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Dia do Índio? Dia do povo brasileiro?

domingo, abril 19th, 2020

Pois então estamos no 19 de abril, data que foi estabelecida como o Dia do Índio, para que não fosse esquecido o aniversário de Getúlio Vargas, sempre comemorado com festas durante a ditadura que muitos querem esquecer para manter limpo o nome de suas famílias; mas é também dito como o Dia do Exército, pois que o ligaram desde sempre à Batalha do Monte Guararapes, em Jaboatão, Pernambuco. A vitória que teve a participação de índios, negros, mestiços e alguns brancos contra os holandeses, é vista como sendo simbólico da formação de um Brasil múltiplo em tradições de povos e culturas, por isso a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes anuncia em placas nas entradas da cidade “aqui nasceu a pátria”.

E o dia começou com a leitura de três amigos da rede de amizade virtual. O primeiro deles fala do exército. Não é um artigo escrito, mas um depoimento da historiadora Marcília Gama sobre uma instituição, criada no tempo em que Getúlio Vargas, ainda não criara a ditadura, mas a preparava: o Departamento de Ordem Pública e Segurança – DOPS. O golpe do Estado Novo e a ditadura que se seguiu só foram possíveis com o apoio do exército. O DOPS, órgão do Estado, praticamente avançou sobre todo o século XX, marcado pela presença do ditador que veio dos Pampas. Deslindar os caminhos do DOPS em Pernambuco foi a grande tarefa que se impôs Marcília Gama, a quem entrevistei em meu programa (https://www.youtube.com/watch?v=PncnwzhtRc ) da Rádio Universitária AM, atualmente Rádio Paulo Freire. Quando a entrevistei, Marcília acabara de alcançar o Mestrado em história, e fazia suas pesquisas, auxiliando a desanuviar as sombras que escondiam as ações dos agentes do Estado, em guerra constante contra o povo, embora dissesse que era contra o comunismo. Devemos ter em mente que os ditadores nunca defendem o Estado, defendem o seu estado social, os seus interesses pessoais e, o DOPS e toda a rede na qual era partícipe, esconde e confunde. Muito feliz de começar o dia ouvindo Marcília Gama, nessa entrevista que ela concedeu a projeto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, trazendo novos olhares de historiadores sobre a ditadura de 1964-1985, tempo de domínio das Forças Armadas, Exército à frente.

A segunda leitura foi mais amena, um texto de Marcelo Cavalcanti anunciando que virá uma página com o título Atrevido com Estilo, com textos sobre o Recife dos anos sessenta, o que pode ser uma nostalgia ou depoimentos de quem viveu uma época em que, para alguns, o mundo era apenas o que era originário dos centros culturais, e ainda não se oferecia a oportunidade para o surgimento da cultura brasileira. Neste texto ele narra como foi vivido um São João entre casas de família abastada, uma passagem rápida pelo povo que dançava xote e termina em um banco de praça. Vai ser um percurso interessante, verificar se houve realmente esse engajamento com a cultura do povo brasileiro, que não sabia falar inglês e curtia os Beatles nas letras de Nazareno de Brito e outros. Os bens aquinhoados sempre estudaram inglês e cuidavam de debochar dos que ouviam Golden Boy e Renato e seus Blue Caps.

E terminando o começo da manhã, li o belo texto de Lula Eurico, o “burgomestre” do Arruado da Várzea, incrustado na Universidade Federal de Pernambuco, um resto do Caminho que ligava o Recife ao Engenho do Meio e o Engenho de São João, aquele que era de João Fernandes Vieira. Pois que Lula Eurico lembra, em sua crônica deste dia, que deve ter havido uma festa no engenho, nos dias seguintes à Vitória dos pernambucanos sobre os holandeses. Ele menciona que, embora os grandes beneficiários da vitória houvessem sido os proprietários, jamais deve ser esquecido que o sangue ali derramado saiu dos corpos de índios, negros, mulatos, que têm sua representação nas figuras de Felipe Camarão e Henrique Dias, André Vidal de Negreiros. Esses são muito esquecidos na historiografia e, nas aulas de história, são palavras que saem automaticamente e sem maiores comentários dos professores. É por isso são desconhecidos, que sabemos tão pouco sobre os que derramam o sangue na construção da vida do Brasil, e sabemos mais dos que saboreiam os resultados que os enriquecem. Quando não falamos sobre o povo, comum que faz a história com o seu sangue e suor, terminamos apenas por curtir as cervejas e vinhos e migalhas que caem da mesa dos construtores e mantenedores da história organizada pelos que fizeram os muitos DOPS desse país.

