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Educação, São Salvador do Mundo nas olimpíadas de Tókio

sexta-feira, agosto 6th, 2021

Educação, São Salvador do Mundo nas olimpíadas de Tókio

Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)

Todos os dias sou informado, em dos grupos que participo na rede internacional de comunicação, qual a festividade, qual a lembrança, qual a efeméride ou dedicação do dia. Essas dedicações diárias parecem que pretendem nos educar, nos ligar com o passado e nos preparar para o futuro. Vejo que hoje é feriado em Olinda em homenagem ao padroeiro São Salvador do Mundo; é, também o Dia do Profissional da Educação. Não é o dia do professor, ele apenas um dos muitos profissionais que se dedicam a educar uma geração, ligando-a àquelas que passaram e fizeram o mundo social que vivemos. Educadores são todos os seres humanos, pois todos somos convidados a auxiliar as novas gerações a aprimorar o senso crítico, as suas faculdades intelectuais, físicas e morais. Interessante é que acabamos de sair do pedagógico Mês de Santana, exemplo de educadora. Para os cristãos, foi ela que cuidou a educação de Maria, preparando-a para ser capaz de assumir as responsabilidades que a vida lhe traria. Assim Maria também fez com seu filho e os amigos de seus filhos.

O melhor ato pedagógico é o exemplo, a ação do educador, seu jeito de passar o conhecimento, de ser a ponte das gerações, a liga da humanidade. O comportamento dos mais velhos vale mais que as palavras que ele emite. Ideal é que as palavras estejam sintonizadas com os gestos, pois o ato de educar assim o exige. A ação de educar, é a educação. Quando a ação está distante da palavra, cria-se uma confusão nos mais novos.

Como admitir que alguém ame o povo brasileiro e achincalhe este povo e o deixe morrer, evitando tomar as medidas necessários para diminuir o sofrimento do quem morre e de quem sobrevive à maldade da omissão?

Faz muito tempo que os portugueses chegaram nas terras de Olinda e começaram a viver aqui segundo a educação que receberam e, nos limites de seu tempo e nas condições do tempo em que viviam, buscaram educar o lugar. Trouxeram as certezas que receberam dos seus antepassados e, aqui procuraram viver como foram educados. Evidentemente que, embora sejamos resultados dessa educação, entre aqueles tempos e nosso tempo, muitas mudanças ocorreram, novos conhecimentos foram adquiridos, e foram assimilados com o senso que haviam recebido. Uma das coisas que aprenderam foi o conhecimento das coisas sagradas, aprenderam que houve uma perda e que lhes foi enviado um Salvador para o mundo, e que este Salvador indicou que deviam levar esse conhecimento a todos os lugares da terra. Era isso que estavam fazendo, e o fizeram com os sentimentos das condições que lhe foram dadas nos tempos em que viveram. Esse mandamento, para eles, implicava entender que o outro não tem nada a ensinar sobre as relações com as coisas sagradas, embora tivessem muito a transmitir sobre os conhecimentos práticos para a sobrevivência na terra onde vieram se estabelecer. E aqueles homens e aquelas mulheres tinham tanta certeza disso que provocaram muitas dores e sofrimentos, e devem ter sofrido também. Mas o fizeram porque acreditavam que estavam salvando o mundo, enquanto destruíam outros mundos, tudo reduzindo ao seu mundo. É uma confusão semelhante às confusões a tantas outras ocorridas em outros grupos sociais, neste e em outros continentes e outras culturas e civilizações. Alguns nem sentiram a necessidade de dizer que faziam isso em nome de alguma divindade, mas fizeram mesmo assim. Os seres humanos se organizam dessa forma.

Passados alguns séculos e muitas experiências, hoje a ideia de Salvador do Mundo é outra, embora haja alguns que ainda pensam como Duarte Coelho Pereira e seus companheiros. Faz quinhentos anos era a negação da cultura do outro, hoje os que seguem a tradição do Salvador do Mundo não desejam ampliar as diferenças existentes entre os grupos, mas reconhece-las, aceita-las conviver com elas.

