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Paulo e Vera e Carolina: amizade

domingo, março 1st, 2015

Na metade da última década do século XX tive dificuldades de conseguir manter os empregos nos colégios onde lecionava e, pior ainda, nenhum colégio da Região Metropolitana do Recife aceitava-me como professor. Alguma coisa ou algumas pessoas articularam para que não conseguisse ganhar meu sustento por essas bandas. Assim, fui tentar viver no Rio de Janeiro, sem conhecer qualquer pessoa, sem levar qualquer referência e, melhor que tudo, sem ser conhecido e, portanto, tinha contra mim apenas o ‘preconceito’ contra mais um nordestino que chegava à cidade maravilhosa. Depois de dois meses consegui aprovação em dois concursos públicos na UNIRIO, mas sempre em segundo lugar. Entretanto, consegui contrato como professor substituto naquela universidade na disciplina História da Educação e, na Universidade Veiga de Almeida fui contratado para aulas em História Moderna. Nesses dois estabelecimentos tive a felicidade de conhecer Paulo Cavalcante e sua esposa Vera Borges, ambos são professores de História, e ela, além desse dom, também era saudável maratonista. Conheci outras pessoas, professores que trago em meu coração e alma. Na alma acarinhando belos momentos e, no coração que acelera sempre que penso nessa experiência que meus amigos do Recife forçaram-me a realizar.
Paulo e Vera são a minha referência melhor do Rio de Janeiro. Da varanda de sua casa assisti a chegada do ano 1995, além de receber as primeiras aulas que desvendaram para mim alguns segredos do computador e de como colocá-lo ao nosso serviço. Hoje está ocorrendo uma bela festa no Clube da Aeronáutica, celebrando o vigésimo quinto aniversário do casamento desses amigos e, também a felicidade de Paulo completar o seu primeiro meio século de vida exatamente quando o Rio de Janeiro está a festejar quatro séculos e meio de idade. Recebi pelo Correio um belo convite. Alegria tê-los sempre comigo.
O convite chegou quando Carolina se anunciava, saindo do ventre de Tâmisa para a gulodice de nossos olhos e nossas mãos em ver e tocar novo ser que nos traz e renova a fé na vida, a vida de que são portadores os amigos, esses anjos que nos acalmam sempre que pensamos neles, pois eles são a revelação do amor e da eternidade. Nenhum calmante faz mais efeito que o riso de um amigo e o afago de sua mão. Quando um amigo nos toca, ainda que em nossos pensamentos, julgo que devemos sentir a mesma sensação de estarmos seguros, como nos sentimos seguros nas mãos de nossos pais. Ficamos pequenos diante da grandeza da amizade. Nossos amigos são os pais que conquistamos ao longo da vida. Eles são poucos. Às vezes nos enganamos, mas um dia entendemos que tivemos a sorte de termos encontrado esses poucos que às vezes fazem pouco, mas nos enchem, nos completam, nos aliviam as dores e nos ensinam a recomeçar. Que Paulo e Vera vivam mais um século que eu os cultivo na minha alma. Assim como aceito com alegria imensa a minha mais nova neta, essa menina Carolina ou, como já disseram alguns, CaroLinda. Que ele tenha a felicidade de encontrar pessoas como Paulo Cavalcante e Vera Borges.

República, João Cândido e Consciência Negra

domingo, novembro 23rd, 2014

Mês de novembro quase ao seu final e as datas nos trazem lembranças de acontecimentos diversos. Alguns, melhor dizendo, todos históricos,, uns mais famosos outros menos falados e alguns históricos completamente esquecidos. Mas o esquecimento de um fato é uma maneira de  explicar a história. Sempre serão lembradas, por aqueles viram, no calor do acontecimento ou na crônica dos vídeos, os momentos que se seguiram ao assassinato de John Kennedy ocorrido em 1962, no dia 22 de novembro. Comoveu o mundo o assassinato do presidente de uma república ocorrido à frente de todos. A palavra VERGONHA estampada durante horas nos vídeos dos televisores norteamericanos são inimagináveis nestes dias de hoje, quando se produzem decapitação ritual e pública e não h´pa repúdio nem ninguém, nem um cana de televisão gastará seu tempo expondo a palavra vergonha. Perda de tempo e de dinheiro.