Tradições juninas e traições universitárias

sábado, junho 13th, 2015

O mês de junho é especial para os habitantes do Nordeste do Brasil, mês de celebrações da identidade regional, parte integrante da identidade nacional. As músicas, as danças celebram o festival da colheita de milho, no solstício de nosso inverno, na noite de São João; a louvação do amor ao longo da novena de Santo Antônio, o santo casamenteiro e, as festas terminam com louvor a São Pedro, aquele que pediu a Jesus um cuidado especial à sua sogra e, por essa razão, é conhecido como o protetor das viúvas, pois se presume a viuvez da sogra de Pedro, cujo nome é desconhecido. Tão forte esse conjunto de tradição trazido de Portugal enraizou-se no Brasil, que não é possível pensar o Nordeste e sua gente sem tais festejos, sem as músicas e ritmos que os nordestinados criaram para si. Os Xaxados, o Forró, o Chamego, o Xote, o Baião, tornados universais nos sons saídos dos movimentos dos dedos, mãos e braços de tantos sertanejos, agrestinos ou matutos no movimento do Fole de Oito Baixos ou da Sanfona. Dois instrumentos que marcaram o pai Januário e o filho Luiz Gonzaga do Nascimento. Nordestinos confundem-se com as poesias e a voz de Gonzaga, a quem foi atribuído o título de Rei do Baião. Rei que uma imensidade de súditos que se reúnem nas principais cidades e nos mais simples povoados e arruamentos desse imenso país.

Pois bem, parece ser função da universidade pesquisar, ensinar e estender-se para além de seus limites geográficos e abarcar o universo, ao menos o universo mais próximo. Por isso é que, quando foi criado o Departamento de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco logo foi criada a Rádio Universitária. Sua função aproximar a universidade do povo que a paga, ser um caminho e vetor da ação universitária na recepção dos anseios da sociedade e se veículo de comunicação daquilo que a sociedade acadêmica produz para a sociedade circundante. Esta a sua função. Mas, esses tempos confusos, com funcionários confusos que confundem os B de Bonifácio e Bolivar, faz com que, sem escutar a comunidade acadêmica, sem ouvir os professores, um ‘petit comité’ resolve que a Rádio Universitária FM, Emissora da Universidade Federal de Pernambuco não mais terá o programa FORRÓ PARA TODOS, produzido e apresentado por Samuel Valente por mais de duas décadas. Leiamos o seu relato:
“Cheguei na Rádio, e qual não foi a minha surpresa: o programa em questão, havia sido retirado do ar, por um “talentoso” Comitê, do núcleo de Rádio e TV, juntamente com a direção das citadas emissoras! Fui recebido por Mirian Leite, a produtora do programa, e demais funcionários! Hugo Martins havia saído, segundo fui informado, para um encontro com o Reitor da Universidade Federal de Pernambuco! Na minha opinião – e gostaria de ouvir os companheiros, compositores, cantores, músicos -, trata-se de uma abominável atitude, desses “entendidos”, contra a cultura musical junina, pernambucana, seus dedicados defensores, principalmente, contra os ouvintes da Rádio Universitária, 99,9, FM! Contra isso, devemos todos, nos pronunciar! Uma vergonha! Mirian Leite, a produtora, chorou! Hugo Martins, o apresentador, indignado, procurando conversar com o Reitor! Francamente! Além de saquearem o bolso do povo, querem arruinar o que de mais belo existe nos panoramas musicais! Afinal, estamos no Brasil!”

Creio que o Magnífico Reitor, que tem Brasileiro como prenome, assuma o reitorado para o qual foi eleito, e alerte aos que formam o comité que está a apoderar-se do Núcleo de Rádio e Televisão da Universidade Federal de Pernambuco que, no mínimo, é asnice o que fizeram: retirar do ar, na véspera do mês de junho um programa de música junina. Esse ‘petit comité’ não deve destruir, em nome de alguma revolução ( esse tempo caiu em pedaços no centro de Berlim), a obra revolucionária de Paulo Freire, o idealizador da extensão da universidade. Paulo Freire sempre desejou começar a partir do povo, esse ‘petit comité’ é partiu sem o povo nordestino e pernambucano.

Não encontrei, Magnífico, nos dicionários, o significado de ‘Anísio’, mas sabemos o que é Brasileiro. Dê um Tom Brasileiro nesse reitorado que o senhor quis repetir.

