, que em certos trechos torna-se impossível transitar pelas vias de acesso. Árvores caem, prédios ficam sem energia elétrica, o trânsito de carros fica congestionado para além do comum e, não raro, ocorrem registros de tragédias relacionadas ao desabamento de barreiras. Porém, não só de turbulências é composto o Recife. Guardando ele muitas belezas, pode-se falar dos dias de sol, onde as pessoas aproveitam para ir às belas praias que compõe a costa do estado. Algumas em destaque são Maria Farinha, Boa Viagem (praia urbana), Gaibu e Porto de Galinhas. Todas estas importantes para o turismo e, consequentemente, para a economia local.

Outra importante característica da vegetação litorânea é o mangue, que serviu de inspiração para trabalhos de artistas e intelectuais. O mangue traz consigo uma grande importância ecológica. Carrega também fardos sociais, como apontados por Josué de Castro (1948):

O mangue abriga e alimenta uma fauna especial, formada principalmente por crustáceos, ostras, mariscos e caranguejos, numa impressionante abundância de seres que pululam entre suas raízes nodosas e suas folhas gordas, triturando materiais orgânicos, perfurando o lodaçal e umidificando o solo local. Muitos desses pequenos animais contribuem também com suas carapaças e seus esqueletos calcários, para a estruturação e consolidação do solo em formação. Desempenha também essa fauna especializada um importante papel no equilíbrio ecológico da região ocupada pelo homem, ao possibilitar recursos de subsistência para uma grande parte das populações anfíbias que povoam aqueles mangues, vivendo nas suas habitações típicas — os mocambos.

Este trecho extraído da obra “Fatores de localização da cidade do Recife: um ensaio de geografia urbana” mostra esclarecimento por parte do autor sobre as condições de vida daquele povo que habitava as regiões do mangue. Assim, percebemos que as denúncias da situação em que viviam os seres humanos no mangue já ocorriam nos anos 1940. Neste encalço, Manuel Bandeira escreve em sua poesia:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

A fome não era e não é ausente da história deste povo batalhador. O nordestino e suas vivências dolorosas, os dissabores que a vida lhes apresenta estão retratados também no poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto. Nele o retirante migra dos sertões pernambucanos em direção ao litoral, na esperança de uma vida melhor. Em seu caminho encontra sofrimento e morte. Quando já no Recife, o pernambucano, o homem sertanejo, já mergulhado em profunda desesperança, angustia-se sensivelmente com todos os infortúnios que percebe cercar-lhes a perene vereda pela vida, e é aí que toma a decisão trágica de acabar com sua própria vida. Porém, um choro de menino o faz mudar de ideia, despertando nele novamente a vontade de viver, anunciando a renovação da vida através da posteridade que se origina no novo ser que se anuncia. Eis uma representação do nosso povo, elaborada na forma de poema e ressignificada na forma de denúncia. É um retrato social que não está tão distante quanto talvez aparente para alguém menos atento às questões sociais que estão às vistas de quem quer ver, de quem é capaz de enxergar além de si mesmo; alguém que volte os olhos para o povo o percebe.

Ocupação da Terra de Pernambuco

Como em outras regiões do Brasil, a ocupação do território pernambucano se iniciou pela costa. No litoral, as terras foram apropriadas e designadas para desenvolvimento da agroindústria do açúcar. No início do empreendimento eram os indígenas e os africanos que serviam de mão de obra escrava nos engenhos e no trabalho das lavouras.

Além do açúcar, a economia era movimentada pelo gado, que, além de produto básico da alimentação, servia como meio de transporte, dando origem à primeira fase de expansão da pecuária que se transformaria rapidamente na forma mais generalizada de ocupação das terras do interior nordestino.

No litoral, a agricultura e a criação de gado mostraram-se desde cedo incompatíveis, e, em defesa das plantações, promoveu-se a retirada dos currais para o interior, distante dos engenhos, dos canaviais e dos mandiocais.

Nos fins do século XVIII, já eram vastas as extensões do médio São Francisco ocupadas por currais. Havia os tropeiros, que eram os homens que andavam em tropa com seus burros. Inclusive, esta nomenclatura foi utilizada para batizar um prático típico da região, que segundo exposição do professor Biu Vicente em sala de aula se deu pela necessidade do preparo rápido e prático do alimento. Os tropeiros coziam o feijão, acrescentavam a carne e os temperos de que dispusessem, misturavam farinha e estava dado o prato, eis a origem do feijão tropeiro.

Avançando um século, o XIX foi marcado por relevantes transformações nas esferas política e social. Desde seu início, o século XIX foi palco de importantes revoltas, sobretudo as de cunho separatista. Pernambucanos almejavam a independência. As ideias que circulavam eram liberais; desejava-se uma constituição republicana. Contudo, quando o governo alcançava a repressão, a condenação das lideranças costumava ser a de morte. Apesar disto, nota-se a bravura dos povos desta terra desde tão cedo. Os contatos estabelecidos com estrangeiros com experiências políticas deste tipo contribuiriam para influenciar os pernambucanos na formação de ideologias e no preparo para os combates. Tais contatos eram facilitados graças ao Atlântico e a posição estratégica do estado em relação ao continente europeu.

Tradição e Musicalidade

Maracatu Rural, também chamado de “Maracatu de Baque Solto”, é das mais importantes e conhecidas manifestações da cultural de Pernambuco. Neste brinquedo, se figuram os conhecidos “caboclos de lança“. Distingue-se do Maracatu Nação em organização, personagens e ritmo. Para os integrantes do Maracatu Rural, ele não é apenas uma brincadeira. Trata-se de uma herança secular, motivo de muito orgulho e admiração.  O cortejo do Maracatu Rural acontece no período de carnaval, festa em destaque no estado de Pernambuco.

Antes de receber o reconhecimento atual, o prestigiado maracatu passou por momentos menos felizes em sua trajetória. O maracatu nação tem sua origem nas festas de coroação dos Reis do Congo que aconteciam nos séculos XVII e XVII, portando atrelado à cultura africana, o que infelizmente acaba por relacionar-se a preconceitos de cunho racista.

Desde o início do século passado, o governo municipal da cidade do Recife insistia nas proibições aos batuques dos negros, mas após o I congresso Afro-Brasileiro as influências da cultura africana foram paulatinamente sendo incorporadas à cultura pernambucana. Hoje a figura do caboclo de lança é reconhecida em várias regiões do país e imediatamente associada à cultura e ao carnaval pernambucano.

A festa de carnaval, na concepção de Bakhtin, é o locus privilegiado da inversão, onde os marginalizados apropriam-se do centro simbólico, onde se privilegia o marginal, o periférico, o excludente. Terra de muita exploração, desde suas origens, Pernambuco perpetua-se sorrindo através de suas festas, de sua cultura. O povo explorado e trabalhador se fantasiam, vestem as máscaras e vivenciam o carnaval famoso por ser o melhor do mundo.   Para o mesmo autor “a máscara está longe de ser apenas um adorno de carnaval; ela desempenha uma espécie de função catártica ao libertar o povo, durante os dias de festividades, das rotinas cotidianas, da estagnação habitual”.

