



1
DE MITOS E PITOMBAS: A (DES)CONSTRUÇÃO DO IMAGINÁRIO
JABOATONENSE
Priscilla Santos*
“Eu amo o teu cruzeiro,/ teu sol que é
mais brasileiro;/ teus altos que a
gente vence/ até sem ser
jaboatonense./ Eu amo teu céu
profundo,/ maior que já vi no mundo,/
e no meu sonho ideal,/ quero mais a
ti./ Oh! Terra natal.”1.
Saindo da cidade do Recife, percorrendo a Avenida Marechal
Mascarenhas de Moraes, quem chega à cidade de Jaboatão dos Guararapes é
recebido por uma placa, cuja inscrição informa ao visitante que “a pátria nasceu
aqui”. Na saída da cidade outra placa, com a mesma frase da placa anterior se
despede do visitante. Essas são as portas de entrada e saída do município.
Os habitantes de Jaboatão dos Guararapes convivem todos os dias com
as placas. Como se fossem as trombetas que anunciam o início dos tempos, elas
permanecem sobre suas cabeças tal qual pêndulos inertes. Seus habitantes entram
e saem do município sendo lembrados de que “a pátria nasceu aqui”.
Por que é tão importante fazer esse anúncio, fazer lembrar essa
afirmação? E quem disse, afinal, que a pátria nasceu em Jaboatão dos Guararapes?
Será que alguém lê a inscrição das placas e, se lê, sabe o que realmente elas
significam? Afinal, que importância tem as inscrições nas placas de boas vindas e
despedida de um município? Quais razões inspiraram essas inscrições? Assim como
Noel Rosa cantava “se meu amor me deixar/ eu não posso me queixar/ vou sofrendo
sem dizer nada a ninguém/ a razão dá-se a quem tem” 2, vamos percorrendo as
histórias do munícipio como quem diz “a razão dá-se ao que tem”.
*Graduanda do curso de História
Universidade Federal de Pernambuco
E-mail: santos.priscilla3@gmail.com
1 Segunda estrofe do Hino de Jaboatão dos Guararapes. Letra de Benedito Cunha Melo e música de
Nina de Oliveira. Disponível em: http://www.jaboatao.pe.gov.br/index.php?opcao=9.
2 Música “A razão dá-se a quem tem”, 1932, de Noel Rosa.
2
O presente artigo, embora realizado em cumprimento às exigências de
atividades acadêmicas, não se pretende acadêmico no sentido estrito do termo. As
palavras que se seguem surgiram da curiosidade e inquietação das quais são
dotados todos os amantes da História. Da curiosidade, originou-se o desejo de
saber, de conhecer mais, e melhor, as histórias de um lugar, tornou-se imperativo redescobrir
um Jaboatão dos Guararapes “conhecido”; a inquietação, inflamada por
uma sensação de abandono, um certo mal-estar, do lugar para conosco e nosso
para com o lugar. É nosso objetivo, antes, descortinar as razões que inspiraram os
questionamentos lançados acima, do que reproduzir as respostas cristalizadas.
Importa-nos mais a aproximação com o tema. Aqui, não serão encontradas
verdades indiscutíveis, mas, dúvidas, possibilidades e, talvez, mais
questionamentos. Da tentativa de compreender por que as histórias foram contadas
de uma, e não de outra, maneira. Contaremos, aqui, “a história não como realmente
aconteceu, mas como lembramos ter acontecido” 3.
Toda região tem os seus mitos, lendas e contos. Com o município de
Jaboatão dos Guararapes não é diferente. Não é nosso interesse questionar se os
mitos e as lendas de Jaboatão dos Guararapes são verdadeiros ou não, mas saber
se os jaboatonenses se reconhecem nesses mitos, se o imaginário que esses mitos
permeiam e reconhecido como fazendo parte das imagens e representações do
cotidiano do morador do lugar. Será que o jaboatonense se reconhece como
fazendo parte do “berço da pátria”?
Uma breve história de Jaboatão dos Guararapes4
O município de Jaboatão dos Guararapes, atualmente, faz parte da
Região Metropolitana do Recife. Foi criado por uma Lei Provincial, a lei de nº 1.093,
de 24 de Maio de 1873, elevado à categoria de cidade pela Lei Provincial, a lei de nº
1.811, de 27 de Junho de 1883.
3 Essa frase faz referência a uma frase do filme “Great Expectations”, de 1998, dirigido por Alfonso
Cuarón. O filme é baseado numa obra de Charles Dickens.
4 Para mais informações sobre a história de Jaboatão dos Guararapes ver: REZENDE, A. P.
Jaboatão: Histórias, Memórias e Imagens. Coordenação de Iara Helena Rodrigues de Melo. Jaboatão
dos Guararapes: Fundação Yapoatan, 1996.
3
Para os 678.6885 habitantes do Jaboatão atual – com grande parte dos
seus 259 km² urbanizados, um parque industrial, um shopping, arranha-céus – não é
comum imaginar que a história da cidade começou bem antes. Por aqui passaram
escravos, aristocratas do açúcar e os indígenas que aqui já estavam.
Nos tempos de glória dos engenhos de açúcar, muito já foi produzido e
exportado. Os portugueses aproveitaram-se das terras do massapé e dos rios
Jaboatão e Duas-Unas. No passado, no lugar onde havia plantações de cana-deaçúcar
e engenhos, hoje, há bairros, fábricas, rodovias.
Começar a história de Jaboatão falando de açúcar e não, como está no
título, de pitombas parece incoerente. Entretanto, a história de Jaboatão e permeada
pela cana-de-açúcar e possui uma relação estreita com a produção do açúcar. O
prefeito de Jaboatão afirmava em um documento oficial de 1894, que o município
possuía mais de 55 engenhos. E mais, foi um engenho que deu origem a Jaboatão,
o Engenho São João Batista, mais tarde Engenho Bulhões. O engenho foi adquirido
em 1593, por escritura pública, pelo português Bento Luiz de Figueroa. Este, doou
terras à construção de casas aos primeiros povoadores, oriundos principalmente de
Olinda e Recife.
No século XVII, o interesse pela produção do açúcar tinha ultrapassado
as dimensões da colônia Brasil. Despertando o interesse dos holandeses que
invadiram a colônia portuguesa. Primeiro, na Bahia (1624); depois, em Pernambuco
(1630).
Os holandeses tinham intenções colonizadoras e os senhores de
engenho reagiram à presença holandesa.
Em 21 de Outubro de 1633, 700 holandeses invadiram e saquearam
Jaboatão. Foram rechaçados pelas tropas luso-pernambucanas, sob o comando do
Major Pedro Luiz Barbalho Bezerra. Com a vinda de Mauricio de Nassau, as
desavenças diminuíram, tentando-se viver de maneira pacífica para restaurar a
produção de açúcar prejudicada pelos conflitos.
5 Estimativa da população para no ano de 2010. Dados retirados do IBGE.
4
A tentativa de fugir da ruína que levou muitos engenhos à falência não
deu certo, durando pouco, sobretudo depois da volta de Nassau à Holanda. As
insatisfações tornavam-se cada vez maiores.
Com as pressões da Companhia das Índias, que exigia o pagamento das
dívidas dos senhores de engenho, alguns proprietários resolveram conspirar,
organizando um movimento armado para expulsar os holandeses. O movimento
tinha em Fernandes Vieira sua principal liderança e fazia reuniões nas matas de
Jaboatão.
O primeiro confronto se deu em 1645, no monte das Tabocas, com os
rebeldes saindo vitoriosos.
Em 1647, com o fim da União Ibérica e a colônia de volta ao domínio
português, Portugal envia Francisco Barreto de Menezes para comandar as tropas
na luta contra os holandeses.
O confronto maior se deu em terras jaboatonenses, nos montes
Guararapes. Os montes são formados por três elevações. O primeiro monte é o
Oitizeiro – em referencia a árvore encontrada ali. Este monte está cercado, ao Norte,
por duas elevações gêmeas, conhecidas anteriormente como outeiros dos
Guararapes6.
Depois de duas grandes batalhas travadas, as Batalhas dos Guararapes,
a primeira em 1648 e, a segunda, em 1649, os holandeses foram derrotados pelas
tropas luso-pernambucanas.
Em homenagem às vitorias alcançadas, o mestre de campo Francisco
Barreto de Menezes, mandou edificar uma capela para Nossa Senhora dos
Prazeres, também deveriam ser realizadas comemorações todos os anos em
homenagem a santa.
“O Mestre de Campo General do Estado do Brazil Francisco Barreto
mandou em acção de graças edeficar a sua custa esta Capela à Virgem
Sem.hora Nossa dos Prazeres, com cujo favor alcançou neste lugar as duas
memoraveis victorias contra o inemigo olandes, a primeira em 18 de abril de
6 História da Guerra de Pernambuco (Recife, 1943) pp. 665/666. Citado in: MELLO, J. A. G. de. A
Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitária, 1971,
p. 8.
5
1648 em domingo de Paschoella vespora da ditta Senhora a segunda em
18 de fevereiro de 1649 em hua sexta feira e ultimamente em 27 de janeiro
de 1654 ganhou o Recife e todas as mais prassas que o inemigo pesuhio 24
annos” 7.
Da construção original da capela pouco resta, senão a descrição contida
na escritura de doação.
“A descrição conhecida é pormenorizada e, através dela, sabe-se ter sido a
capela ‘de pedra, e cal com trinta e seis palmos de cumprido e vinte e
quatro de largo, e de abóbada de tijolo com hum copear fora da dita capela
de vinte palmos de cumprido com a mesma largura; assentado sobre duas
colunas de pedra, e toda capela e copear ladrilhado de tijolo com toda a
terra, e sítio, e árvores de fruto8”.
O local escolhido para a construção da capela foi o outeiro dos
Guararapes, em terras do engenho de mesmo nome. O engenho era de propriedade
do Capitão Alexandre de Moura. Em escritura lavrada em 23 de agosto de 1656, o
senhor do engenho fez a doação do terreno9. Em 8 de novembro do mesmo ano
Barreto de Menezes fez doação do terreno e da capela ao Mosteiro de São Bento de
Olinda; este, ficava obrigado a não apenas conservar a capela bem como melhorála.
O documento de doação faz menção à festa de Nossa Senhora dos Prazeres:
“em intenção das almas dos que morreram nas duas batalhas e na
recuperação do Recife ‘em serviço de Deus e de Sua Majestade’, devendo
ser celebrada festa especial no dia em que a Igreja festeja a dita Senhora,
‘com vésperas, missa cantada e pregação’, e não se fazendo assim
passaria a capela à Santa Casa de Misericórdia de Olinda” 10.
A capela passou por modificações ao longo dos tempos. Na primeira
delas, em 1676, uma ampliação foi feita no corpo da ermida que passou a constituir
7 Essa inscrição, está gravada em uma placa que ficava no adro esquerdo da atual Igreja de Nossa
Senhora dos Prazeres. Atualmente, encontra-se na parede direita do altar-mor da igreja. Citado in:
MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 8.
8 Livro do Tombo do Mosteiro de São Bento de Olinda (Recife, 1948) – p. 271 – Padre Lino do Monte
Carmelo Luna “Memória Sobre os Montes Guararapes e a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
Edificada em um Deles, Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, nº
17 (Recife, 1968) p.p. 253/189. Citado in: MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres
– Guararapes. Cadernos de Cultura nº 1. Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973.
9 MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 12-3.
10 Ibid., p. 13.
6
a capela-mor da nova igreja. Abriu-se no local da fachada o arco-cruzeiro atual,
construí-se a nave com as três portas de entrada mais a sacristia, atrás da capelamor.
Os altares laterais – um em cada lado do arco-cruzeiro, o do Senhor Bom
Jesus Crucificado e o da Senhora Sant’Ana11.
A partir de 1756, o Regente da Igreja, Frei Manoel de São José, começou
a construir o frontispício atual. As obras se estenderam até a regência do Frei José
de São Bento (1769-75).