Dois Livros e um cuscuz

sábado, setembro 13th, 2014

Manhã do sábado 13 de setembro, madrugada com pequena chuva mais forte que o orvalho molhou a grama e deixou marca no cimento frente à casa. Na cozinha, no preparo do cuscuz, os gestos de minhas mãos umedecendo o fubá, lembram as mãos de minha mãe. Os gestos corriqueiros transportam nossa alma pra as esferas mais distantes e próximas da alma.

Sábado 13 de setembro o livro Informação, Repressão e Memória, escrito por Marcília Gama da Silva, atualmente professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, publicado pela Editora da UFPE, aponta os meandros nos quais fui envolvido, como prisioneiro nos tempos da ditadura militar. Sua leitura traz o tempo de volta, os muitos tempos guardados na minha memória, inclusive os gestos de minha mãe. Estando no Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano, Marcília organizou e refletiu sobre o que foi salvo dos arquivos do DOPS em Pernambuco e, a partir desse olhar meticuloso ele refez o processo de criação e de ação dessa parte do sistema autoritário militar que foi estabelecido no Brasil desde 1964.

Como toda vez que abrimos um livro é a primeira que o abrimos, serão feitas muitas leituras da leitura posta por Marcília. Para além da organização burocrática, ali podemos intuir homens e sua formação: aquele aparato foi criado não apenas em 1964, mas antes, como está demonstrado na arqueologia que leva à criação da Escola Superior de Guerra, nem foi unicamente pelos militares, mas por toda a sociedade que moldou aqueles agentes em sua juventude, ainda quando não eram soldados ou policiais. Apesar de a tortura ter sido realizada nos porões e espaços escuros, a repressão ocorreu ao ar livre de com muita gente sendo informada. Quando estava organizando os arquivo, uma vez Marcília mostrou-me algumas fotos, lá estava eu, ora na rua, ora em alguma manisfetação, ora entrando em um cinema. Eles foram tiradas sem minha permissão: eu estava sendo acompanhado, vigiado. Assim, como eu muitos cidadãos foram marcados pela burocracia do Estado, pelas sombras. O livro de Marília nos mostra as faces sem nome desses agentes, não daqueles que estavam nas ruas bisbilhotando a vida, mas dos que liam, cruzavam as informações e decidiam quem deveria ser mais olhado. Também mostra os discursos dos justificadores da rede de informação, mas não apenas dos grandes, também do torturador comum, que se expõe naturalmente em seus depoimentos pois que acreditava na justeza de suas ações. Os estudantes e pesquisadores do período encontrarão parte do caminho já aplainado graças aos estudos de Marcília Gama da Silva. Leitura obrigatória.

Também importante o livro de Grazielle Rodrigues “Fernando de Noronha e os ventos da Guerra Fria”, resultado de seus estudos para a obtenção do grau de Mestre em História. Afastando-se da visão comum da Ilha como paraíso para as férias, Grazielle optou entender o papel-função desempenhado pelo arquipélago na trama da Segunda Guerra Mundial, nos interesses estratégicos para os aliados e das vantagens alcançadas pelo governo brasileiro no jogo internacional das guerras. Publicado pela Editora Universitária da UFPE, estudantes de história e amantes da história do Brasil e de Pernambuco em particular, devem investir seu tempo nessa leitura esclarecedora.

Essas leituras são como os gestos das mãos em preparar o cuscuz, revolve o fubá para deixa-lo úmido o suficiente, temperado com o sal, e então colocá-lo no recipiente adequado para o cozimento. Faz-se o cuscuz do conhecimento.

Biu VIcente

João Ubaldo e Astrogilda Andrade – dois modelos

sexta-feira, julho 18th, 2014

Há dias em que a vida toma iniciativas de nos surpreender, impor a sua a sua força, deixando-nos claro que há um limite em nossa vida, indicando que as oportunidades oferecidas no tempo não podem ser desperdiçadas. Em nosso tempo temos a possibilidade de aprender com muita gente, essa gente que encontramos a cada dia. Na maior parte das vezes nem notamos a importância que as pessoas dão à nossa vida por nos deixarem ficar algum tempo ao seu lado.

Hoje soube da morte de duas pessoas que as fiz amigas, que escolhi para modelo a ser seguido. Interessante é que convivi pouco com elas, jamais vi de perto uma delas, ela jamais soube de minha existência embora sempre a apresentasse a muitos. Na verdade, eu o tinha para encontrar outros amigos. Ele tornava-se motivo de conversas e aprofundamento das novas amizades. Para alguns ele era o entusiasta pelo Sargento Getúlio, personagem que povoou muitas noites regadas cervejas. Mas João Ubaldo Ribeiro tem seu lugar em meu coração e mente pela bela história da Alma Brasileira em Viva o Povo Brasileiro, um romance belo e apaixonante do qual comprei muitos exemplares para presentear amigos que desejavam entender o Brasil, as contradições de suas paixões e seu imensurável amor pela vida. João Ubaldo também auxiliou-me a suspender o hábito de fumar com as suas reflexões nas caminhadas que relatava nas páginas dos jornais. Vou continuar conversando com ele relendo essa obra prima que deveria ser leitura nos anos de formação. Ótimo livro de história.

