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Esquecimentos históricos, falha na educação histórica

domingo, dezembro 6th, 2015

Em entrevista ao canal Globo News, o ex-ministro Joaquim Barbosa afirmou que “O Brasil não se conhece. O brasileiro não sabe direito como a nação, como o estado brasileiro se formou”. Essa é uma observação bastante interessante, pois ela nos leva debater a razão dessa ignorância, uma vez que há um ministério dedicado a pensar, promover a educação formal, sendo o ensino da história pátria um dos objetivos do ensino fundamental e médio, estudos preparatórios para o exercício da cidadania, além de preparar os estudantes para os cursos universitários. Isso quer dizer que são muitos os anos que um brasileiro fica exposto, nas escola a informações sobre o Brasil, sua história, as pessoas e instituições que, em suas vidas, deram feição ao que é o Estado Brasileiro e os valores que formam a nação.

Claro que, um país com uma vastidão territorial que temos e uma população heterogênea na sua origem, e sendo ainda jovem, tem algumas dificuldades para formar, o que se chamava, algum tempo passado, de ‘caráter nacional’. Bem, embora isso tenha alguma verdade, ela pode ser aplicada a países como os Estados Unidos da América possuem uma população formada por imigrantes de todos os continentes e, por suposto, levaram suas tradições que, bem ou mal foram incorporadas ou justapostas. E hoje, os americanos sabem quem são, bem como seus amigos e inimigos sabem o que dizem sobre os americanos. Seu território é tão vasto quanto o do Brasil e é apenas 46 anos mais velho que o Brasil. A Argentina tem alguns anos a mais que o Brasil; o mesmo pode ser dito do Chile e, eles também são países formados por imigrantes. Mas eles parecem que sabem que são. Talvez devamos pensar um pouco no processo educacional, no processo de integração dos imigrantes, já integrados no cotidiano, mas ainda não participante das explicações que são dadas sobre o Brasil e sua formação.

Bem, na próxima semana, poucos brasileiros sabem que o Brasil completará 200 anos de idade, como Estado, um estado livremente unido ao Estado de Portugal e Algarves. É o que se ensina nas aulas de história sem refletir o que é que essa situação significou como parte da formação do que somos hoje. Claro que, da mesma maneira que o significado do 15 de novembro de 1889, data da proclamação da República, passou despercebido na maioria das escolas e dos instrumentos e órgãos de formação social, o 16 de dezembro de 1815 também não receberá comentário algum, nem mesmo nas comunidades acadêmicas cuja função precípua é formar professores de história do Brasil. Nesse momento de nossa história em que a República Brasileira está sendo posta à prova, teria sido interessante um debate sobre o processo que levou ao estabelecimento da República, um movimento que envolveu setores da classe média (advogados, professores, jornalistas), fazendeiros de café e açúcar, além dos militares. Também creio, seria muito interessante perguntar publicamente o que significou a criação do Reino do Brasil, Unido aos Reinos de Portugal e Algarves. Ali já notamos que é foi uma empreitada casuística, um jeitinho português para facilitar a vida do Príncipe Regente Dom João que desejava ficar mais algum tempo na zona subtropical da América e evitar um confronto direto com a burguesia e a nobreza portuguesa que se sentia prejudicada com a ausência do seu rei em Lisboa. Mas esse episódio é tão pouco aproveitado para a reflexão sobre como chegamos a ser o que somos, que nem reconhecemos o esforço do príncipe regente que, continuava regente no que concerne a Portugal, mas passou a ser Rei do Brasil. Esse esforço de Dom João a nossa historiografia nega, pois sempre o consideramos Rei de Portugal e não do Brasil, de tal forma que ainda hoje agimos como súditos portugueses e ensinamos nossas crianças e futuros cidadãos dessa maneira. Sempre o chamamos de Dom João VI, o que ele é em Portugal, e não o reconhecemos como rei do Brasil. E nem consideramos que, no processo de independência, José Bonifácio de Andrade Silva, o Patriarca da Independência, ao escrever o Manifesto às Nações, lembrou que Portugal se recusava a respeitar os direitos do Reino do Brasil, um Estado reconhecido por toda a Europa, que aceitou a participação de Portugal no Congresso de Viena, pois Dom João estava na sede do seu reino, o Rio de Janeiro, onde também se encontrava Dona Maria I, rainha de Portugal, trono do qual ele era herdeiro e seu regente.