Mas a máscara que precisa cair é a do preconceito que vem em processo de desconstrução há tempos. Apesar deles ainda fazerem parte da sociedade como um todo, é reconhecida a importância das contribuições dos africanos e dos indígenas na formação da cultura popular de Pernambuco. Sem a influência destes grandes grupos étnicos a configuração cultural do nosso estado seria bem diferente da que é conhecida e apreciada por tantas pessoas. Gilberto Freyre reconhece estas contribuições:

Da cunhã é que nos veio o melhor da cultura indígena. O asseio pessoal. A higiene do corpo. O milho. O caju. O mingau. O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de pente e espelhinho no bolso, o cabelo brilhante de loção ou de óleo de coco, reflete a influência de tão remotas avós.

Outra apresentação ligada à constituição das comunidades negras em Pernambuco, e que detém forte influência indígena, é o Samba de Coco. Os quilombolas cantam enquanto praticam o ritual da quebra do coco para a retirada da “coconha” (amêndoa), essencial no preparo de alguns alimentos. No Samba, o tirador do coco, também chamado de coqueiro ou conquista, é quem puxa os versos que podem ser tradicionais ou improvisados, que são sempre respondidos pelo coro de participantes. A tradição possui inúmeras variantes: coco de umbigada, coco-de-embolada, coco-de-praia, coco de roda, entre outras.

Mas não é apenas na capital que as manifestações da cultura popular atuam. Na cidade de Pesqueira, agreste do estado, há o grupo Cambinda Velha, o grupo Cancão Piou e também o grupo dos Caiporas.

Reza a lenda, que tochas sobrenaturais apareciam em cima de árvores, assustando os caçadores do município de Pesqueira. As assombrações ficaram conhecidas como caiporas, que são seres que pregam peças em caçadores e cães. Para “acalmar” os caiporas, colocavam-se fumo e cachaça nos troncos das árvores. Para os moradores de Pesqueira, o caipora, figura do imaginário popular, é motivo de orgulho e alegria.

Trata-se, portanto, de uma cultura recheada de singularidades e histórias. Com muitos aspectos atrelados diretamente à geografia do território pernambucano. Nossa cultura é arraigada a valores de distintos povos, que no passado histórico sofreram explorações e muito trabalharam. Este povo mestiçou-se, e até hoje, faz-se referência aos amigos, como que num sinal de camaradagem, chamando-o de “caboclo”, ou de “caboclo véi”. Este caboclo é o pernambucano.

Referências Bibliográficas:

BANDEIRA, Manuel 1986 ‘O bicho’. Em Obra completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.

BAKHTIN, M. M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec, 1999.

CASTRO, Josué de. Fatores de localização da cidade do Recifeum ensaio de geografia urbana. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional. 1948

FREYRE, Gilberto. Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. 7ª edição. São Paulo: Global. 2004.

GUILLEN, Isabel Cristina. (organizadora) Tradições & traduções: a cultura imaterial em Pernambuco. Recife: Editora Universitária UFPE, 2008.

NETO, João Cabral de Melo. Morte e Vida Severina. Recife: Editora Tuca, 1968.

SILVA, Severino Vicente da. FREITAS, Walter. Encontros Culturais, Migração e Cultura em Pesqueira.

SILVA, Severino Vicente da. Da formação do Sertão ao Reinado do Baião. Texto produzido para a Escola de Samba Unidos da Tijuca.

http://www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php?titulo=Caiporas+do+Carnaval&ltr=C&id_perso=920, acessado em 29 de junho de 2015.

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Universidade Federal de Pernambuco

Centro de Filosofia e Ciências Humanas

CFCH

A IDADE MODERNA E O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

Aluna: Isabella Puente de Andrade

Professor: Severino Vicente

Data: 17/06/2015

Recife

2015

Sumário

INTRODUÇÃO.. 3

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS. 4

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01. 7

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS. 10

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO.. 13

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 15

VI. BIBLIOGRAFIA.. 16

INTRODUÇÃO

A Idade moderna e o Processo Civilizatório foi uma disciplina onde houveram muitas novidades a cada leitura. A maior delas, e também o escopo desses estudos, é o aprofundamento do sociólogo Norbert Elias, que raramente é trabalhado em outras disciplinas.

Os historiadores estão sempre abertos às diversas ferramentas do conhecimento, para melhor compreender os processos históricos. Segundo o Professor Severino Vicente citou em sala um pensamento recorrente nos historiadores dos Annales, o bom historiador também deve estudar Psicologia, Geografia, Sociologia, amplamente apto à interdisciplinaridade para construir sua narrativa como historiador. Assim, devido à sua capacidade de traçar paralelos com tamanha eloquência entre as diversas áreas do conhecimento, Norbert Elias vem ensinando a trabalhar melhor com a conexão de diferentes disciplinas.

I. OS HISTORIADORES: NORBERT ELIAS

Logo na primeira leitura, de autoria de Philippe Salvadori e organização de Véronique Sales, foi possível compreender a importância e peculiaridade desse sociólogo. A primeira frase, pois, que inicia o capítulo referente a Elias, do livro Os Historiadores, já traz a indagação “Norbert Elias historiador? Ele próprio se considerava sociólogo, ensinou e teorizou a Sociologia” (SALVADORI, 2011, p.139); reafirmando a necessidade de aprofundar sua obra, e entender porque é tão importante para os historiadores. E é como afirma Salvadori, onde a peculiaridade de Elias encontra-se na maneira de estudar a vida na corte real, retratada em A sociedade de corte, A civilização dos costumes e A dinâmica do Ocidente – livros que podem se passar por obra de historiador.

O meio acadêmico brasileiro sempre reverenciou o sociólogo Max Weber, desde o colégio até dentro da Universidade. Sua chama se colocou tão acesa que tomou para si quase toda a luminosidade da sociologia contemporânea, no meio educacional. Ou melhor, tão acesa que fez-se ofuscar outras fortes chamas, que por muito tempo permaneceram apenas como faísca. Tanto no meio acadêmico, como na própria vida de Norbert Elias, sua glória foi tardia, muito pela “grande sombra do sociólogo Max Weber”[1]. Apesar de muito ser influenciado por este, Elias afasta-se de sua grande teoria sobre os condicionamentos espirituais da vida material.

Um crítico de Marx e, portanto, mal visto por muitos historiadores marxistas (talvez por isso não seja tão trabalhado na academia), Elias decide por abordar a “sociedade de corte” sem o modo anedótico que fora sempre tratada, e sim como papel central na construção do Estado absolutista[2]. A originalidade do sociólogo em tratar não em termos de economia do consumo, mas de uma antropologia cultural do homem de corte faz da economia apenas um, dentre muitos outros, aspectos para compreender aquela sociedade.

Seguindo pela trajetória de vida bem peculiar tomada por Norbert Elias, entre os polêmicos cenários de Primeira e Segunda Guerra, é de destaque o momento em que é citado rapidamente por Salvadori sua vivência na Universidade de Gana[3]. Apesar do nacionalismo pulsante em suas veias, a arte africana, como aponta o autor, “falou mais diretamente às emoções de Elias que a arte originada na Renascença” (SALVADORI, 2011, p.144). Para a sombra eurocêntrica que rondava tantos intelectuais, é muito interessante que Elias apresentasse esse fascínio na África, continente o qual merece um estudo aprofundado, podendo assim trazer a devida visibilidade.

