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Livros e civilizações

sábado, julho 21st, 2012

 

Lemos na vida alguns livros, reflexões de outros que nos ajudam a entender o nosso mundo e a nós mesmos. Esse é o caso do livro de Maiara Gabrielle de Souza Melo, fruto de seus estudos para alcançar o título de mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. O livro foi publicado pela Editora Universitária da Universidade Federal de Pernambuco, como parte de um programa de publicação de dissertações e teses, em um esforço para que o conhecimento produzido na academia chegue mais rapidamente à sociedade que o financiou e dele necessita. Neste caso, o livro GESTÃO AMBIENTAL NO SETOR SUCROALCOOLEIRO DE PERNAMBUCO entre a inesgotabilidade dos recursos naturais e os mecanismo de regulação, nos aparece em boa hora. Maiara nos lembra que a legislação referente à proteção da zona da mata, que veio a tornar-se zona do açúcar, não é recente mas quase se confunde com o desenrolar de políticas de apoio e incentivo à produção açucareira, desde a época de 1930, com a criação do Instituto do Açúcar e do Álcool – IAA. Não é a falta de legislação que levou à morte os peixes dos rios da região. Como bem diz a professora Christine Dabat: … (este) trabalho constitui uma contribuição importante que a universidade traz tanto às autoridades públicas quanto ao setor econômico para prevenir maiores danos ao ambiente natural numa região, a chamada Zona da Mata, onde ele foi radicalmente transformado pela atividade econômica dominante”. A leitura dessa pesquisa nos dá ideia do quanto tem sido difícil para nós superarmos essa modernização conservadora a que, parece, estamos condenados. Contudo, o estudo de Maiara nos adverte que o futuro só existe se o criarmos, e o criaremos se superarmos o medo que vem do doce.

Outro livro interessante é CIVILIZAÇÃO:OCIDENTE X ORIENTE, do historiador Niall Ferguson, publicado pela Planeta. Ferguson é professor em Harvard, pesquisador em Oxford e Stanford. Em seu livro ele discute os pilares que fizeram o Ocidente – Competição, Ciência, Propriedade, Medicina, Consumo e Trabalho – essa civilização tão vilipendiada pelos ocidentais e vista com bastante antipatia no Ocidente. Uma leitura interessante que, sem ter tal objetivo, nos auxilia a entender que saber os sintomas da doença não significa, necessariamente, superar a doença. Hoje são muitos os historiadores que sabem explanar sobre os sintomas angustiosos da crise ocidental, mas desempenha essa tarefa como se não fosse também chamado a resolver o imbróglio além de analisá-lo. Embora não tenha ido ao final do livro, caminho na leitura à moda antiga – página a página – sem os saltos do controle remoto da televisão, creio que o livro de Niall Ferguso Pode nos auxiliar a manter os olhos, os pés, ouvidos e corpo no lugar que construirmos. Ou destruirmos.

 

 

Olinda, Aliança e Ipojuca

segunda-feira, outubro 10th, 2011

O final de semana teceu caminhos diversos para mim, com surpresas dentro da programação que havia realizado. Programamos nossas ações para que nada nos surpreenda, mas, por ser da sua dinâmica, a vida nos surpreende sempre. Na manhã do sábado um encontro anual que vem ocorrendo a seis anos: o aniversário de Pedro, filho de Fabiano e Alba. Além dos olhares e expressões de cobrança (“já faz um ano que nos vimos!!!”, “puxa, a gente só se encontra anualmente!!!”, “ainda bem que Pedro existe e nos faz essa alegria”) é sempre um conjunto de exclamações, uma alegria pelo reencontro, esse continuar de uma conversa que, embora interrompida, nunca termina e sempre é regada a sorrisos. Coisa linda essa amizade! Fabiano me traz notícias das escavações que estão sendo realizadas para a concretização da “transposição do rio São Francisco” na Paraíba, Cajazeiras, mais especificamente. Arqueólogo, Conta-me que recentemente encontrou o que foi local de uma aldeia, moradia de nosso passado. Em se fazer túneis para fazer passar as águas cada vez menos caudalosas do Rio da Integração Nacional, nota-se que não nos conhecemos, que nosso passado está soterrado e, nessa pressa de irrigar sertões e contas bancárias, pode-se constatar que haverá perdas de nossas memórias, submersas nas águas deslocadas.

