Posts Tagged ‘Santana’

Aprendendo dos avós

sábado, julho 24th, 2021

Nosso passado no presente

Prof. Severino Vicente da Silva

No Recife de minha infância o inverno era mais frio, como está sendo o mês de julho deste ano, o que tem surpreendido a muitos, pois o calor tem sido a marca dos últimos anos, talvez em decorrência da diminuição das áreas verdes, talvez pelo avanço do cimento que impermeabiliza o solo. Mas o certo é que esse pequeno frio,, deste mês de Santana, me traz lembranças, como as de minha avó Alexandrina em sua cadeira de balanço, eu no colo. Não sei se é lembrança minha ou dos outros que me contaram, mas parece que do seu colo eu via a rua e a Casa Grande. Assim, lembro dela sempre que, em uma igreja, ou foto em livro, encontro a imagem de uma senhora com um livro na mão ensinando a uma menina. Aprendi que aquela era Ana, e a menina tinha o nome de Maria. Ana ensinava Maria. Essa é uma imagem que deve ter sido criada no Renascimento europeu, pois no tempo da meninice de Maria não havia o tipo de livro que manipulam, mas é a imagem da avó de Jesus mais comum nas capelas dos antigos engenhos que moeram cana durante anos na Zona da Mata de Pernambuco. São muitas as capelas a ela dedicadas, e, disso pode ser deduzido que, as senhoras dos engenhos por ela tinham uma devoção especial. Será que se viam como a Sant’Ana, responsável pela educação dos seus escravos e moradores? Não sei, ensinar exige humildade de servir. Mas o que sabemos de certo é que são dedicadas festas a Sant’Ana de tal forma que, para a população, julho não é o mês do imperador Júlio César, mas o mês de Sant’Ana.

Ana é a avó educadora, transmissora das tradições, mas, entre nós, dedicou-se especialmente às tradições europeias. Hoje vivemos em um mundo mais plural do que o universo que eram os engenhos que produziam açúcar, o adoçante para a Europa, e os engenhos o fizeram de tal forma que hoje há quem confunda doce com açúcar, mais especificamente o açúcar de cana. Talvez seja por isso que se criou o costume de colocar açúcar nos sucos das frutas, diminuindo seus sabores. O castigo é a diabetes?

O Brasil, o povo brasileiro é formado de muitas tradições e de variadas cores, como as frutas da terra, e também as que vieram da África, Europa, Ásia.  Muitas delas já nem as vemos mais, exceto por fotos, e já são várias as gerações que não sentiram o gosto da mangaba. Mas, se a agricultura que busca lucrar pode nos fazer perder a tradição da romã, do sapoti, do ubu, da jaboticaba (esta é utilizada para zombar de algo que é único no Brasil, especialmente as práticas políticas sem sabor decente), não conseguiu esvaziar as memórias das muitas tradições culturais que formam nosso universo mitológico ou religioso. Estou a pensar como essa tradição  que explodiu neste mês de Nanã, na distante Terra do Sol Nascente. O jovem Paulinho comemorou o gol realizado por ele dedicando a Oxóssi, que muitos brasileiros acolhem como São Sebastião, o senhor das matas, vencedor com uma só flecha. Como a única flecha de Oxóssi, o gol de Paulinho, garantiu a vitória; seu gesto enviou a mensagem de que somos vários, os brasileiros. É Nanã, é Ana, cuja celebração ocorre no dia 26, a nos mostrar o livro da vida, mostrar como devemos nos comportar, aceitar e viver nossas tradições.  

O conhecimento, quando chegamos a ele, é sempre doloroso, nos expõe em nossa permanente ignorância, e são necessárias, ao menos duas virtudes para obtê-lo: coragem e humildade. Humildade para aceitar o novo que irrompe e nos rompe a casca de pequeno saber que julgávamos ser todo o saber; e coragem para abandonar a casca que nos protegia, para aceitar e continuar a descobrir coisas novas nas antigas coisas que nossos olhos sociais não nos permitiam ver. Sim nós somos levados a ver o que a sociedade nos indica a ver. Nem todas as pessoas possuem a coragem de aceitar que o mundo é maior que o seu quintal cultural.