Apesar de ter suas principais obras, como reitera Salvadori, passando-se por trabalhos de historiador, Elias não era muito terno com esse ofício. Critica, pois, o fato do historiador acreditar-se dispensado de teorizar, cabendo ao sociólogo o papel de tirar a narrativa histórica da subjetividade[4]. Ora, sua crítica era muito bem vinda ao novo panorama que surgia entre os historiadores franceses entre 1920-1930. Assim como Elias, Marc Bloch e Lucien Febvre davam início ao advento de uma Nova História, menos um “arquipélago de fatos e de datas” e mais uma ciência aprofundada e teorizada.

Nesse capítulo de Philippe Salvadori dedicado a Norbert Elias, foi também possível ter um breve gosto de sua abordagem em A sociedade de corte. Como captado nas discussões em sala, os comportamentos dessa sociedade são transmitidos através de um processo informal, por meio do convívio, do olhar. O escopo da análise dessa estrutura de aparências dá-se, para Elias, na concorrência por prestígio entre os cortesãos. Esse tal “fetiche do prestígio”[5], disputado entre a nobreza de toga e a burguesia ascendente, restringia a vida dos integrantes do mundo cortês, os quais detestavam a etiqueta mas para atingir seus interesses era impossível separar-se dela.

Outro ponto importante para compreender a análise de Elias da sociedade de corte é a interdependência existente nas classes. Tomando como exemplo o Rei Sol na corte francesa, Luís XIV, “por mais poderoso que seja o soberano, ele é resultante das forças opostas que dão forma a seu poder” (SALVADORI, 2011, p.149). Elias não recusa a luta de classes, contudo reconhece o simplismo da imagem de um mero enfrentamento entre nobreza e burguesia, onde a corte, na verdade, produz súditos iguais na dependência e apenas hierarquizados no favor.

Elias não abandona seu interesse por uma psicologia histórica. A recorrente atenção ao “hábito” demonstra sua pretensão em explicar a formação psicológica dos indivíduos, a partir do processo histórico e das configurações sociais. Sua análise, de grande sucesso historiográfico na década de 1980, foi referência para intelectuais como Pierre Bordieu, Roger Chartier, Georges Vigarello, Stephen Mennell, Hubert Ch. Ehalt[6].

Porém, não tardou para que sua obra fosse alvo de contundentes críticas, como as feitas por Daniel Gordon e Jeroen Duidam.[7] O primeiro atenua a dimensão estratégica das boas maneiras, acusando Elias de negligenciar uma sociabilidade literária, assim como negligenciara os estabelecimentos de educação na difusão dos novos comportamentos. Mas, como citado anteriormente, ao discutir em sala chegamos à conclusão de como é importante salientar a transmissão dos comportamentos cortesãos através do convívio, do processo informal. Jeroen Duidam, por outro lado, aponta o risco que Elias corre ao se apoiar em pesquisas históricas obsoletas, entendendo ser problemático o laço do sociólogo entre curialização e civilização. Segundo Salvadori, a ausência do fator religioso também revela uma lacuna em sua análise. Sem, no entanto, deixar de ressaltar que a obra de Norbert Elias é de suma contribuição historiográfica e, apesar das críticas, um clássico.

II. O PROCESSO CIVILIZADOR – PARTE 01

Foi estudado em sala a primeira parte da obra O processo Civilizador, e muitas informações inéditas surgiram. Visando tratar da sociogênese da diferença entre “kultur” e zivilisation” no emprego alemão, Norbert Elias embasa sua reflexão acerca da história dos costumes no Ocidente.

A concepção do conceito de civilização possuía um certo “lugar comum” ao ser estudada. Elias, contudo, destrincha esse conceito com a definição devidamente adequada para o termo, sendo civilização “a consciência que o Ocidente tem de si mesmo (…) ele resume tudo em que a sociedade ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga superior a sociedades mais antigas ou as sociedades contemporâneas ‘mais primitivas’” (ELIAS, 1939, p.23).

Embora o conceito de “civilização” seja vigorado com imo nos costumes do Ocidente, Alemanha e França, ambas nações europeias e ocidentais, possuem diferente conceito para tomar esse significado. A ideia de “kultur” na sociedade alemã alude em primazia a fatos intelectuais, artísticos e religiosos. Enquanto “civilização” descreve um processo que está em movimento constante, “kultur” delimita, ao expressar a individualidade de um povo a partir de suas produções humanas[8]. O conceito de civilização, segundo Elias, enfatiza o que é comum a todos os seres humanos ou o que deveria sê-lo – na opinião dos que o possuem.

Foi novo abordar não o conceito de civilização, mas seu destrinchar tão claro feito por Elias. Seu poder de síntese em: “por mais diferente que seja a auto-imagem dos alemães, que falam com orgulho de sua kultur, e a de franceses e ingleses, que pensam com orgulho em sua ‘civilização’, todos consideram axiomático que a sua é a maneira como o mundo dos homens, como um todo, quer ser visto e julgado” (ELIAS, 1939, p.24), aproxima os dois conceitos por um breve momento, ainda que priorize suas origens de um conjunto de situações históricas distintas.

Desde a infância, como afirma Elias, é ensinado a ver o mundo sobre a lente desses conceitos. E, da mesma forma, com toda a produção intelectual e identidade nacional alemã, uma das maiores novidades na obra de Elias, de suma relevância histórica, encontra-se aqui: a corte alemã do século XVII e ainda no XVIII à sombra da civilização francesa. Quase como um choque. Tamanha é a naturalidade com a qual se absorve a afirmação intelectual alemã, que é difícil imaginar que apenas há três séculos atrás esta encontrava-se ainda tão pouco autêntica. A opção da burguesia pela valorização da língua alemã, pela produção própria daquela nação fragmentada, é justamente o que contrasta com a predominância da língua e costumes franceses na corte.

Ao tratar de exemplos de atitudes de corte na Alemanha, o autor destaca a situação alemã no século XVII, ainda não-unificada, com o comércio em declínio, pós Guerra dos Trinta Anos[9]. Com poucos recursos para luxos como literatura e arte, as cortes alemães, quando mais abastadas, imitavam a conduta da corte de Luís XIV e falavam francês. Elias cita Leibniz como o único grande alemão dessa época, que, apesar de intelectual, raramente utilizava o idioma nativo, apropriando-se da escrita e fala francesa ou latina. Como expressão desse enaltecimento às cortes da França, convém citar a frase da noiva de Gottsched, escrita em 1730: “Nada é mais plebeu do que escrever cartas em alemão”[10]. E, de fato, a corte falava francês, mas o povo falava alemão, cujo era visto pejorativamente por seu aspecto bárbaro. Até o próprio Frederico, o Grande, lamenta a rudeza de sua língua-mãe[11], assim como o escasso e insuficiente desenvolvimento da literatura alemã. Frederico vivia entre o paradoxo de uma política prussiana e uma tradição estética francesa, com sucessos militares e políticos que acendiam a autoconsciência alemã, porém sua atitude em questão de língua e gosto eram reverentes aos costumes franceses.

A pequena burguesia intelectual, contudo, num curto espaço de tempo que compreendia a segunda metade do século XVIII, passaria a ganhar espaço e visibilidade. Figuras como Immanuel Kant e Goethe já são exaustivamente inclusos na  formação de praxe, como grandes exemplos de intelectuais alemães dessa época. Mas Norbert Elias traz também intelectuais notáveis como Schiler, Lessing, Herder e Sophie de la Roche[12], os quais foram imprescindíveis para a ascensão da intelectualidade alemã que se afirmava.

