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Sertão para a Unidos da Tijuca

quarta-feira, fevereiro 22nd, 2012

Este texto eu escrevi para o pessoal da Unidos da Tijuca, ano passado quando eles estudavam para ir a Sapucaí.

Da formação do Sertão ao Reinado do Baião
Prof. Severino Vicente da Silva, PhD

Por ser tão distante do mar, algumas terras parecem estranhas ao primeiro contato ou aos que delas apenas ouviram falar. Sabe-se que são terras diferentes nas cores, nos calores, nos azuis celestes, nos matos miúdos, nas plantas espinhosas como em permanente defesa, escondendo a água que tantos animais buscam. Para os portugueses que chegaram a partir nas naves de Cabral, cada passo na direção oposta ao mar e à verdura do litoral, levava a descoberta de terras altas, com menos águas que as vistas pelo cronista da viagem cabralina. Os olhos de Pero Vaz viram apenas uma vesga do território e as suas letras jamais puderam descrever regiões menos abundantes de águas, como as que ele vira no espaço que chamou de Baia Cabrália, um Porto Seguro.

Depois dos primeiros contatos, europeus e a gente da terra deram início ao processo de mestiçagem, nem sempre pacífico, mas criador de rica de diversidade. Naqueles primeiros momentos vieram muitas novidades, a maior delas a cana de açúcar, facilmente adaptável ao clima litorâneo, aquoso e ensolarado; a terra molhada acolheu de tal forma o canavial que viu sucumbir os cajueiros substituídos pelos coqueiros. Também as populações indígenas foram tangidas do litoral. Mas além das 10 léguas, onde começava o “desertão”, a terra ficava seca. A secura do interior que espantou o domínio da cana de açúcar não afastou o europeu em busca de prováveis riquezas. Riqueza maior eram os cursos d’águas, para onde se dirigiam os povos da terra em tempos de estiagem. Objetos de guerra, essas terras foram sendo ocupadas pelo gado trazido do além mar para mover os engenhos produtores de açúcar.

A região foi chamada de “desertão”, pois parecia não haver nada ou ninguém. Para quem chegava do outro lado do Atlântico, o que não apresentava riqueza de fácil domínio estava vazio, não tinha sentido. Naquelas terras mais secas, as várzeas dos poucos rios, bem como os brejos de altitudes, serviam de remanso, lugar de refrigério nos tempos secos, desde que seres humanos ocuparam a região. No “desertão” havia uma população rarefeita, com hábitos criados pelo conhecimento do tempo e dos lugares, equilibrando a população ao movimento dos tempos, das chuvas e estiagens. À medida que os europeus caminhavam para o interior ocorreram choques de interesses, guerras pela sobrevivência. As guerras com os indígenas possibilitaram a criação de fazendas da Casa da Torre, que se tornaram os novos senhores daquelas terras. E para as fazendas foram levados alguns negros para os serviços das casas; e outros negros chegaram fugidos das senzalas, criando liberdade. A mestiçagem não ocorreu apenas com o europeu nem somente no litoral.

O “desertão” foi tornado sertão, com propriedades espaçadas e homens e mulheres de poucas palavras; palavras trocadas quando mascates tropeiros e padres montados em seus burros por lá passavam, ou em momentos de lazer quando se visitavam em casamentos ou batisados. Como jumentos são capazes de caminhar oito léguas sem água, nos pontos de aguada formaram-se povoados, que deram origem a vilas e cidades.

Desses encontros, aos poucos se fez o vaqueiro, cuidador do gado que, além do agricultor da mandioca, deu forma ao típico homem sertanejo, com uma cultura formada de tradições indígena, conhecedora dos tempos, dos bichos, dos matos locais; das criações européias, com as orações, missas, vocabulário ainda camoniano, histórias de reis, cavaleiros e princesas trazidas nas naves, versos e sermões; de culturas africanas, mantidas na timidez de algumas irmandades como a de São Benedito, Bom Jesus dos Aflitos, misturando com os conhecimentos indígenas as tradições agrícolas trazidas de terras para além do grande rio que separa Brasil da África. Tudo isso aparece nas danças de Guerreiro, na Dança de São Gonçalo, no culto dos Caboclos, nas danças do Toré e nas tiradas de Coco de Roda sonorizadas nas palmas das mãos no batido dos pés.

Subindo o Rio São Francisco a produção de carne seca do Sertão Nordestino auxiliou na alimentação da população que explorava ouro no Rio das Velhas, do Tejuco, em Diamantina, Ouro Preto. O fim do Sistema de Capitania Hereditária no final do século XVIII forçou a venda de terras e novas famílias vieram da Europa e participaram da entrada dos sertões na Revolução Industrial, fornecendo algodão e couro para as máquinas inglesas. Embora a independência do Brasil seja contada como algo ocorrido apenas no litoral, a formação do Estado brasileiro provocou mudanças nas estruturas do Sertão. Modernizações impostas pela Segunda Revolução Industrial, tais como o sistema métrico decimal , a convocação para serviço militar, o fim do Regime Escravocrata e, principalmente, a Lei de Terras que impedia a posse de terras sem a compra monetária, tornaram a região em local de disputa, levando o vaqueiro e o agricultor a assumirem o cangaço, parte da guerra pelo controle da terra pelos coronéis da Guarda Nacional e proprietários das terras.

