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Francisco de Assis e o edifício Caiçara

sexta-feira, outubro 4th, 2013

 

Começando o mês de outubro. Depois dos santos Cosme e Damião, médicos que foram feitos protetores das crianças, vem o mês de São Francisco de Assis, também muito popular: o primeiro burguês que decidiu reformar o mundo, primeiro repondo pedras, depois apontando para os corações humanos. Sua vida é uma parábola: parece nos dizer que animais selvagens – lobos, pássaros, peixes – estavam mais dispostos a escutá-lo que os homens. No século XIII o papa Inocêncio III fez o possível para não se encontrar com Francisco. Agora tem um Francisco na cadeira que Inocêncio III sentou. Colisão de nomes e trajetórias. Bem, este é um franciscano/jesuíta, com a mística dos dois. Neste quatro de outubro lembremos esses dois renovadores da Igreja e inovadores sociais.

As inovações sociais aparecem simbolizadas em algumas ações. No início do século XX a Praia de Boa Viagem, no Recife, começou a ser ocupada pela população que pode comprar terrenos na época que se descobriu como o banho de água salgada faz bem à saúde. As margens do Rio Capibaribe foram deixando de ser endereço supimpa e os pescadores foram sendo expulsos das praias do Pina e de Boa Viagem. Cada época e cada momento social cria suas referências e, o Edifício Caiçara tornou-se referência para os que ocuparam Boa Viagem na década de quarenta, bem como para aqueles que, não morando naquela praia, iam  banhar-se ali até os anos oitenta ou noventa. Mas como lembra um livro bíblico, um adolescente muito  famoso em sua época pouco será lembrado duas gerações mais tarde. Assim foi com o edifício Caiçara, com a Casa Navio e outros edifícios que marcaram a arquitetura do período e serviam de referência para banhistas de final de semana. A queda desses edifícios para atender o boom imobiliário para apartamentos de luxo segue o mesmo princípio que afastou os pescadores ao longo do século XX. A queda do Edifício Caiçara lembra que para ele e outros edifícios serem construídos muitas caiçaras fossem derrubadas. Poucos são os adolescentes que ficam na memória das gerações que lhe sucedem, esses poucos são referências mais importantes do que parada de ônibus. É assim que a “igrejinha” de Boa Viagem ainda se mantém. É uma referência mais profunda na história, não apenas na memória.

A questão é que a história é feita do lixo deixado pelas gerações e, em nossa sociedade o lixo escrito é muito importante, além do lixo monumental significativo para o conjunto social, não apenas para um grupo. Escreve-se muito sobre os monumentos de pedra e cal, assegurando-lhes, assim, a sua permanência na época dos novos adolescentes. Talvez seja essa a razão de monumentos referentes a grupos menos importantes econômica e financeiramente sejam mais facilmente descartáveis. Acontece que os documentos escritos, ou escritos que discutem os documentos carecem de leitores e, as mais recentes tabelas do IBGE mostram que o número de analfabetos no Brasil voltou a crescer, embora a propaganda dos programas de alfabetização tenha aumentado.

O adolescente (na Idade Média essa categoria não existia) Francisco da cidade Assis não tem sido esquecido pelos adolescentes das gerações que lhe sucederam. Reconstruir, manter inovando, inovar mantendo, rompendo e fortalecendo, afirmar valores positivos e ter a coragem de dizer não ao que prejudica ao conjunto da humanidade, essas são as causas da permanência de Francisco e Ignácio.

 

