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Amigos de Caminhada, construção da humanidade

segunda-feira, janeiro 25th, 2016

Sempre que caminho em uma praia lembro-me de dois professores que me permitiram a sua amizade, os padres Eduardo Hoornaert e José Comblin. Dois belgas que chegaram no Brasil no início dos anos cinquenta, quando eu ainda não passara dos cinco primeiros anos de minha vida, e aqui decidiram viver o resto de suas vidas. O padre Comblin já completou seu tempo de missão no Brasil e no mundo, em uma noite enquanto dormia, em uma cidade do interior baiano. Um seguidor de Jesus Cristo de maneira integral e total. Nós todos o amávamos pela sinceridade de sua seriedade e simplicidade no trato das coisas humanas. O mais livre dos teólogos da chamada Teologia da Libertação.

Mas o que tem a praia com esses homens que atravessaram o Oceano para servir aos pobres da terra? Uma vez, Eduardo confidenciou-me que caminhou, em uma praia, durante mais hora ao lado de José Comblin sem dizerem nenhuma palavra e, Eduardo concluiu: “acho que somos amigos, não precisamos falar, nos entendemos”. Talvez seja isso, a amizade, o amor, eles nos levam a compreender a necessidade do amigo e do ser amado antes que a necessidade seja pronunciada. E a palavra, contudo, é necessária na construção da amizade, da relação amorosa, na defesa daquilo que fez brotar a amizade. Mas não as palavras excessivas, desnecessárias, apenas as verdadeiras, as que estão carregadas das fragilidades que nos fortalecem.

Foi assim que, na caminhada desta tarde, nesta Praia de Pitimbu veio-me a lembrança de Ivone Gebara, uma das mulheres extraordinárias da minha vida, também minha professora. Sua lembrança veio-me após uma conversa na rede das amizades virtuais, o facebook, com um amigo real, o Sérgio Gusmão, a respeito do capitalismo, da libertação, da opressão do capital sobre o homem. Disse-lhe que a opressão não do capital sobre o homem, mas do homem sobre o homem. Ao dizer-lhe isso, lembrei-me que, quando comprei meu primeiro automóvel, um fusca, fui celebrar essa alegria com duas mulheres amigas: Ivone Gebara e Valéria Rezende. Na época trabalhava, com Valéria, um texto para a História da Classe Operária, uma solicitação da Ação Católica Operária – ACO. Essa celebração debateu alguns parágrafos escritos para o primeiro volume, voltado a contar a luta dos trabalhadores brasileiros durante o período de dominação portuguesa e o Império dos Orleans e Bragança. Depois veio o fusca como tema. Ainda lembro as palavras de Ivone: “lembre-se sempre que você é o dono do carro, não deixe que ele lhe domine”. Essa é a lição que a vida de Ivone, Valéria, Comblin, Eduardo, Hélder e tantos outros amigos/professores deixaram em minha vida.

É quando o homem se deixa dominar por aquilo que ele construiu que o faz imaginar e justificar dominar os demais na defesa das coisas que o dominam. Se você não se deixa escravizar pelas coisas jamais poderá escravizar nenhum ser humano.