O Sertão foi definido como terra de violência e fome, a fome que vem das plantações destruídas e da seca de 1877. Com a ausência do Estado, ou este a serviço dos donos das terras, o sertanejo comum encontra na religiosidade um lenitivo para as cangas que maltratam sua existência. Assim foi sendo construída a idéia da violência e do misticismo do sertanejo. Um estereótipo que foi captado e modificado nas artes pictóricas e auditivas. A violência, às vezes romantizada do cangaceiro Virgulino ferreira, o Lampião, vem sendo substituída pelo peão trabalhador retirante construtor de cidades, capaz de cantar e recriar o mundo nem sempre favorável aos seus projetos iniciais.

O sertanejo é um místico como Ibiapina e Conselheiro; prático na sua fé como Padim Ciço do Juazeiro, capaz de ser guerreiro qual Corisco e terno e saudoso como o canto do Assum Preto. Essas recriações foram sistematizadas nos ritmos que Luiz Gonzaga do Nascimento levou no matulão de soldado e na sanfona que aprendeu a tocar com seu pai. No encontro com Humberto Teixeira, José Dantas e tantos outros migrantes como ele, sintetizou os sentimentos da nação, desde o desamparo até as esperanças ofertadas por gerações de políticos, todas elas menores do que o desejo de ver a Volta da Asa Branca e, com ela todos os valores construídos no processo de criação do Brasil. Voz, vestuário, humor, balanço, sanfona de Luiz Gonzaga resume, coroa essa história e, por tudo isso, na república dele fizeram, o Rei do Baião.

Bibliografia:

Especial para a Escola de Samba Unidos da Tijuca, 30 de dezembro de 2011, preparando o carnaval.
Professor Adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco

Carta de Pero Vaz de Caminha
Darcy Ribeiro – Teoria do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras – 1995.
Gilberto Freyre – O Nordeste. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1967
Capistrano de Abreu – Capítulos de História Colonial. Rio de Janeiro: Edições Melhoramentos
Severino Vicente da Silva – A Igreja e o controle social nos sertões nordestinos. São Paulo: Edições Paulinas,

“Lá vem os Violados”

sábado, janeiro 28th, 2012

No domingo 22 de janeiro participei de mais um ato comemorativo dos quarenta anos de atividade do Quinteto Violado, grupo musical criativo que tem participação exemplar na cena musical e artística pernambucana e brasileira. Ouvi falar daqueles rapazes nas conversas com alguns padres e seminaristas que viviam em pequenas comunidades na periferia do centro histórico de Olinda, no início da década de setenta. Não os vi tocar, nem mesmo estava na cidade em 1972, quando eles se lançaram oficialmente na praça. Mas estive na abertura da Exposição de suas décadas na música brasileira.

Neste ano, o primeiro contato que mantive com Marcelo Melo foi, a pedido do Memorial Luiz Gonzaga, passamos o final da tarde e início da noite, conversando com o pessoal da Escola de Samba Unidos da Tijuca, em torno do samba enredo da Escola para este ano. O QV violado e Luiz Gonzaga são amigos de infância, da infância do QV, e possivelmente, os artistas que mais rodaram as terras brasileiras, por solo. Outro andarilho é Dominguinhos.

A convite de “Anjinho” Filizola, fui ver pedaços de minha juventude e pedaços que perdi da trajetória do Quinteto Violado, em trabalho bem produzido e montado no Espaço Cultural Correios, no Recife Antigo. Depois encontrei os Violados em Vicência, cidade situada a 80 quilômetros ao norte do Recife. Participavam do Festival Canavial e mataram a saudade de fãs que lembraram de sua presença na cidade três décadas vencidas. Um terceiro momento foi na cidade de Tracunhaém onde, a convite da produção local, fiz, glorioso, orgulhoso e feliz, o anúncio da sua apresentação no II Encontro de Cirandeiros da Mata Norte. A apresentação foi um contínuo de alegria com a praça dançando ao dos Violados.

E então, o jornal do dia 22 me comunicava que o Quinteto Violado iria fazer uma apresentação no Salão Nobre do Teatro Santa Isabel, acompanhando o lançamento do mais recente livro de José Teles, que recebe o título “lá vem os violados: 40 anos do Quinteto Violado”, uma citação da nomeação do grupo, após uma apresentação no Teatro de Nova Jerusalém. fui ver a apresentação e comprar o livro que é publicado pela Edições Bagago, com 239 páginas bem escritas, e palavras bem colocadas por aquele que diz ter cerca de 25 leitores.

Enquanto estava na fila dos autógrafos, Marcelo Melo disse que o livro é bem mais que uma biografia do Quinteto, pois ali tudo está contextualizado. A leitura confirmou o que disse Marcelo, e, com certeza, o leitor poderá refazer o trajeto do Quinteto, mas entenderá os meandros da criação e da criatividade da música brasileira e do papel que músicos pernambucanos sempre ocuparam nesse processo. Ainda que sofram a resistência da “elite” local em aceitar o novo, embora o aceite quando a novidade já tenha sido absorvida, os artistas dessa terra esbanjam criatividade e coragem no processo de reformulação das linguagens e das mensagens que cada geração produz. Parece-me que José Teles foi bastante feliz no seu garimpo, facilitado segundo ele próprio, pela organização do QV, que inclusive tem uma fundação. A leitura nos traz, aos que não convivem com o QV, informações curiosas como o fato de Marcelo ter sido, por algum tempo, professor de violão de Françoise Hardy, além de outros bastidores que envolvem o melhor da arte nacional.

A leitura deste livro, LA VEM OS VIOLADOS: 40 ANOS DO QUINTETO VIOLADO, escrito por José Teles é um bom roteiro, um nicho de informações para os que querem conhecer algumas sendas da criatividade do QV e de nossa gente.
é Dominguinhos.

Prof. Biu Vicente