Recife: chuvas, rios, gente e ocupação irresponsável

sábado, junho 15th, 2013

Passados quinze dias de junho deste ano de 2013  notamos que as muitas águas desejadas caem, em muitos lugares, de maneira indesejada. Sabemos que as chuvas são comuns nesta época do ano em nossa região, mas sempre nos surpreendemos quando elas chegam, não por elas, mas porque elas escancaram a maneira irresponsável de como ocupamos o espaço físico. Nas décadas de setenta a noventa do século passado, as chuvas deixaram à mostra que a permissão que os governos populistas deram para a ocupação incontrolada dos morros do Recife levou à morte de muitos. Aquela permissão foi tacitamente dada, para sanar a questão dos mucambos que foram construídos pelos mais pobres nos mangues dos rios Beberibe e Capibaribe enquanto a “cidade” estabelecia-se nos espaços mais firmes. Quando os mucambos já haviam aterrados os mangues, então eles se tornaram desnecessários e seus habitantes foram postos a correr em direção aos morros, onde certas famílias amealharam fortunas cobrando foros, enquanto a administração municipal não chegava para cobrar o imposto territorial. Aquela era a época ainda marcada peço jeito português de fazer cidades nas desembocaduras fluviais. Vez por outra as águas pluviais causavam problemas, mas este eram sentido pelos mais pobres que ainda estavam estabelecidos nas “regiões ribeirinhas”, como dizia famoso alcaide dos anos sessenta do passado século. Foi então percebido ser necessário domar o rio que teimava em retomar os espaços perdidos. Por decisão do ditador de plantão, após uma grande cheia na década de setenta, o rio foi domado e os habitantes ribeirinhos foram tangidos para terras de antigos engenhos, com seus proprietários devidamente indenizados. Cresceu o Recife para o sudoeste e Paulista, cidade ao norte do Recife recebeu incentivo para crescer, o mesmo ocorrendo a Camaragibe, este com mais sorte recolheu uma pequena elite de professores universitários no platô balneário, antes conhecido apenas por alguns e espaço para treinamento militar. Domado o rio suas antigas margens voltam a ser habitadas, agora por torres habitacionais, agora seguindo modelo estabelecido na nova metrópole dos novos tempos pós-industrial: imensas torres, cada vez mais altas como novas Babel. As ruas desaparecem gradativamente cedendo espaços para imensos corredores de ônibus e pedestres que, em dias de chuva coincidentes com marés altas, assiste e sofre o retorno do rio contido e dos afluentes que foram mortos e devidamente tapados. Agora lembro que, ao final do antigo Rio Bultrins, hoje Canal do Bultrins, há um edifício nomeado Rio Tapado. Tapados ao longo dos anos, esses riachos periódicos já nem mais estão na memória dos habitantes das cidades de Olinda e Recife. A nova civilização precisa de cada vez mais espaço para os automóveis passarem e serem vistos, pois em nossas cidades, mais que meio de transporte eles são bens ostentatórios, quase expressão de nobreza ou divindade. Mas as chuvas chegam e surpreende os novos aristocratas e fazem parar as modernas carruagens e, da mesma maneira que as águas invadem os antigos leitos dos riachos, os jornais impressos e os noticiosos dos rádios e televisões são inundados com reclamações sobre a impropriedade ou incúria dos administradores do espaço público. A chuva represada e misturada com esgotos que molha e enlameia os pés dos que saem dos ônibus também suja os modernos símbolos de poder e faz parar avenidas criadas para atender os que vivem nos pombais modernos. Nas chuvas deste ano não ocorreu mortes nos morros. A morte registrada ocorreu em uma avenida causada por um fio elétrico em rua que tornara a rio.

Brasil nascendo com o carnaval

sábado, fevereiro 2nd, 2013

 

Fevereiro é marcado pelo carnaval. Pouco menor que os demais, é mês esperado com ansiedade por conta da permanente luta pela afirmação da liberdade de ganhar espaços sobre a sisuda do trabalho, característica do mundo criado pela sociedade europeia em sua afirmação sobre as  demais possibilidades de civilização.  As instituições religiosas e a dinâmica imposta pela necessidade da acumulação da riqueza obrigaram gerações a esquecerem das brincadeiras espalhadas durante o ano. As sisudas roupas negras dos quackers, dos puritanos e jesuítas tocaram até mesmo o marrom franciscano que recebeu a preocupação capuchinha pelo pecado. A sonoridade alegre de Palestrina foi sendo substituída pela alegria fugidia do barroco. Novas tecnologias trouxeram facilidades à vida diária e a morte foi ficando distante. Passamos ter mais tempo para produzir riquezas e, se conseguimos chegar à velhice poderíamos tudo isso degustar. Assim fizemos algumas mudanças em nossas vidas, nossas ruas ficaram mais amplas para os donos automóveis e para os ônibus lotados de trabalhadores que se multiplicaram, graças ao avanço da ciência que auxiliou a aumentar a produção de alimentos e inventar meios e vacinas com o objetivo de tanger a morte. Ganha-se tempo. Economiza-se  força muscular, anda-se menos, palácios tornaram-se casas, cortiços foram transferidos para favelas, os hospitais com seus batalhões de médicos, enfermeiras e psicólogos nos orientam a como nos manter vivos. Nas escolas, agora em maior número e diversificadas segundo a classe social, nos oferecem os instrumentos que nos ajudam a atravessar as ruas e entender um pouco do que acontece ao nosso redor. Mas ficou a nostalgia do carnaval.