A outra pessoa quem soube a morte hoje, eu conheci quando tinha 19 anos. Foi em sala de aula, no Instituto de Teologia do Recife, ITER, quando ele estava no seu segundo ano e havia sido transferido da UNICAP para a FAFIRE. O ITER foi uma experiência de formação de padres em contato direto com a população, diferente do que era feito desde as determinações do Concílio de Trento em meados do século XVI. Nesse experimento de educação, aos alunos, seminaristas e não seminaristas, estando eu nesta última situação, podíamos escolher algumas disciplinas para formar o currículo. Umas das mais concorrida naquele ano foi a oferecida por uma professora irrequieta disposta a ensinar a ler e interpretar textos com a rapidez que o mundo que se criava exigia. Era Astrogilda Carvalho Paes de Andrade. O dinamismo dela era impressionante, sua juventude e alegria de viver entusiasmavam os estudantes. Na verdade quase todos os alunos estiveram naquela sala enorme para ouvir suas orientações e sorrir com o seu humor. Auxiliando-a estava outra pessoa maravilhosa, Jomard Muniz. Eles me ensinaram a ler, mais uma vez. Depois passei muito tempo sem saber daquela professora. Vim encontra-la nos últimos semestre da minha licenciatura em História, nas aulas de Didática e Técnica de Ensino.

Quero expressar minha profunda dívida para com a professora Astrogilda que tanto influiu em minha preocupação nas salas de aula. O pouco que sei dela é o sentimento que ela tinha pelo Povo Brasileiro.

A Pretinha do Congo, a Ciranda e a educação na Mata Norte

sexta-feira, agosto 19th, 2011

Como alguns já vinham dizendo à boca pequena, esse modelo, que tanto tem feito a alegria dos produtores e consumidores, começa a apresentar claramente seus rachões. Foi comunicado que uma empresa que exige conhecimentos maiores que apertar parafusos decidiu não se estabelecer em Goiana acusando a ausência de mão de obra especializada. E empresa está lembrando que sem uma política educacional séria não há como integrar-se moderno universo econômico. Construções apressadas de escolas técnicas não são soluções, apontam que vieram com atraso e, se forem bem pensadas, pode ser que sirvam para o futuro. Caso não cultivem a criatividade e o aperfeiçoamento do pensamento, a região pode continuar a especialidade de exportar o que exige principalmente a força física, uma tradição cultivada por quem não se permite alternativa que não a de colono cuidador das colônias de outrem.

A Zona da Mata Norte está a caminho de uma nova integração à Pernambuco, cujos governos nas décadas mais recentes,
incentivaram com muito mais entusiasmo investimentos na Mata mais úmida, mas também tradicionalmente voltada para a criação de riqueza que exige principalmente força física. Há que se pensar em sair da miséria, não apenas para consumir frangos e refrigerantes, mas consumir livros, conhecimentos construtores de conhecimentos. Para isso é necessário que tenhamos escolas e bairros diferentes daqueles que foram descritos por Victor Hugo, F. Engles, João Bosco e outros, no século XIX. Precisamos lembrar que Goiana já foi, no início do século XX candidata a pólo industrial e, por não ter optado por uma educação contemporânea ficou parecida com uma cidade testemunha, que testemunha um passado.
Um pouco dessa história estou contando no livro PRETINHAS DO CONGO, UMA NAÇÃO AFRICANA NA MATA NORTE, publicado pela Editora Reviva, com apoio do FUNCULTURA-PE. Essa manifestação da criatividade da classe operária nascente e abortada em Goiana tem outras companhias, como o Cavalo Marinho, o Côco, o Maracatu Rural e a Ciranda. A Ciranda é o tema do livro VAMOS CIRANDAR, escrito por Tâmisa Vicente; publicado pela Editora Reviva e pela Editora Universitária da UFPE.

O lançamento desses livros será na Livraria Jaqueira, no dia 05 de setembro, às 18:30h. no dia seguinte os dois livros serão lançados em Goiana, próximo da sede da Pretinhas do Congo de Goiana. Todos estão convidados aos lançamentos e a comprar esse dois clássicos que discorrem sobre a criatividade do povo da Zona da Mata Norte de Pernambuco.