Se, em lugar de silenciar sobre esse acontecimento, nossa historiografia cuidasse de examinar mais detidamente esse fato, talvez nossa estima de nós mesmos aumentasse e, os cidadãos brasileiros entenderiam melhor os acontecimentos relacionados com a chamada Revolução Pernambucana de 1817, as disputas, ou ausência delas, para enviar representantes para a Assembleia Constituinte do Porto, as lutas para a formação das Juntas Governamentativas. No caso de Pernambuco estudaríamos com mais interesse a Junta de Goiana e a Convenção de Beberibe. Claro que tudo isso deixaria mais claro que não foi por falta de oportunidade que o Brasil manteve-se monárquico, escravocrático, acentuando a sua tendência à oligarquia, à manutenção de privilégios e regalias, enquanto decidia excluir grande parte da população da vida política. Evidente somos resultado desses e de outros “esquecimentos” enquanto se oferecem migalhas de reconhecimento àqueles que aceitam situações subalternas, desde que possam ter seus subalternos. E então temos uma sociedade na qual o escravo compra sua liberdade e, logo em seguida compra um escravo para si. Aliás este é outro “esquecimento” atual, para não milindrar as mais recentes oligarquias afirmativas.

Outro esquecimento é que, centro e quarenta anos após a chegada de imigrantes alemães, italianos, poloneses, e outros, continuamos a dizer que o Brasil é formado do encontro de indígenas, africanos e portugueses. E, já tivemos dirigindo a república brasileira descendentes de Alemães, de Italianos; também tivemos ministros de ascendência japonesa e atualmente somos governados (?) por uma filha de um migrante húngaro.
Essas e outras reflexões semelhantes é que poderiam nos ajudar a compreender o processo de nossa formação. Enquanto nossa reflexão histórica ficar sendo direcionada pela diretoria que fundou o Instituto Histórico e Geográfico Brasil (Rio de Janeiro), ou pelo desejo de negar a história do Brasil e seus símbolos (parece haver um vertente que deseja trocar a bandeira que lembra nossa relação com Portugal por outra mais orientalizada), não iremos muito longe como nação. Vamos estudar nossa história a partir de nossas tradições, com respeito e não deboche, como querem aqueles que recusam, implícita ou explicitamente, nossa mestiçagem por orgulhos de partes que se opõem e abrem caminhos que aprofundam a crise de identidade, de nosso caráter nacional.

Importante, também, resgatar os esquecimento que são praticados para facilitar a permanência de privilégios que afrontam a ordem republicana, tais como foro privilegiados em tribunais e prisões.

Em torno do cinquentenário do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança

domingo, novembro 22nd, 2015

RAÍZES EM movimento

Uma vez escutei, em um encontro da Campanha da promovido pela Igreja Católica, em um desses períodos da Quaresma, que o Brasil era um país de migrantes. Em 1980, sob o tema PARA ONDE VAIS? a Igreja convidava a todos a refletir sobre as migrações que ocorriam no país. A população do Brasil parece não parar em um lugar. O movimento é constante. As secas levaram muitos nordestinos a procurarem o Sudeste e o Sul, mas também muitos foram o Norte e mesmo para o Centro Oeste. Mas os nordestinos não são os únicos a mudar-se. Parte da população do Rio Grande do Sul foi para Santa Catarina, Paraná, e muitos catarinenses foram para o Acre, seguindo os passos da Transamazônica e dos projetos inventados no tempo da ditadura civil militar que vivenciamos entre 1964 e 1985.