Uma marca saliente na nobreza da corte era o controle dos sentimentos individuais pela razão, o comportamento reservado e a eliminação de todas as expressões plebeias. Em contrapartida, a burguesia, cada vez mais próspera, deleita-se com sua própria exuberância de sentimentos, exaltando a rendição às emoções do coração. Esta classe média tinha como representantes mais importantes da intelligentsia administrativa o clérigo e o professor, com expoente na universidade alemã em contrapeso com a corte. Segundo Elias: “por um lado, a superficialidade, cerimônia, conversas formais; por outro, vida interior, profundidade de sentimento, absorção em livros, desenvolvimento de personalidade individual” (ELIAS, 1939, p.37).

Norbert Elias demonstra a contemporaneidade dos conceitos de “civilização” e “kultur”, onde atribui-se para cada um padrão de indivíduo. Esses termos acabaram por assumir um estereótipo do francês, inglês e alemão, expresso em vários excertos como o de Nieztsche, com ironia, “o alemão adora a ‘sinceridade’ e a ‘integridade’” ou o de Fontane sobre a Inglaterra “o alemão vive para viver, o inglês para representar. O alemão vive para si mesmo, o inglês vive para os outros.”[13].

III. OS ESTABELECIDOS E OS OUTSIDERS

“Os Estabelecidos e os Outsiders” é a obra de Norbert Elias capaz de expandir desmedidamente os horizontes. O sociólogo analisa a pequena comunidade de Winston Parva, localizada na Inglaterra, como modelo para uma teoria que se estende para a análise dos mais diversos espaços, das mais variadas sociedades.

Apresentando a edição brasileira da obra, o Doutor em Antropologia social e Professor da UFRJ Federico Neiburg traz uma profícua conceituação dos termos “establishment”, “established” e “outsider”. Originados na língua inglesa, esses conceitos são utilizados para “designar grupos e indivíduos que ocupam posições de prestígio e poder. Um establishment é um grupo que se autopercebe e que é reconhecido como uma ‘boa sociedade’, mais poderosa e melhor, uma identidade social construída a partir de uma combinação singular de tradição, autoridade e influência: os established fundam o seu poder no fato de serem um modelo moral para os outros. (…) Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da ‘boa sociedade’, os que estão fora dela” (NEIBURG, 2000, p.7).

Ainda a partir da apresentação de Federico Neiburg, um aspecto saliente na teoria de Elias é o afastamento da análise das relações de poder meramente através do conceito marxista de luta de classes. Como aponta Neiburg acerca da obra em questão, mesmo sendo Winston Parva uma comunidade relativamente homogênea, por apresentar semelhantes índices de renda e educação, não era essa a percepção daqueles que ali moravam.[14] Para os habitantes, era muito claro como dividiam-se os moradores em estabelecidos e outsiders, em que “Os primeiros fundavam a sua distinção e o seu poder em um princípio de antiguidade: moravam em Winston Parva muito antes do que os outros, encarnando os valores da tradição e da boa sociedade. Os outros viviam estigmatizados por todos os atributos associados com a anomia, como a delinquência, a violência e a desintegração” (NEIBURG, 2000, p.7). Dessa forma, Norbert Elias, juntamente a John Scotson, elabora um estudo capaz de esclarecer processos sociais de alcance geral na sociedade humana, com um inédito olhar da construção das desigualdades sociais.

O índice de delinquência mais elevado em um dos bairros da comunidade de Winston Parva foi o ponto de partida de Norbert e Scotson para a pesquisa[15]. O decorrer do estudo, no entanto, acaba por tomar um novo rumo, quando tal índice elevado de delinquência passa a cair. Elias e Scotson percebem o estigma dos antigos habitantes de que a zona dos habitantes mais recentes possuía mais delinquência. Assim, o problema é examinado muito além dos “casos elevados de delinquência”, em que a problemática geral estava nas relações entre as diferentes zonas de uma mesma comunidade.

Para tratar de “Os Estabelecidos e os Outsiders” foram abordados alguns tópicos em sala de aula para dinamizar a fixação do conteúdo. Entre eles, é profícuo ratificar a discussão feita sobre a crítica de Norbert Elias a Sigmund Freud[16]. Apesar de reconhecer a grande contribuição do psicanalista para a compreensão dos processos coletivos, Elias critica o fato de Freud definir o homem como um indivíduo isolado. A crença freudiana de que todo o homem é uma unidade fechada em si mesma – um homo clausus – perturba o sociólogo que, diferentemente da ótica do ser humano como indivíduo enclausurado em sua construção na infância, preza pela imagem do nós e do ideal de nós. Ou seja, as funções de autocontrole do indivíduo[17], para Elias, relacionam-se também com processos grupais que toda pessoa continua envolvida, não só na infância.

A imagem do “nós” que foge ao horizonte de Freud é, para Elias, essencial na percepção dos grupos estabelecidos. O amor-próprio coletivo é mantido através do reconhecimento auto engrandecedor desses grupos, inaptos a reconhecer o detrimento de sua posição independente em prol da interdependência inevitável que passa a existir entre esses e os recente chegados outsiders.

A mudança para uma dinâmica correlacionada com os que estão fora do establishment, em que nota-se o fraquejo da posição estabelecida costuma ser traumática. Contudo, antes passando pela crença dos estabelecidos em seu carisma e especialidade, agindo “como um escudo imaginário que as impede de sentir essa mudança e, por conseguinte, de conseguir ajustar-se às novas condições de sua imagem e sua estratégia grupais” (ELIAS, 1990, p.45). Dessa forma, fica claro para o sociólogo o quão irrealistas são as percepções de auto grandeza dos grupos estabelecidos, visto que se desfazem com as mudanças correntes.

Nesse complexo ensaio teórico de Elias, compreender como a imagem do nós se configura para o caráter “superior” dos estabelecidos é crucial. As fronteiras que são traçadas para distinguir grupos que se referem como “nós” e grupos que se referem como “eles” são construídas através de um dos recursos clássicos dos establishments sob pressão. Assim como o exemplo esmiuçado sobre as castas-párias indianas[18], a boa sociedade consiste em reforçar as restrições que seus membros impõem a si mesmos e ao grupo dominado mais amplo.[19]

IV. MOZART – SOCIOLOGIA DE UM GÊNIO

Em “Mozart – Sociologia de um gênio”, Norbert Elias traça uma íntima biografia sociológica da vida do gênio musical Wolfgang Amadeus Mozart. Desta obra, o foco foi no capítulo “A juventude de Mozart”, onde Elias esmiúça a parte da vida do músico que capta o cerne de sua mais preciosa teoria: Mozart era um outsider nas cortes as quais tentava se colocar.

Para a compreensão do momento juvenil da vida de Wolfgang Mozart, é imprescindível tomar conhecimento de uma das figuras mais importantes na vida do jovem, seu pai Leopold Mozart. Um servidor burguês no mundo da corte de Salzburgo, encontrava-se numa posição inferior inescapável, de um mero serviçal limitado por sua classe.[20] Assim, confiando no filho prodígio e ansioso por conseguir uma corte para Wolfgang que fosse diferente da de Salzburgo, maior mais bem situada, Leopold faz da vida do filho uma série de frequentes viagens com o intuito de que fosse reconhecido o seu virtuosismo. A necessidade de alcançar uma renda que superasse as despesas da família Mozart fez o jovem ser alertado da prioridade em ganhar dinheiro com sua música[21], que apesar de tamanha genialidade, encontrou sólidas barreiras entre os estabelecidos.