A tarefa dos educadores e profissionais da educação é auxiliar as novas gerações a entender e viver essa nova maneira de ser como o Salvador do Mundo. Mas isso implica que os educadores ajam de modo que suas palavras sejam acompanhadas pelos seus gestos. Quando o Comitê Olímpico se nega a acompanhar os japoneses em um minuto de silêncio em respeito aos que morreram quando da explosão da bomba atômica sobre a cidade de Hiroxima, um gesto de compromisso de evitar que o que ocorreu em 6 de agosto de 1945 volte a acontecer, está a negar o ideal olímpico de buscar a paz entre os povos, está a saudar apenas a competição, não o congraçamento dos povos representados pelos seus melhores atletas que, também deveriam desejar ser melhores cidadãos e melhores seres humanos.

Educar é uma ação cotidiana e ocorre a cada movimento dos seres humanos.  

A necessidade da dança

terça-feira, abril 21st, 2015

O vagar das horas aumenta a sensação de que não há o que escrever ou, talvez já não importe que se escreva ou não, pois se escreve para comunicar-se, de maneira que haja um início de conversa, uma troca de experiência e enriqueça a vida. Mas, parece que o tempo das conversas já passou e resta apenas o tempo do enorme silêncio que é companheiro do profundo medo do próximo movimento. O silêncio, como em Zorba, o Grego, após o desastre do teleférico que deveria transportar a madeira que serviria para a recuperação da mina que poderia modificar o monótono vilarejo dominado por um passado angustiante, cheio de normas que preservam a mediocridade da vida morta. E para quebrar o silêncio, Zorba, olhando a omoplata do carneiro que está a comer diz que prevê uma viagem, referindo-se ao retorno do seu patrão para a Inglaterra de onde veio. E então escuta: Zorba, você me ensina a dançar? E o filme que está em seu término, parece que tem novo início.

Estamos como que necessitando de aprender a dançar, buscar novos movimentos que possam alterar o curso tradicional da vida social. Assistimos, nas duas últimas décadas, a construção de uma estrutura que prometia modificar a vida nacional, garantindo que faria a renovação da nação, que iria superar os fossos que separam e excluem; um teleférico que encurtaria o caminho para o futuro, encimando as dificuldades que estavam postas desde muitos anos. E vimos a construção do teleférico ruir, demonstrando que seus construtores pouco sabiam da natureza da montanha que pretendiam superar, a pressa de trazer o futuro com pedaladas e ações fantásticas, com projetos que não consideraram seriamente todas as tradições da sociedade, julgando que a chegada simplesmente de novas leis e ordenamentos superpostos, de maneira superficial sobre os resistentes costumes criados pela tradição de ocultamentos das taras do poder humano apresentado como divino, por uma quase casta que vive da manutenção da ignorância, em espaço paralelo. O dono da mina que, no filme Zorba, o Grego, utiliza o trabalho físico dos homens do vilarejo para reconstruir a mina que herdou e que deixou fenecer por não usá-la, percebe que ele era impotente diante das tradições que não conhecia e não poderia modificar em uma ação solitária e que atingia apenas um dos aspectos da sociedade, o emprego daquela gente que não tinha futuro. Quando a estrutura que, com o seu trabalho começou a ruir, os trabalhadores não ficaram nem para comer o churrasco da inauguração do teleférico que conduziria a madeira necessária para a reconstrução da mina que, no passado foi a riqueza do povoado. Também fugiram, sem esperar pelo churrasco, a elite do povoado, que sempre vivera socialmente distante dos habitantes do povoado, só os encontrando em momentos de festa, dos carnavais que alegravam seus corações tristes. Foram eles os primeiros a fugir do local onde se construía a novidade do teleférico.