Faz sessenta anos que João Cabral de Melo Neto publicou o poema Morte e Vida Severina, contando a migração de famílias do Agreste Setentrional e da Zona da Mata Norte de Pernambuco em direção do Recife. E o Recife recebeu muitos matutos que foram ocupar os morros da parte norte do Recife. Ali encontraram gente saída da Mata Sul e até de outros estados, gente do Ceará, do Rio Grande do Norte e Paraíba. Tudo parece uma grande mudança. Mas há, também, as pequenas mudanças. E elas são tão pequenas que a gente nem presta atenção. É que tem gente que sai de Buenos Aires para morar em Aliança; gente que morava em Aliança e hoje vive em Vicência. As pessoas, as famílias, mudam bastante de uma cidade para outras. Aqui mesmo tem gente que nasceu no Recife, passou um tempo morando em Nazaré da Mata, na juventude foi viver em Aliança e hoje tem moradia em Condado. Essa gente não para de andar. O caminhão de mudança para ser o endereço delas. E tem mais mudanças em espaços menores: é gente que viveu saindo de um engenho para outro dentro do mesmo município. Ou que já morou em mais de um bairro na mesma cidade. Eita povo inquieto! Esse povo parece não ter raízes.

Ocorre que eles têm raízes, mas não têm terras. Mas, não importa para onde ele vai, ele não perde as raízes. Como Pedro II que levou um saco de terra brasileira quando foi expulso do Brasil e foi morar na França até a sua morte, esse povo carrega consigo as suas raízes e, surpreendentemente, elas são as mesmas e se reconhecem em todos os lugares. As palavras que usam para designar os objetos e sentimentos são semelhantes e, se são diferentes, logo se entendem e as diferenças superficiais podem ser afastadas e eles reconhecem. E se reconhecem até mesmo quando encontram o passado ruim. Mas as raízes que carregam se alimentam do mesmo solo, da mesma história que pode, e deve ser lida de muitas maneiras, mas sempre com as raízes se tocando no fundo da terra e da cultura comuns.

Uma vez ouvi um sertanejo dizer que o sertanejo sai do sertão, mas o sertão não sai dele. O mesmo se diga de quem deixou a Agreste e do matuto. Para onde ele vai ele carrega suas festas, suas danças, suas crendices, suas brincadeiras. E isso acontece com todos os seres humanos que vivem hoje, os que viveram no passado e os que viverão. A raiz do homem é a sua cultura, sua identidade, a sua parte na grande cultura da humanidade.

Olhemos ao nosso redor e nossos olhos nos dizem do vento balançando os pendões das canas. Essa cena se repete a mais de quatro séculos, pois este é o tempo que a cana de açúcar vem sendo plantada no solo de Pernambucano; primeiro no litoral depois na Mata Sul e Norte. Desde então ela vem produzindo o açúcar, a cachaça e o vinagre. Tudo isso resulta do trabalho nos canaviais, nos engenhos e nas usinas, onde encontramos pretos, mestiços morenos, mestiços agalegados, mestiços mamelucos, brancos. Nas ruas das cidades e dos povoados encontramos todos eles. Também nos cultos religiosos. Nesses lugares encontramos os que consomem açúcar em grande quantidade, e sabemos isso pelo peso, pelos dentes cariados; encontramos os que exageram no consumo da cachaça, pois a vida vem se tornando um vinagre, mesmo depois que foi abolido o trabalho escravo, mas não foi libertada a terra para os novos e antigos libertos. Aprisionados nas engrenagens que permitiram um arremedo de liberdade, desde o final do Império que esses cortadores de cana passaram a criar um universo simbólico para contar a sua história, e fazem isso enquanto dançam. Talvez nem percebam que seus gestos contam além de suas histórias pessoais, contam a história das suas famílias, de seus antepassados, a história do Brasil.

