Posts Tagged ‘Religião’

Memórias do ITER e de um prédio

terça-feira, agosto 26th, 2014

 Algumas memórias de um tempo quente

Severino Vicente da Silva

 

O que ocorre com agosto? A cada ano o mês parece trazer novidades para o que parece ser sua sina: tempo de acontecimentos e experiências pouco agradáveis à lembrança. Desde a fatídica Noite de São Bartolomeu, no século XVII, massacre físico de um grupo que intendia dominar a França e foi interceptado pela força astuciosa de Catarina de Médicis na defesa do trono francês para seus filhos, até o início de agosto de 1945, na explosão das bombas atômicas que puseram fim a uma época que insiste em permanecer: a época das modernas e permanentes verdades, sejam elas religiosas ou científicas. O mês que Augusto criou para sua exaltação como a realização da felicidade da Paz Romana vem se tornando a época dos desastres promovidos pelos aprendizes de feiticeiros, que desejam ser senhores da história. Mas esse peso que carrega agosto pode ser mais uma maneira religiosa de ler os acontecimentos, mas de tão repetida pelas gerações, talvez desde tempos imemoriais.

No mesmo dia, 25 de agosto, que recebi informação sobre missa que “celebra os 15 anos da páscoa definitiva de Dom Hélder Câmara” ocorreu o incêndio em prédio que pertence à Arquidiocese de Olinda e Recife, onde estava funcionando  o Pró-Criança, atividade da mesma arquidiocese, criada pelo arcebispo emérito Dom José Cardoso, sucessor de Dom Hélder.  O mês de agosto não pode ser descrito de maneira negativa na vida de Dom Hélder pois nele ocorreu a sua ordenação sacerdotal e, como disse a correspondência de Normandia, foi a sua Páscoa. Mas o prédio que sofreu incêndio neste 25 de agosto, como o Pavão Misterioso “tem muitas histórias prá contar”. As casas, os edifícios são carregados de história e de significados. Foram imaginados pelos homens, construídos intencionalmente para algumas atividades. E eles cumprem essa tarefa de maneira a cada tempo de sua existência. Vamos conversar um pouco sobre o que eu sei da história do prédio situado na Rua dos Coelhos, que durante algum tempo ficou conhecido como o prédio do ITER.

No início do século XX os comerciantes do Recife, especialmente os das Ruas Barão de São Borja e da Imperatriz sentiam-se pressionados pelo número de pedintes que “atrapalhavam” a sua atividade. A modernização trazia consigo o crescimento desordenado da cidade e um dos caminhos para socorrer os que não são incluídos positivamente, mas apenas enquanto forem saudáveis trabalhadores, é a caridade, entendida como adjutório. Nesse contexto surgem padres que procuram atender as demandas sociais e espirituais da sociedade, como o Padre Machado, o Padre Félix e o Padre José Venâncio de Melo. O padre Machado dedicou-se no serviço educacional dos jovens, especialmente os que viviam na área portuária. O padre Félix na organização de escolas de ensino secundário e médio. Já o padre Venâncio estava mais voltado à assistência dos que viviam em torno do Hospital Pedro II e da rodoviária que então estava na propriedade dos Coelhos. Era presidente Companhia de Caridade. Conseguiu terreno e construiu prédio inaugurado, em 1918, que servia de hospício aos que iam ao hospital ou estavam de passagem na capital. Também organizou uma cozinha que preparava almoço para os pobres, usando as esmolas conseguidas no comércio. Assim, quando um desses pobres chegavam no comércio em busca de dinheiro para alimentação, os comerciantes os mandavam para a casa do Padre Venâncio, esta que o fogo derrubou parte de suas estruturas no dia 25 de agosto deste 2014. Nos anos cinquenta a cidade cresceu e renovou-se em torno da Avenida Guararapes e da Avenida Conde da Boa Vista, a rodoviária é levada para a proximidade da Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José e o Hospital Pedro II inicia o processo de declínio que levará aos encerramento de suas atividades. O bairro dos Coelhos é esquecido dos grandes acontecimentos sociais.

Entretanto o prédio passou a ter outras ocupações. Era um tempo de renovação da pastoral de igreja, de nova Ação Católica e o hospício, casa de refrigério para os viajantes passou a receber jovens da Juventude Operária Católica – JOC e dos outros ramos da Ação Católica. A casa do padre Venâncio já esquecera seu fundador, pois cada geração, parece querer ser a primeira. Duas décadas a casa acolheu jovens de todo o Brasil e, talvez devamos pesquisar para lembrar quais os Assistentes eclesiásticos da JAC, JEC. JUC que mantiveram encontros de oração e trabalho naquela casa. Mas então veio 1964 e o choque entre os jovens católicos e a hierarquia. Aos poucos o prédio foi esvaziando, mantendo-se vivo porque antigos jocistas e jucistas estabeleceram no térreo um Centro de Trabalho e Educação. O século XX assistiu e foi tempo de grandes transformações que tomam seu quase exato tamanho com o passar do tempo que engole as experiências como que para melhor entender o que esteve acontecendo. Faltamos uma reflexão do padre Sena, talvez um descrição daquele tempo, ou de Almery. Esses silêncios é que fazem os mais novos pensarem que estão a iniciar a história.