Em princípios da década de 1780, começa uma nova etapa de construção
da Igreja. Pedras dos arrecifes da praia de Piedade foram largamente utilizadas na
construção das molduras das portas e janelas12. É dessa época o revestimento da
fachada em azulejos brancos nacarados. As torres foram concluídas em 179213.
É claro que a história de Jaboatão dos Guararapes não se limita às
palavras breves acima, mas optamos por nos ater somente até o ponto da vitória
dos luso-pernambucanos sobre os holandeses. Porque é a fonte de inspiração para
o mito que atribui à cidade de Jaboatão dos Guararapes a posição de berço da
nacionalidade brasileira é que interrompemos essa breve história no fim das
Batalhas dos Guararapes. Essas batalhas vão servir de justificativa para o mito de
berço da pátria, da formação do povo brasileiro – um povo de todas as “raças”,
credos e que se orgulha da sua pluralidade. O índio, o negro e o branco lutaram
juntos para erguer as bases que nos sustentam como uma nação “sem barreiras”
culturais, étnicas ou sociais.
Conceituando o mito
Durante muito tempo, o mito era o meio através do qual o mundo, e os
seus fenômenos, era conhecido e explicado.
11 Idem, pp. 16-7.
12 MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres – Guararapes. Cadernos de Cultura nº
1. Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973. Encontrado ainda em: MELLO, J. A. G. de.
A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitária, 1971,
p. 19.
13 MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971, p. 20.
7
As sociedades arcaicas entendiam o mito como sendo uma história
verdadeira. As experiências do sagrado, por meio do encontro com uma realidade
que estava muito além da realidade humana, é que fazem surgir a noção de que
alguma coisa realmente existe, que valores absolutos existem e são capazes de
guiar o homem, conferindo significado à existência humana14.
A rememoração do mito, como evento primordial, ajuda o homem
“primitivo” a reter o que e distinguir o que é real.
As sociedades arcaicas vivem o tempo sagrado, o tempo reversível. Por
isso a possibilidade de, através da repetição, entrarem em contato com o mundo
transcendente dos deuses, dos heróis e dos ancestrais míticos. “A realidade se
desvenda e se deixa construir a partir de um ‘transcendente’, mas um
‘transcendente’ que pode ser vivido ritualmente e que acaba por fazer parte
integrante da vida humana” 15.
Nesse sentido, o mito funciona como uma tradição sagrada, uma
revelação primordial, um modelo exemplar a ser seguido. É o “mito das origens”.
Essa maneira de entender o mythos contrasta sensivelmente com os
significados que o lhe foram sendo atribuídos nas sociedades posteriores.
No mundo antigo, desde os idos tempos de Xenófanes (aproximadamente
565-470 a.C.), que foi o primeiro a fazer críticas e rejeitar as expressões mitológicas
feitas por Homero e Hesíodo, os gregos passaram a despojar o mito de todo o seu
valor sagrado e metafísico. No seu lugar, ficaram o logos e, posteriormente, a
História; o mythos passou a representar, então, tudo o que não pode existir em
realidade. O mundo judaico-cristão relegou o mito à posição de falsidade, àquilo que
não pode ser justificado, validado por um dos dois Testamentos16.
É esse o sentido que, durante a modernidade, o mito vai adquirindo, quer
dizer, esse sentido de representar o que é falso, o que não pode ser real vai sendo
atribuído ao mito.
14 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 124.
15 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.
16 Idem, p. 8.
8
Durante o século XIX, o lugar do mito era as fábulas, as ficções, as
invenções. Essa mudança no valor semântico do termo “mito”, torna o seu uso, hoje,
em grande medida, equívoco. Atualmente, o mito pode significar tanto uma ilusão,
quanto tradição sagrada.
Porque contém em si variados significados, o mito não é simples de
definir, pois, “o mito é uma realidade cultural extremamente complexa, que pode ser
abordada e interpretada através de perspectivas múltiplas e complementares” 17.
Questionando-se se seria possível encontrar uma definição que fosse
aceita por todos os eruditos e, concomitantemente, acessível aos não-especialistas,
Mircea Eliade diz:
“A definição que a mim, pessoalmente, me parece ser a menos imperfeita,
por ser a mais ampla, é a seguinte: o mito conta uma história sagrada; ele
relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do
‘princípio’.Em outros termos, o mito narra como, graças às façanhas dos
‘Entes Sobrenaturais’, uma realidade passou a existir, quer seja uma
realidade total, o Cosmos, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie
vegetal, um comportamento humano, uma instituição. É, portanto, a
narrativa de uma ‘criação’: ele relata de que modo algo foi produzido e
começou a ser” 18 (Grifo nosso).
Para Eliade, o mito não se caracteriza por ser uma ficção, uma falsidade.
O mito é, antes, uma narrativa que conta uma história verdadeira. Os mitos sempre
se referem às realidades19.
Em contrapartida, Roland Barthes, entende o mito como sendo uma fala,
mas não uma fala qualquer. Os mitos são falas para as quais são necessárias
determinadas condições especiais para que a linguagem se transforme em mito20.
“É a história que transforma o real em discurso, é ela e só ela que comanda
a vida e a morte da linguagem mítica. Longínqua ou não, a mitologia só
pode ter um fundamento histórico, visto que o mito é uma fala escolhida
pela história: não poderia de modo algum surgir da ‘natureza’ das coisas.
17 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 11.
18 ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006, p. 11.
19 Idem.
20 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 131.
9
Esta fala é uma mensagem. Pode, portanto, não ser oral; pode ser formada
por escritas ou por representações: o discurso de um escrito, assim como
uma fotografia, o cinema (…) o mito não pode definir-se pelo nem pelo seu
objeto, nem pela sua matéria, pois qualquer matéria pode ser
arbitrariamente dotada de significação” 21 (Grifo nosso).
Barthes vê o mito como sendo uma fala escolhida, construída pela
história, e não como sendo uma história verdadeira, um relato que fala do modo
como as coisas foram produzidas. Os homens não mantêm com o mito uma relação
de verdade, mas sim de utilização. Basta modificar o que rodeia o mito para poder
determinar a exatidão do seu alcance.
Ainda de acordo com Barthes, o mito, por ser uma mensagem, apresentase
numa relação entre significante, significado e signo. De maneira genérica, o
significante é a forma ou o sentido que o mito apresenta, o significado é o conceito
do mito e o signo é a totalidade associativa do conceito à imagem22. Isso significa
dizer que a linguagem do mito necessita de uma mensagem, alguém que receba
essa mensagem e um canal através do qual a mensagem será transmitida.
O mito passa, ainda, uma mensagem apropriada, intencional. O mito é
uma fala definida muito menos pela sua literalidade do que pela sua intenção. A
função do mito é transformar uma intenção que é puramente histórica em algo
natural, uma contingência em uma eternidade23. O mito serve às ideologias, para
justificá-las.
“O mito não nega as coisas; a sua função é, pelo contrário, falar delas;
simplesmente, purifica-as, inocenta-as, fundamenta-as em natureza e
eternidade, dá-lhas uma clareza, não de explicação, mas de constatação
(…) passando da história à natureza, o mito faz uma economia: abole a
complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das
essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do
visível imediato, organiza um mundo sem contradições, porque sem
21 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 132.
22 Para maiores esclarecimentos sobre esse esquema tridimensional ver: BARTHES, R. Mitologias.
Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A., 9º edição,
1993, p.p. 137-148.
23 Idem, p. 163.
10
profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, cria uma
clareza feliz: as coisas significam sozinhas, por elas próprias” 24.
A única linguagem, segundo Barthes, que não é mítica – pois permanece
sendo política, já que a linguagem mítica é despolitizada – é a linguagem do homem
produtor. Essa seria a linguagem propriamente revolucionária e livre da linguagem
mítica25.
O mito da identidade nacional
Durante o Estado Novo de Vargas (1937-45), foram lançadas as bases do
sentimento nacionalista26. A conjuntura do período exigia a busca pela afirmação
nacional. Surgem, assim, os heróis nacionais: o índio potiguar, Felipe Camarão; o
militar branco, André Vidal de Negreiros; e o negro, filho de escravos africanos,
Henrique Dias.
Coube a Domingos Fernandes Calabar o papel de traidor da pátria; pátria
esta que nem sequer existia.
“Quando, em vez de um multiculturalismo, quando as nações sentem a constante
ameaça de serem aniquiladas, quando os países subdesenvolvidos precisam
combater a exploração estrangeira e empreendem uma luta desesperada contra a
fome de sua população ou para lhe explicar por que está morrendo de fome, o
nacionalismo proporciona uma forte e útil ferramenta de preservação da cultura. Isso
é verdade especialmente para uma comunidade de estados nacionais de fortes
tendências à homogeneização, e é um aspecto das conseqüências da globalização”
27.
24 Idem, p. 164.
25 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 166.
26 Essa é uma afirmação baseada em conclusões pessoais nossas.
27 WEBER, M. , 1920, From Max Weber: Essays in Sociolog,. Org. por H.H. Gerth e C.W. Mills, Nova
York, Oxford University Press, 1946, p. 78. Citado in: PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e
Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro, 2004, p. 133-4.
11
A ideia de nacionalismo está estreitamente ligada ao sentimento de
pertencimento de um povo e de sua cultura, na tentativa de superar as minorias
étnicas e culturais28.
Esse mito da identidade nacional foi reafirmado nos governos militares
(1964-89). Durante esse período a cidade de Jaboatão dos Guararapes figura não
apenas como o berço da nacionalidade brasileira, mas, também, como a
“manjedoura” do exército brasileiro29.
Como geradora da identidade nacional, a nação, utiliza-se do mito para
corroborar o seu discurso.
“Ora, o mito sempre foi o mito de um evento e de um advento, o mito do
Evento Absoluto, fundador. As sociedades que viveram do mito e no mito,
viveram na dimensão de um ser-evento (événementialité) constitutivo
(deveríamos dizer ‘estrutural’ , se isso não fosse um paradoxo). Onde o mito
é procurado, é o evento que é desejado” 30.
O imaginário e a preservação da memória
O morador da cidade de Jaboatão dos Guararapes parece não se dar
conta – nem ser responsável – pela construção da história da sua cidade. Talvez,
mesmo, não se sinta inserido dentro do quadro jaboatonense.
Andar pelas ruas de Jaboatão é um exercício que, certamente, aguça a
memória, mas a memória do jaboatonense está fragmentada. Quem mora na
cidade, anda pelas ruas sem notar suas histórias. Sai de casa num dia qualquer da
semana, vai à feira de Prazeres e passa pela Avenida Barreto de Menezes
insensível e imune a compreensão de quem foi ele, ou do por que, a avenida tem
seu nome. O morador se preocupa, somente, com a lista de frutas e verduras que
precisa comprar.
28 Ibid., p. 133.
29 BENTO, C. M. Batalhas dos Guararapes:Descrição e Análise Militar. Recife: Universidade Federal
de Pernambuco, 1971. O autor faz uma verdadeira exaltação dos governantes militares.
30 LACOUE-LABARTHE, NANCY, 2002, P. 15. Citado in: PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e
Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro, 2004, p. 134.
12
Em outra manhã qualquer, sai de sua casa para ir ao trabalho. Durante o
trajeto, seu caminho percorre toda a extensão da Estrada da Batalha. Mais uma vez,
o morador passa pela rua sem se dar conta de que, nos idos tempos, tropas
holandesas e luso-pernambucanas percorreram esse mesmo trajeto em direção à
vitória ou, ainda, à morte.
Afinal, por que os jaboatonenses não se dão conta do seu passado, da
sua memória?
Francisco Régis Lopes Ramos, quando pensa na posição que o ocupam
os museus, em geral, e os museus no ensino de história, em particular, acredita que
existe uma tendência dos responsáveis pela construção da memória de agir de
acordo com os seus próprios interesses.