A 11 de novembro de 1918 ocorreu o fim da Primeira Guerra Mundial e iniciava-se a trajetória para as guerras seguintes que levaram à breca os impérios que os europeus criaram no século XIX. Foram muitos os jovens mortos naquele conflito, e alguns morreram julgando que aquela seria a última guerra. E foi, para eles. A vontade de vingança dos líderes vitoriosos, que se negaram a ouvir as vozes acalmadoras de Bento XV ou mesmo de W. Wilson, criou ou regou as bases da política dos fascistas de todos os matizes e construiu o roteiro da guerra iniciada em 1939 e jamais terminada, embora fosse esfriada com a queda do muro que vergonhosamente, os fascistas levantaram em território berlinense. Tudo é novembro, anúncio de inverno ou de verão, dependendo do hemisfério em que se encontra.

Neste final de semana deparei-me, em aula, verificando o quanto novembro  tem significado na história da sociedade brasileira, e o quanto este novembro nos mostra a manipulação da história, dos fatos. A releitura da história é sempre uma tentativa de escrevê-la ao modo de quem a interpreta.  Foi no mês de novembro que, bem ou  mal foi proclamada a República brasileira, com a participação de poucos, com o alheamento de muitos. Entretanto a história não é construída em um só dia, mas a cada dia. Se o povo assistiu bestificado o desfile militar de 1889, se ele foi bestializado em grande parte desse período de nossa história, não como negar que nós soubemos, estamos sabendo criar os  caminhos para aumentar a nossa participação na construção da nação. Assim, fiquei surpreso quando percebi que meus alunos não se aperceberam que não houve debates nem aulas, em seus colégios, sobre a importância e o significado da República. Também eles, meus alunos que são, simultaneamente, professores de diversas redes municipais, pouco sabiam do dia 19 de novembro, dedicado á bandeira nacional. Nenhum deles sabia quem era Olavo Bilac. Um lembrou que ele havia sido poeta. E porque não houve debate sobre a República Brasileira nas escolas que formam os futuros cidadãos da República Brasileira? É que, desde o final de outubro que o debate gira em torno do Dia da Consciência Negra. Esse dia estabelecido pela República para que os cidadãos repensem seu comportamento de maneira a tornarem-se cada vez mais republicanos, suplantou a ideia da República do Brasil. E o debate dessa consciência negra termina sendo mais voltada para a imagem criada de Zumbi dos Palmares e das religiões afroriginárias que da participação dos homens e mulheres na construção da República. Louva-se, merecidamente a Zumbi mas olvida-se, criminosamente a João Cândido, ele é um dos que resistiram e não admitiu ser bestializado, exigiu um tratamento republicano, com uma revolta contra os abusos de oficiais sobre os marinhos e, a 22 de novembro de 1910, foi aclamado como líder de todos os marinheiros. O silêncio da Consciência Negra sobre esse acontecimento, sobre este brasileiro construtor da República, concentrando no resgate de raízes africanas, danças e orixás, é um apoio ao silêncio que a historiografia conservadora. Sem o adubo a história as raízes perdem vigor e são dominadas por pragas devoradoras de homens e suas histórias.

Celebrar a Consciência afastando-se da história, negando-a, querendo fazê-la ao seu gosto, é um caminho perigoso que leva aos misticismos.

Viva João Cândido, líder do povo brasileiro republicano que tem consciência de sua humanidade.

