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Dominar, destruir, Amar

domingo, fevereiro 6th, 2022

Dominar, destruir, amar

Severino Vicente da Silva

Diariamente chegam notícias sobre o comportamento dos homens em relação à natureza e aos seus semelhantes. Então, procuro os versículos 25 a 28 do primeiro capítulo do livro do Gênesis, lá encontro o criador, muito otimista, criando o homem e, após orientá-lo a crescer e multiplicar; indica que deve dominar a terra, as plantas, as aves, os peixes. Muitas vezes ouvi Dom Hélder dizer que aqui havia a decisão otimista do criador que convida a criatura para ser cocriador, assim como a dar uma continuidade, uma sequência, aos atos da criação. Mas os vestígios, as notícias, indicam que, ao longo do processo vivido desde então, não demorou muito para que ocorresse a confusão entre o verbo dominar e o verbo destruir. 

Sem entrar nas questões conceituais e etimológicas, leio no capítulo 1 do livro do gênesis na Bíblia, edição da Ave Maria, a expressão “dominai a terra”. Se olho a Bíblia de Jerusalém, as palavras e o sentido delas mantém a ideia de domínio. Quando olho e escuto o noticiário, o de agora e das épocas anteriores, chego a compreender que a criatura confundiu o verbo dominar com o verbo destruir. A criatura veio a se tornar um vetor do processo de entropia, de destruição, processo que pode ser mais sentido, mais percebido nos últimos trezentos anos. Embora possamos encontrar aspectos positivos nas ações que produzem destruição.

O processo de organização dos homens em sociedade tem sempre um componente de domínio sobre os outros seres que, com ele, formam a natureza; inclusive, graças ao seu corpo e o conjunto de habilidades que o seu cérebro permite ampliar, podemos comprovar que o conjunto humano tem aperfeiçoado o seu modo de viver, cumprindo as ordenações de usar a natureza (plantas, terra, animais terrestres, pássaros, peixes). Tem feito, também algumas bobagens, como matar seu semelhante e impor violentamente a sua presença e dominação. Aos poucos, dominar foi sendo entendido por destruir. No livro do Gênesis não está escrito que o criador o mandou dominar outro homem, mas ao virarmos a página do livro, já encontraremos o homem, matando outro homem. Não, Caim não tentou dominar Abel, seu irmão; logo decidiu mata-lo, destruir a vida, romper a continuidade da vida. Quando o homem domina a natureza, inventando a agricultura, não a está destruindo, mas aperfeiçoando-a, exercendo a função de cocriador. Entretanto, quando aproxima-se de maneira a não considerar as expectativas da natureza em manter-se viva para continuar a oferecer condições para a sobrevivência do homem, quando a criatura aniquila as florestas, muda o curso dos rios apenas buscando a satisfação de seu interesse, desconsiderando que há outras vidas envolvidas com a sua ação, vidas que sofrem e não são agentes das transformações, o homem escraviza a natureza, entra no caminho da destruição da natureza, torna-se assassino, inclusive de sua espécie. Quando isso acontece, a parte da natureza que é ofendida pela ação do homo sapiens reage, e o faz de forma tão sutil que, mesmo os mais atentos representantes da espécie Sapiens não percebem. E, não poucas vezes, chamam de eventos naturais aquilo que é fruto de sua ação.

Vendo-se tocados por doenças que, embora não saibam, são resultantes de sua ação, os homens as explicam como sendo ações vingativas da divindade, ou das divindades. E foi assim por alguns milênios, quando as doenças eram vistas como castigo divino, e os homens julgavam que com oferendas, sacrifícios e orações, poderiam vencer o resultado de seus pecados. Foi apenas nos últimos quinhentos anos que os homens começaram a perceber, por exemplo, que as pestes podem ser combatidas e ter seus efeitos diminuídos com o distanciamento social. Depois, a partir do século XVIII, a ciência entrou em campo com ideias de higiene e vacinas. Mas, sempre existiram, como ainda existem hoje, os que se agarram a tradições de que tudo depende da vontade dos deuses ou de Deus. O conhecimento humano científico aponta caminhos que dependem do esforço humano para reduzir os males criados pela confusão entre domínio e destruição da natureza, mas alguns pretendem que o conhecimento religioso, político de tempos imemoráveis sejam mantidos, tirando a responsabilidade dos humanos por seus atos, acusando a natureza dos crimes por eles cometidos, e entregando às divindades a tarefa de promover a cura.

Se a voz de comando, dada no livro do Gênesis, foi aceita e expandida pelos filhos naturais e espirituais de Abraão, esses pouco cuidaram de entender que, aceitando que Jesus seja Filho de Deus, ou segundo alguns, seu profeta, pouca importância se dado ao comando de “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”, escrito no Evangelho segundo João, 15:12.

Temos assistido o crescimento do ódio nesses últimos três mil anos, às vezes em nome do amor à terra em que nasceu, à família, ao bairro, à cidade, ao rei, ao reino. Em nosso país, parece que até criaram uma repartição com o nome de ‘gabinete do ódio’, cuja função é atilar as diferenças, não para louvar a diversidade da criação, mas exatamente o contrário, eliminar a diferença, de modo que só haja um movimento, um pensamento, um grupo. Não um grupo dominante, mas um grupo existente, pois se pretende a eliminação física do diferente. Isso tem sido tentado sempre, mas, no século XX isso foi tentado de modo científico, quer dizer: pensado e executado dentro de um sistema racional em busca do objetivo.

Hoje Dom Hélder completaria 113 anos, ele morreu com a esperança de que não houvesse fome a partir do ano 2000, cultivava a ideia de que as Minorias Abraâmicas contagiassem a todos, que o amor tomasse conta da vida política, que a política fosse a ação amorosa na busca do bem estar de todos, e que isso será possível à medida que os homens conversarem com as pedrinhas, as abelhas, as flores, as matas e os animais. Assim também desejava Francisco de Assis, que começou a mudar as relações humanas, não com missões de conversão dos incréus, mas no serviço dos pobres de sua cidade, vivendo com eles, sem temor, pois o amor não teme. Tem a paciência histórica e o otimismo do Criador.