“Seria coerente supor que as classes dominantes fariam investimentos para
conservar suas memórias. É assim que poderíamos concluir a partir das
teorias sobre o poder da memória. Mas, nem tanto. Se na Europa tal
investimento e quase regra, aqui no Brasil é exceção. A teoria da
preservação da memória oficial, quando pensada aqui, ganha outra
tonalidade.
A coisa está mudando, entretanto a mudança não é a favor da preservação
de documentos históricos, através dos quais pensássemos nossa própria
história. O que predomina é o patrimônio como ‘bem de consumo’ (…) aquilo
que era marca do tempo, vestígio de muitos pretéritos, tornou-se um
shopping center no estilo colonial”31.
Ramos, é de opinião de que existe uma questão de fundo político na
relação que se faz entre a preservação e a memória. E, aqui, recorremos novamente
aos mitos e sua relação com os símbolos.
O imaginário é parte integrante da construção da memória. “Todo
pensamento da sociedade e da história pertenci em si mesmo à sociedade e à
história”.
Pensamos, aqui, o imaginário como pensa Castoriadis, a saber:
31 RAMOS, J. R. L. A Danação do Objeto: O Museu no Ensino de História. Chapecó: Argos, 2004, p.
79.
13
“O imaginário de que falo não é imagem de. É criação incessante e
essencialmente indeterminada (social-histórica e psíquica) de figuras/
formas/ imagens, a partir da quais somente é possível falar de ‘alguma
coisa’. Aquilo que denominamos ‘realidade’ e ‘racionalidade’ são seus
produtos32”.
Pensando o mito como tendo uma função que serve a uma instituição, um
discurso, um fazer da sociedade, seus aspectos são controláveis. Um desses
aspectos é símbolo, pois o mito – no nosso caso, o mito da nacionalidade – é um
mito adequado33. O mito precisa de uma simbologia que não é neutra.
“A idéia de que o simbolismo é perfeitamente ‘neutro’ ou então – o que vem
a ser o mesmo – totalmente adequado ao funcionamento dos processos
reais é inaceitável e, a bem dizer, sem sentido.
O simbolismo não pode ser neutro, nem totalmente adequado, primeiro
porque não pode tomar seus signos em qualquer lugar, nem pode tomar
quaisquer signos” 34.
A sociedade constrói o seu simbolismo, não de maneira totalmente livre,
pois ele serve a propósitos determinados. Esse simbolismo passa por uma
naturalização e se insere no histórico, determinando valores e aspectos da
sociedade35.
O sentido mais corrente do imaginário é o de representar alguma coisa
inventada quando queremos falar de uma história que não existe, uma história
imaginada. O imaginário utiliza-se do simbólico para exprimir-se, não somente por
isso, mas, também para existir, passando do campo virtual para o campo das coisas
a mais. Pressupõe a capacidade imaginária de enxergar uma coisa que, em
realidade, não é. Sob a forma de representação, uma coisa pode ser re-significada.
Pode, ainda, ser a capacidade de evocar uma imagem36.
32 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p. 13.
33 BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993, p. 131.
34 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p.146
35Ibid., p.152.
36 Ibid., p. 155.
14
Na tentativa de dar uma resposta a alguma pergunta – quem somos? qual
é a nossa identidade? – de dar sentido e satisfação às suas necessidades, a
sociedade utiliza as significações imaginárias. “O papel das significações
imaginárias é o de fornecer uma resposta a essas perguntas., resposta que ,
evidentemente, nem a ‘realidade’ nem a ‘racionalidade’ podem fornecer” 37.
“O imaginário é igualmente, é claro, também condição todo e qualquer
pensamento – do mais simples, do quase não-pensamento, quase reduzido
à manipulação mecânica de signos, se é que isso é possível, ao mais rico e
mais profundo” 38.
Ao longo do tempo o imaginário – e seus significados – pode tomar outros
sentidos, passar por re-significações. Um exemplo disso é a Festa de Nossa
Senhora dos Prazeres.
Na escritura de doação da Capela de Nossa Senhora dos Prazeres, de 8
de novembro de 1656, Barreto de Menezes, deixa instruções de como devem ser
realizados os festejos em homenagem a Santa39. No ano de 2010, a festa chegou a
sua 353ª edição. De festa em homenagem a Nossa Senhora dos Prazeres, a festa
passou a ser em culto às pitombas40. Não é que a Santa tenha sido esquecida, mas
atualmente, o vento é mais comumente conhecido como “Festa da Pitomba” – a
festa acontece no mês de abril, período de safra da fruta.
As missas, procissões e cortejos em honra à Santa, ainda ocorrem, mas,
à noite, a invocação do sagrado sai de cena para dar lugar ao “culto” profano: feiras
de artesanato, parque de diversões, apresentação de bandas de músicas,
cantadores, repentistas, maracatu. As comemorações acontecem nos Montes
Guararapes – atualmente, Parque Histórico Nacional dos Guararapes. Depois dos
festejos, a festa acaba, a luz apaga, o povo some, a noite esfria41. Sobram os
campos com os fantasmas do passado de batalhas.
37 Ibid., p. 177.
38 CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro:
Ed. Paz e Terra, 6º edição, 2007, p. 380.
39 Ver nota 10, da página 5.
40 Talisia esculenta, família das Sapindaceae, conhecida popularmente como “pitomba”. A espécie é
encontrada por quase todo o Brasil em estado nativo, silvestre ou em cultivo. In: Repertório Botânico
da “Pitombeira” de Germano GUARIM NETO, Santina Rodrigues SANTANA E Josefa Valdete
Bezerra da SILVA.
41 Paráfrase do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade.
15
Os montes são novamente lembrados quando do espetáculo de
encenação da peça “Batalha dos Guararapes: assim nasceu a nossa pátria”. A
última edição foi em novembro de 2010, foram investidos R$ 250 mil. O elenco
contou com 65 atores e 235 figurantes, sob a direção de José Pimentel42.
Poucos são os jaboatonenses que conhecem a história da sua cidade,
menos ainda, os que se reconhecem nela. Quem deveria cuidar – as escolas do
município, por exemplo – para que a memória não fosse esquecida, para que essa
história fosse contada, ao que parece, também não se lembra que ela aconteceu.
Percorrendo os Montes Guararapes, poucos foram os que encontramos
que puderam contar-nos essa história. Um deles foi o seu Rubens – sementeiro de
Pau-brasil que carregava, literalmente, em suas mãos o futuro do bosque que,
teimoso, ainda persiste nos Montes Guararapes. Foi ele quem, caminhando
tranquilamente sem camisa, de chinelos, um ramo de Pau-brasil nas mãos,
acompanhado do Totó, seu cachorro, contou-nos como a placa de bronze – com a
inscrição do belveder onde ficavam os canhões – foi roubada. Ele, ainda lembrava
da inscrição, palavra por palavra, que havia na placa: “Nesta colina sagrada, na
batalha vitoriosa contra o invasor, a força armada do Brasil se forjou e alicerçou para
sempre a base da nação brasileira” 43.
E, assim, a cidade de Jaboatão dos Guararapes vai seguindo. Com sua
memória sendo lentamente esquecida e seu imaginário sendo constantemente
(des)construído.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, R. Mitologias. Trad. de Rita Buongermino e Pedro de Souza. Rio de Janeiro: Editora
Bertrand Brasil S.A., 9º edição, 1993.
BENTO, C. M. Batalhas dos Guararapes:Descrição e Análise Militar. Recife: Universidade Federal de
Pernambuco, 1971.
CASTORIADIS, C. A Instituição Imaginária da Sociedade. Trad. de Guy Reynaud. Rio de Janeiro: Ed.
Paz e Terra, 6º edição, 2007.
42 Informações retiradas do site da Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Disponível em:
http://www.jaboatao.pe.gov.br/index.php?opcao=21&id=2950.
43 Essa é uma frase do Marechal Mascarenhas de Morais.
16
ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2006.
MELLO, J. A. G. de. A Igreja dos Guararapes. Recife: Universidade Federal de Pernambuco,
Imprensa Universitária, 1971
MENEZES, J. L. M. Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres – Guararapes. Cadernos de Cultura nº 1.
Recife: Escola Técnica Federal de Pernambuco, 1973.
PINHEIRO, M. J. Museus, Memória e Esquecimento: Um Projeto da Modernidade. Rio de Janeiro,
2004.
RAMOS, J. R. L. A Danação do Objeto: O Museu no Ensino de História. Chapecó: Argos, 2004.
REZENDE, A. P. Jaboatão: Histórias, Memórias e Imagens. Coordenação de Iara Helena Rodrigues
de Melo. Jaboatão dos Guararapes: Fundação Yapoatan, 1996.
Trabalho apresentado na disciplina eletiva sobre Pernambuco, no ano de 2010, pelo professor Severino Vicente da Silva




LÚCIO RENATO MOTA LIMA
HISTÓRIA DA CULTURA BRASILEIRA: LEITURA DIRIGIDA: HISTÓRIA CULTURAL DO NORDESTE
Trabalho de conclusão da disciplina de História Cultural do Nordeste do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Pernambuco solicitado pelo professor Severino Vicente da Silva.
RECIFE
2010
“A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza”.
A tese de doutorado A Fé Moldando Comportamentos: História Cultural dos Presbiterianos de Fortaleza, de Francisco Agileu de Lima Gadelha, apresentada ao Programa de pós Graduação em História do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, enuncia o objetivo de “reconstruir a memória cultural de idosos de uma coletividade, cujos protagonistas apresentam suas práticas religiosas diferentes das de outros atores pelos seus atos comportamentais, produzindo sentidos e significações particulares de suas existências” (pág. 08). A coletividade em foco na pesquisa foi a dos presbiterianos da cidade de Fortaleza, Ceará, da qual o autor propõe como questão central caracterizar sua identidade cultural buscando identificar em suas práticas religiosas e em sua vida, encontros ou afastamentos em relação à orientação proposta pela Igreja Presbiteriana.
A aproximação entre o objeto de estudo e o historiador ocorreu através da própria história de vida do autor, que pertence à comunidade presbiteriana de Fortaleza. Os entrevistados são pessoas de sua convivência pessoal e religiosa (inclusive uma tia fez parte dos entrevistados), circunstância que até lhe provocou dúvidas sobre a possibilidade da realização de um projeto de pesquisa científica, como relata em suas “Considerações Finais”: “No início dessa pesquisa encontrei-me em uma encruzilhada. A de fazer a interlocução entre a minha história e o campo de conhecimento que priorizei estudar, pois carrego comigo a convivência religiosa e as relações pessoais mantidas ao longo dos anos com os sujeitos da presente pesquisa”. Procurou, então, afastar suas dúvidas por meio da literatura, encontrando respaldo no método da “observação participante”, que consiste na tentativa de integração do pesquisador com o seu objeto de pesquisa e que é um recurso utilizado principalmente pela antropologia. Em todo caso, na leitura do trabalho identifica-se um nítido envolvimento emocional do historiador com seu objeto de estudo.
A tese foi dividida em quatro capítulos. Os três primeiros são de natureza contextual e de fundamentação teórico-metodológica. O quarto apresenta as histórias de vida dos 16 sujeitos de pesquisa, elaboradas a partir de entrevistas gravadas pelo autor. Fazem parte de seus referenciais teóricos autores como: Roger Chartier, do qual utiliza as três noções basilares de sua obra: representação, apropriação e prática (que são discutidos amplamente por Agileu no segundo capítulo); Pierre Bourdieu e seu conceito de Campo Religioso e Poder Simbólico (discutido amplamente no terceiro capítulo); e Peter Berger e o conceito de legitimação e estruturas de plausibilidade (também analisado no terceiro capítulo); além de outros autores como Martinho, Ecléa Bosi, Michel de Certeau entre outros.