E foi em 1968, quando ocorreu um desquite entre a Juventude Católica e a Igreja Católica, que foi fundado o Instituto de Teologia do Recife – ITER, o quase ainda não estudado ano de 1968, nas dioceses e paróquias católicas. Inicialmente funcionando no primeiro andar da Universidade Católica de Pernambuco, no ano seguinte já na Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE; em 1971 mudou para o Juvenato Dom Vital, na Rua do Giriquiti, mesmo prédio onde funcionavam a Chancelaria da Arquidiocese e o Secretariado da CNBB – NE, finalmente, em 1978 o ITER foi para o prédio construído pelo padre Venâncio. É quando comecei a ministrar aulas de História Geral da Igreja. Os jovens estudantes de filosofia e teologia passaram a ser parte da dinâmica do velho bairro. Um quase rejuvenescimento, com esses jovens chegando a cada manhã. A biblioteca ocupou o térreo, uma rica biblioteca que teve Eduardo Hoornaert como guardião quando o Seminário Regional do Nordeste esteve em Olinda e Camaragibe. Muitas tardes fiquei naquele espaço lendo e estudando para entender o percurso da Igreja Militante. O ITER foi local de muitas experiências e reflexões. Instituto de formação para de presbíteros e agentes pastorais leigos, Aos sábados o prédio continuava recebendo estudantes em um curso de teologia mais voltado para agentes pastorais que atuavam nas paróquias e não podiam assistir as aulas durante a semana. E havia mulheres consagradas ensinando teologia e teólogos cristãos não católicos ministrando e recebendo aulas. E vieram estudantes e professores do Rio Grande do Sul, dos estados do Nordeste e do Norte do Brasil, do Sudeste. E vieram da Alemanha, da Holanda, da França, dos Estados Unidos. E havia muitos debates. E muitas contradições. Recebemos pesquisadores da Europa e dos Estados Unidos. Foi de uma riqueza enorme para os que participaram do ITER. E, claro, os ventos que sopraram no imediato pós Vaticano II foram sendo dispersos no pontificado de João Paulo II, como a fazer cumprir a profecia de Paulo VI ao comparar as vagas da história com as ondas do mar.

Várias visitas apostólicas indicavam que o tempo da experiência estava sendo esgotado e, como disse um sábio jesuíta, voltava a “velha disciplina”. Na sala da Diretoria do ITER compreendi o que significa essa expressão em uma reunião com o Conselho Superior do Centro Nordestino de Pastoral – CENEPAL, para a escolha da diretoria do ITER após a aposentadoria de Dom Hélder Câmara, no comportamento de submissão ao novo Arcebispo e, foi graças ao apego à letra da lei que o padre Cláudio Sartori e eu fomos mantidos na direção do ITER.

Em 1989 veio a resposta a perguntas saídas das reuniões episcopais; eram perguntas que não seriam feitas, e não foram, em outros tempos. A resposta foi o encerramento das atividades do Instituto de Teologia do Recife que prestou grande serviço à Igreja formando 21 anos quase duzentos presbíteros para servir nas dioceses do Norte e Nordeste, além de fornecer pessoas qualificadas para as diversas pastorais e instituições da sociedade. Foram momentos difíceis, especialmente para os diretores naquele momento. Dói demasiado, para quem vive do magistério, fechar uma escola. Dói muito ter que controlar a dor de jovens insatisfeitos e desejosos de mudanças verem ruir seus sonhos, bater na parede do tempo, envelhecer em minutos sem compreender o que está ocorrendo. Ainda hoje carrego a dor de juntar professores e alunos para convencê-los que nada adiantaria lutar, fazer protestos, caminhadas. Roma havia falado, e a obediência era pedida. Como doeu aquela manhã, aquele vento frio que queimava as nossas entranhas. Foi um sofrimento que durou anos e ainda dói.

Depois foi arrumar o final do semestre enquanto as dioceses e congregações encontravam um meio de diminuir as perdas. No final do ano a celebração de despedida no auditório que havia sido reconstruído poucos meses antes. Vários bispos lamentando a resposta às suas perguntas à Santa Sé. Depois que todos falaram os alunos pediram que eu dissesse algo. Talvez fosse melhor não dizer o que todos ali sabiam. Eu vivi o ITER desde 1969, de aluno a Vice-diretor. Não esqueço as palavras que disse, mas não as repetirei aqui, como dizia Dom Hélder, fica como um segredo entre nós, nós os que estavam naquela última missa do ITER.

A biblioteca foi partida: uma parte para Seminário de João Pessoa e outra para o Seminário de Olinda. Não fui convidado a participar de nenhuma dessa nova etapa na formação de sacerdotes, por isso chego a ter remorso de não ter ficado com nada como espólio, só a saudade e a fé que independe do ordinário que esteja à frente da diocese, paróquia ou capela. Padre Diomar Lopes uma vez disse que ‘invejava’ a fé de sua mãe, pois ela o ensinara que Deus é maior que a Igreja. Assim também aprendi com minha mãe, com padre José Comblin, com padre René Guerre, Com Irmã Ivone Gebara, com Irmã Valéria Rezende, com o padre Eduardo Hoornaert, com padre Lourenço Mullemberg, com o irmão Michel Bergman, com o padre Yves Morpeaux, e muitos outros que dedicaram-se aos estudantes do ITER.