Ao término do século XIX, no Brasil de cristianização católica superficial e modernização rala, o carnaval parece ter servido de caminho para que as camadas com menor acesso aos bens da modernidade ganhassem as ruas e reinventassem o Brasil, forçando que os participantes dos bailes que ocorriam em recinto fechados olhassem pela janela e observasse que os recentemente liberados do trabalho escravo, junto com os que, embora livres do trabalho forçado, não tinham permissão para inventar – em uma sociedade escravocrata não pode haver liberdade de nenhum tipo, ocorrem variações do mesmo – criaram um novo modo de divertir-se e , tomando as ruas, reinventaram o carnaval. Não como o de Veneza ou Amsterdan, Nova Orleans ou Quito. Foi sendo criado algo original, o carnaval brasileiro nascendo com o Brasil livre.    Nas cidade onde havia maior concentração de gente pobre tri-centenária (mestiços) e gente pobre de duas ou uma geração na terra (gente liberada pela Lei do Ventre Livre e pela Lei João Alfredo), lugares como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Luiz e outras metrópoles do período imperial, foram palco dessa criação. Inicialmente ocupando apenas os três dias permitidos pela seriedade do Concílio de Trento, foram, ao longo do século XX, ocupando outros tempos, abrindo novas veredas para as múltiplas possibilidade ofertadas pela nossa tradição. Hoje o carnaval compete e supera muitas indústrias criadas pela modernidade. O carnaval moderno é uma indústria produtora de riqueza argentária a partir da riqueza gozosa desse povo brasileiro sintetizador das dores e alegrias do parto da modernidade.

Viva o carnaval e sua luta contra a seriedade dos reformadores dos costumes que, agora são levados a debater e conviver com os costumes que foram criados  nessa luta. O carnaval não pode ser visto como um índice de felicidade, mas pode ser entendido como uma vitória no embate com o mundo magro da seriedade e sisudez dos pastores, padres, gerentes de fábricas, cabos de usinas, etc..  Assim nos fazemos e fazemos o Brasil.

as ruas e as contradições da construção histórica do povo.

sexta-feira, janeiro 25th, 2013

Uma cidade se conta nas ruas que são abertas por ações humanas. São conhecidas, algumas vezes por seus habitantes mais antigos, como ocorre comm o Córrego do Joaquim, ali em Nova Descoberta; outras vezes por um consenso de que este ou aquela pessoa contribuiu para a existência e vida da cidade, como observa na Avenida Conde da Boa Vista, mais conhecida pelo nobiliárquico que por seu nome da batismo, de Francisco do Rego Barros. Serviu ele à monarquia? Sim, mas serviu ao povo do Recife. Agora que acabou a monarquia há que se tirar esse pedaço da história? O Recife não possuir uma explícita  Avenida Getúlio Vargas não lhe diminui o sentido republicano de sua história, escondida nas ruas Pedro Ivo e Nunes Machado, quase becos desconhecidos. Mas essa é a vida da cidade, das ruas que carregam a história que se acumula no viver cotidiano. Sim, apesar da memória selecionar alguns aspectos, as poeiras dos acontecimentos e das ações continuam guardadas para novas insurgências.  Mudanças de nomes por interesses políticos imediatos é próprio de políticos que julgam terem chegado ao término dos acontecimentos, fazem o juízo final e definem quem deve desaparecer para que a novidade se firme por insegurança legislativa.  Isso aconteceu na Revolução da Rússia com os soviéticos que trocaram os nomes imperiais da cidades russas para lhe por nomes dos revolucionários de 1917. No final do século XX a derrocada do “socialismo real” trouxe de volta os nomes saídos das placas mas permanecidos no âmago do povo. Manipulação da história na construção de novas histórias.

O Recife republicano, gerado no Recife monárquico, terminou por aparecer sem apagar a história dos mascates, dos senhores de engenho e usineiros. Ele está em redor do prédio da SUDENE. Podemos nos perguntar porque assim ocorreu, procurar entender, mas não é de bom alvitre manipular dessa maneira os espaços de sociabilidade do povo.

É notório a todos que nomes dados a logradouros , pontes, praças, ruas, avenidas possuem em seu âmago o interesse de ensinar a história, desenhar. Assim é em todo o  mundo. Mas cuidemos de pavimentar espaços com pedras que nos ensinem caminhos únicos. Para evitar manipulações mais apressadas, definiu-se que não se ponha nome de ruas homenageando os vivos, os poderosos do momento. É que a tendência do servilismo termina se tornando um vício político, como entendeu o ditador Médici, no governo de quem teve início essa proibição, estendida também a prédios oficiais. Dizem que isso não se aplica no Maranhão.  Devemos ter esse cuidado em preservar nossa história. Há uma norma que deve se evitar fazer apagamentos de nomes de ruas. Caso a edilidade queira homenagear alguém que foi importante na construção cívica do lugar, crie-se um novo logradouro, um nova praça. Os mais versados em música produzida no tempo da ditadura, lembra do chiste de Caetano Veloso lembrar que a Avenida Chile terminava na Liberdade. Isso no tempo de Pinochet. Pinochet se foi, a liberdade ficou, E também a Avenida Chile.

Guardemos nossa história, compreendendo-a, conhecendo-a em suas contradições. Não a apaguemos em sua beleza paa impor a “pureza” de nosso pensamento volúvel.