Faz sessenta anos que João Cabral de Melo Neto escreveu o poema Morte e Vida Severina e tem como tema a movimentação de parte do povo de Pernambuco ao longo do Rio Capibaribe, que é visto como o mais pernambucano dos rios, pois ele existe em muitas cidades. Mas há outros rios, como o Pirapama, o Botafogo, o Tracunhaém, o Ipojuca, o Riacho do Navio, o Pajeú. E há o Rio Siriji, que também forneceu água para muitos engenhos que foram construídos perto de suas margens. E nesses engenhos muitas pessoas viveram; homens e mulheres, escravizados uns, libertos outros. Os engenhos foram cedendo espaços para as usinas modernas, mas enquanto se mantiveram na condição de produtores de açúcar, rapadura e cachaça e, também fornecedores de cana para as usinas, foi o tempo que esses homens e mulheres foram inventando um modo alegre de contar a saga de seus antepassados. Foi dessa forma que foram nascendo o Cavalo Marinho: misturando o Pastoril natalino, as Danças de São Gonçalo, as tradições indígenas sobre os espíritos das matas, o comportamento de padres, senhores de engenho, policiais, doutores, e outros seres viventes na região; as Caravanas que uniam os pesos no tempo dos entrudos e carnavais e o que ainda restava dos maracatus de nação que, parece, alguns senhores de engenho trouxeram para o carnaval de 1923; e foram aparecendo alguns caboclos, ainda no final do século XIX, saídos dos sítios para ganhar as ruas dos vilarejos e mesmos as cidades da região. Esses caboclos solitários originaram os Maracatus de Baque Solto. Foram se juntando, passaram a andar em grupo, acompanhados por uma pequena orquestra formada por três instrumentos (poica, bombo e caixa). Mais tarde vieram o mineiro e os instrumentos de som. Como se uniram para sair e inventaram uma bandeira que os guiasse. E começaram a lembrar de uma dança circular em torno da bandeira e, passaram a andar em duas filas indianas, como as procissões católicas, nas festas das padroeiras e dos padroeiros das comunidades.

Deve ter sido assim o grupo que o Mestre Batista mencionou em entrevista ao Jornal do Commércio do Recife, o grupo que era liderado por seu avô. Foi assim que começou a saga do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, fundado em 1966 no terreiro do Sítio Chã de Camará. Nascido aqui perto, em Santa Luzia, o futuro Mestre Batista fez muitas mudanças em sua vida, mas antes disso, enquanto crescia deve ter visto seu avô organizar o maracatu, fazer as roupas dos caboclos, os primeiros chapéus, as primeiras golas e as arrumações. Assistiu seu tio organizar as brincadeiras de cavalo marinho, e aprendeu as loas, as danças, os personagens e suas histórias. Depois tudo isso veio o tempo em que viveu em Chã de Camará e, enquanto administrava o sítio, nos finais de semana as noites do sítio eram momentos de alegria e os moradores dançavam e assistiam, eram dançarinos e plateia. Foi assim que Batista foi se tornando o mestre, sendo conhecido como mestre, formando novos mestres e aperfeiçoando os modos de dançar que aprendera e estava transmitindo.

Em 1966 ele começou a sua Estrela, a Estrela de Ouro. E então começou uma nova fase dos Maracatus de Baque Solto. O maracatu do Mestre Batista ficou tão famoso como o seu Cavalo Marinho Já era famoso muito bem frequentado pela vizinhança que vinha para ouvir a voz de Biu Roque, a rabeca de Luiz Paixão e outros rabequeiros, que se tornaram famoso, como Manuel Salustiano. Os bailes de finais de semana eram momentos de lazer e de aprendizagem, ou de expor os sons que eram treinados ao longo da semana. Quando começou a desfilar no carnaval do Recife, o Maracatu Estrela de Ouro foi, durante anos seguidos, sob a batuta de Mestre Duda, campeão na Avenida. A beleza de sua apresentação animou a vários migrantes da Mata Norte a organizarem maracatus. Além disso, juntamente com outros mestres de Nazaré da Mata e Manuel Salustiano que se estabelecera em Olinda, fundou a Associação de Maracatus de Baque Solto de Nazaré da Mata, estabelecendo o compromisso de fazer desaparecer as brigas entre os maracatus. As sementes criadas na Chã de Camará cresceram e puseram suas raízes em outros espaços, expuseram suas cores, movimentos e canções, quando foi necessário adaptaram as apresentações, adequando-se aos novos ambientes, e, mantendo a dignidade de suas origens, foram reconhecidas como parte de um espaço cultural bem mais amplo. Os migrantes da Mata Norte conquistaram o Recife, tornaram-se símbolos de Pernambuco.

