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15 de janeiro

quinta-feira, janeiro 15th, 2015

Enquanto almoçava hoje, o noticiário lembrou-me que o 15 de janeiro deveria ser mais lembrado por mim e por maoir número de pessoas. Nem sempre nos apercebemos, em nossas vidas, momentos de grave importância para nós e para nossa comunidade. Eventos que hoje são chamados, comumente, de ‘históricos’ não passam de curiosidades, ou talvez mesmo sejam históricos para os pequenos grupos por eles atingidos diretamente. Afinal de contas, a história é também dos pequenos acontecimentos de nossa vida comum. Entretanto, há acontecimentos que são preparados coletivamente, por grupos maiores e atingem milhares de existências, de imediato, e milhões de outras ao longo do tempo que se segue. Por isso, durante a tarde de hoje fiquei pensando sobre o que ocorreu no dia 15 de janeiro de 1985.

Naquela terça feira, estávamos todos – Tereza, Ângelo, Valéria e Tâmisa – na casa dos pais de Tereza – Paulo Ramos e Francis Noronha, em Olinda. Havia uma expectativa para o que estava ocorrendo no Brasil naquele dia, pois o Colégio Eleitoral – Congresso Nacional e mais alguns elementos postos pela ditadura, iria realizar a eleição indireta para a Presidência da República. Havia poucos meses ocorreu a grande decepção da rejeição da Proposta de Emenda Constitucional garantindo o retorno das eleições diretas para o cargo máximo da nação. Embora já houvéssemos ganho a anistia, a transição longa, planejada pelo ditador Geisel e seguida pelo seu sucessor Figueiredo, parecia não querer que o povo participasse da escolha de seus líderes. Durante aquele eleição que derrotou o movimento das Diretas Já, atemorizados, os sequazes da ditadura colocaram o exército na rua, o que parece ter sido a senha para que os deputados derrotassem o movimento do povo na rua. Desde então os fatos sucederam-se, o partido do governo cindiu-se e havia a possibilidade de vitória em um colégio que já havia derrotado as candidaturas de Ulisses Guimarães/Barbosa Lima Sobrinho -1974, Euler Bentes Monteiro/Paulo Bronsard -1978. Naquele ano o Tribunal Eleitoral suspendeu a fidelidade partidária e, embora se temesse o temor dos deputados, havia uma possibilidade de vitória.

Estávamos, Tereza e Eu, ansiosos e esperançosos. As crianças, além dos meus filhos havia Bárbara, Andréa (filhas de Ângela) e  gritavam nas salas aliviados quando os votos eram contra Paulo Maluf, candidato da ditadura; mas felizes com os votos que gritavam Tancredo Neves. O deputado João Cunha, PMDB –SP deu o 344º voto para Tancredo Neves.   Tereza e eu nos abraçamos em lágrimas e nos juntamos ao barulho das crianças e de todo o Brasil. Havíamos ido, “de nariz tapado” ao colégio eleitoral, como dissera Tancredo Neves, mas vencemos os ditadores, apesar de escrupulosos puristas de um partido recém-criado ter-se retirado do plenário para não validar a eleição. A alegria daquele dia foi enorme, mas que foi surpreendida pela doença e morte de Tancredo antes da posse. Assim, no dia 21 de abril do mesmo ano, Tereza, as crianças e eu. Chorávamos em nossa casa, que estão começávamos a construir e onde estou agora, a morte de Tancredo Neves e mantivemos a esperança, mesmo sob a presidência de Sarney, um eterno acólito da ditadura.

Talvez de nada sirvam essas lembranças, mas, eu e os que vivemos conscientemente aquela terça feira, já sabíamos que estávamos vivendo um dia que modificava a o sentir dos brasileiros de então, nós estávamos orgulhosos de que havíamos construído e, no fundo de nossa alma, sabíamos que estávamos comprometendo e nos comprometendo com o futuro e, ao mesmo tempo, sabíamos que não tínhamos certeza do que viria. Mas já são trinta anos que temos realizados eleições diretas, que estamos fortalecendo nossas instituições, que estamos criando um Brasil novo, que começou a muito tempo, não a uma décadas como dizem uns aloprados; um Brasil que vem crescendo a cada ano, vencendo as dificuldades que sempre colocam à sua frente aqueles que, unindo-se a novos súditos enriquecidos com novas modalidades de velhas praticas, pretendem ainda nos manter nas periferias da História, repetindo os atos de vandalismo ao patrimônio republicano que estamos construindo. 15 de janeiro de 1985 foi criação da gente brasileira que forçou as lideranças encontrarem um meio de superar o pedaço da história que alguns iniciaram em 1984.