No seu silencioso trabalho de arqueologia e história, Fabiano, como muitos outros, dedicam-se a desenterrar nossas entranhas enquanto outros se aprofundam em viajar por cidades distantes, brincando de serem chefes de estado com assento na ONU, enquanto promovem a humilhação da nação pedindo para ser recebidos por presidentes de federações esportivas (mas sendo ouvidos por secretários) e se comprometendo a não respeitar as leis do Brasil e, dessa maneira garantir as contas bancárias da FIFA.

O sábado teceu continuidades no Ponto de Cultura e Leitura Estrela de Ouro de Aliança. Os espaços da Biblioteca tomados por crianças e pré-adolescentes. Enquanto conversam sobre o Estatuto da Criança, os adolescentes usam papel, cola e tinta, e transformam as lembranças da infância em objetos como jarros, microfones, barcos, chapéus. Visitam os momentos de alegria e angústia já vividos. Refletem. Entretanto converso com Anderson e dessa conversa nasceu um texto que publiquei no www.biuvicente.com/pontodeleitura no qual Anderson conta sua primeira viagem para o Recife, quando visitou a Bienal Internacional do Livro. Lidiane, Maurício e Andréa se apoderaram de minha câmera fotográfica e registraram o que acontecia no Ponto de Leitura.

O domingo me pôs na estrada e quase atravessei Pernambuco, pois, saindo de Goiana, às oito horas da manhã já estava no Convento de Santo Antonio de Ipojuca. Se hoje o município onde deságua o Rio Ipojuca chama atenção por ser onde atualmente ocorrem os maiores investimentos por conta do complexo portuário industrial de Suape, nos anos de dominação do Império Português tornou-se um importante centro de produção de açúcar de cana. Franciscanos estabeleceram convento em 1606 a pedidos dos senhores de engenho da região. Anos depois ali chegou uma imagem do crucificado, em tamanho real, mas com características próprias. Ficou conhecido como o Santo Cristo de Ipojuca. A tradição reza muitas maravilhas, e desde aquele espaço religioso passou a ser um ponto de romaria e peregrinação dos fiéis. Na guerra do açúcar, também conhecida como Invasões Holandesas, os batavos se apropriaram da região. Estudos menos laudatórios aos flamengos apontam a crueldade com que trataram os moradores da região. Os frades retiraram-se para Alagoa Grande e deram início ao que hoje é Marechal Deodoro, Alagoas. o convento foi feito alojamento militar e local de guarda das montarias. E alguns frades presos e expulsos da colônia portuguesas. Atualmente, em Ipojuca, assistimos a população crescer espremida entre o canavial e as colinas, em um processo de urbanização descontrolada, com o Estado chegando atrasado, talvez propositadamente, não para consertar, mas para garantir que os mais pobres continuem sendo tratados semelhantemente aos cavalos trazidos naquela primeira invasão holandesa. Mas tive a alegria de encontrar Frei José Milton (ganhei o romance “Saburpa, o doce amargo da saudade” e a incumbência de escrever um comentário neste espaço) e Frei Manuel; também ganhei uma andança pela cidade, ciceroneado por Irmão Roberto, a qual foi posteriormente completada com uma tarde de conversa na Biblioteca do Convento. À noite fui à Camela, distrito de Ipojuca, participar da celebração eucarística com a comunidade católica.

Estive em Ipojuca, naquele mesmo convento, quando ainda tinha quatro ou cinco anos de idade. Ainda morávamos na beira do Rio Capibaribe, em Apuá. Minha memória acusava algo dessa viagem, mas temia ser uma dessas lembranças que a gente cria para tornar a vida mais interessante. Contudo minha mãe confirmou essa viagem que foi feita no caminhão de Pedro Mandú, o mesmo que fez a nossa mudança definitiva para o Recife. Agora é tempo de retornar a Olinda e a essas trivialidades que fazem o cotidiano maravilhoso da vida.
Biu Vicente