As inevitáveis migrações moldaram o Brasil. Os que migram nem sempre desejam efetivamente deixar suas pequenas pátrias, mas são o elemento básico para a formação da grande pátria, da grande nação cultural que é formada com o resultado das muitas culturas que estão em constante migração e permanente recriação.
Cinquenta anos de Maracatu Estrela de Ouro é, em verdade podem ser entendidos como 118 anos da tradição da Família Batista; ou seja, o percurso da República do povo brasileiro.

Comemorando nossas origens

quarta-feira, outubro 14th, 2015

A cada ano, como se fora ordenado por misteriosas forças, algumas reportagens se repetem. É um processo educacional. Aprende-se bastante pela repetição, ensina-se dessa maneira. A repetição é mestra da manutenção da cultura ou, da sua mudança. O que se repete, e como é repetido, sempre fortalece algum ensinamento. As repetições criam laços novos que se tornam antigos e formam novas tradições.

Eu, menino, aprendi a amar algumas tradições, quase sempre associada a algumas pessoas. Uma tradição eu aprendi sem que me ensinassem diretamente, é a tradição de assimilar as mudanças. Sempre me abismei como os meus pais, e a maior parte da humanidade, foi capaz de manter-se em suas tradições enquanto as via sucumbir em funções de novas tecnologias que exigiam novos comportamentos para suas implementações, sem enlouquecer. Os valores que formaram seus caracteres na infância e juventude foram questionados ao longo do século que viveram. Mantiveram e praticaram a sua fé e seus valores enquanto tudo parecia se tornar mais volátil, mas líquido. E eles pareciam mais seguros, pois se mantiveram no que acreditavam enquanto assimilavam criticamente as novidades que surgiam. E nem todas as novidades perduram.

Menino, eu aprendi que um dos grandes feitos da nossa civilização ocorreu por conta de que um homem, seguindo os pensamentos e os estudos de outros homens, saiu da Europa e, por um erro de cálculo, descobriu um continente, não chegando ao antigo que buscava. Desse seu erro e descoberta, nasceram novos mundos, pois ocorreram encontros inesperados, confusões diversas, confusões de sentidos e sentimentos. Muitas mortes, novas vidas e surgimento de novas riquezas que se combinavam com novos conhecimentos dos espaços físicos, do mundo físico e também dos imaginários; as ciências criaram novos conhecimentos, as lentes ampliavam o pequeno e encurtavam as distâncias; algumas certezas eram postas em dúvidas e eram superadas enquanto outras certezas estavam sendo criadas, comprovadas. Religiões foram modificadas por conta das viagens de Colombo e de outros navegadores contemporâneos, e isso causava alegrias e tristezas, dores e sofrimentos, como todos os fatos da vida. Os partos são sempre doloridos, e essas dores são suportáveis para toda a natureza, como, em uma de suas cartas, disse o Apóstolo Paulo. E as dores do parto jamais impediram o surgimento de novas vidas. Após partos doloridos a natureza gera novos indivíduos, e novas vidas são ansiadas.