Recusando a inércia e o aprendizado ordenado

quinta-feira, abril 10th, 2014

Os mais recentes dias nos encorajam para muitas diversões do pensamento. Noticias variadas nos confirmam a diversidade cultural da humanidade. É certo que alguns peleam pela diversidade na esperança, escondida, de que todos venham a se reunir sobre a “sua diversidade”. A natureza é diversa nos seus frutos, embora todas essa diversidade parece ter originado de um momento, um átimo,m algo que carregava em si a possibilidade de tão belo caleidoscópio, sempre o mesmo e sempre com novas formas e possibilidades.

Mas somos a possibilidade de sermos e, por sermos diversos, colhemos da multiplicidade das criações da natureza e da inteligência que a natureza concedeu aos seres e, parece que os animais humanos foram beneficiados pela ausência de uma regra única na natureza.   Os professores, nós encontramos essa diversidade em nossas salas de aulas. É claro que nas salas de aulas supomos encontrar pessoas de diversas origens sociais e com interesses diversos. Mas, como deslocaram-se de suas casas para um ponto  comum que os atraiu, tomamos a liberdade de presumir que esses seres diversos, de origens diversas, de grupos sociais diversos, ao sentarem em bancos de uma sala estejam interessados no que vai ser dito naquela sala. Como chegaram ali por sua escolha e iniciativa, acreditamos que devemos ficar surpresos por esses seres não esboçarem qualquer reação ao objeto do estudo.  Surpreende que a maioria chegue atrasada; lamenta-se a forma de como espalham seus corpos nas cadeiras e ofende o olhar vago sobre o nada que parece existir em sua frente, mas que se expande do seu espírito, ou que resta dele naquela massa. Quase nenhum tem um livro ou caderno à sua frente ou lápis próximo a si. Dizem que a burguesia inventou camisas com bolso para que ali pusessem os instrumentos de trabalho. Os operários levam suas ferramentas em caixa, se são autônomos, ou usam as caixas nas fábricas para guardar os instrumentos após o trabalho. Em uma escola de ensino superior que está a preparar pessoas para a atividade de ensinar, espera-se que esses operários que não sujam a mão de graxa, tenham algum instrumento e lugar para guardá-los. A maioria dos aprendizes chega como aristocratas em campo de férias: em seus vestuários nenhum bolso, em suas mãos nenhum instrumento. Claro que eles devem ter um cérebro onde estão armazenando de maneira definitiva, julgam, aquilo que acham necessário.

Boa parte desses jovens produz seus corpos com exercícios físicos, apresentam músculos bem definidos sob a camiseta esportiva que os protege e expõe. Mas seus cérebros não aprecem exercitados na arte do desenvolvimento da curiosidade. Perguntas novas não parecem aflorar das elipses elétricas. Quase supomos, pelo olhar, que o cérebro está em repouso esperando o momento de responder, pavlovamente, a palavras como “time de futebol”, “copa do mundo”, “reacionário”, “show de …”, e e outras palavras de ordem. Então a vida surge como a baba do cachorro do cientista, e essa reação chamam de vida.

Quem foi educado dessa maneira, no falso diálogo, não tem a resistência para a leitura de um texto, para a comparação. A comparação implica a perceber, se não a diversidade, ao menos a existência de duas realidades diferentes. Entretanto é melhor continuar a brincadeira, essa que brincam sem saber da sua existência, como o peixe não se distingue da água, a brincadeira de Boca de Forno, essa na qual há o compromisso de se fazer tudo que o Senhor Rei mandar. Nessa brincadeira corre-se de um lado para outro, apenas com o objetivo de “fazer o que o senhor rei mandar”. Para tal só é necessário o exercício físico, a resistência física. Não se deve argumentar com rei. Apenas seguir as suas ordens, elas a todos confortam por proporcionarem um momento de exaltação e êxtase por cumprir a tarefa, desde que essa tarefa não implique o uso da massa para além de indicar qual membro do corpo deve ser utilizado para o gáudio majestático.