Desde o início, observa-se a disposição sistemática do autor em esclarecer, minuciosamente, sua caminhada teórico-metodológica, indicando suas fontes e como trabalhou com elas, principalmente em seu segundo capítulo. Nele analisa a trajetória da História Cultural e a renovação que esta abordagem promoveu no campo historiográfico. Ressalta, baseado em Certeau, a importância dos movimentos religiosos para a compreensão das sociedades humanas e analisa as possibilidades do conhecimento do cotidiano através da análise das práticas religiosas, assim como as vantagens para o trabalho do historiador na utilização da memória das pessoas idosas na reconstrução do passado.
Como dissemos, o primeiro capítulo tem o objetivo de contextualizar, temporal e espacialmente, a comunidade presbiteriana de Fortaleza, desde a chegada dos primeiros missionários estrangeiros na segunda metade do século XIX. O primeiro pastor que dirigiu o trabalho missionário no Ceará foi o Reverendo De Lacy Wardlaw, que desembarcou em Fortaleza em 1882. Anteriormente, a obra de conversão ficava a cargo dos chamados colportores – pessoas que penetravam os sertões do Brasil pregando o Evangelho e que levavam em lombos de animais Bíblias para vender ou doar. Foram os esforços desses colportores que resultaram nas primeiras conversões ao presbiterianismo no Ceará. Mas foi a partir da chegada do pastor De Lacy, que tem início a história da comunidade dos presbiterianos de Fortaleza, sendo sua Igreja erguida no ano de 1890.
Agileu descreveu a biografia do Reverendo De Lacy e de outros missionários, nacionais e estrangeiros, que tiveram papel de liderança na Igreja Presbiteriana de Fortaleza em sua fase de estabelecimento, período que o autor situa entre 1882 e 1930. No entanto, identificamos nesse ponto uma ausência de maiores discussões sobre as possíveis diferenças nas identidades culturais entre os pastores estrangeiros, que eram principalmente estadunidenses, e os pastores nacionais. Menciona, apenas de passagem, as dificuldades com o idioma do Reverendo De Lacy, o que atrapalhava a sua compreensão pelos fieis. Apesar de indicar que “a doutrina, ditames teológicos e conceitos de valores” (pág. 32) desses missionários estrangeiros obedeciam a um planejamento traçado pelas Juntas Missionárias de Nova York e Nashiville, não discute que valores culturais poderiam condicionar a sua prática religiosa nesse outro contexto sociocultural e se isso poderia ter contribuído para o surgimento de desavenças, como, por exemplo, no caso do Cisma de 1903, que deu origem a Igreja Presbiteriana Independente. A explicação fornecida para esse importante episódio indica a existência de uma oposição entre nacionais e estrangeiros, mas segundo Agileu estaria apenas atrelada à questão da maçonaria e da independência dos recursos das igrejas brasileira.
Com relação aos conversos, a maioria, assim como no restante do país, pertencia à classe média cearense, principalmente os comerciantes e profissionais liberais, embora ressalve que pessoas de todas as condições sociais tenham também se convertido, inclusive membros de famílias tradicionais. Essa maior inserção nos setores médios estaria vinculada ao embate entre forças tradicionalistas e modernizadoras em Fortaleza, reprodução do que ocorria em outros centros urbanos brasileiros. Defensores de um pensamento individualista e liberal, os setores de classe média lutavam contra a aristocracia por maior espaço político, encampando reformas para a modernização de Fortaleza. Segundo o autor, isso teria contribuído para a maior identificação desses setores com o protestantismo, que expressava esse espírito progressista e modernizador a parir da defesa do individualismo e da ascensão social através do esforço próprio, em contraposição com o espírito conservador e antimodernizante do catolicismo romanizado hegemônico e mais identificado com a aristocracia.
A Igreja Católica vivia nesse período uma crise de credibilidade devido ao mau comportamento do seu clero e a pouca assistência dos fieis. Os presbiterianos se aproveitaram dessa fragilidade para tentar por meio da estratégia do proselitismo, conquistar sua posição no campo religioso brasileiro (abordagem baseada em Bourdieu). Evidentemente, a Igreja Católica reagiu a essa contestação à sua posição hegemônica no campo religioso brasileiro, e, no caso em questão, ao cenário cearense. Perseguições, atos de violência física, destruição de templos e discriminação dos convertidos (eram apelidados de “bodes” pelos católicos) foram cometidos. O autor destaca a atuação de dois importantes personagens da história da Igreja Católica nordestina como emblemas dessa intolerância religiosa católica: Padre Cícero e Frei Damião.
Em resposta, os presbiterianos empregaram como estratégia a busca por distinção social e prestígio entre as pessoas letradas da sociedade cearense, como forma de conquistar uma posição no campo religioso cearense. O jornal foi um dos principais veículos de divulgação da mensagem presbiteriana, mesmo antes do advento da República e da implantação da liberdade de culto.
Esses embates no campo religioso, no caso em questão entre católicos e protestantes, foi aprofundado, como dissemos acima, no terceiro capítulo, a partir da análise da obra de dois importantes teóricos: Bourdieu e Berger. A religião teria para Bourdieu a função de legitimadora do mundo social e do cotidiano, o chamado “poder simbólico”: “que funciona pelo poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e de fazer crer, de confirmar ou transformar a visão de mundo, ação perseguida pelos presbiterianos” (pág. 88).
A religião exerceria a função de reduzir a complexidade social, a partir do estabelecimento de certezas diante da contingência do mundo natural e social. Essa redução da complexidade combateria as situações de anomia (desordem) que põem em risco a estabilidade das estruturas de plausibilidade (Berger). Um exemplo são as situações marginais, sendo a morte a mais relevante. Os presbiterianos a vêem como um desígnio de Deus e como a passagem para uma vida ao lado Dele para os que foram salvos. Essa crença diminuiria o impacto da perda de parentes e amigos, mantendo a harmonia pessoal e social dos indivíduos.
A moral protestante moldaria o comportamento dessas pessoas, pois o desvio da orientação da Igreja significaria uma depravação, um afastamento de um comportamento santo, que tem que ser santo porque Deus é santo. A moral, portanto, estaria acima de tudo. Honestidade, trabalho, poupança e disciplinarização do corpo – o sexo visto como ligado ao casamento e a procriação, a condenação à dança e ao consumo de drogas como bebidas alcoólicas – fazem parte do comportamento esperado do presbiteriano. Em suas entrevistas, Agileu procurou identificar a repercussão da mensagem religiosa no comportamento dos membros da comunidade.
Intitulado A Memória dos presbiterianos idosos: momento de construção de sua História Cultural, o quarto capítulo objetiva mostrar como foi forjada a maneira de ser dos presbiterianos de Fortaleza, o seu comportamento e a sua relação com os não presbiterianos. Para isso, utiliza como estratégia o mergulho na história de vida de dezesseis sujeitos de pesquisa. As entrevistas expressariam a pluralidade de sentidos que esses presbiterianos transmitem a sua religião, ao seu modo de pensar, trabalhar. A forma como encaram o nascimento, a doença e a morte seriam características distintivas em relação a outros grupos sociais.
A aproximação da pesquisa com o contexto sociocultural de Fortaleza foi através da vida e prática religiosas dos entrevistados. As mudanças e permanências sofridas pela cidade e que poderiam ter repercutido na vida da comunidade presbiteriana são apresentadas através dos seus relatos de vida. Essa estratégia metodológica adotada, sem dúvida interessante, permitiu muito mais ao nosso ver, uma caracterização de uma identidade presbiteriana do que de uma identidade cultural particular dos presbiterianos de Fortaleza, que seria a questão central da pesquisa. Assim como ocorreu no caso da apresentação dos missionários estrangeiros, sentimos mais uma vez a ausência de uma discussão do que seria próprio, específico, dessa coletividade em foco e, portanto, uma insuficiência em relação ao objetivo proposto.




A DEVOÇÃO A NOSSA SENHORA DO CARMO EM RECIFE/PE
Trabalho apresentado por João Paulo Andrade Rodrigues do Ó.
na Disciplina Problemas da História do Nordeste,
ministrada pelo Prof; Severino Vicente da Silva,
segundo semestre de 2010.
1 ORIGEM DOS CARMELITAS E DA ORDEM
O Horeb representa um exercício habitual das virtudes num espírito de graça. A caverna é o mistério da sabedoria escondida na alma, e seu santuário. Quem nela penetra terá a intuição profunda e mística do saber “que supera toda ciência” e na qual se manifesta a presença de Deus. Pois se alguém, como o grande profeta Elias, busca verdadeiramente a Deus, deve não somente “subir ao Horeb” (e é evidente que quem se consagrou à ação deve também aplicar-se à virtude), como também “penetrar no interior da caverna” situada sobre o Horeb, isto é, estar completamente dedicado à contemplação, na obscuridade e no mistério mais profundo da sabedoria, fundada sobre uma prática habitual da virtude.
No século XVII, as ordens religiosas que possuíam conventos em Olinda, passam também a desejar fundar conventos em Recife, e os carmelitas não ficaram de fora. Receberam no final do século XVII como doação o Palácio da Boa Vista, pertencente a Maurício de Nassau. (MEDEIROS, 2003, p. 168)
Em 1665, o Capitão Diogo Cavalcanti Vasconcelos deu início às obras de construção da Igreja de Nossa Senhora do Carmo do Recife, mandando executar, com os seus próprios recursos, a capela-mor.
Concluída em 1767, a Igreja do Carmo, apresenta características arquitetônicas que apontam para a fase de transição do barroco, passando do seiscentismo para o setecentismo. Ricamente ornamentada, possui a Igreja uma beleza rara e uma singular importância para a história da arte barroca em Pernambuco.
A atividade pastoral e intelectual propiciou o bom conceito da comunidade carmelita do Recife perante a população, o que resultou em uma devoção ainda maior à Virgem do Carmo.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Maria das Graças Aires. A influência da Ordem Carmelita no processo de formação da sociedade pernambucana. In: II Encontro Internacional de História Colonial. Natal, 2008.
BOAGA, Emanuele. Como pedras vivas: para ler a história e a vida do Carmelo. Roma, 1989
______. A Senhora do Lugar: Maria na história e na vida do Carmelo. Paranavaí, 1994.
HOONAERT, Eduardo. Formação do catolicismo brasileiro: 1550-1800. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1978
LACOMBE, Américo J. Ensaios Históricos. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1993.
MEDEIROS, Batolomeu Tito F. Nossa Senhora do Carmo do Recife: a brilhante Senhora dos muitos rostos e sua festa. 1987. Dissertação (Mestrado) – Curso de Antropologia, UFPE, Recife, 1987.
______. “… me chamarão Bem-aventurada”: Textos de Mariologia Carmelitano. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2003.
PROVÍNCIA CARMELITANA PERNAMBUCANA. Basílica do Carmo: História, Cultura e Fé. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2002.
______. Em oração com Maria, Mãe do Carmelo. Recife: Gráfica Dom Bosco, 2005.
PROVÍNCIA CARMELITANA DE SANTO ELIAS. Carmelita: um estilo de vida. Belo Horizonte, 1980.
MESTERS, Carlos. A caminhada do profeta Elias. Curitiba: Gráfica Damasco, 1991.
SCIADINI, Patrício. O Carmelo: história e espiritualidade. São Paulo: Loyola, 1997.