Leitores e leituras

terça-feira, agosto 2nd, 2011

Depois que alguns amigos de profissão, sem comentários, solicitaram não mais receber informações sobre o que eu penso, fiquei feliz, pois entendi que estava sendo lido, comentado e, portanto, provocando reações que levam à produção do conhecimento. Há algo mais valioso que isto? Penso que não. Por outro lado, fiquei sem saber o que os deixava tão constrangido em meus pensamentos. O “não comentários” deles implica que ficarei sem informações para cambiar meus posicionamentos, uma vez que o diálogo – ou duologos – ficou incompleto. Deverei pensar sobre o que os afastou de mim. Claro que essa situação dá-me a liberdade de especular e, mesmo considerar sobre as razões do silêncio provocado pelo afastamento.
Um dos temas que sempre aparece em meus comentários é a questão da cultura, e quase sempre expresso que o que se denomina cultura no Brasil exclui a maior parcela da população brasileira, incluindo uma pequena elite que se mantém em posição de mando desde a proclamação da independência que excluiu índios, caboclos, negros, mestiços e brancos pobres, mas sempre disposta a incluir outros europeus que chegaram após. Seria esse o motivo? Outra razão para que se afastassem de um diálogo é que tenho escrito sobre a “descoberta” de tantos comportamentos não republicanos nos últimos oito anos de governo no Brasil. Falam de corrupção em diversos ministérios e, como ando conversando sobre esse assunto, alguns que confundem a nação com partido, podem ter se ofendido.

Não importa nada disso. O importante é que li um excelente livro escrito pelo professor José Bento Rosa da Silva, NACIONALIDADE E ETNICIDADE NO LITORAL DO ATLÂNTICO SUL: FOZ DO ITAJAÍ – SC – (1906) publicado pela CasAberta editora, Itajaí, 2010. O livro trata de uma festa na qual participavam brasileiros (germano-descendente, afro-descendentes, mulatos, e quejando) em uma época em que a região de Itajaí ainda não estava dominantemente com população açoriana. Ocorreu um crime, um afro-descendente foi morto por um disparo feito por um germano-descendente e, ao cabo do julgamento o germano descendente foi absolvido. Caso exemplar que o professor Bento analisa e põe ao nosso alcance o processo judicial. E hoje, como será que acontece. Aproveito a oportunidade para dizer a minha dor pela morte da filha do professor Bento ocorrida nesta semana. Não pode haver maior dor do que aquela que nos obriga a ver a nossos filhos morrerem antes de nós.

Outra leitura desse período de férias foi HISTÓRIAS DO MUNDO ATLÂNTICO: Ibéria, América e áfrica; entre margens do XVI ao XXI, organizado pela professora Suely Creusa Cordeiro de Almeida, e publicado conjuntamente pela Editora Universitária da UFPE e pela Imprensa Universitária da UFRPE, em 2009. Como vocês podem observar estou me esforçando na atualização. Todos os textos nos levam à reflexão e nos trazem conhecimentos necessários. Gostei especialmente dos texto de Francisco Carlos Teixeira da Silva (Caudilhismo e agir político na América Latina – ensaio de História Comparada), de Clarissa Nunes Maia (Farpas e farpões entre “Jucas” e “Manoeís” : o caso de Goiana), e o de Virgínia Almoedo (A violência contra a mulher no Brasil – um estudo de longa duração). Mas há outros textos bem interessantes, como o de Durval A. Junior e o de Gian Carlo de Melo e Silva. O livro é todo bom.

Dois outros livros estão sendo estudados no momento. Escrito por Robert B. Cunninghame Graham em 1919, UM MÍSTICO BRASILEIRO: VIDA E MILAGRES DE ANTÔNIO CONSELHEIRO, e publicado pela UNESPE em 2002, tem sido uma surpresa para mim, uma vez que jamais ouvi que um inglês, durante a primeira guerra mundial havia se ocupado desse assunto. Ótimo livro para verificar como ele escrevia para quem jamais esteve, como ele, nos Sertões. Ao mesmo tempo, leio para utilizar em algum curso, a REPÚBLICA BRASILEIRA EM DEBATE, organizado pelas professoras Bartira Ferraz Barbosa e Socorro Ferraz. Um conjunto de textos que se propõe a ser um livro texto, um pretexto para os debates a respeito da República Brasileira. Este livro também foi editado pela Editora Universitária UFPE, em 2010.

Pensei que não ia dizer mais nada sobre política, mas de que trata mesmo a história? O que não devemos ser é cronista, se quisermos ser historiadores.