Norbert Elias configura os tais estabelecidos na aristocracia da corte, que enquanto classe ociosa, era típico desta exigir um completo programa de entretenimento. O gosto nas artes era ditado pelo consenso dos poderosos, os quais priorizavam uma variedade nas músicas tocadas a seu cortejo. A música, tendo que se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos[22], tinha como função primária o intuito de agradar os senhores e senhoras das classes dominantes. É incrível o entrelaçamento dos conceitos trabalhados em sala, visto que o que Mozart sofre constantemente é o processo civilizador ao qual está submetido.

A genialidade de Mozart encontrava seu reconhecimento subordinado aos padrões e etiquetas da sociedade de corte. Grande parte dos conhecidos do músico logo perdia o interesse por suas apresentações, ficando tediosa após algum tempo para a aristocracia detentora do “gosto nas artes”,[23] em que a maioria prezava por se divertir, apesar de haver uma parte da corte amante da boa música.

Revelando seu olhar de sociólogo, Elias analisa que o fato de Mozart não conseguir se colocar numa corte não estava ligado apenas à vil percepção da genialidade do músico pela aristocracia. Um homem tão jovem com aspirações tão altas acabava por assustar os responsáveis pela distribuição de cargos. Ainda agregando-se à personalidade de Mozart, longínqua da polidez social de Rosseau[24], habituado a dizer francamente o que sentia e pensava. Este possivelmente fora uma das grandes razões para seu insucesso de se estabelecer numa corte.

A dependência que Wolfgang Mozart possuía de seu pai certamente refletiu em muitos aspectos de sua vida. Elias aborda que o isolamento de Mozart em muito se deve às constantes mediações do pai[25], em sua juventude, que o fizeram nutrir cada vez mais sentimentos agressivos pela classe dominante da época. A não-identificação do gênio com o establishment aristocrático[26] relacionava-se ao seu almejo de ser reconhecido como músico e não pelo título, diferentemente dos anseios de seu pai.

V. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como essência de seu pensamento, Elias trouxe novos conceitos com os quais se faz possível trabalhar nos mais diversos espaços da sociedade, quanto ao estudo das relações de poder. Encaixando a teoria dos “estabelecidos e outsiders” tanto no século XIX como nesse século. Tanto na vida do músico alemão Wolfgang Mozart como na de um brasileiro qualquer, que também se enquadrasse como outsider. Os ditames do processo civilizador e seus efeitos são trabalhados pelo sociólogo de modo a encontrar uma teoria tão geral e bem fundamentada quanto cada uma das obras trabalhadas nessa disciplina.

VI. BIBLIOGRAFIA

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990.

ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.

ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011.


[1] SALVADORI, Philippe; SALES, Véronique (orgs.). In: Os Historiadores. São Paulo: Editora Unesp, 2011. p.141

[2] Idem. p.143

[3] Idem. p.144

[4] Idem. p.145-146

[5] Idem. p.147-148

[6] Idem. p.155

[7] Idem. p.157-158

[8] ELIAS, Norbert. O processo civilizador. Rio de Janeiro, edição em língua portuguesa: Jorge Zahar Editor Ltda, 1990. p.24

[9] Idem. p.29

[10] Idem. p.30

[11] Frederico, o Grande, apesar de seu tamanho afeto e luta pela prosperidade da fragmentada Alemanha, disse sobre a sua língua nativa “Considero-a uma língua semibárbara, que se fraciona em tantos dialetos diferentes como a Alemanha tem províncias. Cada grupo local está convencido que seu patois é o melhor”. Idem. p.31

[12] Schiller foi autor de Die Rauber (Os Bandidos), em 1781. Lessing foi autor de Laokoon (Laocoonte), em 1776, e Die Hamburgische Dramaturgie (Dramaturgia de Hamburgo), em 1767. Herder escreveu as peças Sturm und Drang. Sophie de la Roche foi autora da série de romances Das Fräulein von Sternheim.

[13] Idem. p.49

[14] ELIAS, Norbert. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000. p.7

[15] Idem. p.15

[16] Idem. p.41-42

[17] As funções de autocontrole do indivíduo, conceituadas por Freud, são o “eu” e o “super eu”. Essas seriam influenciáveis por certos aspectos da vida do ser humano, como os processos grupais de pai-mãe-filho, determinantes para a formação do homem logo na infância. Para Elias, porém, as funções de autocontrole eram também dependentes de outros processos grupais que toda pessoa é envolvida, da infância à velhice.

[18] Elias, ao discutir como nasce essa noção de “nós” e “eles”, traz o exemplo dos brâmanes e das castas-párias indianas. Faz-se necessário pô-las numa sequência temporal e contexto histórico que aprofunde a reflexão, para entender as fronteiras estabelecidas no establishment.

[19] Idem. p.46-47

[20] ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995. p.86-87

[21] Idem. p.88

[22] Idem. p.89

[23] Idem. p.90

[24] Norbert Elias faz uma comparação entre a forma de Rosseau e Mozart de lidar com a corte aristocrata, ambos vindo da pequena burguesia. Enquanto Rosseau apresentava uma certa habilidade em manobrar as caricaturas sociais e agradar a aristocracia adequando-se ao processo civilizador, Mozart era um legítimo outsider, sem possuir tal dom de mascarar as emoções.

[25] Idem. p.97

[26] Idem. p.102

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AS CONTRIBUIÇÕES DAS OBRAS DE NORBERT ELIAS PARA ESTUDO DA SOCIEDADE MODERNA

*Bianca Cruz dos Anjos

RESUMO

Este artigo foi solicitado pelo professor Severino Vicente para a disciplina A Idade Moderna e O Processo Civilizador (Uma Leitura de Norbert Elias) e visa discutir as contribuições das obras de Norbert Elias para compreender a forma como as transformações sociais ocorrem ao longo da evolução humana, quais são os fatores internos e externos que constituem as relações entre o indivíduo e a esfera coletiva. Embora, as obras desse autor descrevam o processo de formação da sociedade moderna, observa-se que suas concepções transpõem a temporalidade que se aplica no seu estudo, os conceitos e ideias trabalhadas podem ser analisados na contemporaneidade, isso nos faz refletir a respeito de nossos próprios hábitos e costumes. Desse modo, as obras de Norbert Elias ressaltam que não há um projeto civilizador em cada nação, mas os atos singulares de cada indivíduo se somam a outras ações, resultando em uma rede relações, na qual se fazem presente os fatores psicológicos e sociais na construção da interindependência social.

PALAVRAS-CHAVE: Civilização, Comportamento, Norbert Elias, Psicogênese, Sociogênese.

INTRODUÇÃO

As obras de Norbert Elias apresentam como um material denso e rico que permite o surgimento de novas perspectivas e indagações acerca do processo e formação da sociedade ao longo da evolução humana, imprescindíveis para o conhecimento histórico e para concatenação de inúmeras reflexões acerca da sociedade em diferentes temporalidades.