SILVA, Severino Vicente. Padroeiros e Padroeiras do Recife. Recife: UFPE, 2007. Disponível em: <http://www.biuvicente.com/blog/?p=175>. Acesso em: 01 dez. 2010.
www.festadocarmo.com.br acesso em 01/12/2010
http://ocarm.org/es/content/ocarm/origen acesso em 01/12/2010
www.pcp.org.br acesso em 01/12/2010
http://www.carmelitas.org.br/default.asp?pag=p000032 acesso em 01/12/2010
http://iconacional.blogspot.com/2008/07/hegemonia-do-culto-do-carmo-no-recife.html acesso em 01/12/2010
http://www.carmelitasmensageiras.com.br/carmelo.htm acesso em 01/12/2010
[2] O Escapulário do Carmo está ligado a uma tradição carmelita, na qual, Nossa Senhora do Carmo teria aparecido a São Simão Stock, em 1251, trazendo o escapulário na mão e dizendo: “aquele que fizesse parte da Ordem (recebesse e usasse o escapulário como sinal dessa pertença) seria salvo definitivamente. Portanto, o Escapulário é um sinal externo da devoção a Maria. O escapulário recorda aos seus utilizadores o compromisso da Ordem Carmelita e o seu modo de vida e a dimensão mariana do carisma carmelita
[3] Governou a Igreja durante 19 anos (1939-1958), a sua ação durante a II Guerra Mundial tem sido alvo de debates e polêmicas.
[4] Frades da Antiga Observância
[5] Frades reformados por Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz em 1593.
[6] Nome mais comum que se dá aos templos das tradições afrobrasileiras, entre elas o Xangô e a Umbanda.




Resumo: “Alianças Políticas Em Pernambuco: A(S) Frentes(S) Do Recife (1955-1964)”, de Taciana Mendonça Santos
Airton de Souza Melo
Resumo apresentado como requisito parcial para aprovação na disciplina História da Cultura Brasileira: Leitura Dirigida: História Cultural do Nordeste, ministrada pelo prof. Dr. Severino Vicente da Silva do Programa de Pós-Graduação em História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco.
Recife, novembro de 2010.
A Frente do Recife foi uma aliança interpartidária formada em 1955, para a realização de eleições municipais no Recife e que, ao longo das campanhas obteve contínuas vitórias na disputa de cargos. As idéias nacionalistas era um dos principais pontos de união entre os partidos da frente assim como a forma de enfrentar o Partido Social Democrata (PSD), a principal força política dentro de Pernambuco.
O objetivo da dissertação é defender a idéia que, ao renegociar a participação de cada partido, a aliança passava por um processo de reformulação, compreendendo que cada nova formulação era uma aliança especifica, pois a cada aliança os novos partidos e novas idéias eram levadas em conta para a realização da frente nos períodos de eleições.
Para alcançar o objetivo pretendido, Santos analisa a historiografia sobre o tema, o jornal Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, tabelas eleitorais e documentos dos grupos políticos. A partir dessa metodologia que Santos levanta a hipótese que houve “Frentes do Recife”, e consegue defende-la.
Na introdução da dissertação é apresentado o quadro político dos anos 1950, que motivou para as eleições municipais do Recife em 1955, a formação da primeira Frente do recife com a participação dos Partidos PSB, PTB e PCB, mesmo este ultimo estando ilegal seus militantes participavam ativamente da política brasileira. Alem disso explica como foram divididos os capítulos.
O trabalho esta dividido em três capítulos mais as considerações finais. O primeiro capítulo intitulado “Construindo a Frente do Recife – Trajetória política e historiográfica”, o segundo capítulo “Edificando uma estrutura democrática – o universo das leis”, o terceiro capítulo intitulado “A conquista do poder e os desafios da transição”.
No primeiro capítulo: Construindo a Frente do Recife – Trajetória política e historiográfica, Santos descreve as negociações ocorridas antes de cada campanha eleitoral entre 1955 – 1963 e analisando os partidos que comportam cada frente do Recife. Explica que a Frente do Recife não foi um fenômeno único o país, mas ocorreram alianças semelhantes em outros estados.
Nas eleições de 1958, a Frente do Recife (PCB, PSB e PTB) tem a concentração dos votos da capital, mas o agreste e o sertão eram redutos do PSD. No entanto a “esquerda dissidente” do PSD forma aliança para lançar como candidatos a governador e vice Cid Sampaio e Pelópidas Silveira, pela Frente do Recife. Com isso é analisado que a frente vai sofrendo novas composições e também há rupturas com a saída de partidos que não voltam a participar da frente em futuras eleições. Nas eleições municipais de 1959, Miguel Arraes (PST) o candidato da Frente do Recife foi eleito. Na mesma eleição o PTB não apoiou a Frente e lançou candidato.
Ainda no primeiro capítulo é feita a analise historiográfica das principais obras a cerca da Frente do Recife, onde Santos analisa cada uma das obras dialogando com seu objetivo que é provar que existiram “Frentes do Recife”. A partir da analise da historiografia sobre o tema a autora defende a idéia que a criação e consolidação de uma frente oposicionista seriam fruto de um amplo desejo de reformas sociais, sustentado por vários setores da sociedade. Pernambuco comunga com fatores comuns a outras regiões.
O segundo capítulo intitulado “Edificando uma estrutura democrática – o universo das leis” apresenta e analisa como foram feitas as leis democráticas e suas implicações no período proposto pela autora. O caráter aparente da constituição que dividia os poderes para funcionar democraticamente. O capítulo vai destacar a lei Agamenon Magalhães de 1945, que recriou a justiça eleitoral no Brasil, regulando o alistamento eleitoral e as eleições.
No terceiro capítulo, A conquista do poder e os desafios da transição, a autora estuda os acordos e desacordos durante o período de mandatos de representantes das frentes do Recife. A importância do poder judiciário junto às disputas políticas. Ainda no terceiro capítulo, Santos explica acontecimentos políticos que marcaram o período das Frentes do Recife como o “causo dos gatos” e a “batalha da acumulação”.
Nas considerações finais a autora afirma que, embora coligados nas Frentes do recife, os partidos defendiam seus próprios interesses, pois tinham uma composição diversa. E a partir de sua analise historiográfica e das fontes afirma comprovar que no estado de Pernambuco houve Frentes do Recife, que a cada eleição se reformulava com ideais diferentes de acordo com os partidos e forças participantes.
Referência Bibliográfica
SANTOS, Taciana Mendonça. Alianças Políticas: A(s) Frente(s) do Recife (1955-1964). Recife: UFPE, Dissertação de Mestrado, 2008.




UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
Disciplina: Problemas da História do Nordeste
Professor: Severino Vicente
Alunos: Cícero Filgueira
João Sacerdote
Rafael Arruda
Recife
2010
REPENTE NO SERTÃO DO PAJEÚ PERNAMBUCANO
Trabalho apresentado ao professor da disciplina Problemas da História do Nordeste, do curso de História do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Pernambuco.
ÍNDICE
1) Introdução.
2) Uma História do Repente no Pajeú pernambucano
Cícero Filgueira
3) Difusão Do Repente Pelo Mundo
João Sacerdote
4) Alguns dos principais nomes do Repente
João Sacerdote
5) Generos Poéticos do Repente
Rafael Arruda
6) A Missa do Poeta (Tabira-PE)
Rafael Arruda
7) Conclusão
8) Bibliografia
INTRODUÇÃO
Neste trabalho, vamos nos deter a falar sobre o Repente, e mais especificamente o que é feito no sertão do Pajeú pernambucano. Tendo estudado a disciplina eletiva “Problemas da História do Nordeste” com o professor Severino Vicente, tentaremos encaixar as implicações históricas, sociais, políticas, econômicas, geográficas e culturais que influenciaram na formação dessa forma de arte e como ela se tornou tão importante na vida de vários nordestinos.
Trataremos desde a origem do Repente, surgida da Literatura de cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (vinham do Norte da Península, sul da França) e também de influências Árabes até como é feito hoje no sertão do Pajeú. Abordaremos os diversos gêneros poéticos de se fazer o Repente e seus principais cantadores, como Pinto do Moneteiro e João Furiba.
E para mostrar a concretude dos repentistas na região do Pajeú, falaremos da Missa do Poeta, que é realizada hoje em Tabira-PE, mas teve sua primeira edição em Serra Talhada-PE.
Uma História do Repente no Pajeú Pernambucano
O Repente surge como uma arte de improvisar, de divertir e aguçar o imaginário do povo do Sertão. Forma um dos gêneros poético-musicais mais importantes da cultura nordestina, o Repente (no caso desse trabalho focalizamos o Repente de Viola do sertão do Pajeú pernambucano). O Repente de Viola se torna um elemento que fará de seu praticante, o repentista, uma espécie de pessoa dotada de um dom especial de improvisar que, como alguns dos repentistas citam, a inspiração vem do som da sua viola. Sua origem está juntamente com a Literatura de Cordel na Antiga Península Ibérica dos trovadores (principalmente do Norte da Península, sul da França). Também sofreu influência dos árabes que migraram do norte da África e viveram na parte sul da Península do século VIII ao XV quando houve a Reconquista Espanhola. A influência da África também está presente na poesia de improviso (Repente) no caso, por exemplo, o Coco de Embolada e Maracatu, sem contar do próprio Repente que tem em sua raiz a cultura africana negra que, além dos trovadores, também eram exímios improvisadores[1].
O verso como forma de contar histórias está arraigada na cultura Ocidental desde os tempos dos gregos antigos, como as famosas obras de Homero, que com os versos mostrou a história da grande batalha dos gregos contra os troianos nas obras Ilíada e Odisséia. Os contadores de histórias utilizavam do verso para mostrar os eventos porque era de mais fácil fixação por parte da população, pois a história fixava no imaginário quase como uma música. E esse papel coube também aos menestréis, trovadores e jograis que faziam o imaginário da população nas feiras da Idade média e início da Moderna. É nesse meio que surge o cordel, com o advento da imprensa (inventada por Gutenberg no século XV) uma forma de publicar as histórias, mitos, contos populares em geral de um povo através de versos, que eram vendidos em folhetins pendurados por cordões nas feiras populares e, auxiliando o cordel, aparece a xilogravura como uma forma de chamar atenção do indivíduo para a história através de imagens, que muitas vezes vinham gravadas seres mitológicos, anjos e demônios, etc. Câmara Cascudo assegura ser o cantador um “descendente do Aedo da Grécia, do rapsodo ambulante dos Helenos, do Gleeman anglo-saxão, dos Moganis e Metris árabes, do velálica da índia, dos Runóias da Finlândia, dos bardos armoricanos, dos escaldos da Escandinávia, dos menestréis, trovadores, mestres cantadores da Idade Média. Canta ele, como há séculos, a história da região e a gesta rude do homem”[2]. Sobre a origem do Repente, o poeta Sebastião Dias declama:
Foi na Grécia inspiração
Nos tempos anteriores
Na Europa fez história
Dos antigos trovadores
E no nordeste é a vida
Dos poetas cantadores
Os menestréis eram errantes contadores de histórias que usavam o instrumento de corda, o alaúde, para melhor sonorizar seus versos e deixar a história mais agradável aos ouvidos do publico, que desproviam da escrita e tinham a oralidade e a memória como fonte da cultura. O alaúde também era um instrumento bastante utilizado pelos árabes que, como já vimos, conviveu com os ibéricos e ajudaram a difundir o alaúde. E no contato com esse povo este instrumento sofreu várias modificações fazendo com que mais tarde recebesse o nome de “Vihuela”, que teve no século XVI sua grande fase. Posteriormente uma variante da “Vihuela” de quatro cordas ganha mais duas cordas e passa a ser chamada de Guitarra. Esses instrumentos tinham em sua maioria dez trastes o que se assemelha em muito com a “Viola Meia-Regra” encontrada no Sertão. Portanto temos um elo em comum com a tradição dos errantes europeus com os violeiros sertanejos.
A viola como conhecemos hoje com cinco pares de cordas foi desenvolvida ainda na Península Ibérica durante a segunda metade do século XVI, já no século XVII surge outra variante que acrescenta nessas dez cordas mais duas formando assim um instrumento de doze cordas. Tal instrumento ficou conhecido em Portugal como viola, na Espanha ainda continuou a ser chamada de guitarra. A importância da viola é tanta que podemos sintetizar nessa citação do poeta João Paraibano:
“A viola é minha companheira, é uma arma, é minha fonte de inspiração, é por onde tudo começa…”.
