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Chuvas, Covid e Vida

sexta-feira, fevereiro 26th, 2021

A noite foi chuvosa, a maré estava alta e resultou em alagamentos nas ruas, impedindo muito a chegarem em suas atividades externas cotidianas. As chuvas causam sempre apreensão nas cidades do Grande Recife, embora sejam esperadas pelo alento que trazem para que a sensação térmica torne o dia mais agradável. Nem sempre a brisa marinha, ventilação natural, consegue satisfazer o desejo de bem estar. Mas as chuvas lançam perguntas mais amplas sobre os que moram nas ruas, apenas com a proteção das marquises e o temor de gente malvada que insiste em tornar a vida pior do que ela é.

A chuva forte da noite nos chega quando, em um só dia, morrem atingidos pela Covid19, mais de um mil e quinhentas pessoas que, somadas aos que morreram nos últimos doze meses, no Brasil, somam um quarto de milhão de pessoas. É uma meta que parece ainda não agradar ainda ao presidente da República que usa seu tempo para dizer que o uso da máscara para proteção não tem dado resultado e, por tal razão deve ser negligenciada. Talvez não haja chuva para limpar as bobagens ditas pelo personagem que melhor exemplifica este início do século XXI, um resultado do cultivo da vontade individuais sobre as responsabilidades sociais que vem garantindo a frágil permanência do homem neste planeta.

Este século tem sido a soma da desimportância da vida humana explicitada nas ações das duas guerras mundiais do século passado, nas torturas praticadas pelas ditaduras latino-americanas da segunda metade do século, nas guerras tribais africanas, resultantes da desastrosa maneira utilizada pelas potências europeias quando ocuparam o continente com a ‘missão’ de civilizá-la. Até que se imaginava que a experiência dos fascismos levaria a uma mudança do comportamento humano, debalde. O otimismo que parecia crescer com as promessas da Declaração Universal dos Direitos Humanos, viu-se limitado pela dificuldade em realiza-los, de reconhecer a mulher, a criança, os idosos, os negros, como iguais aos que sempre comandaram o poder. Um último suspiro parece ter sido as revoltas jovens dos anos sessenta em Paris e em Woodstock. Mas o massacre, esquecido, dos universitários do México e o desastre do provocado pelos Rolling Stones e Charles Manson, em 1969. Então veio o pessimismo junto com aperfeiçoamento nas técnicas e formas de comunicação do vazio existencial. E o fim da Guerra do Vietnam, das ditaduras americanas, a vitória dos sandinistas foram incapazes de trazer alento a uma juventude que já tinha tudo resolvido e passou a viver a juventude da geração anterior. Ninguém mais afirmava nada, começou-se a pensar no futuro do pretérito. Todos querem ser o super-homem, aquele que sozinho tudo resolve; perdeu-se, em alguma esquina do tempo, a solidariedade, a prática mutirão. Por isso o poeta disse que “ainda vivemos como os nossos pais”, como os nossos ancestrais?

Desde então vale a “lei de Gérson”, aquela que diz que se deve levar vantagem em tudo. “Farinha pouca, meu pirão primeiro”. O século XXI tem esse tom tribal, pois o globo, como disse Marshall Mcluhan, virou uma aldeia, mas é uma aldeia formada por muitas aldeias e, em cada uma delas uma tribo. As redes de comunicação nos confirmam que quanto mais falamos que existe o “outro”, menos o vemos. Somos Narcisos obcecados, como provamos neste último ano. E, no entanto, venceremos o vírus, como nossos antepassados venceram combates semelhantes, mas venceríamos mais velozmente e com mais beleza, menos tristeza, se estivéssemos agindo com um pouquinho de solidariedade.

Os mais ricos, sempre soubemos, jamais enxergaram e enxergarão além de suas posses. Tem sido assim desde que temos relatos das pandemias dos tempos modernos. Mas venceremos esse desafio com o trabalho coletivo dos cientistas, dos médicos e médicas, das enfermeiras e dos enfermeiros, dos maqueiros, dos auxiliares de limpeza dos hospitais, dos coveiros e de todos que arriscam suas vidas para salvar a vida dos demais. Dos poderosos, das vacas de Bazan, sempre os ouviremos dizer que “a vida é assim mesmo”, enquanto seguem o que ou quem lhes dá sensação de poder e vida.  

 Cantemos com o bardo:

A vida não é só isso que se vê, é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber, as mão não ousam tocar, os pés recusam pisar. ….