Os aportes teóricos e metodológicos adotados pelo autor mostram a amplitude de fontes utilizadas em seus estudos, como também, ressalta a problematização dos dados colhidos em uma pesquisa, pois um estudo não se faz apenas com números, são pistas para trilhar as indagações acerca de uma concepção, os dados fundamentam e estruturam as ideias. Nessa linha de pensamento, observa-se o uso da interdisciplinaridade como uma ferramenta de amplitude dos horizontes de conhecimentos, não só do autor, como do leitor, o trabalho com abordagens Psicológicas sobre o desenvolvimento da civilização nos mostra que, embora pareça que os seres humanos sejam civilizados por natureza, nós possuímos uma disposição natural para nos adaptar, transformar e construir ao ambiente ao nosso redor, sobretudo, nossas relações em sociedade, de acordo com as circunstâncias externas e internas, logo, percebemos que a evolução humana trilhou o caminho da auto regulação individual de instintos do comportamento, frente às relações coletivas, o resultado disso será a interindependência social trabalhada pelo autor em suas obras, a sociedade é uma construção de laços coletivos, mas que se originam da singularidade de cada individuo na tentativa de construir um ambiente no qual todos exerçam uma função e siga determinadas regras de civilização.

Norbert Elias nos mostra que uma sociedade embora possua suas singularidades históricas e culturais, ela é fruto de uma rede relações com outras sociedades, além disso, a sua proposta de observar os processos de desenvolvimento e transformações sociais sob o ângulo da longa duração corrobora o fato de que não há rupturas bruscas no tempo, os valores e os hábitos não surgem e acabam do nada, a sociedade demonstra uma frenética dinâmica, mas a consolidação de valores e costumes é trilhada gradualmente sem que a gente perceba.

Dessa maneira, o conceito e o significado da palavra “civilização” não pressupõe sociedades modelos, com destinos sociais uniformes, com mentalidades comuns e específicas a um determinado período da história humana, Norbert Elias discute abertamente em suas obras que a sociedade se constrói na heterogeneidade de crenças e costumes, posto isso, a civilização se forma em termo de identidade, pertencimento a grupos ou a situações sociais concretas.

Dados biográficos

Norbert Elias nasceu em Breslau, 22 de junho de 1897, e veio a falecer em 1990, nos Países Baixos, onde passou a fase final da sua vida. Por ser de família judaica teve que fugir da Alemanha nazista exilando-se em 1933 na França, se estabeleceu na Inglaterra onde passou grande parte de sua carreira.

Quanto à vida acadêmica de Norbert Elias, posso dizer que foi árdua e preenchida de obstáculos, pois seus trabalhos foram reconhecidos tardiamente, para explicar esse fato irei utilizar as circunstâncias sociais da época e o pensamento teórico e científico vigente na sua época. Seus trabalhos em alemão tardaram a ser reconhecidos e sofreram muitas críticas. Sua formação teve base nas áreas da Medicina, Filosofia, Psicologia e Sociologia, lecionou na Universidade de Heidelberg (1924-29) e na Universidade de Frankfurt (1939-33), onde teve Karl Mannheim por colega, mas foi na Universidade de Leiocester (1954-1962) que obteve seu primeiro posto de professor, ganhou também o Prêmio Adorno e se tornou doutor honoris causa da Universidade de Bielefeld.

Em linhas gerais, suas obras focam a relação entre poder, comportamento, emoção e conhecimento na História. Devido a circunstâncias históricas, Elias permaneceu durante um longo período como um autor à margem das regras epistemológicas de diversas ciências, tendo sido redescoberto por uma nova geração de teóricos nos anos 70, quando se tornou um dos mais influentes sociólogos de todos os tempos.

Reflexões sobre as obras de Norbert Elias vistas em sala

Quando nos indagamos à respeito da questão do termo civilização e seu significado[1], levamos em conta o caráter ocidental, isto é, uma sociedade permeada pelo avanço da tecnologia, desenvolvimento científicos, as ideias religiosas e os tipos de costumes. É muito comum analisarmos a cultura e os processos políticos que regem outras sociedades através de um ângulo europeu, encontramos isso no nosso cotidiano quando nos referimos  aos conceitos, “sociedade oriental”  e “sociedade oriental” essa ideia não deve ser pensada pela dualidade geográfica e histórica, pois devemos analisar também os aspectos psicológicos e funcionais que cada grupo social constrói, nesse bojo de observações críticas à respeito das divisões e funções sociais de cada grupo conseguimos adentrar nos primeiros princípios adotados por Norbert Elias para se estudar as sociedades européias, são eles: a Psicogênese e a Sociogênese, que se somam a demais aspectos encontrados no processo de civilização, como a importância da cultura para formação de uma identidade, o uso do poder proveniente do acúmulo de bens ou até mesmo de conhecimento, são fatores relevantes na construção da postura de grupo, discutindo também sobre o autocontrole delineado por funções conscientes e inconscientes na evolução humana.

Diante da explanação desses aspectos que permeiam as principais concepções de Norbert Elias, considero fundamental analisar a civilização como um processo, isso dá nome a uma das obras do autor estudado, O Processo Civilizador, uma obra com teor extremamente interdisciplinar que conjuga abordagens que podem ser utilizadas para as observações da sociedade contemporânea, isso mostra o quanto o autor é importante para ser estudado em disciplinas que visam entender como uma sociedade se articula, como e quais são as regras seguidas pelos indivíduos, o que permeou as expressões e experiências sociais que originam uma nação.

Essa obra contém profundas reflexões acerca da construção da sociedade, definindo o conceito “civilização”, Elias procura desvendar e investigar a formação de cada regra de conduta e comportamento dos grupos sociais, nesse panorama de pesquisa o autor vai aplicar seus métodos, um deles é o estudo particular de um caso, por meio da visão microssocial do fato, ele vai trilhar os meandros sociológicos, notificando os aspectos culturais, até chegar a uma totalidade, ou seja, uma visão macrossocial  formada por cada ponto particular do seu estudo, resultando em um novelo de conhecimentos e acontecimentos que se relacionam entre si.

Somado ao uso da longa duração para compreender a construção da sociedade, há a demarcação do tempo e do espaço, o autor tem um faro de historiador, pois problematiza e concatena os acontecimentos para uma melhor compreensão do leitor, deixando claro que a individualização não se isola do contexto coletivo, na verdade, Elias acredita na ideia de interindependência entre as relações sociais, como um fator primordial para o processo de civilização. Dessa maneira, analisando o método elisiano, a Sociologia trabalha com modelos de sociedade, procurando compreender melhor a dinâmica social, isso não implica dizer que não há transformações na ordem e na estrutura do desenvolvimento de cada sociedade, ela não está em repouso, mesmo  sob a perspectiva do tempo da longa duração.

Elias fez uso da Psicologia e da História, como ferramentas teóricas na sua concepção de enxergar as sociedades e os fenômenos sociais que estudou, pontos marcantes dessa interdisciplinaridade podem ser vistas nas entrelinhas de suas obras, como: o fator psicológico envolvido na ação de cada grupo, como se formam e dividem as funções entre si, a distinção entre um grupo dominador e um dominado e os pontos de convergência estabelecidos por acordos entre dois grupos distintos.

A Psicogênese inserida no método elisiano corresponde ao desenvolvimento da sociedade sob uma perspectiva da longa duração, visando compreender a evolução da personalidade humana e as transformações comportamentais, o indivíduo, ao longo da evolução humana, assumiu um autocontrole sob sua vida, orientado por fatores exteriores que são internalizados e levando até a disciplinização, essa regra de conduta, ou seja, a disciplina é um dos pontos que regem a civilidade, o autocontrole se alia também ao uso do poder, seja ele físico ou verbal.