Os poetas do Repente chegam ao Brasil durante a colonização portuguesa e se fixaram principalmente na Bahia, Capital do Governo-Geral. Eram os poetas da literatura de oral. No entanto, somente depois de 1763 começam a surgir os poetas com as características tipicamente brasileiras. Fato esse que tem como principal causa a falta de difusão da poesia escrita, que somente cria força no século XX, no caso do Cordel, quando os índices de analfabetismo começam a cair no Nordeste e, também, pelo maior fortalecimento da imprensa.
Com o passar do tempo o Cordel e Repente de origem portuguesa foi adquirindo particularidades e características tipicamente nordestinas, apesar de também ter se irradiado para outras regiões do país. A Literatura Popular em Folhetos (outra denominação dada posteriormente pelos estudiosos e considerada até hoje a mais correta) passou a retratar em suas histórias a realidade, a cultura e as crendices do povo sertanejo.
No entanto, foi no Sertão do Pajeú pernambucano que o Repente de Viola criou sua forma convencional por volta de meados do século XIX. Contudo, os primeiros grandes cantadores vieram da Paraíba, na região da cidade de Texeira-PB (divisa com Pernambuco na cidade de Brejinho de São José-PE), tendo seus principais representantes Germano da Lagoa, Hugolino Nunes da Costa, Silvino Pirauá, Romano do Texeira, entre outros; considerados esses pelo estudioso Bráulio Tavares como os pais do Repente brasileiro. A primeira cantoria realizada com dois cantadores com registro na história da arte popular aconteceu em 1870, na vila de Patos, no estado da Paraíba, com os repentistas Inácio da Catingueira e Romano do Teixeira, no local denominado Casa do Mercado. Essa cantoria foi toda em desafio e durou uma semana inteira. Os cantadores repousavam durante o dia, arrumando idéias, sem contato entre si, para a noite se debaterem. No final da semana, numa avaliação pelo povo que compareceu à disputa, não houve vencedor, apenas o cantador Romano do Teixeira se deu por rendido em função do cansaço. A partir daí, apesar das dificuldades de acesso e de comunicação, começou a cantoria a dois, cuja finalidade era o embate para um cantador vencer o outro. Por isto, o violeiro, a convite de admiradores, enfrentava viagens longas, preparando idéias, para descarregar no companheiro, com o fim de vencê-lo na arte. As cantorias duravam noite inteira, e o cantador vencido emborcava a viola, como gesto de demonstrar à platéia que se considerava derrotado. Os assuntos eram os mais variados possíveis, porém giravam, principalmente, sobre ciência, história sagrada, contos religiosos, etc. O cantador vencido não tinha direito ao dinheiro apurado na cantoria, ficando toda a quantia com o vencedor.
As vitórias é que davam nome aos cantadores, que passavam a serem chamados pelos fazendeiros para encontros marcados, com muita antecedência, com o fim de ser feito o confronto. Cada um dos dois cantadores convidados para a cantoria não sabia quem seria o seu parceiro, passando a conhecê-lo somente no momento da apresentação. Mesmos chegando um dia ou dois antes da cantoria, os repentistas permaneciam incomunicáveis, em áreas isoladas. O repentista vencedor da batalha colocava nas cravelhas da viola uma fita colorida como forma de ir colecionando as vitórias da arte.
Os primeiros cantadores do século XX foram de suma importância para a cantoria dos dias de hoje, pois esses marcaram e são considerados os melhora/maiores cantadores de todos os tempos, como uma espécie de grandes heróis do Repente. Porém as informações sobre esses cantadores são muito escassas, só temos maior conhecimento desses poetas já no fim da carreira. Os principais representantes desse período são os irmãos Batistas de São José do Egito (Otacílio, Dimas e Lourival), o mais famoso e considerado o melhor improvisador, Pinto do Monteiro, entre outros. Esses poetas tiveram seu auge por volta dos anos 40 e 50, mas até os anos 70 ainda estavam em atividade.
Hoje, com a modernização dos tempos, com o rádio e com o fácil acesso à escola por parte dos cantadores, a cantoria ganhou nova roupagem e, por conseqüência, novo conceito. São várias as definições de cantoria hoje, entre eles um dos conceitos mais simples, pode-se dizer que a cantoria é a apresentação, sem disputa, sem luta, sem duelo, de dois repentistas ou poetas populares, a convite de um interessado para uma platéia por este escolhida. Portanto, cantoria é o momento em que se encontram presentes cantadores, viola e público, com o ânimo de apresentação. Existem dois tipos basicamente de cantoria, que são: o “Pé-de-parede” que é quando ocorre um festival onde todos os participantes improvisam na hora; e o “Balaio” que é quando os cantadores ficam sabendo dos motes antes do festival e já chegam pelo menos com uma ideia formada na cabeça.
Apesar de se dizer, sem duelo, existe o momento da cantoria em que a platéia geralmente pede o famoso “Desafio”, que é um gênero no qual os repentistas se debatem em forma de gracejo, engrandecendo-se e apontando defeitos entre si, sob os acalorados aplausos do povo presente, tudo terminando sem deixar mágoa ou qualquer rancor.
Os cantadores de hoje são homens de estudo, bem informados e atualizados com os acontecimentos do mundo, isto porque a platéia de cantoria também está bem instruída e solicita, nos eventos, os mais variados temas, principalmente da atualidade, como: política, futebol, etc., além de fatos sociais e outros que envolvem a lei da natureza.
A cantoria, por ter brotado inicialmente no meio rural do nordeste, com difícil desenvolvimento, ainda não é reconhecida por grande parcela da população brasileira, sofrendo ainda acentuada discriminação no mundo artístico.
No entanto, merece destaque o avanço que teve a cantoria no Nordeste, quando o cantador já tem abundante acesso ao rádio e até a televisão, com apresentações em clubes e teatros, inclusive, sendo tema de discussão em algumas escolas.
Difusão Do Repente Pelo Mundo
O canto de viola como conhecemos hoje teve um período no início e meados do século XX o que poderíamos chamar de “Urbanização” do Repente. Normalmente quando o repentista vai para a cidade é para contar os costumes rurais, de suas vivências para o meio urbano, ou seja, o repentista não perde suas origens no sentido artístico e tradicional. É comumente falado que mais antigamente a cantoria era 10% ( dez por cento) urbana e 90% (noventa por cento) rural, mas agora esse quadro está invertido.
A inversão brusca desse percentual se deve pela migração do homem do campo para a cidade. Com os avanços das tecnologias, indústria e setor terciário no Brasil em meados do século XX, o trabalhador rural deixa sua vida no interior e segue para os grandes centros urbanos. Os cantadores não fogem essa regra e também vão para as cidades, ganhar a sua vida. Hoje existe quatro grandes capitais do Nordeste onde se valoriza muito o Repente, são elas: Recife, Fortaleza, Natal e João Pessoa.
A cantoria também se difundiu para o sudeste, mas especificamente em São Paulo e Rio de Janeiro, que basicamente era onde a economia estava crescendo no país na época. A difusão do Repente pelo mundo está muito ligada ao êxodo rural. Por volta da década de 50, o Repente se torna mais evidente no sudeste, e se instala a partir das periferias, pois os imigrantes nordestinos não viam morar no centro e sim nas áreas mais afastadas e pobres.
Porém engana-se quem pensa que o repentista não sente falta do interior e se adaptou completamente ao meio urbano, a necessidade fez com que eles migrassem para o sudeste, mas a vida e história deles se dá no interior. O que acontece, é que a arte é comprada, o artista tem que ir onde existe o dinheiro, para poder continuar fazendo a sua arte, e isso não é ser mercenário, mas a arte não sobrevive só por arte.
Então começamos a pensar. O que mudou na vida dos repentistas nessa urbanização de sua cantoria? Em 1974, os cantadores começam a encarar sua arte como profissão, passa a criar horários para cantoria, normas, cobram ingressos, isso tudo graças a Ivanildo Vila Nova, que faz o cantador perder um pouco de sua imagem folclórica e o torna mais real, mais humano. O apologista e pesquisador Ésio Rafael nos diz que antes de Ivanildo, o cantador chegava na casa de alguém e se hospedava na casa desse tal alguém, então cantava a noite toda, na madrugada, sem horário e sem regra, sem receber nada por isso, somente em troca da casa e comida. Após Ivanilldo, o cantador de viola é mais valorizado, e começa a sua profissionalização, sua moralização e dignificação da cantoria. A urbanização só intensifica isso, e faz do cantador um profissional, onde seu tempo de carreira é extenso, dura entre 25 a 30 anos, e se for um bom cantador, pode ter estabilidade e viver de sua cantoria por toda uma vida. Através da divulgação pela televisão e rádio o cantador pode participar de vários festivais, nacionais e internacionais.
Alguns Dos Principais Nomes Do Repente
Existem diversos repentistas no Brasil, porém vamos nos deter a falar de alguns, para o referido trabalho não ficar demasiado extenso colocaremos alguns dos principais nomes, que são:
“Casei no dia 3 de dezembro, no dia 5 de maio eu já tinha quebrado tudo. O negócio dele era me levar pros forrós a pulso, pra ficar me tocaiando. Ninguém tocaia ninguém. Não deu certo. Um dia amanheci virada, apanhei um cacete que havia lá. A primeira coisa que quebrei foi a sanfona dele. Está manifestada, gritou ele, e foi buscar uns catimbozeiros. Eu avisei que o primeiro que entrasse quebrava no cacete, e expliquei: O problema é que eu vou embora e ele não quer deixar. Quando arrumo minhas coisas, olho para trás e está ele se enforcando. Corri, cortei a corda, e ele caiu em cima do fogão. Fui embora.”
Mocinha sempre lutou contra o machismo da sua profissão, mulher de fibra e coragem venceu barreiras e hoje é um dos principais nomes do Repente.
Algumas Poesias
Há tempo em que eu não vinha
nesta santa moradia
visitar o velho Pinto
Me traz tanta alegria
Que é mesmo que ter tirado
O bolão da loteria”
Pinto com muito bom humor, disse:
“Eu não imaginaria
que você chegasse agora
Com essa sua presença
Obtive uma melhora
Quer ver eu ficar bom mesm
É quando você for embora”
Numa cantoria em São José do Egito, um rapaz que atendia pelo nome de DECA, ouvia os belos improvisos de Lourival, sem manifestar qualquer desejo de colaborar com os cantadores. A certa altura da cantoria, Lourival dirigiu-se ao rapaz, tomando por base as quatro letras que formavam seu apelido:
Boto o “d” e boto o “e”
Boto o “c” e boto o “a”
Depois um acento agudo
Em vez de DECA, é decá!
Tiro o “d” e tiro o “e”
Seu Deca, venha até cá.
Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou
Eu já fui igualmente um samurai,
porém vi se quebrar minha coluna,
que a volta no jogo da fortuna,
pois a gente não sabe aonde cai,
eu fui filho, fui noivo, hoje sou pai,
já fui neto, e já hoje sou avô,
e o relógio do tempo não quebrou,
porém deu um defeito no seu pino.
Eu já tive nas mãos o meu destino,
mas agora eu não sei pra onde vou.
“O sopro da ventania
Torce a calda do novilho
O pelo de um gato preto
Começa a perder o brilho
Depois de ter se coçado
Num caco de torrar milho.
Quando falta a companheira
Na vida d um passarinho
Ele busca um pau bem alto
Para construir seu ninho
Devido ser menos triste
Para quem vive sozinho.
Da meia noite em diante
Ninguém mais sabe meu giro
Eu começo gaguejando
Porém depois que me inspiro
Tenho a grandeza do tato
De um cego jogando firo.”
Gêneros Poéticos no Repente
O Repente como cantoria improvisada é bastante diverso em gêneros e estilos poéticos. A forma da construção de seus versos e estrofes é variável, tendo em comum o caráter de improviso, por outro lado a estrutura das poesias se altera conforme as ocasiões em que se pedem determinados tipos, como numa mesa de glosa onde o estilo homônimo é pedido ou de acordo com a criatividade do repentista que é livre para escolher determinado gênero e até modificá-lo criando outro. A imaginação e capacidade de improvisação nunca é desmerecida.