As chamas que neste mês de agosto de 2014 destruíram os objetos do Pró-Criança, programa criado por Dom José Cardoso que encontrou novos modos de dar continuidade ao uso do prédio criado pelo Padre Venâncio. Estive naquele prédio para atender vários organismo não governamentais que queriam saber como foi a história antes deles se organizarem. Hoje vi parte do prédio interditado pois uma parte dele deverá ser derrubada, exatamente o lado onde estava a biblioteca do ITER, no térreo e as salas de aulas nos andares superiores.

O ITER está presente no Acre, onde alguns de nós estão envolvidos na administração pública, na política e também na Igreja; o ITER está presente em Santarém, PA; o ITER está presente no episcopado nacional; está presente no CIMI; em várias dioceses na Bahia, em Sergipe, em Alagoas, na Paraíba, na Câmara dos Deputados, o ITER está presente em comunidades luteranas no Rio Grande do Sul e em muitas universidades e faculdades em cidades de porte médio e grande.  Como disse Dom Hélder uma vez quando de sua visita em 1983: iter é caminho.

A vida e as leituras

segunda-feira, outubro 14th, 2013

 

Um dia dedicado aos filhos e netos. Melhor expressando: um dia que filhos dedicaram a mim trazendo os seus filhos para alegrar meus ouvidos, olhos e todo o corpo.  Casa alegre e um pouco mais de bagunça, de alegria entrando, ficando e saindo. Faltou fisicamente a filha que foi ao su beber chimarrões, celebrar amizades. No mais, a alegria da vida e de suas preocupações.

Uma pausa na leitura iniciada após anos de desejo. Desde cedo, ainda no começo da vida de jovem queria ler. o  padre Miguel Cavalcanti, o vigário de minha paróquia disse algo como “algum dia você vai ler”; outra ocasião escutei que era um livro muito difícil. Não o encontrei nas bibliotecas públicas que frequentei em Casa Amarela e em Olinda. O tempo passou e quase o esqueci, mas ele voltava à minha imaginação e desejo. No início deste ano perguntei a um vendedor de livros e ele não sabia informar se ele estava na lista das editoras que ele representava. a “Vida de Jesus”, escrita em 1863 por Ernest Renan (1823-1892) finalmente chegou à minhas mãos na semana passada em uma edição da Editora Martin Claret, em uma incursão rápida na livraria do edifício onde trabalho.  Ainda na introdução já compreendo o tamanho de sua importância no debate entre ciência e religião no século XIX. A seriedade do autor na leitura exegética da bíblia e dos estudos bíblicos e históricos de então me fizeram retornar às aulas do padre Nércio Rodrigues, da minha formação teológica no Instituto de Teologia do Recife, onde estudei teologia entre 1969 e 1974. Encontro informações que auxiliariam meus estudos naquela época, pois o seu labor metodológico, o seu rigor muito auxiliariam  nos debates na sala das aulas em que foram debatidos os Evangelhos. Claro que a leitura de Renan dificilmente seria orientada por clérigos. Já antecipo o gozo que terei nos capítulos que se seguem. Interessante que este livro só foi publicado no Brasil em 2006, embora já houvesse sido traduzido para o português desde 1926 e, segundo o editor desta edição, com distribuição no Brasil. Mas só agora realizo a leitura desejada desde a adolescência. Talvez tenha perdido muito tempo, talvez esteja em melhor condição de aproveitar melhor a leitura deste clássico.

No final do dia converso com amiga de juventude que se diz desiludida com a política, quando deveria estar sofrida com as ações dos partidos, especialmente aquele no qual depositou os votos desde que pode votar. Esse é um grande problema que temos hoje, separar a decepção eleitoral da decepção política. Há que superar essas dores, enfrenta-las e não escondê-las nos barulhos dos bares, de festivais, de busca ince ssante de prazeres para substituir o prazer da felicidade resultante do esforço e da crença de que podemos e existimos para sermos melhores individual e coletivamente. Precisamos, os que ainda cultivamos esperanças, aperfeiçoar nossos modos de ler a realidade, manter a juventude, não os ídolos que a juventude nos ofereceu. Alguns desses ídolos, agora envelhecidos e envenenados e contaminados com os vícios que combatiam pretendem nos enganar e enganar os mais jovens. Cuidemos para que continuemos jovens,mas não incautos e inocentes úteis por termos medo de superar o mundo que nos foi dado e que criamos.