Em nossos dias, a cada ano vem uma pergunta em alguma reportagem feita por gente muito sabida: há o que comemorar no dia 12 de outubro, o dia da chegada de Colombo nas terras que receberam o nome do gerente dos Médicis, a América? A pergunta é feita para que se responda com um não, pois o que se pretende é a negação daquilo que tem sido criado pelos homens e pelas mulheres nessas terras, pois se pretende a negação da sociedade que nós, os homens e mulheres criamos e continuamos a criar, com todas as dores e com todas as incertezas que as certezas nos levam a criar. Muitos dos que negam a grandeza do que fizemos nos últimos cinco séculos porque dores foram causadas, são os mesmos que louvam as revoluções – francesa, russa, chinesa – sem mencionar as dores que elas causaram. E não mencionam a Revolução Americana.
Colombo e Américo Vespucci são homens do seu tempo e de suas certezas; Cortez e Malinche, Diogo Caramuru e Catarina/Moema, Jerônimo de Albuquerque e Catarina do Espírito Santo, Alcotirene, Gangazumba, são homens e mulheres de seu tempo, e seu tempo é parte de nossa história, negá-los é retirar de nossa sociedade, de nossa cultura os marcos de nossa fundação. É nos negarmos. A repetição dessa pergunta: será que valeu a pena?, introduz e mantém a nossa negação, quer nos impedir de sermos o que somos, quer negar nossa história, que nos negar.

Parodiando o Poeta, quando a alma não se apequena, a vida vale a pena.

Mestre Antônio Teles, a rabeca de Condado

domingo, junho 21st, 2015

As criações culturais nascidas da criatividade de pessoas das camadas mais distantes dos centros de poder, quase sempre, são familiares. Quer dizer são pessoas da mesma família que produzem aquele tipo de cultura, aquela brincadeira, ou a dança, ou o jeito de cantar, ou jeito de tocar um ou vários instrumentos. Claro que sempre aparece o traço pessoal, o jeito demonstrar a sua individualidade. No universo dos matutos, dessa população da Zona da Mata Norte de Pernambuco, são várias as famílias que se tornaram famosas pela sequencia geracional da arte, como é o caso dos Salustiano – João, Manuel e seus filhos dedicados a fazer o toque da rabeca, o movimento dos pés no Cavalo Marinho, o andar dos caboclos. Mas hoje quero falar um pouco do pouco que sei dos Irmãos Teles – Antônio e Mariano, trabalhadores nos canaviais e artistas de seu povo.

Mariano Teles é o famoso Capitão do Cavalo Marinho da Chã de Camará, ou seja do Cavalo Marinho organizado e mantido pelo Mestre Batista, referendado pelos atuais mestres como o responsável por manter, no seu sítio, essa tradição que teria herdado do seu avô. No terreiro da Chã de Camará, próximo às Três Vendas, na embocadura do caminho que leva à Lagoa Seca, rebatizada por Mário Melo como Upatininga, e até à sua morte, o Mestre Batista era a fonte de informações para os mais jovens. Ali ele transmitia seus conhecimentos dançando o Cavalo Marinho, botando figuras e, com os meninos olhando, exibia o seu saber. E os jovens bebiam o que os mais velhos faziam, cantavam e dançavam. Entre os jovens estavam os irmãos Antônio e Mariano Teles.

Antônio abraçou a rebeca e especializou-se em tirar sons para acompanhar as danças do Cavalo Marinho e também tocar a sua rabeca nos bailes que aconteciam nos sítios, “no tempo em que havia sítios, galos e quintais”. Sentado no Banco do Cavalo Marinho, Antônio Teles fez fama e sua reputação como memória dessa brincadeira é grande. Mas seu jeito mais calado do que outros o manteve no instrumento e, no banco, aproveitou para decorar e aprofundar seu conhecimento na dança, nos textos do teatro que o povo dos sítios e, depois, das pontas de rua, gostava de ver e passar a noite. Foi esse conhecimento que Antônio Teles passou para a sua filha, Nice, que herdou o amor e cuidado com a tradição cultural. Antônio Teles admitiu que Nice sentasse no banco e tocasse e cantasse. Foi ela a primeira mulher a sentar no banco que era exclusividade masculina. Assim a família seguiria, como está a seguir, o caminho da preservação identitária da região. Esse carinho é faz crescer a importância da Família Teles no universo cultural da Mata Norte e do Estado de Pernambuco.

Antônio Teles foi também um organizador da religiosidade de seu povo. Um aspecto pouco conhecido, mas de grande importância.

