Posts Tagged ‘Turma do Flau’

Mulheres e Homens Maravilha

quinta-feira, julho 28th, 2022

Mulheres e Homens Maravilha

Prof. Severino Vicente da Silva

         Creio ter havido um tempo no Recife dominado pela Turma do Flau. Foi um tempo anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o tempo que preparou o processo de debate que levou ao Estatuto de que protege a criança e o adolescente. Esse tempo da Turma do Flau está muito ligado à história de Brasília Teimosa, esse bairro criado pelo excluídos, que se meteu bem no começo da Praia do Pina, vizinha à Praia de Boa Viagem. Teimosamente, os que não quiseram ou não puderam ir participar da construção de Brasília, a capital que teria sido profetizada por Dom Bosco, e que estava prevista nas constituições do Brasil, e que entrou sem programação na campanha de Juscelino Kubistchek, construíram a sua Brasília, derrubada e levantada a cada semana, teimosa como o desejo da vida por viver, como explicou aquele físico ganhador do Prêmio Nobel. A vida surge por acaso, mas se mantém por necessidade de estar viva.

            A Turma do Flau é resultante dessa teimosia da vida que explodiu no Recife dos anos cinquenta. Eram muitas crianças que ficavam o dia todo sem fazer nada, exceto brincar e gerar preocupações nos pais que saiam para procurar um biscate, um trabalho capaz de assegurar a alimentação diária. Os pobres sabem o que realmente significa “dá-nos, hoje, o pão de cada dia”. No tempo da ditadura, apareceu uma freira, Ir. Aurieta, da Congregação de Jesus Crucificado, que iniciou um grupo de jovens na produção de e venda de picolés. Flau era o nome que foi dado ao picolé. E então foi um caminho para que crianças e adolescentes começassem a ser vistos com uma caixinha, feita de isopor, a vender picolés. E então começaram a reproduzir grupos semelhantes que, depois de algum tempo, não valia a mais sair de casa e da rua para vender picolé. Fenômeno semelhante se seguiu com as padarias do bairro, grupos de famílias se organizavam para produzir pão mais barato. Depois de algum tempo, passou a febre do pão caseiro, também. Mas a Irmã Aurieta ainda continua com a Turma do Flau, não mais vendendo picolé, porém construindo cidadania, acolhendo os mais pobres dos pobres de Brasília Teimosa. Esta é uma mulher maravilha, como Maria de Lourdes, que vive a andar do litoral ao Sertão, debatendo e vivendo a luta pela cidadania das maravilhosas mulheres do povo.

             Cinquenta anos depois de iniciada a organização dos meninos pobres da pobre Brasília Teimosa, Ir. Aurieta sabe que os pobres existem porque eles são produzidos, não malthusianamente, mas de modo quase sistemático, por um sistema de dominação. Aurieta, Lourdes, Dulce, Tereza continuam a cuidar dos pobres, e tantas outras mulheres e homens, como Luiz Tenderine, Romano, Lancelotti.  Antes desses houve muitos que cuidaram dos pobres, desejando diminuir o seu sofrimento, dando-lhes algum alento. Depois deles virão outros com semelhantes desejos e, como eles sofrerão por sentirem-se impotentes contra o modo de viver que produz a pobreza, que leva os pobres à miséria.

            Outro dia comentei que poucas pessoas fazem relação entre a acumulação da bens com a produção da pobreza. Sim, era uma pessoa de curso superior, com diploma guardado em alguma gaveta ou pendurado na parede do seu quarto pessoal. “Pobres sempre os tereis”, disse o Mestre que as pessoas citadas seguem. “Eles não sabem o que fazem” disse o mesmo Mestre, pois sabia que pouquíssimas pessoas fazem relação entre as suas vidas e as vidas dos demais, não querem fazer tal relação. Claro que todos sabemos que todos os atos realizados por um homem, por uma mulher, afetam a vida de todos os homens e todas as mulheres do mundo, pois não somos uma ilha, nos disse o criador de Gulliver, repetindo laicamente o que os religiosos dizem. Ah, neste grupo poucos fazem essa relação, assim como o profissional de formação universitária não consegue fazer a relação do corte do ICMS da gasolina que abastece o seu carro com a situação do ensino básico. A negação da realidade foi a maneira encontrada para a manutenção do sistema produtor de riqueza e pobreza, simultaneamente. A negação da realidade não é uma praga de nosso tempo, ela tem perpassado a vida do Homem Que Sabe. Sabe e sabe negar. É quase instintivo, mas é só reprimido, ensinou o barbudo de Viena.

            Em todas as sociedades humanas encontramos diferentes formas de desigualdade, mas a sociedade que vem se formando, de maneira mais explícita nos últimos trezentos anos, estar a criar e aprofundar noções como Direitos e Deveres, alguns sociais para além dos pessoais, também reconhecidos nos últimos séculos. “Nós todos já nascemos com direitos” disse a mulher defronte do morro deslizado que matou alguns dos seus familiares e acabou com a casa de sua mordia; “Estamos perdendo nossa dignidade”, disse ela, mas aí devia dizer: estão tirando a nossa dignidade, a nossa humanidade. Essa mulher é resultante das transformações sociais dos últimos trezentos anos, as suas frases não seriam ouvidas no na civilização do francês Luiz XIII, do mongol Gengis Kan, do grego Sócrates, do egípcio Putifar. As palavras daquela mulher dizem que pode haver, que há outra maneira de viver, que é reconhecendo a existência do outro e seus direitos. Se não desejarmos e fizermos este caminho que faz medo, caminharemos para a destruição.

            Negar o saber, negar a possibilidade do outro viver, é caminhar para a destruição da vida. Tomara que Jacque Monod tenha razão e os homens decidam pela necessidade de manter a vida.