Faz algum tempo, um grupo religioso em ascensão social e numérica demonstrou isso levando jogadores a exporem a sua fé nos estádios, afirmando que a sua vitória era a vitória de seu Deus. Nem todos os setores da sociedade sentiram-se confortáveis com esses gestos que, aos poucos, foram rareando. Agora, é a vez dos seguidores das religiões afro-originárias assumir publicamente a sua fé, acreditando na aceitação social da pluralidade religiosa no Brasil, o que causou espanto a muitos que desconhecem os ritos e símbolos sagrados dos Xangôs, Candomblés, Jurema, Macumba, Umbanda. Foi necessário, é necessário, explicar para facilitar a compreensão desse fenômeno que nos ajudará, creio e desejo, a viver em uma sociedade laica que, no futuro compreenderá que a prática religiosa deve ser respeitada, praticada com simplicidade, sem agressividade.

Sempre podemos aprender com nossos avós, com nossos ancestrais. Assim, Salve Nanã, Salve os Espíritos das Matas, Salve SantAna.

Sant’Ana

quinta-feira, julho 7th, 2011

O tempo tem passado com alguma presteza neste ano de 2011, especialmente para os que estão à frente do governo do Brasil. Entrando no sétimo mês, já contabilizamos mudanças em quatro ministérios da presidente Dilminuída. Não está sendo fácil administrar a herança maldita que ela e seu chefe deixaram no final do ano passado. Afinal, são dois ministros afastados por suspeita de corrupção. O mais interessante é que esses dois foram ministros do antigo chefe da Dilminuida. O segundo deles, esse que esteve à frente do ministério dos transportes, tem um filho que, como o filho do chefe, ficou rico à medida que o pai assumiu cargos importantes na República. maracutaiaA atual presidente parece que vai passar o tempo do seu governo descobrindo “maracutais” – essa é a palavra que um antigo líder sindical costumava utilizar – que vinham ocorrendo no governo do seu antigo chefe, do qual ela participava e é continuadora. Esta é uma herança maldita.

A Dilminuída cresceu um pouco ao demitir os principais assessores (ou asseclas?) do ministro, mas demorou a demitir o ministro. Porém é um alento para as finanças públicas que ela não tenha passado mão na cabeça desse ministro que pode vir a ser chamado de incompetente ou corrupto. Incompetente se provar que não sabia o que estava acontecendo no ministério desde o tempo do seu amigo Luiz Inácio da Silva, conhecido em todas as esquinas como Lula. Será visto como corrupto se ficar provado que sabia e nada fez para impedir a má gestão da coisa pública. Ele é uma pessoa de confiança do ex-presidente, o ex-metalúrgico. Ficou ministro enquanto Lula estava indo a Brasília. Mas como Lula não está lá, agora, Dilma pode crescer se souber afastar-se dessa turma que ela herdou.

Algumas coisas intrigam neste país: enquanto todos querem saber o que aconteceu nos porões da ditadura, tem um pessoal querendo sigilo eterno sobre aquele período e outros. Temos uns “pais e mães da república” que querem defender a democracia deles para eles. Podemos perguntar: o que querem esconder? Esse grupo do segredo também quer manter sigilo sobre as despesas na construção dos estádios que irão ( ou iriam) sediar a copa do mundo de futebol. O Brasil está se tornando a democracia do segredo. Tem também um grupo, o ex-chefe entre eles, que deseja o voto sigiloso. O eleitor vota, mas não pode saber em quem, pois votará em uma lista fechada. Teremos, a seguir esse curso, a transparência sigilosa. Chego a lembrar do professor Pardal que foi o inventor de uma lâmpada que projeta o escuro. Assim o pessoal  do “ministério do transporte de dólar na cueca” poderá repetir a máxima sabedoria de outro amigo do ex-chefe da atual presidente: “transparência demais é burrice”.

santaana

Mas eu não queria falar de política, por isso é que caminhei pelo caderno policial de um jornal. Eu queria é pedir a Sant’Ana, a protetora das avós, que cuide da atual presidente, para que ela possa superar a herança maldita que ela ajudou a construir e recebeu para administrar. Que Sant’Ana, a mesma que não deixou Lutero morrer em uma noite de tempestade, que ela auxilie o Brasil a vencer as maracutaias e esses quarenta ladrões.