Ao tomar conhecimento da morte de Antônio Teles veio-me à mente nosso primeiro contato, um tímido contato na sombra das jaqueiras da Chã de Camará. Nossas primeiras palavras e depois assistir e sorver o som de sua rabeca, para que as crianças dançassem alguns passos de Cavalo Marinho, as crianças da Escola Sebastiana Maria da Silva, do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. Em seguida tive o prazer de vê-lo ensinar a Ederlan Fábio os movimentos para arrancar o som da Rabeca. Outro momento com o Mestre Antônio Teles foi em uma viagem a Salvador, para uma apresentação. Fiz uma entrevista de meia hora, mas a fita cassete não quis vir comigo, ficou no quarto do hotel. Ficamos de nos encontrar mais uma vez, entretanto jamais pude refazer aquela conversa.
A nossa cultura recebeu o cuidado do Mestre Antônio Teles que nos deixa a herança com sua filha e netos, uma herança que muito frutifica. Nessas horas costumasse dizer que “a cultura ficou mais pobre”, mas como dizer que a saída de cena do Mestre Antônio Teles nos empobreceu se ele nos deixa a sua riqueza biológica e cultural em plena atividade? Sim, vamos nos sentir tristes, mas sabemos que Antônio Teles está conosco, com sua família que extrapola os limites do Condado, pois ele é um dos responsáveis por ser, a Dança Dramática do Cavalo Marinho uma marca da identidade pernambucana.
Que São Gonçalo do Amarante receba esse homem cujos pés não reclamaram das barrocas do terreiros, e o leve a Olorum, a Jesus e festejem com os Santos Reis do Oriente a alegria da repartição do boi. Amém! Axé!

A Lei do Cão ou a demência da 15.516

segunda-feira, junho 1st, 2015

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sam

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sambadas, momentos de agregação, socialização e preparação sistemática para o grande desfile que encanta os turistas mas, que, parece, incomoda a quem expeliu esse projeto lei e a quem aceitou a desonra de assinar.

Essa lei, esse ataque esquizofrênico dos ‘senhores da cultura’ é ainda mais maléfica, se é que isso é possível. Ela proíbe que se venda livros, que se venda obras de cerâmica, de pintura, do artesanato, se o artista principal não for o autor da obra. Mas é em momentos como esses que o povo pode vender o que ele faz. O que ele faz não se vende nos shopigns frequentados pelos deputados. É nessas horas, nesses eventos populares que o artista popular tem seu mercado. Essa lei 15.516 é a lei da destruição da cultura pernambucana, é a Lei do Cão. Penso que Antônio Conselheiro assim a chamaria, como chamou aos impostos injustos que a recente República cobrava do povo pobre.
Rejeição total ao energúmeno que pariu tal lei; Rejeição total a essa Lei do Cão. Que todos os repentistas, que todos os Mestres de Maracatu improvisem contra essa barbarie, essa estupidez; que todos os Mestres de Cavalo chamem o governador, esse cabra de Empata Festa; que todos os Mestres de Capoeira vituperem contra essa insanidade; que os Mestres de Caboclinhos neguem a Jurema e o Mel a esses nossos destruidores.

QUE OS ANTROPÓLOGOS, HISTORIADORES, SOCIÓLOGOS, PROFESSORES DE DANÇA, DE POESIA, DE TEATRO, DE LITERATURA, PROFESSORES DE TODAS AS CIÊNCIAS, SAIAM DO CONFORTO DE SUAS UNIVERSIDADES, AUMENTEM SUAS VIAGENS DE ESTUDO PARA AS NOSSAS REGIÕES, SAIAM DE SEU CONFORTO E OCUPEM A NOSSA CULTURA, NÃO COMO OBJETO DE ESTUDO, MAS COMO SINAL DE NOSSA VIDA.

Severino Vicente da Silva Biu Vicente

Elite ou malta

terça-feira, março 17th, 2015

O mês de março vai passando de surpresa em surpresa. As águas e magoas desfilaram nas ruas de muitas cidades do país na esperança que ouvidos deixassem de ser de mercadores ou de mercadantes e, seriamente entendessem o que estava a se dizer. Foram muitos os recados, mas como dizia famoso teatrólogo, cada um vê e entende o que deseja: assim é se assim lhe parece. Pois bem, houve quem simplificasse todas as vozes à um desabafo contra a corrupção que está borbulhando e saindo pelos buracos que os ratos costumam fazer nas fossas. E tudo foi resumido em corrupção.