A pressa da mudança

terça-feira, abril 23rd, 2013

Seis horas da manhã. Salvas de fogos anunciam, em lugar do galo, que a manhã chegou brilhante. Não acontece todos os dias, mas alguns dias recebem tratamento especial pois fazem parte da enorme tradição religiosa que acompanha a humanidade desde seu início. Vinte e três de abril, além de ser o dia do nascimento de minha neta Tereza, marca, também o choque entre os sentimentos de afeição de temor, alumbramento, submissão amorosa às forças da natureza e a racionalidade do mundo moderno que a tudo analisa e procura entender objetivamente. O que não pode ser explicado pela razão não pode existir é a afirmação que se contrapõe à necessidade de se crer primeiro para então chegar ao conhecimento.

Os da minha idade, nascidos nos anos seguintes à guerra Segunda do século XX, cresceram quando os usos dos objetos diminuíam rapidamente a dependência que os humanos sempre tiveram da natureza e, cada vez mais tornavam-se senhores dos segredos da vida, desde as visíveis até às invisíveis. Há mais coisa entre o céu e a terra que não se vê e, portanto não as podes compreender com a tua vã filosofia, dissera um poeta no início do mundo moderno e racional que ele intuía. É certo que o mundo do poeta ainda estava carregado da sacralidade cultivada desde os tempos mais antigos. Desde então mundo vem sendo compreendido de maneira mais ampla que a dualidade que sempre orientou as relações dos seres humanos com o meio que de seu pertencimento. Desde o tempo do poeta, os homens vem se tornando estranhos em seu lar. É isso que me sugere os fogos em homenagem a São Jorge, santo de devoção de muitos povos  gerados no pensamento religioso cristão que ensinava ser a crença o pressuposto da existência. Mesmo alguns dos povos que inventaram o mundo que dá primazia à experiência para se alcançar o conhecimento, mantiveram a  tradição de cultuar o herói que em seu cavalo salvou populações de males terríveis. Outros povos que vieram a tropeçar ou serem tropeçados pelos europeus, atualizaram as suas tradições e o guerreiro matador de dragões passou a ser o defensor pessoal contra as forças que irrompem nos mais profundos recônditos lugares.

Os fogos que me acordaram esta manhã, lembram-me que,  no afã de aggiornar-se ao mundo das técnicas racionais, o catolicismo romano, nos anos imediatamente após o Concílio Vaticano II, definiu que Jorge não mais poderia estar nos altares. Ele e muitos outros. A razão parecia ter chegado aos altares por caminhos diferentes daquele imaginado na França dos Robespierre e Danton. Os de minha geração, no Brasil, podiam fazer o paralelo entre a ação dos militares que chegaram ao poder no golpe de sessenta e quatro em cassar os direitos políticos de muitos  brasileiros com a racionalidade melancólica de Paulo VI retirando dos altares os santos cuja existência não puderam ser provadas cientificamente pela pesquisa histórica. Os batuques que hoje serão ouvidos em muitos lugares da América Católica parece nos indicar que o saudável desejo de teólogos e líderes católicos em aproximar-se do mundo moderno, em alguns aspectos foi realizado com muita sofreguidão e, em alguns casos, como um serviçal desatento, jogaram a água suja, sem perceber que a criança ainda estava na bacia.

Quando se apressa muito o caminhão da mudança corre-se o risco de esquecer no lugar de onde se sai algo muito querido. A perda provocada por esse esquecimento pode ser irreversível. Mas na parede da memória o perdido ficará, nos lembra outro poeta.

Alguns pensamentos sobre minha mãe

quarta-feira, setembro 5th, 2012

Alguns pensamentos sobre minha mãe

Severino Vicente da Silva

 

Estou na sala de velório, ao lado do corpo de minha mãe. É uma situação semelhante à que vivi quando da morte de meu pai, pois então fiquei toda a noite em silêncio, esperando que chegasse a madrugada e, com o sol, viesse a minha mãe para preparar o corpo para a sepultura. Hoje não espero a minha mãe. Ela nunca mais virá com seus passos miúdos e jeito silencioso enquanto organizava o mundo ao seu redor. Ela sempre foi assim. Sua irmã Beatriz uma vez disse-me isso. Das filhas de Severino Cota e Alexandrina, foi a única que frequentou pouco tempo os bancos escolares.

Nascida em fevereiro de 1923, Maria Ferreira casou com João Vicente aos 16 anos e concebeu onze filhos. Apenas sete vingaram e cresceram. Formavam uma escada a cada dois anos, Josefa Maria, José Vicente, Maria José, Severino Vicente, Terezinha de Jesus, Antonio Vicente e, depois de muito tempo Jorge Cláudio. Apenas Jorge Cláudio nasceu em maternidade, todos os demais partos foram em casa, assistidos por parteiras. Maria cuidava da casa, dos filhos, do marido e ajudava na venda. Quando o marido ficou muito doente, cortando o solo na seca de 1952, ficou internado no hospital Pedro II, Maria ficou com as crianças e o comércio do marido na propriedade Boa Esperança, em Eixo Grande, na beira do Rio Capibaribe. Foi nesse tempo que o marido decidiu que os seus filhos não ficariam presos na terra e no cabo da enxada. Retirou-se com a família para Casa Amarela, no Recife, mais exatamente no lugar Nova Descoberta. Era o ano 1954. E era mais uma família migrante na Zona Norte do Recife.