Existem vários gêneros poéticos referentes ao Repente entre eles os principais são: a sextilha, galope a beira-mar, décima, toada alagoana, moirão, septilha, oitava . Cada um desses estilos tem suas peculiaridades em relação a suas estruturas e a forma de composição e a construção de suas rimas. Além desses estilos principais existem ramificações de suas formas muitas vezes por conta da criatividade e das diferenças regionais dos repentistas.
O estilo mais recorrente é a sextilha, mais difundida e apreciada talvez devido a sua simplicidade e facilidade de improvisação. A sextilha é constituída de seis linhas, seis pés ou de seis versos de sete sílabas, nomes que têm a mesma significação, sendo rimados os versos pares entre si, ou seja, a segunda, quarta e sexta rimam entre si e os demais versos ficam brancos. A septilha é outro estilo também apreciado e bastante parecido a sextilha. Também chamado de Sete Pés rima os versos pares até o quarto, como na Sextilha; o quinto rima com o sexto, e o sétimo com o segundo e o quarto criado pelo Cantador alagoano Manoel Leopoldino de Mendonça Serrador no início do século XX. O esquema das rimas desses dois estilos é exemplificado nos versos de Leandro Gomes de Barros na sextilha e do criador da septilha:
Meus versos inda são do tempo�
Que as coisas eram de graça:�
Pano medido por vara,�
Terra medida por braça,�
E um cabelo da barba�
Era uma letra na praça.
Amigo José Gonçalves,�
Amanhã cedinho, vá�
A Coatis, onde reside�
Compadre João Pirauá;�
Diga a ele dessa vez,�
Que amanhã das seis a seis,�
Deus querendo, eu chego lá!
Existem ainda a Oitava e Décima que apresentam a quantidade de linhas indicada em seus nomes. Como o nome já sugere a Oitava, também conhecida como quadrão, é composta de oito versos (duas quadras), com sete sílabas. A rima na oitava difere das outras. O poeta rima a primeira com a segunda e terceira, a quarta com a quinta e oitava e a sexta com a sétima. A Décima é outro estilo muito difundido. Embora de origem clássica, a Décima é um estilo muito apreciado, desde os primórdios da Poesia Popular, principalmente por ser o gênero escolhido para os motes, onde os cantadores fecham cada estrofe com os versos da sentença dada, passando a estância a receber a denominação de glosa. Como o próprio nome diz Décima é uma estrofe ou estância de dez versos de sete sílabas, assim distribuídos: o primeiro rima com o quarto e o quinto; o segundo, com o terceiro; o sexto, com o sétimo e o décimo, e o oitavo, com o nono. Segue-se exemplos desses dois estilos respectivos o primeiro um quadrão de Lourival Batista e depois uma glosa (décima) de Zé Limeira:
O Cantador repentista,�
Em todo ponto de viste,�
Precisa ser um artista�
De fina imaginação,�
Para dar capricho à arte,�
E ter nome em toda parte,�
Honrando o grande estandarte�
Dos oito pés de Quadrão!
Mais de trinta da sua qualistria
Não me faz eu correr nem ter sobrosso
Eu agarro a tacaca no pescoço
E carrego pra minha freguesia
Viva João, viva Zé, viva Maria
Viva a lua que o rato não lambeu
Viva o rato que a lua não roeu
Zé Limeira só canta desse jeito
Você hoje me paga o que tem feito
Com os poetas mais fracos do que eu.
A Toada Alagoana é um gênero mais raro, mas de rica construção e de rimas encadeadas. Nessa estrofe de Otacílio Batista pode-se ver a toada que norteia esta poesia:
Vai Otacílio Batista,�
Repentista,�
Neste momento tão forte,�
Num estilo diferente,�
No Repente,�
Correndo em busca da sorte…�
Em noite de lua cheia,�
Sou a sereia�
Dos oceanos do norte!
O galope a beira-mar é outro gênero bastante peculiar. Sua construção é pautada por dez versos de onze sílabas, com o estribilho cuja palavra final é mar. Normalmente é utilizado em poesias com temáticas praieiras. Suas estrofes são de 10 versos hendecassílabos (que tem 11 sílabas), com o mesmo esquema rímico da décima clássica, e que finda com o verso “cantando galope na beira do mar” ou variações dele. Termina, sempre, com a palavra “mar”. Às vezes, porém, o primeiro, o segundo, o quinto e o sexto versos da estrofe são heptassílabos, e o refrão é “meu galope à beira-mar”. É considerado o mais difícil gênero da cantoria nordestina, obrigatoriamente tônicas as segunda, quinta, oitava e décima primeiras sílabas como é observado nesses versos de Zé Limeira:
Eu sou Zé Limeira, caboclo do mato
Capando carneiro no cerco do bode
Não gosto de feme que vai no pagode
O gato fareja no rastro do rato
Carcaça de besta, suvaco de pato
Jumento, raposa, cancão e preá
Sertão, Pernambuco, Sergipe e Pará
Pará, Pernambuco, Sergipe e Sertão
Dom Pedro Segundo de sela e gibão
Cantando galope na beira do mar.
O Moirão é mais um dos estilos altamente difundidos e em paralelo um dos que mais sofreu alterações em suas estruturas. Tradicionalmente é uma modalidade na qual dois cantadores se revezam na feição da estrofe. Esta constituída por seis versos é feita de modo intercalado pelos poetas: as duas primeiras frases são de autoria de um cantador as duas próximas de outro e as duas últimas daquele que iniciou a estrofe. Exemplo de Moirão é este verso de Romano e Inácio:
Seu Romano, estão dizendo�
Que nós não cantamos bem!�
Pra cantar igual a nós,�
Aqui, não vejo ninguém!�
E o diabo que disse isto�
É o pior que aqui tem!
Com o passar do tempo o Moirão foi sendo modificado e ganhando novos contornos. Exemplos é o Moirão de Sete Pés composto por uma estrofe de sete linhas cabendo, ao iniciante, a formação de cinco versos, isto é, os dois primeiros e os três finais; enquanto a cargo do segundo cantador ficam os versos de ordem três e quatro e o Moirão Trocado que difere do anterior pelo aparecimento de palavras que se alternam nas quatro primeiras linhas da estância assim como nos mostra Lourival Batista e Severino Pinto:
L: Eu, da graça, faço o riso,�
E, do riso, faço a graça!�
P: E da massa, faço o pão,�
E, do pão, eu faço a massa!�
L:Você desgraçou a peça:�
Que u’a misturada dessa�
Não há padeiro que faça!
Dessa forma pode-se ver a pluralidade de gêneros que o Repente conseguiu produzir. Afora estes modelos já citados existem muitos outros que vão se ramificando e desenvolvendo como o Martelo Agalopado, Parcela, Gemedeira, Gabinete entre muitos outros. A única coisa que parece restringi-los é a criatividade e a capacidade de improvisação dos poetas repentistas que vivem para cantar tais gêneros ao lado de suas violas espalhando a tradição que tanto prezam.
Missa do Poeta (Tabira-PE)
A missa do poeta é realizada na cidade de Tabira localizada no sertão do Pajeú pernambucano. Grande evento que mescla várias práticas da cultura popular nordestina tais como festivais de sanfoneiros e apresentações de repentistas, a missa, entretanto nasceu com o intuito de homenagear Zé Marcolino, compositor e poeta de Sumé na Paraíba mas que viveu e ganhou reconhecimento em Serra Talhada. Contudo ano a ano a Missa do Poeta foi ganhando cada vez mais uma conotação de celebração e promoção da poesia popular especialmente o Repente que na região é difundido e apreciado visto a grande quantidade de poetas e violeiros que são originários não só de Tabira mas da região do Pajeú em geral. Este evento é citado neste trabalho para que se possa perceber a força e a forma como este traço da cultura popular que é o Repente é vivido na tradição nordestina e divulgado continuamente.
A celebração da missa nasceu por iniciativa do padre Assis Rocha com a intenção de homenagear Zé Marcolino. Este foi grande compositor e teve suas músicas e poesias gravadas por vários intérpretes o mais proeminente Luiz Gonzaga que com músicas como “Cacimba Nova”, “Maribondo”, “Numa Sala de Reboco” e “Cantiga de Vem-vem” só para citar algumas das mais de cinqüenta gravadas por ele espalhou a arte de Marcolino por onde passou. Marcolino apesar de ser paraibano de Sumé viveu parte de sua vida em Serra Talhada onde ficou até sua morte em 20 de setembro de 1987 num acidente de carro. Reconhecido por sua obra em Pernambuco muito mais do que m sua terra de origem, no ano seguinte a seu falecimento a primeira Missa do Poeta foi celebrado em Serra Talhada local que era saudoso desta figura e que adotou três dias de luto por sua morte. A missa ficaria até 1990 em Serra Talhada onde o padre Assis Rocha era vigário, a partir de 1991 foi mudada seu local por conta da falta de patrocínio da prefeitura e passou a ser realizada em Tabira onde Assis era pároco. Desde então fixada em Tabira a missa ganhou cada vez mais importância e reconhecimento. Hoje em dia ela é organizada pela APPTA (Associação de Poetas e Prosadores de Tabira) tendo em 2009 alcançado a vigésima segunda edição.
Nas festividades da Missa do Poeta, que ocorre sempre no terceiro sábado de setembro por conta da data da morte de Zé Marcolino, estão inseridos uma celebração litúrgica e um show cultural. Outros eventos acabaram por serem assimilados e incorporados a missa ainda que não ocorram em conjunto com esta mas estejam relacionadas diretamente. Entre esses esta o Festival de Sanfoneiros o Festival Zé Liberal, a Noite de Autógrafos e a Mesa de Glosas.
A missa em homenagem e memória a Zé Marcolino também faz homenagem a outras pessoas, poetas ou não, mas que de alguma forma contribuíram para a difusão da cultura popular. Alguns desses homenageados foram; Zé Catota, Manoel Filó, padre Assis Rocha,Albino Pereira, Zé Feitosa, Cazuza Nunes, Jaci Paulino, entre outros. A missa tem as atribuições idênticas a uma missa comum a diferença é que em conjunto com o padre os poetas também participam ativamente na mensagem e pregação passada. A abertura da missa, assim como os comentários dos textos lidos são feitos através de versos como este de Dedé Monteiro na edição de 2009 que serviu como mensagem inicial e abertura da missa:
Oh! bem vindos, vocês, irmãos queridos!
O poeta Jesus, que à terra veio,
Garantiu que estaria em nosso meio
Toda vez que nos visse reunidos.
Esta festa feliz tem dois sentidos,
Sacrossantos e doces como um hino:
Celebrar o amor do pai divino,
Que nos ama e nos livra dos pecados,
E assistir os poetas inspirados
Relembrando o poeta Marcolino!
Essa participação direta dos poetas na liturgia acaba por incomodar as alas mais ortodoxas da igreja. Porém os poetas justificam sua participação ao não profanar as liturgias adicionando a elas a poesia e a viola em seu papel de cristãos atuantes na celebração que reúne a fé católica a cultura e memória popular. Logo após a missa dá-se o início de shows para festejar o evento.
Em conjunto a Missa do Poeta acontecem outros eventos, um deles é o Festival de Sanfoneiros que acontece desde 2006. Há ainda o Festival Zé Liberal feito para homenagear este poeta que foi o primeiro presidente da APPTA, realizado pela PAVAM ( Patrulha de Violeiros Amadores de Tabira) e incluída nas festividades da missa sendo realizada na quarta-feira anterior a missa. Esse festival conta com a participação de poetas amadores e profissionais que atuam em duplas improvisando sobre um tema dado na forma de sextilhas e mote em decassílabos. Existe o espaço para a divulgação da literatura na Noite de Autógrafos que reúne escritores, cordelistas, poetas que divulgam suas obras neste espaço que ocorre na quinta-feira precedente ao sábado da missa. Entretanto talvez a maior festividade que acontece junto a missa seja a Mesa de Glosas que acontece na sexta-feira véspera da Missa do Poeta. Sendo realizada desde 1997 em conjunto com a missa a Mesa de Glosas trata de uma apresentação de Repente sem viola onde vários repentistas advindos principalmente da região do Pajeú improvisam glosas com os motes dados na hora sem conhecimento prévio.