Se o problema é a corrupção, logo vem o receituário: nada se pode fazer pois a corrupção é “uma velha senhora” que vive no Brasil a muito tempo, “ela não perdoa ninguém”, não há como derrotá-la, pois parece fazer parte do DNA da sociedade. A pessoa que disse tal asneira não poderia ser mais honesta. Talvez mais explícita e dizer: ‘os brasileiros são todos corruptos, assim temos que conviver com isso” e, seguindo a lógica de salão de manicure, se todos os brasileiros são corruptos, a pessoa que disse assim, apesar de ser brasileira de primeira geração, é também corrupta, e está assumindo-se como tal. Comportando-se como os Donos do Poder para colocar-se acima de todos, a todos chama pelo que ela é. Ora, quem disse tal asneira, desrespeitando os brasileiros trabalhadores, é uma senhora que faz parte da “elite, branca, de olhos verdes”. E, todos nós sabemos que a corrupção moral não faz parte do DNA de nenhum povo, que a corrupção moral é construída pelo exemplo que a vida da elite social oferece aos demais sócios.

Para convencer os brasileiros a aceitarem a sua bobagem, ela vem lembrar que lutou pela democracia. Lá em Nova Descoberta, onde cresci, nós sempre achamos horrorosa esse tipo de pessoa que faz algo e depois fica passando na cara da gente que fez. É gente que enxerga o mundo olhando para o seu umbigo. Ora, precisamos entender que nem todos que lutaram contra a ditadura estavam desejando construir uma democracia, alguns estavam querendo colocar outro tipo de ditadura. Hoje à tarde estive com Antonio Vieira, um homem de setenta e dois anos, que está doente, que foi prisioneiro da ditadura, que comeu o pão que o diabo deu a ele, mas que, após o fim da ditadura continuou lutando no meio rural e jamais foi pedir a ‘bolsa ditadura’, não saiu por aí, como fazem alguns, dizendo: “eu fiz isso, eu fiz aquilo, sou coragem e fiz isso por vocês”, passando na cara o sofrimento que passou, posando para história. Ah! essa gente mesquinha diminui, pensando que cresce ao diminuir os outros, fazendo deles seus devedores. Não devemos nada a ninguém, cada um senhor de suas opções.

Esses acontecimentos levaram-me a pensar que fizeram nos acostumar a entender que ser da elite é ter acumulado riqueza material, contas bancárias, casas imponentes, apartamentos de cobertura nas principais praias do país e, viajar constantemente ao exterior e voltar carregados bregueços e bugigangas com o objetivo de expor-se e seduzir os adoradores de materialidades. Mas isso, esse conjunto de coisas não é a elite, é a estupidez humana enriquecida e abestada. É quase uma malta. Uma elite é o grupo de membros da sociedade que é capaz de auxiliá-la a definir seus objetivos e de organizá-la para alcançar o maior bem estar moral, o enriquecimento intelectual e material da nação. Assim, essas pessoas que, em situação de mando e comando, induzem à sociedade ao desespero ao afirmar que nada pode ser mudado para melhorar e que ela deve adequar-se à miséria moral que corrompe, não apenas a economia das empresas, mas alma das gerações.

Talvez seja o tempo de criarmos uma elite, nos tornando nós mesmos. Esses que se apresentaram para orientar o Brasil, mas que sucumbiram ao canto das sereias, eles não possuem a coragem de Ulisses, nem desejam a felicidade que Prometeu arrancou dos deuses, não para si, mas para fazer os humanos livres das idiossincrasias das divindades. Se desejamos ser livres devemos rever o tipo de elite que nos querem impor e, não seremos liderados por quem acaricia ditadores e tolera o mal por preguiça de lutar contra ele ou por ter já optado por ele.