E como ensinamos usar o mínimo possível o cérebro, é que uma Popozuda passa a ser considerada por um professor de uma escola brasiliense, uma importante pensadora da atualidade. Afinal a ausência de estrias ou celulite é o ideal das moças para o gáudio ocular dos rapazes. Nada de rugas, e o cérebro é rugoso. E os movimentos que fazem as informações que a ele chegam, podem ter as mais diversas consequências. cada pensamento é uma miríade de possibilidades, caso haja a prática de exercício, o interesse de desenvolver a curiosidade e que esse interesse  seja mais remunerado que os apetites que exigem cérebros menos rugosos.

BV

M de Magistério, M de Menorah

domingo, março 23rd, 2014

A corrente da vida continua sempre na direção que não desejamos enquanto fazemos aquilo que nos agrada. O estímulo para continuar na imensa maratona é que a vida deseja ser vivida. Como uma vela ela ilumina e se consome. O importante é o brilho que produz o aquecimento, a possibilidade de promover a visão para além de si mesma. E nem sempre a vela brilha com o vento leve, uma pequena brisa que auxilia a combustão produtora da luz e do calor. Nem sempre a vela queima recebendo a exata dose de oxigênio, às vezes o vento que lhe toca está bravio e faz a chama dobrar-se, quase apagar. Algumas velas não resistem e param de fornecer o brilho antes que todo o pavio e a sua cera sejam consumidas. Todos os dias eu fico pensando nas velas que não queimaram até o final. É triste.

Entendo que não somos apenas uma vela, somos um castiçal de sete velas, um Menorah que é posto no Santo dos Santos, sinal dos dons divinos: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento, temor do Senhor e prazer no Senhor. Nas tribulações da vida necessitamos de todos esses para que possamos nos queimar na construção do mundo, na continuação da obra na qual chegamos já em curso. Cada um desses dons que temos nos auxiliam a não desistir.

Leio, de alguns amigos, palavras que falam de um possível fracasso em sua tarefa de magistério porque muitos foram à rua protestar contra o que eles estão vivendo e, por engano, voltam-se para o passado, querem o retorno da ditadura civil militar que machucou a pátria brasileira durante um quarto de século. Oito meses são passados quando outras pessoas também saíram à rua para protestar contra o que elas estão vivendo. Não saíram pedindo a volta do passado, mas tampouco apontaram para algum futuro. Oito meses atrás as aulas de história pareciam ter tido um bom resultado, uma vez que os saíram às ruas estavam mais próximos das ideias que esses meus colegas professores – e eu também – professam; agora parece que as nossas aulas de história não serviram, pois os que agora saíram às ruas professam ideias diferentes desses professores. Como precisamos de entendimento para aconselhar!

De qualquer modo, a função do professor de história é professar, é ensinar, indicar o caminho ou caminhos possíveis e, para isso, como me ensinou um professor: um livro é bom, um livro só não presta. Se apenas indicamos uma leitura, uma explicação sobre os acontecimentos não estamos ensinando as mentes a pensar, estamos amestrando as mentes e, se os amestramos criamos em nós mesmos a expectativa de que eles pensarão como nós pensamos. Se for assim, ficaremos desiludidos quando eles não agirem como nós os treinamos. Se uma pessoa recebe muito de um só alimento, isso o levará ao desgosto desse alimento e, sem o gosto, ele, o alimento, será rejeitado. A variedade de possibilidades das análises da realidade trará muito mais possibilidade de fazer surgir o novo. A oferta de uma só explicação terá duas consequências vergonhosas para um professor: fará um clone de si mesmo – e os clones sempre trazem consigo algum defeito, sendo o principal deles o cultivo da mediocridade para ser aceito; ou fará um reagente que negará aquele que o quis enfeitiçar – não ensinar possíveis caminhos – e então aprenderá a gostar de fazer aquilo que desgosta a quem o quer medíocre.