A participação dos cidadãos e suas influências nessa festa e na conservação e divulgação da poesia popular é sentida diretamente em pelo menos dois espaços. O primeiro o Concurso de Trovas de Tabira que faz uma espécie de competição para escolher o melhor verso sobre cada tema dado pela organização. Esta acontece na ocasião da Mesa de Autógrafos e tem a participação das pessoas da cidade. O outro espaço é o Recital de Poesia da Escola Pedro Pires Pereira que tem o intuito de homenagear um poeta através dos versos feitos por seus alunos. Em 2009 o homenageado foi Dedé Monteiro e acontece no meso dia da Mesa de Glosas para que possa ter a presença de alguns de seus poetas. Aqui cito o primeiro lugar do concurso de trovas com a temática Deus, o aluno João Vitor da sexta série da escola Pedro Pires:
Deus mora dentro de mim,
É minha maior paixão.
Por isso que vivo assim
Com amor no coração.
E esta poesia Brasil de Maria Aparecida Rodrigues aluna do segundo ano da mesma escola que participou do recital:
Brasil, cadê tua glória?
Onde esta tua igualdade?
Por que os teus próprios filhos
Não agem com lealdade?
Teu progresso eu não conheço,
O que eu vejo é só maldade
.
Pátria amada, idolatrada,
És terra de grande porte,
Embora ainda não tenhas
No decorrer tanta sorte,
Por causa da injustiça,
Levando o teu povo à morte.
Por que tanta violência?
Pra que tanto preconceito?
O Brasil só vai pra frente
Se tratarem com respeito
A paz, o amor a esperança,
E o orgulho for desfeito.
A política tão corrupta
Ganha espaço todo dia.
Nosso país não merece
Desemprego e covardia.
Nosso futuro inda espera
Mais amor, mais harmonia.
Espero de ti, Brasil,
Que haja força e mudança,
Mas que mude pra melhor,
Acabando com a vingança,
Ódio, desordem e miséria,
Seja um país de esperança!
Queria ver meu Brasil
Sem ter nada a desejar,
Ter emprego e moradia
E o povo saber amar,
Pois é um lugar bendito
Este país tão bonito,
Minha pátria, meu lugar!!!
Dessa forma o Repente é difundido e perpetuado na região assim como uma prática cultural extremamente afeiçoada aos habitantes. Marca do nordeste que é salvaguardada na Missa do Poeta o Repente continua sua tradição.
Conclusão
O Repente, arte nordestina cantada e recitada com viola em forma de verso carrega em sua estética e origem tradições européias e africanas e em seu conteúdo a mais pura tradição nordestina que conta e canta suas práticas e vivências. Ao longo do tempo passou do amadorismo ligado estritamente a paixão pelo improviso e tradição até o nível em que o cantador se profissionalizou e passou a viver de sua arte, migrou do interior para cidade, adicionou novas temáticas e desenvolveu novas modalidades e gêneros para sua poesia. Entretanto suas raízes continuam conservadas e principalmente do sertão do Pajeú é que frutificam as sementes do Repente que não param de florescer como um puro testemunho de cultura popular. A Missa do Poeta nesse contexto surge como perpetuadora e divulgadora do Repente além de homenagear e lembrar os cantadores como foi mostrado.
Como disse um intelectual finlandês anônimo do século XIX:
Nenhuma pátria pode existir sem poesia popular. A poesia não é senão o cristal em que uma nacionalidade pode se espelhar; é a fonte que traz á superfície o que há de verdadeiramente original na alma do povo.[3]
Ainda que se tenha que levar em conta a aura de romantismo presente nesta época as palavras deste finlandês são felizes ao tratar da poesia popular com tanto apreço e relacioná-la a identidade cultural de uma região. No nosso caso o Repente é sem dúvida espelho da tradição popular e suas falas são puro discurso de identidade para com suas regiões, ainda que cada vez mais o Repente se torne universalista aglutinando temáticas menos regionalistas e mais abrangentes. Repente arte da cantoria improvisada do Nordeste.
Bibliografia
Livros:
Artigos:
Documentário:
Sites:
[2] Extraído do artigo “Cantoria de Viola: Expressão de alegria e esperança do povo nordestino” (Prof. José Maria Tenório Rocha)
[3] BURKE, Peter. Cultura popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.




Rádio AM exibe programa em homenagem aos 60 anos da televisão no Brasil
O Rádio foi o padrinho da televisão no Brasil. Dele a TV importou formatos e profissionais. Assim a Rádio Universitária AM apresenta próximo sábado, dia 18, um especial dos programas 80 por hora e Teletema, em comemoração aos 60 anos da televisão no Brasil.
A partir das 14h, o especial vai relembrar os 10 programas mais marcantes da história da TV nos anos 80, década que representou a consolidação da TV no cotidiano dos brasileiros. Destaque para Perdidos na Noite, Cassino do Chacrinha, Os Trapalhões e Rá-tim-bum, entre outros.
O Especial ainda vai trazer uma linha do tempo com os fatos mais marcantes da TV nessas seis décadas, desde a inauguração da TV Tupi em São Paulo, passando pelo pioneirismo pernambucano com a TV Jornal e a TV Universitária.
O Especial é uma realização de estudantes de Rádio e TV da UFPE. Produção e apresentação contam com Cássio Uchoa, Nathália D’Emery e Paula Basso. A pesquisa é de Sheyla Florêncio e Júlia Araújo. A seleção musical que vai embalar o especial é de Marcelo Campos e Danilo Albuquerque.




CONVITE SEMINARIO
O Departamento de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UFPE promove dias 1 a 3 de setembro, das 9h às 18h no Auditório da Editora da UFPE, o Seminário MEMORAT – MEMÓRIA E CULTURA ESCRITA NA FORMAÇÃO BRASILEIRA, edição 2010. O livro e a leitura no periodo colonial e na modernidade, arte e cultura na formação brasileira serão as temáticas proferidas e debatidas com os historiadores mineiros Luís Carlos Villalta, Cristianni Moraes e Esther Bertoletti do Minc/RJ. Integra o evento a exposição virtual: Arte Moderna em Ladjane Bandeira.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS GRADUAÇÃO
DEFESA DE DISSERTAÇÃO
JOSÉ DANIEL DA SILVA
“FESTAS BÔAS” DE CARUARU-PE: DA CONCEIÇÃO À CAPITAL DO FORRÓ (1950-1985)
DATA: 13/08/2010
HORA: 09h30Min.
LOCAL: Auditório da Pós-graduação em História (10º andar / CHCH)
BANCA DE EXAMINADORES:
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (Deptº de História – UFPE / Orientador)
Prof. Dr. Antonio Paulo de Morais Rezende (Deptº de História – UFPE / Examinador Interno)
Profª. Drª. Maria Angela de Faria Grillo (Deptº de Letras e Ciências Humanas – UFRPE / Examinador Externo)
Prof. Dr. José Bento Rosa da Silva. (Deptº de História – UFPE / Suplente Interno)
Prof. Dr. Geraldo Barroso Filho (Deptº de Fundamentos Sócio-Filosóficos da Educação – UFPE / Suplente Externo)




DEFESA DE DISSERTAÇÃO
VIVANE ANTUNES GUIMARÃES ALMEIDA
CHOREM OS SINOS: OS DISCURSOS E AS PRÁTICAS ANTICOMUNISTAS DA ARQUIDIOCESE DE OLINDA E RECIFE (1952-1960)
DATA: 05/08/2010
HORA: 09h30Min.
LOCAL: Auditório da Pós-graduação em História (10º andar)
BANCA DE EXAMINADORES:
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (Deptº de História – UFPE / Orientador)
Prof. Dr. Carlos Alberto Cunha Miranda (Deptº de História – UFPE / Examinador Interno)
Prof. Dr. Emanuela Sousa Ribeiro (Deptº de Museologia – UFPE / Examinador Externo)
Prof. Dr. Antonio Paulo de Morais Rezende (Deptº de História – UFPE / Suplente Interno)
Prof. Dr. Newton Darwin de Andrade Cabral (Deptº de Hostória – UNICAP / Suplente Externo




O Povo Brasileiro é uma obra do antropólogo Darcy Ribeiro, lançada em 1995, que aborda a história da formação do povo brasileiro. O autor fala sobre a nossa descendência dos índios que sofreram com a chegada dos colonizadores da terra que era como um tesouro para eles, pois lhes dava o que comer sempre, lhes dava água para beber e sombra para repousar.

Preparando a mandioca - Rugendas
Darcy trabalha com a tese de que o brasileiro é um povo novo, porque surge como uma etnia nacional, diferenciada de suas origens, única pela singularidade dos traços culturais e dinamizada por uma cultura que seguia várias doutrinas devido à grande mestiçagem. Um povo que se vê e que é visto como gente nova, diferente de todos os já conhecidos. Que possui uma alegria e espantosa receptividade que, num povo tão sacrificado, anima e comove todos os brasileiros. Darcy fala sobre as diferenças entre os índios e os seus colonizadores, não só fisicamente, mas sobre o que pensavam, o que faziam e como encaravam a vida e o que estava acontecendo. O autor comenta em seguida sobre os diferentes povos que começavam a se formar: os caboclos, os crioulos, os povos do sul, formados por estrangeiros mostrando essa diversidade que caracteriza o Brasil até hoje.
Fazendo uma análise sobre o texto, apesar de tantas coisas terem dado errado na formação do país, apesar de não ter aproveitado todo o potencial que a colônia tinha para se transformar na mais desenvolvida do mundo e auto-sustentável, pode-se dizer que houve aspectos positivos. O Brasil é um dos únicos países cuja língua e a cultura são homogêneas, hoje é um dos países mais integrados socialmente em todo o mundo, um povo que está aberto a novas idéias e quer interagir cada vez mais com outros povos, expondo sua beleza, sua receptividade e toda a riqueza natural e cultural que o mundo pode querer conhecer.
O livro de Peter Burke, CULTURA POPULAR NA IDADE MODERNA, foi escrito em 1989 fala sobre o início da sociedade na Europa moderna e trata o assunto de uma forma muito atual. Burke é contra o uso do termo ’cultura popular’ e diz que seria melhor usá-lo no plural ou tratá-lo como ‘cultura das classes populares’. O autor exemplifica a cultura ‘alta’, como sendo a cultura da alta camada da sociedade, e a cultura ‘popular’, como cantigas aprendidas na infância, festas como o Carnaval e contos, ouvidos e retransmitidos por todos.

Índios - tela de rugendas
O autor coloca com todo o cuidado os problemas conceituais, o contexto político e as dificuldades metodológicas de qualquer estudo deste gênero, que tem de encobrir a ausência de testemunhos diretos com abordagens dissimuladas. Com erudição, exemplifica também sua feitura: explicita os valores e atitudes de artesãos e camponeses, revela seu conteúdo contestatório e os esforços doutrinadores da elite, que, contraditoriamente, resultaram na separação das culturas, no seio de uma mesma sociedade.
Cada autor trata a cultura de um modo diferente e interpreta à sua maneira os acontecimentos que deram origem a ela. Ambos nos ajudam a enxergar tudo o que cada povo pode nos ensinar, independente da classe social, pois há sempre um aprendizado, e nos ensina a quebrar o preconceito e impulsiona a aceitar as tradições nacionais, buscando conhecê-las antes de fazer qualquer comentário a respeito delas.
Victória Corrêa da Cunha


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