Dançar a vida, título de belo livro de Roger Garaudy, é reconstruir os movimentos e os sonhos após os desastres mais monumentais; é próprio de quem, cultiva e vive com sinceridade a busca da felicidade diante da estupidez que é o silêncio sobre os abusos para manter-se no poder, como fazem no filme, as pessoas comuns e os líderes civis e religiosos daquele povoado. E Zorba dança e ensina a dançar, pois sabe que a vida não termina com a aventura de um teleférico mal pensado e mal construído e que morre a sociedade que atrela a si própria a projetos de poder e não de vida.

A vida e as leituras

segunda-feira, outubro 14th, 2013

 

Um dia dedicado aos filhos e netos. Melhor expressando: um dia que filhos dedicaram a mim trazendo os seus filhos para alegrar meus ouvidos, olhos e todo o corpo.  Casa alegre e um pouco mais de bagunça, de alegria entrando, ficando e saindo. Faltou fisicamente a filha que foi ao su beber chimarrões, celebrar amizades. No mais, a alegria da vida e de suas preocupações.

Uma pausa na leitura iniciada após anos de desejo. Desde cedo, ainda no começo da vida de jovem queria ler. o  padre Miguel Cavalcanti, o vigário de minha paróquia disse algo como “algum dia você vai ler”; outra ocasião escutei que era um livro muito difícil. Não o encontrei nas bibliotecas públicas que frequentei em Casa Amarela e em Olinda. O tempo passou e quase o esqueci, mas ele voltava à minha imaginação e desejo. No início deste ano perguntei a um vendedor de livros e ele não sabia informar se ele estava na lista das editoras que ele representava. a “Vida de Jesus”, escrita em 1863 por Ernest Renan (1823-1892) finalmente chegou à minhas mãos na semana passada em uma edição da Editora Martin Claret, em uma incursão rápida na livraria do edifício onde trabalho.  Ainda na introdução já compreendo o tamanho de sua importância no debate entre ciência e religião no século XIX. A seriedade do autor na leitura exegética da bíblia e dos estudos bíblicos e históricos de então me fizeram retornar às aulas do padre Nércio Rodrigues, da minha formação teológica no Instituto de Teologia do Recife, onde estudei teologia entre 1969 e 1974. Encontro informações que auxiliariam meus estudos naquela época, pois o seu labor metodológico, o seu rigor muito auxiliariam  nos debates na sala das aulas em que foram debatidos os Evangelhos. Claro que a leitura de Renan dificilmente seria orientada por clérigos. Já antecipo o gozo que terei nos capítulos que se seguem. Interessante que este livro só foi publicado no Brasil em 2006, embora já houvesse sido traduzido para o português desde 1926 e, segundo o editor desta edição, com distribuição no Brasil. Mas só agora realizo a leitura desejada desde a adolescência. Talvez tenha perdido muito tempo, talvez esteja em melhor condição de aproveitar melhor a leitura deste clássico.

No final do dia converso com amiga de juventude que se diz desiludida com a política, quando deveria estar sofrida com as ações dos partidos, especialmente aquele no qual depositou os votos desde que pode votar. Esse é um grande problema que temos hoje, separar a decepção eleitoral da decepção política. Há que superar essas dores, enfrenta-las e não escondê-las nos barulhos dos bares, de festivais, de busca ince ssante de prazeres para substituir o prazer da felicidade resultante do esforço e da crença de que podemos e existimos para sermos melhores individual e coletivamente. Precisamos, os que ainda cultivamos esperanças, aperfeiçoar nossos modos de ler a realidade, manter a juventude, não os ídolos que a juventude nos ofereceu. Alguns desses ídolos, agora envelhecidos e envenenados e contaminados com os vícios que combatiam pretendem nos enganar e enganar os mais jovens. Cuidemos para que continuemos jovens,mas não incautos e inocentes úteis por termos medo de superar o mundo que nos foi dado e que criamos.