João manteve o comércio e cuidava de criar os filhos. Maria cuidava da casa, do marido e ajudava na venda. Teve tempo para ajudar os padres Severino Santiago,  Paulo Crespo e Inácio Vieira a organizar a comunidade católica na Capela Santa Terezinha. Animava a comunidade quando acontecia as Santas Missões, pregadas pelos padres Redentoristas, em 1956.  Ajudou na construção da Igreja Matriz, fundou o Apostolado da Oração. Seus filhos estudavam, ajudavam nas missas, organizavam a Cruzada Eucarística e a Legião de Maria. Maria cuidava da casa, do Apostolado da Oração, animava a Conferência de São Vicente de Paula e viu ser criada a Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta,no ano de 1959, e ajudava o marido na venda. Era última a ir dormir, mas às cinco horas da manhã começava o lenga-lenga para a criançada acordar e ir para a escola. Nunca faltou roupa limpa, nunca faltou a refeição no horário. Os filhos mais velhos foram matriculados em colégios particulares.

Maria Ficou contente quando seu filho Severino disse que queria ser padre. Toda semana preparava uma lata de doce de bata doce e levava para o filho no seminário da Várzea. Um dia o filho disse que ia sair do seminário. Maria ficou triste, mas jamais desencorajou o filho. Quando o marido exigia muitos dos filhos, ela dava um jeito de diminuir a dor deles. Mas o seu carinho não era derramado e pegajoso. Um carinho nas roupas da escola, as do cotidiano e aquelas usadas nos desfiles de gala nos dias Sete de Setembro ou nos desfiles dos jogos escolares que aconteciam no campo do Sport Club.  Era um carinho sério que era transmitido pelo trabalho diário, nem sempre compreendido pelos filhos e filhas. Sofreu silenciosa as dores causadas pelo orgulho dos filhos e filhas. Não me recordo de ouvir sua voz levantada contra o marido nem sempre carinhoso, mas sempre dedicado à família. João e Maria foram um casal da tradição e da parcimônia, da bondade, da seriedade.

Não deve ter sido fácil atravessar o século XX, mas a bagagem de caráter e a entrega irrestrita à vontade de Deus deu condições a Maria Ferreira ensinar seus filhos e filhas, aos netos e netas, o caminho da retidão, do respeito, do amor. Às vezes as encruzilhadas da vida não deixam que as lições sejam aprendidas pela arrogância da juventude ou pelo luzir dos entretenimentos. Quantas foram as provas que a vida pediu a esta mulher! Uma vez, lembro-me, menino de 12 anos, no Seminário da Várzea preparei um presente para ela, no dia das mães.  Comprei um livro, A Imitação de Cristo, fiz uma capa e entreguei. Nunca soube se leu, pois apenas sabia assinar o nome. Mas recebeu o presente com um riso e um abraço. Ela era muito econômica nos abraços. Mas ainda me lembro de minha insensibilidade em não notar seu limite na leitura e da sua sensibilidade em não me deixar perceber minha gafe. Quando ela já estava com sessenta anos começou a frequentar uma escola noturna. Algumas vezes a surpreendi com o lápis e caderno. Aprendeu muito, nos últimos anos cuidou de tudo com o seu tirocínio e fé inabalável no poder de Deus. Nenhum de seus filhos e filhas ouviu desespero quando a traquinagem de José Vicente, temeroso do castigo do pai fugiu de casa. João saiu pela cidade como um louco, eu o acompanhei a rádios e a muitas igrejas para promessas. José voltou e aconteceu a primeira grande festa da família, alem do São João, suas pamonhas e canjicas. Ah! Mamãe fez pamonha para a família até o último ano de sua vida. E as buchadas, os torresmos de galinha, os pés de moleque na folha de bananeira, os doces de coco com mamão, o café torrado no tachado e batido no pilão de assento. A comida que ela preparava tinha o sabor do céu, e gostava quando a casa estava cheia. Mas era o gostar silencioso, como o de Maria, a mãe de Jesus. Mamãe tinha o coração de Maria, pois tudo guardava no silêncio do seu coração.

Mulher disciplinada, sempre cuidou de sua saúde e da de muitos. Meu tio Abdias, figura difícil quando bebia – bebia muito – chegou em casa doente para ficar um tempo. Ficou muitos anos, tanto tempo dando todo tipo de trabalho, nunca saiu, exceto para morrer, e mamãe o preparou para a sepultura. No mesmo hospital Evangélico onde cuidou do corpo de sua mãe, Vó Xandina, a avó que tinha um riso manso, um colo doce da minha infância em Serraria. Mamãe também cuidou da sua sogra, a minha Vó Florinda. Cuidou de sua irmã Juliana que a gente chamava de Julinha e de seu irmão Sérgio Cota. E tinha um apreço especial pelo cuidado dos enfermos na paróquia. Todos os anos havia uma festa na igreja porque os doentes eram levados lá, os doentes que ela visitava com o viático.