Mas se fosse consciente ou inconsciente, a direção dessa transformação da conduta, sob a forma de uma regulação crescentemente diferenciada de impulsos, era determinada pela direção do processo de diferenciação social, pela progressiva divisão de funções e pelo crescimento de cadeia de interindependência nas quais, direta ou indiretamente cada impulso, cada ação do indivíduo tornavam-se integrados. (ELIAS, 1994. p.196)

A civilidade carrega consigo a disciplina e o processo de individualização frente a imposição de regras elaboradas por certo grupo social, esses dois aspectos estavam presentes na educação de Mozart, como vemos na obra Mozart,  Sociologia de um Gênio, essa produção traz consigo vários pontos abordados nas outras obras do autor, como a questão da etiqueta, comportamentos estabelecidos por um certo grupo, exclusão e reconhecimento de um indivíduo na sociedade e adaptação do indivíduo as convenções sociais, para que ele possa adentrar em algum grupo social. Ao longo da descrição biográfica de Mozart, Elias nos permite observar a dinâmica social de um grupo ao partir de indivíduo, contudo sem isolá-lo, tornando-o como uma figura única nos desdobramentos dos fenômenos, ressaltando como  Mozart se torna o produto das dependências entre os indivíduos que constituem uma sociedade, além disso, nos faz enxergar a importância de cada âmbito social no qual o indivíduo se insere, pois é nesse espaço que as pessoa constroem suas vidas, significados pessoais e coletivos.

A música, como já se disse, não existia primariamente para expressar ou evocar os sentimentos pessoais, as tristezas e as alegrias das pessoas individualmente. Sua função primária era agradar aos senhores e senhoras elegantes da classe dominante. O que não quer dizer que nela não estivessem presentes as qualidades a que nos referimos com termos como “seriedade” ou “profundidade”, mas, simplesmente, que ela tinha de se adaptar ao modo de vida dos grupos estabelecidos. (ELIAS, 1995, p.89)

A vida de Mozart ilustra nitidamente a situação de grupos burgueses, considerados outsiders em uma sociedade regida pelas ordens aristocratas, presentes na corte, uma época em que o equilíbrio de forças ainda era muito favorável a figura cortesã, mas não a ponto de consolidar todas as expressões de subversão as estruturas sociais consolidadas por esse grupo dominante, mas esses aspectos de se livrar das amarras aristocratas, poderiam ser vistas timidamente na esfera cultural. Como um burguês outsider a serviço da corte, Mozart lutou com uma coragem espantosa para se libertar dos aristocratas, seus patronos e senhores. Fez isto com seus próprios recursos, em prol de sua dignidade pessoal e de sua obra musical, mas acabou sofrendo com a decisão tomada, é nessa perspectiva que se centra a obra, mostrando o quanto a individualização sofre as interferências dos interesses coletivos, libertar-se das ordens de um grupo social em busca da realização pessoal, era muito mais complicado na época de Mozart, já que a escolha de se estabelecer como artista autônomo ocorreu numa época em que a estrutura social ainda não oferecia tal lugar para músicos ilustres.

A maior parte das pessoas que seguiam uma carreira musical não era de origem nobre e se quisessem ter sucesso na sociedade de corte, e encontrar oportunidade para desenvolver seus talentos como músicos ou compositores eram obrigados, por sua posição inferior, adotar os padrões cortesãos de comportamento e de sentimento, não apenas nos gosto musical, mas no vestuário e em toda a sua caracterização enquanto pessoas. Não havia, portanto, apenas uma nobreza de corte, mas também uma burguesia de corte é nesse cenário que Norbert Elias trabalha as maneiras pelas quais um indivíduo poderia sobressair as regras impostas por certos grupos sociais e quais as estratégias destes para submeter esses indivíduos inferiorizados.

Permanecendo nessa linha de pensamento sobre as relações sociais, nas quais o poder sempre se faz presente, ressalto que o poder, muitas vezes, é manipulado por certo grupo, e as principais estratégias do uso desse poder se relacionam com condicionantes psicológicos e sociológicos, como podemos observar na obra Os Estabelecidos e Outsiders que descreve e reflete sobre as condições sociais de dois grupos instalados em Winston Parva, Londres, os dois grupos pertenciam mesma classe social, eram operários e não se diferenciavam nem por cor e questão econômica, mas havia uma divisão entre eles, então qual o motivo da divisão social entre indivíduos que aparentemente viviam a mesma realidade ? A tradição se mostrou um como um elemento primordial para instalar essa distinção entre indivíduos que convivem em um mesmo ambiente, tornando-se um instrumento de poder, a tradição e os costumes dos grupos mais antigos não se articulavam com os moradores novatos que chegavam na área, de acordo com Elias, os estabelecidos são  considerados grupos com um caráter mais homogêneo e que apresentavam interesses em comum, como também possuem inúmeras maneiras de fazer uso do seu poder diante dos outsiders, que são definidos como aqueles indivíduos que não conseguem adentrar em certo grupo social, por não atender as regras impostas por tal grupo.

Na língua inglesa, o termo que completa a relação é outsiders, os não membros da “boa sociedade”, os que estão fora dela. Trata-se de um conjunto heterogêneo e difuso de pessoas unidas por laços sociais menos intensos do que aqueles que unem os eslablished. A identidade social destes últimos é a de um grupo. Eles possuem um substantivo abstrato que os define como um coletivo: são o establishment. Os outsiders, ao contrário, existem sempre no plural, não constituindo propriamente um grupo social.

(NEIBURG, 2000, p.7)

Nesse caso de Winston Parva, o panorama cultural e social visto por Elias em sua pesquisa de campo, um dos métodos da Sociologia, nos mostra de perto e de maneira direta como a sociedade se comporta diante de algumas circunstâncias, pois se percebe que a comunidade de Winston Parva mantém suas interconexões e interdependências na medida em que a força da tradição prevalece, isto é, quanto mais antigo fosse o grupo instalado mais privilégios ele teria.

Embora, a Sociologia esteja sob os pilares da pesquisa estatística, Norbert Elias não descreve apenas fatos e números, a estatística não suplanta as características qualitativas, isto é, a análise dos interesses e das ações tomadas por cada grupo, que formam a sociedade. Elias descreve que a noção de antigo e novo transita no encadeamento de fenômenos sociais presentes em Winston Parva e isso afeta diretamente o modo pela qual cada grupo vai e comportar diante do outro.

O papel desempenhado neste estudo pela “antigüidade” e “novidade” relativas dos bairros é um exemplo disso. Ele deixa claro que os fenômenos examinados tinham uma dimensão histórica e que a descoberta de índices quantitativos, mesmo que se incluísse o “tempo de residência”, não seria suficiente para dar acesso às diferenças configurativas, estruturais, a que se referiam os rótulos de “antigo” e “novo”. (ELIAS, 2000, p.59)

Diante desses questionamentos, Elias transgrede o próprio campo de formação, a Sociologia, e adentra na História, observa-se que a linha que divide as duas ciências se apaga, para entrar em cena a interdisciplinaridade, integrando-se aos aportes teóricos-metodológicos da História, o autor situa no tempo e no espaço os fenômenos concernentes a Winston Parva, para descrever o bairro operário, ele faz uso de uma retrospectiva histórica para delinear os principais desdobramentos dos dois grupos que lá viviam, desse modo, Elias procura refletir sobre as principais estratégias de interiorização da imagem que cada grupo faz de si, já que o grupo dominante não faz uso da violência e da força para subjugar o grupo inferiorizado, o uso do poder se mantém intrínseco aos costumes e as tradições presentes no cotidiano do bairro, além disso,fica claro a relação de interindependência entre os dois grupos, porque quem tinha uma visão externa da comunidade acreditava que ela era homogênea, mas não era, a percepção de quem vivia no bairro era outra.

