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SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

terça-feira, março 22nd, 2022

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

Prof. Severino Vicente da Silva 

Quase trinta dias do mês de março e a guerra, uma das muitas que atualmente estão ocorrendo no planeta, explicitada pelo ataque da Rússia à sua vizinha Ucrânia, continua sem perspectiva de fim, exceto quando se tornar semelhante a Canudos, defendida por velhos e crianças. No final, vencerá o que está melhor armado. A questão é que quando o relato de Canudos apareceu de maneira mais ordenada, já não havia mais a população no local para ser testemunha, o que não é o caso atual. Contudo, quase um século depois, quando o exército chegou a governar o Brasil em uma ditadura, a presença de Canudos ainda era tão forte que foi necessário afogar o defunto que, ainda vive. Talvez ocorra isso com a Ucrânia, derrotada militarmente, destruída fisicamente em sua estrutura, tornar-se-á viva simbolicamente. Os sertanejos que criaram o Brasil foram dizimados no sertão bahiano e, contudo, Édipo jamais teve paz.

Na década de setenta, um grupo de padres sociólogos, historiadores e teólogos, criaram uma Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, deveria ser um organismo eclesiástico, pois que os teólogos achavam que a Igreja havia feito a opção pelos pobres, contudo, ocorria uma virada e, o papado que se iniciava apontava para um período de conservadorismo e reação, acompanhando o processo político então vivido na América Latina, com as ditaduras que vinham sendo criadas e incentivadas desde 1964, então a CEHILA foi criada como uma instituição laica, escapando, destarte, do controle eclesiástico. Assim foi possível uma trajetória de repensar a participação da Igreja Católica no processo de formação da América Latina. Essa ação foi fundamental para a compreensão da Igreja e o papel por ela desempenhado desde a Conquista e colonização; mas também veio a revelar-se importantíssima para mudanças na historiografia da região. Quando as universidades não ultrapassam os espaços da repetição, a história mostra, a sociedade aponta os caminhos que os acadêmicos depois tomam, no sentido de andar neles e no de tornar a coisa como sendo criação deles.

Naquele mesmo período, sob a regência de David Rockfeller, setores capitalistas viviam o sonho da Trilateral, uma comissão supra nacional que apontaria os rumos políticos do mundo sob a batuta dos Estados Unidos da América, Alemanha e Japão. Era secretário dessa Trilateral, o ainda jovem Jimmy Carter, que veio a ser presidente dos EUA e, um dos responsáveis pela desarticulação das ditaduras criadas por seus interesses duas décadas antes.

Enquanto o tempo girava, Eduardo Hoornaert, um dos fundadores da CEHILA, sonhava e realizava, com uma pequena equipe (Paulo Tannuci, Ir. Adélia, Frei Domingos Sávio, Biu Vicente), uma Cehila-Popular, uma estrada para escapar do vicio de pesar sobre o povo, deve-se favorecer o povo pensar, sobre si e sobre a elite que o domina. Por atuar na Cehila-Popular, não sem dificuldade, pude ser membro da CEHILA-Brasil e da Cehila-Latino-americana. Entre os muitos trabalhos que realizamos juntos na Cehila-Popular, houve aqueles que envolveram violeiros improvisadores, desde Sergipe até o Ceará. Fazíamos encontros para nos contar histórias, acrescendo nosso conhecimento com as trocas de saberes. Conversávamos sobre os temas de afloram a partir do Rio São Francisco, dos Sertões e das cidades de cada um. Também conversávamos sobre a relação que sempre existem entre qualquer arruado e a grande política que os arruados desconhecem. Contávamos e aprendíamos a história do Brasil, as histórias dos brasis; a história do mundo e as histórias dos mundos. A Comissão Trilateral entrou em uma dessas conversas, e olhando o mapa, sim havia mapas, veio a pergunta: e a China, onde entra nessa história? Eduardo tomou a conversa e mostrou que na tradição cristã, os reis vieram do Oriente trouxeram presentes e depois não mais ouvimos falar deles. Mas a primeira tradição do cristianismo voltava-se para o Oriente, lembrava que a expressão que se usava é que as pessoas devem “se orientar”; é voltados para o Oriente que formamos os pontos cardeais. Depois aprendemos que as especiarias chegavam do Oriente para a Europa pela Rota da Seda, iniciada na China e, pela mesma rota, mais tarde pela rota dos oceanos, as especiarias foram pagas com o ouro e prata retirada das Américas.

A Comissão Trilateral não pretendia “Orientar-se”, mas sua meta era que todos olhassem para o norte. Nortear-se é um hábito que veio a ser criado recentemente, coisa do século XX. Foi no século XIX que a China deixou de ser o centro, o Império do Meio. Entretanto, mesmo quando a Inglaterra tinha o seu imenso Império, a joia da Coroa era o Oriente. O auge da Era Vitoriana foi a coroação de Vitória como Imperatriz da Índia.

Neste mês de março, no dia em que começa o outono, penso que assisto a parte final do fracasso da Comissão Trilateral, enquanto a tendência política parece confirmar que se torna explícito: Orientar-se será o verbo das próximas décadas.

A Cehila-Popular realizou um trabalho educacional muito interessante, além de, também produzir artigos hoje utilizados por um ou outro acadêmico, como que seguindo os passos da CEHILA-Brasil e Latino-americana. O esforço para refutar a CEHILA pode ser visto no esforço do historiador Jacobina Lacombe ter escrito um livro para criticar, aqui no sentido de falar mal, da obra de Eduardo Hoornaert. Soube do livro de Lacombe, pois uma influente historiadora de renome local, deu-me cópia do livro com riso nos lábios: “vê o que estão dizendo da obra dos teus historiadores”. Agora percebo que, desnorteada, ela precisava orientar-se para os novos tempos, esses que deploram as ações do Barão do Jeremoabo.