E depois de crescer os filhos, também cuidou para que sua filha mais velha pudesse trabalhar e estudar com tranquilidade, pois dona Maria ficava com os netos e netas em crescimento. A casa que criara os filhos continuava a sua função de casa-mãe, lugar de permanente  recriação de vida. A casa 1420 da Rua Nova Descoberta esteve sempre aberta para as novidades, com a aprovação sem alardes. Acompanhou seus filhos na aventura da criação do Conselho de Moradores de Nova Descoberta; recebeu estudantes de teologia vindos dos Estados Unidos, do Rio Grande do Sul, e do Rio Grande do Norte. Mamãe, mulher de silêncio, suportou a aventura de um conjunto de rock and roll, juntamente com o esposo, para o crescimento do filho. E como ficou desolada e temerosa quando o filho José entrou para a Marinha de Guerra e foi conhecer o mundo. E que alegria os almoços festivos dos retornos, como a feijoada que me recebeu após um ano nos Estados Unidos da América do Norte. E a alma da casa 1420 sofreu com a prisão do filho durante a ditadura militar, mas fortaleceu-se com o apoio que recebeu da comunidade que salvou os livros do filho. Apresentou diante das poderosas autoridades a mesma fortaleza com que defendeu o seu direito de voto quando enfrentou o marido autoritário que quis lhe impor a vontade. Dona Maria Ferreira sempre cuidou de não se deixar intimidar, nem mesmo quando uma certa “doutora” quis envergonhar seu filho. Ela cuidou de pôr a suposta aristocrata no seu lugar, ou seja, no lugar de respeito a Dona Maria Ferreira, que, com um pequeno comentário expôs a pouca sabedoria da douta senhora. Dona Maria, mulher religiosa, que recebeu Dom Hélder Câmara várias vezes em sua casa, jamais disso fez sua glória, mas sempre cuidou de todos com o mesmo respeito. Em sua casa também almoçou Dom Antonio Saburido.  Seu exemplo de vida e hospitalidade deve ser doloroso para os que se julgam melhor por terem sapatos mais finos, embora seus corações sejam duros como pedras impermeáveis para o amor.

Muitas mulheres viveram as mesmas angústias de Mamãe, mulher nascida na Zona da Mata e que soube atravessar as grandes mudanças do século conflituoso e mudanças tantas que filósofos não conseguem acompanhar e se deixam cair dos andaimes de seus pressupostos e à  mudanças mais radicais nos costumes. Olho para o seu corpo inerte e lembro da noite em que me procurou para conversar sobre os modos de minhas irmãs, pois não sabia como fazer para comunicar-se com elas. Mas teve outro momento, ela que não ia a festas, incentivava-me a levar as meninas para bailes, uma vez que o irmão mais velho não o faria. Mas esses eram movimentos tão sutis que quase nunca eram compreendidos pelos filhos. Como seu marido, dona Maria Ferreira conviveu com as diferenças mais improváveis, tolerando-as, aceitando-as. Sem discursos ideológicos, sem militâncias ostensivas abriu veredas diversas para seus filhos, e jamais cedeu no essencial, no respeito a cada um como Filho de Deus, como ser humano. A prática da caridade, quase sempre tangível na entrega de alimentos, roupas ou outros objetos, era mais que isso: era a caridade da visita, da preocupação com outro, de atender o pedido que não foi solicitado e, mais que tudo, jamais incomodar o outro com os seus problemas pessoais.   Que força tinha essa mulher para aceitar mudanças de credos religiosos e políticos, no seio de sua família, sem que seu amor diminuísse! Como diz boa doutrina católica, só não é aceito aquele que não quer ser aceito na gratuidade, só não recebe o perdão aquele que exige condições para o amor. Como mulher religiosa e da boa doutrina católica, Dona Maria Ferreira era o sopro do Divino Espírito Santo

A morte do marido tornou explícito o espírito de uma mulher empreendedora. Continuou mantendo a família que crescia. Diminuiu suas atividades  após o atropelamento que sofreu uma noite quando estava a caminho da igreja. Suas pernas começaram a ceder e ela perdeu a sua autonomia de sair sozinha. Comprou um carro para a filha, assim realizava dois sonhos: o seu e o da filha. Também cumpriu alguns desejos, como conhecer o Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

Este texto não é a biografia de Maria Ferreira da Silva, é um monte de pensamentos que chegam à minha memória, olhando seu corpo inerte tendo ao peito a fita de zeladora do Apostolado da Oração, do qual foi fundadora em Nova Descoberta e sua presidente durante muitos anos. Custa crer que tantas atividades foram realizadas por este corpo, agora sem vida, e nem todos notamos o quanto elas demonstram uma mulher generosa, corajosa, sensível, humilde e agente da sua história e da história de sua comunidade, de sua igreja, do seu bairro.