 

Biu Vicente

Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

domingo, dezembro 7th, 2014

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE

Mais um prêmio para a Biblioteca Mestre Batista

sexta-feira, novembro 7th, 2014

O mês de novembro vem cheio de lembranças boas.  Faz vinte e cinco anos que o MURO DE, BERLIM foi derrubado, acontecimento tão importante que o historiador marxista Eric Hobsbawn o utilizou para definir o fim do século XX, que chamou de curto, pois teria iniciado com os soviets e 1917. O Muro caiu sobre eles. Começara então o século XXI, embora muitos ainda queiram construir o final do XIX. Mas se os soviets consumiram-se julgando ser a única esperança, os sonhos da liberdade continuam a respirar na humanidade em busca de fazer-se a si mesma, inventando-se, libertando-se das experiências frustradas pelas ambições pessoais, pelo desejo e prática de diminuição do outro, do não reconhecimento do outro, como se essa fosse a melhor maneira de afirmar-se. Lamentavelmente essa maneira de pensar que eu ou meu grupo seja o ‘senhor da história’ , cultivando ainda a ideia de que ser senhor é ser parecido com aquele que era possuidor de engenhos de moer cana de açúcar e homens. Mas vamos descobrindo, ‘nem sempre ganhando, nem sempre perdendo’ e aprendendo que o Senhor é o que serve.

Na beira de uma rodovia, quase perdido entre canaviais foi fundado o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança em 1966, pelo Mestre Batista. Era o tempo em que as usinas ainda não usavam tratores nos canaviais nem os caminhões era servidos por empilhadeiras para depois correrem aos pátios das usinas, no caso a Usina Aliança. Muitos homens e mulheres que trabalhavam nos canaviais divertiam-se nos bailes à luz de lampiões, dançavam e ou assistiam aos espetáculos de Cavalo Marinho e vestiam-se de guerreiros de lança na mão nos dias de carnaval, subindo e descendo as colinas das Terras Altas do vale do Siriji. Anos após a morte de Mestre Batista, seu filho e seus amigos conseguiram tornar o ponto de cultura que havia no Sítio Chã de Camará, em torno da ação do Mestre Batista, reconhecido oficialmente pelo Ministério da Cultura como um Ponto de Cultura, um local que cria, mantém e transmite a cultura criada pelos moradores da região, pelos trabalhadores na cana de açúcar, explorados, homens e mulheres, que vivem em busca da cidadania.

Desde o primeiro instante os organizadores do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança sonharam com uma biblioteca que colocasse na mãos das crianças, dos jovens e adultos que vivem na proximidade, livros. Livros para tocar, cheirar, folhear, inventar histórias vendo as figuras e até resgar por usar. Logo a Biblioteca Mestre Batista passou a fazer parte da rede da Biblioteca Nacional, depois vieram outros prêmios e parcerias. Uma delas com o IBRAM e fomos reconhecidos como Ponto de Memória, projeto que está em terminalização e que será sagrado no encerramento do próximo dia 15. São os ‘bestializados’ fazendo história, assenhorando-se, tímida, mas, constantemente, da sua história. Hoje a Biblioteca Mestre Batista recebeu o Prêmio Leitura Para Todos, da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), do Ministério da Cultura (MinC).

Nem todos compreendem o que está acontecendo ao seu redor. Mas todos sabem que algo está a se mover e esses movimentos são causados pela ação de rapazes e moças que sonham, não com o passado nem com o poder, mas com a humanização da humanidade. Citarei algumas que atuaram ao  longo desse sonho que está sendo construído: Wanessa Gonçalves, Ederlan Fábio, Mel Vilela, Bárbara Gonçalves, Tâmisa Vicente, Afonso Oliveira, Andrea Batista, Luiz Caboclo, Zé Lourenço, Érica Fernanda, Daniela Ferreira, Leonardo Silva, Guh Xavier, Fábio Silva, Valéria Vicente, Liana Gesteira, Manuela Guedes, Dany Patrícia, Mestre Zé Duda, e as crianças que chegam todos os sábados, e  as mães, os pais e as avós que trazem seus filhos e participam das festas.

Assim vamos derrubando os muros e criando as possibilidades de humanização da humanidade. Visite a site https://www.facebook.com/pontodeculturaestreladeouro?fref=ts

http://biuvicente.com/pontodeleitura/