Um professor não é, não pode ser, um agente de propaganda, um professor deve ter a coragem de formar alguém que poderá pensar diferente de si. Um professor não é um replicador deste ou daquele ‘pensador’, ‘projeto politico’ ou coisas semelhantes. Um professor nem mesmo é um formador, pois ele não deve dar forma a ninguém, – deve cuidar da sua própria forma -, um professor é um orientador, um gerador de possibilidades. Essa deve ser a sua consumação: iluminar as possibilidades, os seus alunos escolherão o futuro deles. Nele estaremos na medida em que os auxiliarmos a tomar as suas decisões. Não as nossas. Esse é o Prazer.

Roberto, Arlindo e Ubiraci:Três Mestres nos deixam

sábado, outubro 26th, 2013

O mês de outubro está indo embora com muitas dores. Nesta penúltima semana sentimos, aqui em Pernambuco dores da separação física provocada pela viagem final de alguns mestres da nossa cultura. O mesmo ocorreu nacionalmente se pensarmos na morte de Paulinho Tapajós, o autor de Andança, cujos versos fez sonhar várias gerações e ainda carrega almas para o paraíso dos desejos a serem realizados. Mas em Pernambuco foi o ramo da cultura mais popular, mais criada e fortificada nos arrabaldes, nos bairros distantes que mais sofreu perdas.

A primeira delas foi a saída de cena do professor Roberto Benjamin, pessoa de origem não popular, advogado e jornalista que encontrou na pesquisa das tradições de festas, danças, bailados, cortejos, poesias, cultivadas por gerações de homens e mulheres comuns e que representam a argamassa essencial da cultura da região, a razão e principal objetivo de sua vida acadêmica. Estudando  os gestos comunicativos de seu povo, Roberto Benjamin tornou-se uma espécie de guardião de nossas tradições. Não poucas vezes os mais jovens olhavam-no com certo receio, alguns com o preconceito e a arrogância que o início dos estudos costuma trazer. A sistematização da nossa cultura brasileira da região, apresentada em seus vários livros tem sido fundamental para a continuidade dessas tradições. Essa foi uma perda humana e acadêmica. Nosso agradecimento ao professor Roberto Emerson Câmara Benjamin pelos muitos ensinamentos que nos deixa.

Outro momento de tristeza foi a morte de Arlindo dos Oito Baixos, nascido na palha da cana de engenho em Serinhaém e, desde a meninice tocando o “pé de bode”, mais conhecido como sanfona de oito baixos. Grande parte de sua vida acompanhou Luiz Gonzaga em apresentações e gravações e, finalmente passou a gravar e apresentar-se apenas com o mais tradicional dos  foles, de tal forma que passou a ser parte de seu nome. O diabete levou à cegueira, e o mestre continuou a tocar o fole e especializou-se no processo de afinação de sanfonas. Sua casa era uma oficina de sons. Finalmente foi reconhecido como Patrimônio Vivo da Cultura pernambucana no ano de 2012. A sua vida é semelhante a de muitos mestres cultivadores das tradições observadas, estudadas e sistematizadas por Roberto Benjamin, que em não poucas ocasiões acompanhou os movimentos ágeis dos dedos de Arlindo que fustigavam os baixos para elevar os espíritos.

E, finalmente, a semana parece terminar com a morte de Ubiraci Ferreira, criador e mantenedor do Balé de Cultura Negra. Conheci Ubiraci nos corredores da Fundação Guararapes e da Secretaria de Educação do Estado, em sua saga de encontrar espaço para as tradições culturais de matriz popular nas salas de aulas das escolas municipais e estaduais. Pareceu-me desde cedo que ele não gostava de ser visto como algo do passado, como uma fotografia que estaria esmaecendo com o passar do tempo. Ele e sua esposa eram/são a vida em movimento. Quase perdido em seus sonhos, sua casa estava cheia das tradições que recebera de seus familiares. Desde a Dança dos Guerreiros, o Pastoril, e tudo o que veio das tradições dos terreiros, foi sendo formado o Balé de Cultura Negra. O Brasil estava vencendo a ditadura, conquistando a liberdade e ocorria a criação do Bacnaré. Os continentes foram sendo conquistados como os jovens que se achegaram ao mestre. Os prêmios foram muitos. Um pouco dessa sega pode ser vista em http://bacnarepe.blogspot.com.br/

A esses mestres agradeço pelos momentos que tive o privilégio de ter estado com eles, de com eles ter aprofundado o meu querer bem pelas coisas minhas, as tradições de meus diversos pais.