Termino este texto testemunhando que a comunidade católica de Nova Descoberta conseguiu um ônibus para vir até Paulista e ser uma representação daquelas ações de Dona Maria Ferreira, da importância histórica de sua vida para aquela comunidade à qual ela dedicou-se desde 1954 quando ali chegou. Várias gerações vieram testemunhar a importância de sua vida. Como sempre acontece, as gerações seguintes não conseguem compreender  de imediato a história. É sempre necessário tempo para que se possa compreender o tempo que passou no tempo que se está vivendo. Luiza, catequista da comunidade nos anos cinquenta e sessenta, atuante no movimento Encontro de Irmãos, não se conteve e lembrou que Dona Maria Ferreira fez história, disse que mais que missionária foi ela, Maria Ferreira, profeta da vida e da esperança; falou de que a caridade de Maria era a sua vida, a sua doação, e que ela foi um sopro de Deus entre nós. Um sopro desde 8 de  fevereiro de 1923 até 4 de setembro 2012.

Que sejamos Dignos dela, como ela foi e é digna das promessas de Cristo.

 

Escrito no 5 de setembro de 2012.

A Inquisição de hoje e as religiosas norte-americanas – escrito por Ivone Gebara

sexta-feira, abril 27th, 2012

A Inquisição de hoje e as religiosas norte-americanas (por Ivone Gebara)

Mais uma vez assistimos estarrecidas “a avaliação doutrinal” ou a chamada de atenção ou a punição dirigida pela Congregação da Doutrina da fé para quem, segundo ela, foge da observância à correta doutrina católica. Só que agora não apontaram o dedo acusador para uma pessoa, mas para uma instituição que congrega e representa mais de 55.000 religiosas norte-americanas. Trata-se da Conferencia Nacional das Religiosas conhecida pela sigla LRWC – Conferência da Liderança Religiosa Feminina. Estas religiosas ao longo de sua história desenvolveram e ainda desenvolvem uma missão educativa ampla em favor da dignidade de muitas pessoas e grupos dentro e fora dos Estados Unidos.

A maioria dessas mulheres pertencentes a diferentes congregações nacionais e internacionais além de sua formação humanista cristã são intelectuais e profissionais nas várias áreas do conhecimento. São escritoras, filósofas, biólogas, sociólogas, advogadas, teólogas e têm um vasto currículo e reconhecida competência nacional e internacional. São igualmente educadoras, catequistas e ativistas em direitos humanos. Em muitas situações foram capazes de expor sua vida em favor de injustiçados ou se opor a comportamentos graves assumidos pelo governo norte-americano. Tive a honra de conhecer algumas delas que foram presas porque se colocaram na linha de frente das manifestações para o fechamento da Escola das Américas, instituição do governo norte-americano que prepara militares para atuarem em nossos países de forma repressiva e cruel. Estas religiosas são mulheres de reflexão e ação com uma longa história de serviços não apenas em seu país, mas em muitos outros. Hoje estão sob suspeita e sob tutela do Vaticano. São criticadas por discordar dos bispos considerados “os autênticos mestres da fé e da moral”.E mais, são acusadas de serem partidárias de um feminismo radical, de desvios em relação à doutrina católica romana, de cumplicidade na aprovação das uniões homossexuais e outras acusações que chegam a nos espantar dado o seu anacronismo. O que seria um feminismo radical? Quais seriam suas manifestações reais na vida das congregações religiosas femininas? Que desvios teológicos estariam as religiosas vivendo? Estaríamos nós mulheres sendo vigiadas e punidas por não conseguirmos mais ser fiéis a nós mesmas e à tradição do Evangelho por intermédio de uma cega sujeição à ordem hierárquica masculina? Estariam os responsáveis das Congregações vaticanas alheios à grande revolução mundial feminista que tocou todos os continentes e inclusive as congregações religiosas?

Muitas mulheres religiosas nos Estados Unidos e em outros países são de fato herdeiras, mestras e discípulas de uma das mais interessantes expressões do feminismo mundial, sobretudo do feminismo teológico que se desenvolveu nos Estados Unidos a partir do final da década de 1960. Suas idéias originais, críticas e posturas libertárias permitiram uma nova leitura teológica que por sua vez pode acompanhar os movimentos de emancipação das mulheres. Dessa forma puderam contribuir para repensar nossa tradição religiosa cristã para além da invisibilização e opressão das mulheres. Criaram igualmente espaços alternativos de formação, textos teológicos e celebrativos para que a tradição do Movimento de Jesus continuasse a nutrir nosso presente e não fosse abandonada por milhares de pessoas cansadas com o peso das normas e das estruturas religiosas patriarcais.

Que atitudes tomar diante desse anacronismo e violência simbólica das instâncias curiais e administrativas da Igreja Católica Romana? Que pensar de seu referencial filosófico rígido que assimila o melhor do ser humano ao masculino? Que dizer de sua visão antropológica unilateral e misógena a partir da qual interpretam a tradição de Jesus? Que pensar desse tratamento administrativo/punitivo a partir do qual se nomeia um arcebispo para rever, orientar e aprovar decisões tomadas pela Conferência de Religiosas como se fôssemos incapazes de discernimento e lucidez? Seríamos acaso uma empresa capitalista multinacional em que nossos “produtos” deveriam obedecer aos ditames de uma linha de produção única? E para mantê-la devemos ser controladas como autômatos pelos que se consideram os donos e guardiões da instituição? Onde fica a liberdade, a caridade, a criatividade histórica, o amor sororal e fraternal?
Ao mesmo tempo em que a indignação toma conta de nós, um sentimento de fidelidade à nossa dignidade de mulheres e ao Evangelho anunciado aos pobres e marginalizados nos convida a reagir a mais esse ato de repugnante injustiça.