Nessa linha de pensamento, a pesquisa de Elias e John Scotson nos mostrou que nenhuma comunidade é tão integrada ao ponto de haver uma equidade total, mesmo sendo uma pesquisa local, podemos levar os questionamentos para uma esfera macrossocial, trazendo para nossa realidade, como disse o professor em sua aula  alunos de uma mesma sala em uma universidade pertencem a uma mesma realidade naquele espaço que se constitui o seu cotidiano de estudo, mas fora da instituição de estudo,eles são diferentes entre si, ou pela classe social ou pelos interesses políticos,todos os aspectos que formam a sociedade são delineadores das disparidades entre grupos sociais.

Os Estabelecidos e Outsiders pode até ser um reflexo da vida de Norbert Elias, mas, os conceitos presentes em suas obras não se limitam a descrever a sociedade do seu tempo, suas reflexões transitam em diferentes temporalidades, é esse um dos pontos mais importantes da leitura de suas obras. Os questionamentos e descrições encontrados nessa obra, nos mostram como nossa sociedade está em movimento e o quanto somos presos a uma só explicação para os fenômenos, a interdisciplinaridade de Norbert Elias demonstra que a historia de uma nação não é unívoca, devemos estar atentos as raízes históricas e os processos de formação da sociedade. Winston Parva traz em seu bojo social as atualidades do nosso cotidiano, como a superioridade de um grupo se consolida, onde o reconhecimento e a exclusão não se constroem apenas pelo uso da força, os fatores psicológicos são fundamentais para essa lógica de poder entre dominadores e subordinados, nenhum grupo social se subordina facilmente, o grupo deve se sentir em uma condição de inferioridade e estigma, pois, se não houvesse essa condição de “aceitação de imagem” sempre haveria conflitos permanentes em uma sociedade.

A concepção de ser civilizado sempre esteve muito presa à noção ocidentalizada de ver os comportamentos do indivíduo, logo, para ser um indivíduo civilizado era necessário seguir os padrões europeus determinados pelas nações mais desenvolvidas, esse desenvolvimento era referente, sobretudo, aos aspectos políticos e intelectuais, não é por acaso que a França por muitos anos foi a nação modelo para as expectativas dos outros países, exemplo disso está formação das classes sociais na Alemanha no século XVIII, é óbvio que outros fatores acentuaram a demora pela formação de uma identidade nacional entre os alemães, e na busca pela construção de uma cultura própria, seguindo, muitas vezes, os aspecto intelectuais difundidos pela França.

Norbert Elias discorre sobre os contrastes entre as classes sociais, como também, menciona as atitudes da corte para com a classe media em ascensão. O termo que mais se aplica a essa situação é o conceito intelligentsia, que se refere às realizações intelectuais e artísticas, no entanto havia um estrato social que embora tivesse poder, não costuma “realizar” nada, e dependia de uma classe inferior que tinha muitos dotes intelectuais. Comparando muitas estruturas sociais da Alemanha com a França e Inglaterra, podemos perceber que de início não havia um valorização da cultura alemã, devido à fragmentação territorial que resultava na existência de vários dialetos, considerados semibárbaros, a língua francesa era padrão para o uso do corte, pois transparecia algo mais “civilizado”. Isso também acarretava contrastes sociais, pois as tarefas que eram realizadas pela classe média na Alemanha, quem realizava na França eram os aristocratas, desse modo, percebemos que quem vai criar uma esfera intelectual na Alemanha é a classe média.

Se o indivíduo fala alemão, é considerado de bom tom incluir tantas palavras francesas quanto possível. (ELIAS, 1994, p.30)

Atualmente, em pequenos detalhes do nosso cotidiano podemos observar reminiscências da influência européia para a construção da civilidade brasileira, isso se verifica na historia da indumentária e da moda desde a colônia ate o Império, a roupa era um elemento de distinção social, cada tipo de roupa exigia certas regras de etiqueta, comportamentos orientados pelos costumes europeus, de origem francesa e inglesa que se faziam presente no Brasil desde o uso do chapéu ate a forma do penteado das senhoritas.

Foi importado para o Brasil o sistema europeu em que se estabeleciam regras rígidas de como cada grupo social se apresentar em publico. Naquele continente, a alta e a pequena nobreza, o clero, os negociantes, os cortesãos, os trabalhadores braçais, as prostitutas, os servos, os judeus, todos tinham obrigações e restrições quanto ao uso de determinados tecidos e outros pequenos luxos. É interessante observar não apenas a moda da aristocracia, mas, sobretudo, os esforços da população em geral em imitar poderosos. O estudo da indumentária também pode nos ensinar muito sobre as relações sociais e raciais desde os primeiros tempos de colonização. (RASPANTI, 2011, p.185)

Considerações finais

Anteriormente a esta disciplina não tinha lido nenhuma obra de Norbert Elias, e a disciplina atendeu justamente minhas perspectivas, que eram: conhecer o autor, visando compreender seus métodos de pesquisa, se era possível aplicar suas teorias na realidade, sua importância para os meus estudos e como profissional na área de pesquisa em História.

Sendo assim, achei enriquecedor os debates em sala de aula, pois mostraram o quanto as obras e as concepções de Norbert Elias se aproximam da nossa realidade, mesmo que ele fosse um homem do seu tempo e procurasse entender a sociedade moderna. São as indagações do presente que se voltam para o passado, as épocas passadas se refletem no nosso cotidiano, as suas obras nos permitem compreender a importância da História, como também, da Sociologia e Psicologia como ferramentas teóricas para investigar os fenômenos sociais inseridos em uma rede dinâmica de relações pessoais e coletivas.

Recomendo a todo estudante e profissional das Ciências Humanas a ler as obras de Norbert Elias e ver a dimensão de conhecimentos contidos em suas reflexões e teorias, além de escrever muito bem, o autor problematiza as temáticas relevantes do nosso cotidiano, pois ainda temos costumes e valores frutos da sociedade moderna, observando a construção da civilização e da identidade nacional na Alemanha e na França.

Referências

DEL PRIORE, Mary; AMANTINO, Márcia (Orgs.) História do corpo no Brasil.São Paulo: Ed. UNESP, 2011.

ELIAS, N. O processo civilizador: Uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1994, v I e II.

ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1995.

ELIAS, Norbert; e SCOTSON, John. L.; Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.


* ANJOS, B. C. Graduanda em História-Bacharelado pela Universidade Federal de Pernambuco.

[1] Na sua obra O processo Civilizador, volume 1, Norbert Elias procura refletir sobre o conceito e significados dados ao termo civilização.

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Posted By: Biu Vicente
Last Edit: 02 jul 2015 @ 12 36 PM

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02 de dezembro de 1870



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