Biu Vicente

Outubro das crianças e dos segredos

terça-feira, outubro 22nd, 2013

 

O Mês de outubro já está envelhecido e o comércio já pensa nas vendas de dezembro. O mês das crianças não tem sido brincadeira.

Nos últimos meses temos nos confrontado com a explicitação do desconforto de estarmos todos sob alguma vigilância, sendo espionados sem o simpático adesivo encontrado em algumas portas ou paredes solicitando nosso sorriso para a filmagem simpática daquele que nos espiona para a nossa proteção. O rumoroso caso é notícia mundial mas só tocou a inocente alma brasileira quando a espionagem atingiu a correspondência a presidente da república do Brasil, a qual, tão indignada ficou, que levou o caso à  Organização das Nações Unidas e recusou um convite oficial do governo dos Estados Unidos  para visitar aquele país da “janela indiscreta”. Não há novidade nessa atividade de espionar as pessoas e os estados. Todos sabemos que um dos maiores  heróis do século XX foi o espião de Sua Majestade, James Bond. A França, país de tradicional esclarecimento, um dos pesquisadores e aperfeiçoadores dos métodos de espionagem e tortura nos tempos da Guerra da Argélia, também ficou surpresa e indignada pelos olhares furtivos dos americanos. Todos fazem isso, todos espionam, exceto aqueles que não desenvolveram a tecnologia e nem a podem comprar. Paradoxo: Há um grande desejo de saber o segredo dos outros para torna-los nossos e os nossos não podem ser deles.

Neste domingo 20 de outubro o jornal  Estado de São Paulo tornou público um segredo do atual gerente do Brasil: o governo do Brasil pagou 6,4 milhões para um instituto de pesquisa espionar o que pensam os brasileiros de suas ações e agora se recusa a divulgar os resultados. Não quer que os brasileiros saibam o que eles pensam do governo. a Secretaria de Comunicação do Palácio do Planalto entende que esses dados, obtidos com o dinheiro dos impostos brasileiros, só podem chegar ao público após dezembro.   Claro que nosso governo não está fazendo isso, mas a impressão é que estão usando os dados para a próxima campanha política, e escondendo o que poderia servir para o discurso das oposições. Não, definitivamente é apenas o descumprimento da lei de transparência dos serviços públicos. Afinal, como negar esse pequeno privilégio de não cumprir a lei a um governo que colocou em segredo de estado, até 2027, os empréstimos feitos a Angola e Cuba? Mas, como às vezes penso, hábitos da ditadura civil militar perduraram, algo como a Síndrome de Stocolmo ou, como diria Hanna Arendt, parece que os fasci-nazistas ganharam as mentes tendo perdido a guerra. Torturados imitam seus torturadores enquanto dizem buscar a verdade.

E, mais uma vez as salas de aulas nos Estados Unidos ficaram manchadas de sangue: um professor de matemática foi morto por um de seus alunos da sétima série que, em seguida se matou. Dois  de seus colegas ficaram feridos. A morte desse pré-adolescente deixa mais um segredo, pois talvez jamais nós saibamos o que o fez levar um revólver para a escola. Quase certamente sabemos que o revólver foi comprado por seu pai que talvez não fizesse segredo de sua existência e, quem sabe, ainda alardeava a importância de se estar armado para defender-se contra espiões e inimigos. Os comportamentos  primitivos ainda estão grudados nas rugas de nosso cerebelo, sempre a nos lembrar que todos são inimigos, que não fazemos parte do mesmo grupo.

Ainda preferimos a luta animal que vive à cata de presas para alimentos e diversão. Ainda não compreendemos o segredo da humanidade.