Não é de hoje que os prelados e funcionários da Igreja agem com dois pesos e duas medidas. Por um lado as altas instâncias da Igreja Católica Romana foram capazes de acolher de novo para seu seio os grupos de extrema direita cuja história nociva, sobretudo a jovens e crianças é amplamente conhecida. Penso especialmente nos Legionários de Cristo de Marcial Maciel (México) ou nos religiosos de Monsenhor Lefevre (Suíça) cuja desobediência ao papa e os métodos coercitivos de fazer discípulos é testemunhada por muitos. Essa mesma Igreja institucional acolhe os homens que lhes interessa por seu poder e repudia as mulheres que deseja manter submissas. Com sua atitude as expõem a críticas ridículas veiculadas até por mídias religiosas católicas de má fé. Dessas mulheres os prelados parecem reconhecer formalmente algum mérito quando suas ações se referem àquelas tradicionalmente exercidas pelas religiosas nas escolas e nos hospitais. Mas somos apenas isso? Sabemos bem que em nenhum momento nos Estados Unidos se levantou a menor hipótese de que essas religiosas teriam violentado jovens, crianças e anciãos. Nenhuma denúncia pública maculou sua imagem. Delas não se falou que se aliaram a grandes bancos internacionais em benefício próprio. Nenhuma denúncia de tráfico de influencias, de troca de favores para guardar o silencio da impunidade. E mesmo assim nenhuma delas foi canonizada e nem beatificada pelas autoridades eclesiásticas como o fizeram em relação a homens de poder. O reconhecimento dessas mulheres vem das muitas comunidades e grupos cristãos ou não, que partilharam a vida e os trabalhos com muitas delas. E estes grupos com certeza não se calarão diante dessa “avaliação doutrinal” injusta que também os toca diretamente.

Plagiando Jesus no seu Evangelho ouso dizer: “Tenho pena desses homens” que não conhecem as contradições e as belezas da vida de perto, que não deixam seu coração vibrar às claras com as alegrias e os sofrimentos das pessoas, que não amam o tempo presente, que ainda preferem a lei estrita à festa da vida. Apenas aprenderam as regras fechadas de uma doutrina fechada numa racionalidade já ultrapassada e a partir dela julgam a fé alheia e especialmente as mulheres. Pensam talvez que Deus aprova e se submete a eles e às suas elucubrações tão distantes dos que têm fome de pão e de justiça, dos famintos, dos abandonados, das prostituídas, das violentadas e esquecidas. Até quando teremos que sofrer sob seu jugo? Que posturas nos inspirará o “Espírito que sopra onde quer” para continuarmos fiéis à VIDA em nós?

Às queridas irmãs norte-americanas da LWRC meu agradecimento, carinho e solidariedade. Se vocês estão sendo perseguidas pelo bem que fazem provavelmente seu trabalho produzirá abundantes e bons frutos. Saibam que com vocês mulheres religiosas de outros continentes não permitiremos que calem nossa voz. Mas, se calarem por um decreto de papel, nós faremos dele uma razão a mais para seguirmos lutando pela dignidade humana e pela liberdade que nos constitui. Seguiremos de muitas maneiras anunciando o amor ao próximo como a chave da comunhão humana e cósmica presente na tradição de Jesus de Nazaré e em muitas outras, embora de formas diferentes. Continuaremos juntas a tecer para o nosso momento histórico mais um pedaço da vasta história da afirmação da liberdade, do direito de ser diferente e de pensar diferente e tudo isso tentando não ter medo de ser feliz.

Cristofobia em andamento

sábado, março 17th, 2012

texto abaixo é parte de uma reportagem da somali Ayann Hirsl Ali, que teve de fugir do seu país, intitulada “O crescimento da cristofobia”, na Newsweek do dia 13 de fevereiro.

“O governo autoritário, sunita, do Norte do país há décadas persegue cristãos e minorias animistas do Sul. O que é habitualmente descrito como uma guerra civil é, na prática, perseguição promovida pelo governo sudanês às minorais religiosas. Essa perseguição culminou com o infame genocídio de Darfur, que começou em 2003. Ainda que o presidente Omar al-Bahsir tenha sido indiciado pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, que tem contra ele três acusações de genocídio — e apesar da euforia com a semi-independência que ele garantiu em julho do ano passado ao Sudão do Sul —, a violência continua. No [estado] de Kordofan do Sul, cristãos ainda são alvos de bombardeios aéreos, assassinatos seletivos, sequestros de crianças e outras atrocidades. Relatórios da ONU indicam que entre 53 mil e 75 mil civis inocentes foram expulsos de seus lares; casas e edifícios foram incendiados”.

O ator George Cloney foi preso esta semana por estar protestando contra a inércia do mundo a respeito deste massacre. Infelizmente os meios de comunicação apenas comunicaram a prisão do ator e de seu pai, mas não informaram a razão do protesto e de sua desobediência civil.